domingo, 30 de dezembro de 2018

Ser bom


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É por isso que o cristão se encontra numa situação diferente da de outras pessoas que tentam ser boas.

Estas esperam, por ser boas, agradar a Deus, quando nele acreditam; ou, caso não acreditem, esperam pelo menos receber a aprovação dos homens bons.

Já o cristão pensa que todo bem que faz advém da vida de Cristo que o anima interiormente.

Não pensa que Deus nos amará mais por sermos bons, mas que Deus nos fará bons porque nos amou primeiro, do mesmo modo que o teto de uma estufa não atrai o sol por ser brilhante, mas brilha porque o sol irradia sobre ele.

C.S. Lewis

- Sufocar os Ruídos interiores -


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Deus criou tua alma silenciosa no Batismo , em um silêncio inviolado. Preencheu-a de Si mesmo ao descer a ela toda a Trindade Santa, nada mais que para Ele. Foi mais tarde, pouco a pouco , que o mundo irrompeu. O ruído a invadiu, cobrindo a doce Voz de Deus e o barulho se amplificou.

Volta ao silêncio batismal, irmão!

O ruído tem três geradores :
1- As recordações
2- A curiosidade
3- As inquietações

Paralisar suas ações!

a. Faz calar os ruídos das recordações ! Não recordes , não reavives nenhuma má lembrança ...! O mal arrependido está perdoado ; a generosidade do Amor presente repara o passado . Esquece as ações concretas. Basta te manteres diante de Deus como pecador beneficiário de Sua infinita Misericórdia. O mal é nada! Para que recordá-lo ? Pensa somente na Graça de Jesus Cristo que te salvou , no esquecimento eterno de tuas faltas , as quais Deus destruiu.

Ele não coleciona pequenez ..! Guarda para Ele um coração filialmente contrito , receptivo e terno . Isso é compunção “

As Portas do Silêncio.

(Por um Monge Cartuxo)

domingo, 28 de outubro de 2018

Repetir a oração


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"Nós devemos constantemente e incessantemente repetir a Oração de Jesus. Apenas o nome de Cristo deve permanecer dentro do nosso coração e mente; quando negligenciamos a nossa oração, que é a nossa comunicação com Deus, o inimigo encontra a chance de nos confundir com pensamentos negativos. Assim, acabamos não sabendo o que queremos, fazemos ou dizemos."

-- Abba Paisios

A prontidão


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A prontidão e o compromisso do homem não são suficientes se ele também não contar com ajuda de cima; igualmente, a ajuda de cima não nos é benéfica, a menos que haja compromisso e prontidão da nossa parte. Assim, eu vos imploro não confiar tudo a Deus e depois adormecer (não permanecer Atento e Vigilante), nem pensar, quando você se esforça diligentemente, que você conseguirá tudo por seus próprios esforços.

-- São João Crisóstomo, Filocalia.

Incapacidade

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O fato de você estar ciente de sua incapacidade de se concentrar na Oração de Jesus é também uma graça. Mesmo não interessado, tome a repetição do Nome Divino como um remédio. Isso também terá um bom resultado. Você vai melhorar. O Nome Divino não é como o remédio mundano que às vezes funciona e às vezes não; a repetição do Nome Divino invariavelmente dá frutos.

Morada do Espírito


"Quando o Espírito estabelece sua morada em alguém, este não pode deixar de orar, pois o Espírito não cessa de orar nele. Mesmo que durma ou que vele, a oração não se separa de sua alma. Enquanto bebe, come, está deitado ou se dedica ao trabalho, o perfume da oração brota de sua alma. Dali por diante, não só em momentos determinados, mas em todo o tempo, os movimentos da inteligência purificada são vozes mudas que cantam, no segredo, uma salmodia ao Invisível" 

-- Isaac, o Sírio

Ao orar...


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Ao orar a Oração de Jesus repetidamente, ela se torna estabelecida em nossos corações. Com o tempo, a oração sobe à consciência sem esforço da nossa parte. Em meio a problemas, tentação, dor, raiva ou frustração, esta oração nos faz conscientes da presença de Deus. Como resultado, nos tornamos oração. Começamos a adorar e orar, não em nossas próprias palavras, nem em nossas próprias mentes, mas no Espírito.

-- Filocalia

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

A surpreendente e sofisticada dieta dos monges medievais

MONKS EATING,TABLE

Nem só de pão eles viviam

O historiador David Snowden, em seu livro Flans and Wine, publicou receitas usadas por monges beneditinos na Inglaterra do século XIV, revelando que eles sobreviveram muito mais do que apenas de pão.
As receitas usadas pelos monges beneditinos da Evesham Abbey, fundada em 701, indicam que os monges tinham, na verdade, paladares bastante sofisticados.
Muitos pratos eram condimentados com ervas e especiarias difíceis de se conseguir na época.
Tais especiarias “eram muito caras. E uma maneira de mostrar a prosperidade da abadia era produzir alimentos e condimentos raros”, disse Snowden à BBC.
“Por exemplo, muitas dessas receitas levavam açafrão, porque ele valia mais do que ouro”, disse ele. Assim, apenas poucos mosteiros podiam comprar ou produzir o condimento. 
As receitas ainda incluíam mexilhões cozidos com alho-poró e molho de Saracen (um molho picante vermelho), carne de caranguejo frito em azeite com ovos mexidos e pratos contendo ostras, língua de boi, vitela e javali.
Durante a Quaresma, quando o consumo de carne era proibido, Snowden afirma que os monges podem ter comido “Cawdel of Muskels”, ou seja: mexilhões cozidos em vinho branco, temperados com cebolas e alho-poró, gengibre e uma pitada de açafrão.
No livro, o historiador adaptou as receitas, que foram escritas no inglês arcaico, para o uso de hoje, usando medições e ingredientes modernos disponíveis no mercado atual, especialmente as mercearias gourmet.
Snowden acredita que a dieta dos monges pode ter influenciado na longevidade deles, já que era uma dieta em que faltava frutas e outros alimentos mais saudáveis. “Eles não eram muito saudáveis e a idade média de morte era de 35 anos – a maioria deles morreu de doenças brônquicas, provavelmente causadas por dieta deficiente – mas a expectativa de vida não era muito longa”, disse ele à BBC.

https://pt.aleteia.org/2018/09/19/a-surpreendente-e-sofisticada-dieta-dos-monges-medievais/?utm_campaign=NL_pt&utm_source=daily_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

COMO PERSEVERAR NA VIRTUDE, POR SANTA CATARINA DE SIENA




1.Saudação e objetivo 
Em nome de Jesus Cristo Crucificado e da amável Maria, caríssimo filho no do Jesus Cristo, eu Catarina, serva e escrava do servos de Jesus Cristo, escrevo no seu precioso sangue, desejosa de ver-te perseverante em toda virtude.


