domingo, 25 de setembro de 2016

Pensamentos errantes


"Você está sujeito aos pensamentos errantes porque você ouve conversas alheias e a memória delas permanece com você. Com estas memórias o inimigo tece uma teia na frente do olho da sua mente, a fim de enredá-lo. Quando isso acontece, você deve descer ao seu coração, virando-se para longe das imagens ilusórias apresentadas pelo inimigo, e chamar ao Senhor."

São Téofono, o Recluso

EXTRA, EXTRA: PRECISA-SE DE FORMAÇÃO ESPIRITUAL

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Tenho muito me preocupado com os rumos tortuosos, e porque não perigosos, com que a igreja evangélica brasileira têm flertado nesta última década de cristianismo. Sou do tipo que não consegue ver certas coisas acontecerem e ficar de longe olhando sem, ao menos, não falar nada.
Nestes anos que se passaram, chegando nos dias de hoje, temos presenciado uma verdadeira explosão de novas denominações em solo brasileiro. Se não me engano contabiliza-se hoje 380 denominações evangélicas no país. Este número assustador compreende desde as igrejas de confissão de fé histórica até as mais recentes neo-pentecostais.
Juntamente com tão grande diversidade de nomes, estas mesmas denominações também nos oferecem um vasto “cardápio” doutrinário e um número ainda maior de estilos litúrgicos e de modelos de gestão de igrejas. Temos desde os modelos tradicionais, passando pelos adeptos do “propositanismo” até os “celulares” (por favor não confudam com este abençoado aparelho que tanto nos ajuda em situações de sufoco!).
E se não bastasse, em meio a tudo isso, ainda há a “guerra fria” entre os militantes das respectivas tendências eclesiásticas, advogando e alardeando a superioridade de seu modelo, e/ou doutrina e/ou denominação.
A grande verdade é que o movimento evangélico brasileiro tornou-se num verdadeiro “frankstein”, onde o que se apresenta perante o povo sedento desta pátria é um amontoado de fragmentos, uma genuína colcha de retalhos, sem pé-nem-cabeça que só ajuda a aumentar a confusão ao mesmo tempo que oferece pouca ou nenhuma luz. Em meio ás práticas pragmáticas (se tá dando certo é porque é certo), ao hedonismo desmedido (eu só quero bênção, nada de sofrimento), à teologia da prosperidade (restitui, eu quero de volta o que é meu…) de um lado e a estagnação espiritual das chamadas denominações históricas/tradicionais de outro, o homem e a mulher sem Deus se vêem em meio a um labirinto de total desesperança e escuridão.
Em meio a euforia disso tudo, temos percebido que a explosão demográfica evangélica não tem sido acompanhada, na mesma proporção, por um crescimento no que tange ao caráter por parte do povo de Deus. O mal testemunho, a vida dúbia, a ausência de santificação por parte dos cristãos têm se constituído nas chagas polurentas que tem devastado a credibilidade do evangelho de Cristo nesta nação. Maturidade espiritual é algo estranho às fileiras de evangélicos que povoam nossas igrejas de domingo a domingo.
Por isso o tema deste post: “Extra, extra: precisa-se de formação espiritual.

  • Precisa-se de homens e mulheres que estejam verdadeiramente dispostos a carregar a cruz por amor de Jesus.

  • Precisa-se de homens e mulheres que manifestem na sua vida diária a semelhança com Jesus no seu pensar, agir e falar (exatamente nessa ordem).

  • Precisa-se de homens e mulheres que entendam e aceitem que esta vida é uma existência de lutas, dores e sofrimentos e que cada situação adversa constitui-se numa oportunidade dada por Deus para que em nós seja formado o caráter de Cristo.

  • Precisa-se de homens e mulheres que redescubram o valor das disciplinas espirituais clássicas como silêncio, solitude, jejum, oração, contemplação etc. como sendo parte integral do modus operandi de vida que existia no próprio Senhor Jesus.

  • Precisa-se de homens e mulheres que aprendam a meditar nas Escrituras menos com a mente e mais com o coração, afim de que, as mesmas aos invés de serem encaradas como objeto de investigação sendo friamente analisadas e dissecadas como um cadáver, sejam vistas como objeto de devoção através do qual podemos ter um encontro pessoal com àquele que é o Amante de nossas almas.

  • Precisamos sim, de homens e mulheres que resgatem, de uma vez por todas, em seus compromissos e relacionamentos a ética, a integridade, a verdade, a honestidade, a santidade e outras virtudes mais. Custe o que custar. Virtudes estas que nos identificarão como povo que foi lavado e remido pelo sangue do Cordeiro, povo o qual tornou-se propriedade exclusiva de Deus.
Sim, é a cruz que temos que carregar nesta vida. Se é que desejamos desfrutar da coroa que nos aguarda do outro lado da eternidade.
Precisa-se de formação espiritual. Precisa-se de maturidade cristã urgente. Precisa-se de discipulado sério e compromissado.
Precisa-se de homens e mulheres formados no seu eu interior à imagem do eu interior de Cristo.
Precisa-se destes tipos de homens e mulheres. Precisa-se de VOCÊ e de MIM!!!
Que Deus abençoe esta nação sedenta. Que a próxima “onda” do momento sejam as renovadas dores de parto da formação espiritual.
Nasce, Senhor Jesus!!!

sábado, 24 de setembro de 2016

Adultério do coração


"Mais uma vez, o Papa baseia suas reflexões nas palavras de Cristo, desta vez retiradas do Sermão da Montanha: "Ouvistes o que foi dito: "Não cometerás adultério.". Eu, porém, digo-vos que todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração."(Mt 5,27-28)

“Como exemplo, Cristo fala diretamente da concupiscência do homem, mas o princípio aplica-se igualmente às mulheres.”

