quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Oração para pedir fortaleza espiritual


Peçamos a intercessão de Santa Rosa de Lima para que nossas almas sejam fortalecidas por Deus

rosa de lima

Santa Rosa de Lima, pequena rosa do Peru, tu que soubeste amar verdadeiramente Jesus com um coração generoso e depreciaste as vaidades deste mundo para abraçar-te à sua cruz desde a tua mais terna infância;
Tu que entendeste que em meio às tribulações vêm as graças concedidas por Nosso Senhor e que são a verdadeira escada ao Céu;
Faze com que amemos como tu, a Jesus e Maria, e a Santa Cruz, brindando este grande amor aos mais desvalidos, aos que necessitam de nossa misericórdia, de consolo, servindo-os como se fosse ao mesmíssimo Jesus.
Intercede por nossas pobres almas para que, pela graça de Deus, levemos nossa cruz com alegria.
Ensina-nos a imitar tuas virtudes para que, seguindo teu exemplo, possamos gozar de tua amorosa proteção junto a Nossa Mãe Maria em todo nosso caminhar até o Céu, para ali dar glória a Deus pelos séculos dos séculos. Amém.

Alguns conselhos de Santa Rosa de Lima
Conheça alguns ensinamentos de Santa Rosa de Lima, a primeira santa da América do Sul, Padroeira do Peru, das Ilhas Filipinas e de toda a América Latina:
1-“O amor é duro, mas é nossa essência. Isso é o que nos eleva acima do resto das outras criaturas”.
2-“Quando servimos aos pobres e aos enfermos, servimos a Jesus. Não devemos deixar de ajudar a nossos vizinhos porque neles servimos a Jesus”.

3-“Não quero, esposo meu, mais riquezas, quero adorar-te, não tenho outro desejo que a não ser servir-te. Mas, como o farei sem Teu amparo?”
4-“A graça vem acompanhada da Cruz”.
5-“Oh, que daria eu por anunciar o Evangelho! Atravessaria cidades pregando a penitência, com os pés descalços, o crucifixo na mão e o corpo envolvido num cilício espantoso. Caminharia durante a noite gritando: deixai as vossas iniquidades. Até quando sereis como rebanhos aturdidos diante dos demônios? Fugi dos castigos eternos; pensai que há só um instante entre a vida e o inferno”.
6-“Saibam todos que à tribulação, se segue a graça; reconheçam que, sem o peso das aflições, não se pode chegar à plenitude da graça; compreendam que com o aumento dos trabalhos cresce simultaneamente a medida dos carismas. Não se deixem enganar: esta é a única escada verdadeira do paraíso, e sem a cruz não há caminho por onde se possa subir ao céu”.
7-“Ó, se os mortais conhecessem o que é a graça divina, como é bela, nobre e preciosa, quantas riquezas encerra, quantos tesouros, quantas alegrias e delícias em si contêm!”
8-“Se os homens soubessem o que é viver em graça, não se assustariam com nenhum sofrimento e padeceriam de bom grado qualquer pena, porque a graça é fruto da paciência”.


sábado, 20 de agosto de 2016

Sermão sobre o Conhecimento e a Ignorância


O conhecimento das Letras é bom para a instrução, mas o conhecimento da própria fraqueza é mais útil para a salvação.

I

Aqui estou para cumprir o que vos prometi; aqui estou para satisfazer vosso desejo; aqui estou, também, obrigado pela dívida que tenho para com Deus, a Quem sirvo.

Como vedes, três são as razões que me impelem a pregar: o compromisso assumido, o amor fraterno e o temor a Deus.

Se me abstivesse de falar, pela minha boca condenar-me-ia. Mas o que acontece se eu falar? Também neste caso, corro o mesmo risco, o de ser condenado pela minha própria boca: por pregar e não praticar o que prego. Ajudai-me, pois, com vossas orações, para que eu possa sempre falar o que é necessário e, com minha conduta, praticar o que prego.

Tinha vos anunciado o tema do sermão de hoje: a ignorância, ou melhor, as ignorâncias, porque, como lembrais, há duas ignorâncias: a de nós próprios e a de Deus. E vos aconselhava a evitar uma e outra, pois ambas são perdição.

Hoje, procuraremos esclarecer melhor esse assunto. Antes, porém, discutiremos se toda ignorância é condenável. Parece-me que não, pois nem toda ignorância produz perdição: há muitas e mesmo inúmeras coisas que se podem ignorar sem problema algum para a salvação.

Se alguém, por exemplo, desconhece artes mecânicas, como a carpintaria, a arte de edificação e outras que são exercidas para a utilidade da vida neste mundo, acaso tal ignorância constitui obstáculo para a salvação?

Também são muitos são os que se salvaram e agradaram a Deus pela sua conduta e com seus atos sem as artes liberais (e, certamente, são úteis e moralmente bons esses estudos). Quantos não enumera a Epístola aos Hebreus (cap. XI), que se tornaram agradáveis a Deus não com erudição, "mas com consciência pura e fé sincera" (I Tim 1, 5)2. E agradaram a Deus com os méritos de sua vida e não com os de seu saber. Cristo não foi buscar Pedro, André, os filhos de Zebedeu e todos os outros discípulos, entre filósofos; nem em escola de retórica e, no entanto, valeu-se deles para realizar a salvação na terra.

Não é porque fossem mais sábios do que todos os homens - como diz de si mesmo o Eclesiastes (1, 16) -, mas, por causa de sua fé e de sua benignidade, o Senhor os salvou e fez deles santos e mestres. Pois os Apóstolos mostraram ao mundo o caminho da vida, não com sublimidade de discurso, nem com palavras eloqüentes de sabedoria humana, mas pelo modo como aprouve a Deus: pela estultícia de sua pregação, aprouve a Deus salvar os que crêem, porquanto o mundo com sua sabedoria não O conheceu (I Cor 2, 1; 1, 17-21).

II

Posso estar dando a impressão de querer lançar em descrédito o saber, de repreender os doutos, de proibir o estudo das letras. Longe de mim, tal atitude! Conheço muito bem o inestimável serviço que os homens doutos têm prestado à Igreja: seja refutando os adversários dela, seja na instrução dos simples.

Com efeito, o que li na Sagrada Escritura foi: "Como rejeitaste o saber, também Eu te rejeitarei, para que não exerças Meu sacerdócio" (Os 4, 6). E mais: "Os doutos resplandecerão com o brilho do firmamento, e os que tiverem ensinado a muitos a justiça, brilharão como estrelas em perpétuo resplendor" (Dn 12, 3).

