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domingo, 5 de julho de 2026

O Sacrifício da Obediência

 

Gehorsamopfer — oferecer obediência.
Oferecer-se a Deus como um sacrifício de obediência na Fé. Este é o ponto crucial. Dá-se muita ênfase à própria verdade, à própria liberdade autêntica, e esquece-se as limitações e restrições desse "meu próprio". Há uma tendência a tomar a "minha própria" verdade e liberdade como ilimitadas, definitivas, "no meu caso". Isso é uma perda total. O paradoxo é que somente a Verdade de Deus é, em última análise, a minha verdade (não existe uma verdade para mim, outra para o meu próximo, outra para Deus) e somente a Vontade de Deus é a minha liberdade. Quando elas parecem se opor, estou agindo livremente?
"Bem-aventurados os puros de coração que deixam tudo a Deus agora como antes de existirem" (Mestre Eckhart). É a isso que preciso retornar. Está vindo à tona novamente. Assim como Eckhart foi minha tábua de salvação no hospital, agora ele também me parece o melhor elo para restabelecer a continuidade: minha obediência a Deus gerando o Amor (de Deus) em mim (que nunca cessou!).
~ Thomas “Louis” Merton, do “Diário de 30/06/1966."

Ensina-me


Ó Deus, ensina-me a estar satisfeito com a minha própria impotência na vida espiritual. Ensina-me a contentar-me com a Tua Graça que me chega na escuridão e que opera coisas que não posso ver. Ensina-me a ser feliz por poder depender de Ti. Depender de Ti deveria ser suficiente para uma eternidade de alegria. Depender de Ti, por si só, deveria ser infinitamente maior do que qualquer alegria que o meu próprio apetite intelectual pudesse desejar.
~ Thomas “Louis” Merton, “Entrando no Silêncio” p. 202.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

O ASSUNTO DA MEDITAÇÃO

A meditação deve ter um assunto definido, preciso. No início da vida de oração, quanto mais precisos e concretos formos na meditação, tanto mais êxito teremos. A disciplina que nos impomos para nos concentrarmos num assunto especial claro e nítido tende a unificar as faculdades, dispondo-as assim, remotamente, para a oração contemplativa.
 
ASSUNTO DA MEDITAÇÃO
 
Está claro que a escolha do assunto é de importância na meditação. E torna-se imediatamente evidente, desde que a meditação é uma forma íntima e pessoal de atividade espiritual, que a escolha deva ser pessoal. A maior parte das pessoas não consegue meditar bem num “tema” imposto por outro, sobretudo se é algo de abstrato.

O assunto normal da meditação, conforme a tradição ascética cristã, será algum mistério da fé. [...]

A finalidade da meditação é, portanto, em primeiro lugar, tornar-nos capazes de ver e experimentar os mistérios da vida de Cristo como fatores reais, presentes em nossa própria vida espiritual.

Para tornar essa experiência mais profunda e pessoal, procura a meditação penetrar debaixo da superfície exterior, no sentido íntimo, e, (o mais importante) relacionar os acontecimentos históricos narrados no Evangelho, com a nossa própria vida aqui e agora.


O capítulo "COMO MEDITAR.pdf", na íntegra,
está a sua disposição, basta solicitar AQUI


 
Direção espiritual e meditação
(Vozes, 1965) pág. 109-112
Livro raro
Quando iniciamos duas semanas atrás a série "Como Meditar", a partir da obra "Direção Espiritual e Meditação", 4 exemplares desta raridade estavam disponíveis para venda a "peso de ouro" na internet. Hoje, resta apenas 1 exemplar oferecido por R$ 300 na Estante Virtual. Duas importantes constatações: a) há amigos/amigas de Merton que acreditam no poder transformador dos escritos do monge trapista e vencem as barreiras da escassez de dinheiro e dos preços elevados para ter consigo os ensinamentos seguros de um mestre espiritual; b) precisamos de novas reedições.
A Associação Thomas Merton atua junto às Editoras para conseguir levar aos leitores os tesouros da vida monástica e da espiritualidade contemplativa. Junte-se a nós nessa jornada: Associe-se.

