sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

São Tomás de Aquino e o dia em que um boi voou no convento

Uma breve lição sobre o dom da palavra e o que fazemos com ela

tomas de aquino

Conta-se na ordem de São Domingos que, certa vez, estando São Tomás de Aquino em sua cela no convento de São Jacques, estudando e trabalhando sobre obscuros manuscritos medievais, entrou de repente um frade folgazão que foi logo exclamando com escândalo:
– Vinde ver, irmão Tomás, vinde ver um boi voando!
O grande doutor da Igreja, muito serenamente, ergueu-se do seu banco, saiu da cela e, dirigindo-se ao átrio do mosteiro, se pôs a olhar o céu, com a mão em pala sobre os olhos fatigados do estudo.
Ao assim o ver, o frade jovial desatou a rir com estrépito.
– Ora, irmão Tomás, então sois tão crédulo a ponto de acreditardes que um boi pudesse voar?
– Por que não, meu amigo? – tornou o santo.
E, com a mesma singeleza, flor da sabedoria, completou:
– Eu preferi admitir que um boi voasse a acreditar que um religioso pudesse mentir.
__________________
Relato recopilado por Malba Tahan em “Lendas do Céu e da Terra”

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A ORAÇÃO DO CONVERTIDO - Uma luminosa inspiração de Santo Agostinho de Hipona.

Oh Deus, criador de todas as coisas! 
Concedei-me primeiro o dom de saber pedir-vos; 
depois, o de fazer-me digno de ser escutado, 
e, finalmente, o de ser livre. 

Escutai, escutai, escutai-me, oh Deus meu! 
Meu Pai, causa minha, esperança minha, 
posse minha, honra minha, 
minha casa, minha pátria, 
minha saúde, minha luz e minha vida. 

Escuta, escuta, escuta-me! 
Dessa maneira tua, tão pouco conhecida. 
Amo somente a ti, 
só sigo a ti, 
só busco a ti, 
e só a ti estou disposto a servir, 
porque és o único que tem o direito de mandar, 
e só a ti desejo pertencer. 

Dá-me ordens, te peço; 
Sim, manda-me o que queiras, 
mas cura-me antes e abre meus ouvidos 
para que possa ouvir tu voz. 

Cura e abre meus olhos 
para que possa ver as indicações de tua vontade; 
afasta de mim a ignorância, 
para que te conheça. 

Diz-me onde tenho que olhar para ver-te, 
e confio em que cumprirei fielmente tudo o que me mandes. 
Amém, amém. 


(Texto: Soliloquios 1, 1, 2.4-5).

domingo, 6 de dezembro de 2015

A oração de Tomás

A vida de Santo Tomás de Aquino é a prova: não se pode ser sábio sem estar na presença de Deus.


O que explica o gênio extraordinário de Santo Tomás de Aquino? Livros? Disciplina? Dedicação aos estudos? Muitas respostas podem ser dadas a esta pergunta, mas nenhuma será completa, se ignorar a principal ferramenta de trabalho do Doutor Angélico: a oração. Todas as obras de Tomás – desde os seus comentários às Escrituras, até a grande Summa contra Gentiles e a incompletaSumma Theologiae – só são o que são, porque nasceram de uma profunda amizade de seu autor com a própria Verdade, que é Deus.
À sua época, de fato, ainda não tinha acontecido a cisão – tão danosa à modernidade – entre a fé e as ciências, entre a vida interior e a vida intelectual. Quando surgiram as universidades, o conceito que se tinha de um erudito era que fosse também uma pessoa de intensa oração e busca de santidade pessoal. Não sem razão, os bons pensadores e filósofos do passado eram profundamente religiosos – como foi Santo Alberto Magno, São Boaventura ou Santo Tomás de Aquino. Para o homem medieval, esta unidade era bastante lógica: quem procurava a verdade por meio dos estudos, devia também viver de acordo com ela, com retidão e integridade.
Hoje, no entanto, os assim chamados "cientistas" ousam fazer suas pesquisas e trabalhos acadêmicos prescindindo de Deus. Em alguns ambientes, o ateísmo chega a ser obrigatório para integrar um currículo ou alavancar uma carreira de prestígio. As universidades, que, fundadas pela Igreja e envolvidas por um resplendor sobrenatural, engendravam verdadeiros santos, infelizmente se tornaram fábricas de deformação moral em série, às quais as pessoas vão, não mais para aprender a verdade, senão para montar os seus próprios sistemas e ideias – perfeitamente lógicos... e completamente falsos.
Neste sentido, a vida de Tomás de Aquino lança um grande ponto de interrogação sobre todo o pensamento contemporâneo, em cuja base está tão somente o homem – artífice do universo e de si mesmo. É realmente intrigante que queiramos investigar e compreender as criaturas sem nos dirigirmos – ou sequer lançarmos o olhar – Àquele que as projetou e criou.
Era isto o que fazia assiduamente o Aquinate, como atesta o seu biógrafo e discípulo, Guillelmus de Tocco:
"Durante o tempo da noite dedicado pelos homens ao repouso, Tomás, após um breve sono, permanecia em seu quarto ou na igreja imerso em oração, para que orando merecesse aprender aquilo que deveria após a oração escrever ou ditar. (...) Todas as vezes em que queria estudar, disputar, ler, escrever, ditar, antes se entregava ao segredo da oração, para que encontrasse as coisas de Deus no segredo da verdade; pelo mérito de sua oração, assim como se aproximava com as questões de que tinha dúvida, do mesmo modo saía dela ensinado" [1].
Mesmo com tantos momentos de oração pessoal, a devoção de Tomás alcançava seu cume na celebração diária da Santa Missa, quando o monge comungava da própria Sabedoria que o iluminava. Importa apresentar, como corolário desta verdade, o que se passou durante os seus últimos meses de vida:
"No convento de Nápoles frei Domingos de Caserta repara que Tomás desce de seu quarto antes das matinas e vai até à igreja. Apenas o sino toca e supõe os companheiros prestes a despertar, volta para cima, como se não quisesse ser descoberto. 

