quinta-feira, 30 de agosto de 2018

COMO PERSEVERAR NA VIRTUDE, POR SANTA CATARINA DE SIENA




1.Saudação e objetivo 
Em nome de Jesus Cristo Crucificado e da amável Maria, caríssimo filho no do Jesus Cristo, eu Catarina, serva e escrava do servos de Jesus Cristo, escrevo no seu precioso sangue, desejosa de ver-te perseverante em toda virtude.


2. A perseverança é fruto do amor
Sem a perseverança não alcançarás a coroa da glória, que é dada aos verdadeiros lutadores. Tu me dirás: “Onde posso achar a perseverança”? Responde-te. Uma pessoa só presta serviço a outra na medida do amor que lhe dedica. Não mais. Em tanto falhará em servir, quando falhar no amor. Mas também tanto amará, quando se sentir amada. Veja bem: ao sentir-se amada, a pessoa ama. É desse amor que nasce a perseverança. Portanto, à medida que abrires o olhar da tua inteligência para ver o fogo e o abismo do infinito amor de Deus por ti — amor revelado do Verbo, Filho de Deus — tu te verás obrigado a amar a Deus de todo o coração, com todo afeto, com todas as tuas forças, sem interesses, de modo puro, sem nenhuma procura de interesses pessoais. Compreenderás que Deus te ama para o teu bem, não para utilidade dele. Pois o Senhor é o nosso Deus, é a bondade suprema e eterna, que não pensa em proveito próprio. E amarás também o próximo para a sua utilidade. Construindo assim o alicerce e o amor em sua base, imediatamente começarás a praticar as virtudes. E através da iluminação divina e do amor, adquirirás a perseverança.
3.Não te esqueças da humildade
Ao compreenderes que és amado por Deus, é conveniente que medites sobre os teus pecados e tua ingratidão. Na cela do coração perceberás a gravidade de tua cupa. Valoriza, então, a pequena virtude da humildade, para não confiares nas tuas forças e não caíres na complacência de ti mesmo. Sabes que é importante conhecer os próprios pecados, sua gravidade, para poder conservar e aumentar a graça na alma? Isso se dá na mesma proporção que existe entre o alimento corporal para conservação da vida no corpo. Afasta de ti, pois, a nuvem do egoísmo para que ela não prejudique a iluminação da alma, favorecida pelo perfeito conhecimento e concretizada pelo ódio (ao pecado) e pelo amor (à virtude). Assim,no amor acharás a perseverança, cumprirás a vontade divina e o meu desejo a respeito de ti. Vontade divina e desejo meu, que consiste no ver-te crescer e perseverar até o dia da morte na práticas das verdadeiras virtudes.
4.Refugia-te na caverna do coração de Cristo
MAS CUIDADO DE NÃO CONFIARES EM TI MESMO. ESSA CONFIANÇA É SEMELHANTE A UM VENTO SUTIL DE ORGULHO, NASCIDO DO EGOÍSMO. IMEDIATAMENTE RETROCEDERA, OLHANDO PARA TRÁS (CF. LC 9,62). Da mesma forma como o amor de Deus te faz perseverante na virtude, o egoísmo e a procura de boa reputação te fazem cair no vicio e nele perseverar. Meu filho, foge desse sutil vento da boa reputação. Em tudo, procura esconder-te na chaga do peito do Crucificado. E uma vez aí dentro, fixa o pensamento no segredo coração de Cristo. Então acenderás a chama do teu amor. Entenderás que Jesus fez em seu corpo uma caverna, onde te esconderás dos inimigos, onde repousarás, onde acalmarás tua mente no fogo do amor. Ai acharás alimento, pois Jesus deu sua carne como comida e seu sangue como bebida. Aquela carne assada na chama do amor e aquele sangue servido no altar da Eucaristia. Dissolva-se hoje mesmo a dureza dos nossos corações. Que nossa mente se torne mais receptivas aos ensinamentos de Cristo.
5.Pensemos no Menino Jesus
Quero que tu e os demais filhos comeceis a ser mais semelhantes a este pequeno menino, o Verbo encarnado, que a santa Igreja agora nos apresenta (na liturgia). Para confusão do nosso orgulho, que poderíamos imaginar de mais sublime, que um Deus que se humilha à altura do homem? Ou demais grandioso, que a suprema divindade posta ao nível da humanidade? E por qual motivo? Por amor! O amor fez Jesus residir num estábulo de animais; o amar o cobriu de ultraje, o revestiu de sofrimento; e o fez padecer fome e sede. O amor o fez correr com pronta obediência para terrível morte na cruz. O amor o fez descer à mansão dos mortos para esvaziar o limbo dos patriarcas e dar prêmio àqueles que o haviam esperado e servido por longo tempo. Depois da ascensão, O amor fez Cristo enviar o fogo do Espírito Santo, que nos iluminou com sagrada doutrina, caminho que nos dá a vida, nos liberta das trevas e nos concede a eterna visão de Deus. O amor fez tudo! Envergonha-se quem não tem amor a Deus, quem não dá resposta a tão imenso amor. Que triste sorte é a de quem, podendo ter o fogo, deixa-se morrer de frio; quem, tendo o alimento diante de si, deixa-se morrer de fome! Tomai, tomai vosso alimento, o doce Jesus Crucificado! Por outros caminhos, não sereis constante e perseverante. Como ficou dito, é a perseverança que recebe o prêmio. Sem ela, a alma só terá o mal não a glória.
6.Conclusão
Foi refletindo sobre tudo isso, que afirmei estar desejosa de ver-te contante e perseverante na virtude. Nada mais acrescento. Permanecer no santo amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.




