domingo, 29 de junho de 2014

A invocação do nome de Jesus

Seminarista Nelson Ricardo Cândido dos Santos

A espiritualidade denominada hesicasmo ( ou “hesychia”, ou “oração de Jesus” ) consiste, basicamente, na repetição contínua do nome de Jesus ( ou de uma jaculatória ), de tal modo que essa invocação se torne uma espécie de clamor natural, um reflexo inato, um hábito constante, até mesmo inconsciente.
Embora esta espiritualidade encontre paralelos em outras religiões, foi introduzida no cristianismo no monaquismo primitivo, ou seja, quando começaram a surgir monges e mosteiros cristãos, logo após o final das perseguições aos cristãos no Império Romano e, portanto, o final dos martírios.
Se o martírio era o maior testemunho de fé de um cristão, com o seu fim, um novo modo de vida surgiu para testemunhar a adesão radical ao Evangelho de Jesus: o monaquismo. Os monges passaram a se refugir na solidão de desertos, montanhas ou matas, em completa reclusão, longe das perturbações das paixões humanas, com o objetivo de conhecer e conversar com Deus. Rompiam com todos os laços afetivos e materiais, afastando de si todas as recordações do mundo.
Através da “hesychia”, recorriam à “lembrança de Deus” através de um apelo incessante, “Kyrie eleison” ( Senhor, tem piedade ).
No século V, o bispo de Fotiqué, Diádoco, declarou que purificava o seu coração pela lembrança de Jesus que o inflamava, através da invocação constantemente repetida do nome de Jesus ao ritmo da respiração. Ao tornar-se algo natural, realizava-se a palavra da Escritura: “Eu durmo, mas meu coração vigia”.
Evágrio Pôntico, no século anterior, a respeito dessa espiritualidade, defendia a oração monológica “Senhor, tem piedade”, dizendo que quando há abundância de palavras, existe multiplicidade de sentidos, correndo-se o risco de, com muitas palavras, dispersar-se o espírito, tirando-lhe o sossego. E só o sossego tornará o espírito, a alma e o coração capazes de contemplar a Deus.
Essa espiritualidade desenvolveu-se e fixou-se principalmente nos mosteiros do Sinai, no final do século VI. Pouco depois, São João Clímaco expôs de maneira precisa esta técnica espiritual na obra “Escada Santa ou Degraus para subir ao céu”. Dizia ele que a invocação do nome de Jesus é uma oração sempre presente no coração, pois ela se encontra ligada à respiração, ao próprio sopro da vida. “Que a lembrança de Jesus seja uma só coisa com vossa respiração; então conhecereis a utilidade da hesechia” (Degrau 27). Para São João Clímaco, assim como para Evágrio, a oração monológica impede que o espírito se disperse, ao mesmo tempo que alimenta a lembrança constante de Jesus no centro da vida humana, no próprio coração do homem. Assim, a memória de Jesus, interiorizada pela invocação constante de seu nome, torna Sua presença real.
No século XIX, na Rússia, o peregrino russo, em seus “Relatos”, escreve: “Invocando o nome de Jesus 12.000 vezes por dia, eu me sentia esmagado de felicidade e sabia já o sentido destas palavras: ‘O Reino de Deus está dentro de vós’”
O hesicasmo é uma técnica muito antiga e comum de concentração espiritual, através do domínio da respiração e do relaxamento, possibilitando um estado de calma que favorece a meditação. De certa forma, o hesicasmo continua presente em nossos dias.
O verdadeiro terço bizantino é um exemplo que reflete este tipo de espiritualidade de oração constante, como via de contemplação mística. Assim, para que a presença de Jesus se faça real através da interiorização de seu nome, é necessária a repetição constante, incessante de Seu nome, e não apenas poucas vezes, e ainda mais intercalada com outras jaculatórias. Sem querer desmerecer o terço bizantino como tem sido propagado atualmente, mas sim querendo esclarecer a espiritualidade que está por trás dele, o que se observa é a mistura do terço mariano (apenas o terço em si, o objeto de contas) com o terço bizantino, excluindo o que ambos têm de mais importante: no mariano, a meditação dos mistérios de nossa salvação, e no bizantino, a repetição constante, ao ritmo da respiração, do nome de Jesus ( ou de uma jaculatória ) até a sua interiorização.
A espiritualidade do hesicasmo também está presente na Obra das Almas Pequeníssimas, que requer, além da prática da caridade com um sorriso e da aceitação da vontade de Deus com uma ação de graças, a repetição incessante (ou ao menos freqüente), do Ato de Amor: “Jesus, Maria, eu vos amo, salvai almas!” Compreendendo-se a espiritualidade do hesicasmo, compreende-se o valor da Obra das Almas Pequeníssimas, não a considerando mera “piedade popular”, como querem alguns.


Seminário Diocesano Paulo VI
Nova Iguaçu ( RJ ), 20 de junho de 2000

( Obs.: Este texto, no que se refere à “hesychia”, foi baseado no livro A experiência humana do divino, de Michel Meslin, publicado pela Ed. Vozes, em 1992 )

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Escutar para agir

“O Pai celeste disse uma única palavra: é o Seu Filho. Disse-a eternamente e num eterno silêncio. É no silêncio da alma que Ele se faz ouvir.Falai pouco e não vos metais em assuntos sobre os quais não fostes interrogados.Não vos queixeis de ninguém; não façais perguntas ou, se for absolutamente necessário, que seja com poucas palavras.Procurai não contradizer ninguém e não vos permitais uma palavra que não seja pura.Quando falardes, que seja de modo a não ofender ninguém e não digais senão coisas que possais dizer sem receio diante de toda a gente.Tende sempre paz interior assim como uma atenção amorosa para com Deus e, quando for necessário falar, que seja com a mesma calma e a mesma paz.Guardai para vós o que Deus vos diz e lembrai-vos desta palavra da Escritura: "O meu segredo é meu" (Is 24,16)...Para avançar na virtude, é importante calar-se e agir, porque falando as pessoas distraem-se, ao passo que, guardando o silêncio e trabalhando, as pessoas recolhem-se.A partir do momento em que aprendemos com alguém o que é preciso para o avanço espiritual, não é preciso pedir-lhe que diga mais nem que continue a falar, mas pôr mãos às obras, com seriedade e em silêncio, com zelo e humildade, com caridade e desprezo de si mesmo. Antes de todas as coisas, é necessário e conveniente servir a Deus no silêncio das tendências desordenadas, bem como da língua, a fim de só ouvir palavras de amor”.


S. João da Cruz,Carmelita, Doutor da Igreja, in Conselhos e Máximas

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Frases de Santa Teresa d´Ávila:


“A amizade é a mais verdadeira realização da pessoa”
“Quem ama, faz sempre comunidade; não fica nunca sozinho”
“Falais muito bem com outras pessoas, por que vos faltariam palavras para falar com Deus?”
“A amizade com Deus e a amizade com os outros é uma mesma coisa, não podemos separar uma da outra”
“Em tempos de tristeza e de inquietação, não abandones nem as boas obras de oração, nem a penitência a que estás habituada. Antes, intensifica-as. E verás com que prontidão o Senhor te sustentará”
“Quem não deixa de caminhar, mesmo que tarde, afinal chega. Para mim, perder o caminho é abandonar a Oração”
“O Senhor não olha tanto a grandeza das nossas obras. Olha mais o amor com que são feitas”
“O verdadeiro humilde sempre duvida das próprias virtudes e considera mais seguras as que vê no próximo”
“Humildade é a verdade”
“Espera um pouco, filha, e verás grandes coisas”
“Vocês pensam que Deus não fala porque não se ouve a Sua voz? Quando é o coração que reza Ele responde”
“O Senhor sempre dá oportunidade para oração quando a queremos ter”
“Falte-me tudo, Senhor meu, mas se vós não me desamparardes, não faltarei eu a vós”
“Quem vos ama de verdade, Bem meu, vai seguro por um amplo caminho real, longe do despenhadeiro, estrada na qual, ao primeiro tropeço, Vós, Senhor, dais a mão; não se perde, por alguma queda, nem mesmo por muitas, quem tiver amor a Vós, e não às coisas do mundo”
“Se tiver humildade, não tenha receio, o Senhor não permitirá que se engane nem engane os outros”
“Uma prova de que Deus esteja conosco não é o fato de que não venhamos a cair, mas que nos levantemos depois de cada queda”
“Se não dermos ouvidos ao Senhor quando Ele nos chama, pode acontecer que não consigamos encontrá-lo quando o quisermos”
“São felizes as vidas que se consumirem no serviço da Igreja”
“Basta uma graça dessas para transformar uma alma por inteiro”
“Não me parecia que eu conhecesse a minha alma, tão transformada eu a via”
“O olhar de Deus é amar e conceder graças”
“Eu quero ver a Deus e para isso é necessário morrer. Não morro, mas entro na vida”

http://frasesdesantos.wordpress.com/category/santa-teresa-d%C2%B4avila/

sexta-feira, 13 de junho de 2014

A vida de São Francisco de Assis



Vida de São Francisco de Assis

Nascimento e vida familiar de um cavaleiro

Francisco nasceu em Assis, cidade de Úmbria, no ano 1182.