Mas, por outro lado, li também: "O saber incha" (I Cor 8, 1).3

E, finalmente: "No acúmulo de saber, acumula-se a dor" (Ecl 1, 18).

Vede que há saberes e saberes: há um saber que produz o inchaço e há um saber que contrista. Quero que sejais capazes de distinguir qual deles é útil e necessário para a salvação: o que incha ou o que dói? E não duvido que prefiras o que aflige ao que incha, porque, se a saúde pela inchação é aparentada, pela aflição é procurada.4

Ora, quem procura, acaba encontrando, pois "quem pede, recebe" (Lc 11,10). E é certo que Aquele que cura os que têm o coração contrito abomina o inchaço dos orgulhosos, pois a Sabedoria diz: "Deus resiste aos soberbos e dá Sua graça aos humildes" (Tg 4,6).5E o Apóstolo diz: "Exorto-vos, em virtude do ministério que pela graça me foi dado, a não pretender saber mais do que convém, mas saber com sobriedade" (Rom 12,3).

O Apóstolo não proíbe saber, mas sim saber mais do que convém. E o que é saber com sobriedade? É cuidar de aplicar-se prioritariamente ao que mais interessa saber, pois o tempo é breve.6 Ora, ainda que todo saber, desde que submetido à verdade, seja bom, tu, que buscas com temor e tremor7 a salvação e a buscas apressadamente, dada a brevidade do tempo, deves aplicar-te a saber, antes e acima de tudo, o que conduz mais diretamente à salvação.

Acaso não dizem os médicos do corpo que parte da medicina é precisamente determinar a ordem dos alimentos: qual deve ser ingerido antes, qual depois e o modo de os ingerir? Ora, mesmo sendo bons os alimentos que Deus criou, tu os tornas nocivos se não observas o modo e a ordem ao ingeri-los. Aplica, pois, aos saberes, o que dissemos dos alimentos.

III

Mas o melhor é encaminhar-vos ao Mestre. Não é nossa esta sentença, mas dEle; ou antes, é nossa porque a aprendemos dAquele que é a Verdade. E diz: "Se alguém pensa que sabe alguma coisa, ainda não sabe como deveria saber" (ICor 8,2).

Vede como não é aprovado o saber muitas coisas se se ignora o modo de saber. Vede como o fruto e a utilidade do saber consiste no modo de saber.

Mas o que é este modo de saber? O que, senão saber segundo a ordem, o amor e o fim devidos?

Segundo a ordem, isto é, priorizando o que é mais necessário para a salvação; segundo o amor8, isto é, voltando-nos mais ardentemente para o que mais nos impele a amar; segundo o fim: não por vaidade ou curiosidade ou objetivos semelhantes, mas somente pela tua própria edificação e pela de teu próximo.

Há quem busque o saber por si mesmo, conhecer por conhecer: é uma indigna curiosidade.

Há quem busque o saber só para poder exibir-se: é uma indigna vaidade. Estes não escapam à mordaz sátira que diz: "Teu saber nada é, se não há outro que saiba que sabes" (Persius, Satyra 1, 27).

Há quem busque o saber para vendê-lo por dinheiro ou por honras: é um indigno tráfico.

Mas há quem busque o saber para edificar, e isto é amor. E há quem busque o saber para se edificar, e isto é prudência.

IV

De todos estes que buscam o conhecimento, só os dois últimos não incorrem em abuso do saber, já que o buscam para praticar o bem. Deles é que fala o salmo: "O saber é bom para quem o põe em prática" (Sl 111, 10). Os demais devem ouvir a Escritura: "Quem conhece o bem e não o pratica, comete pecado" (Tg 4, 17).

É como se, numa comparação, disséssemos: tomar alimento e não digeri-lo faz mal. Um alimento indigesto, mal cozinhado, produz maus humores e, em vez de nutrir o corpo, corrompe-o. Assim também pode dar-se o caso de o estômago da alma, que é a memória, ingerir muitos conhecimentos que não foram cozinhados pelo fogo do amor e nem passaram para ser elaborados pelo aparelho digestivo da alma (no caso, os atos e costumes), a fim de que a alma se torne boa pelo bom conhecimento (o que pode ser atestado pela vida e pelos costumes). E acaso um tal saber indigesto não deve ser considerado pecado, tal como um alimento que se transforma em humores maus e nocivos? E os maus humores do corpo não equivalem aos maus costumes da alma? E não virá a sofrer de inchaços e cólicas de consciência quem conhece o bem e não o pratica?

Acaso não se lhe aplicará a sentença de morte e condenação, toda vez que lhe vier à mente a palavra de Deus: "O servo, que conhece a vontade de seu senhor e não a pratica, torna-se digno de muitos açoites" (Lc 12,47) ?

E não será em nome desta alma, o pranto do profeta (Jer 4,19): "Doem-me as entranhas, doem-me as entranhas"? Gemidos geminados9 que - salvo outra interpretação - apontam para o que dizíamos: o profeta fala de si mesmo, pois estava pleno de saber, inflamado de amor e, desejando intensamente transmitir esse saber, não encontrou quem se interessasse por ouvir e teve de arcar sozinho com o peso de um saber que não pôde comunicar. Chorou, pois, o zeloso doutor da Igreja, tanto por aqueles que menosprezam a busca do saber que dirige o bem viver, como pelos que, embora sabendo, no entanto, vivem mal. E, por isso, o profeta repete seu lamento.

V

Compreendes agora quão verdadeira é a sentença do Apóstolo: "O saber incha"? Por isso, convém que a alma antes se conheça a si mesma, coisa que é requerida pela ordem e pela utilidade.

Pela ordem, porque, para nós, o primeiro conhecimento deve ser o do que somos; pela utilidade, porque tal conhecimento não incha, mas humilha e serve de fundação para a edificação. Pois o edifício espiritual que não tem seu fundamento na humildade, não se agüenta em pé.

E para aprender a humildade, a alma não encontra nada mais convincente do que descobrir-se a si mesma na verdade. Deve-se, portanto, evitar a dissimulação, o auto-engano doloso, deve o homem encarar-se de frente, evitando fugir de si mesmo.

