sábado, 27 de fevereiro de 2016

A arte de sofrer bem

A paciência – para dizê-lo em poucas palavras- é a capacidade de sofrer dignamente, a arte de “sofrer bem”. Seu ponto alto consiste em saber sofrer serenamente, generosamente e sem queixas, por amor a alguém. Esta é a virtude humana da paciência.
Quando essa virtude é praticada por um bom cristão, movido pelo Espírito Santo, pode-se definir como a arte de sofrer com fé e esperança em Deus e, sobretudo, com muito amor a Deus e ao próximo. Esta é a virtude cristã ou sobrenatural da paciência.
Vamos ver a seguir dois belos exemplos de cada uma dessas duas “paciências”. Ambos são narrados pelo professor de psiquiatria da Universidade de Madrid e escritor J. A. Vallejo-Nágera, no seu livro Concierto para instrumentos desafinados. Trata-se de algumas das muitas recordações que o médico registra como “momentos do coração” no seu trabalho diário.
O tradutor
O primeiro caso é a história de um tradutor diplomado. Foi-lhe diagnosticado um câncer de pulmão, e simultaneamente deram-lhe a notícia de que lhe restavam poucos meses de vida. Homem sem fé, procurou no psiquiatra as soluções que não sabia buscar em Deus. Pensava na esposa, que amava muito, e tremia ante a possibilidade de fazê-la sofrer:
- «Temo que me falte coragem e serenidade, e que assim amargure os nossos últimos meses de convívio. Fisicamente, creio que posso agüentar; só temo falhar psicologicamente. Foi por isso que vim, doutor, para ter uma orientação técnica, um ponto de apoio, e poder dissimular até o final ou fingir que não sofro. Quando a minha mulher ficar sabendo do câncer, se ela julgar que eu não estou sofrendo, conseguirei pelo menos aliviar-lhe este calvário que não lhe posso evitar».
Causa uma certa pena esse sofrimento pendurado no vazio de um bom coração que não conhece a Deus. Mas, sem dúvida alguma, havia uma enorme grandeza nesse seu desejo de ser autenticamente paciente, de saber “sofrer bem”. Esse homem bom, justamente porque tinha muito amor à esposa, estava procurando forças humanas para conseguir que esse seu amor por ela, a quem queria poupar, lhe ensinasse a sofrer “bem”.
O padre humilde
O segundo caso é diferente. Trata-se de um padre cheio de fé, que procurava também no psiquiatra um conselho para sofrer melhor. O médico narrador conta-nos que era um padre humilde, «tão insignificante que nem sequer era ridículo». Tinha dedicado a vida, até aos sessenta e tantos anos, à sua tarefa de bom pastor das almas, especialmente cuidando das doenças espirituais no confessionário.
Desde fazia algum tempo, tinha-se-lhe manifestado uma depressão endógena grave – assim a qualifica e descreve o especialista -, com as suas seqüelas mórbidas e características de tristeza, desconsolo, remorso, pessimismo esmagador e perda do desejo de viver.
O sofrimento era grande. Mas, nesse caso, o médico comoveu-se profundamente porque o paciente não parecia querer consolo, nem compaixão, nem alívio do sofrimento em si. «Não parecia muito interessado – esclarece o psiquiatra – no alívio do tormento… Que queria, então? Queria continuar a amar».
- «Até agora – dizia o padre ao doutor -, tenho levado uma vida sem pena nem glória. A Glória, eu a espero para depois, no Céu, e sei que é preciso adquiri-la por meio da pena.
«Recebi com gratidão o fato de Deus me ter enviado no final da vida a minha cruz; estava até desejando ter uma para poder carregá-la junto com Jesus. Bendigo, por isso, a Deus todos os dias, por se ter lembrado de mim no final, quando já me resta muito pouco tempo de vida e parecia ter perdido qualquer oportunidade de ganhar alguns méritos.
«Mas estou notando que agora, no confessionário, na direção espiritual, não sinto as coisas como antes, como ao longo de toda a minha vida, com entusiasmo por ajudar, com esse carinho espontâneo cheio de afetuosa ansiedade, cheio da necessidade de aliviar os que recorrem a mim. Consigo dar conselhos porque o cérebro funciona, mas não os sinto com o coração, e isso soa-me a nota falsa, artificial, e assim não posso consolar os meus fiéis como antes.
«Nunca me tinha acontecido isso, tem que ser uma doença. É o que lhe peço que me cure, doutor: a doença. O resto irá passando com o tempo, e, se não, louvado seja Deus!».
Esta história é verdadeiramente comovente! Toda ela é um clarão de luz sobre a virtude da paciência. Aquele padre zeloso, desprendido e humilde, sentia-se muito doído e confuso, não por estar sofrendo – coisa que aceitava por amor a Deus -, mas porque o sofrimento causado pela doença lhe tornava difícil manter a vibração da alma e transmitir conforto, ânimo e alegria aos seus penitentes.
Vale a pena meditar um pouco sobre isso, e perguntarmo-nos:
- E eu? Como é que encaro os meus sofrimentos, as minhas contrariedades? Será que o meu amor a Deus e ao próximo é mais forte do que a minha dor, ou, pelo contrário, a contrariedade me derruba e me torna um peso para os outros?
- Será que a minha fé e o meu amor me levam abraçar com espírito cristão as cruzes da vida, desejando sinceramente esquecer-me de mim mesmo, de todo e qualquer egoísmo, de modo que só reze e lute para que os meus problemas não caiam sobre os outros como um fardo, não os atormentem nem os entristeçam?
[Adaptação de um trecho do livro de F.Faus: A paciência]

http://www.padrefaus.org/archives/585

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Estado miserável dos que recaem no pecado


Et fiunt novissima hominis illius peiora prioribus — “E o último estado daquele homem virá a ser pior do que o primeiro” (Luc. 11, 26).


Sumário. Meu irmão, já que resolveste dar-te todo a Deus, e já o executaste, não creias que as tentações tenham terminado. Antes, mais do que nunca, prepara-te para travar combate com o demônio, que, como diz Jesus Cristo, buscando repouso e não o achando, redobra os esforços para tornar a entrar na alma donde foi expulso. Desgraçado de quem torna a cair depois de ser levantado! Irá enfraquecendo cada vez mais; Deus retirará a sua mão com as graças; e assim o fim de tal homem será pior do que o princípio.

I. Meu irmão, já que resolveste dar-te todo a Deus, e assim o executaste, não acrediteis que se tenham acabado as tentações. Escuta o que te diz Jesus Cristo no Evangelho de hoje: “Quando o espírito imundo saiu do homem, anda por lugares desertos, buscando repouso; e não a achando, diz: Voltarei para a casa donde saí. E quando chega, acha-a varrida e adornada. Vai então, e toma consigo outro sete espírito piores do que ele, e, entrando na casa, fazem nela habitação. E o último estado daquele homem virá a ser pior do que o primeiro”.