(Santa Catarina de Sena, Cartas Completas)

Mortificação das quatro paixões naturais


Para mortificar as quatro paixões naturais que são: gozo, tristeza, temor e esperança, aproveita o seguinte:
Inclina sempre não ao mais fácil, mas ao mais difícil;
Não ao mais saboroso, mas ao mais insípido;
Não ao mais gostoso, mas ao que não dá gosto;
Não se inclinar ao que é descanso, mas ao mais trabalhoso;
Não ao que é consolo, mas ao que não é consolo;
Não ao mais, mas ao menos;
Não ao mais alto e precioso, mas ao mais baixo e desprezado;
Não ao que é querer algo, mas o que é não querer nada;
Não andar procurando das coisas o melhor, mas o pior; e por Jesus Cristo ter, para com todas as coisas do mundo, desnudez, vazio e pobreza.

São João da Cruz

Das vantagens da luta

Das vantagens da luta

Non coronatur nisi qui legitime certaverit.
Ninguém é coroado, sem que tenha combatido legitimamente.
(II. Tm 2, 5)

Enumeramos as diversas qualidades que deve ter o verdadeiro soldado de Deus. Dispondo desses meios, pode entrar em guerra, certo de que a luta durará enquanto lhe durar a vida. 

Terá, com efeito, toda a vida uma natureza rebelde, tendências más, que deverá sempre reprimir, sem nunca poder diminuí-las. A concupiscência resulta do pecado original. Como os outros males que provêm de igual origem, a ignorância, a sujeição às enfermidades e à morte, essa concupiscência se fará sentir toda a vida para nos fazer compreender o mal que é o pecado, e levar-nos a expiar nossas faltas individuais.
Mas essa luta não é somente um castigo e um meio de expiação. Deus pune como Pai, e as penas que impõe são também benefícios, pois impedem males mais funestos e produzem vantagens inestimáveis. A luta nos acautela contra a indolência, contra o entorpecimento espiritual, apto a degenerar em um sono mortal, enquanto é uma ocasião de merecer, um meio de aumentar a felicidade eterna.

