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terça-feira, 31 de julho de 2018

Santo Agostinho: as “duas vidas” da Igreja

São Pedro e São João Evangelista

"...uma na fé, a outra na visão; uma na peregrinação no tempo, a outra na morada da eternidade; uma no caminho, a outra na pátria..."

A Igreja tem duas vidas preconizadas e recomendadas por Deus.
Uma delas é na fé, a outra na visão; uma na peregrinação no tempo, a outra na morada da eternidade; uma no trabalho, a outra na quietude; uma no caminho, a outra na pátria; uma no esforço da ação, a outra na recompensa da contemplação.
A primeira é representada pelo apóstolo Pedro, a segunda por João. A primeira decorre inteiramente na terra até o fim do mundo e depois acaba. A segunda só encontrará a plenitude depois do fim do mundo e não terá fim no mundo que há de vir.
Foi por isso que Jesus disse a Pedro: “Segue-Me“; e, acerca de João, “Eu quero que ele fique até Eu voltar. Que tens tu com isso? Tu, segue-Me“. Que a tua ação Me siga, perfeita e modelada no exemplo da Minha Paixão; que a contemplação começada permaneça até Eu voltar, e Eu a tornarei perfeita quando voltar. Porque este fervor vigoroso que se mantém firme até a morte segue Cristo; e este conhecimento que então será revelado em plenitude permanece até o retorno de Cristo. Aqui, na terra dos mortais, temos de suportar os males deste mundo; lá, contemplaremos os bens do Senhor na terra dos vivos (Sl 26,13).
Portanto, que ninguém separe estes dois gloriosos apóstolos um do outro; porque ambos foram o que Pedro simboliza e ambos serão o que João representa.
Santo Agostinho

sexta-feira, 14 de julho de 2017

«Prefiro a misericórdia»


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Ao amares o teu inimigo, desejas que ele seja para ti um irmão. Não amas o que ele é, mas aquilo em que queres que ele se torne. Imaginemos um pedaço de madeira de carvalho em bruto. Um artesão hábil vê essa madeira, cortada na floresta; a madeira agrada-lhe; não sei o que quer fazer dela, mas não é para a deixar como está que o artista gosta dela. A sua arte faz com quepense em que é que se pode transformar essa madeira; o seu amor não é dirigido à madeira em bruto: ele ama o que fará com ela e não a madeira em bruto. 

Foi assim que Deus nos amou quando éramos pecadores. Na verdade, Ele disse: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes». Ter-nos-á Ele amado pecadores para que permaneçamos pecadores? O Artesão viu-nos como um pedaço de madeira em bruto, vindo da floresta; porém, o que Ele tinha em vista era a obra que nela faria e não a madeira em si, nem a floresta. 

Contigo passa-se a mesma coisa: vês o teu inimigo opor-se a ti, encher-te de palavras mordazes, tornar-se rude nas afrontas que te faz, perseguir-te com o seu ódio. Mas tu sabes que ele é um homem. Vês tudo o que esse homem fez contra ti, mas também vês nele aquilo que foi feito por Deus. Aquilo que ele é, enquanto homem, é obra de Deus; o ódio que te tem é obra dele. E que dizes tu para contigo? «Senhor sê benevolente para com ele, perdoa-lhe os pecados, inspira-lhe o teu temor, converte-o.» Não amas nesse homem aquilo que ele é, mas aquilo que queres que ele venha a ser. Assim, quando amas um inimigo, amas nele um irmão.

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja
Comentário sobre a primeira carta de João, § 8,10

domingo, 10 de julho de 2016

Somente a ti eu te busco

Amo somente a ti, sigo somente a ti, busco somente a ti, estou disposto a servir somente a ti e desejo estar sob a tua jurisdição, porque somente tu governas com justiça. Manda e ordena o que quiseres, mas sana e abre meus ouvidos para enxergar os teus acenos. 


Afasta de mim a ignorância para que eu te reconheça. Dize-me para onde devo voltar-me para ver-te e espero fazer tudo o que mandares. Suplico-te: recebe teu fugitivo, Senhor e Pai clementíssimo; já sofri muito; já servi demais os teus inimigos, os quais sujeitas sob teus pés; por muito tempo fui ludibriado por falácias. 

Recebe-me, que sou teu escravo fugindo deles, que me receberam, estranho a eles, quando eu fugia de ti. Sinto em mim que devo voltar a ti. Abra-se tua porta para mim, que estou batendo. Ensina-me como chegar a ti. 

Nada mais tenho que a vontade. Nada mais sei senão que se deve desprezar as coisas passageiras e transitórias e procurar o que é certo e eterno. Faço-o, Pai, porque é a única coisa que sei; porém, ignoro como chegar a ti. Ensina-me, mostra-me, oferece-me as providências para a viagem. 

Se é com a fé que te encontram os que se refugiam em ti, dá-me fé, se é com a força, dá-me força, se é com a ciência, dá-me ciência. Aumenta em mim a fé, aumenta a esperança, aumenta o amor. Ó admirável e singular bondade tua!

- Santo Agostinho

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A ORAÇÃO DO CONVERTIDO - Uma luminosa inspiração de Santo Agostinho de Hipona.

Oh Deus, criador de todas as coisas! 
Concedei-me primeiro o dom de saber pedir-vos; 
depois, o de fazer-me digno de ser escutado, 
e, finalmente, o de ser livre. 

Escutai, escutai, escutai-me, oh Deus meu! 
Meu Pai, causa minha, esperança minha, 
posse minha, honra minha, 
minha casa, minha pátria, 
minha saúde, minha luz e minha vida. 

Escuta, escuta, escuta-me! 
Dessa maneira tua, tão pouco conhecida. 
Amo somente a ti, 
só sigo a ti, 
só busco a ti, 
e só a ti estou disposto a servir, 
porque és o único que tem o direito de mandar, 
e só a ti desejo pertencer. 

Dá-me ordens, te peço; 
Sim, manda-me o que queiras, 
mas cura-me antes e abre meus ouvidos 
para que possa ouvir tu voz. 

Cura e abre meus olhos 
para que possa ver as indicações de tua vontade; 
afasta de mim a ignorância, 
para que te conheça. 

Diz-me onde tenho que olhar para ver-te, 
e confio em que cumprirei fielmente tudo o que me mandes. 
Amém, amém. 


(Texto: Soliloquios 1, 1, 2.4-5).

Modo de Fazer Oração Mental, por Santo Afonso

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