Com isto o Senhor nos quer dizer que, quanto mais uma alma procura unir-se a Deus e servi-Lo, tanto mais contra ele se enfurece o inimigo, e procura entrar na alma donde foi desterrado. Se o consegue, não entra mais sozinho, mas traz companheiros consigo, para melhor se aquartelar, e assim a segunda ruína da mísera alma será pior do que a primeira.

Diz Santo Tomás que todo o pecado, ainda que tenha sido perdoado, deixa sempre a ferida causada pela culpa. Se portanto se junta outra ferida à antiga, fica a alma tão enfraquecida, que para se levantar precisará de uma graça especial. Por outra parte, Deus não concederá facilmente semelhante graça a um ingrato, que, depois de ser chamado com tão grande amor, e admitido à sua amizade, depois de assentar-se à Mesa eucarística para se alimentar com o Corpo sagrado de Jesus, esquecendo-se de todas estas misericórdias divinas, se revolta contra Ele e Lhe prefere o demônio. Ah! O Senhor fica em extremo sensibilizado com tamanha ingratidão, e por isso: Fiunt novissima hominis illius peiora prioribus — “O último estado daquele homem virá a ser pior do que o primeiro”.

II. Ai daquele que, sendo amigo de Deus e tendo recebido muitas graças, torna a cair e se declarar seu inimigo e escravo do demônio! — Irmão meu, a fim de que te não suceda tamanha desgraça, esforça-te de toda a maneira por ficares constante na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a tentação (1). Examina novamente a tua consciência; estuda todas as tuas paixões, especialmente a que no passado tenha sido a tua paixão dominante. Quando sentires que as inclinações más tornam a brotar em tua alma, procura abatê-las depressa pelos meios que o teu confessor te indicar, antes que ganhem força; no caso contrário serão os teus mais formidáveis inimigos.

A arma principal, porém, de que te deves servir, é a oração, porque o espírito imundo é um campeão armado, mais robusto do que tu, e que além de uma longa experiência tem a inteligência e a força de anjo. Numa palavra, lembra-te que quem na tentação ora e se recomenda a Deus, certamente será vencedor; e quem não ora, será vencido e se condenará.

Ó Jesus, meu Redentor, pelos merecimentos de vosso sangue espero que já me haveis perdoado as ofensas que Vos fiz, e que irei agradecer-Vos eternamente no paraíso. Vejo que no passado caí e recaí miseravelmente, porque me descuidei de recorrer a Vós. Agora peço-Vos a santa perseverança e proponho pedi-la sempre, especialmente quando me vir tentado. Mas de que me valerá esta minha resolução, se Vós não me derdes a força para cumpri-la? Rogo-Vos pelos merecimentos de vossa paixão, me concedais a graça de recorrer a Vós em todas as minhas necessidades. — “Dignai-Vos, ó Deus todo-poderoso, atender às minhas humildes súplicas, e estender em minha defesa o braço da vossa majestade” (2). Fazei-o pelo amor de vossa e minha queria Mãe Maria. (*III 431)
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1. Ecclus. 2, 1.
2. Or. Dom. curr.

(Santo Afonso Maria de Ligório. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Primeiro: Desde o primeiro Domingo do Advento até Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 337-339.)

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sábado, 20 de fevereiro de 2016

A Importância das leituras espirituais, por São João Bosco.


Além das costumadas orações de manhã e da noite, peço-vos que destineis também um pouco de tempo á leitura de algum livro, que trate de coisas espirituais, como o livro da Imitação de Cristo, A Filotéia de São Francisco de Sales, A preparação para a Morte de Santo Afonso Maria de Ligório, Jesus ao coração do Jovem, as vidas dos santos e outros semelhantes.Da leitura de tais livros tirareis grandes vantagens para a vossa alma.E se repetirdes aos outros o que lerdes ou então se lerdes em presença deles, especialmente dos que não souberem ler, fareis uma obra de caridade muito meritória perante Deus.

Mas ao mesmo tempo que vos inculco as boas leituras, tenho que recomendar-vos, com todas as veras de minha alma, que fujais como da peste dos maus livros e da má imprensa.Por isso, todo livro, todo jornal ou folheto em que se fale mal da religião e de seus ministros ou em que haja coisas imorais e desonestas, lançai-os logo para longe de vós, como farias com um copo de veneno.Em tais casos deveis imitar os cristãos de Éfeso, quando ouviram São Paulo pregar sobre o dano que causaram os maus livros.Aqueles fervorosos fiéis carregaram-nos as braçadas para a praça pública e com eles fizeram uma fogueira, achando melhor queimar todos os livros do mundo do que expor a alma ao perigo de cair no fogo inextinguível do inferno.


Assim como o nosso corpo sem alimento adoece e morre, da mesma forma a nossa alma definha, se não lhe dermos o seu alimento: o alimento da alma é a palavra de Deus, isto é, as práticas, a explicação do Evangelho e o Catecismo.Fazei pois toda diligência em estardes em tempo na igreja, e portai-vos nela com a maior atenção aplicando a vós mesmos as coisas que se relacionam com vosso estado.Recomendo-vos também muito que freqüenteis o catecismo.Não digais: Já o estudei, já fiz a primeira comunhão; pois que também nesse caso a vossa alma precisa de alimento, como vosso corpo.E se a privais deste sustento, vos poreis em gravíssimo perigo espiritual.Tomai também cuidado para não cairdes naquele ardil do demônio, quando o sugere esse pensamento: Isto convém muito ao meu companheiro Pedro; isto serve para Paulo.Não meus caros; o pregador fala a todos e a sua intenção é aplicar a todos as verdades que está explicando.Por outro lado, lembrai-vos que o que não serve para corrigir-vos de coisas passadas, pode servir para preservar-vos de algum pecado no futuro.

Ao ouvirdes algum, procurai recordá-lo e durante o dia e especialmente à noite antes de deitar-vos recolhei-vos um pouco para refletir sobre o que ouviste.Se assim fizerdes tirareis grande vantagem para a vossa alma.
Recomendo-vos também que façais todo o possível esses vossos deveres religiosos nas vossas paróquias, sendo o vosso pároco especialmente destinado por Deus para cuidar de vossas almas.

http://paramaiorgloriadedeus.blogspot.com.br/2015/09/a-importancia-das-leituras-espirituais.html

A oração

A oração é necessária para a vida espiritual: é a respiração que permite que a vida do espírito se desenvolva, e atualiza a fé na presença de Deus e de seu amor.