Ai, por conseguinte, das almas covardes que recusam o combate! Relembramos há pouco os hebreus querendo entrar na terra de Canaã, que o Senhor lhes prometera, e para onde enviaram exploradores que se certificassem de sua fertilidade. De lá trouxeram frutos magníficos. Foi com razão, disseram, que a denominaram uma terra em que corre leite e mel. Mas essa terra era habitada por povos valorosos, defendida por cidades fortes. A conquista desse país, tão belo e tão rico, exigiria uma longa e terrível guerra. Já dissemos que, cedendo ao medo, a maior parte dos exploradores exageraram as dificuldades e quiseram afastar o povo de Israel da dita empresa.

O povo, infelizmente, os atendeu; murmurando contra Deus, quis fugir da luta e voltar para o Egito. O Senhor irritou-Se; prometera a vitória, e duvidavam agora da Sua promessa; desejava que a obtivessem pela luta, e recuavam covardemente diante da necessidade de combater. Era tornar-se indigno da felicidade prometida. 

O castigo infligido pelo Senhor foi exemplar, pois devia servir de lição a todas as gerações vindouras.

Escutemos essa linguagem severa: "Vossos cadáveres ficarão estendidos neste deserto. Vós todos que fostes recenseados de vinte e mais anos, e que murmurastes contra Mim não entrareis na terra em que eu havia jurado introduzir-vos exceto Caleb, filho de Jefné, e Josué, filho de Nun. Vossos filhos viverão errantes na solidão durante quarenta anos; carregarão a pena de vossa apostasia até que os corpos de seus pais sejam consumidos no deserto. Explorastes a terra durante quarenta dias: um ano pagará por um dia, e durante quarenta anos carregareis o castigo de vossas iniqüidades e conhecereis Minha vingança" (Nm. 14, 29-34). 

Desagradam, portanto, ao Senhor os homens pusilânimes. As almas fortes e ardentes na luta, ao contrário, agradam-Lhe e encantam-nO. Foi por isso que o Senhor, mesmo depois da conquista da terra prometida, deixou subsistir entre os israelitas alguns vestígios da raça de Canaã; quis que os filhos dos conquistadores aprendessem a guerrear o inimigo como seus pais e que seu povo não perdesse o hábito do combate, pois, é tão temível uma vida indolente e mole quanto é vantajoso à alma ter inimigos a repelir e a vencer. 

São principalmente as almas que o Senhor chamou a uma virtude mais alta, às quais concedeu graças mais numerosas, que devem travar combates mais rudes. Iludem-se, pois, completamente, esses piedosos fiéis que não compreendem que a vida de uma alma toda dedicada ao serviço de Deus seja cheia de lutas.

Desejariam, por certo, servir fielmente a Deus, amá-lO de todo o coração, mas sem que isso lhes custasse muito à indolente natureza. "Serei religioso, piedoso, fiel ao meu dever, sustentarei alguns combates, mas terei, espero, muitos intervalos de repouso; em minhas lutas serei auxiliado, animado e, em caso de necessidade, carregado. Os impulsos de meu coração, afetivo por natureza, me tornarão generoso; as doçuras da oração, as alegrias da comunhão, os conselhos paternais de meu guia me consolarão dos sofrimentos, e atravessarei a vida protegido, apoiado, até o dia do triunfo final." 

Ilusão! Às almas a quem Deus reserva uma magna recompensa, não é tão fácil o triunfo final. A felicidade eterna será um bem laboriosamente conquistado; e isto constitui a glória dos eleitos e lhes aumenta a alegria.

É evidente que os trabalhos serão mais penosos na terra, para aqueles a quem está reservada uma eternidade mais feliz; terão períodos consecutivos, por vezes muito longos, de lutas contínuas, de tentações horríveis, de aridez, de incapacidade; faltar-lhes-á então todo apoio exterior, e só Deus permanecerá oculto no fundo da alma, sem deixar sentir Sua presença. É preciso contar com essa luta terrível, perceber-lhe de antemão os horrores, e aceitá-los corajosamente. Depois, chegada a provação, quando as consolações cessarem e os sentimentos parecerem sufocados, será preciso apoiar-se unicamente na fé, na esperança e na caridade; na fé - acreditando, apesar de tudo, no poder, na sabedoria, no amor de Deus; na esperança abandonando-se-lhe entre as mãos com plena confiança em Sua bondade infinita; na caridade multiplicando atos de absoluta conformidade à vontade divina, e consolando-se com o pensamento de que, graças a essas provações, no céu, grandezas divinas serão mais conhecidas, e Deus amado com maior perfeição. 