Pois, defrontando-se a alma com a límpida luz da verdade, encontrar-se-á muito diferente do que julgava ser e, suspirando em sua miséria - uma miséria que já não pode esconder porque é verdadeira e manifesta -, clamará com o salmista ao Senhor: "Em Tua verdade me humilhaste" (Sl 119, 75). Como não se humilhará neste verdadeiro conhecimento de si, ao dar-se conta da carga de seus pecados, sob o peso deste corpo mortal, ao ver-se imersa em preocupações terrenas, infectada pelos desejos carnais, cega, curvada, fraca, envolta em mil pavores, angustiada ante mil dificuldades, sufocada ante mil dúvidas, indigente de mil necessidades, inclinada ao vício, impotente para as virtudes?

Onde está agora o olhar arrogante? Onde, a cabeça orgulhosamente erguida? Não será ela ainda mais arremessada em sua desolação, trespassada por espinhos? (Sl 32, 4). Que ela - diz o salmista - derrame lágrimas, que chore e gema, que se volte para o Senhor e clame em sua humildade: "Cura, Senhor, minha alma, pois pequei contra Ti" (Sl 41,5).

Se ela se voltar para o Senhor, encontrará consolo, pois Ele é o Pai das misericórdias e o Deus de toda consolação.

VI

Eu, quando olho para mim mesmo, fico imerso em amargura; logo, porém, que alço a vista para o auxílio da misericórdia divina, suaviza-se meu amargor com a alegria da visão de Deus e Lhe digo: "Minha alma está conturbada interiormente, por isso me lembro de Ti" (Sl 42,7).

Basta um pouco de conhecimento de Deus para experimentar que Ele é piedoso e solícito, pois, na verdade, Ele é um Deus de bondade e misericórdia, que perdoa a maldade (Joel 2,13); Sua natureza é a bondade e é próprio dEle perdoar e ter misericórdia sempre.

Deus se dá a conhecer nesta experiência e desta maneira salutar, a partir do momento em que o homem se reconheça indigente e clame ao Senhor; e Ele o ouvirá e dir-lhe-á: "Eu te libertarei e tu Me glorificarás" (Sl 50,15).

Assim, o conhecimento próprio é um passo para o conhecimento de Deus. Vê-lO-ás em Sua imagem, que em ti se forma, na medida em que tu, desarmado pela humildade, com confiança, irás refletindo a glória do Senhor e, levado pelo Espírito de Deus, de claridade em claridade, irás te transformando nessa imagem.

VII

Reparai, pois, como ambos conhecimentos são necessários para a salvação, de tal modo que não pode faltar nenhum dos dois. Pois, se desconheces a ti mesmo, não terás temor de Deus em ti, nem humildade. Por acaso pensas que podes alcançar a salvação sem temor de Deus e sem humildade?

(Neste momento, o auditório murmura: "Não, não!").

Fizestes bem de indicar-me o "não" absoluto de vosso juízo, ou antes, que não estais desprovidos de juízo... Nem vale a pena continuar falando sobre o óbvio.

Mas, prestai atenção a um outro ponto...

Ou será melhor parar, por causa dos que já estão pestanejando? Eu pretendia, em um só sermão, dar conta do que tinha prometido: falar da dupla ignorância, e fá-lo-ia se não me parecesse que este discurso já está demasiadamente longo para os que o acham cansativo. E vejo alguns bocejando e outros dormitando. E não é de admirar, pois a longuíssima vigília de oração que tivemos hoje os desculpa.

O que direi, porém, daqueles que dormem agora, mas dormiram também enquanto rezávamos os ofícios? Não quero, porém, levar isto adiante e envergonhá-los, baste ter mencionado o fato... Penso que de hoje em diante cuidarão de estar atentos, advertidos que foram pela nossa correção.

Com esta esperança e em atenção a eles, em vez de continuar, partamos, suspendendo por clemência o discurso, e dêmos-lhe fim, embora não tenha atingido seu fim. Eles, por sua vez, tendo sido objeto de nossa compreensão, associem-se a nós em glorificar o Esposo da Igreja, Nosso Senhor Jesus Cristo, que está acima de todas as coisas, Deus bendito pelos séculos. Amém.


Notas
1.A palavra latina salus significa tanto saúde como salvação; acumulação semântica especialmente incômoda para o tradutor, pois Bernardo freqüentemente compara a saúde da vida presente à salvação eterna...
2.Migne erradamente anota Hbr 11.
3.Scientia inflat diz o Apóstolo. Ao longo de todo o texto, estamos traduzindo a palavra scientia por saber, pois nosso termo ciência, mais do que um conhecimento pessoal, indica o saber objetivo: o das diversas ciências. E Bernardo fala do saber (scientia) como algo subjetivo, o saber de cada um. Traduzimosinflat por incha, que também dá a idéia do vazio da vaidade e, além disso, ajusta-se à comparação que Bernardo estabelecerá entre o inchaço do saber e o inchaço do corpo.
4.Procuramos manter algo da rima e do ritmo destas últimas palavras: Bernardo, como Agostinho, destaca momentos importantes do sermão, marcando-os com jogos de palavras, no caso: ...sanitatem, quam tumor simulat, dolor postulat.
5.E também I Pe 5, 5 e Pr 3, 34.
6.Tempus enim breve est é ICor 7,29.
7.Esta expressão "temor e tremor" aparece em IICor 7,15 e Fil 2,12.
8.Studio, no original. Como se sabe, a palavra latina studium significa também diligência, amor que move a agir.
9.Bernardo interpreta alegoricamente (!) a repetição do lamento do profeta e marca esta passagem por mais um jogo de palavras: ingeminatio geminum.

http://www.ricardocosta.com/traducoes/textos/sermao-sobre-o-conhecimento-e-ignorancia

SÃO BERNARDO DE CLARAVAL, Abade e Doutor da Igreja.

Varão de fogo, conselheiro de Papas e monarcas, denominado pelo Papa Inocêncio II de "muralha inexpugnável que sustenta a Igreja", São Bernardo foi também admirável arauto da Virgem Maria e um dos primeiros apóstolos da mediação universal da Mãe de Deus.


O ambiente era de expectativa e seriedade. A multidão comprimia-se, silenciosa, em torno de um homem ainda jovem, de fisionomia austera, que pregava à beira de um rio. Sua voz, grave e compassada, transmitia uma profunda paz de alma.


"Arrependei-vos, porque está próximo o reino de Deus. (...) Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas" (Mt3, 2-3), afirmava com severidade. Depois continuava suavemente, quase enternecido: "Vem depois de mim quem é mais forte do que eu, ao qual não sou digno de desatar, prostrado em terra, a correia das sandálias" (Mc1, 7).