1. O que é a oração [1]
Em português conta-se com dois vocábulos para designar a relação consciente e coloquial do homem com Deus: prece e oração. A palavra “prece" provem do verbo latino precor, que significa rogar, ir a alguém solicitando um benefício. O termo “oração" provem do substantivo latino oratio, que significa fala, discurso, linguagem.
As definições que se dão da oração costumam refletir estas diferenças de matiz que acabamos de encontrar ao aludir à terminologia. Por exemplo, São João Damasceno, considera-a como «a elevação da alma a Deus e a petição de bens convenientes»[2]; enquanto para São João Clímaco trata-se mais de uma «conversa familiar e união do homem com Deus»[3].
A oração é absolutamente necessária para a vida espiritual. É como a respiração que permite que a vida do espírito se desenvolva. Na oração atualiza-se a fé na presença de Deus e de seu amor. Fomenta-se a esperança que leva a orientar a vida para Ele e a confiar em sua providência. E se engrandece o coração ao responder com o próprio amor ao Amor divino.
Na oração, a alma, conduzida pelo Espírito Santo a partir do mais fundo de si mesma (cfr. Catecismo, 2562), une-se a Cristo, mestre, modelo e caminho de toda oração cristã (cfr. Catecismo, 2599 ss.), e com Cristo, por Cristo e em Cristo, dirige-se a Deus Pai, participando da riqueza do viver trinitário (cfr.Catecismo, 2559-2564). Daí a importância que na vida de oração tem a Liturgia e, em seu centro, a Eucaristia.
2. Conteúdos da oração
Os conteúdos da oração, como os de todo diálogo de amor, podem ser múltiplos e variados. Cabe, no entanto, destacar alguns especialmente significativos:
Petição.
É frequente a referência à oração impetratória ao longo de toda a Sagrada Escritura; também nos lábios de Jesus, que não só vai a ela, mas que convida a pedir, encarecendo o valor e a importância de uma prece singela e confiada. A tradição cristã reiterou esse convite, pondo-a em prática de muitas maneiras: petição de perdão, petição pela própria salvação e pela dos demais, petição pela Igreja e pelo apostolado, petição pelas mais variadas necessidades, etc.
De fato, a oração de petição faz parte da experiência religiosa universal. O reconhecimento, ainda que em ocasiões difusas, da realidade de Deus (ou mais genericamente de um ser superior), provoca a tendência a dirigir-se a Ele, solicitando sua proteção e sua ajuda. Certamente a oração não se esgota na prece, mas a petição é manifestação decisiva da oração assim como reconhecimento e expressão da condição criada do ser humano e de sua dependência absoluta de um Deus cujo amor a fé nos dá conhecer de maneira plena (cfr. Catecismo, 2629.2635).
Ação de graças.
O reconhecimento dos bens recebidos e, através deles, da magnificência e misericórdia divinas, impulsiona a dirigir o espírito a Deus para proclamar e lhe agradecer seus benefícios. A atitude de ação de graças cheia desde o princípio até o fim a Sagrada Escritura e a história da espiritualidade. Uma e outra põem de manifesto que, quando essa atitude arraiga na alma, dá lugar a um processo que leva a reconhecer como dom divino todos os acontecimentos, não somente aquelas realidades que a experiência imediata acredita como gratificantes, mas também as aparentemente negativas ou adversas.
Consciente de que o acontecer está situado sob o desígnio amoroso de Deus, o fiel sabe que tudo redunda no bem de quem –a cada homem– é objeto do amor divino (cfr. Rm 8, 28). « Habitua-te a elevar o coração a Deus em ação de graças, muitas vezes ao dia. - Porque te dá isto e aquilo. - Porque te desprezaram. - Porque não tens o que precisas, ou porque o tens. Porque fez tão formosa a sua Mãe, que é também tua Mãe. - Porque criou o Sol e a Lua e este animal e aquela planta. - Porque fez aquele homem eloquente e a ti te fez difícil de palavra... Dá-Lhe graças por tudo, porque tudo é bom. »[4].
Adoração e louvor.
É parte essencial da oração, reconhecer e proclamar a grandeza de Deus, a plenitude de seu ser, a infinitude de sua bondade e de seu amor. Ao louvor pode-se desembocar a partir da consideração da beleza e magnitude do universo, como acontece em múltiplos textos bíblicos (cfr., por exemplo, Sal19; Se 42, 15-25; Dn 3, 32-90) e em numerosas orações da tradição cristã[5]; ou a partir das obras grandes e maravilhosas que Deus opera na história da salvação, como ocorre no Magnificat (Lc 1, 46-55) ou nos grandes hinos paulinos (ver, por exemplo, Ef 1, 3-14); ou de fatos pequenos e inclusive miúdos nos que se manifesta o amor de Deus.
Em todo caso, o que caracteriza o louvor é que nele o olhar vai diretamente a Deus mesmo, tal e como é em si, em sua perfeição ilimitada e infinita. «O louvor é a forma de oração que reconhece o mais imediata­mente possível que Deus é Deus! Canta-o pelo que Ele mes­mo é, dá-lhe glória, mais do que pelo que Ele faz, por aquilo que Ele É » (Catecismo, 2639). Está, por isso, intimamente unida à adoração, ao reconhecimento, não só intelectual, mas existencial, da pequenez de tudo criado em comparação com o Criador e, em consequência, à humildade, à aceitação da indignidade pessoal ante quem nos transcende até o infinito; à maravilha que causa o fato de que esse Deus, ao que os anjos e o universo inteiro rendem homenagem, se dignou não só a fixar seu olhar no homem, mas habitar no homem; mais ainda, a se encarnar.
Adoração, louvor, petição, ação de graças resumem as disposições de fundo que informam a totalidade do diálogo entre o homem e Deus. Seja qual for o conteúdo concreto da oração, quem reza o faz sempre, de uma forma ou de outra, explícita ou implicitamente, adorando, louvando, suplicando, implorando ou dando graças a esse Deus ao qual reverencia, ao qual ama e no qual confia. Importa reiterar, ao mesmo tempo, que os conteúdos concretos da oração poderão ser muito variados. Em ocasiões se irá à oração para considerar passagens da Escritura, para aprofundar em alguma verdade cristã, para reviver a vida de Cristo, para sentir a proximidade de Santa Maria... Em outras, iniciará a partir da própria vida para participar a Deus das alegrias e os afãs, dos sonhos e os problemas que o existir comporta; ou para encontrar apoio ou consolo; ou para examinar ante Deus o próprio comportamento e chegar a propósitos e decisões; ou mais singelamente para comentar com quem sabemos que nos ama as incidências da jornada.