Imensos são, com efeito, os resultados dessas lutas para os corações valorosos! Cada vitória é uma conquista; triunfando de um defeito, adquirem maior domínio sobre si mesmos e, quanto mais fortes forem mais capazes serão de fazer o bem.              

Roma começou modestamente; no tempo dos reis era uma simples aldeia. Mas as lutas travadas de início contra seus vizinhos imediatos, e terminando sempre por conquistas, ampliaram-lhe o poder. Tornara-se, pouco a pouco, senhora de toda a Itália até que as guerras contra Cartago, felizmente terminadas, estenderam-lhe o domínio até a Espanha e a África. Novas lutas permitiram-lhe abranger em suas fronteiras a Gália, grande parte da Europa, da África setentrional e da Ásia ocidental e cada nova guerra, dilatando as suas fronteiras, aumentava o seu poder e a tornava cada vez mais temível a seus inimigos. 

Deu-se o mesmo com todas as grandes nações; foi só devido a numerosos combates, a árduas vitórias, que conseguiram estender seu domínio, intensificar suas forças e tornar-se aptas a exercer grande influência, e encetar e terminar de modo satisfatório importantes empreendimentos. Outros povos, ao contrário, mais amigos da paz, ou menos favorecidos pelas circunstâncias, permaneceram dentro de limites mais modestos; contentando-se em representar no teatro da história um papel apagado; assim o grão-ducado de Luxemburgo, e, mormente o principado de Mônaco ou a república de São Marinho em nada podem modificar a marcha dos negócios humanos. 

Os negociantes não têm todos um mesmo espírito de iniciativa nem dedicam ao comércio uma mesma atividade; nem dispõem tampouco dos mesmos meios de divulgar seus negócios. Alguns, amigos de uma vida tranqüila, continuam a gerir simplesmente o estabelecimento legado pelos antepassados, sem se esforçarem por alargar o círculo de sua freguesia; os lucros, que lhes bastam à manutenção da vida, não lhes permitem arriscar-se em novas empresas. Outros, mais trabalhadores e mais ambiciosos, são também mais esforçados e sujeitam-se a grandes fadigas; cada negócio, corajosamente empreendido e continuado, em que despendem habilidade e dedicação, multiplica-lhes os capitais e os habilita a realizar outros e maiores empreendimentos, a obter lucros mais consideráveis. 

Aqueles que estão preparados para a luta mostram uma constância muito maior quando é chegado o momento do combate; aqueles que contavam com as consolações da piedade e não esperavam esse estado de desolação, estão muito mais expostos a perder a coragem. Quantos, então, não caem no relaxamento! Irritam-se contra as dificuldades, agastam-se contra si mesmos e contra a própria fraqueza, deixam de lutar e caem num estado deplorável; ou então, o que acontece as mais das vezes lutam com indolência e não lucram nesses combates as imensas vantagens das almas generosas.  

Dá-se o mesmo na vida espiritual: as almas fracas, pouco generosas ou pouco tentadas, levam uma vida relativamente calma; as lutas que sustentam são poucos temíveis e como não patenteiam nem grande coragem nem grande energia, tais lutas, deixando-as mais ou menos no mesmo nível de virtude, não as tornam capazes de aumentar seus tesouros espirituais. Muitas almas permanecem toda a vida num estado apenas acima do estado inicial. Não é que seus méritos não se acrescentem uns aos outros, e que não se enriqueçam um pouco pela repetição de certos atos virtuosos; mas, se seus ganhos se adicionam, não progridem; essas almas ganham hoje o que já ganhavam há dez, vinte, trinta anos, atrás. Assemelham-se aos operários indolentes, cujo dia de trabalho, após um longo tirocínio, não produz mais do que produzia durante o aprendizado. Nesses cristãos, que combateram frouxamente, existem sempre muitas lacunas; suas virtudes não se desenvolveram; há, em sua conduta, uma quantidade de imperfeições contra as quais deixaram de lutar, e que já não percebem; suas disposições de renúncia, de humildade e de amor permanecem medíocres e as obras, aparentemente as mais brilhantes, realizadas nessas disposições, não podem ter, aos olhos de Deus, senão um valor medíocre. 

