quinta-feira, 17 de julho de 2014



Thomas Merton, conhecido em seu mosteiro como Pe. Luís, nasceu em 31 de janeiro de 1915, em Prades, no sul da França. O jovem Merton freqüentou escolas na França, Inglaterra e Estados Unidos. Na Universidade de Columbia, em Nova York, sofreu influência de alguns notáveis professores de literatura tais como Mark Van Doren, Daniel C. Walsh e Joseph Wood Kruch. Merton entrou na Igreja católica em 1938 no rastro de uma dramática experiência de conversão. Logo depois, ele completou sua tese de mestrado, "On Nature and Art in William Blake." [Sobre a Natureza e Arte em William Blake].

Após lecionar cursos de extensão na Universidade de Columbia e no "St. Bonaventure's College", Merton ingressou na comunidade monástica da Abadia de Gethsemani, no Kentucky, em 10 de dezembro de 1941. Ele foi acolhido pelo abade Frederic Dunne que incentivou o jovem Irmão Luís a traduzir obras da tradição cisterciense e escrever biografias históricas visando tornar sua Ordem melhor conhecida.

O abade também insistiu para que o jovem monge escrevesse sua autobiografia que foi publicada sob o título de "The Seven Storey Mountain (1948)" [A montanha dos sete patamares (1948)] que tornou-se um best-seller e um clássico. Durantes os próximos 20 anos, Merton escreveu de forma prolífica sobre uma vasta gama de tópicos, incluindo vida contemplativa, oração, e biografias religiosas. Mais tarde, seus escritos se dirigiram para questões controvertidas (por exemplo, problemas sociais e responsabilidade cristã: relações raciais, violência, guerra nuclear, injustiça econômica) e incluíram uma crescente preocupação ecumênica. Ele foi um dos primeiros católicos a tecer comentários sobre as grandes religiões do Oriente para os católicos romanos do Ocidente.

Merton morreu eletrocutado acidentalmente em Bangkok, Tailândia, quando participava de uma conferência de líderes religiosos em 10 de dezembro de 1968, exatos 27 anos da data da sua entrada na Abadia de Gethsemani.

Muitos admiram Thomas Merton como um mestre espiritual, um escritor brilhante e um homem que incorporou a busca de Deus e a da solidariedade humana. Desde sua morte, inúmeros livros seus foram publicados, inclusive cinco volumes de suas cartas e sete dos seus diários pessoais. Pelas últimas contagens, mais do que 60 títulos de escritos de Merton continuam sendo publicados em inglês, além de numerosas teses de doutoramento e livros sobre o homem, sua vida e seus escritos.

Os Monges de Atlas: Amantes do Lugar e dos Irmãos

por Dom Bernardo Bonowitz, OCSO*
1/6/2011 - Um pouco do contexto histórico em que os sete monges cistercienses do mosteiro de Nossa Senhora de Atlas, na Argélia, martirizados quinze anos atrás, no dia 21 de maio de 1996

Foi a Alberico, segundo abade de Cîteaux no início do séc. XII, que a descrição foi dada pela primeira vez: “Amante do lugar e dos irmãos”. Desde então, estas palavras passaram a constituir o maior elogio que um monge cisterciense poderia dar a outro. Um verdadeiro cisterciense, nesta acepção, é alguém que, pelo lento e seguro trabalho do Espírito Santo, chega a se identificar totalmente, por amor, com o mosteiro no qual ele passa a sua vida e com a comunidade dentro da qual, e com a qual, ele busca a face de Deus. Nestas breves palavras em latim, amatores loci et fratrum, percebemos a centralidade do amor no carisma cisterciense. Melhor ser reconhecido como alguém que ama do que ser aplaudido como “santo” ou “místico”. E melhor amar com ardor e perseverança o lugar e as pessoas particulares que constituem o contexto específico de nossa vida do que amar genericamente o universo, o meio-ambiente ou a “humanidade”.
Os sete monges cistercienses do mosteiro de Nossa Senhora de Atlas, martirizados quinze anos atrás – no dia 21 de maio de 1996 – também merecem ser chamados de “amantes do lugar e dos irmãos”. Homens do final do séc. XX, eles criaram – talvez sem a intenção de fazê-lo – uma outra interpretação e maneira de atualizar a realidade contida nestas palavras. Mas a mim, um de seus irmãos cistercienses, parece que eles realmente conseguiram encarnar e dar visibilidade a este duplo amor.
Tentemos compreender de três pontos de vista este amor dos monges de Atlas para com o lugar e os irmãos: Argélia e seu povo; o mosteiro de Atlas e a comunidade monástica; o Deus transcendente e Jesus. De fato, é na síntese destes três elementos que se encontra o cerne de seu testemunho.