Encontro entre o que crê e Deus em quem se apóia e pelo que se sabe amado, a oração pode versar sobre a totalidade das incidências que conformam o existir, e sobre a totalidade dos sentimentos que pode experimentar o coração. « Escreveste-me: “Orar é falar com Deus. Mas de quê?" - De quê? DEle e de ti: alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias..., fraquezas!; e ações de graças e pedidos; e Amor e desagravo. Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te - ganhar intimidade!"»[6]. Seguindo uma e outra via, a oração será sempre um encontro íntimo e filial entre o homem e Deus, que fomentará o sentido da proximidade divina e conduzirá a viver a cada dia da existência de cara a Deus.
3. Expressões ou formas da oração
Atendendo aos modos ou formas de manifestar-se a oração, os autores costumam oferecer diversas distinções: oração vocal e oração mental; oração pública e oração privada; oração predominantemente intelectual ou reflexiva e oração afetiva; oração regrada e oração espontânea, etc. Em outras ocasiões os autores tentam esboçar uma gradação na intensidade da oração, distinguindo entre oração mental, oração afetiva, oração de quietude, contemplação, oração unitiva...
O Catecismo estrutura sua exposição distinguindo entre: oração vocal, meditação e oração de contemplação. As três «tem um traço fundamental comumo recolhimento do coração. Esta atenção em guardar a Palavra e permanecer na presença de Deus faz destas três expressões tempos fortes da vida de oração» (Catecismo, 2699). Uma análise do texto evidencia, pelo contexto, que o Catecismo ao empregar essa terminologia não faz referência a três graus da vida de oração, mas duas vias: a oração vocal e a meditação, apresentando ambas como aptas para conduzir a esse cume na vida de oração que é a contemplação. Em nossa exposição nos ateremos a este esquema.
Oração vocal
A expressão “oração vocal" aponta a uma oração que se expressa vocalmente, isto é, mediante palavras articuladas ou pronunciadas. Esta primeira aproximação, ainda sendo exata, não vai ao fundo do assunto. Pois, por um lado, todo dialogar interior, ainda que possa ser qualificado como exclusiva ou predominantemente mental, faz referência, no ser humano, à linguagem; e, em ocasiões, à linguagem articulada em voz alta, também na intimidade da própria estância. Por outro lado, deve-se afirmar que a oração vocal não é assunto só de palavras, mas sobretudo de pensamento e de coração. Daí que seja mais exato sustentar que a oração vocal é a que se faz utilizando fórmulas pré-estabelecidas tanto longas como breves (jaculatórias), tomadas da Sagrada Escritura (o Pai Nosso, ou a Ave Maria...), ou tomadas da tradição espiritual (o Veni Sancte Spiritus, a Salve, o Lembrai-vos...).
Tudo isso, como é óbvio, com a condição de que as expressões ou fórmulas recitadas vocalmente sejam verdadeira oração, isto é, que cumpram com o requisito de que quem as recita o faça não só com a boca mas com a mente e o coração. Se essa devoção faltasse, se não tivesse consciência de quem é Aquele a que a oração se dirige, de que é o que na oração se diz e de quem é aquele que a diz, então, como afirma com expressão gráfica Santa Teresa de Jesus, não se pode falar propriamente de oração «ainda que muito se mexam os lábios»[7].
A oração vocal possui um papel decisivo na pedagogia da prece, sobretudo no início do relacionamento com Deus. De fato, mediante a aprendizagem do sinal da Cruz e de orações vocais o menino, e com frequência também o adulto, se introduz na vivência concreta da fé e, portanto, da vida de oração. Não obstante, o papel e a importância da oração vocal não está limitada aos começos do diálogo com Deus, mas está chamada a acompanhar a vida espiritual durante todo seu desenvolvimento.
A meditação
Meditar significa aplicar o pensamento à consideração de uma realidade ou de uma ideia com o desejo de conhecê-la e compreendê-la com maior profundidade e perfeição. Para um cristão, a meditação – à que com frequência se designa também oração mental – implica orientar o pensamento para Deus tal e como se revelou ao longo da história de Israel e definitiva e plenamente em Cristo. E, desde Deus, dirigir o olhar à própria existência para valorizá-la e acomodar ao mistério de vida, comunhão e amor que Deus deu a conhecer.
A meditação pode desenvolver-se de forma espontânea, por motivo dos momentos de silêncio que acompanham ou seguem às celebrações litúrgicas ou a raiz da leitura de algum texto bíblico ou de uma passagem de algum autor espiritual. Em outros momentos pode concretizar-se mediante a dedicação de tempos especificamente destinados a isso. Em todo caso, é óbvio que – especialmente nos princípios, mas não só então – implica esforço, desejo de aprofundar no conhecimento de Deus e de sua vontade, e no empenho pessoal efetivo com vistas à melhora da vida cristã. Nesse sentido, pode afirmar-se que «a meditação é, sobretudo, uma busca» (Catecismo, 2705); contudo convém acrescentar que se trata não da busca de algo, mas deAlguém. Ao que tende a meditação cristã não é só, nem primariamente, a compreender algo (em última instância, a entender o modo de proceder e de se manifestar de Deus), mas se encontrar com Ele e, o encontrando, identificar com sua vontade e se unir a Ele.
A oração contemplativa
O desenvolvimento da experiência cristã, e, nela e com ela, o da oração, conduzem a uma comunicação entre o crente e Deus, a cada vez mais continuada, mais pessoal e mais íntima. Nesse horizonte situa-se a oração à que o Catecismo qualifica de contemplativa, que é fruto de um crescimento na vivência teologal do que flui um vivo sentido da cercania amorosa de Deus; em consequência, o relacionamento com Ele se faz a cada vez mais direto, familiar e confiado, e inclusive, para além das palavras e do pensamento reflexo, se chega a viver de fato em íntima comunhão com Ele.
