sábado, 30 de julho de 2016

Fora do coração

"A maioria de nós vive fora do coração e nossa mente permanece em um constante estado de confusão. Alguns bons pensamentos podem vir à tona de vez em quando, mas a maioria será prejudicial, e esta condição destrutiva irá prevalecer durante o tempo que continuarmos a ignorar nosso coração... As orações de uma mente fragmentada não têm nem clareza nem profundidade, mas uma mente reunida com o coração transborda de oração humilde e tem tal força que chega aos ouvidos do Senhor de Sabaoth."

-- Arquimandrita Zacharias de Essex

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Grandes forças

" A minha alma ganhou grandes forças da Divina Majestade, que deve ter ouvido minhas súplicas e ter-se condoído por tantas lágrimas. Aumentou em mim a vontade de ficar mais tempo com Ele; passei a fugir das ocasiões de pecado porque, livre delas, logo voltava a amar Sua Majestade. Eu bem sabia que O amava,mas não compreendia, como iria entender, o que é amá-Lo verdadeiramente".

Santa Teresa de Jesus

Reduzir sua paixão

No Monte Athos havia um monge que vivia em Karyes. Ele bebia e ficava bêbado todos os dias e era causa de escândalo para os peregrinos. Eventualmente ele morreu e isso aliviou um pouco os fiéis, que disseram a Elder Paisios que eles estavam muito aliviados porque este enorme problema tinha sido finalmente resolvido.
Elder Paisios lhes respondeu que ele soube sobre a morte do monge, depois de ver as hostes de anjos que vieram recolher sua alma. Os peregrinos ficaram surpresos e alguns protestaram e tentaram explicar à Elder Paisios exatamente sobre quem eles estavam falando, pensando que ele não havia entendido.
Elder Paisios explicou-lhes: Este monge especial nasceu na Ásia Menor, pouco antes da destruição pelos turcos quando eles reuniram juntos todos os meninos. Então, para não tirá-lo de seus pais, eles o levavam com eles para a colheita, e para ele não ficar chorando, eles colocavam raki (uma bebida alcoólica) em seu leite, para que ele dormisse. Portanto, ele cresceu como um alcoólatra. Lá ele encontrou um ancião e disse-lhe que ele era um alcoólatra. O ancião lhe disse para fazer prostrações e orações todas as noites e implorar a Panagia (A Mãe de Deus) para ajudá-lo a reduzir em um, os copos que ele bebia.
Depois de um ano ele conseguiu com luta e arrependimento reduzir os 20 copos que ele bebia para 19 copos. A luta continuou ao longo dos anos e ele conseguiu reduzir para 2-3 copos, com os quais ele ainda ficava bêbado. O mundo por anos viu um monge alcoólatra que escandalizou os peregrinos, mas Deus viu um lutador que lutou uma longa batalha para reduzir a sua paixão.

https://www.facebook.com/A.Oracao.do.Coracao/?notif_t=notify_me_page&notif_id=1469563528436235

Mudança interior

"Você sabe, é claro, que o seu único propósito no momento é mudar a si mesmo interiormente. E assim, o que corresponde a essas mudanças internas e obedecendo o impulso que vem delas, as coisas externas devem ser mudadas também."

São Teófano, o Eremita

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Itinerário para a unidade interior

O primeiro degrau do homem interior, do homem novo, como diz Santo Agostinho, é aquele em que ele procura viver à imitação de homens bons e santos, mas ainda anda segurando-se nas cadeiras ou nas paredes e ainda se nutre de leite. 

O segundo degrau é aquele em que ele não fixa os olhos unicamente nos modelos exteriores ou ainda em homens bons, mas corre a buscar agora, pressuroso, os ensinamentos e os conselhos de Deus e da Sabedoria Divina. Ele vira as costas aos homens e volta o rosto para Deus, abandona o colo da mãe e sorri para seu Pai Celeste. 

No terceiro degrau, o homem se livra cada vez mais da influência da mãe e se afasta cada vez mais do seio materno, escapa à solicitude e rejeita qualquer temor. Se tivesse possibilidade de fazer o mal ou prejudicar alguém, mesmo sem sofrer nenhum dano da parte do ofendido, nem assim teria vontade de fazê-lo. Com efeito, pelo Amor ele está ligado e confiado a Deus num zelo constante de tal forma que Deus o colocou e estabeleceu na alegria e na doçura, e neste estado lhe repugna tudo o que é dissemelhante e estanho, tudo que não convém a Deus. 

No quarto degrau, o homem cresce cada vez mais e se aprofunda no amor de Deus, a ponto de estar sempre pronto a assumir, de boa vontade e de bom coração, avidamente e com alegria, todos os tipos de tribulações e de provas, de contrariedades e de penas. 

No quinto degrau, o homem vive em toda parte e espontaneamente na paz, calma e tranquila, na riqueza e no gozo da suprema e indizível Sabedoria. 

No sexto degrau, o homem é despojado de si mesmo e revestido da eternidade de Deus, chegando à perfeição completa. Ele esqueceu a vida temporal com tudo que ela tem de perecível; foi arrebatado e transformado numa imagem divina, tomando-se um filho de Deus. Degrau ulterior e mais elevado não há. Aqui ele atingiu o repouso eterno, a bem-aventurança, porque o fim último do homem interior, do homem novo, é a Vida eterna. 

Mestre Eckart, Místico Dominicano do séc. XIV

A misericórdia de Deus

"Somente a misericórdia e o amor infinito de Deus evitaram que nós nos tivéssemos dilacerado mutuamente e tivéssemos destruído toda sua criação há muito tempo. Muitos pensam que as muitas guerras são de certa forma um prova de que não existe um Deus de misericórdia. Pelo contrário, considere-se como, apesar dos séculos de pecado, ganância, luxúria, crueldade, ódio, avareza, opressão e injustiça, engendrados e reproduzidos pela livre vontade das pessoas, a raça humana consegue recuperar-se cada vez e ainda produzir homens e mulheres que vencem o mal com o bem, o ódio com o amor, a ganância com a caridade, a luxúria e a crueldade com a santidade. Como seria isso possível sem que o amor misericordioso de Deus derramasse sua graça sobre nós? Pode haver alguma dúvida sobre a procedência das guerras e da paz, quando os filhos deste mundo, excluindo Deus de suas conferências de paz, produzem guerras sempre maiores enquanto vão falando de paz?

Basta abrir os olhos e dirigi-los ao nosso redor para vermos o que os nossos pecados estão fazendo ao mundo e já fizeram. Mas não conseguimos enxergar. Somos aqueles de quem disse o profeta Isaías: “Ouvireis com os ouvidos e não compreendereis, olhareis com os olhos e não enxergareis”.

The Seven Storey Mountain, de Thomas Merton
(Harcourt, Brace, New York), 1948

http://reflexoes-merton.blogspot.com.br/2013/03/a-misericordia-de-deus.html

Oração, fonte de espiritualidade



Ao longo dos números de 2012 estamos tentando refletir sobre as fontes da vida espiritual. No número precedente fizemos uma longa reflexão a respeito da oração. Precisamos ainda nos debruçar sobre o tema da conversão e do seguimento de Cristo entre os outros. Continuamos, neste número, a tecer algumas considerações ainda sobre o tema da oração. Desejamos transcrever aqui, nesta leitura espiritual, alguns testemunhos sobre a difícil e belíssima aventura da oração.