Frei Domingos resolve um dia saber o que se passa. Levanta-se mais cedo e, ao ver o Doutor Angélico sair da cela, segue-o, oculto, à capela de São Nicolau. Aí surpreende o mestre dominicano imerso em profunda oração. E, com grande espanto, observa que seu corpo se levanta no ar, dois palmos acima do nível do solo. Dentro de alguns momentos, na penumbra silenciosa da capela, soa uma voz misteriosa, que vem do crucifixo erguido no altar: 'Tomás, escreveste bem sobre mim. Que receberás de mim como recompensa pelo teu trabalho?'

De joelhos, transportado de fé, Tomás exprime na resposta a plenitude de seu ardor místico: ' Senhor, nada senão Vós!'" [2]
Pouco depois disto, no dia 6 de dezembro de 1273, após rezar o Santo Sacrifício da Missa, acontece em Tomás "uma grande mudança, que impressiona a todos os assistentes". Depois daquele dia, de fato, o santo não mais colocará as mãos em sua Suma Teológica, a qual ele passa a considerar como unicamente palha, em comparação com aquilo que viu e lhe foi revelado [3].
O que viu Tomás? O que lhe foi revelado? Tais perguntas só podem ser respondidas com propriedade pelos santos, que associam o fenômeno místico experimentado pelo Doutor Angélico à promessa de Nosso Senhor: "Aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a mim mesmo a ele" (Jo 24, 20). Assim, Cristo dava ao Aquinate aquilo por que tanto aspirava, desde a sua juventude: Ele próprio.
Quaerere Deum – procurar Deus": o que viviam os primeiros monges cristãos, foi o que viveu Santo Tomás de Aquino. Que, do Céu, ele nos alcance a graça de buscar perseverante e incessantemente o Senhor, sem o qual qualquer Summa é "palha" e qualquer vida não tem, absolutamente, nenhum sentido.
Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Vita Sancti Thomae Aquinatis, XXIX. XXX in A Educação segundo a Filosofia Perene,I, 5, Santo Tomás e a Vida Contemplativa
  2. A Educação segundo a Filosofia Perene,I, 6, A morte de Tomás de Aquino
  3. Ameal, João: São Tomás de Aquino; Porto, Livraria Tavares Martins, 1956; pgs. 143-5 in A Educação segundo a Filosofia Perene,I, 6, A morte de Tomás de Aquino

Ser devoto de Santo Tomás More hoje



De Conselheiro do Rei a "traidor" da Coroa. Conheça a vida de Santo Tomás More, “o homem que não vendeu a sua alma”.

O que a história de um leigo que viveu há 480 anos tem a ensinar ao homem moderno? É a pergunta que devem fazer todos os católicos, ao celebrarem a memória de Santo Tomás More (22/06) – ao qual foi reservado o epíteto de "o homem que não vendeu a sua alma".
Antes de qualquer coisa, cabe fazer uma breve narrativa de sua vida, contando como a sua cabeça foi parar na bandeja por ordem do então príncipe da Inglaterra, o Rei Henrique VIII.
Homem erudito, esposo fiel e pai de quatro filhos, More foi nomeado Conselheiro do Rei (Lord Chancellor, em inglês) no ano de 1529, em meio a uma crise moral na Coroa. Henrique VIII era casado com Catarina de Aragão, mas tentava junto ao Papa conseguir a dissolução de seu casamento. A desculpa para a sanha adúltera do príncipe era o argumento de que Catarina não lhe dava um herdeiro homem. Como o Papa não lhe concedia o rompimento de seu matrimônio – fiel à palavra de Cristo, segundo a qual não se pode separar o que Deus uniu (cf. Mt 19, 6) –, ele mesmo fez questão de casar-se com Ana Bolena, então dama de companhia de sua legítima consorte. Sem autoridade espiritual que confirmasse as suas novas núpcias, Henrique VIII – o qual anos antes defendera a Igreja Católica das heresias do protestantismo – se autoproclamou líder da Igreja da Inglaterra.
Quando tudo isso aconteceu, Tomás More, tendo previsto o desastre que se anunciava, já havia renunciado às suas funções públicas junto à Coroa, em 1532. Não querendo entrar em imbróglios, ele saiu da política, silenciosamente. Sendo um homem justo, decidiu abandonar o Rei em segredo.O seu silêncio, porém, a sua recusa em aprovar o adultério de Henrique, falavam alto demais. Mesmo não pertencendo mais ao governo inglês, More foi perseguido pelo Rei e, negando-se a obedecer às suas arbitrariedades, foi condenado por alta traição à Coroa. No dia 6 de julho de 1535, aprisionado na Torre de Londres, More acabou decapitado, simplesmente por não se prostrar às determinações tirânicas do Rei. (Um ano mais tarde, incapaz de dar um herdeiro aos Tudors, também Ana Bolena seria executada por Henrique, que ainda se casaria com outras 4 mulheres antes de morrer.)
A história de Tomás lembra, mutatis mutandis, o martírio de São João Batista. A criminosa em questão era Herodíades, que, não suportando ouvir de João a reprovação de sua vida de adultério, pediu ao Rei Herodes a sua cabeça em uma bandeja (cf. Mt 14, 1-12). Por defender a verdade até o fim, entregando com isso a sua própria vida, João Batista não é venerado apenas como profeta, mas principalmente como mártir.
Importa reconhecer, porém, que as vidas desses dois grandes santos, separadas por aproximados 15 séculos, está unida por um martírio diferente dos martírios comuns. Quem ouve as glórias dos primeiros cristãos, mortos nas arenas do Coliseu por não prestarem culto a César, pode ser tentado a ter em pouca conta a decapitação de João e Tomás porque, afinal, nem Herodes nem Henrique pediram a eles que os adorassem, no sentido próprio do termo. Contudo, "o cristão sofre – lembra Santo Tomás – não apenas sofrendo por uma confissão de fé em palavras, mas também cada vez que sofre para realizar um bem qualquer, ou para evitar um pecado qualquer por causa de Cristo". Por isso, "as obras de todas as virtudes, enquanto se referem a Deus (...) podem ser causa de martírio" [1].
Eis, portanto, a primeira grande lição que se pode extrair da vida de Santo Tomás More e de São João Fisher, seu companheiro mártir. Por amor à verdade do Evangelho, eles não temeram sacrificar as suas próprias existências neste mundo. Em um século dominado pelo relativismo e por uma aguda decadência moral, que ameaça a própria família, os exemplos desses homens desafiam o nosso tempo a preservar com coragem e destemor todas as verdades da nossa fé, sem adaptações, nem conveniências. A mensagem da família não é palavra humana ou "opinião", para que possa ser modificada ou "reinventada" ao bel prazer. É, ao contrário, palavra divina – palavra veraz, fora da qual não pode haver verdadeira caridade, como indica o Papa Bento XVI: "Só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida" [2].
A segunda importante lição da vida de More é ensinar aos cristãos quais são os limites do poder das autoridades civis. "Precisamente por causa do testemunho que Santo Tomás More deu, até ao derramamento do sangue, do primado da verdade sobre o poder, é que ele é venerado como exemplo imperecível de coerência moral" [3]. A respeito disso, as Escrituras já oferecem conselhos preciosos: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" (Mt 22, 21), diz Jesus; e, exortam os Apóstolos, "importa obedecer antes a Deus do que aos homens" (At 5, 29). Diante de ditaduras que tentam sufocar a própria verdade; face a César, Herodes, Henrique ou Stálin, é preciso reafirmar, sempre e categoricamente, o primado de Deus – primado este que, no fim das contas, redunda em benefício do próprio homem.
Afinal, quando todo o poder é colocado nas mãos do Estado, quando este se torna "a medida de todas as coisas", não demora muito para que se cortem as cabeças e os seres humanos sejam executados no paredón ou jogados em campos de concentração. Foi assim na Inglaterra de Henrique VIII, foi assim na Cuba de Fidel Castro e na Alemanha de Hitler. Será sempre assim, quando César pretender tomar para si o poder que cabe somente a Deus.
Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Suma Teológica, II-II, q. 124, a. 5.
  2. Papa Bento XVI, Carta Encíclica Caritas in Veritate (29 de junho de 2009), n. 3.
  3. Papa João Paulo II, Carta Apostólica E Sancti Thomae Mori (31 de outubro de 2000), n. 1.