João Batista, o último e maior dos profetas do Antigo Testamento, anunciava à nação eleita o próximo aparecimento do Salvador do gênero humano. E mais tarde, quando revelou a divindade do Messias ao proclamar: "Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira o pecado do mundo" (Jo1, 29), a longa e grandiosa fileira dos profetas, que haviam predito o advento do Redentor e guiado o povo através dos séculos de espera, estava finalmente encerrada. Todas as profecias tinham-se cumprido.


A Revelação está completa, mas Deus deseja servir-se das causas segundas para comunicar seus divinos desígnios à humanidade. Assim, sempre suscitará Ele, alguns varões e mulheres que indiquem o Caminho, ensinem a Verdade e transmitam a Vida à maioria dos homens. Esta realidade no-la explica São Tomás, na Suma Teológica: "Em todas as épocas houve alguns que possuíam o espírito profético, não para dar a conhecer doutrinas novas, mas para dirigir a vida humana".

O profeta do século XII

No século XII a Civilização Cristã havia atingido um auge que nenhum santo poderia ter imaginado nos albores duros e sangrentos da primeira época da Igreja: "A filosofia do Evangelho governava os Estados; a influência da sabedoria cristã e sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil" — afirmou Leão XIII na Immortale Dei.


O sustentáculo dessa sociedade sacral havia sido, durante mais de um século, a santidade emanada da abadia beneditina de Cluny. Tendo-se espalhado rapidamente por todo o Ocidente cristão, esses filhos de São Bento influenciavam e orientavam a espiritualidade e a cultura dos povos da Europa a partir do interior de seus imensos mosteiros, do alto dos púlpitos, desenvolvendo uma belíssima e aristocrática liturgia e encantando as multidões com o angélico canto gregoriano.

Entretanto, após alcançar o píncaro, a grandeza de Cluny desvanecia-se lentamente, quiçá por não ter havido almas generosas que, no ápice do esplendor, quisessem partir para novos extremos de santidade.


Surgiu então, não uma instituição, mas um homem que foi o reformador da disciplina eclesiástica, o modelo de todas as virtudes, a voz de Deus a indicar novos rumos àquela sociedade que começava a vacilar: Bernardo de Claraval.

Um misterioso desígnio


No ano de 1091 nascia num castelo da Borgonha o terceiro filho do senhor de Fontaines e da virtuosa dama Alet. Pouco antes de dar à luz o menino, teve ela um sonho tão nítido e expressivo que sua maternal intuição não deixou de ver nele um providencial aviso sobre o futuro do filho: tinha-lhe aparecido um cachorrinho de alvíssima pele que latia fortemente e sem cessar. Aflita, porém, por não alcançar uma clara interpretação que traduzisse seus pressentimentos, consultou um servo de Deus, o qual lhe respondeu: "O menino será um grande pregador e latirá continuamente para guardar a Casa de Deus, e curará as chagas de muitas almas".


Descendente de duas nobres famílias e pairando sobre ele esse misterioso vaticínio, criou-o sua mãe com especial esmero, e logo que foi possível o enviou a uma famosa escola na cidade de Châtillon-sur-Seine. Seu grande talento intelectual causava admiração aos mestres e prometia-lhe uma brilhante carreira. A índole afável e um tanto tímida de Bernardo possuía uma nota de nobreza e amenidade que atraía muitos a ele.


Em pouco tempo, sentiu arder na alma o desejo da glória da ciência e de uma existência mundana vivida na opulência. O demônio, o mundo e a carne tentaram incontáveis vezes arrastá-lo para a perdição, mas, apesar desses assaltos, conservou sempre íntegra sua inocência batismal.


Certa vez, sentindo especial atração por uma formosa e pouco virtuosa jovem, e querendo a qualquer preço evitar a menor falta, lançou-se num pequeno lago de água gelada (era inverno) e lá permaneceu, submergido até o pescoço, e dali o retiraram quase sem sentidos.
São Roberto de Molesmes acolhendo 
São Bernardo na Ordem de Cister. 



O chamado do Senhor


Contava Bernardo 21 anos de idade, e a graça divina havia muito batia às portas de seu coração ardente: "Para que vieste ao mundo?" Esta pergunta vinha lhe à mente com frequência cada vez maior.


A radicalidade da vida monástica atraía aquela alma feita para grandes atos de heroísmo: abandonar honras, riqueza e família, consagrar-se para sempre ao serviço do Rei Eterno, viver daquele amor sobrenatural cujas labaredas cresciam sem cessar em seu interior... Entretanto, não faltavam parentes e amigos que o exortavam a seguir uma estrada mais larga: grandes glórias mundanas prometiam as incomuns qualidades do jovem Bernardo; sua precária saúde e débil compleição não suportariam as austeridades da vida religiosa; pode-se também servir a Deus sem enterrar num claustro os talentos de tão gentil caráter...


Afligido por esses pensamentos e combates, entrou certo dia numa igreja e implorou uma luz celeste que lhe desse a conhecer, sem sombra de dúvida, o desígnio de Deus a seu respeito. E o Senhor não tardou em socorrer seu escolhido que a Ele clamava.


Levantou-se Bernardo fortalecido e cheio de sobrenatural certeza, e dirigiu-se para um mosteiro quase desconhecido, fundado não havia muito tempo pelo santo abade Roberto de Molesmes e situado num bosque não distante do castelo de sua família: Cister.


Entretanto, não quis partir só para aquele austero claustro onde nascia, em meio a dificuldades sem conta, uma nova Ordem religiosa: com inspirada eloquência, arrastou consigo seu tio materno, quatro irmãos e mais trinta cavaleiros companheiros seus! O último irmão de Bernardo, por ser ainda muito novo, escutou as seguintes palavras: “Fica com Deus. Nós partimos para o mosteiro e te deixamos todos os nossos haveres”. Desolado, o menino respondeu: "Vós conquistais o Céu e me deixais a terra? Má partilha esta!" E poucos dias depois, bateu àquelas benditas portas que já tinham acolhido seus cinco irmãos mais velhos...

O Santo gozava de íntima amizade com Jesus
que se dignou aparecer-lhe algumas vezes
em seus êxtases. 

O vale da luz


Se exíguo tinha sido durante muitos anos o número de monges de Cister, logo ficaram estreitas, graças a Bernardo, suas rudes paredes de pedra.