I. Amar o lugar e os irmãos: O País e o Povo da Argélia
Os monges cistercienses trapistas que compunham a comunidade de Atlas nas últimas décadas do séc. XX não eram argelinos, mas franceses. Alguns deles tinham vínculos anteriores com a Argélia, tendo passado parte de sua infância naquela que era então uma colônia francesa, ou prestando serviço militar do lado da França durante a guerra argelina de independência. Cada um deles havia encontrado o seu caminho para uma das grandes, históricas abadias francesas de nossa Ordem: Aiguebelle, Bellefontaine, Tamié. E todos eles acreditavam que na espiritualidade e estilo de vida de Cîteaux eles haviam encontrado a sua vocação. Todavia, cada um deles se sentia chamado a viver sua vocação num contexto mais simples, mais aberto, menos institucionalizado; e, por caminhos diferentes, acabaram recebendo permissão para se transferirem à pequena e necessitada comunidade de Atlas no norte da Argélia (tão pequena e necessitada que na década de 60 quase chegou a ser fechada pela Ordem).
Originalmente, a sua atração por Tibherine (a cidade mais próxima do mosteiro) pode ter sido negativa e individualista: sair de uma atmosfera quase empresarial de um grande mosteiro tradicional, e encontrar as circunstâncias mais favoráveis para o seu próprio crescimento espiritual. Mas, quanto mais tempo os monges ali passavam, mais a ênfase se tornava positiva e relacional. Eles se apaixonaram pela paisagem, pela cultura, pela tradição religiosa, pelo povo local. Não se tratava mais de “sair” daquilo que impedia a sua busca espiritual, mas descobrir na realidade da Argélia a “terra santa” da sua busca e do seu encontro. Geograficamente, eles tinham duas referências constantes: os impressionantes picos das montanhas Tamesguida e, em menor escala, a sua horta, que requeria constantes e elaborados cuidados mas que constituía para eles um genuíno oásis no meio da aridez e do calor da região. Entretanto, para eles o “lugar” Argélia significava muito mais do que terreno físico. Era uma cultura tradicional, com sua língua árabe, sua profunda piedade que desabrochava do Corão e os profundos valores éticos e morais próprios do Islamismo. Como outros padres e religiosos franceses vivendo na Argélia pós-independência, Dom Christian de Chergé, o superior da comunidade, e seus monges se puseram a assimilar ativamente a cultura que os circundava. Era um novo tipo de evangelização, uma evangelização “anticolonial”. Os monges de Atlas se consideravam discípulos, beneficiários, daquilo que o Corão, a tradição mística muçulmana e a vida centrada em Deus do povo humilde de Tibherine tinha a lhes ensinar. Nem em pensamento os monges de Atlas consideravam como sendo sua missão a de “converter” os habitantes do vilarejo ao Cristianismo. Tampouco eles pensavam na possibilidade de uma eventual conversão ao Islã. Eles eram cristãos, seguidores de Jesus – a quem o Corão se refere sob o nome de “Isa”. Eles viviam todos os dias o tradicional ciclo católico de Ofício Divino e celebravam todos os dias a Eucaristia como fonte de sua alegria e de sua força. Ao mesmo tempo, de maneira alguma eles desconfiavam do ambiente muçulmano que os circundava, ou viviam receosos de uma possível “contaminação”. Eles achavam que quanto mais vivessem em imitação de Jesus mais eles entrariam em comunhão com a fé e a oração dos seus vizinhos muçulmanos, seus irmãos. Eles estabeleceram grupos de estudo, tanto para religiosos cristãos como de cristãos e muçulmanos, na tentativa de compreender cada vez melhor a riqueza do Islã e a profunda, ainda que inexplorada, unidade entre o Corão e o Evangelho.
Talvez o que mais tenha conquistado os corações dos monges neste esforço foram os moradores do vilarejo. Estes eram os “irmãos” que os monges de Tibherine aprenderam a amar cada vez mais. No caso de Christian, este amor e admiração tomaram posse dele já durante dos anos da guerra de independência de Argélia. Como soldado francês, ele servia como uma espécie de “emissário de paz” junto aos vilarejos do interior, buscando convencer os argelinos que de fato os franceses eram seus amigos e benfeitores. Uma noite, Christian e seus homens sofreram uma emboscada da parte de revolucionários. Sua vida esteve por um fio, até que seu guia muçulmano nativo, Mohammed, interveio em seu favor junto aos insurgentes, garantindo-lhes que se tratava de um homem de bem, um homem de Deus. Christian pôde prosseguir com os seus soldados; porém, no dia seguinte, Mohammed foi encontrado morto, vítima dos insurgentes que consideraram sua intervenção intolerável. Para Christian, o sacrifício de Mohammed foi inesquecível. Era para ele um símbolo – quase um sacramento – do dom da vida de Jesus para seus amigos. A partir de então, algo foi desencadeado que ocuparia Christian pelo resto de sua vida: o desejo de ser amigo e irmão deste povo, do qual um representante havia livremente oferecido a sua vida por ele.
Christian e seus co-irmãos encontraram muitas confirmações do comportamento de Mohammed entre o povo das redondezas. Certamente eles encontraram muita pobreza, “atraso” e falta de educação formal. Mas encontraram também abundante generosidade, fraternidade e lealdade. As pessoas aproximaram-se do mosteiro sem hesitar, com suas necessidades de conselho, dinheiro e assistência médica (um dos monges de Atlas, Ir. Luc, era médico). Raras eram as vezes quando compareciam ao mosteiro de mãos vazias. Quase sempre traziam pequenos presentes, junto com seu sentimento de comunidade partilhada com os monges e seu desejo de rezar com eles, especialmente à Virgem Maria, muito venerada no Islã. Como resultado, a comunidade pouco a pouco acabou adotando uma política de “portas abertas” com os habitantes locais, maior do que tradicionalmente se vê no monaquismo trapista. Ir. Luc estava quase sempre “de plantão”, atendendo as necessidades médicas do povo de Tibherine. Outros monges, com suas palavras amigas e ponderadas, serviam de mediadores nos conflitos familiares. Quando Ir. Christophe foi ordenado sacerdote, um grande contingente de pessoas do vilarejo participou da celebração. Em contrapartida, os monges de Atlas podiam ser vistos, às vezes, participando de celebrações dos seus irmãos e irmãs muçulmanos. Para os habitantes locais, os monges de Atlas eram os “nossos monges”. Irresistivelmente, por sua vez, o povo de Tibherine se tornou “a gente” dos monges.