(Retirado do livro "Teologia do Corpo para Principiantes - Christopher West)

Pessoas infelizes


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As pessoas sentem-se infelizes e não sabem o porquê. Elas sentem que algo está errado, mas não sabem apontar exatamente o quê. Elas se sentem desconfortáveis no mundo, confusas e frustradas, alienadas e afastadas, e elas não podem explicar. Elas têm tudo, e ainda querem mais. E quando conquistam, sentem-se ainda vazias e insatisfeitas. Elas querem felicidade e paz, e nada parece trazer. Elas querem realização, e nunca parece vir. Tudo está bem, e ainda assim tudo está errado. Isto é uma doença mundial. As pessoas estão cobertas pela atividade frenética e a corrida sem fim. Elas estão enterradas em atividades e eventos. Estão cercadas por programas de televisão e jogos. Mas quando o movimento cessa e a tela é desligada e tudo está tranquilo... então a ansiedade se instala, e a falta de sentido de tudo isso, e o tédio e o medo. Por que isto é assim? 

Porque não estamos realmente em casa. Estamos no exílio. Estamos alienados e afastados de nossa verdadeira pátria. Nós não estamos com Deus, nosso Pai na terra dos vivos. Estamos espiritualmente doentes. E alguns de nós já estão mortos.

Nossos corações são feitos para Deus, disse Santo Agostinho, e nós estaremos sempre inquietos até que descansemos n'Ele. Nossas vidas são feitas para Deus, e vamos estar insatisfeitos e descontentes e frustrados até que voltemos para Ele. Somente Ele pode preencher nosso grande Vazio Interior, dar-nos a Paz, porque Ele é nosso Lar e nós somos d'Ele.

A Quaresma é o tempo para o nosso retorno consciente ao nosso verdadeiro lar. É o tempo reservado para voltarmo-nos para nós mesmos, erguer-nos e irmos na direção da realidade divina a que realmente pertencemos.

(Tradução livre do inglês de um excerto da obra "The Lenten Spring" de Fr. Thomas Hopko)




O que é ser salvo?



"Temos de ser salvos da imersão num mar de mentiras e de paixões denominado 'o mundo'. E temos, sobretudo, de ser salvos do abismo de confusão e de absurdo que é o nosso próprio ser mundano. A pessoa tem de ser salva do indivíduo.
O filho de Deus, livre, tem de ser salvo do escravo conformista da fantasia, da paixão e da convenção. O ser íntimo, misterioso e criador tem de ser libertado do ego esbanjador, hedonista e destruidor, que procura apenas cobrir-se com disfarces.
Estar 'perdido' é estar entregue à arbitrariedade e aos subterfúgios do eu contingente, do ser feito de fumaça que terá inevitavelmente de desaparecer. Ser 'salvo' é voltar à própria realidade inviolada e eterna, é viver em Deus."

Thomas Merton, "Novas Sementes de Contemplação", Fisus 1999, pág. 46 (Capítulo 6. Reze pela sua própria descoberta).
Foto de Bill Murphy - Caminho para pedestres da Abadia de Gethsemani.

sábado, 17 de setembro de 2016

Origem, Tradição e Uso do Cordão Ortodoxo


1. A Oração de Jesus: a mais importante oração da tradição bizantina.

«Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus,
tem piedade de mim, pecador!»
ma das mais simples orações da Tradição Ortodoxa, uma oração de poucas palavras e tão antiga quanto os Evangelhos, ocupa um lugar destacado como a principal oração do Oriente Cristão: a Oração de Jesus, também conhecida como a Oração incessante do Coração.
Encontramos sua origem nos Evangelhos, em passagens como a da mulher Cananéia (Mt 15, 22), a dos cegos de Jericó (Mt 20, 30) e da oração do publicano (Lc 18, 13). Em todas estas passagens, encontramos a petição sincera por misericórdia, dirigida direta e confiantemente a Deus, tanto na Pessoa do Pai quanto na do Filho.
A forma estabelecida da Oração tomou por base o Nome de Jesus e a oração do publicano, pois o Nome de Jesus é a oração por excelência, invocação de Deus, e «em nenhum outro [Nome] há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos» (At 4, 12); e, na oração do publicano encontra-se a verdade da alma contrita, pecadora e humilhada, que busca ardentemente a justificação perante Deus. Desta forma, teve início o cumprimento do mandamento do Apóstolo, de "orar sem cessar" (1Ts 5, 17).
Nos tempos atuais a Oração de Jesus encontrou sua popularização através do livro «Relatos de um peregrino Russo» e da coletânea de textos patrísticos, intitulada «Filocalia» (ambos da Editora Paulus).

2. O cordão de oração ortodoxo: um instrumento vindo do céu.

Para que pudéssemos manter nossa vida de oração nosso Pai celestial não negou auxílio.
A Tradição reza que o cordão de oração vem das mãos de São Pacômio, discípulo de Santo Antão, no século III. A preocupação de São Pacômio era auxiliar seus monges iletrados a manterem uma vida de oração ativa sem a necessidade da leitura dos Salmos.
Decidiu então fazer uso da Oração de Jesus para suprir a necessidade, resolveu fazer um cordão com nós para contar as orações. Como o demônio desatava os nós que o Santo fazia, o anjo Gabriel lhe ensinou um nó formado por sete cruzes intercaladas, o qual o demônio não conseguiria desatar. Neste momento foi dado ao mundo o cordão de oração Ortodoxo, denominado em russo CHOTKI.