A conversão de São Bernardo de Claraval



Para fugir do pecado da impureza, São Bernardo de Claraval se lançou sem hesitar em um lago gelado. A atitude do santo deixa evidente a natureza da batalha que trava todo aquele que se faz eunuco “por causa do Reino dos céus”.

Tendo recebido desde cedo uma sólida formação religiosa, Bernardo foi aluno notável em sua mocidade. Quando recebia alguma lição que contrariasse os mistérios da fé e a doutrina cristã, "recorria à oração e à meditação das Sagradas Escrituras para neutralizar o veneno inalado nas aulas" [1]. (Nenhum conselho pode ser tão útil para os nossos dias.) Mais tarde, o mesmo Bernardo será visto debatendo e debelando os erros dos professores de sua antiga escola.
Depois da morte de sua piedosa mãe, no entanto, o jovem rapaz foi atingido por uma tristeza acabrunhante. O luto se tinha apoderado totalmente de sua alma e ele não achava consolação em nada do que fazia, nem mesmo na oração, à qual já estava tão habituado, apesar da breve idade. Era final de agosto de 1110 e Bernardo contava cerca de 20 anos.
Instado por sua irmã Umbelina a distrair-se e passar tempo com os jovens que frequentavam o castelo, Bernardo começou a acercar-se de más companhias e brincar à beira do precipício dos maus costumes (cf. 1 Cor 15, 33). Como mais tarde escreveu ele ao Papa Eugênio III:
"No princípio, algumas coisas podem parecer insuportáveis, mas com o passar do tempo, se te acostumas a elas, não as julgarás tão pesadas; pouco depois, já te serão suportáveis; em seguida, não as notarás e, no fim, terminarão deleitáveis.Assim, paulatinamente, se chega à dureza do coração e, dela, à aversão." [2]
Para acordar Bernardo e impedir que a sua alma se perdesse, Deus permitiu que lhe sobreviessem fortes tentações, das quais a última, relativa ao pecado da impureza, fê-lo mudar totalmente de vida:
"Esquecido de sua vigilância habitual, permitiu que os seus olhos pousassem por um momento em um objetivo perigoso. Pela primeira vez, experimentou a rebelião da carne. Alarmado, então, perante o espectro do mal e pleno de remorsos pela sua falta, implorou imediatamente o auxílio do céu e, afastando-se do local, foi mergulhar em um pequeno lago e ali se manteve, meio morto de frio, até que a perturbação interna desapareceu totalmente. Das palavras de seus primeiros biógrafos conclui-se que decidiu naquele momento permanecer perpetuamente casto." [3]
Esse episódio da vida de São Bernardo deve servir de inspiração a todos os cristãos na luta pela castidade, principalmente no mundo de hoje, tão avesso a essa virtude.
O fato de que o santo se tenha lançado em um lago gelado para não pecar contra a castidade mostra a natureza da batalha que aqui se trava. Como diz Nosso Senhor no Evangelho (Mt 19, 12), "existem eunucos que nasceram assim do ventre materno" e "outros foram feitos eunucos por mão humana", isto é, alguns foram privados do sexo por natureza e outros por necessidade. Há, porém – e só assim se pode falar propriamente de "virtude" –, aqueles que se tornaram "eunucos por causa do Reino dos céus". Embora aqui Cristo esteja se referindo especificamente ao celibato, a sua consideração é válida para todos os cristãos, chamados que são a viver a santa pureza: porque o "ser eunuco" só é louvável e recompensado por Deus na medida em que é escolhido livremente pelo homem [4].
Os santos não eram "eunucos físicos", sem sensibilidade e sem paixões humanas, mas "homens de carne e osso", como quaisquer outros. A sua diferença é que, auxiliados pela graça divina, eles se fizeram "eunucos espirituais". Mas, isso (atenção!) por causa do Reino dos céus – e só por causa desse Reino (presente em suas almas pela graça santificante), eles estavam dispostos a tudo: a revolver-se na neve, como fez São Francisco de Assis; a jogar-se em um arbusto de espinhos, como fez São Bento; a mergulhar em um lago gelado, como São Bernardo [5]; ou mesmo a morrer, como fizeram tantos mártires ao longo da história da Igreja.
Pela vida dos santos, é possível concluir que a castidade não é um mero jogo de cálculos humanos: fosse assim, todas essas mortificações – recomendadas pelo próprio Evangelho (cf. Mt 5, 29-30) – não teriam sentido algum. Por que privar-se de algo prazeroso e, ao mesmo tempo, fazer arder o corpo no frio ou mesmo perder a própria vida? Por que tanto "radicalismo" com essa história de "castidade"? Porque, ontem, assim como hoje, os seguidores de Cristo não se fizeram eunucos "por mãos humanas": eles viveram (e vivem) a pureza por causa do Céu – e só a vida eterna pode explicar a sua abnegação e os seus sacrifícios, em que pese todo o desprezo do mundo.
Depois do episódio acima referido, como se sabe, Bernardo consagrou-se por inteiro a Deus e entrou na vida religiosa como monge cisterciense. Em 20 de agosto de 1153, partiu deste mundo, deixando na terra a sua notável fama de santidade, além de obras de incalculável valor espiritual.
No dia em que a Igreja celebra a memória deste grande doutor da Igreja, peçamos a sua intercessão. Que ele nos ajude a viver inteiramente para Deus, independentemente do estado de vida em que o Senhor nos colocou: na vida leiga ou consagrada, na vida sacerdotal ou matrimonial, todos são convocados à castidade, à entrega total do próprio ser e à santidade – porque, afinal, todos são chamados para amar.
São Bernardo de Claraval,
rogai por nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Recomendações

  • DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja das Catedrais e das Cruzadas (trad. Emérico da Gama). 2. ed. São Paulo: Quadrante, 2011, pp. 94-135.
  • LUDDY, Ailbe J.. Bernardo de Claraval (trad. Eduardo Saló). Lisboa: Editorial Aster, 1959.
  • RAYMOND, Pe. M.. Amor sem Medida: Crônica de uma Família (trad. Pe. Ivo Montanhese). Petrópolis: Vozes, 1964.
  • RIBADENEIRA, Pe. Pedro de. Vida de São Bernardo. In: Cristianismo.

Referências

  1. A conversão de São Bernardo, II, 9.
  2. Da Consideração (trad. Ricardo da Costa), I, 2 (PL 182, 730).
  3. A conversão de São Bernardo, III, 6.
  4. Cf. Santo Hilário apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea in Matthaeum, XIX, 3.
  5. Cf. São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 143.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

7 meios práticos para formar o hábito da presença de Deus

Não conseguimos ver e tocar Jesus como se fosse uma pessoa qualquer, mas há formas concretas de passar o dia ao lado dele, confira
libertad - pt

O hábito da presença de Deus é um dos mais importantes na vida espiritual. Por isso, apresentaremos alguns meios práticos par viver na presença do Senhor ao longo do dia.
1. Creia e imagine que Jesus está ao seu lado
Não conseguimos ver nem tocar Jesus como se fosse qualquer pessoa, mas pela fé sabemos que Cristo Ressuscitado está vivo e nos acompanha no caminho da vida. Como o cego que sente a presença dos outros perto dele, pela fé, sinto e tenho certeza da presença de Deus junto a mim. Posso levar Jesus comigo a qualquer lugar, conversar com Ele, pedir-lhe luz e força, curtir sua companhia.
2. Tenha um olhar de fé
Com os olhos da fé, tudo é transparência de Deus: coisas, acontecimentos, pessoas. Deus se deixa encontrar na criação inteira, porque lhe dá existência e a conserva. E cada criatura mostra traços do seu Criador. Com esta atitude de buscar viver com um olhar de fé, é mais fácil descobrir Deus por trás de cada circunstância, de cada pessoa.
3. Faça um exame diário repleto de gratidão
Deus, com sua providência, está sempre presente na história e na sua história pessoal, a de cada dia. Que isso não passe despercebido por você. Fazer um exame de consciência ao final do dia permite repassar os acontecimentos do dia e buscar ver como Deus se fez presente e agiu ao longo da jornada.
4. Faça jaculatórias
As jaculatórias ajudam a manter-nos na presença de Deus. São orações breves, em forma de frases simples, que dirigimos a Deus em meio às atividades cotidianas, colocando nelas toda a força da nossa fé e todo o carinho do nosso coração ao pronunciá-las. Alguns exemplos: “Senhor, tu sabes tudo, sabes que te amo”, “O Senhor é meu pastor, nada me faltará”, “Estou em tuas mãos, faça-se a tua vontade”, “Maria, sou todo teu”, “Espírito Santo, ilumina-me”, “Sagrado Coração de Jesus, confio em ti” etc.
5. Faça visitas eucarísticas e comunhões espirituais
Se estamos falando da presença de Deus, existe presença melhor que a da Eucaristia? Se você tem uma igreja perto da sua casa, do seu trabalho, da sua faculdade, aproveite e visite Jesus, ainda que seja por alguns minutos, todos os dias. É como passar na casa de um amigo para cumprimentar, ao estar perto da casa dele.
6. Reze ao realizar suas atividades cotidianas
Para renovar a presença de Deus, é muito útil rezar antes das suas atividades habituais: abençoar os alimentos antes das refeições, pedir proteção ao sair de casa, fazer o sinal da cruz antes de começar a trabalhar, beijar uma Bíblia, um crucifixo ou uma imagem de Nossa Senhora etc.
7. Acenda uma vela ou carregue um crucifixo com você
A chama de uma vela pode ser uma lembrança da presença de Jesus Ressuscitado (como o círio pascal) e da sua presença no seu coração. Escolha um lugar especial para deixar essa vela, um lugar pelo qual você passe constantemente. E invoque a presença de Deus cada vez que passar por ela.
O salmo 138 nos recorda a amorosa presença de Deus em nossa vida. Que tal começar esta vivência orando este salmo?
Senhor, vós me perscrutais e me conheceis, sabeis tudo de mim, quando me sento ou me levanto. De longe penetrais meus pensamentos. Quando ando e quando repouso, vós me vedes, observais todos os meus passos. A palavra ainda me não chegou à língua, e já, Senhor, a conheceis toda. Vós me cercais por trás e pela frente, e estendeis sobre mim a vossa mão. Conhecimento assim maravilhoso me ultrapassa, ele é tão sublime que não posso atingi-lo. Para onde irei, longe de vosso Espírito? Para onde fugir, apartado de vosso olhar? Se subir até os céus, ali estareis; se descer à região dos mortos, lá vos encontrareis também. Se tomar as asas da aurora, se me fixar nos confins do mar, é ainda vossa mão que lá me levará, e vossa destra que me sustentará. Se eu dissesse: Pelo menos as trevas me ocultarão, e a noite, como se fora luz, me há de envolver. As próprias trevas não são escuras para vós, a noite vos é transparente como o dia e a escuridão, clara como a luz. Fostes vós que plasmastes as entranhas de meu corpo, vós me tecestes no seio de minha mãe. Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso. Pelas vossas obras tão extraordinárias, conheceis até o fundo a minha alma. Nada de minha substância vos é oculto, quando fui formado ocultamente, quando fui tecido nas entranhas subterrâneas. Cada uma de minhas ações vossos olhos viram, e todas elas foram escritas em vosso livro; cada dia de minha vida foi prefixado, desde antes que um só deles existisse. Ó Deus, como são insondáveis para mim vossos desígnios! E quão imenso é o número deles! Como contá-los? São mais numerosos que a areia do mar; se pudesse chegar ao fim, seria ainda com vossa ajuda. Oxalá extermineis os ímpios, ó Deus, e que se apartem de mim os sanguinários! Eles se revoltam insidiosamente contra vós, perfidamente se insurgem vossos inimigos. Pois não hei de odiar, Senhor, aos que vos odeiam? Aos que se levantam contra vós, não hei de abominá-los? Eu os odeio com ódio mortal, eu os tenho em conta de meus próprios inimigos. Perscrutai-me, Senhor, para conhecer meu coração; provai-me e conhecei meus pensamentos.Vede se ando na senda do mal, e conduzi-me pelo caminho da eternidade.