Seu pai, Pedro Bernardone, era comerciante.

O nome de sua mãe era Pia e alguns autores afirmam que pertencia a uma nobre família da Provença.

Tanto o pai como a mãe de Francisco eram pessoas ricas.

Pedro Bernardone comerciava especialmente na França.

Como muitos falavam nisso quando nasceu seu filho, as pessoas lhe apelidara “Francesco” (em francês), por mais que no batismo recebeu o nome de João.

Em sua juventude, Francisco era muito dado as românticas tradições cavalerescas que propagavam os trovadores.

Dispunha de dinheiro em abundância e o gastava prodigamente, com ostentação.

Nem os negócios de seu pai, nem os estudos lhe interessavam muito, mas sim o divertir-se em coisas vãs que comumente se chama “gozar da vida”.

Sem dúvida, não era de costumes licenciosos e costumava ser muito generoso com os pobres que lhe pediam por amor de Deus.

Acha de um tesouro

Quando Francisco tinha uns vinte anos, iniciou a discórdia entre as cidades de Perugia e Assis e na guerra, o jovem caiu prisioneiro.

A prisão durou um ano, e Francisco a suportou alegremente.

Sem dúvida, quando refez a liberdade, caiu gravemente enfermo.

A enfermidade, na que o jovem provou uma vez mais seu paciência, fortaleceu e madurou seu espírito.

Quando se sentiu com forças suficientes, determinou ir a combater no exército de Galterio e Briena no sul de Itália.

Com esse fim, se comprou uma custosa armadura e um lindo manto.

Mas um dia em que passeava ataviado com seu novo traje, se topou com um cavaleiro mal vestido que havia caído na pobreza; movido à compaixão ante aquele infortúnio, Francisco mudou seus ricas roupas pelos de cavaleiro pobre.

Essa noite viu em sonhos um esplendido palácio com salas cheias de armas, sobre as qual é se tinha gravado o sinal da cruz e lhe pareceu ouvir uma voz que lhe dizia que essas armas lhe pertenciam e a seus soldados.

Francisco partiu a Apulia com a alma ligeira e a seguridade de triunfar, mas nunca chegou ao frente de batalha.

Em Espoleto, cidade de caminho de Assis a Roma, caiu novamente enfermo e, durante a enfermidade, ouviu uma voz celestial que lhe exortavam a “servir ao amo e no ao servo”.

O jovem obedeceu.

Ao principio voltou a sua antiga vida, ainda que a tomando menos a ligeira.

As pessoas, ao vê-lo silencioso, lhe diziam que estava enamorado.

"Sim", replicava Francisco, "vou casar-me com uma jovem mais bela e mais formosa que todas as que conheceis".

Pouco a pouco, com a muita oração, foi concebido o desejo de vender todos seus bem é e comprar a pérola preciosa de que fala o Evangelho.

Ainda ignorava o que tinha que fazer para elo, uma serie de claras inspirações sobrenaturais lhe fez compreender que a batalha espiritual começa pela mortificação e a vitória sobre os instintos.

Passando em certa ocasião a cavalo pela vila de Assis, encontrou a um leproso.

As chagas de mendigo aterrorizaram a Francisco; mas, em vez de fugir, se acercou ao leproso, que lhe estendia a mão para receber uma esmola.

Francisco compreendeu que havia chegado o momento de dar o passo ao amor radical de Deus.

A pesar de seu repulsa natural ao leproso, venceu seu vontade, se lhe acercou e lhe deu um beijo.

Aquilo mudou sua vida.

Foi um gesto movido pelo espírito Santo, pedindo a Francisco uma qualidade de entrega, um “sim” que distingue aos santos dos medíocres.

"Francisco, repara minha Igreja, pois e a vês que está em ruínas" ·

A partir de então, começou a visitar e servir aos enfermos nos hospitais.

Algumas vezes presenteava aos pobres seus vestidos, outras, o dinheiro que levava.

Em certa ocasião, enquanto orava na Igreja de São Damião nas aforas de Assis, lhe pareceu que o crucifixo (hoje chamado crucifixo de São Damião) lhe repetia três vezes: “Francisco, repara minha casa, pois olhas que está em ruínas”.

O santo, vendo que a Igreja se achava em muito mal estado, crendo que o Senhor queria que a reparasse; assim, pois, partiu imediatamente, tomou uma boa quantidade de vestidos da tenda de seu pai e os vendeu junto com seu cavalo.

Em seguida levou o dinheiro ao pobre sacerdote que se encarregava da Igreja de São Damião, e lhe pediu permissão de estar e viver com ele.

O bom sacerdote consentiu em que Francisco ficasse com ele, mas se negou a aceitar o dinheiro.

O jovem o depositou na janela.

Pedro Bernardone, ao inteirar-se do que havia feito seu filho, se dirige indignado a São Damião.

Mas Francisco havia tido cuidado de ocultar-se.

Renuncia a herança de seu pai

Ao cabo de alguns dias passados em oração e jejum, Francisco voltou a entrar na povoado, mas estava tão desfigurado e mal vestido, que as pessoas riam dele como se fosse um louco.

Pedro Bernardone, muito desconcertado pela conduta de seu filho, lhe conduziu a sua casa, lhe golpeou furiosamente (Francisco tinha então vinte e cinco anos), lhe pôs correntes nos pés e lhe encerrou em uma casa.

A mãe de Francisco se encarregou de pô-lo em liberdade quando seu marido se achava ausente e o jovem retornou a São Damião.

Seu pai foi de novo a busca-lo ali, lhe golpeou na cabeça e lhe mandou voltar imediatamente a sua casa ou a renunciar a sua herança e pagar o preço das roupas que lhe havia tomado.

Francisco no teve dificuldade alguma em renunciar a herança, mas disse a seu pai que o dinheiro das roupas pertencia a Deus e aos pobres.

Seu pai lhe obrigou a comparecer ante o Bispo Guido de Assis, quem exortou ao jovem a devolver o dinheiro e a ter confiança em Deus: “Deus não deseja que sua Igreja aproveite de bens que são injustamente adquiridos”.

Francisco obedeceu à ordem do Bispo e acrescentou: “As roupas que levo pertencem também a meu pai, tenho que devolve-los”.

Em seguida se desnudou e entregou suas roupas a seu pai, dizendo-lhe alegremente: “até agora tu tem sido meu pai na terra, mas em adiante poderei dizer: Pai nosso, que estás nos céus.”’ Pedro Bernardone abandonou o palácio episcopal “tremendo de indignação e profundamente aborrecido”.

O Bispo regalou a Francisco um velho vestido de lavrador, que pertencia a um de seus servos.

Francisco recebeu a primeira esmola de sua vida com grande agradecimento, traçou a sinal da cruz sobre a roupa e se o foi.

Chamado a renuncia e a negação

Em seguida, partiu em busca de um lugar conveniente para ficar.

