domingo, 8 de outubro de 2017

EVÁGRIO PÔNTICO (345-397)

Vida e Pensamentos:

Evágrio foi um monge, nascido por volta de 345, originário da Capadócia, em Ibora, no Ponto, e por isso ele é chamado de Pôntico. Passou dezesseis anos de sua vida no deserto do Egito, como anacoreta. Foi discípulo e amigo de São Gregório Nazianzeno. Evágrio conheceu bem cedo os três capadócios: São Basílio, São Gregório de Nissa e São Gregório de Nazianzo, sendo ordenado diácono por este último. Herdeiro dos grandes Padres Alexandrinos, Clemente e Orígenes, ele conduziu uma das grandes correntes da espiritualidade bizantina. Foram seus herdeiros, João Clímaco, Máximo, o Confessor, Simeão o Novo Teólogo, os Hesicastas…
Evágrio foi implicado na condenação do origenismo em 553; alguns acham incômodo citá-lo, no entanto, ele penetra e está presente em toda parte. Para Evágrio a ascenção espiritual consiste em contemplar a Deus em si mesmo, de modo que se vê a Deus como num espelho. O caminho consiste em despojar-se dos pensamentos apaixonados, depois, mesmo dos pensamentos simples, até a completa nudez de imagens e conceitos.
Evágrio morreu por volta de 397, deixando inúmeras obras sobre a oração, a vida monástica e ascética.

Pensamentos De Evágrio Pôntico

«Não imagines possuir a Divindade em ti, quando oras, nem deixes tua inteligência aceitar a marca de uma forma qualquer; mantém-te como imaterial diante do Imaterial e compreenderás».
«Não poderias possuir a oração pura, estando perturbado com coisas materiais e agitado por inquietações contínuas, pois a oração é abandono dos pensamentos»,
«A oração é produto da doçura e da ausência de ira».
«Esforça-te por manter teu intelecto surdo e mudo durante a oração: assim poderás orar».
«Se oras verdadeiramente, sentirás uma grande segurança: os anjos te escoltarão como a Daniel e te iluminarão sobre as razões dos seres».
«Se queres orar como convém não entristeças nenhuma alma; senão, corres em vão».
«Bem-aventurada a inteligência que, no momento da oração, torna-se imaterial e despojada de tudo».
«A oração é uma ascenção da inteligência para Deus».
«A oração é a atividade que convém à dignidade da inteligência; é a aplicação mais admirável e mais completa desta».
«Se és teólogo, vais orar verdadeiramente; e se oras verdadeiramente, és teólogo».
«A salmodia depende da sabedoria multiforme; a oração é o prelúdio do conhecimento imaterial e uniforme».
«Quanto mais perto estiver de Deus, tanto melhor será o homem».
«A oração é fruto da alegria e do reconhecimento».
«Enquanto ainda tens atenção para o que provém do corpo; enquanto tua inteligência considera os atrativos externos, ainda não viste o lugar da oração; estás mesmo longe do caminho abençoado que conduz a ele».
«O corpo tem o pão por alimento; a alma, a virtude; a inteligência, a oração espiritual».
«Na hora de orar, encontrarás o fruto de todo sofrimento aceito com sabedoria».
«Os sentimentos mal orientados atrapalham a oração».
«Feliz o espírito livre de qualquer forma durante a oração».
«O rancor cega a faculdade mestra de quem ora e derrama-lhe trevas sobre as orações».
«Aspira a ver a face do Pai, que está no céu: não procure, por nada deste mundo, perceber forma ou rosto durante a oração».
«Pois, quando em tua oração tiveres conseguido ultrapassar qualquer outra alegria, é que finalmente, em toda verdade, terás encontrado a oração».
«Armado contra a ira, não admitas jamais a cobiça, pois é a cobiça que alimenta a ira, esta por sua vez, turva os olhos da inteligência e destrói assim, o estado de oração».
«A oração é uma conversa da inteligência com Deus: que estado não é, pois, necessário, para essa tensão sem retorno, para ir a seu Senhor e conversar com Ele, sem nenhum intermediário?»
«Mantém-te corajoso e ora com energia; afasta as preocupações e e as reflexões que se apresentarem, pois elas te perturbam e te agitam, debilitando o teu vigor».
«Se queres orar dignamente, renuncia-te a todo instante; se suportas toda sorte de provações, resigna-te sabiamente por amor da oração».
«Não te contentes de orar nas atitudes exeriores, mas leva tua inteligência ao sentimento da oração espiritual, com grande temor».
«Não ores para que tuas vontades se cumpram: elas não concordam necessariamente com a vontade de Deus. Ora, sim, segundo o ensinamento recebido, dizendo: ‘que vossa vontade se cumpra em mim’. Em tudo, pede-lhe que se faça a sua vontade, pois Ele quer o bem e o benefício para tua alma; tu, porém, não é isso necessariamente que procuras».
«A oração sem distração é a intelecção mais alta da inteligência».
«Orando com teus irmãos ou orando só, esforça-te por orar, não por hábito, mas com sentimento».
«Quem ama a Deus conversa incessantemente com Ele, como com um Pai, despojando-se de todo pensamento apaixonado».
«Quem ora em espírito e em verdade, não tira mais das criaturas os louvores que dá ao Criador: é do próprio Deus que ele louva Deus».
«O rancor cega a faculdade mestra de quem ora e derrama-lhe trevas sobre asorações».
«A oração é a exclusão da tristeza e do desalento».
Evágrio Pôntico (345-397)