«Que é esta oração?», interroga-se o Catecismo ao começo da parte dedicada à oração contemplativa, para responder em seguida afirmando, com palavras tomadas de Santa Teresa de Jesus, que não é outra coisa «senão tratar de amizade, estando muitas vezes tratando a sós, com Quem sabemos que nos ama»[8]. A expressão oração contemplativa, tal e como a empregam o Catecismo e outros muitos escritos anteriores e posteriores, remete, pois ao que cabe qualificar como o ápice da contemplação; isto é, o momento no qual, por ação da graça, o espírito é conduzido até a ombreira do divino transcendendo toda outra realidade. Mas também, e mais amplamente, a um crescimento vivo e sentido da presença de Deus e do desejo de uma profunda comunhão com Ele. E isso seja nos tempos dedicados especialmente à oração, seja no conjunto do existir. A oração está, em suma, chamada a envolver à inteira pessoa humana – inteligência, vontade e sentimentos –, chegando ao centro do coração para mudar suas disposições, a informar toda a vida do cristão, fazendo dele outro Cristo (cfr. Ga 2,20).
4. Condições e características da oração
A oração, como todo ato plenamente pessoal, requer atenção e intenção, consciência da presença de Deus e diálogo efetivo e sincero com Ele. Condição para que tudo isso seja possível é o recolhimento. O vocábulo recolhimento significa a ação pela qual a vontade, em virtude da capacidade de domínio sobre o conjunto das forças que integram a natureza humana, tenta moderar a tendência à dispersão, promovendo dessa forma o sossego e a serenidade interiores. Esta atitude é essencial nos momentos dedicados especialmente à oração, cortando com outras tarefas e tentando evitar as distrações. Mas não tem de ficar limitada a esses tempos: mas que deve se estender, até chegar ao recolhimento habitual, que se identifica com uma fé e um amor que, enchendo o coração, levam a tentar viver a totalidade das ações em referência a Deus, já seja expressa ou implicitamente.
Outra das condições da oração é a confiança. Sem uma confiança plena em Deus e em seu amor, não terá oração, ao menos oração sincera e capaz de superar as provas e dificuldades. Não se trata só da confiança em que uma determinada petição seja atendida, senão da segurança que se tem em quem sabemos que nos ama e nos compreende, e ante quem se pode, portanto, abrir sem reservas o próprio coração (cfr. Catecismo, 2734-2741).
Em ocasiões, a oração é diálogo que brota facilmente, inclusive acompanhado de gozo e consolo, desde o fundo da alma; mas em outros momentos – talvez com mais frequência – pode reclamar decisão e empenho. Pode então insinuar-se o desalento que leva a pensar que o tempo dedicado ao trato com Deus carece sentido (cfr. Catecismo, n. 2728). Nestes momentos, põe-se de manifesto a importância de outra das qualidades da oração: a perseverança. A razão de ser da oração não é a obtenção de benefícios, nem a busca de satisfações, complacências ou consolos, mas a comunhão com Deus; daí a necessidade e o valor da perseverança na oração, que é sempre, com fôlego e gozo ou sem eles, um encontro vivo com Deus (cfr. Catecismo, 2742-2745, 2746-2751).
Um traço específico, e fundamental, da oração cristã é seu caráter trinitário. Fruto da ação do Espírito Santo que, infundindo e estimulando a fé, a esperança e o amor, leva a crescer na presença de Deus, até se saber ao mesmo tempo na terra, na que se vive e trabalha, e no céu, presente pela graça no próprio coração[9]. O cristão que vive de fé, se vê convidado a tratar aos anjos e aos Santos, a Santa Maria e, de modo especial, a Cristo, Filho de Deus encarnado, em cuja humanidade percebe a divindade de sua pessoa. E, seguindo esse caminho, a reconhecer a realidade de Deus Pai e de seu infinito amor, e a entrar a cada vez com mais profundidade em um trato confiado com Ele.
A oração cristã é por isso e de modo eminente uma oração filial. A oração de um filho que, em todo momento – na alegria e na dor, no trabalho e no descanso – se dirige com singeleza e sinceridade a seu Pai para colocar em suas mãos os afazeres e sentimentos que experimenta no próprio coração, com a segurança de encontrar nele entendimento e acolhida. Mais ainda, um amor no que tudo encontra sentido.
José Luis Illanes
Bibliografía básica
Catecismo da Igreja Católica, 2558-2758.
Leituras recomendadas
São Josemaria, Homilias O triunfo de Cristo na humildade; A Eucaristia, mistério de fé e amor; A Ascensão do Senhor aos céus; O Grande Desconhecido e Por Maria, para Jesus, em É Cristo que passa, 12-21, 83-94, 117-126, 127-138 e 139-149; Homilias O trato com DeusVida de oração e Rumo à santidade, emAmigos de Deus, 142-153, 238-257, 294-316.
J. Echevarría, Itinerarios de vida espiritual, Planeta, Barcelona 2001, pp. 99-114.
J.L. Illanes, Tratado de teología espiritual, Eunsa, Pamplona 2007, pp. 427-483.
M. Belda, Guiados pelo Espírito de DeusCurso de Teología Espiritual, Palavra, Madri 2006, pp. 301-338.
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[1] A Igreja professa sua Fé no Símbolo dos Apóstolos (Primeira parte destes guias). Celebra o Mistério, isto é, a realidade de Deus e de seu amor à que nos abre a fé, na Liturgia sacramental (Segunda parte). Como fruto dessa celebração do Mistério os fiéis recebem uma vida nova que lhes leva a viver de acordo com a condição de filhos de Deus (Terceira parte). Essa comunicação ao homem da vida divina reclama ser recebida e vivida em atitude de relação pessoal com Deus: esta relação expressa-se, desenvolve e potência na oração (Quarta parte).
[2] São João Damasceno, De fide orthodoxa, III, 24; PG 94,1090.
[3] São João Clímaco, Scala paradisi, grau28; PG 88, 1129.
[4] São Josemaria, Caminho, 268.
[5] Remetemos a dois das mais claras e conhecidas: os “Louvores ao Deus Altíssimo" e o “Cântico do irmão sol" de São Francisco de Assis.
[6] São Josemaria, Caminho, 91.
[7] Santa Teresa de Jesus, Primeiras Moradas, c. 1, 7, em Obras completas, ed. de Efrén da Mãe de Deus e Ou. Steggink, Madri 1967, p. 366.
[8] Santa Teresa de Jesus, Livro da vida, c. 8, n. 5, em Obras completas, p. 50; cfr. Catecismo, 2709.
[9] Cfr. São Josemaria, Questões Atuais do Cristianismo, 116.

