sábado, 7 de novembro de 2020

NOVENA À SANTA ELISABETE DA TRINDADE | 5º Dia com Padre Mario Sartori

 

5º dia “Hóspede Divino” - Adoração - Jesus Eucaristia Na adoração esqueço de mim mesmo, porque somente Deus é importante para mim. Na presença Eucarística, Cristo chega até nós, se oferece por nós. Olhamos para Aquele que nos ama. Nele está o nosso desejo profundo de nos libertarmos de nós mesmos, para dependermos única e exclusivamente do Senhor. O primeiro contato com Jesus, escondido na Sagrada Hóstia foi decisivo para Elisabeth. Nesse dia, Ele tomou posse do seu coração. Sua única aspiração foi entregar- Lhe a vida. “A partir da Primeira Comunhão, vimo-la mudar imediatamente. Sentimo-la tomada por Deus”, nos diz sua irmã Margarida. Assim, arrastada pela torrente de amor, na intimidade mais pura da Primeira Comunhão, Elisabeth responde ao apelo de Jesus. “A Eucaristia é a plenitude transbordante do Amor Divino. Nela, Jesus não nos dá apenas os seus méritos e as suas dores, mas nos dá plenamente a si mesmo.” “Como é triste ter de me afastar do sacrário e despedir-me do Hóspede Divino! Mas Vós estais sempre comigo, estais no meu coração, Dileto Meu, único Amor.” “Após a Comunhão, guardamos o Céu inteiro em nossa alma, menos a visão desse Céu.” “A adoração! Sim! É uma palavra do céu. Me parece que poderia defini-la assim: é o êxtase do amor. É o amor vencido pela Beleza, pela Força, pela Grandeza imensa do Objeto amado que entra no estado como se fosse um desfalecimento, em um silêncio pleno e profundo.” UR 21 “Quanto mais vivemos com este Hóspede Divino, mais felizes nos sentimos, mais fortaleza temos para entregar-nos ao sacrifício.” Reflexão... “Eu sou o Pão da Vida. Quem vem a mim não terá fome, e quem crê em mim não terá mais sede.” ( Jo 6,35 )

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

História de SANTA ELISABETH DA TRINDADE

NOVENA À SANTA ELISABETE DA TRINDADE | 4º Dia com Padre Mario Sartori

4º dia “Silêncio e Solidão“ “O silêncio é a linguagem da alma para conversar com Deus.” O perfeito silêncio nunca pode estabelecer-se sem grandes esforços. Nos faz, em primeiro lugar, presentes a nós mesmos, e logo presentes a Deus, fazendo-nos atentos a sua presença. A oração se completa no silêncio. De um lado, está a escuta, de outro a unidade com Deus. Permanecer em silêncio diante de Deus faz crescer o nosso amor por Ele. O silêncio é presença, procura e encontro; é intimidade. Na medida em que a alma caminha para Deus, as palavras, as imagens e os sentimentos devem dar lugar ao silêncio. Elisabeth teve um especial atrativo por esse silêncio que foge de todo o convívio para permanecer, pela fé na presença de Deus. É a santa do silêncio. Sonhava em “viver Contigo solitária”. Mesmo em meio às festas e reuniões do mundo, sua alma elevava-se a Deus, imersa no silêncio e adoração. Demonstrava a calma alegria de quem está em paz e pode sorrir, mas seu olhar e seu sorriso manifestavam, irradiavam Nosso Senhor. “Dentro de mim existe uma solidão onde Cristo mora, que ninguém poderá tirar de mim.” “Parece-me que nada nos pode distrair Dele, quando só agimos por ele, sempre em sua santa presença, sob o olhar divino que penetra até o mais íntimo da alma; mesmo no meio do mundo, pode-se ouví-Lo no silêncio do coração que só quer pertencer a Ele”. (Carta 38) “O Carmelo é um canto do Céu: no silêncio e na oração, vive-se só com Deus só”. (Carta 142) “Permaneçamos ali em silêncio, para escutar Aquele que tem tanto para nos comunicar”. (Carta 140) Reflexão... “Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á”. Mt 6,6 “Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração”. Lc 2,19

domingo, 1 de novembro de 2020

NOVENA À SANTA ELISABETE DA TRINDADE | 3º Dia com Padre Mario Sartori

 

TERCEIRO DIA – Confiança e Abandono Sinal da Cruz. Vinde Espírito Santo. É a fé que nos aproxima de Deus. “Para aproximar-se de Deus é preciso crer.” (Hb 11,6). Diz o Catecismo da Igreja Católica: “o ato de fé é um ato humano, ou seja, um ato da inteligência do homem que, sob o impulso da vontade movida por Deus, dá livremente o próprio consenso à vontade divina” (153-163). É um Dom gratuito de Deus. Quando a alma sabe crer no grande Amor de Deus, nada a detém. Ela entrega-se então, sem reservas, com confiança e abandono, nesse amor. A confiança conserva a alma no equilíbrio, nos dá força e coragem no sofrimento. Na alma confiante a abandonada, o Espírito Santo agirá livremente. Elisabeth permaneceu fiel até o fim nesse caminhar para Deus na pura fé, mesmo quando gravemente enferma. É o meio de retribuir a Deus amor com amor. Mais sua alma é provada, mais aumenta sua fé, sua entrega total, afetuosa e dócil à Vontade Divina. “E de que servem as consolações, as doçuras? Estas coisas não são ele, e é Ele que buscamos. Vamos pois a Ele pela pura fé.” (Carta 53) “… a Ele me entrego e me abandono, de antemão feliz por tudo o que acontecer”. (Carta 250) “…também eu devo procurar o mestre que se esconde. Mas então, vivo na fé e fico satisfeita de não gozar de sua presença para deixá-Lo gozar do meu amor.” (Carta 298) Reflexão… “ A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê. Sem fé é impossível agradar a Deus, pois para se chegar a ele é necessário que se creia primeiro que ele existe e que recompensa os que o procuram.” (Hb 11, 1. 6) “Ao abandonado, Deus prepara uma casa”. (Sl 67,7) Oração: Pai Nosso, Ave-Maria e Glória.

sábado, 31 de outubro de 2020

NOVENA À SANTA ELISABETE DA TRINDADE | 2º Dia com Padre Mario Sartori

 