http://www.ecclesia.org.br/biblioteca/sophia/2009/08/10/evagrio-pontico-345-397/

O ESPÍRITO DE DEUS EM NÓS


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"Se temos o Espírito de Deus em nosso coração, viveremos pela sua lei de caridade sempre mais inclinados à paz do que a dissensões; mais à humildade do que à arrogância; mais à obediência do que à rebeldia; tendendo à pureza e temperança; à simplicidade, quietude e calma; à força, generosidade, sabedoria e prudência; à justiça que a tudo abraça; e amaremos os outros mais do que a nós mesmos, porque este é o mandamento de Jesus: que amemos um ao outro como Ele nos amou (cf. Jo 15,12).

Nada disso pode ser feito sem a oração, e o nosso primeiro movimento em tudo deve ser para a oração, não só para descobrirmos a vontade de Deus, mas, sobretudo, para ganharmos a graça de levá-la a termo, com toda a força do nosso desejo."

Thomas Merton, "Homem Algum é uma Ilha", Verus 2003, pág. 65.

A ORAÇÃO



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“A oração é inspirada por Deus nas profundezas do nosso nada. Ela é o movimento de confiança, gratidão, adoração ou pesar, que nos coloca diante de Deus, vendo tanto a Ele como a nós mesmos à luz de sua verdade infinita e nos move a pedir-Lhe a sua misericórdia, a força espiritual, o auxílio material de que todos precisamos.”

Thomas Merton - “Homem algum é uma ilha” Capítulo III Consciência, Liberdade e Oração” § 13.

POR QUE ORAMOS

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"Não oramos simplesmente para orar, e sim para sermos ouvidos. Não oramos para ouvir-nos orar, mas a fim de que Deus nos possa ouvir e responder. Tampouco oramos para receber apenas qualquer resposta: tem de ser a resposta de Deus."
Thomas Merton, "Na Liberdade da Solidão", Vozes 2014, pág. 81.

sábado, 7 de outubro de 2017

HUMILDADE E SANTIDADE = CAMINHO PESSOAL E INTRANSFERÍVEL


"O homem humilde é capaz de ver com toda clareza que aquilo que é útil para ele pode ser inútil para outro e o que ajuda a outros a serem santos poderia arruiná-lo.

Não é humildade insistir em ser algo que não se é... Como pode esperar chegar ao final da própria viagem se se toma o caminho que leva à cidade de outro? Como pode esperar alcançar a própria perfeição levando a vida de outra pessoa? A santidade de outro nunca pode ser a própria; é preciso ter a humildade de realizar a própria vida em uma obscuridade em que se está absolutamente sozinho."

Citação de Thomas Merton por Maria Luísa López Laguna, em "Thomas Merton, Uma vida com horizonte", Ed. Santuário, 2010, pág. 99.

