terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

10 Máximas de Santo Afonso de Ligório


1. É nas doenças que se vê quem tem virtude.

2. Antes perder tudo, que perder a Deus.

3. Perturbar-se com as faltas cometidas não é humildade, mas orgulho.

4. Só somos o que somos diante de Deus.

5. Sempre o demônio anda à caça dos ociosos.

6. Desgraçado de quem ama mais a saúde que a santidade!

7. Os curiosos são sempre dissipados

8. Os santos falam sempre de Deus; sempre dizem mal de si próprios, e sempre bem dos outros.

9. A quem procura ser estimado, estima Deus pouco.

10. Quando se pensa no inferno que se mereceu, sofrem-se com resignação todas as penas.

Fonte: Ad Majorem Dei Gloriam.

Do humilde sentir de si mesmo

Não há melhor e mais útil estudo que se conhecer perfeitamente e desprezar-se a si mesmo. Ter-se por nada e pensar sempre bem e favoravelmente dos outros, prova é de grande sabedoria e perfeição


Tomás de Kempis (*): Todo homem tem desejo natural de saber; mas que aproveitará a ciência, sem o temor de Deus? Melhor é, por certo, o humilde camponês que serve a Deus, do que o filósofo soberbo que observa o curso dos astros, mas se descuida de si mesmo. Aquele que se conhece bem se despreza e não se compraz em humanos louvores.
Se eu soubesse quanto há no mundo, porém me faltasse a caridade, de que me serviria isso perante Deus, que me há de julgar segundo minhas obras?
Renuncia ao desordenado desejo de saber, porque nele há muita distração e ilusão. Os letrados gostam de ser vistos e tidos por sábios. Muitas coisas há cujo conhecimento pouco ou nada aproveita à alma. E mui insensato é quem de outras coisas se ocupa e não das que tocam à sua salvação. As muitas palavras não satisfazem à alma, mas uma palavra boa refrigera o espírito e uma consciência pura inspira grande confiança em Deus.
Quanto mais e melhor souberes, tanto mais rigorosamente serás julgado, se com isso não viveres mais santamente. Não te desvaneças, pois, com qualquer arte ou conhecimento que recebeste. Se te parece que sabes e entendes bem muitas coisas, lembra-te que é muito mais o que ignoras. Não te presumas de alta sabedoria (Rom 11,20); antes, confessa a tua ignorância. Como tu queres a alguém te preferir, quando se acham muitos mais doutos do que tu e mais versados na lei? Se queres saber e aprender coisa útil, deseja ser desconhecido e tido por nada.
Não há melhor e mais útil estudo que se conhecer perfeitamente e desprezar-se a si mesmo. Ter-se por nada e pensar sempre bem e favoravelmente dos outros, prova é de grande sabedoria e perfeição. Ainda quando vejas alguém pecar publicamente ou cometer faltas graves, nem por isso te deves julgar melhor, pois não sabes quanto tempo poderás perseverar no bem. Nós todos somos fracos, mas a ninguém deves considerar mais fraco que a ti mesmo.
(*) Do livro “Imitação de Cristo”.