Por ordem de seu superior, agora Santo Estevão Harding, partiu ele, acompanhado de doze companheiros, a fundar uma nova abadia. Tinha apenas 25 anos.


A paragem escolhida foi um isolado e sombrio vale, temido por causa dos ladrões que ali se refugiavam. Mas em pouco tempo a floresta cedeu lugar aos campos cultivados, os muros começaram a elevar-se, vozes puras e varonis fizeram ecoar a laus perenni naquelas vastidões, e a luz divina refletida por São Bernardo dissipou as obscuridades do lugar, que passou a chamar-se Clara Vallis —Claraval.


Atraídos pela fama de santidade que logo aureolou esse mosteiro, acorreram numerosos jovens, nobres e plebeus, cultos e ignorantes, desejosos de seguir a Cristo na pobreza, obediência e castidade, sob a direção do jovem abade. Passou assim de 700 o número de monges que enchiam a abadia do vale da luz.

Voz e braço de Deus


Mas a luz não foi feita para ser escondida e sim para iluminar e brilhar aos olhos de todos (cfr. Mt 5, 15-16). Em vão procurava Bernardo a solidão e o silêncio de seu amado vale. Contra sua vontade, tornou-se o conselheiro de Papas, bispos e monarcas, o diretor espiritual da Europa medieval, o Moisés da Cristandade.


Não havia pregador mais ardente nem personagem com maior prestígio do que ele. Venerado como santo pelas multidões e reconhecido como profeta e taumaturgo, sua mera presença, suas palavras e escritos despertavam um entusiasmo novo e combatiam vitoriosamente as heresias e os adversários da Igreja. Tendo-se levantado naquele tempo um perigoso cisma na Igreja de Deus, quase todos os fiéis vacilavam, desorientados, entre o legítimo Pontífice e um antipapa chamado Anacleto.


Teólogos e doutores discutiam com denodo argumentos em favor de um ou de outro, sem chegar a resultados convincentes ou definitivos. Os olhos de muitos voltaram-se então para o santo abade de Claraval, à procura de uma palavra que resolvesse a espinhosa questão. Acudiu Bernardo ao Concílio de todos os bispos do reino da França, e com sua inspirada e ardente eloquência decidiu o voto da assembleia em favor do legítimo Papa, Inocêncio II.


Entretanto, o incêndio da divisão não se extinguiu imediatamente. Na província da Gasconha, o orgulho de um bispo sustentado pela ambição de um conde da região, ainda se levantava contra o verdadeiro pastor da Santa Igreja. O Papa enviou São Bernardo para pôr fim a esta triste situação, na expectativa de que a sabedoria do santo triunfaria onde os raciocínios dos teólogos haviam fracassado. Mas em vão tentou ele reduzir à justa obediência o agitado espírito do bispo revoltado. Procurou, então, convencer o despótico conde, demonstrando-lhe a loucura de sua posição. Ambos, porém, ébrios de orgulho, obstinavam-se no erro.


Contristado ante tanta maldade, mas decidido a fazer prevalecer a autoridade do Sumo Pontífice, convocou Bernardo todo o povo à catedral da cidade e celebrou solenemente o Santo Sacrifício do altar. Após a Consagração, levando em suas mãos o Santíssimo Sacramento sobre uma patena, dirigiu-se à praça onde se encontrava o conde que, por estar excomungado, não podia entrar no templo. Olhando-o severamente, disse-lhe com voz ameaçadora: "Nós te rogamos e tu nos desprezaste; muitos servos de Deus suplicaram e tu de ninguém fizeste caso. Eis que o Filho da Virgem, Cabeça e Senhor da Igreja que tu persegues vem à tua presença! É o Juiz em cujas mãos um dia tua alma cairá. Vejamos se também a Ele viras as costas como a nós as tornaste!" Como outrora os vendilhões do Templo de Jerusalém haviam fugido diante do Mestre irado, o infeliz conde, ao escutar essas palavras, rolou por terra, aterrorizado. Levantou-se depois, tocado finalmente pela graça de Deus, prostrou-se cheio de arrependimento aos pés do santo abade e fez tudo quanto este lhe ordenou.

O milagre do conde que cai ao solo rolando aterrorizado, 
ante as palavras de São Bernardo. 



Travou mais tarde tão estreita amizade com Bernardo que, seguindo seus santos conselhos, abandonou o mundo e acabou seus dias num convento. O Bispo recalcitrante, porém, obstinado em sua malícia, foi um dia achado morto em sua cama, sem confissão nem viático.

Foi agraciado com aparições da Virgem
Maria a quem tanto amava. Em um dessas
aparições, Nossa Senhora se dignou derramar
nos lábios do Santo Abade algumas gotas
de seu santo leite, o que fez São Bernardo
experimentar um profundo êxtase
que elevou sua alma a uma altíssima
contemplação dos mistérios divinos. 

Arauto de Nossa Senhora


Mas este varão de fogo, denominado pelo Papa Inocêncio II de "muralha inexpugnável que sustenta a Igreja", passou para a História com o título de"Doutor Melífluo", porque a unção de suas exortações levava todos a afirmar que seus lábios destilavam puríssimo mel.


Quem, no mundo cristão, não conhece a incomparável e doce prece "Lembrai- vos", a ele atribuída? Foi um dos primeiros a chamar de "Nossa Senhora" a Mãe de Deus. Conta a tradição que, escutando certa feita seus irmãos cantarem a Salve Regina, irrompeu de seu coração pervadido de enlevo a tríplice exclamação que hoje coroa esta oração: "Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria!"Foi também um dos primeiros apóstolos da mediação universal de Maria Santíssima, deixando esta doutrina claramente consignada em numerosos sermões:"Porque éramos indignos de receber qualquer coisa, foi-nos dada Maria para, por meio d'Ela, obtermos tudo quanto necessitamos. Quis Deus que nós nada recebamos sem haver passado antes pelas mãos de Maria. (...) Como mais íntimo de nossa alma, com todos os afetos de nosso coração e todos os sentimentos e desejos de nossa vontade, veneremos a Maria, porque esta é a vontade d'Aquele Senhor que quis que tudo recebamos por Maria."
"Vinde, bendito de meu Pai"


Retornando de uma missão apostólica, quando já estava com 63 anos de idade, curou uma mulher cega, na presença de uma enorme multidão que acorria para venerá-lo. Foi o último milagre realizado na sua existência terrena.


Ao chegar a seu amado mosteiro de Claraval, sentia-se desfalecer.