Ia cantando alegremente as glórias divinas pelo caminho, quando topou com uns bandoleiros que lhe perguntaram quem era.

O respondeu: “Sou o arauto de um grande Rei”.

Os bandoleiros lhe golpearam e lhe atiraram em um fosso coberto de neve.

Francisco prosseguiu seu caminho cantando as divinas glórias.

Em um monastério obteve esmola e trabalho como se fosse um mendigo.

Quando chegou a Gubbio, uma pessoa que lhe conhecia lhe levou a sua casa e lhe deu uma túnica, um cinturão e umas sandálias de peregrino.

Para reparar a Igreja, foi a pedir esmola em Assis, donde todos lhe haviam conhecido rico e, naturalmente, houve de suportar as brincadeiras e o desprezo de mais de um mal intencionado.

O mesmo se encarregou de transportar as pedras que faziam falta para reparar a Igreja e ajudou no trabalho.

Uma vez terminadas as reparações na Igreja de São Damião, Francisco empreendeu um trabalho semelhante na antiga Igreja de São Pedro.

Depois, se trasladou a uma capela chamada Porciúncula, que pertencia à abadia beneditina de Monte Subasio.

Provavelmente o nome da capela aludia ao feito de que estava construída em uma reduzida parcela de terra.

A Porciúncula se achava a uns quatros kilômetros de Assis e, naquela época, estava abandonada e quase em ruínas.

A tranqüilidade do lugar agradou a Francisco tanto como o titulo de Nossa Senhora dos Anjos, em cuja honra havia sido erigida à capela.

Francisco a reparou e fixou nela sua residência.

Ali lhe mostrou finalmente o céu o que esperava por ele, no dia da festa de São Matias de ano 1209.

Naquela época, o evangelho da Missa da festa dizia: “Ide a pregar, dizendo: o Reino de Deus tinha chegado.

Dai gratuitamente o que haveis recebido gratuitamente.

Não possuas ouro, nem duas túnicas, nem sandálias.

Aqui que vos envio como Cordeiros em meio dos lobos”.

Estas palavras penetraram até o mais profundo no coração de Francisco e este, aplicando-as literalmente, tirou seus sandálias, e seu cinturão e ficou somente com a pobre túnica cingida com um cordão.

Tal foi o hábito que deu a seus irmãos um ano mais tarde: a túnica de lã dos pastores e camponeses da região.

Vestido dessa forma começou a exortar a penitência com tal energia, que suas palavras enchiam os corações de seus ouvintes.

Quando se topava com alguém no caminho, lhe saudava com estas palavras: “A paz de Senhor seja contigo”.

Dons Extraordinários

Deus lhe havia concedido e a o dom de profecia e o dom de milagres.

Quando pedia esmola para reparar a Igreja de São Damião, costumava dizer: “ajudai-me a terminar esta Igreja.

um dia haverá ali um convento de religiosas em cujo bom nome se glorificarão o Senhor e a universal Igreja”.

A profecia se verificou cinco anos mais tarde em Santa Clara e seus religiosas.

Um habitante de Espoleto sofria de um câncer que lhe havia desfigurado horrivelmente o rosto.

Em certa ocasião, ao cruzar com São Francisco, o homem tentou jogar-se a seus pés, mas o santo teve piedade e lhe beijou no rosto.

O enfermo ficou instantaneamente curado.

São Boas Ventura comentava a este propósito: “Não se há, que admirar mais o beijo ou o milagre “.

Nova ordem religiosa e visita ao Papa

Francisco teve numerosos seguidores e alguns queriam fazer se discípulos seus.

O primeiro discípulo foi Bernardo de Quintavale, um rico comerciante de Assis.

Ao principio Bernardo via com curiosidade a evolução de Francisco e com freqüência lhe visitava a sua casa, donde lhe tinha sempre preparado um leito.

Bernardo se fingia dormido para observar como o servo de Deus se levantava silenciosamente e passava largo tempo em oração, repetindo estas palavras: “Meu Deus e meu tudo”.

Ao fim, compreendeu que Francisco era “verdadeiramente um homem de Deus e em seguida lhe suplicou que lhe admitisse como discípulo.

Desde então, juntos assistiam a Missa e estudavam a Sagrada Escritura para conhecer a vontade de Deus.

Como as indicações da Bíblia concordavam com seus propósitos, Bernardo vendeu quanto tinha e repartiu o produto entre os pobres.

Pedro de Cataneo, cônego da catedral de Assis, pediu também a Francisco que lhe admitisse como discípulo e o santo lhes “concedeu o hábito” aos dois juntos, o 16 de abril de 1209.

O terceiro companheiro de São Francisco foi o irmão Gil, famoso por seu grande sensatez e sabedoria espiritual.

Em 1210, quando o grupo contava e a com doze membros, Francisco relatou uma regra breve e informal que consistia principalmente nos conselhos evangélicos para alcançar a perfeição.

Com ela se foram a Roma apresenta-la para aprovação de Sumo Pontífice.

Viajaram a pé, cantando e rezando, cheios de felicidade, e vivendo das esmolas que as gentes lhes davam.

Em Roma não queriam aprovar esta comunidade porque lhes parecia demasiado rígida quanto a pobreza, mas ao fim um cardeal disse: “Não lhes podemos proibir que vivam como mandou Cristo no evangelho”.

Receberam a aprovação, e voltaram a Assis a viver em pobreza, em oração, em santa alegria e grande fraternidade, junto a Igreja da Porciúncula.

Inocêncio III se mostrou adverso ao principio.

Por outra parte, muitos cardeais opinavam que as ordens religiosas e a existentes necessitavam de reforma, não de multiplicação e que a nova maneira de conceber a pobreza era impraticável.

O cardeal João Colonna achegou em favor de Francisco que sua regra expressava os mesmos conselhos com que o Evangelho exortavam a perfeição.

Mais tarde, o Papa relatou a seu sobrinho, quem a sua vez o comunicou a São boa ventura, que havia visto em sonhos uma palmeira que crescia rapidamente e depois, havia visto a Francisco sustentando com seu corpo a basílica que estava a ponto de cair.

Cinco anos depois, o mesmo Pontífice teria um sonho semelhante a propósito de Santo Domingo.

Inocêncio III mandou, pois, chamar a Francisco e aprovou verbalmente sua regra; em seguida lhe impôs o corte dos cabelos, assim como aos seus companheiros e lhes deu por missão pregar a penitência.

A Porciúncula

São Francisco e seus companheiros se mudaram provisoriamente a uma cabana, fora de Assis, de donde saiam a pregar por toda a região.

Pouco depois, tiveram dificuldades com um camponês que reclamava a cabana para usa-la como estábulo de seu asno.

Francisco respondeu: ” Deus não nos tinha chamado a preparar estábulos para os asnos”, e em seguida abandonou o lugar e partiu para ver o abade de Monte Subasio.

Em 1212, o abade deu a Francisco a capela da Porciúncula, na condição de que a conservasse sempre como a Igreja principal da nova ordem.

O santo se negou a aceitar a propriedade da capela e apenas a admitiu emprestada.

Em prova de que a Porciúncula continuava como propriedade dos beneditinos, Francisco lhes enviava cada ano, a maneira de recompensa pelo préstimo, uma cesta de pescados colhidos no riacho vizinho.

Por seu parte, os beneditinos correspondiam enviando-lhe um tonel de azeite.

Tal costume ainda existe entre os franciscanos de Santa Maria dos Anjos e os beneditinos de São Pedro de Assis.

Ao redor da Porciúncula, os frades construíram várias cabanas primitivas, porque São Francisco não permitia que a ordem em geral e os conventos em particular, possuíssem bens temporais.

Havia feito da pobreza o fundamento de sua ordem e seu amor a pobreza se manifestava em sua maneira de vestir-se, nos utensílios que usava em cada um de seus atos.

Costumava chamar a seu corpo “o irmão asno”, porque o considerava como feito para transportar carga, para receber golpes e para comer pouco e mal.