Inteiramente outros são os resultados obtidos pelos corações generosos que, caminhando de conquista em conquista, passados alguns anos dobraram, quadruplicaram decuplicaram, centuplicaram, talvez, suas forças. 

Todas as virtudes se lhes tornaram familiares e, por conseguinte praticaram-lhe atos com mais freqüência e mais perfeição do que na juventude, já fervorosa. Não se contentaram em afastar molemente o inimigo e conservar as posições conquistadas; atacaram-no com ardor, com perseverança, dizendo como Davi: Persequar inimicos: meos et comprehendam eos, nec dimittam donec deficiant . "Perseguirei meus inimigos, esperá-los-ei, não os abandonarei sem que os tenha vencido" (S. 17, 38). 

Tratar-se-á de dissipação? Cuidaram tanto em velar sobre os sentidos, em reprimir os desvios da imaginação, em fugir às divagações, em suprimir os pensamentos inúteis, que se tornaram, após anos de luta, senhores de seu interior; governam, quase à vontade, as potências da alma. Desde então, não perdem mais a presença de Deus e permanecem intimamente unidos a Ele por atos de amor, espontâneos e muito freqüentes. 

Se outrora sofreram vivamente as revoltas do amor próprio, julgaram não fazer bastante confessando-as, e aspiraram à humildade perfeita. Para obtê-la de Deus, deram prova de boa vontade, multiplicaram os atos de humildade, mesmo os que mais lhes custavam. Confessaram à si mesmos a própria fraqueza; não se envergonharam de dá-las a conhecer; foram voluntariamente ao encontro das humilhações e agradeceram ao Senhor aquelas que lhes couberam espontaneamente. Chega então o momento em que as humilhações nada mais custam e a humildade se exerce como que naturalmente e sem restrições.

Se combateram, com igual ardor e constância, a vivacidade do caráter, a sensualidade, o amor às comodidades, e praticaram corajosamente as virtudes contrária à estas acabarão por lhes serem fáceis e chegarão a praticá-las, não pela metade, como os principiantes, ou só com o auxílio de graças sensíveis e sob o impulso de uma imaginação entusiasta, mas com uma decisão amadurecida, tranqüila e firme, em que a vontade opera com força muito maior e, portanto, com mérito muito superior. 

Os hábitos adquiridos pela prática de repetidos atos, sem suprimir de todo a luta, facilitam a virtude; deixam-lhe o mérito intato, pois tais hábitos, frutos de longos esforços, são voluntários e quem os possui, feliz de tê-las adquirido, aceita-lhes todas as conseqüências. Sua vontade, apegada mais que nunca ao bem que procurou durante longo tempo, não carece mais de reações enérgicas para decidir-se a praticar tal ato de virtude, embora Suas decisões sejam mais absolutas e mais intensas.  

Mas a graça opera com maior liberdade, sobretudo no coração do cristão plenamente senhor de si. Outrora, a vitória custava-lhe caro; era mister, para obtê-la, empregar violentos esforços, que causavam vivas emoções. Esses abalos sensíveis, que alguns julgam necessários à aquisição de grandes méritos, não são, ao contrário, senão uma deplorável conseqüência da impureza e um obstáculo à perfeição de nossos atos.