2. A perseverança é fruto do amor
Sem a perseverança não alcançarás a coroa da glória, que é dada aos verdadeiros lutadores. Tu me dirás: “Onde posso achar a perseverança”? Responde-te. Uma pessoa só presta serviço a outra na medida do amor que lhe dedica. Não mais. Em tanto falhará em servir, quando falhar no amor. Mas também tanto amará, quando se sentir amada. Veja bem: ao sentir-se amada, a pessoa ama. É desse amor que nasce a perseverança. Portanto, à medida que abrires o olhar da tua inteligência para ver o fogo e o abismo do infinito amor de Deus por ti — amor revelado do Verbo, Filho de Deus — tu te verás obrigado a amar a Deus de todo o coração, com todo afeto, com todas as tuas forças, sem interesses, de modo puro, sem nenhuma procura de interesses pessoais. Compreenderás que Deus te ama para o teu bem, não para utilidade dele. Pois o Senhor é o nosso Deus, é a bondade suprema e eterna, que não pensa em proveito próprio. E amarás também o próximo para a sua utilidade. Construindo assim o alicerce e o amor em sua base, imediatamente começarás a praticar as virtudes. E através da iluminação divina e do amor, adquirirás a perseverança.
3.Não te esqueças da humildade
Ao compreenderes que és amado por Deus, é conveniente que medites sobre os teus pecados e tua ingratidão. Na cela do coração perceberás a gravidade de tua cupa. Valoriza, então, a pequena virtude da humildade, para não confiares nas tuas forças e não caíres na complacência de ti mesmo. Sabes que é importante conhecer os próprios pecados, sua gravidade, para poder conservar e aumentar a graça na alma? Isso se dá na mesma proporção que existe entre o alimento corporal para conservação da vida no corpo. Afasta de ti, pois, a nuvem do egoísmo para que ela não prejudique a iluminação da alma, favorecida pelo perfeito conhecimento e concretizada pelo ódio (ao pecado) e pelo amor (à virtude). Assim,no amor acharás a perseverança, cumprirás a vontade divina e o meu desejo a respeito de ti. Vontade divina e desejo meu, que consiste no ver-te crescer e perseverar até o dia da morte na práticas das verdadeiras virtudes.
4.Refugia-te na caverna do coração de Cristo
MAS CUIDADO DE NÃO CONFIARES EM TI MESMO. ESSA CONFIANÇA É SEMELHANTE A UM VENTO SUTIL DE ORGULHO, NASCIDO DO EGOÍSMO. IMEDIATAMENTE RETROCEDERA, OLHANDO PARA TRÁS (CF. LC 9,62). Da mesma forma como o amor de Deus te faz perseverante na virtude, o egoísmo e a procura de boa reputação te fazem cair no vicio e nele perseverar. Meu filho, foge desse sutil vento da boa reputação. Em tudo, procura esconder-te na chaga do peito do Crucificado. E uma vez aí dentro, fixa o pensamento no segredo coração de Cristo. Então acenderás a chama do teu amor. Entenderás que Jesus fez em seu corpo uma caverna, onde te esconderás dos inimigos, onde repousarás, onde acalmarás tua mente no fogo do amor. Ai acharás alimento, pois Jesus deu sua carne como comida e seu sangue como bebida. Aquela carne assada na chama do amor e aquele sangue servido no altar da Eucaristia. Dissolva-se hoje mesmo a dureza dos nossos corações. Que nossa mente se torne mais receptivas aos ensinamentos de Cristo.
5.Pensemos no Menino Jesus
Quero que tu e os demais filhos comeceis a ser mais semelhantes a este pequeno menino, o Verbo encarnado, que a santa Igreja agora nos apresenta (na liturgia). Para confusão do nosso orgulho, que poderíamos imaginar de mais sublime, que um Deus que se humilha à altura do homem? Ou demais grandioso, que a suprema divindade posta ao nível da humanidade? E por qual motivo? Por amor! O amor fez Jesus residir num estábulo de animais; o amar o cobriu de ultraje, o revestiu de sofrimento; e o fez padecer fome e sede. O amor o fez correr com pronta obediência para terrível morte na cruz. O amor o fez descer à mansão dos mortos para esvaziar o limbo dos patriarcas e dar prêmio àqueles que o haviam esperado e servido por longo tempo. Depois da ascensão, O amor fez Cristo enviar o fogo do Espírito Santo, que nos iluminou com sagrada doutrina, caminho que nos dá a vida, nos liberta das trevas e nos concede a eterna visão de Deus. O amor fez tudo! Envergonha-se quem não tem amor a Deus, quem não dá resposta a tão imenso amor. Que triste sorte é a de quem, podendo ter o fogo, deixa-se morrer de frio; quem, tendo o alimento diante de si, deixa-se morrer de fome! Tomai, tomai vosso alimento, o doce Jesus Crucificado! Por outros caminhos, não sereis constante e perseverante. Como ficou dito, é a perseverança que recebe o prêmio. Sem ela, a alma só terá o mal não a glória.
6.Conclusão
Foi refletindo sobre tudo isso, que afirmei estar desejosa de ver-te contante e perseverante na virtude. Nada mais acrescento. Permanecer no santo amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.




(Santa Catarina de Sena, Cartas Completas)

Mortificação das quatro paixões naturais


Para mortificar as quatro paixões naturais que são: gozo, tristeza, temor e esperança, aproveita o seguinte:
Inclina sempre não ao mais fácil, mas ao mais difícil;
Não ao mais saboroso, mas ao mais insípido;
Não ao mais gostoso, mas ao que não dá gosto;
Não se inclinar ao que é descanso, mas ao mais trabalhoso;
Não ao que é consolo, mas ao que não é consolo;
Não ao mais, mas ao menos;
Não ao mais alto e precioso, mas ao mais baixo e desprezado;
Não ao que é querer algo, mas o que é não querer nada;
Não andar procurando das coisas o melhor, mas o pior; e por Jesus Cristo ter, para com todas as coisas do mundo, desnudez, vazio e pobreza.