SEGUNDO DIA Morro cada dia – Renúncia e Desapego Sinal da Cruz. Vinde Espírito Santo. Enquanto alguma coisa nos prender, não poderemos livremente voar para Deus. Não há nada mais tranquilo que um coração simples, livre. Importa, pois, elevar-se acima de todas as coisas, acima até de si mesmo, para unir-se cada vez mais ao Senhor. Para vivermos unidos à Jesus, precisamos nos desprender dos laços que nos prendem ao mundo. A alma que ainda não se desprendeu, “está sempre agitada, inquieta, caminha na escuridão e mil cuidados a atormentam”. Renunciar é a disposição da alma em não viver, em nada, para si; disposição sincera, contínua, firme de afastar a alma de sua inclinação natural e se fazer o centro da própria vida, de sair de si, de se desinteressar por si, de deixar-se de lado. Renunciar-se é amar! Em escravidão vivem todos os que se amam e buscam a si mesmos. Para ser um cristão de verdade, é preciso renunciar a algumas das coisas que aparentemente nos levam à felicidade, mas na verdade não passam de pura enganação. O conforto excessivo, riqueza exagerada, más companhias, ambição sem controle, egoísmo, vingança, fofocas, etc. Elisabeth chama de “conversão” o que se deu em sua primeira confissão, que deu origem a um verdadeiro despertar para as coisas divinas. Desde então resolveu lutar energicamente contra o seu defeito dominante, sem que esta aplicação de vencer-se alterasse a sua animação e alegria. Foi progredindo a passos largos. Sua vontade vinha sempre em último lugar. Quanto não teve de renunciar para dar alegria a sua mãe! Teria até mesmo deixado de entrar no seu amado Carmelo, se sua mãe não o tivesse permitido. Também o desapego da família foi algo de muito doloroso para Elisabeth. Porém, o coração livre dilata-se e tem maiores capacidades de amar: amar como Deus ama! “Jesus, meu Amor, minha Vida, ajudai-me; é Preciso absolutamente que eu consiga fazer sempre e em tudo o contrário de minha vontade. Bom Mestre, Sublime Amor, eu Vos imolo essa vontade, para que seja transformada na Vossa. Vo-lo prometo, envidarei todos os esforços para ser fiel a esta minha decisão de sempre renunciar a mim mesma. Nem sempre é tão fácil; mas convosco, ó Jesus, minha força, minha Vida, a vitória não será, porventura, certa?” (Diário 24/02/1899) “Esta doutrina de morrer a si mesmo, que é entretanto lei para toda alma cristã desde que Cristo disse: ´Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me`, esta doutrina que parece tão austera, é de uma suavidade deliciosa quando se olha o termo dessa morte, que é vida de Deus posta em lugar de nossa vida de pecados e misérias. A alma mais livre é, por certo, a que vive esquecida de si mesma. Se me perguntassem qual o segredo da felicidade, responderia que é não mais fazer caso de si, renunciar-se todo o tempo.” Carta 272 Reflexão… “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me. Porque aquele que quiser salvar sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por amor de mim, salvá-la-á” (Lc 9, 23-24) “Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus..” (Col 3,2-3)

Novena à Santa Elisabete da Trindade | 1º Dia com Padre Mario Sartori


PRIMEIRO DIA “Agindo contra – Combate a si mesmo” Sem autodomínio, a vontade fica inconstante, e qualquer outra virtude que se queira edificar sobre ela afunda-se. Para se alcançar o domínio de si mesmo, é necessário uma luta constante, principalmente por meio do sacrifício, da mortificação. Oferecida à Deus, esse sacrifício nos ajuda a purificar os pecados, e unir-nos com mais amor aos padecimentos de Jesus. O sacrifício é apenas aparente, pois vivendo assim, com sacrifício, livra-se de muitas escravidões e no íntimo do seu coração consegue saborear todo o amor de Deus. Precisamos fortalecer a vontade, forjando-a na fornalha da Graça de Deus, e lutando por adquirir, com garra e mortificação, o autodomínio, que nos deixa verdadeiramente livres. A alma nada consegue sem o calor da Graça de Deus, por isso deve fortificar-se com as fontes de graça, que são os Sacramentos, a oração humilde ao Espírito Santo, com o cumprimento dos deveres cotidianos, “em espírito de amor de Deus, de auto-respeito e de generosidade para com os outros, sem sufocar os sentimentos e as tendências, mas canalizando-as numa vida virtuosa.” João Paulo II. Elisabeth, desde pequena tomou a resolução de impor-se a si mesmo uma vigilância constante. Conhecia seu “defeito dominante” e lutou para dominá-lo. Aprendeu a vencer-se por amor. Acompanhava regularmente retiros pregados pelos Padres da Companhia de Jesus, onde inspirou-se em seus propósitos. Habituara-se a renunciar a si mesma, estando sempre pronta a ceder e desaparecer, o que chamou de “agendo contra”. Um verdadeiro combate a si mesma: esta foi a palavra chave de sua alma generosa. “Hoje, tive a alegria de oferecer a Jesus muitos sacrifícios para vencer o meu defeito maior. Quanto me custou! Por isso, reconheço toda a minha fraqueza. Quando recebo uma observação injusta, parece-me sentir o sangue ferver nas veias, tal é a revolta do meu ser. Mas Jesus estava comigo. Ouvia-lhe a voz no fundo do coração, e então estava disposta a tudo suportar por seu amor.” (Diário 30/01/1899)

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Oração à Santíssima Trindade composta pela Santa Elisabete da Trindade


Esta oração de Santa Elisabete resume toda a sua vida de carmelita.

“Ó meu Deus, Trindade que adoro, ajudai-me a esquecer-me inteiramente, de mim mesma, para me fixar em Vós, imóvel e calma, como se minha alma estivesse já na eternidade: que nada possa perturbar-me a paz, nem me fazer sair de Vós, ó meu Imutável, mas que cada instante me leve mais avante na profundidade de Vosso mistério.

Apaziguai-me a alma, fazei dela o Vosso céu, Vossa morada preferida, o lugar de Vosso repouso: que aí jamais Vos deixe só, mas que esteja toda inteira, totalmente desperta em minha fé, toda em adoração, completamente entregue à Vossa ação criadora.

Ó Cristo, meu amado crucificado por amor, quisera ser uma esposa para o Vosso coração, quisera cobrir-Vos de glória, amar-Vos…até morrer de amor. Sinto, porém, a minha fraqueza e peço-Vos me revistais de Vós mesmo, identificando a minha alma com todos os movimentos da Vossa, submergindo-me em Vós, invadindo-me, substituindo-Vos a mim para que a minha vida seja uma verdadeira irradiação da Vossa. Vinde a mim como adorador, como reparador, como salvador.

Ó Verbo eterno, palavra de meu Deus, quero passar a vida a ouvir-Vos, quero ser de uma docilidade absoluta para tudo aprender de Vós: e, depois, através de todas as trevas, todos os vácuos, todas as fraquezas, quero fitar-Vos sempre e ficar sob a Vossa grande luz. Ó meu Astro amado, fascinai-me para que não me seja mais possível sair de Vosso clarão radioso.

Ó fogo consumidor, Espírito de amor, vinde a mim, para que se opere em minha alma como uma encarnação do Verbo: que eu seja para Ele um acréscimo de humanidade na qual renove todo o seu mistério: e Vós, ó Pai, inclinai-Vos sobre Vossa pobre criatura, só considerando nela o muito Amado, no qual pusestes todas as Vossas complacências.

Ó meu “Três”, meu tudo, minha beatitude, solidão infinita, imensidade onde me perco, entrego-me a Vós como uma presa, sepultai-Vos em mim, para que eu me sepulte em Vós, enquanto espero ir contemplar em Vossa luz o abismo de Vossas grandezas.”


https://cleofas.com.br/o-meu-deus-trindade-que-adoro/


A vida de Santa Elisabete da Trindade

sábado, 29 de agosto de 2020

Basta a cada dia o seu cuidado

 

"Em que consiste esta lei universal e absoluta de nos entregarmos a Deus? No dever do momento presente.

Santificar uma vida inteira é consagrar a Deus o momento presente. 

O passado já não existe, o futuro ainda não chegou, só o presente é real e traz consigo o dever. 