Quando as paixões estão ainda muito vivas, dá-se um choque entre elas e a graça impulsora para o bem; então esta será, senão afastada, ao menos retardada e prejudicada em sua obra salutar. Quando a graça triunfa e a paixão é vencida, a alma fica satisfeita, ufana-se mesmo de se ter constrangido; de ter sofrido muito para cumprir seu dever; é inclinada a comprazer-se em si mesma e a medir seus méritos pela violência que se fez. É erro, pois, muitas vezes, nessas lutas violentas dos primeiros tempos, a natureza mesclar sua ação à da graça. Para repelir o mal, cumprir um dever difícil, ou fazer um sacrifício penoso, a alma recorre não somente aos motivos sobrenaturais, que não exercem ainda bastante influência sobre ela, mas a razões humanas, pelo menos a razões pouco elevadas, como a vergonha de si mesmo e de suas misérias, a procura da estima de outrem ou o amor de sua própria perfeição. É tão agradável à natureza poder dar-se um bom atestado! 

Sob a influência desses motivos, a natureza se torna inflexível para consigo mesma e a vitória não é devida ao puro domínio da graça. 

À medida que a alma progride, as revoltas da natureza, embora nunca desapareçam de todo, tornam-se menos violentas, e a graça, menos embaraçada, opera com maior poder. A vitória custa muito menos e, entretanto os atos de virtude são mais puros, mais eficazes; as faculdades sensíveis agitam-se pouco a pouco, a imaginação permanece mais, calma, o apetite irascível mantém-se em repouso, o espírito não raciocina tanto. Então Deus opera com maior liberdade. 

É Deus, pois, quem opera na alma e esta age nEle, por Ele, para Ele, dando aos seus mínimos atos um valor superior: uma breve oração, um ato simples de uma alma santa mais valem aos olhos de Deus que os esforços violentos de um principiante. A santíssima Virgem não sentia lutas e, entretanto quão perfeitas, quão meritórias, quão maravilhosamente sobrenaturais eram as Suas menores ações! Nós precisamos lutar, mas, a força de vencer, aproximamo-nos dessa tranqüilidade, desse domínio sobre nós mesmos, dessa força de ação que imprime aos atos humanos seu pleno valor. Sem dúvida, os atos virtuosos praticados pelos principiantes já merecem, e seu eterno tesouro vai crescendo, mas são moedas baixas que lhes acrescentam cada dia; mais tarde, depois de longas lutas, valentemente sustentadas, não serão mais moedas de prata, porém peças de ouro e notas de banco que acumularão. 

Oh! como serão ricas as almas generosas no dia da prestação de contas, quando for dado, e para sempre, a cada um, segundo suas obras. 

(O Caminho que leva a Deus pelo Cônego Augusto Saudreau, 2ª edição, 1944)

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domingo, 26 de agosto de 2018

“Estação da Alma”: os franciscanos que moram num incrível trem-convento

franciscanos trem

“O trem representa o caminho itinerante, mas também a simplicidade e a precariedade”

