terça-feira, 18 de agosto de 2015

A ALEGRIA E AS LÁGRIMAS

5-A ALEGRIA E AS LÁGRIMAS
A alegria do perdão
Feliz aquele cuja culpa foi cancelada e cujo pecado foi perdoado… (Sl 32, 1).
O filho pródigo, quando voltou à casa do pai, após anos de devassidão e desvarios, experimentou a verdade destas palavras do Salmo 32. Você seguramente se lembra de sua história, uma das mais belas parábolas de Cristo (Lc  15, 11-32).
O filho mais novo pede ao pai a herança adiantada, foge para longe, abusa de todos os prazeres, esbanja os bens recebidos e fica na mais abjeta miséria. Então, caindo em si, lembra-se da casa do pai, onde até os empregados têm pão com fartura. Diz então para si: Vou voltar para meu pai e dizer-lhe: “Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados”.
Envergonhado, apenas com um fio de esperança volta à casa do Pai. E quando chega perto, um choque indescritível lhe abala o coração: Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e, tomado de compaixão, correu-lhe ao encontro, abraçou-o e o cobriu de beijos. Não lhe deixa sequer pronunciar as palavras de arrependimento que havia preparado. Nem uma palavra de recriminação. Só alegria e festa: Trazei depressa – diz o pai, com o alento cortado pela emoção – a melhor túnica para vestir meu filho; colocai-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; trazei um novilho gordo e matai-o, para comermos e festejarmos; pois este meu filho estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado.
Muitos comentaristas do Evangelho, entre eles Bento XVI, dizem que esta parábola, em vez de se chamar “a parábola do filho pródigo”, deveria chamar-se “a parábola do pai misericordioso”. Toda ela, deliciosa em seus detalhes, é a voz de Cristo falando-nos da alegria do perdão.
Alegria de quem?
Não custa muito pensar que, uma vez refeito da surpresa, o filho pródigo tenha começado a chorar lágrimas vivas de sincero arrependimento e de gratidão. Soluços misturados com risos. Acabava de descobrir o que antes nunca vira: a imensidão do amor do Pai.
O pródigo ficou alegre, mas a sua alegria não foi a principal. Deixa-nos pasmados perceber que Jesus ensina que, quando um pecador se arrepende, quem fica mais alegre é o próprio Deus. Mencionamos há pouco a alegria festiva do pai, que simboliza Deus. Antes desta parábola do pródigo, Cristo narrou outras duas parábolas, a da ovelha e a da moeda perdidas, também sobre o perdão de Deus, e as conclui assim: Eu vos digo: haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte, que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento. Haverá alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte  (Lc 15, 7 e 10).
Uma das melhores meditações sobre o filho pródigo é a de Henri J. M. Nouwen, no precioso livro A volta do filho pródigo (Paulinas, 1997). «Pode parecer estranho – comenta o autor –, mas Deus deseja tanto me encontrar, ou mais, do que eu a Ele. Sim, Deus precisa de mim tanto quanto eu preciso dele… Não seria bom acrescer a alegria de Deus, deixando que Ele me encontre, me carregue para casa e celebre com os anjos a minha volta? Não seria maravilhoso fazer Deus sorrir por lhe dar a chance de me encontrar e me amar perdidamente?» (p. 116).
Leia, por favor, o capítulo 15 do Evangelho de São Lucas. Devagarzinho, meditando  frase por frase. Vai descobrir, com a ajuda do Espírito Santo, que existe uma alegria enorme à sua espera, se você se decide a ser humilde, sincero, para reconhecer como o pródigo: Pai pequei!  E a pedir-lhe perdão sem amargura nem humilhação, dispondo a sua alma para receber uma alegria que possivelmente nunca experimentou:  a alegria de Deus, seu Pai, que quer partilhar com você sua felicidade; a que Jesus chamava minha alegria, que ninguém vos poderá tirar (Jo 15,11 e 16,22).
Se quer o testemunho de um sacerdote que já atingiu seis décadas após a sua ordenação e atendeu em confissão milhares de pessoas, creia que esse padre viu poucas alegrias tão grandes como as das pessoas que, depois de muitos anos afastadas – numa terra longínqua, como diz a parábola do filho pródigo –, se levantaram após uma confissão bem preparada, contrita e bem feita, palpitando de gozo, com lágrimas de alegria incontíveis. E pensar que alguns acham a confissão desnecessária ou absurda!
