segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

A FÉ NÃO É SUBSTITUÍDA PELO SENTIMENTO

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Atacada por todos os lados, hoje a Fé tornou-se rara nas almas. À medida que os tempos avançam, caminhamos para a realização das palavras de Nosso Senhor: «Quando o Filho do homem voltar, crês que Ele encontrará Fé sobre a Terra?». (Lc. 18,8).
Repare que as almas que vemos já não ter Fé, tiveram-na ao menos no batismo. Estas almas estão em um estado bem diferente dos infiéis que nunca tiveram Fé. A Fé é um bem tão grande que uma vez entrando numa alma fica sempre alguma coisa.
São Francisco de Sales disse, a respeito da caridade: «A caridade tendo sida separada da alma pelo pecado deixa, muitas vezes, alguma coisa que parece com a caridade, que pode iludir e nos entreter em vão».
Esta aparência de Fé, porque ela é apenas aparência, não passa de um fingimento de Fé; uma Fé fingida ou, se quiser, imaginada, é o que se chama sentimento religioso.
Os sentimentos religiosos! Uma espécie de presente que os homens querem dar a Deus, pelo qual Deus deve se sentir muito agradecido; um fundo de benevolência que o homem sente por Deus; uma sorte de polidez, de bom tom, de bom gosto do homem em relação a Deus; sim, tudo que quiser neste gênero, que a pouco obrigue, que não atrapalhe, que se acomode, que se preste a tudo, e não se comprometa com coisa alguma: aí está o que geralmente se entende por sentimentos religiosos, mas isto não é a Fé. Assim como a aparência de Caridade pode nos iludir e nos entreter em vão, a aparência de Fé pode nos iludir e nos ilude muitas vezes e pode nos entreter e nos entretém amiúdo, em vão.
E como isto acontece? perguntará a senhora. A resposta é fácil. Um cristão, para agradar a Deus, deve fazer atos de Fé a toda hora. Na oração, na prática da vida cristã, na recepção dos sacramentos, o cristão deve ter como obrigação severa praticar a Fé, fazendo atos interiores para acompanhar muitos atos exteriores da vida cristã. Este é o dever.
Ora, o perigo, a decepção consiste em fazer atos da vida cristã não com Fé mas com aparência de Fé ou sentimentos religiosos.
A Fé é então substituída pelo sentimento, a realidade pela imaginação. Neste estado podem-se fazer muitas orações sem rezar, confessar-se sem querer se emendar, receber a Eucaristia sem se unir a Jesus Cristo.
Segundo o que ouvi dizer, tanto por um Bispo como por um missionário que percorreu toda a França e estudou atentamente o estado das almas, parece que hoje, sob muitos pontos de vista, fazemos apenas com a máscara da Fé o que deve ser feito com a Fé.
Isto ajudará a senhora a compreender e a poupará do sofrimento quando chegar o dia em que reconhecer que um bom número de cristãos, que se dizem devotos e praticantes, têm exatamente os mesmos vícios dos mundanos não praticantes. Eles praticam, ai de nós! mas a Fé não é o princípio de seus atos religiosos, eles são cristãos em imaginação, e na realidade viciosos como tantos outros.
O sentimento religioso é certamente um dom de Deus. É um bem, um bem de ordem natural. O sentimento religioso é a conseqüência natural de nossa qualidade de criaturas, como o respeito aos pais é natural nos filhos.
Digamos juntos: Credo.
Cartas sobre a Fé – Pe. Emmanuel-André

