sexta-feira, 11 de outubro de 2019

A Liberdade em São João da Cruz

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Para montarmos o quebra-cabeça afim de apresentar o pensamento de São João da Cruz a respeito da liberdade precisamos encaixar corretamente três peças essências: apetites (apegos), noite escura, união com Deus. Para João da Cruz o horizonte último do ser humano é essa união com Deus, que no Livro Chama Viva de Amor ganha expressões tão forte como “transformação da alma em Deus”. Importante salientar, desde o começo, que o artífice que permite e dinamiza essa união é o amor. A pessoa inicia esse processo, quando “inflamada de amor” se destina a buscar essa união, é próprio do amor buscar a união.
            Aqui emerge uma pergunta bem concreta: como posso fazer para chegar a essa divina união? Emerge aqui a extensa doutrina do Doutor Místico sobre a noite escura. A noite escura é um processo de libertação da pessoa para chegar a essa divina união. É, portanto, um processo purificador, onde se cura duas dimensões do ser humano, sua dimensão sensitiva (sentidos) e a espiritual. Assim, podemos compreender a noite como um presente de Deus, uma ação da graça de Deus, que visa libertar a pessoa da desordem de seus apetites.
            No pensamento sanjuanista os apetites são os apegos ou desejos ou adiciones. Eles são constitutivos do ser humano (desejar), porém em um estado desordenado nos impedem de ser verdadeiramente livres. O que propõem João da Cruz é a educação ao desejo, daí suas máximas: “não ao mais fácil, senão ao mais difícil. Não ao mais saboroso, senão ao mais insípido. Não ao mais agradável, senão ao mais desagradável…”. Nesse sentido se torna mais compreensível a negação em São João da Cruz. O caminho do nada é um caminho pedagógico e historicamente limitado e relativo. É um caminho de educação da vontade, buscando o desapego.
          O desapego não está em ter ou não ter as coisas. O problema está no “apego”, que poderíamos traduzir como “amor de propriedade”. O apego é manifestação do nosso egoísmo que retém para si. Nesse sentido João da Cruz associa os nossos apegos aos falsos deuses, eles eclipsam o lugar do Deus verdadeiro, por isso precisam ser “hechados fuera”. A liberdade que provém desse processo é a condição necessária para alcançarmos a divina união com Deus.
https://secularescontemplativos.wordpress.com/2019/09/29/a-liberdade-em-sao-joao-da-cruz/

Lições do silêncio




Uma pergunta simples, mas inquietante: o que aprendi com o silêncio? Não é plenamente comunicável vivências tão profundas e secretas como a que realizei permanecendo um ano em silêncio… Nem sempre encontramos palavras adequadas para se referir a vida interior. No entanto, permitam-me balbuciar algumas palavras, mesmo que às vezes pareçam enigmáticas, são a tentativa de expressar um pouco aquilo que aprendi nessa experiência eremítica

Aprendi a…

A contemplar ir além da aparência, chegando na essência de cada coisa criada e desde ali estabelecer uma relação de comunhão.

Que minhas mãos vazias não são apenas sinais de minha pobreza, mas é a condição necessária para acolher a plenitude que vem de Deus.

Quando a mente não está cerceada por uma série de informações e barulhos emerge com mais nitidez sua capacidade criativa.

O sentinela é o primeiro que contempla o novo amanhecer, nem todos vêem o que ele vê, mas nem por isso dúvida do que seus olhos contemplam. Ele é o primeiro a contemplar a luz do novo dia.

Somos mais nós mesmos à medida que não reagimos impulsivamente aos estímulos alheios. Silenciar, meditar, acolher, agir… Esse parece ser o itinerário para uma vida autêntica.

Os pensamentos nos lançam em um passado já consumado ou em um futuro ainda por vir. Nosso empenho é de estar todo inteiro no momento presente.

Nada que seja profundo e durador acontece de forma imediata. Estabelecer processos e valorizar cada fase da vida parece ser essencial.

Individualizar as pessoas e todos os seres criados. Cada ser é único, singular, irrepetível, por a nossa relação com todos os seres deve levar em consideração essa verdade.

Não escravizar o outro aos meus sentimentos. O princípio básico do amor é a liberdade, tanto quem ama como quem é amado, precisa manter a sua liberdade.

Tomar conhecimento de uma Presença que plenifica para descobrir a realidade última e transcendente da existência.

Retornar sempre ao meu centro mais profundo, mesmo em meio as diversas atividades, não dispersar a mente e o coração, mantendo-o unificado.

A virtude da temperança