Quando pensamos em um convento, imaginamos uma construção formada por claustro, pátios, capela e outros espaços. Este não é o caso de um grupo de frades franciscanos no Sul da Itália, que adaptou vagões de trem para o uso religioso.
O convento dos Frades Menores Renovados, conhecido como “A estação da alma”, está localizado no bairro de Scampia, uma das regiões mais perigosas e pobres da cidade de Nápoles, Itália.
No local, há cinco vagões que são utilizados como claustro, capela e espaços comuns. Também há um jardim, um contêiner, que foi adaptado para receber as visitas e uma oficina.
O superior do convento, Frei Carlo, disse ao jornal “Corriere del Mezzogiorno” que estes vagões “foram doados pela Ferroviária Estatal, que os colocou com gruas no terreno, que foi doado por um morador local.
“Nós não escolhemos viver nos vagões, não foi algo programado. Quando chegamos aqui, esperávamos contêineres e enquanto aguardávamos, adaptamos estes vagões abandonados, que datam da década de 40. Era uma situação provisória, mas que se converteu em nosso estilo de vida”, disse à rede de televisão italiana Rai1 outro grupo de frades.
Segundo Frei Carlo, os oito religiosos da comunidade não tem recursos próprios. “Não temos dinheiro, sobrevivemos graças a generosidade dos napolitanos que nos trazem comida e dividimos o que nos resta com os necessitados”.
“O trem representa o caminho itinerante, mas também a simplicidade e a precariedade”, afirmou o superior ao portal“Famiglia Cristiana”.
“Com estes valores buscamos recuperar a espiritualidade e os ensinamentos de São Francisco. Também como viajamos constantemente, porque nada é nosso, não podemos fixar raízes em nada”, acrescentou.
Como parte de seu apostolado, os Frades Menores Renovados colaboram com uma paróquia local, onde celebram missas, visitam hospitais, presídios e casas.
“Aqui sempre nos visitam, vem e pegam o que serve para elas. Também alguns de nossos frades caminham pelo bairro e conhecem a realidade das pessoas da região. Nós tratamos de dar consolo e falar com eles. Especialmente buscamos escutá-los e fazer com que eles vejam a vida com olhos mais cristãos”, expressou o superior da comunidade.
Frei Carlo disse ao “Corriere del Mezzogiorno” que no bairro de Scampia “a degradação e o envolvimento com o crime é muito intenso. No entanto, muitos fiéis estão dispostos a sair desta realidade e nos buscam para ter consolo. Alguns gostariam de sair do ‘sistema’, mas poucos conseguem, porque já estão muito envolvidos”.
A Ordem dos Frades Menores Renovados está presente em outras partes da Itália e em países como Colômbia e Tanzânia. Eles não estão ligados à Ordem dos Frades Menores.
Fonte: ACIPrensa, via Franciscanos.org.br

Cristo: ver com olhar claro

Clarificar o olhar do coração
Cristo não se esgota com um ou com cem olhares superficiais.
Detenhamo-nos agora a pensar um pouco mais na aventura de quem adentra constantemente no mar de luz que é Cristo.
Com o olhar interior purificado pela humildade e a penitência, Jesus faz brilhar a sua luz em nossos corações (2 Cor 3, 18), e nos leva ao encantamento de descobrir facetas sempre novas do esplendor de Deus, que se reflete na face de Cristo (2 Cor 4,6). É uma experiência feliz que são Paulo viveu.
É claro que, para facilitar isso, além do hábito de meditar a Sagrada Escritura, precisamos:
─ adquirir o hábito da leitura espiritual cristã, se possível diária (quem quer mesmo, acha tempo para isso), pedindo a orientação oportuna para escolher as obras formativas mais úteis para nós em cada situação da vida ─ há muitas leituras e muito boas ─; sempre podemos ler algum livro que nos ajude.
─ aprofundar também nas raízes doutrinais da fé com o estudo frequente do Catecismo da Igreja Católica, bem como dos principais documentos do Magistério da Igreja e de bons textos de doutrina segura sobre questões de atualidade[1]Em suma, precisamos melhorar muito a nossa cultura católica.
Sabe qual é o sinal mais claro de que o coração se vai clarificando? A alegria das «descobertas»: o entusiasmo de descobrirmos, dentro do tesouro da verdade cristã, riquezas nunca dantes imaginadas, respostas luminosas, ideias cativantes, verdades ainda não compreendidas.
É, como dizem alguns, a alegria de descobrir «novos Mediterrâneos».
Essa expressão é comum entre países da Europa, para os quais o mar Mediterrâneo, o mare nostrum dos romanos, é milenarmente conhecido, navegado e desfrutado.
Descobrir um «novo Mediterrâneo» significa, por isso, encontrar inesperadamente ─ pelo sopro do Espírito Santo  ─ um significado inédito, fantástico, em algo que já conhecíamos talvez de cor, que até comentávamos e ensinávamos: um novo Mediterrâneo no velho mar Mediterrâneo.
É o Espírito Santo quem leva as almas fiéis a desfrutarem dessas descobertas. Assim aconteceu muitas vezes, por exemplo, com são Josemaria, que recebia a graça e tirar água fresca espiritual de poços que pareciam já exauridos [2].
Do livro de F. Faus Procurar, encontrar e amar a Cristo, Cultor de Livros 2018
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[1] Cada vez mais, graças a Deus, podem ser encontrados cursos, áudios e leituras católicas muito valiosas na Internet
[2] Ver, no site opusdei.org, o livro eletrônico Novos Mediterrâneos