O SILÊNCIO DE MARIA

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Quando falamos da disciplina do silêncio automaticamente somos confrontados com o grande desafio que é encarar nosso cotidiano extremamente barulhento e de ritmo cada vez mais frenético. Surgem-nos perguntas tais como: “Como encontrar tempo para praticar o silêncio?”; “Não seria o silêncio uma prática exclusivamente monástica, ou seja, para pessoas com um chamado específico para viverem em clausura?”; “Estar em silêncio só é possível num ambiente com total ausência de ruídos e distrações?” e etc.
Dúvidas assim que tendem a nos intimidar e às vezes até desanimar, surgem do fato de que encaramos o silêncio apenas na sua dimensão exterior. De modo que praticar o silêncio só é visto como a separação de tempo e lugar em que paramos, nos acalmamos e adentramos num estado meditativo de quietude e interiorização. Não restam dúvidas de que o silêncio tem este lado prático e devocional. No entanto, o que poderíamos dizer daqueles que não têm muito tempo ou não dispõem de oportunidades frequentes para experimentarem períodos (horas, dias, semanas, meses) de prática silenciosa, em solitude e tendo uma Bíblia aberta diante de si?
Apesar de acreditar que devemos lutar firmemente para abrirmos brechas em nossas agendas diárias para encontrarmo-nos com o Senhor em solitude, silêncio, meditação, oração e contemplação (Lectio Divina), jamais devemos nos esquecer de que o silêncio possui outra “face da moeda” que muitos de nós amantes da espiritualidade e mística cristãs acabamos por negligenciar, seja por desconhecimento ou esquecimento da mesma.
A tradição monástica, por mais surpreendente que possa parecer, ajuda-nos nesse sentido quando fala daquilo que poderíamos chamar de vida silenciosa, onde o silêncio, mais do que um momento de se colocar num lugar desprovido de barulhos, é considerado como uma atitude interior de recolhimento constante. Um voltar-se contínuo para o nosso centro divino, nosso “eu” interior, o santuário interno de nossa alma, em outras palavras, uma atitude de contínua atenção à Presença do Deus que nos habita através do Seu Espírito e que sempre está falando com cada um de nós. Os monges em seus escritos sempre tocam no assunto de se permanecer numa “cela” interior em meditação e oração incessantes mesmo durante as atividades do dia-a-dia (“Ora et Labora”).
Acerca dessa atitude de recolhimento interior silencioso, Anselm Grun escreve: “O silêncio é a atitude interior em que eu me abro para esta realidade do Deus que me envolve. Portanto ela é mais do que o não-falar” (As Exigências do Silêncio, págs.69,70). Por esse prisma o silêncio não é visto como uma realidade em conflito com as atividades do cotidiano, mas, como um espaço mais profundo no qual elas acontecem e do qual emergem e lhes empresta significado espiritual. Aqui silêncio é estar em atitude interior de recolhimento e atenção à presença de Deus que nos envolve por todos os lados enquanto cozinhamos, varremos o chão,  pegamos o ônibus para o trabalho, sentamo-nos em frente ao computador no nosso escritório e etc. Silêncio é estar em perpétua atitude de escuta para Deus.
Maria, mãe de nosso Senhor Jesus Cristo, nos é apresentada nas páginas dos evangelhos como mulher de vida silenciosa, em constante atitude meditativa de recolhimento interior em meio aos acontecimentos do cotidiano (cf. Lc 2:19).  Maria é o arquétipo da mulher silenciosa, ativa-contemplativa. E temos muito que aprender ao observar seu exemplo como alguém cuja vida de silêncio interior lhe permitiu acolher o mistério do Verbo de Deus segundo nos revela o evangelho.
O silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da encarnação de Cristo . No Evangelho segundo S. Lucas no capítulo 2 verso 19 lemos acerca da atitude de Maria – “Maria, porém, guardava todas essas coisas e sobre elas refletia em seu coração”. Que coisas eram essas? O contexto imediato dos versos anteriores nos revelam (cf. vs. 16-18). Maria em atitude de meditação acolheu a revelação trazida pelos pastores acerca da criança que ela acabara de dar à luz. O glorioso mistério de que o infante envolto em panos comuns, nascido pobre, deitado numa manjedoura era o próprio Senhor e Cristo encarnado para a salvação dos pecadores (Lc 2:11). O Filho de Deus vindo em carne era ele mesmo o Evangelho, as boas-novas de grande alegria para todo o povo, inclusive ela, Maria. No silêncio de seu coração Maria pode contemplar a glória de Deus cumprindo as profecias da Antiga aliança, trazendo ao mundo o Messias prometido como Luz para dissipar as trevas do pecado, trazendo paz aos homens (Lc 2:14).
O silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da Identidade de Cristo. Num outro texto Lucas menciona novamente a atitude de Maria frente à revelação do mistério divino – “Sua mãe, porém, guardava todas essas coisas em seu coração” (cf. Lc 2:51b). Que mistério foi esse que ela guardou em recolhimento interior e oração? O contexto dos versos anteriores (vs. 41-50) nos mostra que foi a revelação da identidade de Jesus com o Pai Celeste exposta nas suas próprias palavras – “Por que vocês estavam me procurando? Não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai?”(v.49). Mesmo não tendo compreendido naquele momento todas as implicações do que fora dito por seu jovem filho (v.50), Maria acolheu aquelas palavras “Jesus se diz filho do próprio Deus”. O acolhimento do mistério contido nas palavras de Jesus possibilitou no futuro Maria compreender que Jesus e o Pai eram um (cf. Jo 10:30; 14:9,10) e que como seu Senhor e Mestre ele não lhe devia mais obediência (Jo 2:3,4) e sim que deveria ser obedecido em tudo (Jo 2:5). No silencio interior do coração Maria intuiu que aquele judeu pré-adolescente não era só o filho do carpinteiro José, seu marido, mas antes de tudo o Unigênito do Pai.
E o silêncio de Maria lhe permitiu acolher o mistério da paixão de Cristo. Apesar de não encontramos a mesma fórmula dos pontos anteriores que nos falam de Maria guardando palavras e acontecimentos no coração em atitude de meditação, não podemos desprezar a presença dessa mesma atitude perante a crucificação – “Perto da cruz de Jesus estavam sua mãe, a irmã dela, Maria mulher de Clopas, e Maria Madalena” (Jo 19:25). Maria diante do corpo pregado na cruz não diz nada. Chora apenas. E contempla a Graça e o amor redentor de Deus sendo levado até as últimas consequências por cada um de nós, inclusive por ela mesma. No silêncio de seu coração contemplativo ela descobre aos pés da cruz que naquela paixão divina havia substituição (cf. Mt 27:46), havia perdão (cf. Lc 23:34) e havia redenção (cf. Jo 19:30).
O silêncio de Maria não era um silêncio alienado, desatento e inútil. Pelo contrário, era atento e profícuo. Não vemos Maria investindo grandes somas de tempo para a realização de retiros silenciosos e meditativos. Pelo menos as Escrituras não nos relatam nada a esse respeito. Ao passo que nos mostra uma mulher comum que vivia as nuances da vida cotidiana numa dimensão espiritual. E isso lhe era possível porque ela guardava todas as coisas meditando-as no seu coração.
Essa atitude interior silenciosa lhe permitiu acolher os grandes mistérios do advento, da encarnação e da paixão, bem como a apreensão do Sagrado que lhe era oferecido por detrás dos eventos ordinários de um dia (inclusive no bronquear com o filho de 12 anos que desaparece do nada!).
Que possamos seguir seu exemplo. Que nos esforcemos para cultivar momentos silenciosos devocionais para meditarmos e orarmos. Que o silêncio desses momentos nos acompanhe no decorrer do dia à medida que em meio às múltiplas atividades de nosso viver nos voltemos para nosso interior silencioso onde o Pai, o Filho e o Espírito Santo, o Deus Eterno e Triúno, nos aguarda para que continuemos a desfrutar de íntima comunhão.
Se fizermos assim como Maria cada simples atividade será meditação; cada simples acontecimento oração; cada simples pensamento contemplação.