São João da Cruz

Das vantagens da luta

Das vantagens da luta

Non coronatur nisi qui legitime certaverit.
Ninguém é coroado, sem que tenha combatido legitimamente.
(II. Tm 2, 5)

Enumeramos as diversas qualidades que deve ter o verdadeiro soldado de Deus. Dispondo desses meios, pode entrar em guerra, certo de que a luta durará enquanto lhe durar a vida. 

Terá, com efeito, toda a vida uma natureza rebelde, tendências más, que deverá sempre reprimir, sem nunca poder diminuí-las. A concupiscência resulta do pecado original. Como os outros males que provêm de igual origem, a ignorância, a sujeição às enfermidades e à morte, essa concupiscência se fará sentir toda a vida para nos fazer compreender o mal que é o pecado, e levar-nos a expiar nossas faltas individuais.
Mas essa luta não é somente um castigo e um meio de expiação. Deus pune como Pai, e as penas que impõe são também benefícios, pois impedem males mais funestos e produzem vantagens inestimáveis. A luta nos acautela contra a indolência, contra o entorpecimento espiritual, apto a degenerar em um sono mortal, enquanto é uma ocasião de merecer, um meio de aumentar a felicidade eterna.

Ai, por conseguinte, das almas covardes que recusam o combate! Relembramos há pouco os hebreus querendo entrar na terra de Canaã, que o Senhor lhes prometera, e para onde enviaram exploradores que se certificassem de sua fertilidade. De lá trouxeram frutos magníficos. Foi com razão, disseram, que a denominaram uma terra em que corre leite e mel. Mas essa terra era habitada por povos valorosos, defendida por cidades fortes. A conquista desse país, tão belo e tão rico, exigiria uma longa e terrível guerra. Já dissemos que, cedendo ao medo, a maior parte dos exploradores exageraram as dificuldades e quiseram afastar o povo de Israel da dita empresa.

O povo, infelizmente, os atendeu; murmurando contra Deus, quis fugir da luta e voltar para o Egito. O Senhor irritou-Se; prometera a vitória, e duvidavam agora da Sua promessa; desejava que a obtivessem pela luta, e recuavam covardemente diante da necessidade de combater. Era tornar-se indigno da felicidade prometida. 

O castigo infligido pelo Senhor foi exemplar, pois devia servir de lição a todas as gerações vindouras.

Escutemos essa linguagem severa: "Vossos cadáveres ficarão estendidos neste deserto. Vós todos que fostes recenseados de vinte e mais anos, e que murmurastes contra Mim não entrareis na terra em que eu havia jurado introduzir-vos exceto Caleb, filho de Jefné, e Josué, filho de Nun. Vossos filhos viverão errantes na solidão durante quarenta anos; carregarão a pena de vossa apostasia até que os corpos de seus pais sejam consumidos no deserto. Explorastes a terra durante quarenta dias: um ano pagará por um dia, e durante quarenta anos carregareis o castigo de vossas iniqüidades e conhecereis Minha vingança" (Nm. 14, 29-34). 

Desagradam, portanto, ao Senhor os homens pusilânimes. As almas fortes e ardentes na luta, ao contrário, agradam-Lhe e encantam-nO. Foi por isso que o Senhor, mesmo depois da conquista da terra prometida, deixou subsistir entre os israelitas alguns vestígios da raça de Canaã; quis que os filhos dos conquistadores aprendessem a guerrear o inimigo como seus pais e que seu povo não perdesse o hábito do combate, pois, é tão temível uma vida indolente e mole quanto é vantajoso à alma ter inimigos a repelir e a vencer. 

São principalmente as almas que o Senhor chamou a uma virtude mais alta, às quais concedeu graças mais numerosas, que devem travar combates mais rudes. Iludem-se, pois, completamente, esses piedosos fiéis que não compreendem que a vida de uma alma toda dedicada ao serviço de Deus seja cheia de lutas.

Desejariam, por certo, servir fielmente a Deus, amá-lO de todo o coração, mas sem que isso lhes custasse muito à indolente natureza. "Serei religioso, piedoso, fiel ao meu dever, sustentarei alguns combates, mas terei, espero, muitos intervalos de repouso; em minhas lutas serei auxiliado, animado e, em caso de necessidade, carregado. Os impulsos de meu coração, afetivo por natureza, me tornarão generoso; as doçuras da oração, as alegrias da comunhão, os conselhos paternais de meu guia me consolarão dos sofrimentos, e atravessarei a vida protegido, apoiado, até o dia do triunfo final." 

Ilusão! Às almas a quem Deus reserva uma magna recompensa, não é tão fácil o triunfo final. A felicidade eterna será um bem laboriosamente conquistado; e isto constitui a glória dos eleitos e lhes aumenta a alegria.

É evidente que os trabalhos serão mais penosos na terra, para aqueles a quem está reservada uma eternidade mais feliz; terão períodos consecutivos, por vezes muito longos, de lutas contínuas, de tentações horríveis, de aridez, de incapacidade; faltar-lhes-á então todo apoio exterior, e só Deus permanecerá oculto no fundo da alma, sem deixar sentir Sua presença. É preciso contar com essa luta terrível, perceber-lhe de antemão os horrores, e aceitá-los corajosamente. Depois, chegada a provação, quando as consolações cessarem e os sentimentos parecerem sufocados, será preciso apoiar-se unicamente na fé, na esperança e na caridade; na fé - acreditando, apesar de tudo, no poder, na sabedoria, no amor de Deus; na esperança abandonando-se-lhe entre as mãos com plena confiança em Sua bondade infinita; na caridade multiplicando atos de absoluta conformidade à vontade divina, e consolando-se com o pensamento de que, graças a essas provações, no céu, grandezas divinas serão mais conhecidas, e Deus amado com maior perfeição. 

Imensos são, com efeito, os resultados dessas lutas para os corações valorosos! Cada vitória é uma conquista; triunfando de um defeito, adquirem maior domínio sobre si mesmos e, quanto mais fortes forem mais capazes serão de fazer o bem.              

Roma começou modestamente; no tempo dos reis era uma simples aldeia. Mas as lutas travadas de início contra seus vizinhos imediatos, e terminando sempre por conquistas, ampliaram-lhe o poder. Tornara-se, pouco a pouco, senhora de toda a Itália até que as guerras contra Cartago, felizmente terminadas, estenderam-lhe o domínio até a Espanha e a África. Novas lutas permitiram-lhe abranger em suas fronteiras a Gália, grande parte da Europa, da África setentrional e da Ásia ocidental e cada nova guerra, dilatando as suas fronteiras, aumentava o seu poder e a tornava cada vez mais temível a seus inimigos. 