É uma insensatez sobrecarregar o espírito com a perspectiva de milhões de ações a oferecer a Deus, de sacrifícios a renovar continuamente, de dificuldades sem número a vencer. Tudo isso é a santidade encarada de modo abstrato, através das lentes de aumento da imaginação. 

A realidade, a vida concreta, é um ato que se oferece a Deus, um dever que se cumpre, uma cruz que se abraça, uma tristeza que se suporta; por vezes também um descanso sob o olhar de Deus, uma alegria que se partilha com Ele, uma tarde que se passa ao Seu lado.

Reduzir a santidade a este único dever da hora presente é torná-la fácil, é entrar nas vistas de Deus, que não quis sobrecarregar-nos com um fardo difícil de suportar. 

Vivei o dia de hoje, diz-nos Ele, e não vos preocupeis com o dia seguinte. O amanhã trará consigo os seus próprios cuidados. Basta a cada dia o seu cuidado (MT 6,34). (...)

(...) O Senhor disse bem: Fazei-vos como crianças (Cf. Mt 18,3). 

A criança não pensa no passado e ainda menos no futuro; permanece junto da mãe, brinca sob a sua vista e sabe que está aos seus cuidados.

'Alma minha, torna-te criança! Repele todas as preocupações do passado, todo o temor e expectativa inquieta em relação ao futuro, e fica com Deus no presente. Serás feliz e tranquila e disporás inteiramente das energias da tua vontade, da atenção do teu espírito, para as aplicares ao dever presente. Só o momento atual conta para ti, só ele contém bens imensos.' Podes a cada instante enriquecer-te para o céu, porque em cada instante encontrarás Deus. 

Ó cegueira das almas! Procuram a santidade exteriormente, percorrem o universo, afundam-se no passado e perscrutam o futuro, correm atrás de quimeras, quando próximo delas, no momento presente, têm a perfeição com todas as suas riquezas, todos os seus dons e todas as opulências; quando próximo delas existe um oceano de santidade, no qual podem mergulhar."

Trecho do livro: O DOM DE SI - José Schrijvers - Cultor de Livros

sábado, 8 de agosto de 2020

São Domingos de Gusmão

São Domingos de Gusmão


Domingos nasceu na Espanha, em Calaruega, perto de Burgos e da abadia de Silos, em 1170. Era filho de Félix de Guzman e de Joana de Aza, mulher que se distinguiu pela grande piedade.


A Domingos, o que o fez santo, foi a educação cristã que recebeu. Instruído primeiramente na piedade, pela bem-aventurada Joana, e depois pelo preceptor, deu-se ao estudo, com afinco, à oração, com calor, às leituras piedosas, com carinho, e às obras de caridade, com afã.

Por espírito de penitência privava-se dos divertimentos permitidos à idade. Assim, enquanto os jovens da cidade, em bandos ruidosos, buscavam o espairecimento, Domingos, recolhido, procurava a Deus.

Estudando nas escolas públicas, vigiavam, com a maior atenção, o coração e os sentidos. Sempre ocupado com as coisas de Deus, falava pouco e, quando a isto era levado, fazia-o com moderação. Conversar, conversava somente com pessoas virtuosas. Era, então, circunspecto e doce ao mesmo tempo.

Os exemplos da mãe inspiraram-lhe grande devoção a Nossa Senhora e um amor pelos pobres fora do comum. Pelos desprotegidos privava-se de tudo o que possuía. Desfazia-se de dinheiro, de livros, de roupas, para ajudar os infelizes. Destarte, aos vinte anos, já despertava, na cidade em que nasceu, a caridade dos condiscípulos e de todos os habitantes daquela Calaruega de 1190.

A todos os filhos, Joana propiciou sólida educação cristã, imprimindo-lhes o selo de Deus, tanto assim que os três filhos que teve se tornaram religiosos: Domingos seria aquele decantado Domingos que atravessaria os séculos; o mais velho professaria na ordem de São Tiago; e o caçula na ordem dos Irmãos Pregadores, fundada pelo grande irmão.

Joana de Aza, quando o trazia ainda em gestação, sonhou, certa feita, que carregava, no ventre, um cão em cuja boca se prendia, e bem preso entre os dentes, um archote de vivo fogo, fogo esse que se destinava a abrasar o mundo.

Que significava tão estranho sonho? Era um símbolo: na Idade Média, o cão designava os pregadores.

Também a madrinha de Domingos teve um presságio quanto à futura posição do afilhado: viu, uma vez, sobre a cabeça do menino, uma estrela, que dava a entender "que um dia o pequeno seria a luz das nações, e que havia de esclarecer os que jaziam nas trevas e à sombra da morte."

É a estrela que aparece nos quadros do Angélico.

Educado, pois, primeiramente pela mãe, Domingos, depois aos cuidados dum tio, que era arcipreste na vizinhança de Calaruega, aos catorze anos, foi enviado a Palência. Ali estudou com ardor, principalmente teologia, distinguindo-se pela vivacidade, amor ao trabalho e virtudes. A caridade, sobretudo, pairava acima das demais qualidades que o adornavam.

O rumor daquele mérito não tardou a chegar aos ouvidos do bispo de Osma. Assim apenas conheceu o jovem Domingos, agregou-o, sem hesitar, ao seu capítulo.

Depois do ano de 1194, terminados com sucesso os estudos, o predestinado jovem de Calaruega foi residir em Osma, onde se tornou um dos suportes da reforma introduzida pelo bispo.

Por nove anos, o Pai dos pregadores levou vida de claustro. Desta fase da vida de São Domingos nada sabemos, senão que foi para todos os que com ele privavam modelo de piedade e regularidade. Giordano da Saxônia, autor de Libellus de pincipiis ord. Praed., conta-nos que o Santo "vivia confinado ao mosteiro", donde saiu para, com Diego de Acebes, então bispo de Osma, cumprir uma nova missão delicada: pedir para o filho de Afonso IX de Castela, a mão duma princesa das Marcas.

Tudo correu maravilhosamente, e ambos tornaram à Espanha a dar conta do sucesso. O rei, satisfeito, fez com que os dois se incumbissem de trazer a princesa, de modo que o bispo e Domingos, de novo, demandaram as Marcas, para, muito tristemente, constatarem que a jovem que iria desposar o príncipe falecera repentinamente. Ao invés de buscar Castela, Diego enviou mensageiro a Afonso IX, para pô-lo ao par do acontecido, e, com Domingos, rumou para Roma.

O objetivo de Diego de Acebes, em Roma, era tratar com o Papa uma questão que, de há muito vinha acalentando: ver-se livre do bispado, porque queria dar-se todo inteiro à evangelização das tribos nômades e idólatras dos Cumanos, na região do Don e do Volga, desejo que o bom bispo não viu satisfeito, em vista das heresias que então devastavam a cristandade: Inocêncio III, simplesmente, recusara-se tratar do caso de Diego de Acebes, já que outros campos de ação se ofereciam ao zelo do bispo e do companheiro.

Em Languedoc, por exemplo, uma nova heresia surgira que devia ser combatida - a albigense.

Do século XII para o século XIII, vivia tranquila e pacificamente entre o Garona e a margem esquerda do Ródano uma população composta de homens simples, sensatos e valorosos, que a história, mais tarde, designaria com o nome de albigenses, homens que, contaminando por pregações apaixonadas que ameaçavam a Igreja, tornaram-se heréticos, rejeitando a autoridade papal e não admitindo a maior parte dos sacramentos. Pelo ano de 1200, estes hereges de Albi, achavam-se espalhados por quase toda a Europa, mas em maior número e, pois, mais perigosamente, ao longo do curso inferior do Danúbio, no norte da Itália e ao sul da França.