http://pt.aleteia.org/2015/11/10/7-meios-praticos-para-formar-o-habito-da-presenca-de-deus/?utm_campaign=NL_pt&utm_source=topnews_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt-Nov%2010,%202015%2003:16%20am

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A cruz que se carrega incomoda menos que a cruz que se arrasta.

A cruz que se carrega incomoda menos que a cruz que se arrasta.  
(Santa Teresa d’Avila)

"O bem que quem pratica a oração - refiro-me à oração mental - obtém já foi tratado por muitos santos e homens bons [...] Do que tenho experiência posso falar: quem começou a ter oração não deve deixá-la, por mais pecados que cometa. Com ela, terá como se recuperar e, sem ela, terá muito mais dificuldades. E que o demônio nunca tente ninguém como tentou a mim, levando-me a abandonar a oração...Por isso, peço aos que ainda não começaram que, por amor a Deus, não se privem de tanto bem". 

(Santa Teresa D'Avila)

A Gemma do paraíso: “Só tenho medo... de magoar Jesus!”

Santa Gemma Galgani e a entrega de si mesma a Deus: "...já estou desapegada de tudo"

A vida dos santos impressiona, sobretudo, pelas intervenções extraordinárias de Deus em sua rotina ordinária. Capítulos particularmente incríveis de suas biografias são as lutas físicas que alguns deles, como o Padre Pio de Pietrelcina e o Cura de Ars, travavam com o demônio. Muitos desses combates foram descritos com ricos detalhes por pessoas que conviveram todos os dias com estes santos.
Trata-se de casos especialíssimos de "obsessão demoníaca". Importa saber que o demônio "anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar" (1 Pd 5, 8). Ele não poupa esforços para fazer perder as almas que Cristo conquistou com o Seu sangue. Por isso, as lutas com o mal não são exclusividade dos grandes santos, mas uma realidade vivenciada todos os dias pelo cristão comum. O católico deve acordar todos os dias tomando consciência de que, para além dos trabalhos e penas do dia a dia, há um combate espiritual sendo travado diante de si, o qual só pode ser vencido com o auxílio de Deus e de Seus santos anjos.
Certas almas, porém, recebem do Senhor uma missão ainda mais nobre que a dos demais batizados. Elas são chamadas a unir-se mais perfeitamente a Cristo sofredor e a oferecerem-se de modo total como vítimas pelos pecados da humanidade. As suas vidas de santidade e de oração perturbam profundamente Satanás, que quer fazer de tudo para precipitar o ser humano ao inferno.
A jovem Gemma Galgani, nascida no povoado próximo à cidade de Lucca, na Itália, era uma dessas almas que deixavam inquieto o inimigo de Deus. Contemporânea de Santa Teresinha do Menino Jesus, Gemma cresceu habituada à experiência da morte. Sua mãe, Aurélia, faleceu cedo, vítima de tuberculose. Seu irmão, Eugênio, que decidira entrar no seminário, também foi acometido pela doença, tendo morrido antes de ser ordenado sacerdote. Experiências tão próximas fizeram com que Gemma se desapegasse desde cedo deste mundo. Questionada, certa vez, se tinha medo da morte, ela respondeu: "Claro que não... já estou desapegada de tudo".
Órfã de pai e de mãe aos 19 anos, Gemma vai morar com uma piedosa senhora: Cecília Giannini. Ela acolhe a pequena gema de Deus como uma filha e é em sua casa que vão acontecer experiências extraordinárias: às quintas e sextas-feiras, recolhida em seu quarto, em oração, Gemma recebe os estigmas de nosso Senhor. A jovem amante de Cristo, com o olhar detido em um ponto fixo do alto, sangra abundantemente em várias partes do corpo. No momento da oração, está totalmente alheia às coisas terrenas. Em êxtase, ela perde todos os seus sentidos, permanece imóvel, totalmente absorta nas coisas celestes.
Mas, ao mesmo tempo em que é constantemente agraciada com as consolações de Deus, a santa recebe com frequência a visita indesejada do diabo.
Conta-se que, certa vez, o seu diretor espiritual, padre Germano, encontrou-a acamada, por conta dos incessantes ataques do demônio, que a debilitavam. Durante a noite, o sacerdote permaneceu com ela, rezando o breviário no canto do quarto. De repente, um enorme gato preto, de aspecto horrível, se joga aos pés do sacerdote. Ele dá uma volta pelo quarto, dando miados infernais.
Subitamente, o gato salta sobre o leito de Gemma, ficando muito próximo de seu rosto e fixando nela um olhar feroz. Padre Germano fica visivelmente assustado, mas sua filha espiritual permanece calma: está acostumada às artimanhas do maligno. "Não tenha medo, padre! É o velhaco do demônio que me quer molestar. Não tema. Ao senhor não fará mal algum", diz a jovem, tentando tranquilizar o sacerdote.
Ele, então, levanta-se, ainda com a mão trêmula, e borrifa água benta sobre o gatão, que desaparece, como que por encanto. "Como é possível permanecer tão tranquila?", pergunta o padre a Gemma, ao que ela responde: "Só tenho medo... de magoar Jesus!"
Estes episódios arrepiantes da vida dos santos servem para todos os cristãos de lição: neste mundo, o seu único medo deve ser o de ofender a Cristo e, assim, perder a amizade d'Aquele que não poupou Seu próprio Sangue para a remissão dos nossos pecados. Que Santa Gemma Galgani rogue por nós junto a Deus.
Por Christo Nihil Praeponere

Documentário da vida se Santa Gemma Galgani

Santa Gemma Galgani

SANTA GEMMA GALGANI - Arautos do Evangelho
"Se todos soubessem como Jesus é belo, como é amável, não procurariam
senão o seu amor. Nosso coração é feito para amar uma só coisa: 
nosso grande Deus".