3. Descrição simbólica do cordão de oração.

Ao ter nas mãos um cordão de oração ortodoxo, não temos apenas um instrumento sagrado para orações, mas, igualmente, um objeto carregado de simbolismo teológico, o que o torna umrepositório de espiritualidade cristã.
O cordão de oração Ortodoxo é formado por um número determinado de nós, com suas extremidades unidas em forma de cruz e finalizado por uma franja. Independente do seu tamanho, sua função é recordar ao orante a obrigação de orar permanentemente.
O cordão tem a cor negra. Ele é negro porque simboliza luto e escuridão, os quais a humanidade experimenta por causa de seus pecados. Lembra que nossos pecados perante Deus nos afastam da Luz Verdadeira e somente através do verdadeiro arrependimento e da oração constante nos reconciliamos com o Pai.
Os cordões de oração Ortodoxos são feitos de . Lembra-nos que nossas orações são dirigidas ao Cordeiro de Deus, imolado voluntariamente por nós, levando sobre si todos os nossos pecados e purificando-nos com Sua Misericórdia. Recorda-nos também que somos ovelhas guiadas pelo Bom Pastor, que não demora em deixar todo rebanho para recuperar uma única ovelha que se perde; Ele é atraído pelo balido desesperado da ovelha desgarrada, que é a oração.
Os separadores colocados entre cada conjunto de nós recordam-nos o louvor necessário à Mãe de Deus, em união paralela ao louvor do Seu Filho Jesus. O Espírito Santo, de Natureza Divina, unido a Maria, de natureza humana, formaram Jesus, Deus feito homem, na união perfeita do homem com Deus, que é objetivo da oração, meio de comunicação entre o homem e Deus.
As duas extremidades do cordão de oração Ortodoxo são unidas por um nó principal que fecha o conjunto. Ele representa Aquele que disse: «Eu Sou o Alfa e o Omega, o princípio e o fim» (Ap 21, 6). De Deus viemos e para Ele retomaremos.
A Cruz está também presente em nosso cordão de oração Ortodoxo. Ela é a representação do Sacrifício voluntário de Jesus e de Sua Vitória sobre a morte na manhã de Páscoa. Ela também nos lembra do abandono às coisas deste mundo pela busca dos bens espirituais.
Por fim, encerrando o cordão de oração ortodoxo encontramos uma franja. Ela representa a conseqüência do encontro da oração com o coração daquele que ora: as lágrimas. A alegria indizível proporcionada pelo conforto que a oração traz ao coração do orante o perdão dos pecados, a escuta da Voz de Deus dizendo à alma «Teus pecados estão perdoados», culmina no júbilo, no transbordar das lágrimas enxugadas na franja do cordão de oração ortodoxo.
Assim conhecemos o nosso cordão de oração Ortodoxo e o profundo simbolismo que ele encerra.

4. A oração em ação: como utilizar o cordão para orar.

Segurando a Cruz:
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Santo Deus, Santo Forte, Santo Imortal, tem piedade de nós (3 vezes)
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo,
agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador!
A cada separador:
Santíssima Mãe de Deus, intercede por mim, pecador!

5. Considerações finais.

  1. Sempre que possível, devemos sempre realizar nossas orações diante de um ícone de Jesus ou de Sua Mãe.
  2. É de uso manter o cordão sob o travesseiro durante o sono, pendurá-Io na porta de entrada ou junto a um ícone.
  3. Utiliza-se o cordão de oração para abençoar a família, lar e alimento, visto que o chefe da família tem prerrogativas para rogar as bênçãos de Deus sobre os que estão sob sua responsabilidade: «Abençoa. Senhor Jesus Cristo, a minha casa (a minha família, o nosso alimento...) e tem piedade de nós!»
  4. O cordão de oração ortodoxo não é um talismã, logo não podemos usá-Io para outro fim que não seja a oração e nem devemos supor que ele tem «poderes» por si só.
  5. Este presente instrumento de oração traz consigo mil e setecentos anos de tradição, além de uma teologia simples, clara e verdadeira.
  6. Os nomes «Rosário» e «Terço» são designações a um instrumento de oração (ou à terça parte dele) Mariano da Igreja Católica Romana, que nada tem a ver com o CHOTKI. Portanto, as denominações «terço bizantino» ou «rosário bizantino» não são corretas ao se referirem aoChotki; a Igreja Ortodoxa não reconhece estas designações.
  7. O uso do cordão de oração ortodoxo é para a prática privada da oração, não podendo ser usada em liturgias (orações públicas ou comunitárias), senão em comunidades Monásticas.
  8. CHOTKI está intimamente relacionado à Oração de Jesus, tal qual ensinada pela tradição:«Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador». Utilizar «jaculatórias» em lugar desta fórmula é uma prática controversa, pois o Cordão de Oração Ortodoxo não é uma prática de vã repetição, mas a Invocação do Nome de Jesus.
  9. A prática do Cordão de Oração Ortodoxo não envolve nenhum tipo de "meditação de mistérios", sendo isto uma prática reservada ao Rosário Mariano.
  10. Que Deus, pelas intercessões de Sua Mãe Santíssima e as dos Santos Padres, abençoe e ilumine o seu entendimento para iniciar uma vida de oração verdadeira e frutífera no Santo Nome de nosso Senhor Jesus!

NOTA:
Baseado no ensaio de Cesar Scavone - agosto de 2006. Adaptado pelos Monges do Mosteiro da Transfiguração, Santa Rosa - RS


http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/espiritualidade/origem_tradicao_e_uso_do_cordao_ortodoxo.html

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

São Pedro Julião Eymard: criador da adoração perpétua do Santíssimo Sacramento

De humilde fabricante de azeite, transformou-se em pregador com palavras de fogo, em profeta, operou milagres e conheceu com antecedência o trono que ocuparia na corte celeste