A doutrina filosófica da seita calcava-se num velho princípio pagão: a existência de duas divindades, uma boa, que criara as almas, e outra má, que criara o mundo dos corpos. E, ensinando que os homens deviam resguardar-se de tudo aquilo que fosse corpóreo, acabavam os seus adeptos, a rejeitar o matrimônio, a vida de família, tudo aquilo, enfim, que julgavam fosse de encontro com a pura espiritualidade.

Destarte, os mais ardorosos, os mais zelosos, passavam, muitas vezes, a desejar a morte. Tanto pela filosofia como pelo modus vivendi, tais hereges eram, pois, naturais inimigos da Igreja Católica.

O Papa Lúcio III, alarmado com a consistência que tomavam os albigenses, os valdenses, restauradores do donatismo, e outras heresias, reuniu, em 1184, um grande concílio em Verona, do qual participou, espontaneamente, o imperador Frederico I.

Aquele concílio de Verona tomou as mais severas disposições contra os hereges: decretou que os condes, barões e outros senhores jurassem ajudar, e de mão armada, a Igreja, para descobrir e castigar os hereges, sob pena de serem excomungados e perder bens e direitos.

Os demais, que prometessem, também debaixo de juramento, denunciar ao bispo ou aos delegados, todas as pessoas que se suspeitasse viviam, na heresia ou formavam sociedade secretas.

A disciplina canônica, decretada pelo concílio de Verona daquele ano de 1184, faz crer que o estabelecimento da Inquisição datava daquela época.

O advento de Inocêncio III ao pontificado, em 1198, marcou a fase memorável da história da Inquisição. Este Papa, ao ver que a heresia dos albigenses triunfava das bulas apostólicas, insatisfeito com a maneira com que os bispos e delegados executavam as medidas decretadas pelo concílio de Verona, acabou por optar pela adoção de comissários que seriam encarregados de reparar o mal que os prelados não haviam extirpado. E, se não se atreveu, prontamente, a privá-lo da intervenção nos assuntos relativos aos hereges, achou meios de fazer com que a autoridade episcopal se tornasse quase nula.

Em 1203, Inocêncio III encarregou Pedro de Castelnau e a um Raul, ambos monges de Cister, de pregar contra os albigenses. Tais pregações tiveram êxito. Assim, pareceu ao Papa ser favorável o momento para introduzir na Igreja inquisidores dependentes dos bispos, que tivessem o direito de perseguir os hereges.

Diego de Acebes e Domingos de Gusmão, tornaram-se famosos perseguindo hereges com calorosíssimas pregações.

Em 1208, na França, sob o reinado de Filipe II e sob o pontificado de Inocêncio III, teve lugar o definitivo estabelecimento da Inquisição.

Alguns meses antes da morte de Inocêncio III, São Domingos, cujo zelo em agir contra os hereges tornara-o estimadíssimo do Santo Padre, apresentou-se à corte romana com o fito de obter a autorização para fundar uma ordem destinada a pregar contra as heresias.

O Papa acolheu a ideia com grande satisfação, não escondendo a alegria que lhe ia na alma.

Dada a autorização, Domingos, imediatamente, pôs mão à obra: organizou o instituto e impôs-lhe a regra de Santo Agostinho, porque o concílio Lateranense de 1215 proibia novas Regras para ordens religiosas.

Morto Inocêncio III, Honório III subiu ao trono imperecível de São Pedro.

Satisfeito com a conduta de Domingos e dos companheiros, o novo pontífice autorizou a propagação da ordem em toda a Cristandade, de modo que, em pouco tempo, a Espanha e a Itália sentiam os seus efeitos.

Os dominicanos, pois, associados com a Inquisição, foram apóstolos da cruzada contra os albigenses, que o conde de Tolosa, senhor deudal, protegia, conde que chegou ao extremo de, em 1208, assassinar o delegado da Santa Sé, Pedro de Castelnau.

Um dos meios mais eficazes que São Domingos empregou para obter de Deus a conversão dos hereges, ao mesmo tempo, instruir os fiéis, foi a prática e a instituição do Santo Rosário, prática que consiste em se recitar quinze Pai-Nossos, e depois de cada Pai-Nosso, uma dezena de Ave-Marias, para honrar os quinze principais mistérios da vida de Jesus e de sua Santa Mãe. O terço é a sua terça parte. Rezá-lo bem é unir a oração do coração à oração vocal.

Sixto V aprovou o antigo costume de recitar o Rosário. Gregório XIII instituiu a festa do Rosário. Clemente VIII introduziu-a no Martirológio. Clemente XI estendeu-a a toda a Igreja. Benedito XIII inseriu-a depois no Breviário Romano.

Em 1217, para atrair a juventude acadêmica para dentro do clero, o fundador determinou que as Casas da Ordem fossem criadas nas principais cidades universitárias da Europa, que na época eram Bolonha e Paris. Ele se fixou na de Bolonha, na Itália, onde se dedicou ao esplêndido desenvolvimento da sua obra, presidindo, entre 1220 e 1221 os dois primeiros capítulos gerais, destinados à redação final da "carta magna" da Ordem.

No dia 8 de agosto de 1221, com apenas cinqüenta e um anos de idade, ele morreu. Foi canonizado pelo papa Gregório IX, que lhe dedicava especial estima e amizade, em 1234. São Domingos de Gusmão foi sepultado na catedral de Bolonha e é venerado, no dia de sua morte, como Padroeiro Perpétuo e Defensor dessa cidade.

Fonte: http://www.arautos.org.br/especial/17940/Sao-Domingos-de-Gusmao.html

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Um grande obstáculo para a vida intelectual

TUDO QUE É VERDADEIRO, DITO POR QUEM FOR, VEM DO ESPÍRITO SANTO!! (Ambrosiástri) TODO BOM E VERDADEIRO CRISTÃO HÁ DE SABER QUE A VERDADE EM QUALQUER PARTE ONDE SE ENCONTRE É PROPRIEDADE DO SENHOR" (Santo Agostinho)

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Almudena: do mundo ao Carmelo

O todo o nada: Hna. Clare Crockett (Película completa)

Una incipiente actriz deja atrás su carrera y las puertas que se le abren a la fama para dar su vida a Dios. Puede que algunos vean esto como un fracaso total. Pero… ¿lo fue? En esta película hablan quienes conocieron a la Hna. Clare. Tras su trágica muerte en el terremoto de 2016 en Ecuador, parece que el fracaso haya impuesto un devastador final. Y, sin embargo, muchos piensan que la historia no se acaba ahí. Gracias a los archivos de las Siervas del Hogar de la Madre, en los que se conservan fotos y vídeos de más de 15 años de la vida de la Hna. Clare, HM Televisión presenta, en este documental, la historia real de esta hermana, que dio TODO a Dios, sin guardarse NADA.

sábado, 9 de maio de 2020

MINHA IDENTIDADE "escondida em Cristo"


Nos evangelhos sinóticos, esta pergunta sobre a identidade de Jesus ocupa um lugar destacado. Ela nos oferece as respostas do povo e da comunidade de discípulos, personalizados em Pedro.