Mas transbordava de sua alma a serena confiança do navegante que finalmente avista o porto anelado. Ele mesmo, numa carta, dá conta de sua derradeira moléstia, pouco antes de partir para a eternidade: "O sono foge de mim, para que a dor não se mitigue estando os sentidos adormecidos. Quase tudo o que padeço são dores no estômago. Para nada ocultar a um amigo que deseja conhecer o estado de seu amigo, e falando não como sábio, segundo o homem interior, digo-vos que o espírito está pronto, na carne fraca. Rogai ao Salvador, o qual não quer a morte do pecador, que não atrase mais o meu fim, mas o guarde e ampare".

Bispos, abades e monges circundavam o leito onde agonizava aquele profeta do Senhor. Choravam eles o superior que aconselhava, o doutor que ensinava, o pai que os amava, o varão de Deus que os santificava. Mas este até o último alento os animou e consolou, e com grande despretensão dizia que já era tempo de um servo inútil passar a outro aquele cargo, e uma árvore estéril ser arrancada... No dia 20 de agosto de 1153, às nove horas da manhã, entregou sua puríssima alma a seu Criador e Redentor. 

(Revista Arautos do Evangelho, Agosto/2006, n. 56, p. 22 à 25)

SÃO BERNARDO DE CLARAVAL



Bernardo nasceu no ano 1090 na França. A sua família era cristã, rica, poderosa e nobre. Desde a tenra idade demonstrou uma inteligência aguçada. Tímido, tornou-se um jovem de boa aparência, educado, culto, piedoso e de caráter reto e piedoso. 

✨Quando sua mãe morreu, ele manifestou o desejo de ser religioso, mas encontrou resistência do pai. Porém, com determinação, conseguiu convencer o pai, irmãos e amigos, que ingressaram com ele no mosteiro da Ordem de Cister, recém fundada. 

✨A contribuição de Bernardo dentro da ordem foi de tão grande magnitude que ele passou a ser considerado o seu segundo fundador. Foi um período de abundante florescimento da ordem, que passou a contar com cento e sessenta e cinco mosteiros. Bernardo sozinho fundou sessenta e oito e, em suas mãos, mais de setecentos religiosos professaram os votos. 

✨Bernardo viveu uma época muito conturbada na Igreja. Foi pregador, místico, escritor, fundador de mosteiros, abade, conselheiro de Papas, reis, bispos e também polemista político e tenaz pacificador. Nada conseguia abater ou afetar sua fé, imprimindo sua marca na história da espiritualidade católica romana. 

✨Tornou-se o maior escritor do seu tempo, apesar de sua saúde sempre estar comprometida. Isto porque Bernardo era um religioso de vida muito austera, dormia pouco, jejuava com freqüência e se impunha severa penitência. 

✨Morreu no dia 20 de agosto de 1153 e foi sepultado no mosteiro de Claraval. É chamado de doutor da Igreja.      

 REFLEXÃO
São Bernardo cantou o amor, o amor de Deus pelo homem e o amor do homem por Deus. Um amor que é fonte de verdadeiro conhecimento, um amor nupcial entre Deus e aqueles que sabem estar na escuta dele. E é esta mensagem que falou ao coração de tantos homens e mulheres do seu século e povoou numerosos mosteiros.

 ORAÇÃO
Ó Deus, que marcastes pela vossa doutrina a vida de São Bernardo, concedei-nos, por sua intercessão, que sejamos fiéis à mesma doutrina, e a proclamemos em nossas ações. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

São Bernardo de Claraval, Rogai por nós!

domingo, 14 de agosto de 2016

10 Máximas de Santo Afonso de Ligório


1. É nas doenças que se vê quem tem virtude.

2. Antes perder tudo, que perder a Deus.

3. Perturbar-se com as faltas cometidas não é humildade, mas orgulho.

4. Só somos o que somos diante de Deus.

5. Sempre o demônio anda à caça dos ociosos.

6. Desgraçado de quem ama mais a saúde que a santidade!

7. Os curiosos são sempre dissipados

8. Os santos falam sempre de Deus; sempre dizem mal de si próprios, e sempre bem dos outros.

9. A quem procura ser estimado, estima Deus pouco.

10. Quando se pensa no inferno que se mereceu, sofrem-se com resignação todas as penas.

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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Rezai pela descoberta de vós próprios


Thomas Merton

Existe um ponto em que posso encontrar Deus, num contato real e experimental com a Sua infinita realidade: é aquele em que o meu ser contingente depende do Seu amor. Há em mim próprio, por assim dizer, um ponto culminante de existência em que sou mantido em vida pelo meu Criador.

Deus pronuncia-me como uma palavra que contém uma parcela do Seu pensamento. Uma palavra nunca é capaz de conceber a voz que a pronuncia. Mas se estou em conformidade com o conceito que Deus pronuncia em mim, se estou em conformidade com o pensamento d'Ele que era meu destino encarnar, estarei cheio da Sua realidade, encontrá-Lo-ei por toda a parte em mim próprio e não me encontrarei em qualquer outra parte. Estarei perdido n'Ele.

Quem, dentre vós, é capaz de reentrar em si próprio e aí encontrar o Deus que o pronuncia?

Se, como os místicos orientais, conseguirdes esvaziar o vosso espírito de qualquer pensamento e de qualquer desejo, podereis, na verdade, isolar-vos no centro de vós próprios e concentrar tudo o que existe em vós no ponto imaginário em que a vossa vida jorra de Deus, mas, no entanto, não encontrareis Deus. Nenhuma prática ou exercício natural pode levar-vos a um contato vital com Ele. A menos que Ele não se exprima em vós, que Ele não pronuncie o Seu próprio nome no centro da vossa alma, não O conhecereis melhor do que um seixo conhece o solo em que, na sua inércia, repousa.

A nossa descoberta de Deus é, dalgum modo, a descoberta que Deus faz de nós. Não podemos ir procurá-Lo ao céu, porque não temos qualquer meio de saber onde está o céu e o que é. Ele é que desce do céu e é Quem nos encontra. Olha-nos das profundezas da Sua infinita realidade, que está em toda a parte, e o fato de Ele nos ver confere-nos uma realidade superior, na qual também nós, por nossa vez, O descobrimos. Só O conhecemos na medida em que Ele nos conhece, e contemplá-Lo é participar na Sua contemplação d'Ele Próprio.