Um novilho gordo e um cabrito
Na parábola do filho pródigo, há uma sombra. A reação do irmão mais velho, que ferve de inveja do irmão e de indignação com o pai. Emburrado, nega-se a participar da festa que o pai preparou. E quando este o anima carinhosamente a entrar, explode: Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Mas quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com as prostitutas, matas para ele o novilho gordo!
Esse irmão está triste. Pior do que isso, amargurado. Creio que tem razão aquele que dizia que a nossa tristeza se pode medir pelo número das nossas reclamações.
Veja como reclama. Apresenta a sua folha de serviços – há tantos anos que trabalho para ti  –, e cospe o fel do ressentimento por um fato sem transcendência: queria fazer uma festa com amigos, e o pai não gostou de que matasse um cabrito para isso. Que importância tem um churrasco frustrado ao lado de um irmão perdido?
É bem antipática a figura do irmão incapaz de se alegrar com o resgate do caçula. O que ele demonstra? Que trabalhava, sim, que cumpria os deveres, que seguia o figurino, que obedecia. Mas tudo isso, para ele, era uma carga mal suportada, que o oprimia . Via seus dias com o ar resignado de quem suporta um peso, uma obrigação a que não pode fugir. Não fazia as coisas com amor. Por isso, não podia estar alegre.
Não é verdade que há muitos que se parecem com ele? São boa gente, cumpridores, corretos, tanto no lar como no trabalho. Mas são tristonhos e desagradáveis. Não é grato trabalhar nem conviver com eles. Fazem-me pensar naquele bispo que quando lhe falavam de um padre e lhe diziam que era muito bom, perguntava: “Bom, para quê?” Esses são “corretos”, mas não são bons para o mais importante: o primeiro mandamento, o mandamento do Amor.
Um homem ou uma mulher que “cumprem”, que se julgam irrepreensíveis, mas que fazem tudo sem carinho, reclamando, remoendo invejas, são como uma granada de gás lacrimogêneo para os que vivem perto deles, e fazem pensar no retrato do tíbio, que Jesus faz no Apocalipse: Conheço a tua conduta. Não és frio, nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, porque és morno, nem frio nem quente, estou para vomitar-te da minha boca (Ap 3, 15-16).
É duro pensar que a atitude do medíocre egoísta enoja Deus. Mas é tocante, ao mesmo tempo, comprovar a bondade de Cristo, que logo após sacudi-lo e abrir-lhe os olhos para seu erro, anima-o a comprar um colírio para curar teus olhos, a fim de que vejas, e, como o pai do pródigo, se adianta a perdoar:  Eis que estou à porta de teu coração e bato… (cf. Ap 3, 17-20).
Assim como Cristo é o pai da parábola. Após a diatribe do filho, diz-lhe carinhosamente:Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado.
Se você for capaz de compreender a beleza do arrependimento e o amor do nosso Pai Deus, também encontrará a alegria.
http://www.padrefaus.org/archives/2191

A ALEGRIA E O SOFRIMENTO

Paradoxos da alegria
São Josemaria Escrivá costumava dizer que «a alegria tem as raízes em forma de cruz» (Forja, n. 28); e na primeira página do seu calendário litúrgico, anotava muitas vezes, como lema do ano, estas palavras: In laetitia, nulla dies sine cruce («com alegria, nenhum dia sem cruz»).
Parece um paradoxo difícil de entender, pois a cruz está associada aos dois “esses” que quase todos veem como os grandes inimigos da alegria: o sofrimento e o sacrifício.
Também são paradoxais as declarações de amor à Cruz, que a Igreja faz na liturgia da Semana Santa: «Salve, ó Cruz, única esperança! — Ave, crux, spes unica» (hino das Vésperas da Semana Santa). E na Sexta-feira da Paixão canta: «Adoramos, Senhor, vosso madeiro… Por essa cruz, que hoje veneramos, veio a alegria para o mundo inteiro».
A Igreja contempla como olhos extasiados o amor inefável de Jesus, que dá a vida por nós – por você e por mim –, no máximo ato de amor que a história conhece; por isso, a Cruz foi, e será sempre, a suprema fonte de irradiação da alegria.