Quando via ocioso a algum frade, lhe chamava “irmão mosca” porque em vez de cooperar com os demais atrapalhava o trabalho dos outros.

Pouco antes de morrer, considerando que o homem está obrigado a tratar com caridade a seu corpo, Francisco pediu perdão ao seu corpo por ter o tratado talvez com demasiado rigor.

O santo se havia oposto sempre as austeridades indiscretas e exageradas.

Em certa ocasião, vendo que um frade havia perdido o sono por causa de excessivo jejum, Francisco lhe levou alimento e comeu com ele para que se sentisse menos mortificado.

Deus lhe outorga sabedoria.

A principio de sua conversão, vendo se atacado de violentas tentações de impureza, saia a deitar-se desnudo sobre a neve.

Certa vez em que a tentação foi todavia mais violenta que de costume, o santo se disciplinou furiosamente; como isso não bastasse para acabar com ela, acabou por rolar sobre as sarças e os abrolhos.

Sua humildade não consistia simplesmente em um desprezo sentimental de si mesmo, mas sim na convicção de que “ante os olhos de Deus o homem vale pelo que é e não mais”.

Considerando se indigno do sacerdócio, Francisco apenas chegou a receber o diaconato.

Detestava de todo coração as singularidades.

Assim quando lhe contaram que um dos frades era tão amante do silêncio que apenas se confessava por sinais, respondeu com desgosto: “Isso não procede do Espírito de Deus mas sim do demônio; é uma tentação e não um ato de virtude “.

Deus iluminava a inteligência de seu servo com uma luz de sabedoria que não se encontra nos livros.

Quando certo frade lhe pediu permissão de estudar, Francisco lhe contestou que, se repetisse devoção o “glória Patri”, chegaria a ser sábio aos olhos de Deus e ele mesmo era o melhor exemplo da sabedoria adquirida dessa forma.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Como se excita a contrição perfeita?

II
Como se excita a contrição perfeita?

Hás de pressupor que a contrição perfeita é graça e grande graça do amor e misericórdia de Deus; e, se assim é, hás, portanto, de pedi-la com instância. Porém, não te contentes com fazê-lo somente quanto trates de excitar a contrição, porque o desejo de alcançá-la deve ser um dos mais ardentes anseios de tua alma. Pede-a, pois, dizendo: Senhor dai-me a graça do perfeito arrependimento, da perfeita contrição dos meus pecados. E Deus não te faltará com a sua graça, se tiveres boa vontade.
Posto isto, repara como poderás facilmente conseguir a contrição perfeita.
Põe-te diante de um crucifixo, na igreja ou na casa de tua habitação, ou senão imagina que o tens diante de ti, e, chorando de compaixão à vista das feridas do Senhor, pensa uns momentos com fervor: Quem é este que está pendente da Cruz e sofrendo nela? — É Jesus, meu Deus e Salvador. Que sofre? — As mais terríveis dores no corpo, tem-no ensangüentado e coberto de feridas; a alma, tem-na lacerada pelas dores e afrontas. Por que sofre tudo isso? — Pelos pecados dos homens e... também pelos meus pecados; em meio de suas amarguradas dores, também pensa em mim, também sofre por mim, também quer expiar os meus pecados. — Entretanto, deixa que o sangue redentor do Salvador, quente ainda, caia sobre ti, gota a gota, e pergunta a ti mesmo como tens correspondido ao teu Salvador, tão atormentado por ti.
Pensa um momento, recorda teus pecados, e esquece-te, se quiseres, do Céu, do inferno, e arrepende-te principalmente porque são eles que a tão miserando estado reduziram o teu Salvador; promete-lhe que não tornarás a crucificá-Lo com mais pecados e, por fim, reza, pausadamente e com fervor, acompanhando com sentimento interno, as palavras, a fórmula da contrição.
Esta oração ou fórmula pode ser diversa e ainda pode cada um servir-se para ela de suas próprias palavras. No fim do livrinho, encontrarás algumas; contudo juntarei aqui uma bastante vulgar:
Senhor meu e Deus meu: pesa-me, do mais íntimo do coração, de todos os pecados de minha vida, porque com eles tenho merecido que a vossa divina Justiça me castigasse na vida e na eternidade; porque tenho correspondido ao vosso amor com tanta ingratidão, sendo como sois o meu maior benfeitor; porém, sobretudo, porque com eles Vos tenho ofendido a Vós, meu bem supremo e digno de todo o amor. Proponho firmemente emendar-me e não mais pecar. Dai-me, meu Jesus, a graça para cumpri-lo. Amém.
Três porquês contém esta oração, e a cada porquê acompanha um motivo de contrição, primeiro da imperfeita, depois da perfeita; pois, da imperfeita se passa mais facilmente para a perfeita e é por isto conveniente unir as duas espécies de contrição. Em outras palavras, convém que se excite em primeiro lugar a contrição imperfeita e depois a perfeita. Dize, pois:
1 — "porque com eles, tenho merecido..." Isto é ainda contrição imperfeita.
2 — "porque tenho correspondido..." Esta vai já se aproximando da contrição perfeita e até se reduz a ela; porque, se deveras sinto ter correspondido com ingratidão e com pecados ao amor e bondade de Deus, necessariamente hei de querer ressarcir com amor esta ingratidão; e o sentir por amor a ofensa do benfeitor, a quem até agora se desconhecia, é já contrição perfeita, contrição de caridade para com Deus.
3 — "porém, sobretudo, porque com eles Vos tenho ofendido..." Se voltares a ler o capítulo I, entenderás o que isto significa e, entendendo-o, verás mais claramente expressado aqui o amor perfeito e a contrição perfeita. Para consegui-lo mais facilmente, podes acrescentar, mentalmente ou por palavras, o que segue: "porém, sobretudo, porque com eles Vos tenho ofendido a Vós, meu bem supremo e digno de todo o amor. Salvador meu que, por meus pecados, morrestes na Cruz".
Depois vem o propósito: "Proponho..."
— Porém, padre — dir-me-ás talvez — para outros, será isso muito fácil, mas para mim, é coisa muito difícil, quase impossível. — Parece-te isso? Pois não o julgues tal.


Padre Johann von den Driesch - A CONTRIÇÃO PERFEEITA

segunda-feira, 9 de junho de 2014

primeiro degrau (20 a 27)... continuação do post (8 a 19)



20) Se um rei terreno nos chama e pede para que o sirvamos em sua presença, não devemos adiar para outras ordens, não devemos dar desculpas, devemos deixar tudo e avidamente ir até ele. Estejamos em alerta para que quando o Rei dos reis, Senhor dos senhores e Deus dos deuses nos chamar a este escritório celestial, não choremos devido à nossa preguiça e covardia mas nos encontremos sem desculpas no Juízo Final. É possível caminhar, mesmo amarrado com os grilhões de ferro dos afazeres mundanos e penosos cuidados, mas com dificuldade. Pois mesmo aqueles que possuem correntes de ferro em seus pés, muitas vezes podem andar, ainda que continuamente caindo e se machucando. Um homem solteiro que só está ligado ao mundo por conta de seus negócios é como aquele que tem algemas nas mãos e, portanto, se quer entrar para a vida monástica, nada há a impedi-lo. Mas o homem casado é aquele que está com os pés e as mãos atados. (E então, se quer correr, não pode).

21) Algumas pessoas que vivem desleixadamente no mundo me perguntaram: "Nós temos esposas e estamos cercados de encargos sociais, como podemos conduzir a vida solitária?". A eles respondi: "Faça todo o bem que puder, não fale mal de ninguém, não roube ninguém, não minta para ninguém, não seja arrogante, não odeie, não se esqueça de ir à Igreja, seja compassivo com os necessitados, não ofenda ninguém, não destrua a felicidade de outro homem, contente-se com o que sua esposa lhe oferece. Se você se comportar dessa forma, não estará longe do Reino dos Céus.

22) Vamos entrar na boa luta com amor e alegria sem temer nossos inimigos. Ainda que eles sejam invisíveis, eles podem olhar para a nossa alma, e se eles a veem alterada pelo medo, eles tomam armas contra nós mais ferozmente. Pois as criaturas astutas sabem quando estamos com medo. Deste modo, armemo-nos com coragem. Ninguém lutará com um lutador decidido.