domingo, 8 de outubro de 2017

O ESPÍRITO DE DEUS EM NÓS


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"Se temos o Espírito de Deus em nosso coração, viveremos pela sua lei de caridade sempre mais inclinados à paz do que a dissensões; mais à humildade do que à arrogância; mais à obediência do que à rebeldia; tendendo à pureza e temperança; à simplicidade, quietude e calma; à força, generosidade, sabedoria e prudência; à justiça que a tudo abraça; e amaremos os outros mais do que a nós mesmos, porque este é o mandamento de Jesus: que amemos um ao outro como Ele nos amou (cf. Jo 15,12).

Nada disso pode ser feito sem a oração, e o nosso primeiro movimento em tudo deve ser para a oração, não só para descobrirmos a vontade de Deus, mas, sobretudo, para ganharmos a graça de levá-la a termo, com toda a força do nosso desejo."

Thomas Merton, "Homem Algum é uma Ilha", Verus 2003, pág. 65.

A ORAÇÃO



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“A oração é inspirada por Deus nas profundezas do nosso nada. Ela é o movimento de confiança, gratidão, adoração ou pesar, que nos coloca diante de Deus, vendo tanto a Ele como a nós mesmos à luz de sua verdade infinita e nos move a pedir-Lhe a sua misericórdia, a força espiritual, o auxílio material de que todos precisamos.”

Thomas Merton - “Homem algum é uma ilha” Capítulo III Consciência, Liberdade e Oração” § 13.

POR QUE ORAMOS

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"Não oramos simplesmente para orar, e sim para sermos ouvidos. Não oramos para ouvir-nos orar, mas a fim de que Deus nos possa ouvir e responder. Tampouco oramos para receber apenas qualquer resposta: tem de ser a resposta de Deus."
Thomas Merton, "Na Liberdade da Solidão", Vozes 2014, pág. 81.

sábado, 7 de outubro de 2017

COMUNHÃO DOS SANTOS


"Cristo orou para que todos fossem Um como ele e o Pai são Um, na Unidade do Espírito Santo. Quando, portanto, você e eu nos tornamos aquilo que estamos destinados a ser, descobrimos não apenas que nos amamos mutuamente com perfeição, mas que estamos ambos vivendo em Cristo e Cristo em nós e que somos todos Um em Cristo. E veremos que é ele que ama em nós.


A perfeição última da vida contemplativa não consiste num paraíso de indivíduos separados, atento cada qual à sua própria intuição particular de Deus; é um oceano de Amor que flui através do único Corpo de todos os eleitos, todos os anjos e santos, e a contemplação deles seria incompleta se não fosse partilhada ou se o fosse com menor número de almas ou com espíritos suscetíveis de menor visão e de menos alegria."

Thomas Merton, Novas Sementes de Contemplação, Editora Fisus, 1999, pág. 70.

CAMINHAR O PRÓPRIO CAMINHO

"Como esperar alcançar o fim de nossa viagem se tomamos o caminho que leva à cidade de outros? Como esperar atingir nossa própria perfeição, levando a vida de outros? A santidade deles jamais será a nossa.
É necessário, portanto, haver humildade heroica para sermos nós mesmos e para não sermos nenhum outro senão o homem ou o artista que Deus nos destinou ser."

Thomas Merton, "Novas Sementes de Contemplação", Fisus 1999, pág. 103.

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Foto: A ponte tibetana em Claviere, Piemonte, Itália.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Carregar os fardos

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“ Deve-se admitir, portanto, que, se o evangelho da paz não é mais convincente quando anunciado por cristãos, isso bem pode ser por eles terem deixado de dar um exemplo vivo de paz, unidade e amor. Na verdade, temos que compreender que a Igreja nunca pretendeu ser absolutamente perfeita na terra, e que ela é Igreja de pecadores, carregada de imperfeições. A paz cristã e a caridade cristã estão baseadas nessa necessidade de ‘carregar os fardos uns dos outros’, de aceitar as fraquezas que infestam a nossa e a vida dos outros. Nossa unidade é uma luta contra a desunião, e a nossa paz subsiste no meio do conflito.”