 

Como seus seguidores, devemos continuar nos perguntar “quem é Jesus?”. Aqui não se trata do conhecimento externo da pessoa de Jesus: quando e como viveu, quem são seus pais, em que cultura viveu, qual era seu entorno social e religioso; nem sequer se trata de conhecer e aceitar sua doutrina.

Nosso seguimento está fundamentado no Jesus que encarna o ideal do ser humano querido por Deus, Aquele que nos revela, ao mesmo tempo, quem é Deus e quem é o ser humano. Por isso, a pergunta que devemos responder é: “quê significa Jesus, para mim?”

 

É preciso deixar muito claro que não se pode responder a essa pergunta se não nos perguntamos ao mesmo tempo: “quem sou eu?” . O encontro com a identidade de Jesus desvela nossa própria identidade.

 

Na realidade, a pergunta pela identidade é a mais importante de todas aquelas que podemos nos fazer: “Quem sou eu?” A rigor, essa é a primeira e essencial pergunta. A resposta adequada à mesma nos liberta da ignorância, da confusão e do sofrimento. Faz-nos livres e nos possibilita viver na luz.

Porque o objetivo de nossa vida não pode ser outro que o de viver o que somos. E isso não é algo que devemos “alcançar”, “conseguir” ou “conquistar”..., mas, simplesmente, reconhecer. Trata-se de cair na conta ou compreender quem somos. Ao compreender isso, emerge a plenitude, a sabedoria e a alegria.

 

Dito de outro modo: a causa de muitos sofrimentos existenciais não é outra que a ignorância ou inconsciência de nossa identidade profunda. O grande místico cristão do séc. XIII, Mestre Eckhart, repetia essa expressão contundente: “Meu solo e o de Deus são o mesmo”.

 

Em outras palavras: a Rocha é o divino que nos habita. No caminho do Seguimento de Jesus vamos tirando os véus que bloqueiam e obscurecem nossa visão, permitindo que aflore resplandecente nossa radiante identidade. 

 

No evangelho de hoje, Jesus revela sua identidade (“Messias, o Filho do Deus vivo”) e, ao mesmo tempo, desvela a identidade de Pedro: “Tu és “petros” (pedregulho) e sobre esta “petra”(rocha) edificarei minha igreja”. Pedro se torna rocha firme (“petra”) quando se apoia na identidade de Jesus (a verdadeira Rocha).

 

Pedro, que era “petros” (pedra de tropeço no caminho), foi sendo transformado, através da identificação com Jesus, em “petra”, rocha firme da primitiva comunidade cristã. Dessa forma, o Simão que era “petros”/pedra se converte em “Petra”/rocha firme, porque o mestre desvelou a nobreza que estava escondida no coração dele, ou seja, sua verdadeira identidade sobre a qual o mesmo Jesus iria edificar sua igreja.

 

Todo ser humano possui dentro de si uma profundidade que é o seu mistério íntimo e pessoal; trata-se do “EU original”, aquele lugar santo, intocável, onde reside o lado mais positivo da pessoa. É aqui onde a pessoa encontra a sua identidade pessoal; trata-se do CORAÇÃO,  da dimensão mais verdadeira de si, da sede das decisões vitais, lugar das riquezas pessoais, onde vive o melhor de si mesma, onde se encontram os dinamismos do seu crescimento, de onde parte as suas aspirações e desejos fundamentais, onde percebe as dimensões do Absoluto e do Infinito da sua vida.

 

O próprio ser é a rocha consistente e firme, bem talhada e preciosa que cada pessoa tem para encontrar segurança e caminhar na vida superando as dificuldades e os inevitáveis golpes da luta pela vida. Com confiança em si e na rocha do próprio interior todas as forças vitais se acham disponíveis para crescer dia-a-dia, para a pessoa se tornar aquilo que originalmente é chamada a ser.

 

Descobrir a própria identidade pessoal é situar-se na linha da orientação e sentido da vida. A pessoa deve ter a capacidade de voltar sobre si mesma e perceber por onde está sendo conduzida e porquê. Concretamente, isso pressupõe uma atitude de atenção e escuta que permitem à pessoa situar-se diante do “para onde” e “para quê”,  diante da motivação básica do viver e do agir, diante da “intenção”  com que faz as coisas...

 

“Viver em profundidade” significa “entrar” no âmago da própria vida, “descer” até às fontes do próprio ser, até às raízes mais profundas. Aí se pode encontrar o sentido de tudo aquilo que é, o porquê do que se faz, se espera, busca e deseja.

 

“Descobrir a si mesmo” é descobrir que no próprio interior há um movimento infinito de construção de si, de identidade em expansão... que se torna possível graças a um constante arrancar-se do imobilismo e da paralisia existencial que impedem o fluxo da vida.

        

Nossa existência não pode ser de anonimato e indefinição. Ela exige identidade clara e bem definida. Normalmente confunde-se a identidade com certas “marcas distintivas”: o nome, a profissão, a posição social, política ou religiosa, a função...

 

A identidade, no entanto, é dinâmica, histórica, fecunda, aberta ao desconhecido, aventureira...; ela é lugar de expansão e de manifestação da livre circulação do impulso vital, que faz de cada ser humano um “sopro divino vivo”.

 

Esse movimento não permite mais que se responda à pergunta: “Quem sou eu?”, pois o ser humano não é, ele se “torna”. O ser humano é um contínuo “tornar-se”, um “vir-a-ser”, um “ek-sistir”, capacidade de ir além de si e adiante de si, no movimento de infinita transcendência.

 

Só transcende quem se aproxima da própria interioridade, do próprio coração.

 

Ter identidade é viver em contato com as raízes que nos sustentam. Em contato com a fonte e na viagem para dentro, clareia-se a visão de nós mesmos, da nossa originalidade e dignidade. Há uma força de gravidade que nos atrai progressivamente para o mais profundo de nós mesmos, onde Deus nos espera e nos acolhe, e onde encontraremos a nossa própria identidade e a verdadeira paz.

 

“Que eu me conheça e que te conheça, Senhor! Quantas riquezas entesoura o homem em seu interior! Mas de que lhe servem, se não se sondam e investigam” (S. Agostinho).

 

De “petros” a “petra”: esse é o desvelamento que acontece em todo seguidor de Jesus quando escuta e vive sua Palavra, proclamada no Sermão da Montanha.

Nossa identidade profunda é constituída pela fragilidade/petros e pela fortaleza/petra. Só no encontro com Aquele que é a Rocha firme é que transparece a “petra” que está oculta em nosso interior.

 

Texto bíblico:   Mt 16,13-19 

                                                                                             

 Na oração: A oração é o caminho interior que faz a pessoa chegar até o próprio “eu original”, aquele lugar santo, intocável, onde reside não só o lado mais positivo da pessoa, mas o mesmo Deus. Este é o nível da graça, da gratuidade, da abundancia, onde a pessoa “mergulha” no silêncio à escuta de todo o seu ser.

 

Através da oração a pessoa desce a uma dimensão mais profunda e assim chega à corrente subterrânea.

Aqui ela experimenta a unidade  de seu ser.

Coloque-se diante da verdade de Deus, na verdade de si mesmo:

- que resposta você daria, agora, se um repórter lhe entrevistasse e lhe perguntasse: “quem é você?”