1. Começamos com um pensamento do cardeal Martini, antigo arcebispo de Milão e incentivador de grupos seletos de Leitura Orante da Bíblia em sua diocese: “A oração é, antes de tudo, resposta à Palavra de Deus que, por primeiro me interpela e me atinge em minha fraqueza, mas também no meu silêncio e na minha capacidade de escuta. A oração é deixar-se acolher pelo mistério santo indo pelo Cristo, no Espírito, rumo ao Pai. Mais do que rezar a um Deus estranho e longínquo, o cristão reza em Deus, reza escondido com Cristo na Trindade, fonte e germe de vida. Então, quando rezares, antes de pensar que és tu que amas a Deus, deixa-te amar por ele, docilmente, cegamente, abandonando-te totalmente a ele, tudo lhe confiando, num espírito de louvor e de ação de graças. Comigo, pergunta a ti mesmo: será que eu encontro momentos em que me coloco face a face com Deus, ouvindo-o e abrindo-me a ele? (Carta Pastoral de 1996). Rezar é deixar-se acolher pelo Mistério. Onde? Na vida, de modo especial na ruminação dos salmos, na meditação antes da aurora explodir, nos dias de retiro que sejam efetivamente de retiro, na tentativa de instaurar grupos sólidos de leitura orante da Palavra.


2. Na linha da escuta da Palavra e oração, um pensamento do Ministro Geral dos Frades Menores: “Se rezar é entrar em relação pessoal com Deus, escutá-lo, far-lhe-a agir segundo Deus na Escritura, o Pai que está nos céus vem carinhosamente ao encontro de seus filhos e com eles fala. Se rezar é responder a Deus depois de tê-lo escutado, na proclamação ou leitura da Palavra o escutamos e lhe respondemos quando devolvemos a Deus a palavra que ele mesmo nos entregou. Se rezar é fazer a experiência de encontro com o Senhor, toda a Sagrada Escritura é uma história de encontros: a grande epopeia do encontro de Deus com os homens e do homem com Deus” (Fr. José Rodriguez Carballo, OFM. Guiados pela Palavra/ Mendicantes de Sentido, n. 12). Ora, o discípulo que ama o Senhor vive na frequência e na persistência desses encontros suculentos com a Palavra no mistério da oração. E na oração responde aos sinais amorosos do Esposo.


3. No dia a dia da vida, o homem não está espontaneamente em consonância com o Senhor. A vida interior cristã é muito mais do que um fenômeno psicológico, de experiência ou contágio de massa, uma exacerbação nervosa da voz e dos gestos. A compreensão definitiva da oração vem da frase lapidar de Paulo aos Gálatas: “Deus enviou aos nossos corações o espírito de seu Filho, que clama: ‘Abba! Pai’ (Gl 4,6)”. Para entrar e perseverar na vida de oração temos que ter a convicção de sermos habitados pelo Espírito que clama, murmura, inspira, respira, intercede e adora no coração humano. A oração é tarefa do Espírito que habita em nós e no coração da Igreja. Michel Hubaut, refletindo sobre a oração de São Francisco, assim escreve: “O Espírito Santo ocupa um lugar importante nos escritos de São Francisco que falam com frequência das “visitas” do Senhor” e da “inspiração” de Deus. Para ele, a vida de oração não é em primeiro lugar alguma coisa que faço, mas uma presença que recebo. Presença que é mais poderosa do que nossos pobres esforços ou sentimentos humanos, que não depende da riqueza de nosso vocabulário nem de nossas formas de viver. As biografias de Francisco estão pontilhadas de expressões chaves como as seguintes: “Movido e fortalecido pelo Espírito”, “no fervor do Espírito”. O segredo da fecundidade de sua vida apostólica e contemplativa é, sem dúvida alguma, sua disponibilidade à ação do Espírito em seu interior. Boaventura escreve: “Toda sua vida interior foi hospitalidade total ao Espírito, uma perfeita docilidade a seus ensinamentos” (cf. Michel Hubaut, El camino franciscano, Estella (Navarra), 1984, p. 54).


4. Sim, não se trata de praticar uma oração mecânica, formal, legalista. Homens e mulheres que vivem no mundo, religiosos contemplativos, consagrados preocupados com a evangelização, entramos na movimento do Espírito. Simples, sinceros, fraternos vivemos em comunidades ou fraternidades e vamos nos esvaziando de nós mesmos e deixando de lado acertos que mais são desacertos e esperamos juntos, na humildade e na confiança, que o Espírito que vive em nós possa nos apontar para o amanha da paróquia, da vida consagrada da Igreja. O Espírito Santo abriu os horizontes de Francisco para um porvir imprevisto. Desperta-se em Francisco uma faculdade interior e ele descobre: o homem está dotado de um sentido interior que ele chama de coração. Se custa ao homem entrar em relação com Deus é porque perdeu o sentido do coração. Francisco encontrou um caminho novo em que o Espírito se une ao nosso espírito.


5. Já insistimos na questão do desejo. Sem desejo de Deus não há oração. Santo Agostinho já dizia: “Um desejo que clama por Deus já é oração. Se queres rezar sempre, nunca deixes de desejar”. Não há dúvida. Cada um organizará sua vida de oração comunitária e pessoal. Temos que consagrar tempo à oração: leitura de um breve texto bíblico, repetição muito singela de palavras que dirigimos ao Senhor que nos ama e nos vê, manter-nos em silêncio num canto, deixando que nosso corpo expresse sua espera por Deus e por sua visita. Há, é claro, esses momentos longos e demorados de aridez e de desgosto na oração: “O tempo que consagro à oração não é tempo que experimento proximidade especial de Deus. Nem consigo fixar minha atenção nos mistérios divinos. Quem dera que assim o fosse! Pelo contrário, os momentos que reservo para a oração estão cheios de distrações, inquietude interior, sonhos, confusão e enfado. Raramente vejo meus sentidos gratificados. Mas o simples fato de me colocar na presença do Senhor e mostrar-lhe tudo o que sinto, percebo e experimento, sem nada esconder, que devo agradar a Deus. No meio de tudo isso, sei que ele me ama mesmo que eu não sinta seu abraço como um abraço humano e não ouça sua voz como ouço uma voz humana” (Henry Nouwen). Vivemos a cultura do entretenimento. Quando não fazemos nada temos a impressão de viver tempos vazios. Por isso fugimos desse “tempo perdido” que para muitos é o tempo da oração. Expressar a Deus nossa espera por ele com palavras simples e mesmo com silêncio pode dar a impressão de ser tempo perdido. Nesses instantes estamos dando tempo ao Senhor para que ele transpareça na trama dos acontecimentos. Sem o que somos seres banais. Sem o que, como cristãos ou religiosos, simplesmente fazemos rodar a máquina fria da organização. Vidas sem alma.


6. O ser humano não foi feito para a mediocridade. Ele é chamado a transcender-se. Não pode perder-se numa horizontalidade de posse ou da satisfação imediata de seus desejos no âmbito do que vai conseguindo obter e ter. Foi escolhido para ruminar no coração a semente da Palavra que aí foi lançada. O orante é aquele que se aplica com zelo à leitura amorosa da Escritura. Os que permanecem na palavra dizem palavras boas, têm um coração bom. Desta forma, vive uma vida em abundância, que vai da ação de graças à súplica até a contemplação. Os cristãos que rezam de verdade atingem maturidade. São seres unificados pelo Espírito. Thomas Merton: “A contemplação é uma compreensão profunda do fato de que, em nós, a vida e o ser procedem de uma Fonte invisível, transcendente e ilimitadamente abundante. A contemplação consiste em ter consciência dessa Fonte… É ser tocado por aquele que não tem mãos, mas é Realidade pura e fonte de tudo o que é real”. Os corações humildes e pequenos ouvem a Palavra e são capazes de alojá-la no mais íntimo de suas vidas, no dia a dia de suas existências e na perseverança àquele que é ontem, hoje e amanhã.