23) O Senhor intencionalmente facilita as batalhas dos iniciantes para que eles não retornem ao mundo logo de início. E assim alegrar sempre no Senhor todos os Seus servos, detectando neste primeiro sinal seu amor por nós, e um sinal de que Ele mesmo nos chamou. Mas quando Ele vê almas corajosas, Ele é conhecido por agir da seguinte forma: ele permite que elas tenham conflitos desde o início, para coroá-los antes. Mas o Senhor esconde a dificuldade desta luta àqueles que estão no mundo. Porque caso conhecessem jamais existiria alguém que renunciasse a ele.

24) Ofereça a Cristo os labores da juventude e na velhice você se alegrará com a riqueza do desapego. O que é colhido na juventude nutre e conforta aqueles que estão cansados na velhice. Trabalhemos com ardor na juventude e sigamos vigilantes, pois a hora da nossa morte é desconhecida. Temos inimigos maus e perigosos, astutos, inescrupulosos, que detém o fogo em suas mãos e tentam queimar o templo de Deus com a chama que há nele. Estes inimigos são fortes. Eles nunca dormem, e são incorpóreos e invisíveis. Que ninguém quando jovem escute seus inimigos, os demônios, quando estes lhe dizem: "Não se desgaste para não se tornar doente e fraco". Dificilmente você encontrará alguém, na geração atual, que esteja determinado a mortificar a sua carne, ainda que ele se prive de muitos pratos agradáveis. O objetivo deste demônio é fazer do início da nossa vida espiritual frouxa e negligente e depois, ao final, fazê-la corresponder ao início.

25) Aqueles realmente determinados a servir a Cristo, com a ajuda dos pais espirituais e de seu próprio autoconhecimento, devem se esforçar antes de tudo em encontrar um lugar, um modo de vida e uma habitação, e exercícios adequados para si. A vida comunitária não é para todos por conta da cobiça; e a também a vida solitária, por conta da ira. Cada um deve considerar o que é mais adequado de acordo com suas necessidades.

26) Toda a condição monástica é constituída de três tipos de instituição: ou o retiro e a solidão de um atleta espiritual; ou viver em silêncio com uma ou duas pessoas ou estabelecer-se pacientemente em uma comunidade. Não se vire nem para a direita nem para a esquerda, mas siga a rota do Rei. Dos três modos de vida o segundo é apropriado para muitas pessoas pois está escrito: "Ai daquele que está sozinho quando cai" (Eclesiastes 4,10) em desânimo, letargia, preguiça ou desespero, "pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ai estou eu no meio deles" (Mateus 18, 20), disse o Senhor.

27) Quem é então o monge fiel e prudente? Aquele que mantém seu fervor inabalado, e até o fim de sua vida não cessou diariamente a adicionar fogo ao fogo, fervor ao fervor, zelo ao zelo, amor ao amor. Este é o primeiro passo. Aquele que tem pés que não retroceda.

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terça-feira, 3 de junho de 2014

Que é a contrição perfeita?



Contrição é uma dor da alma e uma detestação dos pecados cometidos. Deve acompanhá-la o propósito, quer dizer, uma firme vontade de emendar a vida e de não mais pecar. Para que a contrição seja legítima, deve ser interna e estar na alma, isto é‚ que não seja uma mera expressão feita com os lábios e sem reflexão: isto seria apenas contrição de boca.
Não é necessário manifestar exteriormente a contrição interna por meio de suspiros, lágrimas, etc.: tudo isto pode ser sinal de contrição, não é, porém, sua essência. A essência da contrição está na alma, na vontade, em afastar-se deveras do pecado e converter-se para Deus.
Além disto, a contrição deve ser geral, quer dizer, deve estender-se a todos os pecados cometidos ou, pelo menos, a todos os mortais. Deve, finalmente, ser sobrenatural e não meramente natural, pois esta nada aproveita.
Segue-se que a contrição, como todo o bem, deve proceder de Deus e da sua graça, e, com a graça de Deus, desenvolver-se na alma. Porém, não tenhas receio; basta que a peças, basta que tenhas boa vontade e te arrependas por algum motivo legítimo, sobrenatural, e Deus te dará a graça necessária.
Se o motivo se funda na natureza ou somente na razão (por exemplo, nos danos temporais, na vergonha, doença, etc.), é muito fácil que a dor seja puramente natural e sem mérito; porém, se o motivo da contrição é alguma verdade da Fé, por exemplo: o inferno, o purgatório, o céu, Deus, etc., então a contrição é legítima, sobrenatural.
E esta contrição legítima e sobrenatural pode, por sua vez, ser de duas classes: perfeita e imperfeita; e com isto temos chegado a nossa matéria da contrição perfeita.
Em poucas palavras, contrição perfeita é a contrição que procede de amor; imperfeita, a que procede do temor de Deus.
É contrição perfeita quando procede de amor perfeito a Deus. Pois bem, o nosso amor a Deus é perfeito quando o amamos porque Ele é em Si infinitamente perfeito, formoso e bom (amor de benevolência), e porque nos mostrou de uma maneira tão admirável o seu amor (amor de agradecimento).
É imperfeito o amor de Deus quando o amamos porque esperamos alguma coisa dEle. De modo que, com o amor imperfeito, pensamos sobretudo nos dons; com o perfeito, na bondade do dador; com o amor imperfeito, amamos mais os dons; com o perfeito amamos mais o dador, e isto não tanto pelos seus dons como pelo amor e bondade que nos dons se manifesta.
Do amor nasce a contrição. Será, pois, perfeita a contrição se nos arrependermos dos pecados por amor perfeito de Deus, quer seja de benevolência quer de agradecimento. Será imperfeita se nos arrependermos dos pecados por temor de Deus, porque pelo pecado perdemos a recompensa de Deus, o Céu, e merecemos seu castigo, o inferno ou o purgatório.
Na contrição imperfeita, fixamo-nos principalmente em nós e nas desgraças que, segundo a Fé nos ensina, nos acarretou o pecado. Na contrição perfeita, fixamo-nos sobretudo em Deus, na sua grandeza, na sua formosura, amor e bondade, vendo quanto o pecado O ofende, e que foi o pecado que Lhe ocasionou tantos sofrimentos e dores para nos redimir. Na contrição perfeita, não queremos unicamente o nosso bem, senão o bem de Deus.
Com um exemplo o verás melhor. Quando São Pedro negou o Divino Salvador, saiu fora e "chorou amargamente" (I Lc 22,62). — Por que chora São Pedro? É, porventura, pensando na vergonha que vai ter diante dos outros apóstolos? Se assim fosse, a sua dor teria sido puramente natural e sem mérito. É porque receia que seu Divino Mestre lhe tire, como ele merece, o cargo de Apóstolo e Superior e o expulse do seu reino? Então seria boa contrição, mas somente imperfeita. Mas, não; Pedro arrepende-se e chora, antes de tudo, porque ofendeu a seu amado Mestre, tão bom, tão santo, tão digno de ser amado e por ser tão desagradecido ao seu imenso amor por ele. Tem, pois, verdadeira e perfeita contrição.
Agora dize-me: tens tu também, cristão de minha alma, algum fundamento, algum motivo, parecido com o de São Pedro, para te arrependeres dos teus pecados por amor, e por amor perfeito e agradecido? Sim, certamente, pois os benefícios que Deus te tem feito são mais que os cabelos da tua cabeça, e, considerando-os, podes dizer, em cada um deles, o que dizia São João: "Amemos a Deus já que Ele nos amou primeiro" (I Jo 4,19).
E como te amou?
"Com amor eterno te amei — disse Ele — e me compadeci de ti e te atrai a mim" (Jer 31,3).
Sim, com amor eterno te amou. Desde toda a eternidade, desde quando ainda não havia nem um átomo de ti sobre a terra, te olhou com aqueles seus olhos amorosos e que tudo penetram, e te preparou alma e corpo, céu e terra, com o amor com que uma mãe prepara todo o necessário para o filhinho que ainda não nasceu. Ele deu-te a saúde e a vida, Ele te deu e te dá, em cada dia, todos os bens naturais. Consideração esta que até aos pagãos pode fazê-los chegar ao conhecimento e amor perfeito de Deus; quanto mais a ti, cristão, que conheces outro gênero muito diferente de amor e de bondade, o amor e bondade sobrenatural de Deus para contigo; porque Deus se compadeceu de ti; e quando, com todo o gênero humano, estavas condenado pela culpa original, Deus enviou o seu Unigênito Filho, e Ele se fez teu Salvador e te remiu com seu sangue, morrendo na Cruz. E em ti pensava com entranhado amor quando agonizava no horto das Oliveiras, e quando derramava o seu sangue com os açoites e os espinhos, e quando subia arrastando a pesada Cruz pelo longo e áspero caminho do Calvário; e quando, cravado nela, se desfazia em sangue entre indizíveis tormentos. Em ti pensava com entranhado amor, como se tu foras o único homem da terra.
Que tens a concluir daqui? "Amemos a Deus já que Ele nos amou primeiro" (I Jo 4,19).
E Deus te atraiu a Ele pelo batismo, graça capital e primeira da tua vida, e pela Igreja, em cujo seio foste então admitido. Quantos há que, só a força de trabalhos e canseiras, conseguem encontrar a verdadeira Fé, e a ti te a ofereceu Deus desde o berço, por puro amor. Atraiu-te a Ele e te atrai sempre pelos sacramentos e pelas inumeráveis graças interiores e exteriores de que te enche todos os dias, pois, em verdade, estás nadando, como em imenso mar, na bondade e amor de Deus. E este amor, quer ainda coroá-lo colocando-te consigo no Céu e fazendo-te eternamente feliz. Que lhe deves por tanto amor? Não é verdade que deves corresponder a ele? Amemos também a Deus já que Ele nos amou primeiro.
Pois, vamos a contas e dize-me: Como tens pago a Deus, tão bom e amoroso, o seu amor e bondade para contigo? Dir-me-ás, sem dúvida, que com ingratidão e pecados. E pesa-te essa ingratidão? Sem dúvida que sim e queres ressarcir a tua pesada ingratidão, amando quanto possas tão grande e amoroso benfeitor. Pois, olha, se assim é, já tens contrição perfeita, contrição de amor de Deus. Para facilitar, chama-se a esta contrição de amor de Deus, contrição de amor ou de caridade.
Na mesma contrição de caridade, há uma mais levantada, que é quando alguém ama a Deus porque Ele é em si infinitamente formoso, glorioso, perfeito e digno de amor, prescindindo do seu amor e misericórdia para conosco. Há estrelas — e com esta comparação julgo que entenderás melhor — que, por estarem muito longe de nós, não as podemos distinguir, e, contudo, são tão grandes e formosas como o sol, que tão prodigamente nos dá o calor e a vida. Pois assim, ainda quando o homem não tivesse visto nem gozado nunca do amor de Deus, eterna estrela do céu, ainda quando Deus não tivesse criado o mundo nem criatura alguma, seria apesar disso grande, formoso, glorioso e digno de ser amado, porque é em si mesmo e para si, o bem mais excelente, o mais perfeito e digno de amor. Isto e não outra coisa quer dizer essa expressão que, mais de uma vez, terás encontrado nos devocionários e nas fórmulas do ato de contrição e te terá parecido talvez algum tanto obscura.
Detém-te, pois, agora e contempla o amor de Deus; contempla-o, sobretudo, nos amargos sofrimentos do Salvador, a cuja luz o compreenderás tão facilmente como facilmente te arrebatará o coração.
Eis aqui o modo de alcançar praticamente a contrição perfeita.