Que Deus nos abençoe!
Vosso servo e irmão menor,
Felipe Maia, OESI/OFSE
Paz e bem.
https://vidacontemplativa.wordpress.com/2016/09/24/o-silencio-de-maria/#comment-754

O CAMINHO MÍSTICO DO DESAPEGO DAS COISAS

O caminho místico da contemplação é descrito por S. João da Cruz como uma “noite escura da alma”. Até que a alma atinja a iluminação, ou seja, a união perfeita com Deus é-lhe necessário passar por densas trevas de escuridão sensitiva e espiritual. Tal experiência, segundo o místico espanhol carmelita, recebe o nome de noite escura pelo fato de que a luz divina, que refulge e alumia no fogo da contemplação, é maior e mais perfeita do que toda e qualquer outra luz existente na alma, sejam elas de ordem sensível ou espiritual, de tal forma que as mesmas se convertem em densas trevas como as da noite.
Na “Noite Escura da Alma”  João da Cruz descreve três tipos de noite que precedem a experiência mística da união com Deus. Em primeiro lugar temos a “noite dos sentidos” onde toda satisfação e deleite com realidades desse mundo são eclipsadas na alma que ruma ao cume da contemplação mística. A segunda noite é a “noite do espírito  na qual a alma fica sem qualquer alegria acerca das realidades espirituais afim de que apenas a fé pura e simples lhe seja de guia rumo à união com Deus. A terceira noite é a “alvorada” quando as coisas começam a “iluminar” contudo, ainda não se podem comparar com a iluminação divina que a alma alcança na contemplação.
O que S. João da Cruz na verdade nos propõe são estágios de purificação que alma deve atravessar até que a mesma, livre de todo apego tanto das realidade sensíveis como das do espírito, possa descansar no seio de Abraão em estado de perfeita comunhão. Gostaria de nessa oportunidade focar a atenção na primeira fase descrita pelo místico: a “noite dos sentidos” que aqui denominaremos de o caminho místico do desapego das coisas, pois, é isso o que ela exatamente é: uma experiência de desapego das coisas materiais.
OS APETITES E O AMOR PELAS COISAS
Para S. João da Cruz o grande inimigo a ser vencido se chama “apetites” que nada mais são do que os impulsos e desejos desordenados que existem dentro de nós.  Segundo o mestre da vida espiritual aqueles que se entregam ao vício dos apetitos das coisas deste mundo trilham um caminho de imperfeição, visto que o caminho de Deus é infinitamente perfeito. Toda a imperfeição dos apetites sensitivos está exatamente no amor que se devota às coisas terrenas que são imperfeitas, levando desta forma a alma que nelas coloca todo seu afeto a tornar-se igualmente imperfeita, visto que nos igualamos ao objeto do nosso amor.  Ao passo que o desapego das mesmas faz com que foquemos nosso amor em Deus e assim na união mística, tornamo-nos iguais a Ele, objeto de nossas “ânsias inflamadas”.
Assim, nesse desapego de todas as coisas nossos sentidos naturais ficam em escuridão, em trevas, precisando de uma luz que os guie. Esse constitui no primeiro passo para entrar nessa “noite dos sentidos”.
A GLÓRIA DE CRISTO
João da Cruz também nos instrui que para adentramos ruma a essa primeira noite necessitamos abdicar dos prazeres que os sentidos possam nos proporcionar por amor a glória de Cristo. O que o místico esperava é que seus leitores desenvolvessem um olhar crítico em relação às coisas que eles faziam no dia-a-dia. 
Desta forma segundo ele se você percebe que algum tipo de conversação não vai glorificar a Cristo, não ouça. Se a sua fala vai ser fora de hora, não fale então. E o mesmo se aplica a todos os outros sentidos naturais. Aqui fica evidente que apenas com um grande desapego por parte da alma é que esse tipo de renúncia torna-se possível.
A NOITE DOS SENTIDOS E A ESPIRITUALIDADE DE HOJE
 É impossível precisar a necessidade do ensino e da visão de João da Cruz para a espiritualidade dos dias de hoje. O contato com o conteúdo da doutrina da noite dos sentidos por si só já é mais do que o suficiente para explicar o estado de coisas a que se apresenta a vida dos cristãos contemporâneos.
Percebemos, não com pouca tristeza, o quanto um grande número de cristãos têm se entregue aos apetites das coisas terrenas. Pessoas que dizem servir a Cristo, só que no entanto, suas vidas estão pesadas por conta dos cuidados deste mundo. Diante da fé cristã que foi transformada numa vã filosofia materialista, precisamos recorrer novamente à fonte mística do ensino de João da Cruz  e bebermos de suas águas profundas. Muitos se perguntam porque a vida cristã nestes dias se encontra tão superficial, epidérmica e sem conteúdo relevante. Jesus certa feita declarou que onde estivesse o tesouro do homem, lá estaria também o seu coração. O homem contemporâneo vive uma espiritualidade superficial porquanto as águas onde tem dado de beber a seu próprio coração são igualmente rasas. A  vida espiritual do homem pós-moderno tronou-se sem viço exatamente porque igualou-se ao objeto de seu amor: as coisas desse mundo que não tem vida em si mesmas, porquanto são perecíveis e efêmeras. Falta profundidade porque falta fome e sede de Deus. Conforme o místico, aquelas ditas “ânsias inflamadas” de puro desejo ardente pela união com Cristo.
Assim as pessoas continuam correndo atrás do vento. Seus olhos nunca se saciam de ver e nem os ouvidos de ouvir. Buscam poder, prosperidade, fama e coisas dessa natureza. No entanto a sentença divina permanece: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!”
Sem dúvidas o retorno ao ensino sanjoanino também  auxiliará na quebra da  visão antropocêntrica e egocêntrica que tem permeado a comunidade dos salvos nesses últimos tempos. Viver a vida em, com e para Cristo buscando em tudo – seja no comer, beber, vestir, falar etc. – glorificar Seu bendito nome. Ao invés de satisfazer-nos a nós mesmos, como hoje se vê em peso nas igrejas, o deleite a que se deverá procurar é o prazer do sorriso oculto de Deus na face de Cristo Senhor. O foco já não estará mais no homem nem em suas necessidades e/ou expectativas, mas, sobretudo na celebração dos mistérios de Deus em meio ao Seu povo. Oh! Como precisamos atender ao chamado do humilde frei e retornarmos para a abordagem de um evangelho simples e ao mesmo tempo profundo na sua capacidade de nos transformar mediante nossa união com Deus. 
Como precisamos nos dias de hoje de uma fé cristã espiritual, mística. Uma espiritualidade do seguimento de Jesus que nos torne, verdadeiramente,  discípulos semelhantes a ele. Uma vida espiritual desapegada às coisas do mundo e ao mesmo tempo com seus apetites carnais mortificados e os desejos espirituais plenamente vivificados. 
Precisamos, uma vez mais, adentramos na noite escura onde tudo o mais, em que antes nos apegávamos, perde o seu sentido, perde a sua “luz”, quando diante da luz de Deus que brilha intensamente e perfeitamente, em chamas flamejantes de amorosa união mística.