Roberto Alves Leite
Em 1804, apareceu no vilarejo de La Mure um amolador de objetos, acompanhado de sua filha de cinco anos de idade, órfã de mãe, que perguntava de casa em casa se havia utensílios para serem afiados por seu pai.
Este tinha por nome Julião Eymard, originário de outra localidade, Auris, onde se casara e tivera seis filhos desse casamento. Perseguido pelos "patriotas" da Revolução Francesa, perdeu boa parte de seu patrimônio. Com a morte da esposa, em 1804, resolveu tentar a sorte noutro lugar.
Deixou então cinco filhos com pessoas amigas e saiu à procura de sustento, levando apenas a caçula. O espírito de solidariedade católica, que ainda havia em La Mure, facilitou  o estabelecimento de Julião naquele local, onde prosperou e contraiu novas núpcias.
De seu segundo casamento, nasceu Pedro Julião Eymard em 4 de fevereiro de 1811.
Com o correr dos anos, o menino mostrou-se inteligente e jeitoso, tornando-se a grande esperança do pai para fazer prosperar o negócio que havia montado naquela localidade: uma usina de azeite.
O conquistador de almas para Deus
O menino, porém, sentia que era chamado para algo de bem mais elevado do que ser fabricante de azeite. Após várias dificuldades postas pelo pai, conseguiu entrar no seminário para seguir o que sua vocação lhe pedia: tornar-se sacerdote.
Após ordenar-se, celebrou sua primeira Missa em 26 de outubro de 1834.
O novo sacerdote cativava as almas. Após o ofício divino, saía com os fiéis e ficava em frente à igreja, conversando com eles e os instruindo. Operavam-se então conversões impressionantes.
Em 1839 decidiu entrar na Sociedade de Maria para desenvolver cada vez mais sua devoção à Sagrada Eucaristia, a paixão de sua vida. Sua irmã -- aquela menininha que percorria as casas pedindo trabalhos -- insistiu com ele para que ficasse mais um dia em casa, antes de partir para seu novo destino. "Um dia bastará para perder minha vocação" foi a resposta. E seguiu em frente.
Nessa época a todos impressionava sua piedade profunda e terna, enquanto no seu caminhar havia algo de harmonioso que lhe conferia um aspecto militar.
Pregava a Eucaristia e somente a Eucaristia. Porém o fazia de maneira pessoal, concreta e viva, sem muitas especulações meramente teóricas e abstratas. Sua pregação tocava de modo especial as necessidades espirituais de seus ouvintes. Sua palavra de fogo esclarecia, abrasava e ganhava as almas. Seus sermões eram verdadeiras meditações íntimas que lhe saíam pelos lábios, expressão de sua intensa vida interior.
Sua alma era de tal maneira luminosa, que pessoas das mais diversas condições sociais e econômicas, bem como das mais distintas profissões, vinham lhe pedir luzes fora e dentro do confessionário.
"Fogo" eucarístico nos quatro cantos da França
Certo dia, em 1853, durante a ação de graças, por solicitação de Nosso Senhor, ele se ofereceu por inteiro a Deus, recebendo então muitas graças, consolações e forças para realizar a tarefa que lhe estava destinada.
Seis anos mais tarde, confidenciou que naquela ocasião prometera a Deus que nada o reteria, mesmo que precisasse comer pedras e morrer em um hospital, trabalhando em Sua obra sem consolações humanas.
Era o primeiro passo para a fundação de seu Instituto, dedicado à adoração perpétua do Santíssimo Sacramento. As dificuldades fizeram-no soltar essa exclamação: "Chego como um soldado do campo de batalha, não se achando vitorioso, mas cansado e esgotado pelo combate".
E anunciou ao Arcebispo de Paris que queria pôr fogo nos quatro cantos da França, e especialmente em Paris, com a comunhão dos adultos.
Santo Cura d'Ars profetiza sobre São Pedro Julião!
O Pe. Eymard e o Cura d'Ars se conheciam e se tornaram verdadeiros amigos em Nosso Senhor Jesus Cristo, cada um procurando estar a par das atividades do outro.   
O Cura d'Ars teria mesmo profetizado que o Pe. Eymard sofreria muito, inclusive perseguições de seus melhores amigos. Mas que a congregação por ele fundada seria próspera e se espalharia por todos os países, apesar de tudo e contra todos...
De fato, na obra recém-fundada continuava faltando quase tudo e as deserções começavam. O fundador tornou-se objeto de críticas e perseguições. Escreveram-lhe cartas extremamente mortificantes, profetizando quedas e catástrofes. Como se isso não bastasse apareceu uma ameaça de despejo. Obrigado a se afastar por cinco semanas para tratar da saúde, encontrou a casa com menos gente e com traidores.
Em Roma: êxtase e aprovação de sua obra
Tinha um culto entusiasmado pelo Papado. E não foi sem emoção que se dirigiu a Roma para pedir a aprovação de sua obra, o Instituto do Santíssimo Sacramento.
Uma feliz coincidência facilitou as coisas. Estava orando no altar da Confissão, na Basílica de São Pedro, quando entrou em êxtase e não percebeu um cortejo que se aproximava. Era Pio IX, que ia rezar ali também. Os numerosos fiéis que se encontravam no local, se afastaram para dar passagem ao Papa, ficando somente um padre austero ajoelhado. Quando voltou a si, todo confuso, refugiou-se em um canto; o Papa acabara de se retirar.
No dia seguinte recebeu o Breve Laudatório, assinado na véspera pelo Sumo Pontífice!
Desejava ter a voz do trovão
Sua palavra era um fogo de caridade e de fé. Havia um tal brilho de santidade em seu olhar, que se pensava em Nosso Senhor. Mesmo antes de começar a falar, já tocava as almas pela sua simples presença. Mais do que a fé, era quase a visão real do Divino Mestre que ele imprimia nas almas. Parecia ver o que falava.
Quanta vida, quanta luz! Seus ouvintes mantinham o olhar fixo na sua pessoa durante toda a pregação. Diz-se que ele desejava ter a voz do trovão para ser entendido por toda parte e por todos.
Traçava, para cada sermão, os limites, as divisões e o encaminhamento do raciocínio, mas... na hora entrava a palavra e a inspiração do coração. Preparava suas homilias  diante do Sacrário pois, segundo ele, uma hora na presença do Santíssimo Sacramento valia mais do que uma manhã de estudos nos livros.
Lia os corações, via à distância, profetizava...
Não era raro dizer a uma pessoa os pensamentos que tivera; e aconselhá-la de acordo com tal discernimento.
Certo dia, uma moça da sociedade foi procurá-lo, sem que os pais soubessem, para pedir-lhe um conselho sobre sua vocação. Ao chegar, soube que ele se encontrava em sua hora de adoração ao Santíssimo, durante a qual não costumava atender absolutamente ninguém. Resignada, dirigiu-se à igreja e o viu de costas, ajoelhado, em oração. Nesse mesmo instante Eymard levantou-se, indicando à moça o caminho do confessionário. Comentou depois que sentira que uma pessoa o procurava e tinha necessidade de ajuda.
Entre 1860 e 1868 previu várias vezes os desastres da guerra franco-prussiana e o movimento revolucionário da Comuna de Paris.
Em Saint-Julien de Tours, o Pe. Eymard deu provas de ser santo, vidente e profeta diante de um auditório que o ouvia pela tarde e pela manhã, sempre recolhido e sempre entusiasta.
Certo dia, duas horas antes da procissão de São Julião, o céu escureceu e se armou uma tempestade. O Pe. Eymard, calmo, ordenou que a procissão saísse e... surpresa! Em lugar dos raios e da chuva que já haviam começado, aparece céu azul e um grande sol! "Milagre"! Foi a palavra que aflorou a todos os lábios.
Exorcista, era perseguido pelo demônio
Muitas vezes passava as noites lutando contra o demônio. Pela manhã, no seu quarto havia móveis quebrados ou avariados e sinais em sua face. Comentava que os golpes do demônio são secos como se bate em mármore, mas a dor desaparecia com a pancada.
Em 1861, após comer parte de uma maçã oferecida por uma mulher tida como mágica, uma menina ficou possessa. A mãe, ouvindo falar de Eymard, foi procurá-lo. Este enviou uma camisa e um gorro com a medalha de São Bento, mas a menina os destroçou com seus dentes. O Padre então benzeu um pedaço de pão e o enviou à casa da menina, para que o engulisse na hora em que estaria celebrando uma missa por ela.
Quatro homens forçaram-na a engulir e ela começou a vomitar um liquido preto, cheirando a enxofre, em tal quantidade que escorreu até o chão, ficando então curada. O demônio foi derrotado duplamente, pois o pai de menina, que se encontrava afastado da religião, impressionado, confessou-se, comungou e voltou à prática religiosa.
Incompreendido pelo próprios filhos espirituais
No final de 1867 repreende os seus por não irem vê-lo com mais freqüência e mais confiança, a fim de pedir uma comunicação mais abundante do espírito da sua vocação. "Nada me perguntais. Quando eu não estiver mais aqui, ninguém terá a graça da fundação. Interrogai-me, usai mais de mim".
Em 1868 escreveu em suas notas que iria fazer parte da corte celeste, participar da bondade de Deus. Um trono lhe estava assegurado no Céu e seu nome estava inscrito no livro da vida; os Anjos e os Santos o esperavam no lugar dos Bem-aventurados e o chamavam de irmão.
Porém, para alcançar um tal píncaro é preciso não só sofrer, mas saber sofrer. Assim, seus últimos anos de vida foram repletos de sofrimentos, ocasionados estes em boa parte por seus próprios religiosos que já não tinham confiança em seu Santo Fundador. Disse ele nessa penosa conjuntura: "Eis-me aqui, Senhor, no Jardim das Oliveiras; humilhai-me, despojai-me; dai-me a cruz, contanto que me deis também o vosso amor e a vossa graça".
No dia 1º de agosto de 1868, às 14:30 hs, exalou seu último suspiro. Tinha 57 anos e meio. Morreu em sua cidade natal, La Mure, na mesma casa onde nascera. Sua congregação tinha então cinco casas na França e duas na Bélgica, com cinqüenta religiosos.
"Nosso santo morreu!" foi o grito que se ouviu nas ruas e nas casas daquela pequena localidade. A população inteira desfilou diante de seus restos mortais. As pessoas iam com as duas mãos cheias de objetos para serem tocados no corpo do Santo. Seus olhos, que não foram fechados por respeito, guardavam uma expressão extraodinária de vida a ponto de dar a falsa impressão de que não morrera.
Foi beatificado solenemente por Pio XI no dia 12 de julho de 1925 e canonizado por João XXIII em 9 de dezembro de 1962.