II. Amar o Lugar e os Irmãos: O Mosteiro e a Comunidade Monástica
Formar uma comunidade verdadeiramente fraterna de monges provenientes de diversos mosteiros não é uma tarefa simples. Cada mosteiro possui sua cultura própria e suas próprias tradições, e é provável que monges que venham viver juntos, provindos de três mosteiros diferentes, experimentem fortes atritos em sua tentativa de estabelecer uma nova comunidade. Ainda mais quando o perfil destes monges é o do solitário – o tipo “na dele”, como se diz no Brasil. Afinal de contas, não é todo monge que, após ter entrado num mosteiro estruturado, que funciona bem, na Europa, sentirá o apelo de partir para o norte da África e abraçar uma existência com um aspecto quase eremítico. Mas é isto o que cada um destes sete monges fez, assim como os outros dois membros da comunidade que miraculosamente não foram feitos reféns na noite de 26 para 27 de março de 1996, um dos quais está vivo até hoje.
Realmente, pelo que sabemos, não era fácil “construir comunidade” em Atlas. Cada um dos monges, à sua maneira, tinha uma personalidade forte, e quando nasceu neles a ideia de sair de si mesmos para entrar em comunhão, o impulso era originalmente dirigido mais aos seus vizinhos muçulmanos, do que aos seus irmãos trapistas. Só para dar um exemplo, havia constantes dificuldades no coro sobre o canto. Com uma certa frequência, um ou outro monge simplesmente se levantava irritado e deixava a capela no meio do Ofício Divino - algo que a Regra considera inaceitável.
Progressivamente, porém, aquilo que os monges experimentavam com os habitantes locais ia exercendo uma influência dentro da comunidade. O intenso sentido de fraternidade e de pertença mútua entre o mosteiro e o vilarejo “invadia” o próprio mosteiro. Christian veio a reconhecer que seus irmãos monges tinham a mesma fome de compreensão e de diálogo do que a população local, e ele estabeleceu a meta de disponibilizar tempo suficiente para dialogar com os irmãos. Christophe, poeta e introvertido por natureza, pouco a pouco se abriu à luz e calor da comunidade monástica, na qual ele cresceu e se expandiu. Os irmãos, enquanto grupo, se tornaram mais tolerantes das idiossincrasias uns dos outros, e ao fazê-lo cumpriram um dos grandes preceitos da lei de Cristo tal como formulado na Regra de S. Bento: “Que suportem pacientissimamente as fraquezas uns dos outros, quer do corpo, quer do caráter”. Cada vez mais eles se tornaram o tipo de comunidade sonhada por S. Bento, onde “os fortes têm algo pelo que lutar e os fracos não precisem fugir.” Esta unidade amorosa nunca se manifestou mais claramente do que no longo discernimento comunitário que os monges fizeram sobre a permanência em Tibherine após a primeira invasão ao mosteiro, na véspera do Natal de 1994, e as ameaças de morte subsequentes. No início do processo de discernimento,ainda havia uma atitude de “cada um por si” no que dizia respeito ao futuro da comunidade, e em particular a respeito da decisão de permanecer ou partir. No final, porém, surgiu uma unanimidade pacífica – uma determinação comunitária de manter-se firmes – que era o fruto da graça do Espírito Santo, que havia conseguido fazer de todos eles “um só coração e uma só alma”.
Por que eles escolheram permanecer em Tibherine apesar das advertências de grupos extremistas, dos convites para se mudarem para outro ambiente dentro da própria Argélia, da possibilidade de se transferirem para a sua própria casa anexa no Marrocos ou até mesmo de voltarem para a França? E além disso, apesar de um comentário feito pelo abade geral alguns anos antes de que “a Ordem precisa de monges, não de mártires”? Eles ficaram porque haviam se tornado “amantes do lugar”. Escolheram ficar, porque, em primeiro lugar, o mosteiro de Tibherine – os prédios, os campos, os arredores – era a expressão visível da sua identidade espiritual e monástica, como é verdadeiro afirmar de cada mosteiro. Ali estava a sua própria identidade, escrita em madeira e pedra. Talvez ainda mais importante: os monges perceberam que na situação política argelina, que se degenerava durante os primeiros anos da década de 90, o mosteiro de Atlas era uma afirmação de esperança, paz e reconciliação. Contra o pano de fundo instável do governo nacional (dedicado aos seus próprios interesses), partidos políticos de inspiração religiosa, movimentos socialistas e grupos extremistas islâmicos, Atlas, até 1996, continuava existindo como um lugar de diálogo interreligioso, como uma comunidade amada e respeitada pelos seus vizinhos muçulmanos e, acima de tudo, como um mosteiro – um lugar onde o Deus Único podia ser amado, obedecido e servido na rotina diária de trabalho e oração. A existência de Atlas afirmava que no coração da Argélia existia uma realidade mais profunda e mais forte do que a violência.