Veja o que nos dizem os Apóstolos:
• São João: Nisto sabemos o que é o amor: Jesus deu a vida por nós… (1 Jo 3, 16)
• São Paulo: Estou crucificado com Cristo…, e a vida que agora vivo na carne, eu a vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim (Gl 2, 19-20).
Jesus na Cruz, com as mãos estendidas, é o “abraço amoroso de Deus”, que envolve, protege, salva e move o coração a amar com todas as forças: «Saber que me amas tanto, meu Deus, e não enlouqueci?!» (Caminho, n. 425).
O sofrimento cristão
Há dois olhos capazes de ver isso, e de abrir as portas do coração: o olho da fé (que enxerga Cristo), e o olho do amor (que a fé faz acordar).
Penso que nos faria muito bem conhecer e meditar mais na alegria que vivem os cristãos que têm esse duplo olhar. Diante do sofrimento, não os vemos revoltados, raivosos, desanimados; nem apenas estoicos e resignados. Nós os vemos serenos e alegres: sofrem com paz, sem dramatismo; não se fecham, mas aumentam a sua compreensão e ternura para com os outros; e crescem muito por dentro.
Em 26 de março de 1996, um comando terrorista islâmico invadiu o mosteiro trapista de Nossa Senhora do Atlas, na Argélia, e levou presos o abade e mais seis monges. Em 21 de maio foram decapitados.
Poucos anos antes, o abade, padre Christian de Chergé, havia escrito um testamento espiritual, de que reproduzo agora uns trechos: «Se algum dia me acontecer ser vítima do terrorismo, eu quereria que a minha comunidade, a minha Igreja, a minha família, se lembrassem de que a minha vida estava entregue a Deus e a este país. Peço-lhes que rezem por mim.
»Como posso ser digno dessa oferenda? Eu desejaria, ao chegar esse momento da morte, ter um instante de lucidez tal, que me permitisse pedir o perdão de Deus e o dos meus irmãos os homens, e perdoar eu, ao mesmo tempo, de todo o coração, aos que me tiverem ferido.
»Se Deus o permitir, espero poder mergulhar o meu olhar no olhar do Pai, e contemplar assim, juntamente com Ele, os seus filhos do Islã tal como Ele os vê; que os possa ver iluminados pela glória de Cristo, fruto da sua Paixão, inundados pelo dom do Espírito… Por essa minha vida perdida, totalmente minha e totalmente deles, dou graças a Deus”[1].
Sofrer e amar
Quando têm fé, os cristãos sabem que são amados , filhos de Deus muito amados (Ef 5,1). Com os olhos postos em Cristo na Cruz, que se dá inteiramente a nós, entendem que Deus não é um Deus longínquo, que contempla fria ou indiferentemente as dores dos homens. Não, o nosso Deus é Cristo, é Jesus que compartilhou conosco todas as nossas dores, que quis conhecê-las todas, quis prová-las todas. Basta-me, para ter alegria, a certeza de que Ele sabe, Ele me entende, Ele me ama, Ele me acompanha com carinho. No sofrimento, Ele está mais do que nunca perto de mim. No sofrimento, eu posso estar mais do que nunca unido a Ele.
Em setembro de 2002, faleceu em Roma o cardeal vietnamita François Xavier Nguyên Van Thuân. Preso durante treze anos pelos comunistas, despojado de tudo, reduzido humanamente à miséria, dizia a si mesmo: «François, tu és ainda muito rico. Tens o amor de Cristo no teu coração»[2].
Em 2007, na encíclica sobre a esperança, Bento XVI falava dele: «Sobre os seus treze anos de prisão, nove dos quais em isolamento, o inesquecível cardeal Nguyên Van Thuân deixou-nos um livro precioso: O caminho da esperança. Durante treze anos de prisão, numa situação de desespero aparentemente total, a escuta de Deus, o poder falar-lhe, tornou-se para ele uma força crescente de esperança que, depois da sua libertação, lhe permitiu ser para os homens de todo o mundo uma testemunha da esperança, daquela grande esperança que não declina, mesmo nas noites de solidão» (Enc. Spe salvi, n. 32).
O sofrimento que purifica
O Amor de Deus, o Espírito Santo, foi simbolizado em Pentecostes pelo fogo que ilumina, acende e purifica. Por isso, os discípulos de Jesus, enlevados pelo mistério da Cruz, podiam dizer, como São Pedro, que os sofrimentos são a prova a que é submetida a vossa fé, muito mais preciosa que o ouro perecível, o qual se prova pelo fogo (1 Pd 1, 7). A fé é purificada pela dor, como o ouro que sai purificado do cadinho.