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Fonte de referência:
Mgr. Francis Trochu, Le Bienhereux Pierre-Julien Eymard, d'après ses écrits, son Procès de béatification et de nombreux documents inédits, Librairie Catholique Emmanuel Vitte, Paris, 1949

Cultivai o santo recolhimento - São Pedro Julião Eymard


Daí ao próximo as chamas de vosso coração delicado, mas deixai a este no Coração de Jesus, e nada tereis a recear, nada a temer.
Cultivai o santo recolhimento, isto é, vivei em sociedade de vida, de união e de amor com Deus, com Nosso Senhor. O santo recolhimento é a raiz da árvore, a vida das virtudes e até do amor divino: é a força da alma concentrada em Deus para daí irromper e expandir-se.
Que Nosso Senhor vos conceda essa Graça das graças.
Permanecei sempre no interior, vivei em vosso interior, possui-vos, virai-vos de fora para dentro, deixai este mundoretirai-vos com Jesus em vosso coração, onde Ele vos move a alma, falai-Lhe a linguagem interior que só o amor entende e compreende.
Entretei uma doce e habitual conversação em vosso interior e não o percais de vista, se quiserdes conformar-vos àquele que dizia: “Jesus é minha alegria e felicidade!” Lembrai-vos deste princípio de vida, de que só encontrareis felicidade no serviço de Deus na vida interior de oração e de Amor.
… Amai, por conseguinte, a solidão da alma. É o santuário de Deus, onde enuncia os seus oráculos de amor. Aí aprendereis em pouco tempo, e sem dificuldade, a conhecer a Deus em pouco tempo, e sem dificuldade, a conhecer a Deus em Sua Luz, e degustá-Lo na essência de Sua Bondade, a imitá-Lo em seu espírito de Amor. Em tal escola estamos sempre a recomeçar, porque estamos sempre a meditar numa verdade nova; penetramos mais adiante nas profundezas da Ciência e da Virtude de Deus.