RELIGIÃO E CARÁTER

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Caráter varonil! A joia mais bela e mais preciosa do mundo! Um homem que descortina claramente seu fim, que sabe vencer as tentações, que não se desvia do caminho nem para a direita nem para a esquerda, que conserva puro seu coração, que é amável e delicado para com seu próximo, mas que permanece firme e fiel às suas convicções — eis um caráter varonil! Coisa rara, hoje em dia…
Mas não o queres ser?
Sabes que é a verdadeira e profunda religiosidade que, sobretudo, te ajudará a consegui-lo?
O jovem religioso preza o seu valor. Saber que somos filhos de Deus é fonte de justificada ufania no conceito próprio. Prezo minha alma conservo-a isenta de culpa, adorno-a com boas obras, porque sei que ela é um bem mais precioso do que a natureza inteira. Cuido porém, igualmente do meu corpo, não permito que se rebaixe ao serviço die hábitos pecaminosos, porque sei que é templo do Espírito Santo, ao qual devo preservar da profanação.
Elevado conceito de si mesmo, só o pode ter o homem religioso. Somente aquele que sabe inclinar-se diante de Deus, pode andar de cabeça erguida. A religiosidade e a boa consciência não nos tornam orgulhosos e impertinentes, mas dão-nos firmeza inquebrantável, em face da moral inconsistente de hoje. Olha em derredor: os que se manifestam estouvadamente contra Deus e a religião, dobram-se, geralmente, submissos ante interesses materiais e fins egoísticos. A religiosidade nos dá confiança em nós mesmos, não permite que consideremos timidamente a opinião dos outros, para regular segundo ela as nossas ações. O moço religioso sabe dominar com mão firme o fluxo da vida exterior, tão bem como sabe ser o senhor absoluto de sua vida interior, de seus desejos, inclinações e aspirações.
O jovem religioso não é oportunista. Nunca há de renegar covardemente seus princípios e convicções, embora esteja entre pessoas de parecer diferente. Não compartilha os conceitos dos libertinos, não adota o modo de ver dos motejadores, não duvida com os incrédulos, só “para que não sorriam compadecidos de mim”. Ademais, não é escravo de caprichos: ora todo bondade, ora como se tivesse “pulado da: cama com o pé esquerdo”: não, ele obra e fala sempre dignamente, como homem, refletida e sensatamente.
O moco religioso não é materialista. Não corre sempre atrás de lucro material somente. Além do bem estar terreno, material, ele conhece e ama também valores espirituais, sobrenaturais. Se puder enriquecer unicamente por meios ilícitos, prefere ficar pobre: tudo pode sacrificar, menos a honra. Cada dia, reza (naturalmente também trabalha) por uma existência feliz; seu coração no entanto, que Deus criou para Si, não se apega a bens terrenos.
O jovem religioso não é egoísta. Ele sabe cuidar de suas inclinações e desejos e dominá-los. Sabe que além dele há outros homens no mundo, que não é em redor dele que tudo gira, mas, que em suas ações e omissões deve tomar em consideração os demais. Sempre que encontra ocasião, faz bem ao próximo. Seu maior prazer é causar alegria aos outros. Em seu julgar não é severo nem teimoso. Trabalha, estuda com todas as forças, busca progredir, mas somente com meios honestos. Nada de adulações e lisonjas para alcançar fins egoísticos. Não procura obter a simpatia das pessoas contra sua convicção; ao contrário, quando for preciso, ele sabe “obedecer antes a Deus do que aos homens”.