III. Amar o Lugar e o Irmão: Deus e Jesus
Por uma estranha coincidência, tanto em certas correntes da espiritualidade semítica quanto em certos autores cistercienses do séc. XII, um dos títulos de Deus é “O Lugar” (makom; locus). Como Lugar, Deus é onipresente, é a Presença; tudo Nele habita, em tudo Ele se encontra. Ele é o mistério transcendente no qual todas as coisas “vivem, se movem e existem” (At 17,28). Ele está além da compreensão, mas não além da adoração.
Os monges de Atlas adoravam este Deus imensurável, “O Lugar”, no abandono de sua obediência confiante. De alguma forma, esta profunda humildade diante de Deus também era fruto da sua interação com o Islã. A própria palavra “Islã” significa “submissão” – não imposta, não motivada por medo nem por uma noção errônea da inacessibilidade de Deus, mas por uma profunda reverência diante de Sua presença – como a reverência de Moisés diante da Sarça Ardente ou de Elias diante do Deus que manifestou Sua glória no murmúrio de uma brisa suave. Assim como Moisés tira as suas sandálias e Elias cobre seu rosto, assim o homem devoto, que sempre caminha na Presença de Deus, continuamente reconhece sua existência como um dom recebido de Deus e continuamente a devolve entre as Suas mãos. Christian, Christophe, Luc e os demais chegaram a esta humilde santidade durante os anos em Atlas. Nos últimos meses de suas vidas, visitantes e amigos ficavam impressionados com a serenidade imperturbável que eles irradiavam em circunstâncias que deveriam ter gerado extrema ansiedade e incerteza. Esta serenidade ainda ecoava na gravação de suas vozes, enviada ao governo francês por seus seqüestradores, em maio de 1996. Anos antes de sua morte, no seu agora famoso “Testamento”, escrito na forma de uma carta para a sua família, Christian tinha escrito: “Gostaria que minha comunidade, minha Igreja e minha família se lembrassem que eu dediquei toda a minha vida para Deus e para a Argélia”. Esta dedicação irrevogável da própria existência a Deus por causa de um bem amado por Deus – neste caso, a Argélia – é a essência da vida em e para O Lugar. “Tão certo quanto o Senhor Deus vive, em cuja Presença me encontro” (1Rs17,1).
Para todos os monges de Atlas, o irmão por excelência a quem dedicavam seu amor, era o próprio Jesus. Como tantos outros cistercienses, eles eram fascinados pela sua “sagrada humanidade”, pela maneira como ele dava forma humana ao amor divino. Este homem Jesus era a sua única e absoluta medida, a orientação perpétua de suas vidas individuais e comunitárias. Era ele que eles estavam sempre expressando – ou tentando expressar – nas suas ações diárias, e era ele que eles estavam sempre acolhendo nas suas interações diárias com os seus vizinhos. Nesta adesão absoluta à humanidade de Cristo, os monges de Atlas estavam completamente de acordo com seus irmãos e irmãs cistercienses ao redor do mundo, que na década de 90 estabeleceram a “conformação a Cristo” como o enfoque principal de seus Capítulos Gerais.
No centro da sua conformação a Jesus havia uma decisão inabalável de trilhar o caminho da fraternidade e do perdão – de não tomar partidos, mas de insistir em ser e em permanecer como irmãos de cada ser humano, criado à imagem de Deus. Como Christian explicou numa entrevista pouco antes do seu sequestro: “Nós [monges] chamamos os terroristas de ‘irmãos da montanha’ e o exército de ‘irmãos da planície’”. E se alguém for ofendido por seu irmão? Christian responde: “Perdão é o primeiro nome para Deus na ladainha muçulmana de noventa e nove nomes para o Divino”.
Os monges de Tibherine eram amantes do lugar e dos irmãos na cultura dentro da qual eles foram inseridos, assim como no claustro do seu mosteiro e no mistério do Deus inefável e de Jesus, presente e ativo em cada ser humano. Fiéis à sua tradição cisterciense, eles acrescentaram novos ingredientes à maneira de se viver a santidade monástica. E estes não foram perdidos. Neste exato momento, há um grupo de monjas trapistinas na Síria construindo o seu mosteiro e construindo um ambiente espiritual no qual cristãos e muçulmanos podem trilhar juntos o caminho da paz, cada grupo iluminado e inspirado pela santidade do outro.