Ah! Acreditai-me quando vos recomendo a oração de silêncio, de contemplação, de união a Nosso Senhor; é o único verdadeiro centro de vida.

… Numa palavra, colocai-vos em Deus e estareis em Vosso centro divino. Tudo o mais é lida penosa e difícil para a alma, que então trabalha demasiado; mas aqui é Deus que trabalha nela, é o orvalho celeste que a penetra com suavidade. É mister correr a Deus pelo caminho mais curto e estar sempre a redobrar as forças.
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(Excertos do livro: A Divina Eucaristia – São Pedro Julião Eymard)

domingo, 4 de setembro de 2016

BENTO JOSÉ LABRE Leigo, Santo

“O cigano de Cristo”, este também é seu apelido, que demonstra claramente o que foram os trinta e cinco anos de vida de Bento José Labre, treze deles caminhando e evangelizando pelas famosas e seculares estradas de Roma. Aliás, o antigo ditado popular que diz que “todos os caminhos levam a Roma” continua sendo assim para todos os cristãos. Entretanto, principalmente no século XVII, em qualquer um deles era possível cruzar com o peregrino Bento José e nele encontrar o caminho que levava a Deus.
Ele era francês, nasceu em Amettes, próximo a Arras, no dia 27 de março de 1748, o mais velho dos quinze filhos de um casal de agricultores pobres. Frequentou a modesta escola local, mas aprendeu latim com um tio materno. Ainda muito jovem, quis tornar-se monge trapista, mas não conseguiu o consentimento dos pais.
Com dezoito anos, pediu ingresso no convento trapista de Santa Algegonda, mas os monges não aprovaram sua entrada. Percorreu a pé, então, centenas de quilómetros até a Normandia, debaixo de um inverno extremamente rigoroso, onde pediu admissão no Convento Cisterciense de Montagne. Também foi recusado ali, tentando, ainda, a entrada nos Cartuchos de Neuville e Sept-Fons, com o mesmo resultado. Foi então que, com vinte e dois anos, tomou a decisão mais séria da sua vida: seu mosteiro, já que não encontrava guarida em nenhum outro, seriam as estradas de Roma.
No embornal de peregrino carregava apenas o Novo Testamento e um breviário, além de um terço nas mãos. Durante a noite, dormia nas ruínas do Coliseu e, de dia, percorria as estradas peregrinando nos lugares sagrados e evangelizando sem pedir esmolas. Quando recebia a caridade alheia, mesmo sem pedir, ainda dividia o que ganhava com os pobres. Isso lhe valeu, certa vez, algumas pancadas de um certo cidadão que encarou sua atitude como um insulto. Na maior parte dos dias, comia um pedaço de pão e ervas colhidas no caminho.
Os maus tratos do quotidiano, ou seja, a maneira insatisfatória de higiene a que se submetera durante muitos anos e as penitências que se auto-impusera, acabaram por causar o seu fim. Um dia, ainda muito jovem, seu corpo foi encontrado nos fundos da casa de um amigo arquitecto, perto da igreja de Santa Maria dos Montes. Houve uma grande aglomeração de populares que admiravam e até veneravam o singelo peregrino.
Bento José acabou sendo sepultado ali mesmo, próximo daquela igreja, local que logo passou a ser procurado pelos devotos e peregrinos. Imediatamente, tornou-se palco de muitas graças e prodígios, por intercessão daquele que em vida percorreu o caminho da santidade. O papa Leão XIII canonizou são Bento José Labre em 1881, determinando sua festa para o dia 16 de abril, data de sua morte no ano 1783.
http://alexandrina.balasar.free.fr/bento_jose_labre.htm

BENTO JOSÉ LABRE Leigo, Santo

“O cigano de Cristo”, este também é seu apelido, que demonstra claramente o que foram os trinta e cinco anos de vida de Bento José Labre, treze deles caminhando e evangelizando pelas famosas e seculares estradas de Roma. Aliás, o antigo ditado popular que diz que “todos os caminhos levam a Roma” continua sendo assim para todos os cristãos. Entretanto, principalmente no século XVII, em qualquer um deles era possível cruzar com o peregrino Bento José e nele encontrar o caminho que levava a Deus.
Ele era francês, nasceu em Amettes, próximo a Arras, no dia 27 de março de 1748, o mais velho dos quinze filhos de um casal de agricultores pobres. Frequentou a modesta escola local, mas aprendeu latim com um tio materno. Ainda muito jovem, quis tornar-se monge trapista, mas não conseguiu o consentimento dos pais.
Com dezoito anos, pediu ingresso no convento trapista de Santa Algegonda, mas os monges não aprovaram sua entrada. Percorreu a pé, então, centenas de quilómetros até a Normandia, debaixo de um inverno extremamente rigoroso, onde pediu admissão no Convento Cisterciense de Montagne. Também foi recusado ali, tentando, ainda, a entrada nos Cartuchos de Neuville e Sept-Fons, com o mesmo resultado. Foi então que, com vinte e dois anos, tomou a decisão mais séria da sua vida: seu mosteiro, já que não encontrava guarida em nenhum outro, seriam as estradas de Roma.
No embornal de peregrino carregava apenas o Novo Testamento e um breviário, além de um terço nas mãos. Durante a noite, dormia nas ruínas do Coliseu e, de dia, percorria as estradas peregrinando nos lugares sagrados e evangelizando sem pedir esmolas. Quando recebia a caridade alheia, mesmo sem pedir, ainda dividia o que ganhava com os pobres. Isso lhe valeu, certa vez, algumas pancadas de um certo cidadão que encarou sua atitude como um insulto. Na maior parte dos dias, comia um pedaço de pão e ervas colhidas no caminho.
Os maus tratos do quotidiano, ou seja, a maneira insatisfatória de higiene a que se submetera durante muitos anos e as penitências que se auto-impusera, acabaram por causar o seu fim. Um dia, ainda muito jovem, seu corpo foi encontrado nos fundos da casa de um amigo arquitecto, perto da igreja de Santa Maria dos Montes. Houve uma grande aglomeração de populares que admiravam e até veneravam o singelo peregrino.
Bento José acabou sendo sepultado ali mesmo, próximo daquela igreja, local que logo passou a ser procurado pelos devotos e peregrinos. Imediatamente, tornou-se palco de muitas graças e prodígios, por intercessão daquele que em vida percorreu o caminho da santidade. O papa Leão XIII canonizou são Bento José Labre em 1881, determinando sua festa para o dia 16 de abril, data de sua morte no ano 1783.
http://alexandrina.balasar.free.fr/bento_jose_labre.htm