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SANTUÁRIO DA ALMA

“O Senhor, porém, está em seu santo templo; diante dele fique em silêncio toda terra” (Hc 2.20)
O texto em referência acima pode ser compreendido de duas maneiras: uma literal e outra em forma de aplicação alegórica. A primeira diz respeito à historicidade de Israel enquanto povo da aliança com Javé. Quando da construção do templo e sua consagração por Salomão Deus havia prometido que ali habitaria. E de fato era o que acontecia, pois, a presença física de Deus, sua nuvem luminosa de glória manifestava-se no local mais restrito do templo, o Santo dos Santos, onde somente o sumo sacerdote uma vez por ano poderia entrar.
Qualquer judeu devoto, para ter um encontro com Deus, teria que se encaminhar até o templo no horário certo, com a oferta e ou sacrifício certo, para ali oferece-lo em adoração. Desta forma, quando em Habacuque lemos essa declaração é exatamente isso que ela queria dizer: que Deus estava literalmente presente numa manifestação física visível e audível naquele lugar feito de tijolos, madeira, ouro e prata. Este é sentido direto e exegético do verso referendado.
Dito isso, também devemos considerar seu sentido aplicativo e alegórico para a vida do cristão. No livro de Atos no Novo Testamento o apóstolo Paulo faz uma declaração bombástica no que concerne a toda a espiritualidade Vetero Testamentária acerca da presença de Deus. O apóstolo afirma no seu discurso aos atenienses no areópago, que Deus não habita em templos feitos por homens. Esta revelação toma corpo de doutrina quando em Coríntios o mesmo Paulo lembra seus leitores de que cada um deles, enquanto indivíduos nascidos de novo em Cristo, são agora santuários do Espírito Santo. Da mesma forma que o Deus que habitou em um templo feito por mãos humanas, agora ele passara a morar em um feito por suas próprias mãos: o corpo de cada crente em Jesus Cristo.
Sendo assim, podemos entender e aplicar o texto de Habacuque como uma alegoria da experiência cristã descrita no Novo Testamento a qual nos referimos acima.
VOLTANDO-NOS PARA O CENTRO
Deus habita no corpo físico de seus servos. Logo, o templo, santificado pela presença do Espírito Santo, onde Deus está é a alma humana. Assim, podemos falar com propriedade de um santuário da alma. Deus agora não habita no exterior, mas, no mundo interior, nosso verdadeiro eu, o novo homem que segundo as Escrituras foi criado em Cristo “em justiça e em santidade provenientes da verdade” (Ef 4.24). Dito isso, podemos inferir a partir daí que, diferentemente da experiência da época de Habacuque, o crente hoje para um encontro com Deus não precisa mais ir a um lugar específico, seja ele qual for. Não precisamos mais buscar Deus do lado de fora. Basta nos voltarmos para dentro de nós, para o nosso interior, o que os místicos denominavam de retornar para o centro, onde Deus habita e nos fala continuamente, ininterruptamente ao coração.  É no santuário da alma, no nosso verdadeiro eu o “lugar” do nosso encontro hoje com Deus. Conforme nosso Senhor, o que nos basta é adentrarmos no nosso quarto, fechar a porta atrás de nós e colocarmo-nos perante a face daquele que nos vê e nos responde em secreto e em segredo: no segredo do santuário invisível de nossa alma.
RECOLHENDO-NOS EM SILÊNCIO
O profeta declara que o fato da presença física de Deus estar no santuário, deveria despertar tamanho assombro e temor, que levasse toda a terra a se silenciar perante essa presença. Podemos ver nesse entendimento literal a aplicação alegórica do caminho místico da oração silenciosa. Precisamos aprender, de uma vez por todas, a silenciar nosso coração se desejamos encontrar a Deus no nosso centro. O simples fato de que Deus está presente em nossa alma nos falando a partir dela continuamente, não significa que o estamos sempre escutando. A grande verdade é que dentro desse santuário inúmeras outras vozes clamam, juntamente com a voz divina, pela nossa atenção. Em muitos momentos o santuário de Deus ao invés de silencioso está ruidoso impedindo-nos  de percebe-lo. Somente quando o barulho do vento, do terremoto e do fogo cessaram é que o profeta Elias pode ter acessa àquele sussurro suave como a brisa da manhã. Necessitamos, com extrema urgência, atender a exortação divina que nos manda aquietarmo-nos  para que possamos saber que somente Ele é Deus.
ORAÇÃO SILENCIOSA
Apesar de parecer algo esquisito para nós por não fazer parte de nossa cultura cristã apressada, a prática da oração silenciosa, de quietude ou simplesmente silêncio tem forte amparo, tanto nas Escrituras quanto na tradição da igreja. É mais simples do que se pode imaginar e ao mesmo tempo muito difícil e complexa. Temendo por minha falta de experiência nesse caminho interior, utilizarei o material que encontrei no site Carmelo da Guarda, o qual passarei a transcrever as partes que achei mais necessárias para elucidar a experiência mística da contemplação através da oração silenciosa ou de quietude.
OS TRÊS SINAIS DO COMEÇO DA EXPERIÊNCIA
“Existem três sinais essenciais, de que a pessoa está a ser chamada à contemplação. A presença destes 3 sinais, assinala , sem equívocos, o início do itinerário contemplativo, místico.
  • PRIMEIRO SINAL – Nada satisfaz a alma e como consequência sente-se atirada para um infinito vazio. As coisas e tudo o que antes lhe “dizia” alguma coisa, já não dizem nada. As formosas realidades de outros tempos são tudo fonte que secou. Deus mesmo se calou: a aridez é a forma atual de sentir o fluxo das coisas e do espírito.
  • SEGUNDO SINAL – Já não se consegue fazer oração meditativa, não se consegue um pensamento, uma reflexão; os afectos que outrora enchiam o coração, são já remota lembrança; agora é a incapacidade que submerge a alma.
  • TERCEIRO SINAL – Este terceiro sinal é o mais importante, porque os outros dois sozinhos podem única e simplesmente indicar tibieza culpável da pessoa. Apesar de tudo quanto sente nos dois sinais anteriores, o orante, com o tempo vai passando neste estado, sente com certa frequência um como que “não sei o que”, uma atração quase imperceptível que o chama ao “fundo” de si mesmo, atração que é como um toque  sumamente delicado. Nesse fundo começa a notar paz, tranquilidade, confiança, ternura; deixou de ter interesse em perceber aspectos parciais e concretos da realidade divina;todo o seu olhar projeta-se inteiro na totalidade da realidade divina.
É necessário que os três sinais coexistam juntos. Neste estado, não aumentam as noções teológicas, mas surge uma nova forma de ver, sentir, conhecer e captar a misericórdia de Deus. Ao aumentar o “sentido de Deus”, a pessoa fica, cada vez mais firmemente orientada para Cristo.
Geralmente o orante entra na oração de quietude depois de um período de persistente aridez com aqueles sinais anteriores indicados, caracterizado pelo desaparecimento das consolações espirituais.
Nesta escuridão e aridez, começa a notar-se  esse “não sei o que” que é a presença amorosa de Deus. À medida que o espírito experimenta a unção desta oração, adquire uma nova experiência de Deus. Aqui exclui-se absolutamente a imposição da meditação. O mais que o orante pode fazer, neste período, é valer-se de uma expressão unitiva, para que o fogo não se apague. porque ao não poder meditar, entra na aridez…caminha cada vez mais para a oração da quietude.
AS TRÊS ETAPAS DA ORAÇÃO DE QUIETUDE
 