- o que você colocaria na sua carteira de identidade que lhe diferenciasse de todas as outras pessoas? Quais seriam os seus sinais digitais mais originais? Quais os seus sinais digitais divinos? (as “marcas” de Deus);

- o que em você é “rocha” consistente, fundamento inabalável?

 

Pe. Adroaldo Palaoro sj


https://www.centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/939-minha-identidade-escondida-em-cristo


quinta-feira, 16 de abril de 2020

A Meditação Secreta




Um irmão de nome João, vindo da região à beira-mar, dirigiu-se ao santo pai Filémon; abraçou seus pés e disse-lhe:

“O que devo fazer, pai, para ser salvo? As profundidades de meu coração se agitam e vagam ora aqui, ora acolá, para o que é proibido”.
Ele hesitou um pouco, depois lhe falou:
“Essa paixão é própria daqueles do mundo (cf. 1Cor 5,12; Col 4,5; 1Tes 4,12) e permanece porque ainda não tens um perfeito desejo de Deus. Ainda não te chegou o calor do desejo e do conhecimento de Deus”.
O irmão perguntou: “O que devo fazer, pai?”.
Pai Filémon respondeu: “Vai, e por um pouco de tempo faz em teu coração uma meditação secreta, que possa purificar profundamente tudo isso”.
O irmão, que não era iniciado no que lhe era dito, falou ao ancião: “O que é a meditação secreta, pai?”.
Ele lhe disse: “Vai, sê sóbrio no teu coração, e sobriamente diz na tua mente, com temor e tremor: 'Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim’; assim recomenda o beato Diádoco aos principiantes”.
O irmão foi embora e com o auxílio de Deus e as orações do pai; tendo-se colocado em paz, encheu-se de doçura por um pouco de tempo com tal meditação. Mas, como ela improvisadamente retirou-se dele e não podia cultivá-la com sobriedade e orar, retornou ao ancião e narrou-lhe o acontecido.
Ele lhe disse: “Eis: conheceste a indicação da paz interior e do esforço, e experimentaste a doçura que disso vem, portanto, guarda-a sempre em teu coração. Quer comas, quer bebas (1Cor 10,31), quer vás visitar outros, seja fora da cela, seja pela estrada, não deixe de dizer essa oração, de dizer os salmos, de meditar orações e salmos com uma mente sóbria e coração estável. Mas, também em estado de absoluta necessidade, não fique inerte teu coração no meditar secretamente e no orar. Assim, poderás conhecer as profundidades da divina Escritura e a força escondida nela, e poderás fazer o coração trabalhar incessantemente para cumprir o mandato apostólico que ordena: Orai sem cessar (1Tes 5,17).
Fica muito atento, portanto, e guarda teu coração para que não acolha pensamentos malvados ou, de qualquer modo, vãos e inúteis, mas sempre, quer durmas quer te levantes, quando comes, bebes ou encontres outros, o teu coração ora medita os salmos, ora reza em segredo, no pensamento: ‘Senhor Jesus Cristo, filho de Deus, tende piedade de mim’. E ainda, quando rezas os salmos, presta atenção para não dizer certas coisas com a boca e viajar com o pensamento em outras”.

oracaodejesus.com

O ASSUNTO DA MEDITAÇÃO

A meditação deve ter um assunto definido, preciso. No início da vida de oração, quanto mais precisos e concretos formos na meditação, tanto mais êxito teremos. A disciplina que nos impomos para nos concentrarmos num assunto especial claro e nítido tende a unificar as faculdades, dispondo-as assim, remotamente, para a oração contemplativa.
 
ASSUNTO DA MEDITAÇÃO
 
Está claro que a escolha do assunto é de importância na meditação. E torna-se imediatamente evidente, desde que a meditação é uma forma íntima e pessoal de atividade espiritual, que a escolha deva ser pessoal. A maior parte das pessoas não consegue meditar bem num “tema” imposto por outro, sobretudo se é algo de abstrato.

O assunto normal da meditação, conforme a tradição ascética cristã, será algum mistério da fé. [...]

A finalidade da meditação é, portanto, em primeiro lugar, tornar-nos capazes de ver e experimentar os mistérios da vida de Cristo como fatores reais, presentes em nossa própria vida espiritual.

Para tornar essa experiência mais profunda e pessoal, procura a meditação penetrar debaixo da superfície exterior, no sentido íntimo, e, (o mais importante) relacionar os acontecimentos históricos narrados no Evangelho, com a nossa própria vida aqui e agora.


O capítulo "COMO MEDITAR.pdf", na íntegra,
está a sua disposição, basta solicitar AQUI


 
Direção espiritual e meditação
(Vozes, 1965) pág. 109-112
Livro raro
Quando iniciamos duas semanas atrás a série "Como Meditar", a partir da obra "Direção Espiritual e Meditação", 4 exemplares desta raridade estavam disponíveis para venda a "peso de ouro" na internet. Hoje, resta apenas 1 exemplar oferecido por R$ 300 na Estante Virtual. Duas importantes constatações: a) há amigos/amigas de Merton que acreditam no poder transformador dos escritos do monge trapista e vencem as barreiras da escassez de dinheiro e dos preços elevados para ter consigo os ensinamentos seguros de um mestre espiritual; b) precisamos de novas reedições.
A Associação Thomas Merton atua junto às Editoras para conseguir levar aos leitores os tesouros da vida monástica e da espiritualidade contemplativa. Junte-se a nós nessa jornada: Associe-se.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

ARQUIMANDRITA SOFRÔNIO, UM HOMEM SEDENTO DE ABSOLUTO

COSSEC Arquimandrita Symeon 
tradução de monja Rebeca (Pereira)

I

Pela força dos acontecimentos, um testemunho é algo de subjetivo, e por vezes mesmo parcial, algo que não é e não pode ser completo, que não é sempre exato no sentido da exatidão fotográfica, mas, de certo, verdadeiro – da verdade do retrato, no qual penetram-se facilmente alguns traços daquele que é retratado. É nesta perspectiva que arriscaria dizer algumas palavras a respeito do Padre Sofrônio; consciente de que não passarão de algumas gotas no oceano.


Eu nada sabia acerca do Padre Sofrônio, além de ser ele um monge russo, vindo do Monte Atos, e que se encontrava na região parisiense. Eu não conhecia nem o seu nome, nem, a fortiori, o seu endereço. É em busca deste “monge desconhecido” que, vindo de Lausanne, cheguei a Paris no final de dezembro de 1950 – em busca de suas coordenadas. Eu me dirigi, então, aos Lossky (família russa que se estabelece em França no início do século XX, em virtude da turbulenta situação na Rússia), onde celebravam justamente uma festa de família em seu espaçoso apartamento situado na Ile Saint-louis, de frente para o Seine. Lá, encontrei as coordenadas que buscava: era o hieromonge Sofrônio, residente em Donjon, em sainte-Geneviève-des-bois (aproximadamente a 25 Km ao sul de Paris).

Eu conheci o Padre Sofrôno nos primeiros dias de janeiro de 1951. Ele devia ter uns cinqüenta e cinco anos. Não o encontrei em seu domicílio, em Donjon, mas antes na Maison Russe, situada ela também em sainte-Geneviève-des-bois. O encontro fora muito breve pois ele estava ocupado com um grupo de pessoas idosas, do qual pode, todavia, ausentar-se por alguns instantes para me saudar. Permanecemos em pé no corredor, mas estes alguns poucos minutos foram suficientes para mudar o curso de minha vida.