É no instante em que Deus se descobre em nós que nós nos tornamos contemplativos. Nesse momento, revela-se-nos o nosso ponto de contato com Ele, atravessamos o centro da nossa alma e entramos na eternidade.

É exato Deus conhecer-Se em todas as coisas que existem. Vê-las e é porque Ele as vê que elas existem. É porque ele as ama, que elas são boas. O amor que nelas põe é que faz a sua bondade intrínseca. O valor que Ele vê nelas é que faz o seu valor. É na medida em que Ele as vê e as ama que todas as coisas O refletem.

Mas, embora Deus esteja presente em todas as coisas pelo Seu conhecimento, o Seu amor, o Seu poder e o Seu interesse por elas, elas não têm d'Ele, necessariamente, consciência e conhecimento. Não é conhecido e amado senão por aquelas que generosamente admitiu a partilhar o Seu próprio conhecimento e o Seu próprio amor.

Para O conhecer e O amar tal como é, torna-se necessário que Deus habite em nós de uma nova e especial maneira. Assim Deus ajuda-nos, por missões sobrenaturais da Sua própria vida, a vencer as distâncias infinitas que O separam dos espíritos criados para O amar. O Pai, que habita no mais íntimo de todas as coisas e no mais íntimo de mim próprio, comunica-me o Seu Verbo e o Seu Espírito e, nessas missões, eu sou arrebatado para a Sua própria vida e conheço Deus no Seu próprio Amor.

A descoberta que faço da minha identidade começa nessas missões e nelas se completa, visto ser por elas que Ele Próprio, Deus, trazendo em Si Mesmo o segredo de quem eu sou, começa a viver em mim, não somente como meu Criador mas como um outro verdadeiro eu. Vivo, iam non ego, vivit vero in me Christus.

Essas missões começam no Batismo. Mas não assumem qualquer significação prática na vida das nossas faculdades até nos tornarmos capazes de atos de amor consciente. Daí por diante é que a presença particular de Deus em nós depende inteiramente das nossas próprias preferências. Daí por diante, a nossa vida torna-se uma série de opções entre a ficção do nosso falso eu, que alimentamos com as ilusões da paixão e dos apetites egoístas, e a nossa verdadeira identidade na paz de Deus.

Enquanto existo na terra, o meu espírito e a minha vontade permanecem mais ou menos impenetráveis às missões do Verbo de Deus e do Seu Espírito. Não recebo facilmente a Sua luz.

Cada manifestação dos meus apetites naturais, mesmo se a minha natureza é boa em si, tende, duma maneira ou doutra, a manter viva em mim a ilusão que contraria a realidade de Deus vivendo em mim. Os meus atos naturais, mesmo quando são bons, têm uma tendência quando apenas naturais, a concentrar as minhas faculdades sobre o homem que eu não sou, que não posso ser, o falso eu que há em mim, a personagem que Deus não conhece. É porque nasci no egoísmo. Nasci egocentrado, E é isto o pecado original.

Mesmo quando me esforço por agradar a Deus, tendo a agradar à minha própria ambição, Sua inimiga. Pode haver imperfeição mesmo no ardente amor duma grande perfeição, mesmo no desejo da virtude e da santidade. O próprio desejo da contemplação  pode ser impuro, quando esquecemos que a verdadeira contemplação significa a destruição completa de todo o egoísmo e a mais pura pobreza e limpidez de coração.

Embora Deus viva nas almas de homens que não têm consciência d'Ele, como posso dizer que O encontrei e me encontrei n'Ele, se não O conhecer nunca, se jamais pensar n'Ele, se não me interessar por Ele, não O procurar ou não desejar a Sua presença na minha alma? Para que serve dirigir-lhe algumas orações simplesmente formais, voltar-me depois para o outro lado, e dar todo o meu espírito e toda a minha vontade às criaturas, só me preocupando com objetivos muito afastados d'Ele?Mesmo quando a minha alma pudesse estar isenta de culpa, se o meu espírito não pertence a Deus, então também eu não Lhe pertenço. Se os meus desejos, em lugar de caminharem até Ele, se dispersam na Sua Criação, é porque reduzi a Sua vida em mim ao nível de uma formalidade, não permitindo que sobre mim exerça uma ação verdadeiramente vital.

Desculpai a minha alma, ó meu Deus, mas enchei também a minha vontade com o fogo das vossas fontes. Resplandecei no meu espírito, se bem que, talvez, isto signifique "sede trevas para a minha experiência", mas enchei o meu coração da Vossa Vida prodigiosa. Que os meus olhos só vejam no mundo a Vossa glória e que as minhas mãos não toquem nada que não seja para Vosso serviço. Que a minha língua só conheça o sabor do pão que me fortifique para Vos glorificar. Cantando os Vossos hinos, ouvirei a Vossa voz e todas as harmonias que Vós criastes. A lã da ovelha e o algodão dos campos dar-me-ão calor suficiente para que possa viver ao Vosso serviço; darei o resto aos Vossos pobres. Que me utilize de todas as coisas pelo único motivo de encontrar a minha alegria em glorificar-Vos magnificamente.

Antes de tudo, portanto, preservai-me do pecado. Livrai-me da morte do pecado mortal que põe o inferno na minha alma. Preservai-me do crime da concupiscência, que cega e envenena o meu coração. Preservai-me dos pecados que vão consumindo a carne do homem com um fogo irresistível, até o devorarem. Preservai-me do amor do dinheiro, que contém o ódio, da avareza e da ambição, que asfixiam a minha vida. Livrai-me das inúteis tarefas da vaidade, e do labor estéril em que os artistas se gastam a si próprios por orgulho, dinheiro e fama, e em que os homens piedosos são esmagados sob a avalanche de seu próprio e importuno zelo. Tratai, em mim, a fétida chaga da cobiça e os apetites que sangram a minha natureza até ao esgotamento. Esmagai a serpente da inveja que inflige ao amor a sua venenosa mordedura e que mata toda a alegria.

Soltai as minhas mãos e libertai o meu coração da sua indolência. Libertai-me da preguiça que se agita mascarada de atividade, quando não é atividade que se me pede, e da covardia que realiza o que não se exige com o fim de evitar um sacrifício.

Dai-me, porém, a força que se aplica a servir-Vos em paz e em silêncio. Dai-me a humildade em que reside a única possibilidade de repouso, e livrai-me do orgulho, que é o mais pesado dos fardos. Penetrai todo o meu coração, toda a minha alma, da simplicidade do amor. Enchei toda a minha vida só com o pensamento e com o desejo do amor; que me seja permitido amar não por amor do mérito, não por amor da perfeição, não por amor da virtude, não por amor da santidade, mas só por Deus.