Este nível de oração já é união propriamente dita, se bem que imperfeita. Na chamada “Oração de Quietude” podemos distinguir 3 etapas que, percorridas todas elas, podem existir conjuntamente ou isoladamente.
1. ORAÇÃO DE RECOLHIMENTO INFUSO OU PASSIVO – Este nível de oração é a união (incipiente) da inteligência com Deus, o qual, com sua formosura e claridade infinita, atrai, embeleza e interiormente possui, cativa e conforta, enriquecendo-a com os preciosos dons de ciência, conselho e inteligência, mediante os quais a faz penetrar, como de um golpe, nesse mundo superior. Deste modo, unindo-a cada vez mais consigo, mesmo sendo só por uns breves instantes, deixa-a purificada e iluminada.
Diz-nos S. Teresa de Jesus acerca desta oração:
‘A primeira oração que senti, a meu ver, sobrenatural, é um recolhimento interior que se sente na alma”; “Não penseis que isto é adquirido pelo entendimento, procurando pensar que têm dentro de si a Deus, nem pela imaginação, imaginando-o dentro de si’.
 
A este recolhimento infuso ou passivo, costuma preceder – ou às vezes a seguir – uma viva presença de Deus também passiva com a qual a pessoa vem a experimentar em todas as partes uma certa impressão da divina imensidade. 
Ao recolhimento passivo, são associados, como fenômenos parciais ou como simples efeitos, às vezes, uma admiração deleitosa, que dilata a alma e a enche de gozo e de alegria ao descobrir em Deus tanta maravilha de amor, de bondade e de formosura; outras vezes certa suspensão ou um profundo silêncio espiritual, no qual ela fica atônita, absorta, abismada e como que humilhada perante tanta grandeza.
2. ORAÇÃO DE QUIETUDE – Assim chamada pela paz e sossego que dá ao espírito. Diz-nos S. Teresa de Jesus acerca da oração de quietude: 
“A alma está tão satisfeita nesta oração de quietude que a faculdade da vontade deve estar, quase de contínuo, unida Àquele que somente a pode satisfazer.”
Esta oração é a união da vontade com Deus que, como sumo Bem, a atrai energicamente a fim de que somente em Deus encontre o seu repouso. Por momentos – que costumam ser bem curtos – a alma encontra o seu pleno descanso, refrigério e fortaleza, a sua paz e felicidade. Os efeitos deste repouso espiritual, são um grande aumento de saúde espiritual, de paz profunda e alegria serena e grande facilidade para tudo o que é bom, saindo a alma desse repouso muito melhorada e disposta para trabalhar por Deus.
3. SONO DAS POTÊNCIAS (faculdades) –  A este grau de oração, S. teresa chama de ‘sono das potências’, isto é, bloqueamento incipieente das faculdades da alma: inteligência, memória e vontade, sobre as quais atuam as virtudes teologais da fé, esperança e caridade. É a última rampa que conduz à contemplação perfeita, de união.
No recolhimento infuso e na quietude, deus cativa a vontade, mas deixa a liberdade de pensar o que quisermos. Neste (sono das potências – acréscimo meu) Deus vai pressionando a vontade (que é a sede do verdadeiro amor) cada vez com mais força, produzindo-se efeitos de toda a ordem, no espírito e no corpo. Umas vezes sintoniza-se com o impulso divino e daí nasce uma pura alegria e a oração de louvor, outras vezes produzem-se tensões entre a parte do espírito que Deus cativa e a que fica livre, e daí resultam estados que se parecem menos com a oração do que com uma luta longa e penosa, com aspiração cada vez mais forte à união.
Diz S.Teresa que:
‘a alma está a morrer quase totalmente para todas as coisas do mundo e, em troca, está a gozar apenas de Deus’.
 Os sentidos da alma só têm capacidade para se ocuparem de Deus. Aqui se juntam uns «toques de amor» com os quais Deus a vai atraindo poderosamente, preparando-a para a verdadeira união.
As virtudes ficam mais fortes do que na passada Oração de quietude (…). Aqui, a humildade que fica na alma,  é muito maior e muito mais profunda que no passado, porque vê mais claramente que de si não faz nem pouco nem muito, a não ser consentir que o Senhor lhe fizesse mercês e as abraçasse a vontade.”
Toda essa experiência espiritual, jornada mistica,  não transcorre lá ou acolá, mas, bem aqui, dentro de cada um de nós servos e servas de Cristo. Acontece no nosso mundo interior, no santuário de nossa alma. 