No dado momento, eu não o sabia com tamanha evidência: é somente retornando ao meu passado, que agora, eu o posso afirmar.

O Padre Sofrônio me acolhe com uma cortesia extrema, em seguida me diz algumas palavras que revelavam que o seu amor havia penetrado até os confins mais secretos do meu ser. Eu sabia desde então que nele eu havia descoberto a “pérola preciosa”, e resolvi retornar para vê-lo no verão seguinte.

Nesta época, o Padre Sofrônio não era conhecido: somente nos estreitos círculos da emigração russa, em Paris, sobretudo pelo seu livro Ancião Siluan, que ele próprio havia publicado, em uma edição renovada, em 1948. Ele vivia em condições extremamente modestas, para não dizer miseráveis. Somente algumas raras pessoas conheciam e vinham lhe visitar para beneficiar de sua direção espiritual.

Agora, depois de mais de 50 anos – e 10 após sua morte: estamos em outubro de 2003 – a situação mudou radicalmente. O Padre Sofrônio é conhecido no mundo ortodoxo inteiro. É o caso, sobretudo no Monte Atos, na Grécia, e em Chipre, onde o seu renome, igual aquele dos Anciãos mais célebres da segunda metade do XX século, mas igualmente na Rússia e nos outros países eslavos, como é o caso da Romênia, na Ortodoxia de língua arábica (Líbano e Síria), sem deixar de nos esquecermos dos meios ortodoxos da emigração, na Europa e na América. O Padre Sofrônio fora, sobretudo remarcado enquanto autor do livro Ancião Siluan (edição russa impressa em 1952, rapidamente traduzida em quase todas as línguas na Europa ocidental). Fora ele imposto como biógrafo de São Siluan e como teórico da ascese monástica ortodoxa. Também reconhecemos nele um verdadeiro Ancião, no senso forte do termo: um Pai Espiritual beneficiando não somente de uma longa experiência (diz-se que “no fim da sua vida era o Pai Espiritual mais idoso da Igreja Ortodoxa”), mas também de uma incontestável inspiração vinda do Alto.

Teólogo do monaquismo e da ascese ortodoxos e, bem obviamente, Pai Espiritual: estas duas características estão, todavia longe de esgotar a riqueza da personalidade do Padre Sofrônio. É a respeito de outros aspectos do Ancião que eu gostaria de m dirigir neste rápido sobrevôo.

Encontramos junto do Padre Sofrônio uma diversidade de traços que se descobrem raramente em uma mesma pessoa, por serem mais ou menos exclusivos, uns dos outros. Nele, todavia, estavam ao contrário, harmoniosamente reunidos. Em uma palavra, era um homem de uma excepcional complexidade. Eu darei um só exemplo dentre muitos outros: a união de uma extrema fidelidade à Tradição e de uma criatividade com tamanha audácia. O Padre Sofrônio era um criador corajoso, audacioso mesmo, o que confirma o fato de que a Tradição, longe de ser um conservantismo morto e frívolo, é uma “criação sempre nova” sob o sopro do Espírito Santo. “Eis que faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21: 5).

O Padre Sofrônio estava aberto a todos. Tirava sua abertura da própria Igreja Ortodoxa, jamais limitada à uma cultura particular, à uma área geográfica ou à uma época histórica: ela é a Igreja do Cristo em toda a sua universalidade, à qual nada falta. Ela não é a parte “oriental” da Cristandade. Também se entristecia quando remarcava – muito geralmente – que um espírito de nacionalismo se infiltrava na vida da Igreja e nela deformada esta universalidade à imagem do Cristo, onde “não há nem judeu nem grego”. A estreiteza do espírito, ou ainda o que ele chamava, com um sorriso, o espírito “Dardanellino” lhe era totalmente estranho, este espírito que põe em perigo outro aspecto da vida cristã ao qual ele está muito ligado: a liberdade. Para ele, todo ato espiritual que não é livre (realizado na pressão física, moral ou psicológica) não tem valor diante de Deus, o que não o impedia de colocar a obediência – aquela que é à imagem de Cristo – na base de toda vida monástica, mas também da vida cristã, enfim.

II

Tragamos, então, rapidamente à memória algumas das facetas que compunham a riqueza da personalidade do Padre Sofrônio e lhe permitiam de se entreter livremente, em um total respeito pelo próximo, com praticamente não importa qual ser humano: criança ou idoso, homem ou mulher, rico ou pobre, instruído ou ignorante, ortodoxo, de outra religião ou até mesmo ateu, dispondo alto ou baixo status na hierarquia social ou eclesiástica, grande teólogo ou piedoso e simples batchuska.

1. Pintor
Nascido em 1896, em Moscou, o Padre Sofrônio consagra a primeira parte de sua vida à pintura. Ele chega a Paris em 1922, e diante dele se abrem as portas dos prestigiosos Sallon d´Automne e Sallon de Tuilères, onde suas obras são expostas. Totalmente dado (dedicado) à sua arte, ele o era de uma maneira que já anunciava seu desenvolvimento interior: sua arte, em efeito, era como uma mistagogia destinada a penetrar nos segredos do ser, ou melhor, a penetrar os segredos do Ser.

2. Místico Oriental
É nesta perspectiva que ele pratica, já na Rússia, uma forma de meditação a qual o afasta temporariamente do Cristianismo de sua infância, que ele considerava como situado sobre um plano “psíquico” (do amor de Deus e do próximo) e não sobre aquele do Ser transcendendo toda limitação ou determinação (por exemplo aquela da pessoa, que ele confundia com o indivíduo). Ele mergulhava resolutamente na busca deste Absoluto transpessoal então a Seus olhos únicos digno das nossas últimas aspirações.

3. Monge Cenobítico
É em Paris que ele vem a encontrar-se sobre uma via conduzindo a um “suicídio espiritual”, à abolição daquilo de mais precioso no homem: a pessoa. Seu retorno a Cristo e à Igreja foi tão radical como sua busca precedente; nem a pintura nem os estudos de teologia no Institut saint Serge puderam retê-lo no mundo: em 1925, ele se dirige ao Monte Athos. É lá que ele encontra, em 1930, o Ancião Siluan, fato determinante para todo o resto da sua vida. Em certo sentido, fora também neste encontro que ele pôde fazer erguer a longínqua origem de nosso Mosteiro.

4. Eremita e Pai Espiritual
O Ancião Siluan morre em 1938. No ano seguinte, Padre Sofrônio se retira à Karoulia, na extremidade meridional da península do Athos, onde vive como eremita em uma gruta, levando uma vida de extrema autoridade. Foi ordenado padre em 1941 e torna-se Pai Espiritual em 1942. Seu perfeito conhecimento da língua grega lhe permite exercer seu ministério junto dos monges do Mosteiro de São Paulo e de outros Mosteiros na costa oeste do Atos. Estava ele também em um estreito contato espiritual com os eremitas e ascetas dos skite que se encontram nesta parte da Santa Montanha. Ele vivia então em outro eremitério, aquele da Santíssima Trindade, igualmente em uma gruta, situado em uma falésia descendo a pico no mar.