7. Encerro estas reflexões transcrevendo linhas de advertência do Ministro Geral dos OFM sobre a vida de oração: “Penso que seja indispensável avaliar o âmbito (tempo e modalidade) da oração mental no projeto de vida pessoal e fraterna. A fidelidade aos horários e a perseverança são indispensáveis para a vida de oração. Considero também fundamental avaliar com seriedade nossa prática sacramental – Eucaristia e Reconciliação – como também a qualidade e até a frequência de nossas celebrações eucarísticas e a fidelidade à celebração da Liturgia das Horas, conscientes da diferença que existe entre dizer o Ofício divino e celebrar a Liturgia das Horas. Como a vida fraterna, também a vida de oração precisa ser submetida a uma regular avaliação. Seu crescimento depende de uma crítica construtiva: tempo, ritmo, sentido do sagrado. Trata-se de fundamentar o projeto franciscano no tempo de Deus e de convertê-lo numa experiência orante” (Com lucidez e audácia, n. 28)



http://www.ifrans.org.br/oracao-na-espiritualidade-franciscana/

domingo, 24 de julho de 2016

O ESPÍRITO DE SÃO FRANCISCO DE SALES


(extraído dos seus escritos)


Não espere as mudanças e eventualidades desta vida com medo; antes, encare-as com a firme esperança de que, ao surgirem, Deus, de quem você é filho, o livrará delas.


Só confia nEle e Ele continuará conduzindo você seguramente através de tudo. Onde não puder caminhar, Ele o carregará nos braços.


Não se preocupe com o que pode acontecer amanhã; o mesmo Pai eterno que cuida de você hoje, se encarrega de você amanhã e todos os dias. Ou Ele protegerá você do sofrimento, ou lhe dará a força infalível para suportá-lo.


Esteja em paz, pois, e afaste todos os pensamentos de angústia.


Anime-se e transforme os problemas em matéria para seu progresso e maturidade.


Pense muitas vezes em Nosso Senhor, pois Ele ajudará a suportar os problemas. Todos eles serão incapazes de abalar você, só lembrando-se de que você tem um tal amigo.


Faça tudo com calma e em paz. Realize quanto puder, tão bem quanto for capaz.


Procure ver Deus em todas as coisas sem exceção, e disponha-se a fazer a vontade dEle com alegria. Faça tudo para Deus, unindo-se com Ele por palavras e obras.


Avance muito simplesmente com a Cruz de Nosso e tenha paz consigo mesmo. Passará por cada tempestade com seguridade, enquanto a sua confiança se fixar em Deus.


Não perca a sua paz interior por nada, nem se todo o seu mundo parece vir abaixo. Se se dá conta que se afastou da proteção de Deus, conduza o seu coração de volta para Ele tranqüila e simplesmente.


Faça todas as coisas em nome de Deus e fará tudo bem. Se comer ou beber, trabalhar ou descansar, ganhará muito aos olhos de Deus, ao fazer todas essas coisas como Deus quer que se faça.


Aconteça o que acontecer, não desanime; segure-se firmemente em Deus, mantenha-se em paz, com confiança no seu amor eterno por você.

http://oblatosamlat.cybermeme.net/intpg2.html

As cruzes da Providência são as mais agradáveis a Deus


"Se alguém quer vir atrás de mim, diz Nosso Senhor, tome a sua cruz e siga-me." Tomar a sua cruz significa receber e sofrer todas as nossas penas, contradições, aflições e mortificações, que nesta vida nos acontecem, sem exceção alguma, com uma inteira submissão e indiferença. Imolemos muitas vezes o nosso coração do nosso amor de Jesus Cristo sobre o próprio altar da cruz, onde Ele imolou o seu amor pelo nosso. A cruz, é a porta real para entrar no templo da santidade; aquele que a busca fora daí, não a encontra. As melhores cruzes são as mais pesadas e as mais pesadas são as que mais incomodam a parte inferior da alma.
As cruzes que encontramos pelas ruas são excelentes, e ainda mais as que encontramos em casa, e quanto mais importunas melhores; valem mais do que as disciplinas, os jejuns e o mais que inventou a austeridade. É ai que resplandece a generosidade dos filhos da cruz e dos habitantes do Calvário.
As cruzes que a nós mesmos impomos são inferiores, por serem nossas e tem menos mérito. Humilhai-vos e recebei com alegria as que vos impuserem contra vossa vontade. O cumprimento da cruz aumenta muito o seu preço: sede fiéis até à morte e tereis a coroa da glória. Amais muito o crucifixo; que quereis pois senão ser crucificados?
Nosso Senhor deu a escolher a Davi o castigo que queria, e bendito seja Ele! Mas parece-me que eu não escolheria e teria deixado a escolha à sua divina Majestade. Quanto mais a cruz é de Deus, tanto mais a devemos amar.
Recebamos com amor as cruzes que não escolhemos e que Deus nos deu; bendiga- mo-las, ame-mo-las, estão todas perfumadas com a excelência do lugar donde vêm. Onde houver menos escolha há mais agrado de Deus. Amo muito mais o mal, que vem do nosso Pai celeste do que aquele, vem da nossa própria vontade.
Nosso Senhor mostrou-nos bem que não é preciso que escolhamos as cruzes, mas sim que as tomemos como nos vierem; porque quando Ele quis morrer para nos resgatar e satisfazer a vontade de seu Pai celeste, não escolheu a cruz, mas recebeu humildemente a que lhe tinham preparado os judeus.
Estimo muito mais o mal que nos envia o nosso Pai celeste do que aquele que nós escolhemos. Oh! eis a virtude verdadeira, e é assim que convém exercê-la. 
Sêneca disse o seguinte, e eu queria que o tivesse dito Santo Agostinho: "A perfeição do homem consiste em sofrer bem todas as coisas, como se lhe chegasse por escolha sua".
Sofrer por Deus é ter nas mãos o ouro mais puro e mais precioso para comprar o céu. Uma só parcela deste ouro divino basta para possuirmos a glória do paraíso. "Um instante duma leve tribulação, diz São Paulo, opera em nós um peso imenso de glória". As nossas ações ordinárias não são assim; podemos dizer que as mais virtuosas, comparadas com as aflições, são pequena moeda dum metal inferior. É preciso pois ganhar coisa de valor; e muitas vezes acontece que esta tem uma aparência enganadora, porque na maioria das nossas boas obras encontra-se o nosso amor próprio, que lhes altera a pureza.
A perfeição cristã consiste em sofrer bem. Não lastimeis as vossas penas para adquirirdes virtudes sólidas. Sofrei com paciência as tribulações que se opuserem a este desígnio. Deus dá-vos uma ocasião de praticardes a paciência; querereis deixá-la passar? Talvez na vossa vida não encontreis outra situação semelhante; talvez seja o último serviço que presteis à sua divina Majestade. Tende constância, e Ele vos aliviará nos trabalhos que sobrevierem.
Amemos nossas cruzes; são de ouro, vistas com olhos de amor; e embora Nosso Senhor aí esteja morto entre espinhos e cravos, encontra-se uma reunião de pedras preciosas, que nos guarnecerão uma coroa de glória, se suportarmos com coragem a de espinhos. O tempo das aflições e contradições é o da boa colheita, em que a alma recolhe as mais ricas bênçãos do céu, um dia deste tempo vale mais do que seis doutro. Estejamos pois sempre unidos à cruz, e trespassem muito embora as nossas carnes com mil flechas contanto que a seta inflamada do amor de Deus nos tenha antes trespassado o coração; faça-nos esta divina ferida morrer com santa morte, que vale mais do que mil vidas. Em que testemunharemos o nosso amor Àquele que tanto por nós sofreu, senão nas contradições, repugnâncias e aversões? Lancemo-nos através dos espinhos das dificuldades; deixemos trespassar o nosso coração com a lança das contradições; comamos absinto; bebamos o fel e vinagre das amarguras temporais, já que o nosso doce Salvador assim o quer.
Assim como as flores crescem entre espinhos, o amor divino cresce de preferência mais entre as tribulações do que entre as alegrias.
Oh! como são ditosas as almas que bebem corajosamente o cálice dos sofrimentos com Jesus Cristo que se mortificam, levando a sua cruz e sofrem e recebem de sua divina mão toda a qualidade de sucessos com submissão ao seu gosto! Mas, Deus meu, quão pouco se encontram, que façam isto como devem! Muitas vezes encontram-se almas que desejam sofrer e levar a cruz, e sei que há muitos que pedem a Deus aflições, mas é com a condição de as visitar e consolar muitas vezes nas suas penas e sofrimentos, e de lhes testemunhar que lhes agradam e se compraz em as ver sofrer por seu amor, e que afinal as recompensará com uma glória imortal. Também há muitos que desejam como os dois discípulos saber o grau da glória que terão no céu, com certeza que este desejo é impertinente; porque nunca devemos por forma alguma, importar-nos com isso, mas ocupar-nos sempre em servir a sua divina Majestade com a maior fidelidade que pudermos, observando os seus divinos mandamentos, conselhos e vontades, exatamente e com a maior perfeição, pureza e amor que nos for possível, deixando o cuidado do resto à sua infinita bondade, que não nos faltará se cumprimos o nosso dever, e nos recompensará com uma glória imortal, e incompreensível, dando-nos a si mesmo tanta estima o que por Ele obramos. Em suma, é um Senhor: basta só que sejamos servos e servas muito fiéis, e Ele será fiel remunerador. Oh! se soubéssemos que felicidade é servir fielmente este divino Salvador de nossas almas, e beber com Ele o cálice! Oh! abraçaríamos de bom gosto as penas e sofrimentos, imitando Santa Catarina de Sena, que preferiu a coroa de espinhos à coroa de ouro!
Assim devemos nós praticar, porque enfim o caminho da cruz e aflições é um caminho seguro, que nos conduz diretamente à Deus e à perfeição do seu amor. Se formos pois fiéis em beber corajosamente o seu cálice crucificando-nos com Ele nesta vida, a sua eterna bondade glorificar-nos-á eternamente na outra.
 (Retirado do livro, pensamentos consoladores de São Francisco de Sales)