Deu-se o mesmo com todas as grandes nações; foi só devido a numerosos combates, a árduas vitórias, que conseguiram estender seu domínio, intensificar suas forças e tornar-se aptas a exercer grande influência, e encetar e terminar de modo satisfatório importantes empreendimentos. Outros povos, ao contrário, mais amigos da paz, ou menos favorecidos pelas circunstâncias, permaneceram dentro de limites mais modestos; contentando-se em representar no teatro da história um papel apagado; assim o grão-ducado de Luxemburgo, e, mormente o principado de Mônaco ou a república de São Marinho em nada podem modificar a marcha dos negócios humanos. 

Os negociantes não têm todos um mesmo espírito de iniciativa nem dedicam ao comércio uma mesma atividade; nem dispõem tampouco dos mesmos meios de divulgar seus negócios. Alguns, amigos de uma vida tranqüila, continuam a gerir simplesmente o estabelecimento legado pelos antepassados, sem se esforçarem por alargar o círculo de sua freguesia; os lucros, que lhes bastam à manutenção da vida, não lhes permitem arriscar-se em novas empresas. Outros, mais trabalhadores e mais ambiciosos, são também mais esforçados e sujeitam-se a grandes fadigas; cada negócio, corajosamente empreendido e continuado, em que despendem habilidade e dedicação, multiplica-lhes os capitais e os habilita a realizar outros e maiores empreendimentos, a obter lucros mais consideráveis. 

Aqueles que estão preparados para a luta mostram uma constância muito maior quando é chegado o momento do combate; aqueles que contavam com as consolações da piedade e não esperavam esse estado de desolação, estão muito mais expostos a perder a coragem. Quantos, então, não caem no relaxamento! Irritam-se contra as dificuldades, agastam-se contra si mesmos e contra a própria fraqueza, deixam de lutar e caem num estado deplorável; ou então, o que acontece as mais das vezes lutam com indolência e não lucram nesses combates as imensas vantagens das almas generosas.  

Dá-se o mesmo na vida espiritual: as almas fracas, pouco generosas ou pouco tentadas, levam uma vida relativamente calma; as lutas que sustentam são poucos temíveis e como não patenteiam nem grande coragem nem grande energia, tais lutas, deixando-as mais ou menos no mesmo nível de virtude, não as tornam capazes de aumentar seus tesouros espirituais. Muitas almas permanecem toda a vida num estado apenas acima do estado inicial. Não é que seus méritos não se acrescentem uns aos outros, e que não se enriqueçam um pouco pela repetição de certos atos virtuosos; mas, se seus ganhos se adicionam, não progridem; essas almas ganham hoje o que já ganhavam há dez, vinte, trinta anos, atrás. Assemelham-se aos operários indolentes, cujo dia de trabalho, após um longo tirocínio, não produz mais do que produzia durante o aprendizado. Nesses cristãos, que combateram frouxamente, existem sempre muitas lacunas; suas virtudes não se desenvolveram; há, em sua conduta, uma quantidade de imperfeições contra as quais deixaram de lutar, e que já não percebem; suas disposições de renúncia, de humildade e de amor permanecem medíocres e as obras, aparentemente as mais brilhantes, realizadas nessas disposições, não podem ter, aos olhos de Deus, senão um valor medíocre. 

Inteiramente outros são os resultados obtidos pelos corações generosos que, caminhando de conquista em conquista, passados alguns anos dobraram, quadruplicaram decuplicaram, centuplicaram, talvez, suas forças. 

Todas as virtudes se lhes tornaram familiares e, por conseguinte praticaram-lhe atos com mais freqüência e mais perfeição do que na juventude, já fervorosa. Não se contentaram em afastar molemente o inimigo e conservar as posições conquistadas; atacaram-no com ardor, com perseverança, dizendo como Davi: Persequar inimicos: meos et comprehendam eos, nec dimittam donec deficiant . "Perseguirei meus inimigos, esperá-los-ei, não os abandonarei sem que os tenha vencido" (S. 17, 38). 

Tratar-se-á de dissipação? Cuidaram tanto em velar sobre os sentidos, em reprimir os desvios da imaginação, em fugir às divagações, em suprimir os pensamentos inúteis, que se tornaram, após anos de luta, senhores de seu interior; governam, quase à vontade, as potências da alma. Desde então, não perdem mais a presença de Deus e permanecem intimamente unidos a Ele por atos de amor, espontâneos e muito freqüentes. 

Se outrora sofreram vivamente as revoltas do amor próprio, julgaram não fazer bastante confessando-as, e aspiraram à humildade perfeita. Para obtê-la de Deus, deram prova de boa vontade, multiplicaram os atos de humildade, mesmo os que mais lhes custavam. Confessaram à si mesmos a própria fraqueza; não se envergonharam de dá-las a conhecer; foram voluntariamente ao encontro das humilhações e agradeceram ao Senhor aquelas que lhes couberam espontaneamente. Chega então o momento em que as humilhações nada mais custam e a humildade se exerce como que naturalmente e sem restrições.

Se combateram, com igual ardor e constância, a vivacidade do caráter, a sensualidade, o amor às comodidades, e praticaram corajosamente as virtudes contrária à estas acabarão por lhes serem fáceis e chegarão a praticá-las, não pela metade, como os principiantes, ou só com o auxílio de graças sensíveis e sob o impulso de uma imaginação entusiasta, mas com uma decisão amadurecida, tranqüila e firme, em que a vontade opera com força muito maior e, portanto, com mérito muito superior. 

Os hábitos adquiridos pela prática de repetidos atos, sem suprimir de todo a luta, facilitam a virtude; deixam-lhe o mérito intato, pois tais hábitos, frutos de longos esforços, são voluntários e quem os possui, feliz de tê-las adquirido, aceita-lhes todas as conseqüências. Sua vontade, apegada mais que nunca ao bem que procurou durante longo tempo, não carece mais de reações enérgicas para decidir-se a praticar tal ato de virtude, embora Suas decisões sejam mais absolutas e mais intensas.  

Mas a graça opera com maior liberdade, sobretudo no coração do cristão plenamente senhor de si. Outrora, a vitória custava-lhe caro; era mister, para obtê-la, empregar violentos esforços, que causavam vivas emoções. Esses abalos sensíveis, que alguns julgam necessários à aquisição de grandes méritos, não são, ao contrário, senão uma deplorável conseqüência da impureza e um obstáculo à perfeição de nossos atos.