São Bento José Labre: O “vagabundo de Cristo”


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Em pleno século XVIII, quando a sociedade ocidental alcançava um auge de refinamento nas maneiras, na culinária, na cultura e nos costumes, um mendigo vinha lembrar aos homens as verdades eternas.

As inúmeras igrejas de Roma exercem uma irresistível atração sobre quem passa diante de suas portas. Ainda quando está tomado pelos afazeres do dia-a-dia, o transeunte acaba por interromper brevemente seu percurso e entrar em uma ou outra delas, para um instante de oração, reflexão ou contemplação.

A esse movimento de devoção se acresce às vezes a curiosidade, mesmo para quem já vive há bastante tempo na Cidade Eterna. Com efeito, caminhando pelas ruas ou becos do intrincado centro romano, ele pode deparar-se com uma igreja que nunca tinha visto, ou jamais havia visitado, e cuja aparência exterior é até difícil de distinguir de um edifício profano.

Foi o que se deu recentemente comigo, ao afastar-me do Foro Romano e percorrer uma pequena rua na qual divisei uma grande fachada com a inscrição Santa Maria dei Monti. Sem dúvida, tratava-se de uma igreja. Cedendo ao desejo de conhecê-la, transpus seus umbrais.

Um belíssimo afresco preside o altar-mor. Trata-se da Madonna dei Monti, à qual são atribuídos inúmeros milagres. Muitos grandes santos tinham especial devoção a essa imagem, e diante dela rezaram por sua fundação, como São Paulo da Cruz, São José de Calazans e Santo Afonso Maria de Ligório.

Um altar lateral, porém, o último da esquerda, chamou-me especialmente a atenção.

Ali, pude ler num pequeno cartaz: "Aqui repousa São Bento José Labre, peregrino francês que viveu durante muitos anos diante desta igreja pedindo esmolas, como ‘vagabundo de Cristo'".

"Vagabundo de Cristo"? Como seria isso?
Deus o chamava, mas não o queria em nenhum mosteiro
Bento José Labre nasceu em Amettes,região de Artois (França), no dia 23 de março de 1748. Desde sua infância deu sinais de terna devoção e esquecimento de si mesmo. Atraído pela graça já nos estudos preparatórios para a Primeira Comunhão, passou a levar uma vida de piedade e austeridade muito superior à sua idade.

Aos dezesseis anos decidiu ser trapista, mas a família empenhou-se em dissuadi-lo. Diante dessa atitude, uma crise dolorosa lhe tirou a paz de alma, que reencontrou começando a seguir a regra da Trapa dentro de sua própria casa. Após um certo tempo, por conselho de seu tio materno, que era sacerdote, os pais lhe deram permissão para entrar na Ordem dos Cartuxos, considerada menos austera.

Para Bento iniciou-se então uma fase de grandes humilhações. A Cartuxa de Val-Sainte recusou-se a acolhê- lo. Admitido na de Neuville, uma violenta crise de angústia e de vômitos o impediu de ali continuar. À procura de outro mosteiro, viajou a pé até a Normandia e bateu às portas da Grande Trapa de Mortagne, onde o abade lhe negou a admissão, por ele ter apenas vinte anos.

Por fim, conseguiu ser admitido novamente na Cartuxa de Neuville, mas foi tomado pelas mesmas crises anteriores. Com muito discernimento, ao despedir-se dele, o prior deulhe uma orientação: "A Providência não o chama ao nosso regime de vida. Siga a inspiração divina!" 

Bento fez então uma viagem de quatro semanas, a pé e pedindo esmolas, até a Trapa de Sept-Fonts, onde foi admitido como noviço. Após alguns meses, porém, viu-se presa de uma grande crise de escrúpulos, com acessos de vômitos, o que levou o abade a lhe dizer:

- Não nasceste para nosso mosteiro, Deus te quer em outro lugar.

- Seja feita a vontade do Senhor! - respondeu Bento, cheio de tristeza.

Como mendigo, peregrinava de santuário a santuário
Fazer a vontade de Deus, sim, Bento não queria outra coisa. Mas, como fazê-la? Por um lado, sentia-se chamado à vida recolhida e austera do claustro, mas, por outro, parecia que o próprio Deus lhe interditava essa vida. Sem saber ainda qual a vontade do Senhor a seu respeito, começou a peregrinar de um santuário a outro da França. Após algum tempo foi para a Espanha, depois para a Alemanha, sempre de santuário em santuário. Vivia como mendigo, tendo apenas uma cruz ao peito, um rosário no pescoço, e o Breviário e alguns livros religiosos num saco.

Em 1770 decidiu tomar o caminho de Roma, pois tinha ouvido dizer que na Itália havia vários mosteiros de vida muito regular e austera. Esperava ser admitido em algum deles.