5. Teólogo e Autor de Escritos ascéticos
Em 1947, depois de vinte dois anos de vida no Monte Athos, o Padre Sofrônio retorna a Paris com a intenção de publicar os cadernos e as notas do Ancião Siluan. Como já o dissemos, uma primeira edição fora impressa pelos seus cuidados, em 1948, seguida por uma primeira edição impressa em russo em 1952. Uma doença grave, a qual o deixa semi-inválido, bem como outras tarefas interromperam parcialmente sua atividade de escrito (ele tinha projetado uma terceira parte para o seu livro Ancião Siluan, no entanto, ela jamais viu o dia). Ele retoma esta atividade nos anos 1970 e 1980 e publica Sua vida e a minha (em inglês, 1977), Ver Deus tal como Ele é (em russo, 1985) e Sobre a Oração (em russo, 1991). Seu domínio próprio é antes de tudo a teologia da vida monástica e ascética, baseada em sua experiência própria e sobre a tradição dos Padres da Igreja, todavia a teologia especulativa não lhe era nem um pouco estrangeira: como prova, ver seu ensaio “Unidade da Igreja à imagem da Trindade Santa” e seu livro Ver Deus tal como Ele é.

6. Epistolário
No Monastério de São Panteleimom, o Padre Sofrônio mantém, desde 1932, uma importante correspondência com David Balfour, em seguida com menos intensidade, até a morte deste último em 1989. Mais tarde, na França e depois na Inglaterra, teve relações epistolárias seguidas com membros de sua família em Moscou, com Padres (como exemplo, o Padre Boris Stark, em Iaroslav) e outras pessoas. Desta volumosa correspondência, em vias de publicação, três volumes já foram publicados em russo.

7. Escritor Litúrgico
O Padre Sofrônio compôs numerosas orações pessoais mas também importantes coletâneas de orações podendo ser utilizadas no quadro da Liturgia, ofícios para os defuntos, etc...

8. Fundador de um Monastério
Desde o outono de 1956, um pequeno grupo de pessoas de diferentes nacionalidades começa a se reunir para orar junto em um curral transformado em capela, situado em uma propriedade privada pertencente a um emigrante refugiado em França, Bédir Khan, que nesta época era professor na Escola de línguas orientais em Paris. A ausência de livros litúrgicos em eslavônico e a diversidade de línguas das pessoas concorrentes – homens e mulheres – fez com que esta oração se concentra-se na recitação em comum da Oração de Jesus, e sobre a Liturgia eucarística celebrada pelo próprio Padre Sofrônio, único padre do grupo, na época. Em 1959, o Padre Sofrônio, acompanhado de outras quatro pessoas deste grupo, atravessa o Canal da Mancha e lançam as bases do que tornar-se-á, ao curso dos anos, o Mosteiro São João Batista em Tolleshunt Knights, próximo a Maldon (Essex).

9. Iconógrafo
No fim de sua vida, o Padre Sofrônio retoma os pincéis que havia abandonado em sua juventude. A construção de um grande refeitório podendo igualmente servir de capela (como por exemplo, na Lavra da Trindade São Sérgio, próximo a Moscou) o leva a conceber e a executar uma imponente composição de pinturas murais cobrindo as paredes e o teto deste refeitório e representando as principais festas do ciclo litúrgico. Um grupo de monjas, e outras pessoas as quais ele mesmo havia iniciado à iconografia, trabalham com ele, no entanto, não hesita em subir, ele próprio, nos andaimes para pintar as partes mais delicadas, particularmente os rostos. A Igreja de São Siluan é igualmente coberta de afrescos, executados sob a sua direção ou por ele mesmo, e isto depois de ter passado a marca dos noventa anos.

10. Oriental ou Ocidental?
A grosso modo, o Padre Sofrônio passou metade de sua vida no “Oriente” (Rússia e Grécia) e a outra metade no “Ocidente” (França e Inglaterra). Mesmo guardando a riqueza, ele soube não permanecer nela prisioneiro, abrindo-se ao Ocidente. O que pode ser demonstrado pelo seu domínio do francês, e até mesmo do inglês, que ele começou a aprender com uma idade já avançada. O mais longo quanto possível, guardou o contato com o Padre Eugraphe Kovalevski, que preconizava uma abertura da ortodoxia sob a herança cristã ocidental. Nisto, ele também era muito próximo a Vladimir Lossky. Ele muito rapidamente insistiu no fato de que no mosteiro celebrássemos a Liturgia também em inglês, isto em uma época onde o grego ou o eslavônico reinavam quase absolutamente nas igrejas da diáspora ortodoxa na Europa. Uma tradução inglesa da Liturgia, feita por uma pessoa próxima ao Padre Sofrônio foi publicada em 1982, depois de ter sido utilizada sob a forma manuscrita durante muitos anos, a título experimental. Este senso da inculturação é também perceptível no estilo iconográfico pouco a pouco criado sob a sua influência no Mosteiro de São João Batista: é o estilo bizantino, todavia interpretado de uma maneira que reflete igualmente o ambiente físico e cultural da Inglaterra.

11. Dom da Palavra
O Padre Sofrônio tinha um excepcional dom da palavra. Remarquei ainda acima que ele podia relacionar-se praticamente com quem quer que fosse, todavia não é isso que agora tenho em vista. Quando falava de realidades do mundo espiritual no qual ele vivia, ele possuía o dom de fazer, de certa medida, penetrar seus auditores ou seus interlocutores. Sua palavra era mais do que uma simples vibração do ar transmitido idéias ou pensamentos: era uma energia espiritual que ele transmitia àqueles que eram capazes de recebê-la. Ouvindo-o falar, podíamos entrever o que o Ancião Siluan tinha em vista ao dizer: “Os perfeitos nada falam por eles próprios... só falam o que o Espírito lhes inspira” (Starets Silouane; p.56).

12. Humor
Para com o Padre Sofrônio, os opostos se encontravam: ele era antinômico. Depois de todos os traços de sua personalidade que aqui enumeramos, não era justo passar em silêncio este então: o Padre Sofrônio tinha um excepcional senso de humor. Tinha todo um repertório de anedotas as quais ele gostava de contar de vez em quando. Decerto, elas ocultavam geralmente uma “lição” sob sua aparente superficialidade, tal como nas fábulas de Krylov – o La Fontaine russo – que por tantas vezes ele citava.

Antes de concluir este breve esboço, eu gostaria ainda de adicionar uma palavra. Falei (citei) da coexistência no Padre Sofrônio das características que se encontram raramente reunias em uma mesma pessoa. É isto que faz toda riqueza de sua pessoa no plano simplesmente humano.

Sou conscientemente levado a me limitar aos traços exteriores de sua personalidade, sem tocar em sua vida interior, em sua vida espiritual íntima. Mencionarei, todavia, uma das vivas impressões que guardo dele: a união da fragilidade de um corpo enfraquecido pelas doenças e o peso dos anos, e a espantosa força de um espírito habitado até a morte pela graça do Espírito Santo. Nele realizou-se verdadeiramente a vocação do homem: da terra que pode falar com o Deus transcendente do Céu e, em toda verdade, Lhe dizer: “Pai”.

http://auroraortodoxia.blogspot.com/2012/08/arquimandrita-sofronio-um-homem-sedento.html

A virtude da temperança