COMUNHÃO DOS SANTOS


"Cristo orou para que todos fossem Um como ele e o Pai são Um, na Unidade do Espírito Santo. Quando, portanto, você e eu nos tornamos aquilo que estamos destinados a ser, descobrimos não apenas que nos amamos mutuamente com perfeição, mas que estamos ambos vivendo em Cristo e Cristo em nós e que somos todos Um em Cristo. E veremos que é ele que ama em nós.


A perfeição última da vida contemplativa não consiste num paraíso de indivíduos separados, atento cada qual à sua própria intuição particular de Deus; é um oceano de Amor que flui através do único Corpo de todos os eleitos, todos os anjos e santos, e a contemplação deles seria incompleta se não fosse partilhada ou se o fosse com menor número de almas ou com espíritos suscetíveis de menor visão e de menos alegria."

Thomas Merton, Novas Sementes de Contemplação, Editora Fisus, 1999, pág. 70.

CAMINHAR O PRÓPRIO CAMINHO

"Como esperar alcançar o fim de nossa viagem se tomamos o caminho que leva à cidade de outros? Como esperar atingir nossa própria perfeição, levando a vida de outros? A santidade deles jamais será a nossa.
É necessário, portanto, haver humildade heroica para sermos nós mesmos e para não sermos nenhum outro senão o homem ou o artista que Deus nos destinou ser."

Thomas Merton, "Novas Sementes de Contemplação", Fisus 1999, pág. 103.

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Foto: A ponte tibetana em Claviere, Piemonte, Itália.