Peace in the Post-Christian Era, de Thomas Merton
Editado por Patricia A. Burton. Apresentação de Jim Forest.
(Orbis Books, Maryknoll, New York), 2004. p. 129

domingo, 1 de janeiro de 2017

POR UM SÁBIO CORAÇÃO


Thomas Merton & Juliana de Norwich (1342-c.1420)

"27 de Dezembro de 1961 - São João
Primeiro choveu, mas agora, de tarde, o dia acabou ficando firme e agradável. Há um ventinho cortante e o sol está de fora, apesar de fraco. A maioria, sentados no mosteiro, escrevendo cartas.
Hoje cedo rezei muito por um mais sábio coração. Acho que o presente deste Natal foi a verdadeira descoberta de Julian of Norwich.
Há muito tempo eu a vinha rodeando e parava-lhe à porta e sabia que ela era uma de minhas melhores amigas, e justamente por estar tão seguro de sua sábia amizade, não me apressava em procurar o que agora encontro.
Vejo-a como uma autêntica teóloga, com maior clareza e organização e profundidade até do que Santa Teresa de Ávila. Quero dizer que ela realmente elabora o conteúdo da revelação como experienciado a fundo. Experienciado primeiro, ele depois é pensado e o pensamento novamente se aprofunda na vida, de modo que em toda sua existência o conteúdo de sua própria visão foi penetrando cada vez mais nela.
Uma das principais convicções é sua orientação escatológica para o ato central, dinâmico e secreto 'pelo qual todos ficarão bem' no último dia, nossa GRANDE FAÇANHA, 'ordenado por Nosso Senhor desde nenhum começo'.
Especialmente o primeiro paradoxo - ela tem de 'crer' e aceitar a doutrina de que existem malditos, porém também a 'palavra' de Cristo será 'salva em todas as coisas' e 'todas as coisas de todas as espécies ficarão bem'. O cerne de sua teologia é essa aparente contradição na qual ela se manterá com firmeza.
Creio que o 'sábio coração' pelo qual rezei reside precisamente nisto - manter-se nessa esperança e nessa contradição, fixado na certeza da 'grande façanha', que é a única a dar ao cristianismo e à vida espiritual sua verdadeira e completa dimensão."

Thomas Merton, em "Merton na Intimidade - Sua Vida em Seus Diários", Fisus 2001, pág. 219-220.

sábado, 24 de setembro de 2016

O que é ser salvo?



"Temos de ser salvos da imersão num mar de mentiras e de paixões denominado 'o mundo'. E temos, sobretudo, de ser salvos do abismo de confusão e de absurdo que é o nosso próprio ser mundano. A pessoa tem de ser salva do indivíduo.
O filho de Deus, livre, tem de ser salvo do escravo conformista da fantasia, da paixão e da convenção. O ser íntimo, misterioso e criador tem de ser libertado do ego esbanjador, hedonista e destruidor, que procura apenas cobrir-se com disfarces.
Estar 'perdido' é estar entregue à arbitrariedade e aos subterfúgios do eu contingente, do ser feito de fumaça que terá inevitavelmente de desaparecer. Ser 'salvo' é voltar à própria realidade inviolada e eterna, é viver em Deus."

Thomas Merton, "Novas Sementes de Contemplação", Fisus 1999, pág. 46 (Capítulo 6. Reze pela sua própria descoberta).
Foto de Bill Murphy - Caminho para pedestres da Abadia de Gethsemani.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Rezai pela descoberta de vós próprios


Thomas Merton

Existe um ponto em que posso encontrar Deus, num contato real e experimental com a Sua infinita realidade: é aquele em que o meu ser contingente depende do Seu amor. Há em mim próprio, por assim dizer, um ponto culminante de existência em que sou mantido em vida pelo meu Criador.