Veja também a alegria de São Tiago: Meus irmãos, considerai como suprema alegria as provações de toda ordem que vos assediam; e explica a seguir que dessas provações o cristão sai amadurecido, aperfeiçoado (cf. Tg 1, 2-4).
Três meses antes de falecer, São Josemaria fazia oração diante do sacrário, lançando um olhar retrospectivo à sua vida, e dizia: «Um olhar para trás… Um panorama imenso: tantas dores, tantas alegrias. E agora, tudo alegrias, tudo alegrias. Porque temos a experiência de que a dor é o martelar do Artista, que quer fazer de cada um, dessa massa informe que nós somos, um crucifixo, o outro Cristo que temos de ser»[3].
O sofrimento que alarga o coração
Voltemos ao cardeal Van Thuân, uma alma a quem o sofrimento injusto não encolheu, mas dilatou: «Para fazer resplandecer o amor que vem de Deus – afirmava –devemos amar a todos, sem excluir ninguém». Fiel a essa convicção, deu-se de tal modo a ajudar, ensinar e animar seus carcereiros, que um dos guardas lhe perguntou:
– O senhor nos ama verdadeiramente?
– Sim, eu os amo sinceramente.
– Mas nós o tivemos preso durante tantos anos, sem julgá-lo, sem condená-lo, e o senhor nos ama? É impossível, isso não é verdade!
– Estive muitos anos com vocês. Você viu que isso é verdade.
– Quando for libertado, não vai mandar os seus fiéis incendiar as nossas casas e matar as nossas famílias?
– Não. Mesmo que você queira matar-me, eu o amo.
– Mas, por quê?
– Porque Jesus me ensinou a amar a todos, mesmo aos inimigos. Se eu não o fizer, não sou digno de ser chamado cristão.
– É muito bonito, mas difícil de compreender… [4].
Passemos agora a uma menina. Montserrat Grases, ainda estudante, descobriu a sua vocação ao Opus Dei, e se entregou a Deus com alegria. Pouco depois, foi-lhe diagnosticado um sarcoma incurável numa perna, e veio a falecer após um longo itinerário de meses de sofrimento aceito com um sorriso.
Um seu irmão, que veio depois a se ordenar sacerdote, deu o seguinte testemunho:
«A sua Cruz foi muito dolorosa. Às vezes comentam-me, quando a recordam tão alegre e tão feliz, que ela sentia até gosto no meio da dor… Não, isso não é verdade. Falar assim poderia soar a masoquismo, porque aquilo não era uma dor convertida em gosto; era uma dor convertida em amor, e em luta para poder continuar a ser fiel a si mesma, a nós e a Deus, mas continuava a ser uma dor que a dilacerava, que a desfazia.
»Sofreu – eu o vi – tremendamente: mas era uma luta enamorada, no meio da dor, para encontrar Cristo Crucificado. Em meio a essa dor, junto de Cristo, nunca esteve só. Se Deus está ao meu lado – pensou – e me pede isto, será porque é possível; e se Ele o quer, Ele me ajudará… Montse, graças à dor, deu-nos o melhor de si mesma»[5].
Quero terminar este capítulo pedindo a Deus que nos ajude a realizar na nossa vida essa maravilha: manter a alegria no meio da dor, para podermos dar aos outros o melhor de nós mesmos.
E que, para conseguir isso, nos faça compreender, num mundo que foge com horror da Cruz, o que diz a Imitação de Cristo: «Somente os servidores da Cruz encontram o caminho da felicidade e da verdadeira luz» (Liv. 3, cap. 56).


[1] Cf. Otimsimo cristão, hoje, Quadrante 2008, pp. 41-43
[2] F.X. Van Thuân, Cinco pães e dois peixes, ed. Santuário, p. 54
[3] Salvador Bernal, Perfil do Fundador do Opus Dei, Quadrante 1978, p. 416
[4] Cinco pães e dois peixes cit., pp. 54-55
[5] J. M. Cejas, Montse Grases. La alegria de la entrega, Rialp 1993
http://www.padrefaus.org/archives/2193?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+padrefaus+%28F%C3%A9%2C+Verdade+e+Caridade%29

A virtude da temperança