Fonte: São Pio V

Não quero que meus cristos sejam ofendidos. Somente eu devo puni-los, não outros - Deus Pai a Santa Catarina de Sena.


Filha querida, ao manifestar-te a grande virtude daqueles pastores, quero colocar em evidência a dignidade dos meus ministros. Pelo pecado de Adão, as portas da eternidade fecharam-se, mas o meu Filho abriu-as com a chave do seu sangue. Ao sofrer a paixão e morte, ele destruiu vossa morte e vos lavou no sangue. Sim, foram seu sangue e sua morte que, em virtude da união da natureza divina com a humana, deram acesso ao céu. E a quem deixou Cristo tal chave? Ao apóstolo Pedro e a seus sucessores, os que virão depois dele até o dia do juízo final. Todos possuem a mesma autoridade de Pedro; nenhum pecado a diminui, do mesmo modo que não destrói a santidade do sangue de Cristo e dos sacramentos. Já disse (28.1) que o sol eucarístico não tem manchas e que o mal cometido por quem o administra ou recebe não apaga sua luz. Não, o pecado não danifica os sacramentos da santa Igreja, não lhes diminui a força; prejudica a graça e aumenta a culpa somente em quem os ministra ou recebe indignamente.

Os ministros são ungidos meus. A respeito deles diz a Escritura: “Não toqueis nos meus Cristos” (Sl 105,15). Quem os punir cairá na maior infelicidade. Se me perguntares por que a culpa dos perseguidores da santa Igreja é a maior de todas e, ainda, por que não se deve ter menor respeito pelos meus ministros por causa de seus defeitos, respondo-te: porque, em virtude do sangue por eles ministrado, toda reverência feita a eles, na realidade não atinge a eles, mas a mim. Não fosse assim, poderíeis ter para com eles o mesmo comportamento de praxe para com os demais homens. Quem vos obriga a respeitá-los é o ministério do sangue. Quando desejais receber os sacramentos, procurais meus ministros; não por eles mesmos, mas pelo poder que lhes dei. Se recusais fazê-lo, em caso de possibilidade, estais em perigo de condenação. A reverência é dada a mim e a meu Filho encarnado, que somos uma só coisa pela união da natureza divina com a humana. Mas também o desrespeito. Afirmo-te que devem ser respeitados pela autoridade que lhes dei e por isso mesmo não ser ofendidos. Que os ofende, a mim ofende. Disto a proibição: “Não quero que mãos humanas toquem nos meus cristos!” Nem poderá alguém escusar-se, dizendo: “Eu não ofendo a santa Igreja, nem me revolto contra ela; apenas sou contra os defeitos dos maus pastores!” Tal pessoa mente sobre a própria cabeça. O egoísmo a cegou e não vê. Aliás, vê; mas finge não enxergar, para abafar a voz da consciência. Ela compreende muito bem que está perseguindo o sangue do meu Filho e não os pastores. Nestas coisas, injúria ou ato de reverência dirigem-se a mim. Qualquer injúria: caçoadas, traições, afrontas. Já disse e repito: não quero que meus cristos sejam ofendidos. Somente eu devo puni-los, não outros. No entanto, homens ímpios continuam a revelar a irreverência que têm pelo sangue de Cristo, o pouco apreço que possuem pelo amado tesouro que deixei para a vida e santificação de suas almas. Não poderíeis ter recebido maior presente que o todo-Deus e todo-Homem como alimento. Cada vez que o conceito relativo aos meus ministros não coloca em mim sua principal justificativa, torna-se inconsistente e a pessoa nele vê somente muitos defeitos e pecados. De tais defeitos falarei em outro lugar (928.6). Mas quando o respeito se fundamenta em mim, jamais desaparece, mesmo diante de defeitos nos ministros; como disse (28.2.1), a grandeza da eucaristia não é diminuída por causa dos pecados. A veneração pelos sacerdotes não pode cessar; se tal coisa acontecer, sinto-me ofendido.