Porque há uma só coisa que pode satisfazer o amor e recompensá-lo: Deus somente.

Eis, portanto, o que significa procurar Deus perfeitamente: desviar-me da ilusão e do prazer, das inquietações e dos desejos deste mundo, das obras de que Deus não necessita, de uma glória que mais não é do que humana vanglória; conservar o meu espírito liberto de qualquer perturbação, a fim de que a minha liberdade esteja sempre à disposição da Sua vontade; manter silêncio no meu coração e escutar a voz de Deus; cultivar a liberdade intelectual de afastar da minha inteligência, conceitos e imagens das criaturas, a fim de, na fé, sentir o contato secreto de Deus; amar todos os homens como a mim mesmo; repousar na humildade e encontrar a paz afastando-me das lutas e das rivalidades; manter-me à distância das discussões e livrar-me do pesado fardo dos juízos, da censura e da crítica, e de toda a carga de opiniões que não tenho qualquer obrigação de transportar; ter uma vontade que esteja sempre pronta a dobrar-se sobre si própria e a concentrar no mais profundo de si todas as forças da alma, para aguardar em silenciosa expectativa a vinda de Deus, permanecendo em suspenso, numa concentração tranquila e sem esforço, sob o pensamento de quedependo d'Ele em tudo; reunir tudo o que tenho e tudo o que sou capaz de suportar, de fazer ou de ser, e dar tudo isso a Deus, na submissão de um amor perfeito, de uma fé cega, de uma confiança sincera, para cumprir a Sua vontade.

E, depois, esperar, na paz, o abandono e o olvido de todas as coisas.

Thomas Merton, Sementes de Contemplação

http://amorepobreza.blogspot.com.br/2011/12/rezai-pela-descoberta-de-vos-proprios.html

Uma experiência da transfiguração no hesicasmo



- Meu amigo, estamos ambos neste momento no Espírito de Deus [...] Por que não queres olhar para mim?

- Não posso olhar para vós, meu Pai, porque vossos olhos projetam clarões; vosso rosto se tornou mais brilhante que o sol e sinto dor nos olhos em vos olhar.

- Não tenhas medo de nada. Neste momento te tornaste tão claro como eu. Também estás agora na plenitude do Espírito de Deus; de outra maneira, não poderias ver-me como me vês.

E, inclinado para mim, ele me disse baixinho ao ouvido:

- Dá graças ao Senhor Deus por sua bondade infinita para conosco. Como observaste, nem mesmo fiz o sinal da cruz; bastou apenas que eu orasse a Deus em pensamento, no meu coração, dizendo interiormente: Senhor, torna-o digno de ver claramente com seus olhos corporais esta descida de teu Espírito, que proporcionas a teus servos, quando te dignas aparecer-lhes na luz magnífica de tua glória. E como podes ver, meu amigo, o Senhor atendeu imediatamente esta oração do humilde Serafim [...] Como devemos ser reconhecidos a Deus por este dom inefável concedido a nós dois! Mesmo os pais do deserto nem sempre tiveram tais manifestações de sua bondade. É que a graça de Deus - como uma mãe cheia de ternura para com seus filhos - dignou-se consolar vosso coração aflito, pela intercessão da própria Mãe de Deus [...] Por que, então, meu amigo, não queres olhar-me direto na face? Olha francamente, sem medo: o Senhor está conosco [...].

Encorajado com estas palavras, olhei e fui tomado de um terror piedoso. Imaginem vocês a face do homem que lhes fala, no meio do sol, no brilho de seus raios escaldantes do meio-dia. Vocês podem ver o movimento de seus lábios, a expressão mutante de seus olhos, podem ouvir sua voz e sentir suas mãos pousarem sobre os ombros de vocês, mas não vêem nem suas mãos, nem o corpo de seu interlocutor - nada além da luz resplandescente que se propaga longe, a algumas toesas ao redor, iluminando com seu brilho o prado coberto de neve e os flocos brancos que não param de cair [...].

E o Padre Serafim me perguntou:

- O que é que sentes?

- Um bem-estar infinito, respondi.

- Mas que tipo de bem-estar? Em que precisamente?

- Sinto uma tal tranquilidade, uma tal paz na minha alma, que não encontro palavras para me exprimir.

- É, meu amigo, a paz da qual falava o Senhor quando disse a seus discípulos: "Eu vos dou a minha paz"; a paz que o mundo não pode dar [...]; "a paz que ultrapassa toda compreensão". O que sentes ainda? 

- Uma alegria infinita no meu coração.

E o Padre Serafim continuou:

- Quando o Espírito de Deus desce sobre o ser humano e o envolve na plenitude de sua presença, então a alma transborda de uma alegria indizível, pois o Espírito Santo cumula de alegria todas as coisas que Ele toca [...] Se as primícias da alegria futura já enchem a nossa alma de uma tal doçura, de uma tal felicidade, que diremos da alegria que espera no Reino celeste todos aqueles que choram aqui na terra? Também tu, meu amigo, também tu choraste no curso de nossa vida terrestre, mas verás a alegria que o Senhor te envia para te consolar desde aqui na terra.

Então esta alegria que sentimos neste momento, parcial e breve, aparecerá em toda a sua plenitude, cumulando nosso ser de delícias inefáveis que ninguém poderá arrebatar-nos.

Colóquios de São Serafim In: Escritos sobre o hesicasmo, uma tradição contemplativa esquecida. 3ª ed. Petrópolis: Vozes, 2011. p.116-118.

http://amorepobreza.blogspot.com.br/2014/06/uma-experiencia-da-transfiguracao-no.html

O Hesicasmo


O Hesicasmo é uma tradição mística antiga, que oferece métodos comprovados pelo tempo para desprendermo-nos do ego e experimentar estados transcendentes de consciência. Esta tradição não se limita a monges reclusos. Qualquer um pode ser um hesicasta. João Crisóstomo escreveu: "Mesmo um homem que vive dentro de uma cidade pode imitar a vida de monges. Na verdade, até mesmo um homem que tem uma esposa, e que é ocupado com as demandas de sua casa, pode orar, jejuar, e aprender contrição....Vamos cultivar o auto-domínio e todas as outras virtudes, e vamos trazer em nossas cidades o modo de vida que é procurado nos desertos."



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A virtude da temperança