Entre os mais esplêndidos espetáculos da natureza estão as grandes cachoeiras. Nelas, as volumosas águas se precipitam com uma força avassaladora, envolvendo numa misteriosa nuvem, nimbada de irisados lampejos, tudo ao seu redor.
Ao contemplá-las, o espírito se extasia, e é levado a relacionar esse espetáculo com uma realidade de índole sobrenatural: o incomensurável, fecundo e transformante amor de Deus.
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Com efeito, provindo de uma altura infinita, a água viva e multiforme da bondade divina desce sobre os homens com infinda abundância. Ela enche de caridade a quem a recebe com boa disposição, trazendo como fruto o desejo ardente de restituir em toda medida possível tal amor gratuito do Criador.
Todos fomos chamados a fazer de nossa existência uma desigual porfia por retribuir a Deus os seus incontáveis benefícios. Algumas almas eleitas, contudo, já nesta Terra experimentam um místico e transformante intercâmbio de amor que as faz viver de algum modo como na eternidade, por uma especial união espiritual com o Redentor.
É o caso de Santa Gemma Galgani, cuja identificação com Cristo foi estreita a ponto de poder ela afirmar: "Não estou mais em mim, estou com meu Deus, toda para Ele; e Ele está todo em mim e para mim. Jesus está comigo e é todo meu".1
Convívio com o sobrenatural
Nascida na cidade italiana de Lucca, em 12 de março de 1878, Gemma teve um curto, mas intenso convívio com sua piedosa mãe. Esta contraíra uma tuberculose de lenta e implacável evolução, o que não lhe impediu de legar aos filhos uma formação verdadeiramente católica.
Uma de suas derradeiras providências fora fazer com que a pequena recebesse a plenitude da graça batismal pela Crisma, antes mesmo da Primeira Comunhão, como era então costume na Itália. E, apesar das dificuldades impostas pela doença, a própria senhora Galgani, auxiliada por uma catequista, incumbiu-se de preparar a filha para receber o Sacramento.
Depois da cerimônia, a menina permaneceu na Basílica de San Michele in Foro para assistir a uma Missa em Ação de Graças e, estando em oração por sua querida mãe, teve seu primeiro diálogo sobrenatural:
- Gemma, queres dar-me tua mãe? - ouviu no fundo da alma.
- Sim, mas só se eu for junto - respondeu ela.
- Não, dá-me de boa vontade tua mãe. Tu deves ficar agora com teu pai. Eu a levarei para o Céu. Mas dás com gosto?
"Tive de responder que sim"2, confessa a santa em sua autobiografia.
As graças da Primeira Comunhão
Em setembro de 1885, a senhora Galgani entregou piedosamente sua alma a Deus, deixando a filha instalada na casa da tia materna, Elena Landi. Algum tempo depois, Gemma regressou para junto do pai e ingressou como externa no colégio das Irmãs de Santa Zita, fundado pela Beata Elena Guerra.
Aos nove anos, revelando piedade incomum, a menina manifestava enorme desejo de receber a Sagrada Eucaristia. Em vão suplicou durante largo tempo ao confessor, Monsenhor Giovanni Volpi, ao pai e às mestras: "Dai-me Jesus e vereis que serei mais sábia, não cometerei mais pecados, não serei mais a mesma!".
Afinal, o sacerdote acabou por aceder e, apesar da sua pouca idade para os costumes da época, na festa do Sagrado Coração de 1887, Jesus Hóstia entrava pela primeira vez naquela fogosa e inocente alma: "O que se passou naquele momento entre mim e Ele, não saberia exprimi-lo. Jesus fez-Se sentir em minha alma de uma maneira muito forte. Compreendi, então, que as delícias do Céu não são como as da Terra. Sentia-me tomada pelo desejo de tornar contínua aquela união entre mim e Jesus".3
Unir-se a Nosso Senhor, assemelhar-se a Ele, foi a partir daquele momento o único objetivo da vida de Gemma.
Esposa de Cristo Crucificado
Durante o período transcorrido com as Irmãs de Santa Zita, a menina dedicou-se com todo esmero às atividades escolares. Por seu bom exemplo, era a "alma" da escola. Muito benquista pelas companheiras, estas a respeitavam, pois, apesar de pouco expansiva, tinha o dom da palavra concisa e do agir resoluto.