Deus pronuncia-me como uma palavra que contém uma parcela do Seu pensamento. Uma palavra nunca é capaz de conceber a voz que a pronuncia. Mas se estou em conformidade com o conceito que Deus pronuncia em mim, se estou em conformidade com o pensamento d'Ele que era meu destino encarnar, estarei cheio da Sua realidade, encontrá-Lo-ei por toda a parte em mim próprio e não me encontrarei em qualquer outra parte. Estarei perdido n'Ele.

Quem, dentre vós, é capaz de reentrar em si próprio e aí encontrar o Deus que o pronuncia?

Se, como os místicos orientais, conseguirdes esvaziar o vosso espírito de qualquer pensamento e de qualquer desejo, podereis, na verdade, isolar-vos no centro de vós próprios e concentrar tudo o que existe em vós no ponto imaginário em que a vossa vida jorra de Deus, mas, no entanto, não encontrareis Deus. Nenhuma prática ou exercício natural pode levar-vos a um contato vital com Ele. A menos que Ele não se exprima em vós, que Ele não pronuncie o Seu próprio nome no centro da vossa alma, não O conhecereis melhor do que um seixo conhece o solo em que, na sua inércia, repousa.

A nossa descoberta de Deus é, dalgum modo, a descoberta que Deus faz de nós. Não podemos ir procurá-Lo ao céu, porque não temos qualquer meio de saber onde está o céu e o que é. Ele é que desce do céu e é Quem nos encontra. Olha-nos das profundezas da Sua infinita realidade, que está em toda a parte, e o fato de Ele nos ver confere-nos uma realidade superior, na qual também nós, por nossa vez, O descobrimos. Só O conhecemos na medida em que Ele nos conhece, e contemplá-Lo é participar na Sua contemplação d'Ele Próprio.

É no instante em que Deus se descobre em nós que nós nos tornamos contemplativos. Nesse momento, revela-se-nos o nosso ponto de contato com Ele, atravessamos o centro da nossa alma e entramos na eternidade.

É exato Deus conhecer-Se em todas as coisas que existem. Vê-las e é porque Ele as vê que elas existem. É porque ele as ama, que elas são boas. O amor que nelas põe é que faz a sua bondade intrínseca. O valor que Ele vê nelas é que faz o seu valor. É na medida em que Ele as vê e as ama que todas as coisas O refletem.

Mas, embora Deus esteja presente em todas as coisas pelo Seu conhecimento, o Seu amor, o Seu poder e o Seu interesse por elas, elas não têm d'Ele, necessariamente, consciência e conhecimento. Não é conhecido e amado senão por aquelas que generosamente admitiu a partilhar o Seu próprio conhecimento e o Seu próprio amor.

Para O conhecer e O amar tal como é, torna-se necessário que Deus habite em nós de uma nova e especial maneira. Assim Deus ajuda-nos, por missões sobrenaturais da Sua própria vida, a vencer as distâncias infinitas que O separam dos espíritos criados para O amar. O Pai, que habita no mais íntimo de todas as coisas e no mais íntimo de mim próprio, comunica-me o Seu Verbo e o Seu Espírito e, nessas missões, eu sou arrebatado para a Sua própria vida e conheço Deus no Seu próprio Amor.

A descoberta que faço da minha identidade começa nessas missões e nelas se completa, visto ser por elas que Ele Próprio, Deus, trazendo em Si Mesmo o segredo de quem eu sou, começa a viver em mim, não somente como meu Criador mas como um outro verdadeiro eu. Vivo, iam non ego, vivit vero in me Christus.

Essas missões começam no Batismo. Mas não assumem qualquer significação prática na vida das nossas faculdades até nos tornarmos capazes de atos de amor consciente. Daí por diante é que a presença particular de Deus em nós depende inteiramente das nossas próprias preferências. Daí por diante, a nossa vida torna-se uma série de opções entre a ficção do nosso falso eu, que alimentamos com as ilusões da paixão e dos apetites egoístas, e a nossa verdadeira identidade na paz de Deus.