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Carregar os fardos

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“ Deve-se admitir, portanto, que, se o evangelho da paz não é mais convincente quando anunciado por cristãos, isso bem pode ser por eles terem deixado de dar um exemplo vivo de paz, unidade e amor. Na verdade, temos que compreender que a Igreja nunca pretendeu ser absolutamente perfeita na terra, e que ela é Igreja de pecadores, carregada de imperfeições. A paz cristã e a caridade cristã estão baseadas nessa necessidade de ‘carregar os fardos uns dos outros’, de aceitar as fraquezas que infestam a nossa e a vida dos outros. Nossa unidade é uma luta contra a desunião, e a nossa paz subsiste no meio do conflito.”


Peace in the Post-Christian Era, de Thomas Merton
Editado por Patricia A. Burton. Apresentação de Jim Forest.
(Orbis Books, Maryknoll, New York), 2004. p. 129

sábado, 25 de fevereiro de 2017

A Perfeita Pobreza Interior por S. João da Cruz

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"Cuide de conservar o espírito de pobreza e desprezo de tudo; de outra forma, saiba V. Rev. que cairão em mil necessidades espirituais e temporais. Todas hão de contentar-se com Deus somente. Saibam que só haverão de provar e padecer as necessidades a que sujeitarem o coração: o pobre de espírito, vendo-se à míngua, está mais contente e alegre, porque pôs seu tudo em nada, em coisa alguma; e assim em tudo ele encontra largueza de coração. Feliz é esse nada, feliz esse esconderijo do coração: tem tanto poder que a tudo domina, sem nada querer sujeitar a si próprio e desfazendo-se de preocupações para poder arder em maior amor. As irmãs aproveitem-se dessas primícias de espírito que Deus concede nesse início, para retomar com muita renovação o caminho da perfeição em total humildade e desapego, interior e exterior, não com ânimo pueril, mas com vontade robusta. Sigam a mortificação e a penitência, querendo que Cristo lhes custe algo, e não sendo como os que buscam, em Deus, ou fora dele, seu próprio conforto e sossego; procurem o padecer em Deus e fora dele, por seu amor, no silêncio, na esperança e na lembrança amorosa..."

S. João da Cruz em Carta à priora do recém fundado convento de Córdoba.

A ação de Deus na alma quieta



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Um pouquinho que Deus opere na alma, neste santo ócio e soledade, é um bem inapreciável, por vezes muito maior do que a própria alma ou quem a dirige possam imaginar. E embora não se veja tanto na ocasião, a seu tempo manifestar-se-á. O mínimo que a alma então pode alcançar, é sentir um alheamento e estranheza em relação a tudo, algumas vezes com maior intensidade do que em outras; ao mesmo tempo sente inclinação para soledade, e tédio de todas as criaturas deste mundo, enquanto respira suavemente amor e vida no espírito. E, assim, tudo quanto não é este alheamento e estranheza causa-lhe dissabor; pois, como se costuma dizer, quando goza o espírito, a carne fica sem prazer. 

São João da Cruz, Chama Viva do Amor

Impressão de Sta Teresa ao visitar a casinha de S. João da Cruz, em Durvelo.

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"Ao entrar na capela, fiquei admirada ao ver o espírito que o Senhor havia infundido ali. E não só eu, pois dois mercadores, meus amigos, que haviam vindo comigo de Medina, não faziam outra coisa senão chorar! Nunca me esqueço de uma pequena cruz de madeira sobre a pia de água benta: sobre essa cruz estava colada uma imagem de Cristo, feita de papel, que parecia suscitar mais devoção que se fosse feita de material muito bem trabalhado"

Santa Teresa de Jesus, As Fundações.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Revelações de Deus Pai a Santa Catarina de Sena


Acompanhe as experiências místicas de Santa Catarina de Sena, reveladas pelo Pai. São relatos sobre o Juízo Final, o sofrimento e o arrependimento do pecado, mas sobretudo sobre a Misericórdia Infinita de Nosso Deus.
No Juízo Particular, no instante final, quando a pessoa compreende que não pode fugir das Minhas Mãos recupera a visão que a atormenta interiormente fazendo-a ver que por própria culpa chegou a tão triste situação. 

Mas, se ultrapassar o momento da morte nas trevas, no remorso, sem esperança no Sangue, ou então, lamentando-se apenas pela infelicidade em que se acha - e não por ter Me ofendido - irá para a perdição. 

Sobrevirá pois, a repreensão pela injustiça e falso julgamento. 

Em primeiro lugar a repreensão da injustiça e do julgamento falso em geral, praticados no conjunto de suas ações, durante a vida; depois, em particular, do último instante quando o pecador considera seu pecado maior que a Minha misericórdia. 

Este é o pecado que não será perdoado, nem aqui nem no além. 

O desprezo voluntário da Minha misericórdia constitui pecado mais grave que todos os anteriores 

Filha, tua linguagem é incapaz de descrever os sofrimentos desses infelizes condenados. 

Sendo três os seus vícios principais - egoísmo, medo de perder a boa fama e orgulho - aos quais se acrescentam a injustiça, a maldade e impureza, no inferno os pecadores padecem de quatro tormentos principais. 

O primeiro é a ausência da Minha visão. 

Um sofrimento tão grande que os condenados, se fosse possível, prefeririam sofrer o fogo vendo-Me, que ficar de fora dele sem Me ver. 

O segundo, como conseqüência, é o remorso que corrói o pecador privado de Mim, longe da conversação dos anjos, a conviver com os demônios. 