As cruzes da Providência são as mais agradáveis a Deus


"Se alguém quer vir atrás de mim, diz Nosso Senhor, tome a sua cruz e siga-me." Tomar a sua cruz significa receber e sofrer todas as nossas penas, contradições, aflições e mortificações, que nesta vida nos acontecem, sem exceção alguma, com uma inteira submissão e indiferença. Imolemos muitas vezes o nosso coração do nosso amor de Jesus Cristo sobre o próprio altar da cruz, onde Ele imolou o seu amor pelo nosso. A cruz, é a porta real para entrar no templo da santidade; aquele que a busca fora daí, não a encontra. As melhores cruzes são as mais pesadas e as mais pesadas são as que mais incomodam a parte inferior da alma.
As cruzes que encontramos pelas ruas são excelentes, e ainda mais as que encontramos em casa, e quanto mais importunas melhores; valem mais do que as disciplinas, os jejuns e o mais que inventou a austeridade. É ai que resplandece a generosidade dos filhos da cruz e dos habitantes do Calvário.
As cruzes que a nós mesmos impomos são inferiores, por serem nossas e tem menos mérito. Humilhai-vos e recebei com alegria as que vos impuserem contra vossa vontade. O cumprimento da cruz aumenta muito o seu preço: sede fiéis até à morte e tereis a coroa da glória. Amais muito o crucifixo; que quereis pois senão ser crucificados?
Nosso Senhor deu a escolher a Davi o castigo que queria, e bendito seja Ele! Mas parece-me que eu não escolheria e teria deixado a escolha à sua divina Majestade. Quanto mais a cruz é de Deus, tanto mais a devemos amar.
Recebamos com amor as cruzes que não escolhemos e que Deus nos deu; bendiga- mo-las, ame-mo-las, estão todas perfumadas com a excelência do lugar donde vêm. Onde houver menos escolha há mais agrado de Deus. Amo muito mais o mal, que vem do nosso Pai celeste do que aquele, vem da nossa própria vontade.
Nosso Senhor mostrou-nos bem que não é preciso que escolhamos as cruzes, mas sim que as tomemos como nos vierem; porque quando Ele quis morrer para nos resgatar e satisfazer a vontade de seu Pai celeste, não escolheu a cruz, mas recebeu humildemente a que lhe tinham preparado os judeus.
Estimo muito mais o mal que nos envia o nosso Pai celeste do que aquele que nós escolhemos. Oh! eis a virtude verdadeira, e é assim que convém exercê-la. 
Sêneca disse o seguinte, e eu queria que o tivesse dito Santo Agostinho: "A perfeição do homem consiste em sofrer bem todas as coisas, como se lhe chegasse por escolha sua".
Sofrer por Deus é ter nas mãos o ouro mais puro e mais precioso para comprar o céu. Uma só parcela deste ouro divino basta para possuirmos a glória do paraíso. "Um instante duma leve tribulação, diz São Paulo, opera em nós um peso imenso de glória". As nossas ações ordinárias não são assim; podemos dizer que as mais virtuosas, comparadas com as aflições, são pequena moeda dum metal inferior. É preciso pois ganhar coisa de valor; e muitas vezes acontece que esta tem uma aparência enganadora, porque na maioria das nossas boas obras encontra-se o nosso amor próprio, que lhes altera a pureza.
A perfeição cristã consiste em sofrer bem. Não lastimeis as vossas penas para adquirirdes virtudes sólidas. Sofrei com paciência as tribulações que se opuserem a este desígnio. Deus dá-vos uma ocasião de praticardes a paciência; querereis deixá-la passar? Talvez na vossa vida não encontreis outra situação semelhante; talvez seja o último serviço que presteis à sua divina Majestade. Tende constância, e Ele vos aliviará nos trabalhos que sobrevierem.
Amemos nossas cruzes; são de ouro, vistas com olhos de amor; e embora Nosso Senhor aí esteja morto entre espinhos e cravos, encontra-se uma reunião de pedras preciosas, que nos guarnecerão uma coroa de glória, se suportarmos com coragem a de espinhos. O tempo das aflições e contradições é o da boa colheita, em que a alma recolhe as mais ricas bênçãos do céu, um dia deste tempo vale mais do que seis doutro. Estejamos pois sempre unidos à cruz, e trespassem muito embora as nossas carnes com mil flechas contanto que a seta inflamada do amor de Deus nos tenha antes trespassado o coração; faça-nos esta divina ferida morrer com santa morte, que vale mais do que mil vidas. Em que testemunharemos o nosso amor Àquele que tanto por nós sofreu, senão nas contradições, repugnâncias e aversões? Lancemo-nos através dos espinhos das dificuldades; deixemos trespassar o nosso coração com a lança das contradições; comamos absinto; bebamos o fel e vinagre das amarguras temporais, já que o nosso doce Salvador assim o quer.
Assim como as flores crescem entre espinhos, o amor divino cresce de preferência mais entre as tribulações do que entre as alegrias.
Oh! como são ditosas as almas que bebem corajosamente o cálice dos sofrimentos com Jesus Cristo que se mortificam, levando a sua cruz e sofrem e recebem de sua divina mão toda a qualidade de sucessos com submissão ao seu gosto! Mas, Deus meu, quão pouco se encontram, que façam isto como devem! Muitas vezes encontram-se almas que desejam sofrer e levar a cruz, e sei que há muitos que pedem a Deus aflições, mas é com a condição de as visitar e consolar muitas vezes nas suas penas e sofrimentos, e de lhes testemunhar que lhes agradam e se compraz em as ver sofrer por seu amor, e que afinal as recompensará com uma glória imortal. Também há muitos que desejam como os dois discípulos saber o grau da glória que terão no céu, com certeza que este desejo é impertinente; porque nunca devemos por forma alguma, importar-nos com isso, mas ocupar-nos sempre em servir a sua divina Majestade com a maior fidelidade que pudermos, observando os seus divinos mandamentos, conselhos e vontades, exatamente e com a maior perfeição, pureza e amor que nos for possível, deixando o cuidado do resto à sua infinita bondade, que não nos faltará se cumprimos o nosso dever, e nos recompensará com uma glória imortal, e incompreensível, dando-nos a si mesmo tanta estima o que por Ele obramos. Em suma, é um Senhor: basta só que sejamos servos e servas muito fiéis, e Ele será fiel remunerador. Oh! se soubéssemos que felicidade é servir fielmente este divino Salvador de nossas almas, e beber com Ele o cálice! Oh! abraçaríamos de bom gosto as penas e sofrimentos, imitando Santa Catarina de Sena, que preferiu a coroa de espinhos à coroa de ouro!
Assim devemos nós praticar, porque enfim o caminho da cruz e aflições é um caminho seguro, que nos conduz diretamente à Deus e à perfeição do seu amor. Se formos pois fiéis em beber corajosamente o seu cálice crucificando-nos com Ele nesta vida, a sua eterna bondade glorificar-nos-á eternamente na outra.

 (Retirado do livro, pensamentos consoladores de São Francisco de Sales)
Fonte: São Pio V

A virtude da temperança