Enquanto existo na terra, o meu espírito e a minha vontade permanecem mais ou menos impenetráveis às missões do Verbo de Deus e do Seu Espírito. Não recebo facilmente a Sua luz.

Cada manifestação dos meus apetites naturais, mesmo se a minha natureza é boa em si, tende, duma maneira ou doutra, a manter viva em mim a ilusão que contraria a realidade de Deus vivendo em mim. Os meus atos naturais, mesmo quando são bons, têm uma tendência quando apenas naturais, a concentrar as minhas faculdades sobre o homem que eu não sou, que não posso ser, o falso eu que há em mim, a personagem que Deus não conhece. É porque nasci no egoísmo. Nasci egocentrado, E é isto o pecado original.

Mesmo quando me esforço por agradar a Deus, tendo a agradar à minha própria ambição, Sua inimiga. Pode haver imperfeição mesmo no ardente amor duma grande perfeição, mesmo no desejo da virtude e da santidade. O próprio desejo da contemplação  pode ser impuro, quando esquecemos que a verdadeira contemplação significa a destruição completa de todo o egoísmo e a mais pura pobreza e limpidez de coração.

Embora Deus viva nas almas de homens que não têm consciência d'Ele, como posso dizer que O encontrei e me encontrei n'Ele, se não O conhecer nunca, se jamais pensar n'Ele, se não me interessar por Ele, não O procurar ou não desejar a Sua presença na minha alma? Para que serve dirigir-lhe algumas orações simplesmente formais, voltar-me depois para o outro lado, e dar todo o meu espírito e toda a minha vontade às criaturas, só me preocupando com objetivos muito afastados d'Ele?Mesmo quando a minha alma pudesse estar isenta de culpa, se o meu espírito não pertence a Deus, então também eu não Lhe pertenço. Se os meus desejos, em lugar de caminharem até Ele, se dispersam na Sua Criação, é porque reduzi a Sua vida em mim ao nível de uma formalidade, não permitindo que sobre mim exerça uma ação verdadeiramente vital.

Desculpai a minha alma, ó meu Deus, mas enchei também a minha vontade com o fogo das vossas fontes. Resplandecei no meu espírito, se bem que, talvez, isto signifique "sede trevas para a minha experiência", mas enchei o meu coração da Vossa Vida prodigiosa. Que os meus olhos só vejam no mundo a Vossa glória e que as minhas mãos não toquem nada que não seja para Vosso serviço. Que a minha língua só conheça o sabor do pão que me fortifique para Vos glorificar. Cantando os Vossos hinos, ouvirei a Vossa voz e todas as harmonias que Vós criastes. A lã da ovelha e o algodão dos campos dar-me-ão calor suficiente para que possa viver ao Vosso serviço; darei o resto aos Vossos pobres. Que me utilize de todas as coisas pelo único motivo de encontrar a minha alegria em glorificar-Vos magnificamente.

Antes de tudo, portanto, preservai-me do pecado. Livrai-me da morte do pecado mortal que põe o inferno na minha alma. Preservai-me do crime da concupiscência, que cega e envenena o meu coração. Preservai-me dos pecados que vão consumindo a carne do homem com um fogo irresistível, até o devorarem. Preservai-me do amor do dinheiro, que contém o ódio, da avareza e da ambição, que asfixiam a minha vida. Livrai-me das inúteis tarefas da vaidade, e do labor estéril em que os artistas se gastam a si próprios por orgulho, dinheiro e fama, e em que os homens piedosos são esmagados sob a avalanche de seu próprio e importuno zelo. Tratai, em mim, a fétida chaga da cobiça e os apetites que sangram a minha natureza até ao esgotamento. Esmagai a serpente da inveja que inflige ao amor a sua venenosa mordedura e que mata toda a alegria.