Quando as paixões estão ainda muito vivas, dá-se um choque entre elas e a graça impulsora para o bem; então esta será, senão afastada, ao menos retardada e prejudicada em sua obra salutar. Quando a graça triunfa e a paixão é vencida, a alma fica satisfeita, ufana-se mesmo de se ter constrangido; de ter sofrido muito para cumprir seu dever; é inclinada a comprazer-se em si mesma e a medir seus méritos pela violência que se fez. É erro, pois, muitas vezes, nessas lutas violentas dos primeiros tempos, a natureza mesclar sua ação à da graça. Para repelir o mal, cumprir um dever difícil, ou fazer um sacrifício penoso, a alma recorre não somente aos motivos sobrenaturais, que não exercem ainda bastante influência sobre ela, mas a razões humanas, pelo menos a razões pouco elevadas, como a vergonha de si mesmo e de suas misérias, a procura da estima de outrem ou o amor de sua própria perfeição. É tão agradável à natureza poder dar-se um bom atestado! 

Sob a influência desses motivos, a natureza se torna inflexível para consigo mesma e a vitória não é devida ao puro domínio da graça. 

À medida que a alma progride, as revoltas da natureza, embora nunca desapareçam de todo, tornam-se menos violentas, e a graça, menos embaraçada, opera com maior poder. A vitória custa muito menos e, entretanto os atos de virtude são mais puros, mais eficazes; as faculdades sensíveis agitam-se pouco a pouco, a imaginação permanece mais, calma, o apetite irascível mantém-se em repouso, o espírito não raciocina tanto. Então Deus opera com maior liberdade. 

É Deus, pois, quem opera na alma e esta age nEle, por Ele, para Ele, dando aos seus mínimos atos um valor superior: uma breve oração, um ato simples de uma alma santa mais valem aos olhos de Deus que os esforços violentos de um principiante. A santíssima Virgem não sentia lutas e, entretanto quão perfeitas, quão meritórias, quão maravilhosamente sobrenaturais eram as Suas menores ações! Nós precisamos lutar, mas, a força de vencer, aproximamo-nos dessa tranqüilidade, desse domínio sobre nós mesmos, dessa força de ação que imprime aos atos humanos seu pleno valor. Sem dúvida, os atos virtuosos praticados pelos principiantes já merecem, e seu eterno tesouro vai crescendo, mas são moedas baixas que lhes acrescentam cada dia; mais tarde, depois de longas lutas, valentemente sustentadas, não serão mais moedas de prata, porém peças de ouro e notas de banco que acumularão. 

Oh! como serão ricas as almas generosas no dia da prestação de contas, quando for dado, e para sempre, a cada um, segundo suas obras. 

(O Caminho que leva a Deus pelo Cônego Augusto Saudreau, 2ª edição, 1944)

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domingo, 26 de agosto de 2018

“Estação da Alma”: os franciscanos que moram num incrível trem-convento

franciscanos trem

“O trem representa o caminho itinerante, mas também a simplicidade e a precariedade”

Quando pensamos em um convento, imaginamos uma construção formada por claustro, pátios, capela e outros espaços. Este não é o caso de um grupo de frades franciscanos no Sul da Itália, que adaptou vagões de trem para o uso religioso.
O convento dos Frades Menores Renovados, conhecido como “A estação da alma”, está localizado no bairro de Scampia, uma das regiões mais perigosas e pobres da cidade de Nápoles, Itália.
No local, há cinco vagões que são utilizados como claustro, capela e espaços comuns. Também há um jardim, um contêiner, que foi adaptado para receber as visitas e uma oficina.
O superior do convento, Frei Carlo, disse ao jornal “Corriere del Mezzogiorno” que estes vagões “foram doados pela Ferroviária Estatal, que os colocou com gruas no terreno, que foi doado por um morador local.
“Nós não escolhemos viver nos vagões, não foi algo programado. Quando chegamos aqui, esperávamos contêineres e enquanto aguardávamos, adaptamos estes vagões abandonados, que datam da década de 40. Era uma situação provisória, mas que se converteu em nosso estilo de vida”, disse à rede de televisão italiana Rai1 outro grupo de frades.
Segundo Frei Carlo, os oito religiosos da comunidade não tem recursos próprios. “Não temos dinheiro, sobrevivemos graças a generosidade dos napolitanos que nos trazem comida e dividimos o que nos resta com os necessitados”.
“O trem representa o caminho itinerante, mas também a simplicidade e a precariedade”, afirmou o superior ao portal“Famiglia Cristiana”.
“Com estes valores buscamos recuperar a espiritualidade e os ensinamentos de São Francisco. Também como viajamos constantemente, porque nada é nosso, não podemos fixar raízes em nada”, acrescentou.
Como parte de seu apostolado, os Frades Menores Renovados colaboram com uma paróquia local, onde celebram missas, visitam hospitais, presídios e casas.
“Aqui sempre nos visitam, vem e pegam o que serve para elas. Também alguns de nossos frades caminham pelo bairro e conhecem a realidade das pessoas da região. Nós tratamos de dar consolo e falar com eles. Especialmente buscamos escutá-los e fazer com que eles vejam a vida com olhos mais cristãos”, expressou o superior da comunidade.
Frei Carlo disse ao “Corriere del Mezzogiorno” que no bairro de Scampia “a degradação e o envolvimento com o crime é muito intenso. No entanto, muitos fiéis estão dispostos a sair desta realidade e nos buscam para ter consolo. Alguns gostariam de sair do ‘sistema’, mas poucos conseguem, porque já estão muito envolvidos”.
A Ordem dos Frades Menores Renovados está presente em outras partes da Itália e em países como Colômbia e Tanzânia. Eles não estão ligados à Ordem dos Frades Menores.
Fonte: ACIPrensa, via Franciscanos.org.br