Santo Afonso Maria de Ligório - A CONTRIÇÃO PERFEITA

segunda-feira, 2 de junho de 2014

ERA NECESSÁRIO TANTO SOFRIMENTO?


Todos temos pousado muitas vezes o olhar sobre imagens de Cristo crucificado. Todos nós, cristãos, já meditamos nas dores que dilaceraram o corpo e a alma do Senhor. E é natural que nos tenhamos perguntado: “Por que a Cruz, por que essa Cruz terrível? Era necessário tanto sofrimento do Filho de Deus para a redenção da humanidade?”
A resposta é: “Não”. Todos os teólogos, todos os exegetas, todos os santos, dizem-nos que teria bastado o menor ato amoroso de Cristo, dotado de valor infinito – por ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem –, para reparar por todos os pecados do mundo. Diante da Cruz de Cristo, estamos, pois, num “território de Deus”, que a lógica humana é incapaz de penetrar plenamente. Aos santos, esse abismo causava vertigens, vertigens amorosas, por certo, como contam que acontecia com São Francisco de Assis, extasiado diante de um crucifixo:
Era prudente esse amor, meu Salvador,
Que te fez descer até à terra? [...]
Esse amor teu que me endoidece assim
Roubou-te a tua Sabedoria.
Esse amor que me faz desfalecer
Roubou-te a tua Onipotência.
O Poverello de Assis ficava santamente desvairado ao contemplar a loucura de Deus de que fala São Paulo, que está acima da sabedoria dos homens 1.
Embora nós não “entendamos” essa loucura, vamos procurar ouvir a Deus – só Ele pode nos dar a resposta – e assim poderemos vislumbrar, pelo menos, três grandes verdades sobre a Cruz de Cristo, que estão inseparavelmente unidas, de tal modo que é difícil falar de uma delas sem mencionar as outras duas:
– O Filho de Deus sofreu e morreu na Cruz para nos salvar.
– O sofrimento e a morte de Cristo na Cruz foram um ato indescritível do amor de Deus.
– Na Cruz, este amor de Deus transformou o sofrimento em vida e redenção.
UM MISTÉRIO DE SALVAÇÃO
Na profissão de fé cristã, afirmamos solenemente que Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, por nós homens e pela nossa salvação, desceu dos Céus, encarnou-se no seio da Virgem Maria e se fez homem, por nós foi crucificado, padeceu e foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia e subiu aos céus 2…
É uma verdade da nossa fé que São Paulo considerava básica, fundamental: Transmiti-vos, em primeiro lugar – escreve aos de Corinto – o que eu mesmo recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados… (1 Cor 15, 1). É uma verdade constantemente proclamada no Novo Testamento 3.
Repisemos – agora usando palavras de São Tomás de Aquino – que “essa verdade, isto é, que Cristo morreu por nós, é de tal modo difícil, que a nossa inteligência pode apenas apreendê-la, mas de modo algum descobri-la por si mesma [...]. A graça e o amor de Deus para conosco são tão grandes, que Ele fez por nós mais do que podemos compreender” 4.
É assim mesmo. Mas, embora não compreendamos esse mistério, captamos um pouco dele; e esse pouco, mesmo sendo imperfeito, é uma forte luz para nós. Uma vez que sabemos – porque Deus o revelou – que Ele escolheu a Cruz para nos salvar, podemos entrever alguma coisa dos motivos, das “razões” dessa escolha divina, guiados pelo que o próprio Deus nos manifesta.
A primeira “razão” que se ilumina é a seguinte: só Cristo, como Filho Unigênito – Deus e homem – podia tomar sobre si os pecados de todos os homens com “um amor para com o Pai que superasse o mal de todos os pecados” 5, com um amor infinitamente maior que a maldade. Não só quis, por assim dizer, pagar o preço suficiente pelos nossos pecados (teria bastado uma gota do seu sangue), mas submergir todo o pecado, todo o mal do mundo – passado, presente e futuro – na plenitude do seu amor, imenso como um oceano sem limites, e autenticado pela prova de fogo do sofrimento.
Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco – diz São João, o Apóstolo –: em que enviou o seu Filho unigênito ao mundo, para que por Ele vivamos [...]. Nisto conhecemos o amor: Ele [Jesus] deu a sua vida por nós [...]. Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas pelos de todo o mundo (1 Jo 4, 9; 3, 16 e 2, 2).
Podemos, deste modo, dizer que Jesus na Cruz é o “abraço amoroso de Deus” que envolve, protege e salva os seus filhos perdidos, manchados e feridos de morte pelo pecado. Cristo, que veio salvar o que estava perdido (cf. Lc 19, 10), interpõe-se entre os nossos pecados e o castigo que mereciam; por assim dizer, deixa que se arremessem ferozmente contra Ele todos os crimes, todos os males, todas as perversidades de todos os homens, e assume-os como se fossem próprios, para expiá-los (cf. 2 Cor 5,21). O pecado parece derrubar, destruir, aniquilar Jesus, mas é Ele quem o vence pelo amor, lavando-o com o seu sangue. Depois, triunfante, ressuscitará para a nossa justificação (Rom 4, 25), derramará copiosamente a graça do Espírito Santo nos nossos corações (cf. Rom 5, 5), e abrir-nos-á as portas da felicidade eterna.
Foi Ele – profetizara Isaías – que carregou sobre si as nossas enfermidades e carregou com as nossas dores [...]. Por nossas iniqüidades é que foi ferido, por nossos pecados é que foi torturado. O castigo que nos havia de trazer a paz caiu sobre ele, e por suas chagas fomos curados (Is 53, 4-5).
“Para transmitir ao homem o rosto do Pai – diz João Paulo II –, Jesus teve não apenas de assumir o rosto do homem, mas de tomar também o «rosto» do pecado: Aquele que não havia conhecido o pecado, Deus o fez pecado por nós para que nos tornássemos nele justiça de Deus (2 Cor 5, 21)” 6.
A CRUZ ATINGE AS RAÍZES DO MAL
Demos mais um passo. Também podemos perceber, em segundo lugar, que é precisamente por meio da Cruz que Deus “atinge as raízes do mal, que se embrenham na história do homem e das almas humanas” 7.
Qual foi, e continua a ser, a raiz primeira do mal, do pecado? O orgulho, o egoísmo. O pecado dos nossos primeiros pais foi – revela-nos a Bíblia – um pecado de orgulho e de desobediência (cf. Gên 3, 1 e segs.). Todos os nossos pecados, no fundo, consistem nisso mesmo: em virar as costas a Deus, em desobedecer ao que o seu amor nos pede e voltar-nos para nós mesmos, como se fôssemos o centro de tudo – sereis como deuses (Gên 3, 5) –, movidos pelo egocentrismo orgulhoso e cobiçoso.