O GRANDE PECADO DOS PERSEGUIDORES
São muitas as razões que fazem desta ofensa a mais grave. Vou lembrar apenas três. A primeira é porque os perseguidores agem contra mim em tudo o que fazem em oposição aos meus ministros. A segunda é porque desobedecem àquela ordem pela qual proibi que meus sacerdotes fossem tocados. Ao persegui-los, os homens desprezam a riqueza do sangue de Cristo recebida no batismo. Desrespeitando o sangue de Jesus e perseguindo os ministros, rebelam-se e tornam-se membros apodrecidos, separados da jerarquia eclesiástica. Caso venham a morrer obstinados em tal revolta e desrespeito, irão para a condenação eterna. Se reconhecerem a própria culpa na última hora, humilhando-se e desejando a reconciliação, mesmo que não o consigam fazer exteriormente, serão perdoados. Mas não devem esperar pelo momento da morte, pois será incerto o próprio arrependimento. A terceira razão, pelo qual este pecado é o mais grave, está no seguinte: é uma falta maldosa e deliberada. Os perseguidores têm consciência de que o não devem cometer, sabem que vão pecar; cometem um ato de orgulho, em que não entram atrações sensíveis, muito pelo contrário. Tais pecadores arriscam a alma e o corpo: a alma. Privando-se da graça, muitas vezes em meio a remorsos da consciência; o corpo, gastando seus bens a serviço do diabo e indo morrer como animais. Não, este pecado cometido contra mim não possui características de satisfação ou prazer pessoais; acompanham-no apenas os desvarios e a maldade do orgulho! Um orgulho que nasce do egoísmo e daquele medo próprio de Pilatos, quando matou meu Filho por temor de perder o cargo. É o que sempre fizeram os perseguidores. Os demais pecados procedem de uma certa simploriedade, de ignorância ou de satisfação pessoal desordenada, de certo prazer ou utilidade presente no ato mau. Naqueles pecados, o homem prejudica a si mesmo, ofende a mim e ao próximo. Ofende-me por não me glorificar; ao próximo por não o amar. Na realidade, não se ergue frontalmente contra mim; ergue-se contra si mesmo, e isso me desagrada. Já no pecado de perseguição contra a santa Igreja, sou ofendido diretamente. Os outros vícios possuem uma justificativa, uma razão intermediária. Já afirmei que todo o pecado e virtude são feitos no próximo (2.6). O pecado é ausência de amor e pelos homens; a virtude é amor caritativo. Neste pecado, os maus perseguem o próprio sangue de Cristo ao se investirem contra meus ministros, e privam-se de sua riqueza espiritual. Entre todos os homens, os sacerdotes são meus eleitos, meus consagrados, são os distribuidores do sangue do meu Filho, em quem vossa natureza está unida à minha. Quando consagram a eucaristia, os ministros o fazem na pessoa de Jesus. Como vês, realmente este pecado é dirigido contra meu Filho; por conseguinte, contra mim, pois somos um. É uma falta gravíssima. Não se dirige aos ministros, dirige-se a mim. Também o respeito demonstrado para com eles, considero-os como se fossem para mim e meu Filho. Por tal motivo te dizia que, se colocasses de um lado todos os demais pecados e este, sozinho, do outro, o último ser-me-ia mais ofensivo. Falei de tudo isso para dar-te motivo de maior preocupação, seja por causa do pecado com que me ofendem, seja pela condenação eterna dos infelizes perseguidores. Assim, o teu sofrimento e o dos meus servidores dissolverão a grande treva que desceu sobre estes membros apodrecidos, atualmente separados da jerarquia da santa Igreja. Infelizmente quase não acho pessoas que aceitem angustiar-se por causa das perseguições em curso contra o precioso sangue. Mais facilmente encontro quem atire continuamente flechas contra mim; são pessoas cegas à procura de fama. Consideram honroso o que é infame, infame o que é honroso; recusam humilhar-se diante do próprio superior. Com tais defeitos muitos ousam perseguir o sangue de Cristo, ferem-me profundamente. Quando podem, tanto se esforçam por prejudicar-me. Na realidade, não me danificam. Sou como a pedra que, ao ser batida, devolve o golpe a quem o deu. Mesmo os pecados mais vergonhosos não me causam males; são flechas envenenadas que a eles retornam em forma de culpa. Durante esta vida, privam-se da graça, e no dia da morte, não havendo arrependimento irão para a condenação. Vivem distantes de mim, atrelados ao demônio com quem se coligaram. Quando o homem perde a graça, amarra-se ao pecado. É um laço feito de ódio pelo bem e de amor pelo mal; uma corrente com que espontaneamente a alma se entrega ao diabo, pois isso ninguém a pode obrigar.
Este mesmo laço une os perseguidores da Igreja entre si e com o maligno; de comum acordo, aqueles desempenham a função do demônio. Esforça-se este por perverter os homens, induzindo-os ao pecado mortal; deseja que as almas tenham em si a maldade em que ele vive. Pois bem, fazem a mesma coisa os inimigos da Igreja: quais membros do diabo procuram levar os filhos da Igreja à revolta contra a jerarquia, afastam-nos da caridade, acorrentam-nos ao pecado, privam-nos dos benefícios da paixão. O vínculo que une tais perseguidores nasce do orgulho e da vanglória; com medo de perder os bens materiais, acabam perdendo a graça. De possuidores da dignidade de Cristo, decaem para a maior confusão interior possível. São pactos que trazem o selo das trevas. Desconhecendo os males e pecados em que vivem, neles fazem cair outros; inconscientes dos seus pecados, não se corrigem. Como cegos, caminham vangloriando-se para a destruição da própria alma e do próprio corpo.
Filha querida chora profundamente diante dessa cegueira e miséria. São homens que, como tu, foram lavados no sangue; que se nutriram no sangue; que cresceram no seio da santa Igreja. Agora, revoltados, abandonaram-na sob pretexto de corrigir os defeitos dos meus ministros. Eu já proibira tal comportamento, dizendo: “Não quero que meus ministros sejam ofendidos”. Autêntico terror deveria apossar-se de ti e dos demais servidores meus, quando ouvis falar de semelhantes alianças. Tua linguagem é insuficiente para referir quanto as abomino. O pior é que tais pessoas procuram encobrir seus defeitos sob o manto dos defeitos dos meus ministros. Não se lembram de que não existe capa que os esconda diante de mim. Na opinião pública, bem que passam desapercebidos; não em minha presença. Conheço os acontecimentos desta vida e muito mais. Pensei em todos vós e vos amei antes de vosso nascimento.
Um dos motivos pelos quais esses infelizes não se corrigem é a falta de fé. Julgam que não os vejo. Se acreditassem realmente que sei dos seus defeitos, se acreditassem que todo pecado é punido e todo bem recompensado, como expliquei em outro lugar (14.10), haveriam de corrigir-se e pedir humildemente o perdão. Nesse caso, pelo sangue de Cristo e os perdoaria. Mas vivem na obstinação, reprovados por tantos males. Arruinaram-se, vivem nas trevas, perseguindo cegamente a Cristo.
Em suma, ninguém deveria perseguir meus sacerdotes por causa de defeitos seus!

Fonte: Livro “O Diálogo” – Santa Catarina De Siena


Como perseverar na virtude, por Santa Catarina de Siena




1.Saudação e objetivo 
Em nome de Jesus Cristo Crucificado e da amável Maria, caríssimo filho no do Jesus Cristo, eu Catarina, serva e escrava do servos de Jesus Cristo, escrevo no seu precioso sangue, desejosa de ver-te perseverante em toda virtude.

2. A perseverança é fruto do amor
Sem a perseverança não alcançarás a coroa da glória, que é dada aos verdadeiros lutadores. Tu me dirás: “Onde posso achar a perseverança”? Responde-te. Uma pessoa só presta serviço a outra na medida do amor que lhe dedica. Não mais. Em tanto falhará em servir, quando falhar no amor. Mas também tanto amará, quando se sentir amada. Veja bem: ao sentir-se amada, a pessoa ama. É desse amor que nasce a perseverança. Portanto, à medida que abrires o olhar da tua inteligência para ver o fogo e o abismo do infinito amor de Deus por ti — amor revelado do Verbo, Filho de Deus — tu te verás obrigado a amar a Deus de todo o coração, com todo afeto, com todas as tuas forças, sem interesses, de modo puro, sem nenhuma procura de interesses pessoais. Compreenderás que Deus te ama para o teu bem, não para utilidade dele. Pois o Senhor é o nosso Deus, é a bondade suprema e eterna, que não pensa em proveito próprio. E amarás também o próximo para a sua utilidade. Construindo assim o alicerce e o amor em sua base, imediatamente começarás a praticar as virtudes. E através da iluminação divina e do amor, adquirirás a perseverança.