Cristo: ver com olhar claro

Clarificar o olhar do coração
Cristo não se esgota com um ou com cem olhares superficiais.
Detenhamo-nos agora a pensar um pouco mais na aventura de quem adentra constantemente no mar de luz que é Cristo.
Com o olhar interior purificado pela humildade e a penitência, Jesus faz brilhar a sua luz em nossos corações (2 Cor 3, 18), e nos leva ao encantamento de descobrir facetas sempre novas do esplendor de Deus, que se reflete na face de Cristo (2 Cor 4,6). É uma experiência feliz que são Paulo viveu.
É claro que, para facilitar isso, além do hábito de meditar a Sagrada Escritura, precisamos:
─ adquirir o hábito da leitura espiritual cristã, se possível diária (quem quer mesmo, acha tempo para isso), pedindo a orientação oportuna para escolher as obras formativas mais úteis para nós em cada situação da vida ─ há muitas leituras e muito boas ─; sempre podemos ler algum livro que nos ajude.
─ aprofundar também nas raízes doutrinais da fé com o estudo frequente do Catecismo da Igreja Católica, bem como dos principais documentos do Magistério da Igreja e de bons textos de doutrina segura sobre questões de atualidade[1]Em suma, precisamos melhorar muito a nossa cultura católica.
Sabe qual é o sinal mais claro de que o coração se vai clarificando? A alegria das «descobertas»: o entusiasmo de descobrirmos, dentro do tesouro da verdade cristã, riquezas nunca dantes imaginadas, respostas luminosas, ideias cativantes, verdades ainda não compreendidas.
É, como dizem alguns, a alegria de descobrir «novos Mediterrâneos».
Essa expressão é comum entre países da Europa, para os quais o mar Mediterrâneo, o mare nostrum dos romanos, é milenarmente conhecido, navegado e desfrutado.
Descobrir um «novo Mediterrâneo» significa, por isso, encontrar inesperadamente ─ pelo sopro do Espírito Santo  ─ um significado inédito, fantástico, em algo que já conhecíamos talvez de cor, que até comentávamos e ensinávamos: um novo Mediterrâneo no velho mar Mediterrâneo.
É o Espírito Santo quem leva as almas fiéis a desfrutarem dessas descobertas. Assim aconteceu muitas vezes, por exemplo, com são Josemaria, que recebia a graça e tirar água fresca espiritual de poços que pareciam já exauridos [2].
Do livro de F. Faus Procurar, encontrar e amar a Cristo, Cultor de Livros 2018
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[1] Cada vez mais, graças a Deus, podem ser encontrados cursos, áudios e leituras católicas muito valiosas na Internet
[2] Ver, no site opusdei.org, o livro eletrônico Novos Mediterrâneos

Mais sobre amor ao próximo

Levai uns as cargas dos outros, e deste modo cumprireis a lei de Cristo (Gal 6, 2).
Para “levar as cargas”, pensemos em primeiro lugar – evocando o exemplo do samaritano que carregou o ferido – que os outros deveriam ter mais espaço e mais “peso” nos nossos pensamentos. Na verdade, se o amor de Cristo habitasse no nosso coração, certamente nos preocuparíamos mais com os problemas do próximo. É sugestiva essa palavra “pre-ocupação” – no sentido em que agora a empregamos –, pois indica um modo de pensar antes com interesse, preparando assim uma dedicação, uma “ocupação” em serviço dos outros.
Como seria bom que o pai e a mãe de família, ao transporem o limiar da casa, deixassem fora as “preocupações” no sentido negativo da palavra, isto é, as apreensões, angústias, questões de solução difícil, prazos que vão vencer em breve…, e entrassem no lar com uma preocupação boa: com alguma iniciativa pensada, preparada antes com carinho para alegrar alguém, para causar uma agradável surpresa, para reavivar um diálogo um tanto descuidado, para enfrentar algum problema deixado de lado por comodismo, ou para dar um conselho que não pode esperar mais!
Em matéria de ajudas e serviços, não há dúvida de que a primeira preocupação que deveríamos ter para com os que amamos é a oração. Lembremo-nos de quanto não rezou e chorou Santa Mônica, “preocupada” durante longos anos com os extravios de seu filho Agostinho; de dia e de noite suplicava a Deus a sua conversão. O próprio Santo Agostinho conta no livro das Confissões que, certo dia, falando sua mãe, aflita, com o bispo Santo Ambrósio, este tranqüilizou-a dizendo-lhe umas palavras que encheram a sua alma de consolo: “Vai em paz, mulher, e fica tranqüila, pois é impossível que se perca um filho de tantas lágrimas” 15. Em outro dos seus escritos, Agostinho anotará um dia, cheio de gratidão: “Se eu não pereci no erro, foi devido às lágrimas cotidianas cheias de fé de minha mãe” 16.
Tratemos, portanto, de que os outros tenham mais “peso” no mundo dos nossos pensamentos. Depois, haveremos de conseguir que “pesem mais” também no mundo das nossas palavras.
Podemos dizer, por acaso, que as nossas palavras, concretamente as que dirigimos a toda a hora aos que conosco convivem ou trabalham, são palavras construtivas, veículos de amor serviçal, gotas de orvalho reconfortante na secura dos corações, ativadores das fibras de bondade que se escondem em todo o coração humano?

Do livro de F.F. Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens, Quadrante 1993.

VOLTAR AO PAI


Resultado de imagem para voltar ao pai

“Uma coisa é importante acima de tudo mais: ‘voltar ao Pai’. O Filho veio ao mundo e morreu por nós, ressuscitou e subiu para o Pai. Enviou-nos o Espírito Santo para que Nele e com Ele pudéssemos voltar ao Pai.


Sim, para que pudéssemos passar completamente para além da névoa de tudo que é transitório e inconclusivo: Voltar ao Imenso, ao Primordial à Fonte, ao Inconhecido, àquele que ama e conhece, ao Silencioso, ao Misericordioso, ao Santo, Àquele que é tudo.


Procurar algo, preocupar-se com algo fora disso, é loucura e enfermidade. Pois isso é o sentido pleno e o cerne de toda existência. E é nisso que todos os negócios de nossa vida e todas as necessidades do mundo e dos homens tomam seu sentido certo. Tudo aponta para essa única grande volta à Fonte.”


Reflexões de um espectador culpado
(Vozes, 1970) pág. 198



terça-feira, 31 de julho de 2018

Vida Espiritual #01

A ousadia do sinal da Cruz


"Quando fazemos o sinal da cruz, dizemos: "em nome do Pai e do Filho, e do Espírito Santo". Significa que aquilo que fazemos acontece como incumbência, e na força da Santíssima Trindade. De onde temos o direito a essa linguagem ousada inédita? Da força da sagrada cruz. Possuímos o direito de falar assim porque fomos remidos pela santa cruz, ela foi escolhida pela Santíssima Trindade desde a eternidade como instrumento da redenção, e no madeiro amplamente visível da da ignomínia foi fixado o peso do pecado da humanidade. Fazendo o sinal da cruz em nome da Trindade, prestamos honra à justiça divina e com ela proferimos o juízo de morte sobre nossa natureza pecadora (Hb 3,6). Nós somos a morada de Deus."