Enquanto isso, o Divino Mestre a cumulava de graças interiores, fazendo- a progredir cada vez mais nas vias da perfeição. A vida da jovem Gemma transcorria envolta em frequentes fenômenos místicos, e isso transparecia de algum modo em seu olhar.
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 Santa Gemma Galgani aos 21 anos 
Certo dia, estando já com dezessete anos, nossa santa recebeu de presente um rico relógio e uma cruz com corrente de ouro. E para agradar ao parente que lhe fizera o obséquio, saiu à rua portando-os consigo. À noite, ao se preparar para dormir, apareceu- lhe o Anjo da Guarda dizendo: "Lembra-te de que as únicas joias que devem adornar a esposa de um Rei crucificado são os espinhos e a cruz".4
A jovem, que sempre sentira especial devoção pelos sofrimentos de Jesus, tomou esta advertência com toda seriedade e, desde então, renunciou a quanto poderia servir de pretexto à vaidade, passando a trajar uma simples roupa negra.
Início da "via dolorosa"
Desde a morte da mãe, conta a santa na sua biografia, ela nunca deixara de oferecer algum pequeno sacrifício a Jesus. Era chegada, porém,a hora de começar a sorver em grandes goles o cálice do sofrimento.
Em 1896, uma terrível necrose no pé, acompanhada por agudíssimas dores, obrigou-a a submeter-se a uma cirurgia. Recusando qualquer anestesia, Gemma se manteve imóvel durante a intervenção, enquanto os presentes acompanhavam horrorizados o que mais parecia uma tortura do que um ato terapêutico. Apenas alguns gemidos involuntários a traíram no momento mais difícil da operação, a qual ela suportou sem tirar os olhos do Crucifixo, pedindo ainda a Jesus perdão pela debilidade manifestada. No ano seguinte, seu pai faleceu após perder toda a fortuna, deixando a família em grande miséria.
Encontro com São Gabriel da Virgem Dolorosa
Em 1898, foi Gemma atingida por grave doença na espinha dorsal, ficando prostrada na cama, com dificuldades para fazer o menor movimento.
Em meio a tal moléstia, seu Anjo da Guarda não deixava de consolá-la, e o Divino Mestre servia-se de suas dores para fazê-la progredir na virtude da humildade. Adquiriu também uma particular devoção por São Gabriel da Virgem Dolorosa, religioso passionista falecido trinta e seis anos antes, cuja biografia lera avidamente durante a doença.
Certa noite, após ter feito voto de virgindade e ter manifestado o propósito de vestir o hábito religioso caso viesse a sarar, apareceu-lhe em sonho o santo passionista dizendo: "Faze em boa hora o voto de ser religiosa, mas não acrescentes mais nada". E ao perguntar-lhe Gemma o porquê, retirou o símbolo que levava prendido à batina, deu-o a beijar à enferma e o colocou-o sobre ela dizendo: "Sorella mia! - Minha querida irmã!".
Durante todo esse tempo, seus parentes e conhecidos não deixavam de fazer novenas e tríduos implorando sua cura; ela, porém, permanecia indiferente, dócil aos desígnios divinos. Ao cabo de um ano, para agravar a situação, os médicos lhe diagnosticaram um tumor na cabeça, dando-a por desenganada. Então, uma das suas antigas mestras conseguiu convencê-la a fazer uma novena a Santa Margarida Maria Alacoque. No último dia dessa novena, poucas horas após receber a Sagrada Comunhão, a jovem pôs-se de pé, totalmente sã. Era a primeira sexta-feira do mês de março.
"Não cesses de sofrer por Ele nem um momento"
Na Quinta-Feira Santa do ano seguinte, Gemma, ainda debilitada, praticava no seu quarto a devoção da "Hora Santa em companhia do Senhor no Horto", escrita pela fundadora das Irmãs de Santa Zita, sentindo, enquanto o fazia, uma profunda dor por suas faltas. Terminada a oração, apareceu diante dela a figura de Jesus Crucificado, dizendo-Lhe: "Filha, estas chagas foram abertas em Mim pelos teus pecados. Mas alegra-te, porque já as fechaste com tua dor. Não me ofendas mais. Ama-me como Eu sempre te amei".5

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 "Sou feliz, Jesus, porque sinto meu coração
palpitar com o vosso, e 
porque Vos possuo"