Depois de uma longa viagem, chegou por fim à Cidade Eterna. Escolheu como lugar para viver o Coliseu. Muitos transeuntes, ao verem aquela estranha figura, lhe perguntavam o que fazia ali, ao que ele respondia: - Faço a vontade de Deus!
"Se esse homem tivesse sido sacerdote!..."
O pobre do Coliseu, como passaram a chamá-lo, ia rezar em várias igrejas. Com freqüência, em vista do seu aspecto repulsivo, negavam-lhe a Comunhão. E quando o celebrante, movido pela compaixão, concedialhe o Sacramento, via cair na patena duas lágrimas de seus olhos.

Era um grande devoto da Eucaristia e participava de todas as devoções das Quarenta Horas que se organizavam na cidade. Desde a aurora lá estava ele diante do Santíssimo Sacramento, com as mãos cruzadas sobre o peito e os lábios em movimento. Nessas ocasiões, muitos viam irradiar dele uma luz dourada.

Um pároco, o Pe. Gaetano Rogger, que observou ter ele passado seis horas diante do Santíssimo Sacramento, quis deixar seu testemunho para o processo de canonização: "Se esse homem tivesse sido sacerdote, sozinho faria todos os turnos de adoração! Que vergonha para nós, sacerdotes, que sofremos tanto ao passar uma hora diante do Santíssimo! E para rezar precisamos de cômodas almofadas. Eis um pobre que nos ensina a rezar!" 

Com freqüência pedia ao sacristão o privilégio de passar a noite na igreja. Muitas vezes isso lhe foi negado, porém, na manhã seguinte era encontrado dentro do templo, sem ninguém saber explicar como lhe tinha sido possível entrar.

Seguindo a inspiração divina, descobriu sua via de santidade
Sua igreja preferida era Santa Maria dei Monti. Costumava chegar cedo, quando ela ainda estava fechada. Ajoelhava-se então nos degraus, com o chapéu nas mãos, e ficava olhando para o Céu.

Certa vez, um passante lhe perguntou por que vivia desse modo, e se não seria melhor se tivesse entrado numa Ordem mendicante. Bento respondeu suspirando: "Se fosse do desejo de Deus, Ele teria disposto as coisas de um outro modo".

Mendigava as refeições em algum dos numerosos conventos da cidade pontifícia. Muitas vezes, dava para outros mais pobres do que ele as esmolas que recebia.

De Roma, fez muitas peregrinações a Loreto, a São Nicolau de Bari, a Camaldoli, até mesmo a Einsiedeln,na Suíça, sempre a pé. Tantas vezes passava pelos mesmos caminhos, que alguns conventos nos quais se abrigava pediam-lhe para levar o correio de um lugar para outro. Nunca procurava vaga nas hospedarias, para não ouvir blasfêmias nem freqüentar um ambiente não-religioso.

Numa ocasião, um sacerdote de Loreto ofereceu-se para conseguir-lhe um lugar na Camáldula de Monte Conaro. Após meditar longamente, Bento respondeu: "Deus não quer para mim a via que o senhor me propõe". Esta resposta demonstra claramente como, seguindo a inspiração divina, ele tinha acabado por descobrir qual era o seu caminho de santificação.

Outro sacerdote fez-lhe idêntica proposta, e sugeriu que pelo menos ele procurasse algum trabalho, pois muitos julgavam ser ele um mendigo por mera vagabundagem. Bento respondeu: "Senhor padre, é desejo de Deus que eu viva mendigando. Levante a cortina do confessionário e olhe". O padre assim fez e viu que uma luz sobrenatural saía do rosto do mendigo e iluminava toda a capela.

"Ilustre pelo desprezo de si mesmo e pela pobreza voluntária"
Desse modo, Bento viveu dedicado à oração e vida interior, completamente despreocupado dos bens materiais; não porque não os poderia ter, se quisesse, mas porque tinha renunciado a possuí-los. Esse desprendimento o fez progredir de tal modo nas vias da santidade, que Deus quis chamá-lo cedo para junto de Si.

Na quarta-feira da Semana Santa de 1783, sentiu-se mal ao sair da Igreja de Madonna dei Monti. Levado a uma casa próxima, ali entregou sua alma a Deus. Seus funerais fizeram recordar os de São Felipe

Néri: uma incontável multidão encheu as ruas da Cidade Eterna, e considerava- se feliz quem conseguia tocar em seu féretro.

O próprio Deus parecia empenhado em patentear aos olhos de todos quanto Lhe tinha sido agradável a santa vida desse seu servo: no curto período de 70 dias após sua morte, realizaram-se 36 curas milagrosas em seu túmulo. Desta forma, em menos de quatro meses teve início o processo canônico que levou o "vagabundo de Cristo" a ser beatificado por Pio IX em 1859 e canonizado em 1881 por Leão XIII, que o proclamou "ilustre pelo desprezo de si mesmo e pelo valor de uma extrema pobreza voluntária". Uma via especial de santidade

"A santidade é a vocação de cada um", ensina-nos o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica (nº 165). Mas as vias para atingi-la são muito variadas, e alguns santos são chamados por Deus a trilharem caminhos muito especiais. É o caso, por exemplo, de São Simeão Estilita, que viveu durante anos numa pequena plataforma sustentada por uma coluna de mais de 15 metros de altura, jejuando continuamente e passando a maior parte do tempo em pé.

Com freqüência, um santo recebe a vocação especial de combater algum desvio de sua época. No século XVIII, o alto refinamento da civilização ocidental, de si excelente, estava sendo desviado por influências mundanas e relativistas que levavam inúmeras pessoas a perderem a fé. Nessas circunstâncias, São Bento José Labre, dando o exemplo do extremo desapego aos bens terrenos, servia para mostrar àquela sociedade brilhante, mas frívola, o vazio de uma vida que não tem por objetivo a glória de Deus, o bem do próximo e o serviço da Igreja.

(Revista Arautos do Evangelho, Abril/2006, n. 52, p. 17 à 19)

A virtude da temperança