Essa foi a raiz do pecado. E a raiz da entrega de Cristo na Cruz, qual foi? São Paulo dá-nos a resposta: foi a humildade e a obediência do Filho de Deus. Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até à morte, e morte de Cruz (Fil 2, 8). Com o seu amor salvador, Cristo foi até ao fundo do mal e aplicou-lhe, como médico divino, o remédio na própria raiz. Ao orgulho, princípio de todo o pecado (Ecl 10, 15), aplicou o remédio da sua humildade: um Deus-homem que se humilha. À desobediência, aplicou o remédio da obediência: um Deus-homem que cumpre a vontade do Pai até à morte, até à Cruz.
Com expressão que faz pensar, a Carta aos Hebreus afirma que Cristo, apesar de Filho de Deus, aprendeu a obedecer por aquilo que sofreu, e, uma vez atingida a perfeição, tornou-se, para todos os que lhe obedecem, fonte de salvação eterna (Hebr 5, 8-9). Enquanto homem, Cristo fez a experiência da obediência humana. No desafio da Cruz, lutou por unir a sua vontade à do Pai. Essa obediência fê-lo atingir a perfeição do sacrifício redentor com que reparou a desobediência de Adão e as nossas desobediências. Assim como, pela desobediência de um só [Adão], muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só [Cristo], muitos se tornaram justos (Rom 5, 19).
UM MISTÉRIO DE AMOR
Cristo, ao sofrer, faz a vontade do Pai, acabamos de vê-lo. Com isso, estamos prontos para assomar o olhar a mais uma abertura que nos permitirá alcançar de Deus novas luzes sobre o mistério da Cruz.
No Horto das Oliveiras, antes de padecer a Paixão, Cristo reza ao Pai: Abá, Pai! Tudo te é possível; afasta de mim este cálice. Contudo, não se faça o que eu quero, mas o que tu queres (Mc 14, 34-36).
Jesus é homem, e sente profunda repugnância pelo sofrimento. Mas o coração de Cristo encerra todo o Amor – todo o Amor divino num coração humano – e por isso quer acima de tudo o que o Pai quer, que é a nossa salvação. A palavra querer tem aqui a dupla riqueza de sentido que possui na nossa língua. Por um lado, significa o ato íntimo da vontade livre, não forçada; por outro, expressa o bem-querer, o ato de amor. Ambos os sentidos estão presentes na alma de Cristo.
Cristo quis a Cruz, livremente. Desejou-a com ardor: Com um batismo de sangue tenho que ser batizado, e como trago o coração apertado até que ele se realize! (Lc 12, 50). A Cruz não caiu de repente sobre Ele, como uma árvore que se atravessa inesperadamente no caminho. Ele amou-a livremente, ofereceu-se a ela, abraçou-a. “Com que amor se abraça – comenta São Josemaria Escrivá – ao lenho que Lhe há de dar a morte!” 8
O seu Sacrifício redentor foi, pois, plenamente voluntário. A Cruz foi o seu altar, e Jesus encaminhou-se para ela como Sacerdote, a fim de se oferecer a si mesmo como Vítima (cfr. Hebr 7, 27). Cristo amou-nos e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor (Ef 5, 1).
“A morte do Salvador – diz São Francisco de Sales – foi rigoroso holocausto que Ele próprio ofereceu ao Pai para a nossa redenção; ainda que as dores e padecimentos da sua paixão tenham sido tão graves e fortes que qualquer outro mortal teria sucumbido a eles, a Jesus não lhe teriam dado morte se Ele não o tivesse consentido, e se o fogo do seu amor infinito não tivesse consumido a sua vida. Ele foi, pois, sacrificador de si mesmo; ofereceu-se ao Pai e imolou-se no amor” 9.
Para que não tivéssemos disso a menor dúvida, pouco antes da Paixão Jesus disse de modo explícito ao povo, em Jerusalém, que o seu sacrifício era um ato de doação: Eu dou a minha vida [...]. Ninguém a tira de mim; sou eu que a dou por mim mesmo (Jo 10, 17-18). E, na Última Ceia, atualizando já antecipadamente o mistério da Paixão – que deixou perenemente presente no mistério da Eucaristia –, deu-nos o seu Corpo e Sangue: o meu corpo, que vai ser entregue por vós; o meu sangue, que vai ser derramado por vós (Lc 22, 19-20).
Vemos, pois, que Deus ama a Cruz porque nos ama a nós; e é mediante a Cruz que quer manifestar-nos patentemente a infinita grandeza do seu amor.
“Cristo sofre e morre por amor – escreve Javier Echevarría –. O Pai envia o Filho para que, ao entregar a sua vida, dê testemunho definitivo do amor, e flua dEle, da Cruz, o Espírito Santo que tornará possível a nossa fé e, com esse dom divino, a salvação [...]. Deus é o Deus do amor e da vida: um Deus que vence o pecado, o desamor e a morte que do desamor deriva, precisamente com o seu Amor, e nos faz renascer dessa forma para uma vida nova que não terá fim” 10.
MISTÉRIO DE AMOR SEM FIM
Vamos dar outro passo na nossa reflexão. E começaremos pelas palavras que São João usa para sintetizar o que aconteceu na Última Ceia e na Paixão de Jesus: Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim (Jo 13, 1).
Amar até o fim significa que, no caminho da sua entrega por nós na Cruz, Jesus seguiu todas as etapas, sem deixar uma só, e chegou até o final. As penúltimas palavras que pronunciou na Cruz foram: Tudo está consumado (Jo 19, 30), antes de clamar: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito! (Lc 23, 46).
Mas amar até o fim também significa que Cristo, na Cruz, nos amou sem limite algum, sem recuo algum, sem poupar-se em nada, até ao máximo extremo.
Nada limitou o seu amor. Não se deteve em barreiras, não o arredou nenhuma dor, nenhum sacrifício, nenhum horror. Acima do seu bem-estar, da sua honra, da sua vida, colocou a salvação dos que amava, de cada um de nós.
Já pensamos no que é um amor ilimitado? Um amor que não depende de nada, nem exige nada, para se dar por inteiro? O amor de Cristo começa sem que nós o tenhamos amado, não é retribuição, é puro dom; e chega até ao extremo ainda que nós não correspondamos, melhor dizendo, no meio de uma brutal falta de correspondência. Nisto consiste o amor – esclarece São João –: não em termos nós amado a Deus, mas em que Ele nos amou primeiro e enviou o seu Filho para expiar os nossos pecados (1 Jo 4, 10).