Mais sobre amor ao próximo

Levai uns as cargas dos outros, e deste modo cumprireis a lei de Cristo (Gal 6, 2).
Para “levar as cargas”, pensemos em primeiro lugar – evocando o exemplo do samaritano que carregou o ferido – que os outros deveriam ter mais espaço e mais “peso” nos nossos pensamentos. Na verdade, se o amor de Cristo habitasse no nosso coração, certamente nos preocuparíamos mais com os problemas do próximo. É sugestiva essa palavra “pre-ocupação” – no sentido em que agora a empregamos –, pois indica um modo de pensar antes com interesse, preparando assim uma dedicação, uma “ocupação” em serviço dos outros.
Como seria bom que o pai e a mãe de família, ao transporem o limiar da casa, deixassem fora as “preocupações” no sentido negativo da palavra, isto é, as apreensões, angústias, questões de solução difícil, prazos que vão vencer em breve…, e entrassem no lar com uma preocupação boa: com alguma iniciativa pensada, preparada antes com carinho para alegrar alguém, para causar uma agradável surpresa, para reavivar um diálogo um tanto descuidado, para enfrentar algum problema deixado de lado por comodismo, ou para dar um conselho que não pode esperar mais!
Em matéria de ajudas e serviços, não há dúvida de que a primeira preocupação que deveríamos ter para com os que amamos é a oração. Lembremo-nos de quanto não rezou e chorou Santa Mônica, “preocupada” durante longos anos com os extravios de seu filho Agostinho; de dia e de noite suplicava a Deus a sua conversão. O próprio Santo Agostinho conta no livro das Confissões que, certo dia, falando sua mãe, aflita, com o bispo Santo Ambrósio, este tranqüilizou-a dizendo-lhe umas palavras que encheram a sua alma de consolo: “Vai em paz, mulher, e fica tranqüila, pois é impossível que se perca um filho de tantas lágrimas” 15. Em outro dos seus escritos, Agostinho anotará um dia, cheio de gratidão: “Se eu não pereci no erro, foi devido às lágrimas cotidianas cheias de fé de minha mãe” 16.
Tratemos, portanto, de que os outros tenham mais “peso” no mundo dos nossos pensamentos. Depois, haveremos de conseguir que “pesem mais” também no mundo das nossas palavras.
Podemos dizer, por acaso, que as nossas palavras, concretamente as que dirigimos a toda a hora aos que conosco convivem ou trabalham, são palavras construtivas, veículos de amor serviçal, gotas de orvalho reconfortante na secura dos corações, ativadores das fibras de bondade que se escondem em todo o coração humano?

Do livro de F.F. Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens, Quadrante 1993.

VOLTAR AO PAI


Resultado de imagem para voltar ao pai

“Uma coisa é importante acima de tudo mais: ‘voltar ao Pai’. O Filho veio ao mundo e morreu por nós, ressuscitou e subiu para o Pai. Enviou-nos o Espírito Santo para que Nele e com Ele pudéssemos voltar ao Pai.


Sim, para que pudéssemos passar completamente para além da névoa de tudo que é transitório e inconclusivo: Voltar ao Imenso, ao Primordial à Fonte, ao Inconhecido, àquele que ama e conhece, ao Silencioso, ao Misericordioso, ao Santo, Àquele que é tudo.


Procurar algo, preocupar-se com algo fora disso, é loucura e enfermidade. Pois isso é o sentido pleno e o cerne de toda existência. E é nisso que todos os negócios de nossa vida e todas as necessidades do mundo e dos homens tomam seu sentido certo. Tudo aponta para essa única grande volta à Fonte.”


Reflexões de um espectador culpado
(Vozes, 1970) pág. 198



A virtude da temperança