Edith Stein, Teu coração deseja mais.

Viver eucaristicamente

Há um longo caminho entre a satisfação pessoal de ser um "bom católico", que "cumpre com seu dever", lê um "bom jornal", "faz boas escolhas", etc., mas no mais faz o que lhe agrada, até chegar a uma vida nas mãos de Deus e a partir das mãos dele, na simplicidade da criança e na humildade do cobrador de impostos. Todavia, quem uma vez já trilhou o caminho não o fará novamente. Assim, a filiação divina significa: tornar-se pequeno, mas ao mesmo tempo tornar-se grande. Viver eucaristicamente significa sair perfeitamente da estreiteza da própria vida e crescer para dentro da amplidão da vida de Cristo. Quem procurar o Senhor em sua morada não vai querer vê-lo ocupar-se apenas conosco e com os nossos assuntos pessoais. Irá começar a interessar-se pelos assuntos do Senhor.

Edith Stein, teu coração deseja mais

Dificuldades da vida cristã - O que fazer diante dos ataques dos outros e diante da constatação da nossa própria fraqueza?


Escrevo este texto em resposta à pergunta que uma cara amiga me fez recentemente e que basicamente se resumia a duas partes: 1- por que, se nos decidimos por Cristo de fato, tantas são as pessoas que ficam contra nós, nos fazendo contínua oposição, e somos expostos à perda de "tudo"? 2- Isto significa que, para ser um bom cristão, é preciso ser masoquista, ser de ferro ou ser divino?

***

Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir.
Por tua causa e por teu nome estão todos contra mim (Jer 20,7)

Para que vivemos? Vivemos para nos santificarmos, dirá Sto Afonso. Este é o grande motivo pelo qual Deus nos mantém nesta vida, o que significa que tudo o mais, comparado a isto, é bastante secundário.

A santidade acontece quando há união de vontades, isto é, quando a vontade de Deus se torna a minha, de modo que eu queira o que Deus quer e deteste o que Deus detesta. No entanto, é preciso entender que há uma desordem em nós, fruto do pecado. Este é um fator importantíssimo para entendermos as dificuldades práticas que enfrentamos no decorrer da vida e na luta por sermos pessoas boas.

Esta desordem na alma nos inclina sempre ao egoísmo, explícito ou disfarçado. Isto se torna como que uma tendência natural nossa. Acontece que o egoísmo é o que há de mais oposto à santidade. Logo, se somos egoístas, estamos frustrando a única razão pela qual vivemos. E, no entanto, é um fato que somos fortemente inclinados ao egoísmo. Como resolver este problema?

Negando-nos a nós mesmos. "Quem quiser me seguir - se quiser - negue-se a si mesmo""Quem não faz pouco caso da própria vida, não é digno de mim". São expressões e mandamentos difíceis, mas profundamente curativos e necessários a uma alma que pretenda adquirir saúde. A "vida em plenitude" que Jesus promete não se alcança de qualquer modo. O nosso egoísmo sufoca a nossa alma e não lhe permite fruir da autêntica alegria. Portanto, é preciso dilatá-la - à alma -, arrancando as raízes do egoísmo nela. De início, isto não é confortável; é dolorido, é enfadonho e cansativo, do mesmo modo que é dolorido, enfadonho e cansativo que um doente tenha de fazer exercícios físicos. E, no entanto, é necessário. Submeter-se a esta violência contra si mesmo é o caminho do despertar. "O reino dos céus pertence aos violentos". 

Há que se ter, portanto, um desprendimento de si mesmo, e entender bem todo este contexto: o centro de tudo deve ser Deus, e todo o resto - as amizades, os compromissos, as brincadeiras, os lazeres - deve estar em harmonia com Deus. A aquisição, porém, de uma vontade aguerrida, de um olhar claro sobre o que se deva fazer e de uma compreensão profunda da própria alma, é algo um tanto difícil - na verdade impossível - de se alcançar sozinho. É por isso que precisamos de auxílio. Deus muitas vezes nos ajuda, seja incidindo diretamente sobre nós os seus dons, seja nos tocando indiretamente, através de outras pessoas. Neste último caso, haverá quem nos console e dê forças; mas haverá, também, quem nos importune e incomode, ajudando-nos, dependendo do modo como lidamos com isto, a acelerar o processo de extirpação do nosso egoísmo.

Já dizia um santo: "existimos para amar e tudo quanto existe, existe para tornar o amor possível". S. João da Cruz diz a mesma coisa: "estás aqui para te santificares. Considera que todos estes que te importunam são ajudadores que Deus enviou para que te libertes de ti mesmo".

Além disto, há os que efetivamente nos querem derrubar e estranham quando o nosso discurso alcança o grau de uma firmeza irredutível; sentem-se sutilmente atacados, denunciados na sua tibieza e isto às vezes se transveste, neles, de sobriedade, de realismo e tolerância. Chamam-nos logo de arrogantes e duvidam das nossas intenções. Muitas vezes são sujeitos pretensiosos, afetados de falsa humildade, que entendem ser a virtude um certo tipo de moleza e bom mocismo - uma coisa cosmética que a ninguém deve incomodar - e que fazem as vezes do próprio demônio. Mas, ainda que nos queiram e possam, objetivamente, prejudicar, se estivermos com as devidas disposições de alma, serão, antes, preciosas ajudas.

S. Francisco de Assis, quando atacado por demônios, gritava-lhes o seguinte: "isso mesmo! Meu maior inimigo sou eu mesmo. Se vocês surram este meu inimigo, só estão me fazendo um grande bem."

S. João da Cruz, por sua vez, após passar extremos sofrimentos, aos quais se referia pelo termo "noite", poetizou:

"Oh noite mais amável que a alvorada; oh noite que juntaste Amado com amada, amada já no Amado transformada".

E aí, eu retomo a pergunta: é preciso, então, ser de ferro, masoquista ou ser divino demais?

É preciso, primeiramente, entender que tudo isso é muito real:
a) o nosso orgulho, que precisa ser extirpado da alma e cuja remoção só se consegue com luta;
b) a necessidade de alcançarmos um conhecimento agudo da nossa própria fraqueza, o que nos motivará a pedir com sinceridade o auxílio divino.