*Dom Bernardo Bonowitz é Abade do Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo em Campo do Tenente (PR). Este texto foi originalmente publicado na revista O Mensageiro de Santo Antônio.

Os Sete Mártires de Atlas

  O Mosteiro de Nossa Senhora de Atlas foi fundado pela Ordem Cisterciense da Estrita Observância em Tibhirine, na Argélia. Por se tratar de um país de maioria muçulmana, o mosteiro nunca teve muitas vocações e sua presença sempre foi um testemunho amistoso de diálogo inter-religioso.
A partir do final da década de 1980, grupos islâmicos fundamentalistas começam a espalhar o terror pelo país, em especial contra os estrangeiros e as minorias não-muçulmanas. A onda de violência atinge o mosteiro pela primeira vez no Natal de 1993, quando um grupo armado ameaçou a comunidade trapista, caso não deixassem em breve o país. Diante da violência crescente e inclusive dos assassinatos de diversos religiosos e missionários cristãos, os monges de Tibhirine optaram por permanecer no país, mesmo diante do risco da morte, por amor e em solidariedade ao povo argelino. As ameaças continuaram por mais dois anos e meios e assumiram uma forma trágica na noite do dia 26 de março de 1996, quando o mosteiro foi invadido por homens fortemente armados e encapuzados, que raptaram 7 dos 9 irmãos da comunidade. Estes foram mantidos em cativeiro até o dia 21 de maio de 1996, quando foram degolados pelos extremistas.
Os escritos que eles deixaram mostram uma clara consciência da possibilidade do martírio e uma aceitação pacífica de tudo aquilo que Deus, em sua Providência, tiver reservado para eles. Sua perseverança na Argélia sempre foi para eles uma demonstração comunitária de amor pelo povo argelino.