3.Não te esqueças da humildade
Ao compreenderes que és amado por Deus, é conveniente que medites sobre os teus pecados e tua ingratidão. Na cela do coração perceberás a gravidade de tua cupa. Valoriza, então, a pequena virtude da humildade, para não confiares nas tuas forças e não caíres na complacência de ti mesmo. Sabes que é importante conhecer os próprios pecados, sua gravidade, para poder conservar e aumentar a graça na alma? Isso se dá na mesma proporção que existe entre o alimento corporal para conservação da vida no corpo. Afasta de ti, pois, a nuvem do egoísmo para que ela não prejudique a iluminação da alma, favorecida pelo perfeito conhecimento e concretizada pelo ódio (ao pecado) e pelo amor (à virtude). Assim,no amor acharás a perseverança, cumprirás a vontade divina e o meu desejo a respeito de ti. Vontade divina e desejo meu, que consiste no ver-te crescer e perseverar até o dia da morte na práticas das verdadeiras virtudes.

4.Refugia-te na caverna do coração de Cristo
MAS CUIDADO DE NÃO CONFIARES EM TI MESMO. ESSA CONFIANÇA É SEMELHANTE A UM VENTO SUTIL DE ORGULHO, NASCIDO DO EGOÍSMO. IMEDIATAMENTE RETROCEDERA, OLHANDO PARA TRÁS (CF. LC 9,62). Da mesma forma como o amor de Deus te faz perseverante na virtude, o egoísmo e a procura de boa reputação te fazem cair no vicio e nele perseverar. Meu filho, foge desse sutil vento da boa reputação. Em tudo, procura esconder-te na chaga do peito do Crucificado. E uma vez aí dentro, fixa o pensamento no segredo coração de Cristo. Então acenderás a chama do teu amor. Entenderás que Jesus fez em seu corpo uma caverna, onde te esconderás dos inimigos, onde repousarás, onde acalmarás tua mente no fogo do amor. Ai acharás alimento, pois Jesus deu sua carne como comida e seu sangue como bebida. Aquela carne assada na chama do amor e aquele sangue servido no altar da Eucaristia. Dissolva-se hoje mesmo a dureza dos nossos corações. Que nossa mente se torne mais receptivas aos ensinamentos de Cristo.

5.Pensemos no Menino Jesus
Quero que tu e os demais filhos comeceis a ser mais semelhantes a este pequeno menino, o Verbo encarnado, que a santa Igreja agora nos apresenta (na liturgia). Para confusão do nosso orgulho, que poderíamos imaginar de mais sublime, que um Deus que se humilha à altura do homem? Ou demais grandioso, que a suprema divindade posta ao nível da humanidade? E por qual motivo? Por amor! O amor fez Jesus residir num estábulo de animais; o amar o cobriu de ultraje, o revestiu de sofrimento; e o fez padecer fome e sede. O amor o fez correr com pronta obediência para terrível morte na cruz. O amor o fez descer à mansão dos mortos para esvaziar o limbo dos patriarcas e dar prêmio àqueles que o haviam esperado e servido por longo tempo. Depois da ascensão, O amor fez Cristo enviar o fogo do Espírito Santo, que nos iluminou com sagrada doutrina, caminho que nos dá a vida, nos liberta das trevas e nos concede a eterna visão de Deus. O amor fez tudo! Envergonha-se quem não tem amor a Deus, quem não dá resposta a tão imenso amor. Que triste sorte é a de quem, podendo ter o fogo, deixa-se morrer de frio; quem, tendo o alimento diante de si, deixa-se morrer de fome! Tomai, tomai vosso alimento, o doce Jesus Crucificado! Por outros caminhos, não sereis constante e perseverante. Como ficou dito, é a perseverança que recebe o prêmio. Sem ela, a alma só terá o mal não a glória.

6.Conclusão
Foi refletindo sobre tudo isso, que afirmei estar desejosa de ver-te contante e perseverante na virtude. Nada mais acrescento. Permanecer no santo amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

(Santa Catarina de Sena, Cartas Completas)

http://paramaiorgloriadedeus.blogspot.com.br/2016/07/como-perseverar-na-virtude-por-santa.html#more

segunda-feira, 18 de julho de 2016

DIFERENÇA ENTRE SOLITUDE E SOLIDÃO

Adicionar legenda
Há uma palavra muito usada por Thomas Merton em suas obras, cuja tradução para o português é na verdade uma “traição”, pois encobre seu verdadeiro sentido. Trata-se da palavra solitude, traduzida invariavelmente por solidão em nosso país.


Por exemplo, o livro de Merton em inglês “Thoughts in Solitude” seria em Português “Pensamentos em Solitude”, porém foi traduzido como “Na Liberdade da Solidão”, e praticamente todas as vezes que aparece a palavra solidão no livro em português, a referência em inglês é solitude.


Qual é a diferença então entre solidão e solitude?


Essa pergunta foi feita num comentário a uma postagem nesta página e obteve a resposta da amiga Danielle Neroni, que citou uma frase muito esclarecedora de Paul Tillich, teólogo alemão:


“A linguagem criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho.” (Tillich)


Para Thomas Merton, somente a solitude permite experimentar a alegria do silêncio, do mergulho em si mesmo e do encontro com a Natureza e com Deus na contemplação. Trata-se portanto de uma palavra que, longe de expressar isolamento, nos remete ao Encontro.


Por isso, há tantas diferenças entre as palavras solitude e solidão quantas há entre silêncio e ruído, plenitude e vazio, alegria e tristeza, serenidade e ansiedade, etc.


O Professor Felipe de Souza* encontrou a citação de Paul Tillich no livro “The Eternal Now” (O eterno agora) e comparou as duas palavras em português, inglês e alemão:


[“A linguagem (…) criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho.” Em inglês: “Language… has created the word ‘loneliness’ to express the pain of being alone. And it has created the word ‘solitude’ to express the glory of being alone”.


Etimologicamente, em português, tanto solidão quanto solitude vêm do latim ‘solitudine’. No nosso cotidiano, passamos a usar sempre a palavra solidão e vemos muito pouco o uso da palavra solitude. Em inglês, a diferença entre solidão (loneliness) e solitude destaca melhor o conceito que Tillich está procurando descrever. Em alemão, igual diferença está presente nas palavras ‘Einsamkeit’ (solidão – loneliness) e ‘Alleinsein’ (literalmente, ser sozinho, solitude).”]


Mantra - Espirito Santo

sábado, 16 de julho de 2016

Espiritualidade das pequenas coisas: um modo de viver a fé no cotidiano

São nos pequenos feitos que nos alimentamos da espiritualidade e descobrimos o sentido de viver.

"Estava dormindo, porém meu coração se despertou,
foi a voz do meu amado chamando-o,
o Senhor, bendito seja Ele, dizendo: Abre-me uma abertura,
não seja ela maior do que o buraco de uma agulha,
e eu te abrirei as portas celestiais" - Sêfer haZohar - Livro do Esplendor.