http://opusdei.org.br/pt-br/article/tema-39-a-oracao/

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Berdiaev e a Servidão


Publicado na Folha de S. Paulo,
sexta-feira, 09 de dezembro de 1977

Nicolai Berdiaev, pensador religioso russo, nasceu em 1874 e morreu em 1948. Como alguns dos nobres de seu tempo, associou-se à causa revolucionária, no início do século, lutando contra a tirania czarista. Com a vitória da revolução soviética, Berdiaev foi nomeado professor de filo da Universidade de Moscou, mas foi exilado para Paris em 1922, diante da sua rebeldia em aceitar totalmente a doutrina marxista. Preocupou-se muito com a questão da liberdade individual. Escreveu "A Nova Idade Média", "Solidão e Sociedade" e "Escravidão e Liberdade", de onde foi adaptado este texto (capítulo II).
 
 
homem procura a liberdade. Dentro dele existe uma poderosa força que o empurra em direção à liberdade mas, no entanto, o ser humano facilmente despenca na escravidão.
Existem três condições humanas, três diferentes estruturas de consciência, distinguidas sob os nomes de "senhor", "escravo" e "homem livre". Senhores e escravos são correlativos. Não podem existir independentemente. O homem livre, porém, pode existir individualmente -possui suas próprias qualidades, sem estar preso a correlações de oposição.
O mundo da escravidão é o mundo do espírito que se aliena de si mesmo. A exteriorização é a fonte da escravidão, enquanto que liberdade é conseqüência da interiorização. No mundo objetivado em que vivemos, o homem só consegue ser relativamente livre e, não, absolutamente livre. Esta semi-liberdade resulta de conflitos e resistências às necessidades colocadas diante dele. A liberdade resultante da necessidade não é liberdade real, é apenas um elemento na dialética da necessidade.
O homem não deve almejar ser amo e senhor mas aspirar em converter-se em homem livre. A submissão de outros homens traz sempre a própria submissão. Quem escraviza é escravo. O amo é a figura do escravo ao contrário. Prometeu era um homem livre e um libertador, enquanto que o ditador é um escravo escravizador. A aspiração de poder é um desejo vil. Cristo é o protótipo do homem livre, César é o exemplo do escravo do mundo, submetido ao desejo de poder, percebendo apenas a vocação das massas para torná-lo senhor. Mas os servos também derrubam os amos e os césares. Liberdade é libertação não apenas dos opressores mas dos outros escravos igualmente. A condição de senhor é determinada por necessidades externas, não é uma imposição de personalidade, é uma injunção. Somente o homem livre é uma personalidade. Os demais são arranjos.
A queda do homem se expressa na sua inclinação para tiranizar. O homem tende à tirania, seja em grande ou pequena escala, se não como governante, como marido, pai. O homem tiraniza com ódio e com amor. Sobretudo, tiraniza-se a si próprio. Esta autotirania se manifesta através de uma falsa consciência de culpa. Uma consciência de culpa verdadeira tornaria o homem livre. Mas, atormentado por falsas culpas, produz insalubre auto-estima que o tiraniza nos projetos e visões. A exploração do homem pelo homem, que Marx considera o demônio fundamental da sociedade humana, é um derivativo, só ocorre quando se encontram homens dispostos intimamente a exercer este poder. Um homem verdadeiramente livre não deseja comandar os demais, mesmo que as condições o favoreçam. O líder das massas está no mesmo estado de servidão da massa - ele não tem existência autônoma alguma fora da massa. Sem os escravos, não se pode desempenhar o papel de senhor. Sem senhores, não há escravos. Este é um jogo duplo.
César - ditador, herói do desejo imperialista, não pode limitar-se nem interromper. Prossegue insaciavelmente sempre em direção à perdição, é um escravo do seu destino glorioso. Mas o homem pode ser escravizado também através de violências que não são físicas.
Sugestões e condicionamentos a que são submetidos homens desde sua infância fazem deles escravos. Um sistema educacional errôneo pode extrair totalmente de um homem sua capacidade de ser livre nos seus julgamentos e apreciações.
Violações, torturas e assassinatos são fraquezas. Não são poder. Os grandes valores da humanidade são sempre menosprezados. O policial e o sargento são sempre mais fortes do que poetas e filósofos. Escravos e senhores triunfam sempre sobre os homens livres, pois no mundo objetivado e exteriorizado ama-se o finito, ninguém agüenta o infinito.
A verdade está sempre ligada à liberdade. Escravidão está subordinada à negação da verdade. O amor à verdade é o triunfo sobre o medo escravizador. O homem primitivo pulsando dentro do homem moderno é dominado pelo medo. Medo e escravidão são passivos. A vitória sobre a escravidão é obtida com atividade criativa. O homem não vive apenas no tempo cósmico e histórico, mas também no tempo existencial. Vive igualmente fora da objetividade que construiu em torno de si, para aprisionar-se.
Homens livres têm uma responsabilidade: escravos não podem preparar um novo reinado, pois a revolta de escravos estabelece sempre novas formas de escravidão.

Os Apotegmas dos Padres do Deserto (Parte I)



Capítulo Primeiro: Do Progresso Espiritual segundo os Padres

1. Perguntou alguém ao abade Antão: “- Que observância devo guardar para agradar a Deus?” Respondeu-lhe o ancião: “- Observa o que te prescreverei: onde quer que vás, tem sempre a Deus por diante dos olhos; e nos teus atos consegue a aprovação das Escrituras Santas; onde quer que permaneças, não te saias de lá facilmente. Observa esses três pontos e serás salvo”. (Antão, 3).

2. O abade Pambo perguntou ao abade Antão: “- Que devo fazer?” “- Não te fies na tua justiça, respondeu o ancião, não deplores sobre o passado e detém a língua e os desejos do ventre”. (Antão, 6).

3. Disse São Gregório: “Deus exige três coisas de todo homem que recebeu o batismo: a fé direita para a alma, a franqueza para a língua, a castidade para o corpo”. (Gregório, 1).

4. O abade Evagro conta esta palavra dos Padres: “Tomar regularmente alimento não-cozido junto com a castidade conduz o monge num átimo ao porto da apatéia". [apatéia, impassibilidade, total domínio das paixões] (Evagro, 6).

5. Disse também ele: “- Respondeu um monge ao mensageiro que lhe anunciava a morte do pai: ‘- Pára de blasfemar, meu Pai é imortal’”.

6. O abade Macário disse ao abade Zacarias: “- Dize-me qual é a obra do monge?” “- Como, Pai, tu a me perguntares?”, respondeu ele. “- Experimento uma plena confiança plerofórica em ti, meu filho Zacarias, pois há alguém que me obriga a interrogar-te”. “- Pai, em minha opinião, é em tudo se fazer violência – eis o monge”. [pleroforia, confiança sentida na embalagem do espírito da verdade] (Zacarias, 1).

7. Conta-se que o abade Teodoro de Farméia observava acima de muitos outros estes três princípios: a pobreza, a ascese, a fuga dos homens (Teodoro de Farméia, 5).

8. Disse o abade João o Nanico: “- No meu parecer o homem deve ter algo de todas as virtudes. Assim ao te levantares a cada manhã, recomeça a perseguir as virtudes e os mandamentos de Deus com grande perseverança, com temor e paciência, no amor de Deus, com transporte de corpo e alma e muita humildade; sê constante na aflição do coração e guarda-a para ti mesmo com numerosas orações, invocações e gemidos, sempre conservando a pureza e o bom siso das palavras, bem como a modéstia do olhar. Suporta a injúria sem te pores em cólera, sê pacífico e não pagues o mal com o mal, não atentes aos defeitos alheios. Não te meças a ti mas humildemente te submete a toda criatura. Renuncia a tudo quanto é material e conforme a carne pelo sofrimento, pela luta, pela pobreza de espírito, por uma vontade determinada e pela mortificação espiritual. Pelo jejum conquista a paciência e as lágrimas; pela aspereza do combate o discernimento, a pureza d’alma. Recolhe o bem, trabalha com tuas mãos guardando a hesequia (2 Th., 3, 12) . Vela, jejua, suporta a fome e a sede, o frio e a nudez e os trabalhos. Encerra-te no sepulcro como se já fosses morto, de modo que penses a cada instante que é próxima tua morte”. [hesequia, tranqüilidade d’alma, quietação, seja a do cenobita ou a do anacoreta] (João o Nanico, 34).

9. Disse o abade José de Tebas: “- Aos olhos de Deus, três castas de gentes são honradas: em primeiro os doentes que padecem as tentações e aceitam os males rendendo ações de graças; em segundo os de ação pura diante de Deus, sem que haja mescla do humano; enfim os que permanecem na submissão (hipótage) do pai espiritual e renunciam a todas as vontades próprias (José de Tebas).

10. O abade Cassiano conta este passo do abade João, outrora higúmeno do Grande Monastério: estava ele às portas da morte e ia-se alegremente e de bom coração para o Senhor; os irmãos o cercavam e lhe imploravam para lhes deixar por herança uma palavra curta e útil que lhes permitisse elevarem-se até à perfeição em Cristo. Ele gemeu e disse: “- Jamais fiz minha própria vontade e nada ensinei que antes não houvesse eu mesmo praticado”. (Cassiano, 5).

11. Um irmão perguntou a um ancião: “- Que é o bem, para que eu o faça e tenha a vida?” “- Deus só sabe o que o bem, respondeu o ancião, todavia escutei dizer que um padre perguntara ao abade Nisteros o Grande, o amigo do abade Antão: ‘- Que boa obra devo fazer?’, ao que lhe respondeu: ‘-Não são iguais todas as obras? Diz a Escritura: Abraão foi hospitaleiro e Deus estava com ele; Elias amava a hesequia e Deus estava com ele; Davi era humilde e Deus estava com ele'. Logo, ao que quer que aspires tua alma segundo Deus, fá-lo e guarda teu coração”. (Nisteros, 2).