http://mosteirotrapista.org.br/index.php?page=santos&id=5

segunda-feira, 14 de julho de 2014

UM CORAÇÃO ABERTO A TODOS

[PERDOAI  SEREIS PERDOADOS – Lc 6, 36]
Um dos primeiros seguidores de Josemaria Escrivá – filho de um destacado republicano perseguido por Franco, que conseguiu salvar a vida exilando-se na Argélia – foi Pedro Casciaro, então estudante de Matemática e de Arquitetura em Madrid. Esse rapaz pôde acompanhar São Josemaria em todas as aventuras  do período conturbado da preguerra e da guerra e, por isso, é testemunha valiosa, sobretudo porque deixou suas memórias escritas num excelente livro, já publicado no Brasil: Sonhai e  ficareis aquém (Ed. Quadrante, 2013).
Conta Pedro que o Padre (assim o chamavam todos) «nos infundia serenidade e a sua atitude ponderada e equânime contrastava totalmente com o ambiente radicalizado que nos cercava. Jamais discutia sobre questões políticas: os seus juízos sobre o que estava acontecendo eram sempre profundamente sacerdotais… Sofria muito: pela Igreja e pela situação de seu país, que tanto amava; e respeitava, no que se refere à vida pública, todas as opiniões legítimas de um cristão».
Recorda que, entre os poucos membros do Opus Dei e outros jovens que Escrivá orientava espiritualmente, havia grande diversidade de posições, «e nos ensinava a ter um grande respeito pela liberdade de cada qual».
Um desses jovens que procuravam orientação, José Luis Múzquiz, engenheiro recém formado, comenta que vários deles tinham curiosidade por saber qual era a linha política com a qual o padre simpatizava. «Eu perguntei-lhe – escreve – a sua opinião sobre um personagem político muito falado na época. Respondeu-me imediatamente: “Olha, aqui nunca te vão perguntar por política; vêm pessoas de todas as tendências: carlistas, de Ação Popular, monarquistas de Renovação Espanhola… E ontem estiveram aqui o Presidente e o Secretário da Associação de Estudantes Nacionalistas Bascos… Pelo contrário, vão te fazer outras perguntas mais incômodas: perguntarão se fazes oração, se aproveitas o tempo, se teus pais estão contentes, se estudas, pois para um estudante estudar é obrigação grave…”».
Pedro Casciaro confirma essas lembranças com a força do seu testemunho de  filho de um republicano perseguido que, como o pai, teve de sofrer também pessoalmente perseguição da parte dos franquistas:
«Num clima de revanchismo exacerbado, jamais vi nem ouvi no Padre expressão alguma que não fosse serena, prudente e caridosa para com todos. E dos que naquela altura estivemos mais perto dele, poucos talvez pudessem estar tão sensibilizados como eu, por causa da minha complexa situação familiar. Eu teria detectado instantaneamente um comentário ofensivo, um gesto de desprezo, uma alusão; mas nunca houve nada disso. O Padre nunca falava de política: queria e rezava pela paz e pela liberdade das consciências; desejava, com seu coração grande e aberto a todos, que todos voltassem e se aproximassem de Deus [...]. Nunca formulou uma acusação contra ninguém: quando não podia louvar, calava-se. Jamais teve uma expressão de rancor. Naquela época, não era nada fácil unir o amor à justiça com a caridade; mas o Padre soube fazê-lo admiravelmente».
Trecho do livro de F. Faus O homem que sabia perdoar (Ed. Indaiá 2012)