Por Marcelo Silva*
Espiritualidade: abrindo a porta do desejo de saber sobre ela
Quando nós pensamos em espiritualidade do que estamos falando? O que vem a ser espiritualidade? Ao mesmo tempo em que está na boca de tantos, ela parece tão distante das atitudes e do cotidiano. Por que ela é tão importante hoje, na contemporaneidade?
Essas e outras perguntas nos apontam para a necessidade de um caminho a seguir. O convite que faço aos caros leitor e leitora é o da abertura interior e, ao mesmo tempo, exterior. Não precisa ser grande, mas basta ser sincera e interessada para com este tema que é, ao mesmo tempo, tão antigo e tão novo; atual e necessário à vida humana.
Espiritualidade: abrindo a porta de alguns autores em nossa compreensão
Como o combustível de um carro é o que o move em nossas andanças pela vida afora, pois é com ele que vamos onde desejamos, diminuindo distancias, fazendo pontes entre dois lugares, tornando possível os encontros festivos da vida e sereno os necessários quando o sofrimento bate à nossa porta, assim, também, é com a espiritualidade que podemos nos deslocar no chão da vida e, ficando de pé, nos movermos nas direções necessárias.
No exemplo do carro, o combustível não pode ser visto à olho nu, mas sabemos que está lá, no motor sustentando toda a engrenagem do carro. Assim também é com a espiritualidade na vida cotidiana das pessoas: não pode ser vista, mas é o que move o orante, o homem e a mulher espirituais.
Nesta direção, busquemos dar sentido a esta compreensão de espiritualidade a partir de três compreensões que se complementam.
Giordano Frosini vai nos dizer que a espiritualidade pode ser compreendida como sendo uma vida movida segundo o Espírito. Neste sentido, se o Espírito é sopro, ar, ele está em nosso meio para ser respirado, absorvido e ao mesmo tempo espalmado, ventilado aos quatro cantos.
Esta compreensão de espiritualidade coloca um acento na vida segundo o Espirito, que é movimento. Daí que, quem tem uma espiritualidade segundo o cristianismo, deve buscar movimentar sua vida em seu jeito de olhar, sentir, pensar e agir no Espírito de Deus.
Já o carmelita Frei Cláudio van Balen vai dizer que espiritualidade diz respeito a umamaneira determinada de viver a globalidade da vida, isto é, seus afazeres cotidianos, superações, desafios; alegrias, sofrimentos...  e projetos, tudo, orientado à luz da fé cristã.
Esta compreensão de espiritualidade tem a ver com “um jeito de ser” da pessoa perante a vida interior e exterior. Nesta via de Frei Cláudio, cada um vai ter seu próprio jeito para revestir-se desta globalidade. Vejamos um exemplo: 10 pessoas de um mesmo grupo, sob as mesmas circunstâncias, terão cada uma sua forma subjetiva e original de processar e transmitir uma mesma vivência. E isso depende da espiritualidade que ela alimenta. Pense num caso de enfermidade, ou de desemprego, ou de perda familiar. Veja como nestas horas somos testados em nossa espiritualidade.
Por fim, uma leitura não cristã. Certa vez, em diálogo com Leonardo Boff, Dalai-Lama definiu espiritualidade como aquilo que produz no ser humano uma mudança interior. Isto é, o que sustenta a base de vida de alguém e que no movimento interno e externo faz com que ela esteja constantemente em mudança, tornando-se uma pessoa melhor, capaz de transformar pedras em degraus, limões em limonadas, perdas em ganhos. Em geral, a qualidade e profundidade de nossa espiritualidade são testadas em momentos mais sofridos, difíceis e nos quais somos provados e comprovados na vida. É ali, na encruzilhada da existência, que decidimos, às vezes em uma pequena fração de tempo, novos rumos, trilhas, plataformas de vida que tanto podem nos edificar quanto nos subtrair em nossa edificação de fé e de humanidade.
Espiritualidade: uma via de integração dos opostos
Ao visitarmos de passagem os autores acima referidos, podemos concluir que a espiritualidade é o modo como cada um busca sustentar os apelos da vida e resistir, para não sucumbir, aos desafios do campo da morte – entendendo como morte tudo aquilo que nos subtrai, que nos rouba de nosso centro vital (bio-psíquico-sócio-espiritual). Vejam que ambos os autores nos apontam para um principio comum chamado movimento e crescimento interior e exterior.
Este princípio chamado movimento nos remonta à noção de Espírito (sopro, ar). É então no movimento entre a criatura e o Criador; o mundo imanente e transcendente; o corpo e a alma; ao que é material e espiritual; ou seja, tudo ao mesmo tempo que mostra-se distinto revela-se também misturado, irmanado num único ser que somos, sem separação.
Em todos esses pontos opostos do ser, mas que ao mesmo tempo se tocam e interagem ao longo da vida, descobrimos que algo se move dentro de nós e para além de nós o tempo todo. E esse algo podemos chamar de espiritualidade no cotidiano.
Espiritualidade das pequenas coisas: um modo de viver a fé no cotidiano
Mais do que nos grandes feitos, são nos pequenos que vamos nos alimentando da espiritualidade e descobrindo a força da vida e o sentido de viver. Os momentos festivos, comemorativos e celebrativos da vida só ganham o tom de relevância porque se apoiam na pujança do cotidiano. Vejam uma formatura de um filho. O casamento. Uma conquista relevante no campo do trabalho. Só festejamos com tanta intensidade porque a vida não é uma festa contínua. Só vivenciamos de forma quase que degustativa um momento ápice da vida, porque ele brota lá de baixo, do cotidiano. E isso vivido a partir da vida interior, espiritual é sublime. Cativante.
Mas vejam bem, para se ter este olhar, precisamos nos exercitar no tempo chamado cotidiano, das pequenas coisas, afazeres, rotina. No ir e vir da vida.
Vida esta que se mostra integradora se for sustentada na ordem das pequenas coisas, gestos, sentimentos. Pois é destas que chegamos às maiores, mais densas e, às vezes, pontuais em nossas vidas.
Esse quantum de alegria, felicidade e bem-estar é verdadeiro e importante na medida em que integra e transforma o ato de viver incluindo o Criador na criatura, a luz na escuridão, o todo nos detalhes, o prazer no sofrimento... o caos na ordem. E reunindo, nestes conjuntos vitais da existência, um aprendizado continuo. Isso é espiritualidade das pequenas coisas.
Por isso, a espiritualidade vive da gratuidade e da disponibilidade, vive da capacidade de enternecimento e de compaixão, vive da honradez diante dos quadros da realidade e da escuta da mensagem que vem permanentemente desta mesma realidade. Quebra a relação de posse das coisas para estabelecer uma relação de comunhão e gratidão com elas. Mais do que desejar possuir (coisas, pessoas, lugares e funções), vai aprendendo com a espiritualidade das pequenas coisas, a contemplar o milagre da vida e suas fragilidades.
Uma pessoa que busca nutrir-se desta espiritualidade no cotidiano procura exercitar-se na fé diante de cada acontecimento, pois o vê como uma oportunidade que a Vida e Deus nos dão. Seja de alegria ou de dor; de conquista ou de perda. E não sentirá mais necessidade de perguntar, por exemplo, diante das perdas “por que eu, Senhor?”, mas passa a um outro estágio da vida: “para que isso em minha vida, Senhor?”
Nas crises mais profundas, mesmo quando morre um ente querido, quando se desfaz um matrimônio, quando perdemos um filho por causa da droga, podemos sempre perguntar: "Qual o significado disso tudo para mim? Que coisa, que caminho, que direção esse acontecimento quer me mostrar?"; “Que sentido mais profundo essa realidade traz para mim? De que me purifica? Em que me pode fazer crescer?"
Enfim, uma pessoa de êxito, seja profissional, emocional, relacional e espiritual, terá sido, sempre antes destas conquistas, alguém com um olhar sensível sobre a realidade. Uma pessoa capaz de ver o que muitos não veem. Sentir o que muitos não sentem. Pensar e intuir o que muitos não intuíram e não pensaram. Uma pessoa capaz de ver nas pequenas coisas o milagre extraordinário de Deus na vida. E descobrirá nesta, inclusive, o maior e primeiro milagre de todos, dos quais os outros só serão possíveis de reconhecimento na medida em que esta vida for bem cuidada. Para que isso aconteça, invistamos na força do cotidiano, na espiritualidade das pequenas coisas, gestos, sentidos. Para que quando os grandes momentos chegarem sejamos capazes de reconhecê-los e saboreá-los como uma criança que saboreia, na estação das jabuticabas, cada uma delas: com o olhar, o olfato, o tato e o paladar. Amém!