Relicário contendo o coração de Santa
Gemma - Igreja de Santa Gemma
Galgani, Madri
Dias depois, enquanto fazia as orações da tarde, Cristo Crucificado tornou-se novamente visível a ela e lhe disse: "Olha, minha filha, e aprende como se ama. Vês esta Cruz, estes espinhos e cravos, estas carnes lívidas, estas contusões e chagas? Tudo é obra de amor, e de amor infinito. Eis até que ponto Eu te amei. Queres amar-Me verdadeiramente? Aprende então a sofrer: o sofrimento ensina a amar".
Noutra ocasião, enquanto pedia a Deus a graça de amar muito, ouviu uma voz sobrenatural que lhe dizia: "Queres sempre amar a Jesus? Não cesses de sofrer por Ele nem um momento. A Cruz é o trono dos verdadeiros amantes; a Cruz é o patrimônio dos eleitos nesta vida".
Aquelas visões, ao mesmo tempo que intensificavam a dor pelos seus pecados, traziam-lhe grande consolação e aumentavam nela o desejo de amar a Jesus e padecer por Ele.
A graça dos Sagrados Estigmas
Na véspera da festa do Sagrado Coração desse mesmo ano, Gemma perdeu os sentidos e, ao acordar, encontrou-se em presença da Santíssima Virgem, que lhe disse: "Meu Filho, Jesus, ama-te muito e quer conceder-te uma grande graça; mostrar- te-ás digna dela?". A santa não sabia o que responder. Nossa Senhora continuou, dizendo: "Eu serei para ti uma mãe. Saberás tu te mostrar verdadeira filha?". E, a seguir, estendeu seu manto e a cobriu com ele.
Nesse instante, apareceu-lhe novamente Jesus. Com a simplicidade própria das almas inocentes, assim narra Gemma o acontecido: "Suas chagas estavam abertas, mas não jorravam sangue; delas saíam chamas ardentes. Em um piscar de olhos essas chamas tocaram minhas mãos, meus pés e meu coração". Por mais algum tempo permaneceu ela sob o manto da Rainha dos Céus. Maria a osculou na fronte e desapareceu, deixando a jovem ajoelhada com fortes dores nas mãos, nos pés e no coração, de onde escorria sangue: Santa Gemma Galgani havia recebido a graça dos Sagrados Estigmas.
O fenômeno repetia-se a cada semana. Na quinta-feira, as chagas se abriam à noite, permanecendo até às três horas da tarde de sexta-feira. No sábado, ou o mais tardar no domingo, delas só restavam umas marcas esbranquiçadas.
Além dos estigmas, cuja existência poucos conheciam, eram frequentes na vida de Santa Gemma outras manifestações sobrenaturais, como suores de sangue e êxtases incontáveis, que ocorriam a qualquer instante. Isso tornou o relacionamento com as tias, com as quais vivia desde a morte do pai, cada vez mais difícil.
Tirou-a desse embaraço a piedosa senhora Cecília Giannini, a qual, admirada com os prodígios da graça naquela alma, adotou-a como filha. Em sua nova família, todos votavam-lhe grande veneração. Anotavam com precisão as palavras proferidas nos frequentes arroubamentos e maravilhavam-se com os estigmas sagrados e as feridas produzidas ora pelo látego da flagelação, ora pelos espinhos da coroa.
Encontro com os Padres Passionistas
Foi em junho desse mesmo ano de 1899, tão fundamental na existência da Santa, que Gemma haveria de ter seu primeiro encontro com os padres passionistas, prenunciado por São Gabriel da Virgem Dolorosa.
Nos últimos dias desse mês, haviam começado na Igreja de São Martinho as "Santas Missões", pregadas por sacerdotes dessa ordem. No último dia houve comunhão geral, da qual também participou Santa Gemma. Durante a ação de graças, Jesus lhe perguntou: "Gemma, te agrada o hábito com que está revestido esse sacerdote? Gostarias de te ver revestida dele?".
"Sim," acrescentou o Senhor ao vê-la incapaz de dar uma resposta afirmativa, "tu serás uma filha da minha Paixão, e uma filha predileta. Um destes meus filhos será o teu pai. Vá e manifesta-lhe tudo o que acontece contigo".
Após algumas vicissitudes, tão frequentes nas almas mais eleitas, Gemma acabou por escrever, com autorização de Monsenhor Volpi, ao padre Germano Di San Stanislao, religioso passionista, residente em Roma, cujo nome e fisionomia o Senhor lhe havia indicado.
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 Santa Gemma pouco antes de sua morte em 1903
Dotado de grande talento e virtude, tal sacerdote viajou a Lucca para conhecê-la, e passou a ser um verdadeiro pai para a santa. Durante três anos, conduziu-a com destreza nos caminhos da perfeição. Graças a essa direção espiritual, feita sobretudo por meio de cartas, ficaram documentados os singulares favores recebidos pela angelical jovem. São missivas emocionantes, nas quais transparece toda a beleza de sua alma.
"Consummatum est"
O último Calvário da virgem de Lucca começou na Páscoa de 1902. Seu corpo, prostrado na cama por terrível doença que a impossibilitava de ingerir alimento, espelhava as penas interiores que padecia sua alma privada de todas as consolações e alegrias sensíveis. "Não sabeis que sou toda vossa? Jesus só!", suspirava Gemma, em meio a um aparente abandono.
Ela havia participado sucessivamente de todos os tormentos do Homem-Deus: suas angústias interiores, seu suor de sangue, a flagelação e suas numerosas chagas, os maus tratos, por obra dos demônios, as profundas feridas da coroa de espinhos, o deslocamento dos ossos e as chagas dos cravos. Faltavam-lhe apenas, para imitar cabalmente o Redentor em sua Paixão, a agonia e a morte em um mar de dores.
Foi o que aconteceu, por fim, no Sábado Santo de 1903. Com apenas 25 anos de idade, a seráfica virgem libertou-se definitivamente dos liames que a prendiam à Terra e recebeu sua "recompensa demasiadamente grande" (Gn 15, 1), o próprio Deus por toda a eternidade.
* * * * * *
A alma de Gemma entrou na glória enriquecida pelo único e real tesouro, aquele que nunca acabará: a caridade. "Se todos soubessem como Jesus é belo, como é amável, não procurariam senão o seu amor".
Com efeito, como o mundo seria outro se ouvisse o conselho da virgem de Lucca e pudesse afirmar como ela: "Meu coração palpita continuamente em uníssono com o Coração de Jesus. Viva Jesus! O Coração de Jesus e o meu são uma mesma coisa.[...] Sim, eu sou feliz, Jesus, porque sinto meu coração palpitar com o vosso, e porque Vos possuo". (Revista Arautos do Evangelho, Abril/2011, n. 112, p. 30 à 33)

http://www.arautos.org/especial/25282/Santa-Gemma-Galgani--Um-so-coracao-e-uma-so-alma.html

A virtude da temperança