O pregador da misericórdia

[PERDOAI  SEREIS PERDOADOS – Lc 6, 36]
5. PREGADOR DA MISERICÓRDIA CRISTÃ
Num asilo de emergência
São Josemaria Escrivá, no período da guerra civil espanhola em que mais violenta foi a perseguição religiosa, refugiou-se na Legação de Honduras de Madrid, e lá permaneceu asilado – com alguns jovens que se contavam entre os primeiros membros  do Opus Dei –  de maio a agosto de 1937. Nessa perseguição, foram martirizados treze bispos, 4.184 padres diocesanos, 2.365 padres e irmãos membros de institutos religiosos,  283 freiras e numerosos leigos católicos. Muitos deles já foram beatificados ou canonizados.
Como acontecia com outros asilos diplomáticos, aquela casa estava atulhada de refugiados. Todos eles, como São Josemaria Escrivá, fugiam de uma perseguição injusta, que punha em risco as suas vidas, além dos bens materiais, a família e a carreira. Tinham motivos de sobra para que neles – com os nervos em frangalhos –, fermentasse um forte ressentimento contra os perseguidores, a revolta contra os responsáveis por tamanho descalabro. E, no entanto, junto do Pe. Escrivá, nada disso havia. Não era coisa natural. Ali havia algo que escapava aos parâmetros humanos habituais: a grandeza do espírito de fé, unido a um incrível espírito de compreensão, convivência e perdão.
O genro do Cônsul declarou, certa vez, que este sacerdote estava «continuamente preocupado pelo que vinha acontecendo, se bem que, ao mesmo tempo, estava muito por cima das circunstâncias …. Nunca se pronunciou com ódio nem com rancor a respeito de ninguém; limitava-se a dizer: “Isto é uma barbaridade, uma tragédia”. Doía-lhe o que se passava, mas sempre dentro de uma perspectiva mais alta. E quando nós celebrávamos vitórias, o Pe. Josemaria permanecia calado».
Diariamente dirigia um tempo de meditação, que fazia juntamente com seus cinco acompanhantes. A sua oração era uma meditação em voz alta, uma pregação em que se fundiam o comentário espiritual e o diálogo direto com Deus.
Transcrevo a seguir trechos de algumas dessas meditações, anotadas, na hora, por um dos presentes – Eduardo Alastrué – , que bastam por si sós como ilustração do espírito de São Josemaria no tempo da guerra:
─ «Dá-me, Senhor – pedia no dia 10 de abril –, a graça da misericórdia, a graça de que eu também seja misericordioso com os outros. Intransigência comigo mesmo, compreensão com os que me rodeiam. Que não julgue, para não ser julgado».
─ «A revolução – dizia em 24 de agosto – surpreendeu-nos absorvidos no nosso trabalho, preocupados unicamente pelo anseio de servir a Deus … Se permanecermos fiéis, será que o Senhor não nos preparará um porvir fecundo; mais ainda se tivermos coberto com o adubo dos nossos sofrimentos o terreno onde há de nascer a colheita? … Assim, crendo e esperando nEle, amando-o com todas as nossas forças, viveremos contentes e cheios de paz, sejam quais forem as circunstâncias que nos rodeiem. Não nos faltará alegria nem no meio da fome, nem sofrendo tantas desconsiderações, nem carecendo de liberdade. Devo confessar que tenho sofrido aqui horrivelmente; mas devo dizer  também que tenho experimentado alegrias muito profundas neste encerramento… Formulemos para hoje um propósito concreto: não nos enraivecermos por nada, nunca nos aborrecermos, aconteça o que acontecer».
─ Em 30 de maio, perguntava: «Queremos ser duros quando Cristo não o é? A sua justiça funde-se com a sua misericórdia e as duas juntas produzem um maravilhoso equilíbrio, cujo dom devemos implorar para nós».
─ «Em vez de nos precipitarmos a julgar o nosso próximo  – são palavras de 20 de junho –, e talvez a condenar duramente, temos de pensar no que seria de nós se tivéssemos estado no ambiente em que viveu o homem que julgamos; se tivéssemos lido os livros que leu; se tivéssemos sentido as paixões que o dominaram. Esta consideração porá no nosso trato com ele a caridade … Não nos basta como exemplo o caso de Paulo que, depois de ter sido perseguidor de cristãos, foi exemplo para todos? Compreensão, pois; essa criatura, que talvez no nosso interior desprezamos e condenamos, quem sabe se, uma vez corrigida, purificada, convertida em espiga sã, não produzirá frutos mais saborosos do que nós?».
 Adaptação de vários trechos do livro de F. Faus “O homem que sabia perdoar” (Ed. Indaiá)

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A História e Biografia de Thomas Merton