O jovem religioso não é casmurro, mal humorado, susceptível. Quem traz sua alma em paz com Deus, tem o pleno direito de ser alegre e bem disposto. Se precisa, por qualquer motivo, censurar um amigo, fá-lo francamente e a questão está liquidada. Não conserva em seu coração ressentimento ou ira dissimulada. Em casa, para com os pais, irmãos, amigos, é atencioso e serviçal.
Um negociante necessitava dum auxiliar. Uns cinquenta se apresentaram e ele escolheu rapidamente. Um amigo lhe perguntou: “Por que escolheu justamente este, que nem trazia recomendação?” “Você está enganado, foi a resposta; ele tinha muitas recomendações. Limpou os sapatos antes de entrar e fechou a porta; concluí daí que amava a ordem. Sem refletir ofereceu sua cadeira a um ancião; notei que tinha educação e bom coração. Levantou um livro que eu, propositalmente tinha posto no chão, enquanto todos os demais tropeçaram nele e o empurraram para o lado; é atencioso e cuidadoso. Esperou pacientemente sua vez, não empurrou para a frente: é discreto. Enquanto falava com ele, notei que a roupa estava bem escovada, o cabelo em ordem; os dentes limpos. Quando assinou seu nome, vi que a mão estava asseiada, não suja como a daquele outro moço elegante”. Um jovem que se comporta assim é a melhor recomendação da verdadeira religiosidade.
O moço religioso não é pessimista. Nos anos de adolescência é frequente que abatimentos e sofrimentos morais ataquem a alma dos jovens; a verdadeira religiosidade leva-te a vencê-los todos. É verdade que também o jovem religioso nota como vai crescendo o terrível poder do mal, a falta de caráter, a imoralidade entre os homens; entretanto, essa entristecedora experiência não o faz desgostoso da vida, não o torna inimigo dos homens. É justamente sua religiosidade que não permite se quebre sua resistência e ele mesmo se enfileire entre os maus, dizendo: “Não adianta remar contra a correnteza”. Não se torna pessimista, pois ao lado dos defeitos dos homens, ele vê também indiscutíveis boas qualidades; olha o que é nobre e grande e se alegra, apesar da imoralidade e falta de caráter. Um escritor diz: “O homem religioso é como o pássaro, que canta mesmo quando o galo em que pousa se quebra, pois sabe que tem asas”. A religião é o par de asas que nos eleva acima de nós mesmos, acima da mísera existência, muito além dos limites terrenos.
O jovem religioso também não é idealista unilateral. Ele vai em busca de ideais nobres, mas não se desalenta por ver que muitas vezes nós devemos contentar com um bem atingível em vez do melhor cobiçado. A falta de êxito e a preterição sofrida não lhe tiram o amor ao trabalho, não o desanimam e exasperam.
Numa palavra: o jovem religioso é um moço de caráter que abraça a vida com ambas as mãos, firme sobre seus pés.
Religião e Juventude – Mons. TihamerToth
http://catolicosribeiraopreto.com/religiao-e-carater/