Aliás, a visão do diabo constitui o terceiro tormento. 

Ao vê-lo duplica-se o sofrer. 

Nestes (demônios), eles se conhecem melhor, entendendo que por própria culpa mereceram o castigo. 

Assim o remorso os martiriza e jamais cessará o ardor da consciência. 

Muito grande é este tormento, porque o diabo é visto do próprio ser; tão horrível é a sua fealdade, que a mente humana não consegue imaginar. 

Se ainda o recordas, já te mostrei o demônio assim como ele é; foi por um átimo de tempo. 

Quando retornastes ao sentido, preferias caminhar por uma estrada de fogo até o juízo final que tornar a vê-lo. 

No entanto, apesar do que viste ignoras a sua fealdade, especialmente porque, segundo a justiça divina, ele é visto mais ou menos horrível pelos condenados, segundo a gravidade das culpas. 

O quarto é o fogo. 

Um fogo que arde sem consumir, sem destruir o ser humano. 

É algo de imaterial, que não destrói a alma incorpórea. 

Na Minha justiça permito que tal fogo queime, faça padecer, aflija; mas não destrua. 

É ardente e fere de modo crudelíssimo em muitas maneiras, conforme a diversidade das culpas. 

A uns mais, a outros menos, segundo a gravidade dos pecados. 

Destes quatro tormentos derivam os demais: o frio, o calor, o ranger de dentes (Mt, 22,13) 

Grande é o ódio dos condenados, pois já não amam o bem. 

Blasfemam continuamente contra Mim! 

Queres saber por que já não podem desejar o bem? É porque, no fim desta vida, vincula-se o livre arbítrio. 

Com o cessar do tempo, já não se merece mais. 

Quem termina esta existência em pecado mortal, por direito divino fica para sempre apegado ao ódio, obstinado no mal, a roer-se interiormente. 

Seus sofrimentos irão aumentando sempre, especialmente por causa das demais pessoas que por sua causa irão para a condenação. 

O homem justo (no mesmo Juízo) ao encerrar sua vida terrena no amor, já não poderá progredir na virtude. 

Para sempre continuará a amar no grau de caridade que atingiu até Mim. 

Também será julgado na proporção do amor. 

Continuamente Me deseja, continuamente Me possuí; suas aspirações não caem no vazio. 

Ao desejar, será saciado; ao saciar-se, sentirá ainda fome; distanciando-se assim, do fastio da saciedade e do sofrimento da fome. 

Os bem-aventurados gozam da Minha eterna visão. 

Cada um no seu grau, de acordo com a caridade em que vieram participar de tudo o que possuo. 

Desfrutam na alegria e gozo - dos bens pessoais e comuns que mereceram. 

Colocados entre os anjos e santos com eles se rejubilam na proporção do bem praticado na terra. 

Entre si congraçados na caridade os bem-aventurados de modo especial comunicam-se com aqueles que amaram no mundo. 

Não penses que a felicidade celeste seja apenas individual. 

Não! Ela é participada por todos os cidadãos da pátria, homens e anjos. 

Quando chega alguém à vida eterna, todos sentem sua felicidade da mesma forma como ele participa do prazer de todos. 

Em seus anseios os eleitos clamam continuamente diante de Mim em favor do mundo inteiro. 

Suas vidas haviam terminado no amor fraterno; continuam no mesmo amor. 

Aliás, foi exatamente por tal caridade que passaram pela porta que é Meu Filho 

Por ocasião do Juízo Final, o Verbo encarnado virá com divina majestade para repreender o mundo. 

Não mais se apresentará pobrezinho na forma como nasceu da Virgem, na estrebaria, entre animais, para morrer depois no meio de ladrões. 

Naquela ocasião, ocultei n'Ele o Meu poder e permiti que suportasse penas e dores como homem. 

A natureza divina se unira a humana e foi enquanto homem que sofreu para reparar as vossas culpas. 

No juízo final, não será assim, pois virá com poder a fim de julgar. 

As criaturas humanas estremecerão e Ele a cada um dará sentença conforme merecimento. 

Tua língua não conseguirá exprimir o que se sucederá aos condenados. 

Para os bons, Jesus será motivo de temor santo e alegria imensa. 

Os bem-aventurados continuam no céu, eternamente, aquele mesmo amor com que encerraram a vida terrena. 

Eles em nada se distanciam de Mim. 

Seus desejos estão saciados. 

Anseiam em ver-Me glorificado por vós viandantes e peregrinos que sois em direção à morte. 

Aspirando por Minha honra, querem vossa salvação e sempre rogam por vós; de Minha parte, escuto os seus pedidos naquilo em que vós, por maldade, não opondes resistência à Minha bondade. 

Os bem-aventurados desejam recuperar os seus corpos; todavia não sofrem por sua ausência. 

Até se alegram, na certeza de que tal aspiração será realizada. 

A ausência do corpo não lhes diminui o prazer, não é angustiante, não faz sofrer. 

Nem julgues que a satisfação de ter o corpo após a ressurreição lhes traga maior bem-aventurança. 

Se isso fosse verdade, seria sinal que a felicidade anterior era imperfeita, enquanto não o reouvessem, e isso não pode ser. 

De fato, nenhuma perfeição lhes falta. 

Não é o corpo que faz feliz a alma, mas o contrário. 

Quando esta recupera o corpo no dia do juízo, participará ele da plenitude e da perfeição da alma. 

Naquele dia, esta se fixará para sempre em Mim, e o corpo em tal união, ficará imortal, sutil, leve. 

Deves saber que o corpo ressuscitado pode atravessar uma parede, que o fogo e a água não o ofendem. 

Tal propriedade lhe advém, não de uma virtude própria, mas por uma força que gratuitamente concedo à alma, que foi criada à Minha imagem e semelhança num inefável ato de amor. 

Tua inteligência não dispõe da capacidade necessária para entender, nem teus ouvidos para escutar, a língua para narrar e o coração para sentir qual é a felicidade dos santos. 