Um monge trapista que encontrou o catolicismo após anos de busca espiritual ajudou a mudar as vidas de um grande número de pessoas nas décadas de 1950 e 1960.
Thomas Merton nasceu em Prades, na França, em 1915. Sua família se mudou para os Estados Unidos no ano seguinte. A mãe de Merton, que era americana, morreu quando ele tinha 6 anos e seu pai, natural da Nova Zelândia, faleceu dez anos depois.
Após estudar por um ano na Faculdade Clare, em Cambridge na Inglaterra, Merton voltou aos Estados Unidos e fez mestrado em inglês pela Universidade de Columbia. A combinação de sua condição de órfão com sua mente brilhante acabou transformando-o em um viajante ávido por experiências. Quando jovem, Merton adotou um estilo de vida que envolvia drogas, relações sexuais promíscuas e outros aspectos de vida boêmia. Então, em 1938, encontrou a Igreja Católica e sua vida virou drasticamente para outra direção.
Depois de lecionar por dois anos na Universidade Boanaventure, Merton entrou para o mosteiro de Gethsemani, dos Cistercienses da Estrita Observância, em Bardtown, no estado de Kentucky nos EUA, em dezembro de 1941. Conhecidos popularmente como ”trapistas”, os monges cistercienses se isolavam do mundo e de suas distrações. Merton adotou inteiramente esse estilo de vida, mas também aceitou o incentivo dado por seus superiores para que escrevesse.
E ele de fato escreveu. Em 1948, a autobiografia espiritual de Merton, A Montanha dos Sete Patamares, foi publicada. Tornou-se um best seller, basicamente através do boca a boca. O livro conta a história das confusões espirituais de sua juventude e sua conversão ao catolicismo. Pelas décadas seguintes, inúmeras pessoas – acadêmicos, padres e aqueles que buscavam um caminho espiritual – anunciaram publicamente que a leitura de A Montanha dos Sete Patamares havia sido um marco em suas vidas.
Durante a tumultuada década de 1960, Merton prestou mais atenção aos eventos do mundo ”exterior”. Seu eremitério no mosteiro tornou-se uma espécie de ponto de peregrinação para idealistas e ativistas. Em 1968, ele pediu permissão a seus superiores para viajar para a Tailândia a fim de assistir a uma importante convenção de monges budistas. O fato não tinha precedentes, pois os monges trapistas faziam um voto perpétuo de retiro do mundo externo. Entretanto, o abade concedeu a permissão e, no final daquele ano, Merton seguiu para a Índia.
Em 4 de novembro de 1968, ele se encontrou com o Dalai Lama em Dharmasala. Os dois homens descobriram uma base espiritual comum. Quando se despediram, o Lama elogiu Merton por sua grande erudição. Merton seguiu para Bangcoc, onde fez a abertura da convenção de monges budistas.
Tragicamente, poucas horas depois, foi encontrado morto em seu quarto de hotel depois de levar um choque elétrico na banheira. A data era 10 de dezembro de 1968, 27 anos após o dia em que entrara para o mosteiro de Gethsemani. Seu corpo foi transportado para lá, onde foi enterrado.
http://www.ahistoria.com.br/biografia-thomas-merton/

Tão secreto quanto Deus

“ O eu interior é tão secreto quanto Deus e, como Ele, escapa a todo conceito que tente apoderar-se dele por completo. É uma vida que não pode ser pega e estudada como um objeto, porque não é “uma coisa”. Não é alcançada nem pode ser persuadida a deixar de se esconder, seja qual for o processo que exista sob o sol, inclusive a meditação. Tudo o que podemos fazer com qualquer disciplina espiritual é produzir dentro de nós um pouco de silêncio, humildade, desinteresse, pureza de coração e desapego que se fazem necessários para que o eu interior faça uma tímida e imprevisível manifestação de sua presença.”The Inner Experience: Notes on Contemplation, de Thomas Merton.
Editado por William H. Shannon
(HarperSanFrancisco, a Division of HarperCollinsPublishers, New York), 2003. p. 7

Temor da força de Deus

“ A fumaça branca subindo no vale, contra a luz, lentamente assumindo a forma de animais, contra o fundo escuro das colinas cobertas de bosques. Ameaçadoras e plácidas, vindas talvez de queimadas na mata, talvez de uma casa, provavelmente não de uma casa. Manhã fria e quieta, olho os carrapatos na escrivaninha. Nada produzo.

Talvez eu seja mais forte do que imagino. Talvez tenha medo da minha própria força e me volte contra mim mesmo para me enfraquecer. Talvez o que eu mais tema seja a força de Deus em mim.

Simplesmente é tempo de rezar com convicção pelas necessidades do mundo todo e se despreocupar de outras formas de ação aparentemente “mais eficazes”. Para mim, a oração vem primeiro, seguem-se as outras formas de ação, se é que há lugar para elas. E sem dúvida existe, de alguma forma.”
A Year with Thomas Merton, Daily Meditations from His Journals
Selecionado e editado por Jonathan Montaldo
(HarperSanFrancisco, A Division of HarperCollinsPublishers, New York), 2004, p. 370

A virtude da temperança