12. Disse o abade Pastor: “A guarda (do coração), a atenção e o discernimento são as três virtudes guias da alma. (Poemão, 35).

13. Um irmão perguntou ao abade Pastor: “- Como deve viver o homem?” “- Temos o exemplo de Daniel, respondeu ele, contra quem a única acusação era o culto que rendia a seu Deus”. (cf. Dn. 6, 5-6) (Poemão, 53).

14. Disse ele ainda: “- A pobreza, as provações e a discrição são as três obras da vida solitária. Com efeito, diz a Escritura: ‘- Se estes três homens – Noé, Jó e Daniel – estivessem lá...’ (Ex., 14, 14-20). Noé representa os despossuídos, Jó os macerados, Daniel enfim os discretos. Se essas três obras se encontram num homem, Deus habita nele”. (Poemão, 60).

15. Disse o abade Pastor: “Se o monge odeia duas coisas, liberta-se deste mundo.” “- Quais são?” “- O bem-estar e a vã glória”. (Pormão, 66).

16. Conta-se que o abade Pambo, no instante que abandonava esta vida, disse aos irmãos que o assistiam: “- Desde que estou neste deserto e me erigi uma cela e nela habitei, não me lembra ter comido pão sem havê-lo ganho com minhas mãos nem até agora ter lamentado uma palavra dita. E eis contudo que me vou ao Senhor como se não houvera começado a servir a Deus”. (Pambo, 8).

17. Disse o abade Sisóes: “- Reputa-te por nada, lança tua vontade atrás de ti, permanece sem preocupações – e repousarás”. (Sisóes, 43).

18. O abade Chamé, perto de morrer, disse aos discípulos: “- Não habiteis com os heréticos, não tenhais relações com os grandes, não estendais as mãos para receber mas antes para dar”. (Chamé).

19. Um irmão interrogou um ancião: “- Pai, como o temor de Deus vem ao homem?” “- Se alguém, respondeu ele, possui a humildade e a pobreza e não julga os outros, o temor de Deus virá sobre ele”. (N. 137).

20. Disse um ancião: “- Que o temor, a humildade, a privação de alimento e o pentos façam morada em ti”. [pentos, luto pela morte dum próximo. Em linguagem espiritual, tristeza pela morte d’alma após o pecado cometido por si ou por outrem] (Euprépios, 6).

21. Disse um ancião: “Não faças a outrem o que detestas. Se tu detestas quem diz mal de ti, não digas mais mal dos outros; se tu detestas quem te calunia, não calunies os outros; se tu detestas quem te despreza, quem te injuria, quem te rouba os bens ou comete outra torpeza, não o faças igualmente a outrem. Basta observar esta palavra para ser salvo”. (N. 253).

22. Disse um ancião: “- A vida do monge é o trabalho, a obediência e a meditação (meletê); é não julgar, nem reclamar, nem murmurar. De fato está escrito: ‘Vós que amais o Senhor, odiai o mal.’ (Ps. 96, 10). Consiste a vida do monge em não seguir o exemplo do pecador. Os olhos do monge são cegos para o mal. Não age nem olha com curiosidade, não escuta o que lhe não respeita. Suas mãos não roubam, antes distribuem. Seu coração é sem orgulho, seu pensamento sem malícia, seu ventre não fica saciado: tudo faz com discrição. Sim, em tudo isso está o monge”. (N. 225).

23. Disse um ancião: “- Ora a Deus para que te meta no coração o pentos e a humildade. Observa incessantemente teus pecados. Não julgues a outrem, mas a todos te submete. Não tenhas familiaridade com mulheres, nem com crianças, nem com heréticos. Arreda de ti toda parrésia. Detém a língua e o apetite; priva-te do vinho. Se te falam dum trato qualquer, não discutas. Se for bom, diz: ‘- Bom’. Se for mal, diz: ‘- Isto lá é contigo!’ Mas não discutas sobre o que te falam. Assim tua alma será em paz”. [parrésia, pode ter sentido bom ou mau; em sentido bom é o espírito de quem fala a palavra de verdade; no sentido mau - que é o caso presente -, vaniloquacidade] (N.330).




Do site JesuMarie.com

Seguimento de Cristo


SEGUIMENTO DE CRISTO
  1. Cristo deu-te o poder de ser como Ele segundo as tuas forças. Não te assustes ao ouvires isto. O que deve espantar-te é não seres como Ele. (Homilias sobre São Mateus, 78, 4)
  2. Daniel era jovem; José, escravo; Áquila exercia uma profissão manual; a vendedora de púrpura encarregava-se de uma loja; outro era guarda de uma prisão; outro centurião, como Cornélio; outro estava doente, como Timóteo; outro era um escravo fugitivo, como Onésimo. E, no entanto, nada disso foi obstáculo para nenhum deles, e todos brilharam pela sua virtude: homens e mulheres, jovens e velhos, escravos e livres; soldados e civis. (Homilias sobre São Marcos, 43, 5)
  3. Não é absurdo pores tanto cuidado nas coisas do corpo, a ponto de já desde muitos dias antes da festa preparares uma roupa belíssima, e te adornares e embelezares de todas as maneiras possíveis, e, no entanto, não tomares nenhum cuidado com a tua alma, abandonada, suja, esquálida, consumida de fome...? (Homilias sobre as estátuas, 6)
  4. Quando o espiritual nos chama, não há ocupação alguma necessária. (Homilias sobre São Mateus, 69, 1)
  5. Não te peço pagamento algum pelo que te dou - diz-nos [o Senhor] -, antes Eu mesmo quero ser teu devedor, com a única condição de que queiras beneficiar-te de tudo o que é meu. A que se pode comparar esta honra? Eu sou pai, irmão, esposo, casa, alimento, vestido, raiz, fundamento; Eu sou tudo quanto tu quiseres; por isso, não te vejas necessitado de coisa alguma. Até te servirei, pois vim para servir, e não para ser servido (cfr. Mc 10,45). Eu sou amigo, membro, cabeça, irmão, irmã e mãe; sou tudo isso, e apenas quero contigo intimidade. Eu, pobre por ti, mendigo por ti, crucificado por ti, sepultado por ti; no céu, por ti, diante de Deus Pai; e na terra sou seu legado diante de ti. És tudo para Mim, irmão e co-herdeiro, amigo e membro. Que mais queres? (Homilias sobre São Mateus, 76)
  6. O amor [de Deus] é grande. Se desejas emprestar-lhe, Ele está disposto a receber. Se queres semear, Ele te vende a semente; se queres construir, Ele te diz: edifica nos meus terrenos. Por que corres atrás das coisas dos homens, que são pobres mendigos e nada podem? Corre atrás de Deus, que, em troca de coisas pequenas, te dá outras grandes. (Homilias sobre São Mateus, 76, 4)
  7. Não vos recomendo nada pesado. Não vos digo: "Não caseis". Não vos digo: "Abandonai a cidade e afastai-vos dos negócios civis". Não. Permanecei onde estais, mas praticai a virtude. Na verdade, eu preferiria que aqueles que vivem nas cidades brilhassem pela sua virtude a que o fizessem os que foram viver nos montes. Por quê? Porque daí resultaria um bem imenso, pois ninguém acende uma lâmpada e a põe debaixo do alqueire (Mt 5, 15). É por isso que eu quereria que todas as luzes estivessem sobre os candeeiros, para que a claridade fosse maior. Acendamos, pois, o fogo, façamos com que aqueles que se encontram sentados nas trevas se vejam livres do erro. E não me venhas dizer: "Tenho filhos, tenho mulher, tenho que cuidar da casa e não posso cumprir o que me dizes". Se não tivesses nenhuma dessas coisas e fosses tíbio, tudo estaria perdido; mas, mesmo que todas essas coisas te rodeiem, se fores fervoroso, praticarás a virtude. Só uma coisa é necessária: uma disposição generosa. Se a tiveres, nem a idade, nem a pobreza, nem a riqueza, nem os negócios, nem qualquer outra coisa pode constituir um obstáculo para a virtude. (Homilias sobre São Mateus, 43, 5)
http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/pais_da_igreja/s_joao_crisostomo_vida_e_obra.html#Seguimento de Cristo