Para pensar:
  • O que calou mais fundo no percurso deste texto em sua leitura?
  • Partilhe com um amigo, com uma pessoa íntima de sua vida, um acontecimento importante aos olhos da espiritualidade.

O re-encantamento do ser
(Marcelo Silva)

Dentro de cada um de nós há um sábio, um artista
e um  místico gemendo  como uma  mulher em dores de parto,
Fazendo nascer, à luz da aurora ou do crepúsculo,
As silhuetas de uma Nova Humanidade.
...Despertai, ó vós que dormis na escuridão nublada deste dia.
Deixai nascer de vós as promessas de um convite esperançoso:
Olhai o Reino acontecendo entre vós!
Deixar nascer de vós a semente do Logos Eterno,
Que não nos criou para a queda,
Mas sim para o soerguimento.
O  mundo está à espera de vossa resposta.
Enquanto ela não vier à luz de vossa consciência,
O  mundo das essências será mais pobre e torpe,
Pois um traço do Eterno não será desvelado ao Mundo das Formas...
No grande tecido humano, uma nova criatura lancinante segue em tatos,
Cacos e passos, ensaiando a chegada à terra prometida,
O Jardim perdido, onde lá diremos ao Criador:
Senhor, fazei-nos UM em VÓS.

http://domtotal.com/noticia.php?notId=1047992

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Vibrações de poesia


« Levantei-me cega pela dor e fui para a janela : não encontrava posição. A noite estava bela. Tudo dormia; a casa estava em silêncio.

Todo o meu ser estava morto. Contemplava o céu cintilante de estrelas ; a lua era brilhante. Meditava nas belezas e grandezas do meu Criador. Tudo quanto contemplava era motivo para mais ferir o meu pobre coração.
Fiquei por largo espaço de tempo num profundo ato de agradecimento ao Céu. Dizia a Jesus :
“Eu não vos vejo, eu não vos sinto, mas sei que sois o meu Criador 
e quando me criastes já sabíeis que eu hoje havia de estar aqui a 
contemplar as vossas grandezas, já sabíeis que a falta de ar que 
hoje sinto necessitava do vento que me dais. Um eterno obrigado, 
meu Jesus !”

O vento era forte : parecia que tudo derrubava. Obrigava-me a meditar os horrores do Inferno, a vida e os tormentos dos condenados.
De novo contemplava o céu e as estrelas. Pedia a Jesus que multiplicasse milhões e milhões de vezes mais do que as estrelas os meus atos de amor para os sacrários.
Não O queria sozinho, e [só lá] queria que Ele só lá tivesse amor... A minha alma continua a exigir a solidão.
É ao brilho das estrelas e luz do luar que eu sozinha me ponho a meditar. Peço a todos os astros que amem por mim a Jesus. E ao contemplar o céu, digo-Lhe repetidas vezes :
“Jesus, não Vos vejo, mas sei que me vedes a mim. Não sinto que Vos amo, mas confio que me amais. Alegrai-Vos na minha dor. Consolai-Vos na minha desconsolação. Curai as feridas do Vosso Divino Coração com a dor que no meu causam as Vossas grandezas” ».

- Beata Alexandrina

"Sem ela, nenhum bem pode ser feito."

«Agradece a Deus, irmão querido, porque Ele te revelou uma atração invencível em ti para a oração interior perpétua.[…]
Muitos cometem um grande erro quando pensam que os meios de preparação e as boas ações geram a oração, quando na realidade é a oração que é a fonte das boas obras e das virtudes.

Eles consideram erroneamente os frutos ou as consequências da oração como meios de chegar até ela e assim diminuem a sua força. Trata-se de um ponto de vista completamente oposto à Escritura, pois o Apóstolo Paulo assim fala da oração: ‘Eu vos recomendo antes de tudo rezar’ [1Tm 2,1].
Assim o Apóstolo coloca a oração acima de tudo: Eu vos recomendo antes de tudo rezar. Muitas boas obras são pedidas ao cristão, mas a obra da oração está acima de todas as outras, pois, sem ela, nenhum bem pode ser feito.
Sem a oração frequente, não se pode achar o caminho que conduz ao Senhor, conhecer a Verdade, crucificar a carne com as suas paixões e desejos, ser iluminado no coração pela luz de Cristo e unir-se a Ele na salvação.
Eu digo frequente, pois a perfeição e a correção da nossa prece não dependem de nós, como diz ainda o Apóstolo Paulo: ‘Nós não sabemos o que pedir como convém' [Rm8,26].
Somente a frequência foi deixada em nosso poder como meio de atingir a pureza da oração, que é a mãe de todo o bem espiritual. ‘Adquire a mãe e tu terás uma descendência’, diz Santo Isaac o Sírio, ensinando que, em primeiro lugar, é preciso adquirir a oração para poder pôr em prática todas as virtudes.[…]
A interior e constante oração de Jesus é a invocação contínua e ininterrupta do nome de Jesus, com os lábios, com o coração e com a inteligência, no sentimento de sua presença, em todo o tempo, em todo o lugar, mesmo durante o sono.
Essa oração se exprime pelas palavras: Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim! Aquele que se habitua a essa invocação sente uma grande consolação e a necessidade de rezar sempre essa oração; depois de algum tempo, ele não pode passar sem ela e por si mesma a oração brota nele.»
- Relatos de um peregrino russo

domingo, 10 de julho de 2016

A palavra de Deus é viva


"A palavra de Deus é viva", 
porque não muda. Eficaz, 
porque não falha. Penetrante, 
porque não se engana.

Não muda no que promete, 
não falha no que realiza, não 
se engana no julgamento.

Sua promessa não morre pelo 
esquecimento nem muda pela 
intenção.

Sua obra não é vencida pela 
dificuldade. Seu julgamento 
não é enganado pela ambigüidade.

Promete com veracidade, age com 
fortaleza, discerne com sutileza. 

A palavra de Deus é viva para que 
creiamos, eficaz para que esperemos, 
penetrante para que temamos.

É viva nos preceitos e nas 
proibições, eficaz nas promessas 
e nas ameaças, penetrante 
nos julgamentos e nas 
condenações.

Como, porém, a verdade 
de suas promessas e a 
onipotência de suas obras 
deve ser antes crida do que 
discutida, consideremos 
qual seja a sutilidade dos 
seus julgamentos.

- Hugo de São Vitor

A virtude da temperança