A meditação da Paixão, neste sentido, é transparente. Nenhum sofrimento físico aparta Jesus da Cruz. Basta que contemplemos – como numa seqüência rápida de planos cinematográficos – Jesus preso, amarrado, arrastado indignamente, esbofeteado, açoitado até a sua carne se converter numa pura chaga, coroado de espinhos, esfolado e esmagado sob o peso da Cruz, cravado com pregos ao madeiro, torturado pela dor, pela sede, pelo esgotamento… Nada o detém na sua entrega amorosa.
Podemos projetar também – em flashes consecutivos – a seqüência dos seus sofrimentos morais, e perceber que tampouco conseguiram afastá-lo de chegar até ao fim. É caluniado, ridicularizado, julgado iniquamente, condenado injustamente; alvo de dolorosa ingratidão, de hedionda traição; é ferido pela infidelidade, pela falta de correspondência dos que amava e escolhera como Apóstolos; é atingido pelas troças mais grosseiras, pelos insultos mais ferinos, por escarros e tapas no rosto… Nada o faz recuar, nem sequer a última humilhação, pois não o deixaram morrer em paz, e desrespeitaram com zombarias e insultos os últimos instantes da sua agonia. Os que passavam perto da Cruz sacudiam a cabeça e diziam: “Se és o Filho de Deus, desce da cruz!” Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos também zombavam dele: “Ele salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é rei de Israel, desça agora da cruz e creremos nele; confiou em Deus, que Deus o livre agora, se o ama…” (Mt 27, 39-43).
Esta doação sem limites de Cristo é o Amor que nos salva, o caminho que Ele quis escolher para nos livrar do mal, afogando-o em si – no seu Amor – como num abismo. Ao mesmo tempo, é um contínuo apelo ao nosso amor. “Quem não amará o seu Coração tão ferido? – perguntava São Boaventura –. Quem não retribuirá o amor com amor? Quem não abraçará um Coração tão puro? Nós, que somos de carne, pagaremos amor com amor, abraçaremos o nosso Ferido, a quem os ímpios atravessaram as mãos e os pés, o lado e o Coração. Peçamos que se digne prender o nosso coração com o vínculo do seu amor e feri-lo com uma lança, pois é ainda duro e impenitente” 11.
O SOFRIMENTO TRANSFIGURADO
O inefável Amor de Cristo na Cruz ilumina uma dimensão importante, única, do amor cristão, que é, justamente, uma das maiores luzes do mistério da Cruz.
João Paulo II põe em relevo essa luz com as seguintes palavras, ricas em profunddidade: “Por obra de Cristo, o sentido do sofrimento mudou radicalmente [...]. É necessário descobrir nele a potência redentora, salvadora, do amor. O mal do sofrimento, no mistério da redenção de Cristo, fica superado e de todas as maneiras transformado: converte-se na força para a libertação do mal, para a vitória do bem.
“À luz desta verdade – prossegue o Papa –, todos os que sofrem podem sentir-se chamados a participar da obra da redenção realizada por meio da Cruz. Participar da Cruz de Cristo significa acreditar na potência salvífica do sacrifício que todos os fiéis podem oferecer junto com o Redentor” 12.
Cristo não suprimiu o sofrimento: assumiu-o, fê-lo seu. Não eliminou o sofrimento, mas transfigurou-o em meio e expressão de amor e de redenção. Deixou-o no mundo, não como um lastro mortal, mas como uma fonte de vida e de alegria.
Ao lermos estas palavras, que recolhem os fulgores da verdade cristã, talvez sintamos de a vertigem e o desconcerto que se experimentam ante o mistério.
Se for assim, olhemos de novo para Cristo e tenhamos presente que – como ensina a Igreja – “o Filho de Deus, pela sua Encarnação, se uniu de certo modo a cada homem” 13, a cada um de nós. Dizer isto não é exagero nem retórica; pelo contrário, nós, os cristãos, podemos afirmar, com alegre convicção, que Cristo está unido aos nossos sofrimentos como se fossem seus. Ele sofre conosco, une a nossa dor à sua dor na Cruz, e quer ajudar-nos a transformar os nossos padecimentos – dando-lhes o mesmo sentido que aos dEle – num tesouro de amor, de graça, de salvação, de gozo (cf. Rom 8, 17-18).
Por isso, quando sentirmos o peso do sofrimento, e talvez nos perguntemos: “Por que Deus, que é bom, me deixa sofrer assim?”, fitemos Jesus na Cruz e digamos: “O meu Deus não é um Deus longínquo, que contempla fria ou indiferentemente as dores dos homens. Não está olimpicamente fechado na sua glória bem-aventurada, para lá das estrelas. Se fosse assim, seria difícil não nos sentirmos confusos, desolados e até revoltados. Mas não, o meu Deus é Jesus Cristo, é nEle que eu creio. E Cristo compartilhou conosco todas as nossas dores, quis conhecê-las todas, quis prová-las todas. Ele sabe. Ele me entende. Ele me acompanha. No sofrimento, Ele está, mais do que nunca, perto de mim. No sofrimento, eu posso estar, mais do que nunca, unido a Ele”.
Então, ao encararmos o abismo da Dor – sobretudo quando o nosso sofrimento for mais intenso –, em vez de vermos um buraco negro ameaçador, contemplaremos o rosto de Cristo, e perceberemos que nos olha com ternura, nos anima e – sorrindo – nos faz entender, como aos discípulos após a Ressurreição, que o sofrimento por Ele transfigurado é a porta que – juntamente com Ele – nos conduz para o Amor eterno, para a Alegria, para a Glória (cfr. Lc 24, 26).
Então, nenhum sofrimento nos parecerá grande demais, e poderemos dizer com São Paulo que a nossa leve e momentânea tribulação prepara-nos, para além de toda e qualquer medida, um peso eterno de glória (2 Cor 4, 17); encontraremos a paz na dor, e proclamaremos com alegria: Tenho como coisa certa que os sofrimentos do tempo presente nada são, em comparação com a glória que se há de revelar em nós (Rom 8, 18).
(Adaptação de um trecho do livro de F. Faus: A sabedoria da Cruz)
1 1 Cor 1,25
2 Símbolo Niceno-Constantinopolitano
3 Ver, p.e., Rom 4,25; Gál 1,4; Ef 1,7; 1 Pe 3,18; 1 Jo 1,7; 1 Jo 2,2; Apoc 1,5, etc, etc.
4 Exposição sobre o Credo, Presença, Rio e Janeiro 1975, pág. 44
5 João Paulo II, Carta Apostólica Salvifici doloris, n. 17
6 João Paulo II, Carta Apostólica Novo millennio ineunte, n. 25
7 Ibidem, n. 16
8 Via Sacra, II estação
9 Tratado do Amor de Deus, 10,17
10 Itinerarios de vida cristiana, Ed. Planeta, Barcelona 2001, págs. 172 1 174
11 Vitis mystica, 3,11
12 Alocução da quarta-feira, 9.11.1998
13 Concílio Vaticano II, Const. Pastoral Gaudium et spes, n. 22

A virtude da temperança