Soltai as minhas mãos e libertai o meu coração da sua indolência. Libertai-me da preguiça que se agita mascarada de atividade, quando não é atividade que se me pede, e da covardia que realiza o que não se exige com o fim de evitar um sacrifício.

Dai-me, porém, a força que se aplica a servir-Vos em paz e em silêncio. Dai-me a humildade em que reside a única possibilidade de repouso, e livrai-me do orgulho, que é o mais pesado dos fardos. Penetrai todo o meu coração, toda a minha alma, da simplicidade do amor. Enchei toda a minha vida só com o pensamento e com o desejo do amor; que me seja permitido amar não por amor do mérito, não por amor da perfeição, não por amor da virtude, não por amor da santidade, mas só por Deus.

Porque há uma só coisa que pode satisfazer o amor e recompensá-lo: Deus somente.

Eis, portanto, o que significa procurar Deus perfeitamente: desviar-me da ilusão e do prazer, das inquietações e dos desejos deste mundo, das obras de que Deus não necessita, de uma glória que mais não é do que humana vanglória; conservar o meu espírito liberto de qualquer perturbação, a fim de que a minha liberdade esteja sempre à disposição da Sua vontade; manter silêncio no meu coração e escutar a voz de Deus; cultivar a liberdade intelectual de afastar da minha inteligência, conceitos e imagens das criaturas, a fim de, na fé, sentir o contato secreto de Deus; amar todos os homens como a mim mesmo; repousar na humildade e encontrar a paz afastando-me das lutas e das rivalidades; manter-me à distância das discussões e livrar-me do pesado fardo dos juízos, da censura e da crítica, e de toda a carga de opiniões que não tenho qualquer obrigação de transportar; ter uma vontade que esteja sempre pronta a dobrar-se sobre si própria e a concentrar no mais profundo de si todas as forças da alma, para aguardar em silenciosa expectativa a vinda de Deus, permanecendo em suspenso, numa concentração tranquila e sem esforço, sob o pensamento de quedependo d'Ele em tudo; reunir tudo o que tenho e tudo o que sou capaz de suportar, de fazer ou de ser, e dar tudo isso a Deus, na submissão de um amor perfeito, de uma fé cega, de uma confiança sincera, para cumprir a Sua vontade.

E, depois, esperar, na paz, o abandono e o olvido de todas as coisas.

Thomas Merton, Sementes de Contemplação

http://amorepobreza.blogspot.com.br/2011/12/rezai-pela-descoberta-de-vos-proprios.html

quarta-feira, 27 de julho de 2016

A misericórdia de Deus

"Somente a misericórdia e o amor infinito de Deus evitaram que nós nos tivéssemos dilacerado mutuamente e tivéssemos destruído toda sua criação há muito tempo. Muitos pensam que as muitas guerras são de certa forma um prova de que não existe um Deus de misericórdia. Pelo contrário, considere-se como, apesar dos séculos de pecado, ganância, luxúria, crueldade, ódio, avareza, opressão e injustiça, engendrados e reproduzidos pela livre vontade das pessoas, a raça humana consegue recuperar-se cada vez e ainda produzir homens e mulheres que vencem o mal com o bem, o ódio com o amor, a ganância com a caridade, a luxúria e a crueldade com a santidade. Como seria isso possível sem que o amor misericordioso de Deus derramasse sua graça sobre nós? Pode haver alguma dúvida sobre a procedência das guerras e da paz, quando os filhos deste mundo, excluindo Deus de suas conferências de paz, produzem guerras sempre maiores enquanto vão falando de paz?

Basta abrir os olhos e dirigi-los ao nosso redor para vermos o que os nossos pecados estão fazendo ao mundo e já fizeram. Mas não conseguimos enxergar. Somos aqueles de quem disse o profeta Isaías: “Ouvireis com os ouvidos e não compreendereis, olhareis com os olhos e não enxergareis”.