RELIGIOSIDADE EXTERIOR E INTERIOR

Sou religioso, sinceramente religioso; todavia, o que se passa entre Deus e mim, não o revelo aos outros. Isso não é da conta de ninguém! A vida religiosa é manifestação tão delicada da alma humana, que não se deve pô-la à mostra; cada um resolva o assunto consigo mesmo, em segredo, no seu íntimo. O principal é ser interiormente religioso; tudo o mais, exterioridades, formas, cerimônias, é de somenos importância…”
Assim falam muitos jovens, mesmo aqueles cuja religiosidade sincera e firme está acima de qualquer dúvida, mas que, todavia, não compreendem quão errôneo seja esse modo de pensar. E sabes porque tão dificilmente percebem o engano? Porque há muitas coisas verdadeiras em suas palavras.
“A religião é manifestação em extremo delicada de nossa alma”, dizem eles, e nisso têm toda a razão. “O essencial é a religiosidade interior!” Também está certo. Eu mesmo teria dificuldade em achar uma reprovação assaz forte para um homem que, por qualquer motivo, finge piedade exterior, imita práticas piedosas, enquanto sua alma está cheia de impureza, sem um pensamento religioso sério.
Tudo isso é indiscutivelmente exato. Sim, a religiosidade pode tornar-se mera exterioridade, cerimônia inanimada, se lhe faltar a vitalidade interior sincera. Religioso não é quem exalta com os lábios as glórias de Deus enquanto sua alma está bem longe. Religioso outrossim não é quem reza muito, vai à igreja, mas vive em pecado e tem o coração indiferente, duro para com o próximo. Tal religiosidade exterior é apenas uma caricatura, um escárnio da verdadeira idéia de religião, coisa muito própria a propagar um conceito errado de religião.
Portanto, fique bem claro: o que é decisivo é a convicção e a vida religiosa interior. Mas é errado que devamos esconder timidamente nossa convicção religiosa. Não digo que nos devamos referir a ela a todo instante, com ou sem motivo, Deus sabe nossa virtude; minha vida religiosa se realize de fato, em silêncio, entre Deus e minha alma. Contudo, se eu estiver numa roda em que se fale de religião, de convicções, de princípios imorais, seria covardia, falta de princípios, deserção, se eu me envergonhasse de minha religião, se corasse e não dissesse nada.
Se andares pela rua com um camarada de outra crença não debatas com ele questões religiosas. Mas, se passares diante de uma igreja, e por causa do companheiro não tirares o chapéu (“a religião é assunto interior”), estarás dissimulando covardemente tua fé. Quando rezas confiantemente em casa, em teu gabinete ·de trabalho, longe de vistas estranhas, fazes bem, mas se te envergonhasses, entre centenas de pessoas, de dobrar o joelho diante de Jesus sacramentado — “já que o exterior não é importante” —, então serias novamente covarde. Bem sei que possuis alma pura, não inicias jamais conversa inconveniente. Muito bem; mas, quando outros as iniciam e te ris de suas obscenidades — “não devo ofendê-los, não rindo também” — então dás exemplo de covarde traição a teus princípios.
Vê! O essencial é a religiosidade interior, mas devemos provar, também externamente, as nossas convicções. Essa aparente “exterioridade” não é, muitas vezes, senão um aprofundamento elo “interior”. Pois, não é de todo natural que o corpo caia de joelhos, quando a alma fala com Deus?
Com que franqueza confessa o grande húngaro, conde Estêvão Széchényi, em seu diário: “Passei minha juventude em ócio e ignorância. Eu não era ruim e pervertido, mas não reconhecia os múltiplos defeitos que tinha. Na grande luta da existência e observando a vida humana, recobrei a calma e aprendi a reconhecer que não basta à alma seguir a voz interior, mas que é preciso observar também as formas exteriores da religião”.
Segue, pois, as formalidades exteriores de tua religião, embora se afirme: O essencial é a religiosidade interior, sem a qual toda a exterioridade é fingimento. Suponhamos, entretanto, que urge confessar a Fé, e nosso modo de pensar? Não hesitemos então um só instante! É fato curioso que nesse particular, mesmo católicos bem formados, se vejam tão fracos. Adeptos de outros credos mostram-se muito mais orgulhosos de sua crença. Entre nós, a vergonha e o respeito humano tornaram-se verdadeira “doença católica”.
Se refletires um pouco sobre a incomensurável bênção, que durante 2.000 anos, o cristianismo derramou sobre a humanidade, reconhecerás que tens toda a razão para te orgulhares da Fé.
Deixemos, por agora, de lado os valores puramente espirituais do cristianismo; consideremos apenas a questão: que valor teve ela para a civilização humana? Imagina que não houvesse cristianismo: quanto mais pobre em valores estaria o mundo! Visita os museus e suprime os quadros e estátuas que sejam obras primas cristãs: quão pouco ficaria das coleções! As suntuosas catedrais deveriam ser derrubadas, pois nasceram do espírito cristão. O gênio musical de um Handel, Palestrina, Beethoven, Mozart, Rossini, acendeu-se na religião. Os primeiros hospitais, orfanatos, asilos e educandários brotavam da caridade cristã. Os princípios das escolas e universidades remontam até o cristianismo. Vês? Que vácuo haveria na vida da humanidade, se devêssemos eliminar seu centro, a cruz de Jesus Cristo.
Não! minha fé não tem realmente nada, de que deva envergonhar-me. Tanto mais razão tenho para orgulhar-me dela!
Religião e Juventude – Mons. Tihamer Toth
http://catolicosribeiraopreto.com/religiosidade-exterior-e-interior/

A virtude da temperança