Ocupei-Me da felicidade dos santos para que entendesses melhor a infelicidade dos condenados ao inferno. 

Aliás, outro tormento destes últimos, é ver quanto os bem-aventurados são felizes. 

Tal conhecimento acresce-lhes a pena, da mesma forma como a condenação dos maus leva os justos a glorificar Minha bondade. 

A luz é mais evidente na escuridão, e a escuridão na luz. 

Conhecer a alegria dos santos é dor para os réus do inferno. 

Os condenados aguardam com temor o dia do juízo final. 

Sabem que então seus sofrimentos aumentarão. 

As escutar o terrível convite: " mortui, venite ad judicium", a alma retornará ao corpo. 

Para os bem-aventurados será um corpo de glória; para os réus um corpo para sempre obscurecido. 

Diante do Meu Filho, sentirão grande vergonha. 

Também diante dos santos. 

O remorso martirizará a profundidade do seu ser, quero dizer, a alma; mas também o corpo. 

Acusá-los-ão: o Sangue de Cristo, por eles derramado; as obras de misericórdia, espirituais e corporais, do Meu Filho, o bem que eles mesmos deveriam ter praticado em benefício dos outros, segundo o evangelho. 

Terá seu castigo a maldade com que trataram os irmãos, pois Eu mesmo, compassivo, perdoara-lhes (Mt 18,33). 

Serão repreendidos pelo orgulho, egoísmo, impureza, ganância; e tudo isso reavivará seus padecimentos. 

No instante da morte, somente a alma é repreendida; no juízo final também o corpo, por ter sido instrumento da alma na prática do bem e do mal conforme a orientação da vontade. 

Todo bem e todo mal é feito através do corpo por este motivo, Minha filha, os justos terão no corpo glorificado uma luz e um amor infinitos; já os réus do inferno sofrerão pena eterna em, seus corpos, usados para o pecado. 

Ao recuperar o corpo diante de Jesus ressuscitado, os réus sentirão tormento renovado e acrescido: a sensualidade sofrerá na sua impureza, vendo a natureza humana unida à divindade, contemplando este barro adâmico - vossa natureza - colocada acima de todos os coros angélicos, enquanto eles, os maus, estarão no mais profundo abismo. 

Os condenados verão brilhar sobre os eleitos a liberalidade e a misericórdia, quais frutos do Sangue de Cristo; saberão das dificuldades suportadas pelos bons e que agora se mostram em seus corpos como frisos de adornos para as vestes. 

O valor de tais sofrimentos físicos não provém do corpo mas da riqueza da alma; é ela que dá o corpo o merecimento da luta como companheira da prática das virtudes. 

Tal exteriorização se verifica porque o corpo manifesta o resultado das batalhas das alma, como o espelho reflete a face do homem. 

Ao se verem privados de tamanha beleza, os habitantes das trevas verão surgir nos próprios corpos os sinais dos pecados e terão maiores tormentos e confusão. 



E ao soar aquela terrível sentença: "Ide, malditos, para o fogo eterno". 

Suas almas e corpos encaminhar-se-ão para a companhia de demônios, sem mais remédios nem esperança. 

Cada um a seu modo, se envolverá na podridão que viveu na terra, de acordo com as ações que praticou: o avarento arderá na sua ganância dos bens que desordenadamente amou; o maldoso, na sua ruindade; o impuro na imunda e infeliz concupiscência; o injusto nas suas iniqüidades; o rancoroso no seu ódio pelos outros. 

Quanto ao egoísmo fonte de todos os males arderá como princípio causador de tudo em sofrimentos insuportáveis. 

O orgulho terá igual sorte. 

Assim, corpo e alma serão punidos em todos os vícios. 

Sirvo-Me do demônio qual instrumento da Minha justiça para atormentar os que Me ofendem. 

Nesta vida o coloquei qual tentador, molestando os homens. 

Não para que estes sejam vencidos, mas para que conquistem a vitória e o prêmio pela comprovação das virtudes. 

Ninguém deve temer as possíveis lutas e tentações do demônio. 

Fortaleci os homens, dei-lhes energia para vontade, no Sangue de Cristo. 

Demônio ou criatura alguma conseguem dobrar a vontade. 

Ela vos pertence, é livre. 

Vós é que escolheis o querer ou não querer alguma coisa. 

Eu disse que o demônio convida os homens para a água-morta, a única que lhe pertence, cegando-os com prazeres e satisfações do mundo. 

Usa o anzol do prazer e fisga-os mediante a aparência de bem. 

Sabe ele que por outros caminhos nada conseguiria; sem o vislumbre* de um bem ou satisfação, os homens não se deixam aprisionar; por sua própria natureza, a alma humana tende ao bem. 

Infelizmente, devido à cegueira do egoísmo, o homem não consegue discernir qual é o bem verdadeiro, realmente útil ao corpo e à alma. 

Percebendo isto, o demônio, maldoso, apresenta-lhe numerosos atrativos maus, disfarçados porém sob alguma utilidade ou prazer. 

A certeza da Minha presença em suas vidas, é o conhecimento da Minha verdade. 

Tal conhecimento se realiza na inteligência que é, o olho da alma; pupila de tal olho é a fé. 

Pela iluminação da fé, eles distinguem, conhecem e seguem a estrada mensagem do Verbo Encarnado. 

Sem a fé ninguém reconhece tal estrada, à semelhança daquele que possuísse o olho, mas coberto por um pano. 

Sim, a pupila desse olhar é a fé; nada verá quem cobrir sua inteligência com o pano da infelicidade, por causa do egoísmo. 

Tal pessoa terá a inteligência, mas não a luz para conhecer. 

Como afirmei antes, ninguém consegue seguir o caminho da verdade sem a luz da razão - recebida de Mim com a inteligência - e sem a luz da fé, infundida na hora do santo batismo, supondo que não destruais esta última com vossos pecados.

http://vocacionadosdedeusemaria.blogspot.com.br/2008/11/revelaes-de-deus-pai-santa-catarina-de.html

A virtude da temperança