São João Crisóstomo

BREVE HISTÓRIA
João Crisóstomo nasceu na cidade de Antioquia. Cresceu no meio da multidão sem deixar-se contaminar por ela. Conheceu os pobres e desafortunados e soube amá-los como eram. Sua família era culta e possuía muitos bens . O pai de João, oficial de alto nível, morrera jovem.
Desde criança foi educado pela mãe, mulher admirável que, aos vinte anos, sacrificou sua juventude, renunciou a novas núpcias, para dedicar-se inteiramente a seu filho. João recebeu o Batismo mais ou menos aos dezoito anos de idade.
Concluídos seus estudos de cultura geral, de retórica e de filosofia, de forma brilhante, renunciou a uma carreira que se apresentava promissora, para receber as ordens menores. Quis partir para o deserto, mas sua mãe, que por ele sacrificara tudo, não lho permitiu. Fugiu, então, da agitação de Antioquia e estabeleceu-se fora das portas da cidade, a fim de encontrar a paz, consagrando-se à ascese e ao estudo bíblico.
Antioquia era um centro teológico de grande reputação. João lá aprende de forma brilhante a exegese bíblica. Depois passou a viver nas montanhas entre monges uma vida austera a ponto de prejudicar sua saúde. Após algum tempo nas montanhas, achou-se preparado para enfrentar a ação missionária. O amor aos outros, mais do que sua saúde abalada, fê-lo voltar a Antioquia, onde o bispo Melécio o ordenou diácono, em 381.
Escreveu aos 34 anos o tratado sobre o Sacerdócio, que é conhecido e estudado até os nossos dias. Com 39 anos foi ordenado padre. Consagrou-se à pregação, substituindo o bispo, nas homilias pois esse era pouco dotado para falar.
Durante doze anos, pregou ao povo contra o paganismo e tinha esperança de transformá-lo em gente de fé cristã. É dele a frase: “Basta um só homem, para reformar todo um povo.”
Sua tarefa era séria. Precisava denunciar os abusos existentes no interior da Igreja e na sociedade; defender os pobres, clamar contra as injustiças sociais. Manteve ainda uma intensa atividade literária, respondendo a todos os que lhe pediam conselho.
A maioria de suas homilias era comentários a respeito do Antigo e o Novo Testamento : explicou o Gênesis, comentou Isaías e os Salmos. O que fazia com mais agrado era pregar sobre o Evangelho. Comentou longamente o de Mateus e o de João. São Paulo era seu autor preferido: sentia afinidade com o Apóstolo dos gentios. Cognominaram-no de o “novo Paulo”.
Resta-nos, de João Crisóstomo, uma série de catequeses batismais, que preparavam os catecúmenos para o batismo. As últimas foram reencontradas em 1955, no monte Atos. João Crisóstomo era um orador nato e igualmente um moralista que analisava os segredos do coração em profundidade e com rara psicologia. O povo de Antioquia sabia que João só repreendia para corrigir e para converter.
Em 402, São João Crisóstomo foi deposto e exilado acusado de não coadunar os interesses da Igreja com as do Império. O bispo foi detido em sua catedral, durante a celebração pascal. Depois de uma palavra de despedida, João deixou a sua igreja que jamais haveria de rever. O exílio foi penoso. João foi enviado para uma aldeia, Cucusa, na fronteira com a Armênia.
A saúde do bispo achava-se enfraquecida. O clima era duro e desfavorável para o seu estado. A maior parte de suas cartas data dessa época. Este homem atingido em cheio pela provação procurou mais consolar do que ser consolado.
No sofrimento, pensava nos outros. Finalmente morreu, no dia 14 de setembro de 407, festa da Exaltação da Santa Cruz. Suas últimas palavras foram: “Glória a Deus por tudo.”
APOTEGMAS
São sentenças dos monges, ditos que eram incluídos em pequenas narrativas. Eis alguns dos apotegmas relacionados a João Crisóstomo:
  • Quando o espiritual nos chama, não há ocupação alguma necessária.
  • O amor [de Deus] é grande. Se desejas emprestar-lhe, Ele está disposto a receber. Se queres semear, Ele te vende a semente; se queres construir, Ele te diz: edifica nos meus terrenos. Por que corres atrás das coisas dos homens, que são pobres mendigos e nada podem? Corre atrás de Deus, que, em troca de coisas pequenas, te dá outras grandes.
  • Não somos nós, mas a Providência divina que faz tudo, mesmo nas coisas que aparentemente somos nós que fazemos. 
  • Mesmo ofendido, Deus continua a ser nosso Pai; mesmo irritado, continua a amar-nos como a filhos. Só uma coisa procura: não ter de castigar-nos pelas nossas ofensas, ver que nos convertemos e lhe pedimos perdão. 
  • Quando digo a alguém: “Roga a Deus, pede-lhe, suplica-lhe”, responde-me: “Já pedi uma vez, duas, três, dez, vinte vezes, e nada recebi”. Não cesses, irmão, enquanto não tiveres recebido; a petição termina quando se recebe o que se pediu. Cessa quando tiveres alcançado; melhor ainda, nem então cesses. Persevera ainda. Enquanto não receberes, pede para conseguir; e quando tiveres recebido, dá graças.
  • Na verdade, entras no coro dos anjos, és companheiro dos arcanjos e cantas junto dos serafins […]. Não fazes oração aos homens, mas a Deus.
  • A paz foi para o Céu. E, se quisermos, podemos fazê-la voltar. Basta que expulsemos de nós a soberba e a arrogância […] e sejamos humildes.
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A virtude da temperança