The Seven Storey Mountain, de Thomas Merton
(Harcourt, Brace, New York), 1948

http://reflexoes-merton.blogspot.com.br/2013/03/a-misericordia-de-deus.html

segunda-feira, 18 de julho de 2016

DIFERENÇA ENTRE SOLITUDE E SOLIDÃO

Adicionar legenda
Há uma palavra muito usada por Thomas Merton em suas obras, cuja tradução para o português é na verdade uma “traição”, pois encobre seu verdadeiro sentido. Trata-se da palavra solitude, traduzida invariavelmente por solidão em nosso país.


Por exemplo, o livro de Merton em inglês “Thoughts in Solitude” seria em Português “Pensamentos em Solitude”, porém foi traduzido como “Na Liberdade da Solidão”, e praticamente todas as vezes que aparece a palavra solidão no livro em português, a referência em inglês é solitude.


Qual é a diferença então entre solidão e solitude?


Essa pergunta foi feita num comentário a uma postagem nesta página e obteve a resposta da amiga Danielle Neroni, que citou uma frase muito esclarecedora de Paul Tillich, teólogo alemão:


“A linguagem criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho.” (Tillich)


Para Thomas Merton, somente a solitude permite experimentar a alegria do silêncio, do mergulho em si mesmo e do encontro com a Natureza e com Deus na contemplação. Trata-se portanto de uma palavra que, longe de expressar isolamento, nos remete ao Encontro.


Por isso, há tantas diferenças entre as palavras solitude e solidão quantas há entre silêncio e ruído, plenitude e vazio, alegria e tristeza, serenidade e ansiedade, etc.


O Professor Felipe de Souza* encontrou a citação de Paul Tillich no livro “The Eternal Now” (O eterno agora) e comparou as duas palavras em português, inglês e alemão:


[“A linguagem (…) criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho.” Em inglês: “Language… has created the word ‘loneliness’ to express the pain of being alone. And it has created the word ‘solitude’ to express the glory of being alone”.


Etimologicamente, em português, tanto solidão quanto solitude vêm do latim ‘solitudine’. No nosso cotidiano, passamos a usar sempre a palavra solidão e vemos muito pouco o uso da palavra solitude. Em inglês, a diferença entre solidão (loneliness) e solitude destaca melhor o conceito que Tillich está procurando descrever. Em alemão, igual diferença está presente nas palavras ‘Einsamkeit’ (solidão – loneliness) e ‘Alleinsein’ (literalmente, ser sozinho, solitude).”]


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Perdendo a fé

“Quantas pessoas no mundo de hoje ‘perderam a fé’ junto com as esperanças vãs e as ilusões da infância? O que chamavam de ‘fé’ era só uma dentre todas as outras ilusões. Puseram toda sua esperança numa certa sensação de paz espiritual, de conforto, de equilíbrio interior e respeito por si próprios.


Quando, porém, começaram a lutar com as dificuldades reais e os fardos da vida madura, quando perceberam sua própria fraqueza, perderam a paz, abandonaram o preciso respeito por si mesmos, e se tornou impossível ‘crer’. Isto é, tornou-se impossível para eles se reconfortarem, se tranquilizarem com as imagens e os conceitos que, na infância, achavam apaziguadores.”


New Seeds of Contemplation, de Thomas Merton
(New Directions, New York), 1961. p. 187
No Brasil: Novas Sementes de Contemplação, (Editora Fissus, Rio de Janeiro), 2001. p. 185




quarta-feira, 29 de junho de 2016

Para viver no Espírito...

"Se queremos ter vida espiritual, temos que unificar nossa vida.
Para unificar nossa vida, unifiquemos nossos desejos.
Para espiritualizar nossa vida, espiritualizemos nossos desejos.
Para espiritualizar nossos desejos, desejemos não ter desejos.

Viver no espírito é viver para Deus, em quem cremos sem poder vê-lo.
Desejar isso é, portanto, renunciar ao desejo de tudo que pode ser visto.
Possuir aquele que não pode ser compreendido é renunciar a tudo que pode ser compreendido.
Para repousar naquele que está para além de todo repouso criado, renunciamos ao desejo de repousar nas coisas criadas.

Renunciando ao mundo, conquistamos o mundo e nos elevamos acima de sua multiplicidade, tudo reunindo na simplicidade de um amor que tudo encontra em Deus."

Thomas Merton, "Na Liberdade da Solidão", Vozes 2014, pág. 47.

domingo, 6 de março de 2016

O fundamento da solidão

"Está verdadeiramente só quem está escancarado para o céu e para a terra e não está fechado para ninguém.

O Amor não é um problema, nem uma resposta a uma pergunta. O Amor não conhece nenhuma pergunta. Ele é a base de tudo, e as questões só surgem na medida em que estamos divididos, ausentes, separados, alienados desse fundamento.

Mas a natureza exata de nossa sociedade é provocar essa divisão, essa alienação, essa separação, essa ausência. Daí vivermos num mundo no qual, embora o entulhemos com nossas posses, nossos projetos, nossas explorações e nossas maquinarias, nós mesmos estamos ausentes. Daí vivermos num mundo no qual dizemos: ‘Deus está morto’, e dizemos isso, em certo sentido, com razão, por não sermos mais capazes de ter a experiência da verdade de estarmos completamente enraizados e fundamentados em Seu Amor.

Como podemos redescobrir essa verdade?"

domingo, 31 de janeiro de 2016

Minha derrota, minha salvação

“Se minha natureza tivesse teimado mais em agarrar-se aos prazeres que me desgostavam; se ela se tivesse recusado a admitir que fora derrotada por esta procura fútil de satisfação onde não podia ser encontrada, e se minha constituição moral e nervosa tivesse sucumbido ao peso de meu próprio vazio, quem sabe o que poderia ter acontecido comigo? Quem poderia dizer onde eu teria acabado? 

Tinha ido longe demais para encontrar-me agora neste beco sem saída; mas a angústia e a impotência de minha situação foi algo a que sucumbi rapidamente. E minha derrota tornou-se a causa de minha salvação.”

http://reflexoes-merton.blogspot.com.br/2013/03/minha-derrota-minha-salvacao.html

Sobre o sofrimento

“Na verdade, o que muitos não entendem até ser tarde demais é que quanto mais você tenta evitar o sofrimento, mais você sofre, porque coisas pequenas e insignificantes começam a torturá-lo na proporção de seu medo de ser ferido. Aquele que mais se esforça para evitar o sofrimento é, afinal, o que mais sofre, e seu sofrimento vem de coisas tão pequenas e triviais que se pode dizer que já não é de forma nenhuma objetivo. É sua própria existência, seu próprio ser o sujeito e a fonte de sua dor, e sua existência e sua consciência serão sua maior tortura.”

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Uma sabedoria diferente

“ Deve haver um momento no dia em que o homem que faz planos os esqueça e aja como se não tivesse feito plano algum.

Deve haver uma hora do dia em que o homem que precisa falar fique em total silêncio. E que sua mente não mais formule raciocínios e ele se pergunte: tinham algum sentido?

Deve haver um tempo em que o homem de oração vai orar como se fosse a primeira vez que ora na vida; quando um homem resoluto põe suas resoluções de lado como se todas tivessem sido quebradas e aprende uma sabedoria diferente: distinguir entre o sol e a luz, entre as estrelas e as trevas, entre o mar e a terra firme, entre o céu noturno e a encosta da colina. ”





No Man is an Island, de Thomas Merton
(Harcourt Brace Jovanovich, Publishers, New York), 1955. p. 260
No Brasil: Homem algum é uma ilha, (Verus Editora, Campinas), 2003. p. 218

http://reflexoes-merton.blogspot.com.br/search/label/%C3%81udio

Modo de Fazer Oração Mental, por Santo Afonso

  A meditação ou oração mental contém três partes: A Preparação A Meditação A Conclusão I. PREPARAÇÃO Na preparação fazem-se três atos: 1º A...