Entender ainda que, se a nossa natureza reclama e o nosso ânimo se abate, talvez isto se deva também por estarmos viciados nalguma suposição equivocada, ou presos por caprichos pessoais. A soberba tenta fazer com que o mundo se adéque aos nossos gostos subjetivos. Se, porém, isto não se dá - e não pode se dar - a alma se abate. Daí o grande e salutar segredo do abandono em Deus; da espiritualidade da Pequena Via; do amor aos desígnios de Cristo, sejam eles quais forem. Este tipo de amor, que se entrega, torna-se amor adorante, oblativo, pois nele há uma atitude de sacrifício, de auto-desapego, e de Fé real na bondade divina.

Deus sabe da nossa dor e está disposto a nos ajudar se a Ele nos achegarmos. Para suprir essa nossa necessidade, fez-Se acessível, seja pelos sacramentos, seja pela oração individual. Mas é preciso entender que o Seu amor por nós não pode privá-Lo de trabalhar em nosso favor e isto, muitas vezes, implicará em espremer a ferida purulenta da alma, ainda que doa, para que dela se desprenda a sujeira que a infecta.
Além de tudo isto, Deus às vezes quer ver a nossa fidelidade. Amá-Lo quando todos nos aplaudem seria fácil. Porém, o verdadeiro amor trará sempre a marca da Cruz, pois é este um sinal muito amado por Jesus e com o qual ele marca tudo quanto seja verdadeiramente Seu. Mas é a Cruz a nossa esperança. É como diz a Igreja: Ave Crux Spes Unica.

E quanto aos que se nos opõem? O que fazer a respeito?

Primeiramente, não deixar de rezar por eles e pedir a Deus a graça de amá-los. Depois, não pensar que amá-los significa dar-lhes crédito ou levá-los a sério; às vezes, o correto será dizer-lhes umas boas verdades, ou ignorá-los ou até dar-lhes uma banana. Frequentemente, esses sujeitos são só pessoas infladas de falsa virtude. Penso que o que se deve fazer é não se incomodar com eles, nem ficar a considerá-los interiormente. Se for possível ajudá-los, ajudemo-los. Se não, recomendemo-los a Deus. Mas, no geral, eles podem contribuir para que nos desapeguemos ainda mais de nós mesmos, e isto é o segredo da liberdade.

Já dizia S. Francisco de Assis que a verdadeira alegria existe quando, ainda que apanhando e recebendo ofensas pessoais, sequer movemos interiormente qualquer pensamento raivoso em relação ao sujeito que nos insultou. Isto, claro, é uma realidade muita alta; mas a verdadeira alegria não é, mesmo, qualquer coisa. Não à toa, Jesus fala que devemos nascer de novo. Isto significa, contudo, que devemos trabalhar para que o que antes nos incomodava - porque feria o nosso egoísmo - chegue, então, a não causar sequer qualquer repercussão interior. É o que os espirituais chamam de "santa indiferença", e os orientais chamavam de "apathia". E essa graça só se consegue com muita disciplina e a ajuda de Deus.

Respondendo, então, diretamente às perguntas:

É preciso ser masoquista? Não. Nem devemos sê-lo.

É preciso ser de ferro? Não; e é preciso saber que não somos. Muitas vezes, Jesus permite que caiamos repetidas vezes para que possamos desenvolver a certeza da nossa própria fraqueza, sem a qual Ele mal encontra espaço para fazer qualquer coisa em nós.

É preciso ser divino? Sim, e este é o ponto! Todo o cristianismo é a imitação de um Deus humanado. Se imitamos a um Deus, precisamos agir de modo divino. Porém, isto não depende somente das nossas forças. É algo que Deus realiza em nós, se nos abandonamos. E para alcançarmos esta realidade, cumpre começarmos e, paulatinamente, irmos destruindo esse falso eu ao qual nos habituamos e nos apegamos, mas que não conhece nada do que seja a vida verdadeira. É preciso que nos submetamos, gradativamente, a uma espécie de morte para que, mais e mais, seja o Cristo a viver em nós. E, contudo, isto é uma aventura saborosa; deliciosa; de uma arrebatadora felicidade.

O cristão deve ter uma visão sobrenatural da vida, do mundo, das amizades, de tudo. Deve ter cuidado para não naturalizar as coisas; essa imanência moderna é a causa de todo mal no mundo e o motivo de haverem tantos "cegos guiando cegos", pois faz parte da cegueira espiritual que o cego não se saiba cego e que reduza toda a realidade ao estreito corredor do seu pequeno mundinho.

O cristão deve ter ainda uma disposição aguerrida, dada à luta, entendendo que o que se está buscando não visa, primeiramente, ao conforto da sensibilidade nem à satisfação dos caprichos do ego. Muito pelo contrário, é deste ego que temos de nos livrar. Devemos compreender que o que estamos a seguir e a defender é algo que ultrapassa infinitamente e abismalmente o pequeno pontinho inútil que são os nossos desejos egoístas. É  só quando entendemos esta verdade - quando a entendemos de verdade - que podemos alcançar a liberdade necessária para abrir mão dos nossos caprichos - bem como dos nossos medos -, e elevar os nossos olhos à imensidão infinita do céu; é a livre, suave e deleitosa contemplação desinteressada da Beleza.

Para chegarmos aí, sofreremos. Teremos a cruz como uma companheira diária. Choraremos, também. Seremos incompreendidos. Amigos queridos e familiares nos acusarão de tudo quanto seja. Mas isso Jesus mesmo já dizia: "Por minha causa, em uma mesma casa ficarão três contra dois e dois contra três". No entanto, é pela nossa fidelidade - conquistada com sangue, suor e lágrimas, mas também uma alegria descomunal que, vez ou outra, Ele nos permite vislumbrar - que podemos ter a legítima esperança de que o amor destilado pelo nosso coração alcance estes mesmos que, hoje, nos lançam pedras.

O que digo, enfim, é: coragem! Se poucos levam a sério o cristianismo, seja destes poucos. Também a Elias, o único que estava cuidadoso das coisas de Deus e que se dizia "devorado de amor pelo Senhor dos Exércitos", tentaram ferir. É assim mesmo. 

Já dizia S. João da Cruz:
"Sofrer pelo Amado é melhor do que fazer milagres"

Já dizia Sta Teresa D'Avila:

"As prisões, as ignomínias e afrontas por meu Cristo e por minha religião, são regalos e mercês para mim... cruz busquemos, cruz desejemos, trabalhos abracemos!"

"Não haja, entre nós, covarde! Aventuremos a vida: Não há quem melhor a guarde que o que a deu por já perdida."

"O amor quando já crescido não pode ocioso ficar, nem o forte sem lutar por amor de seu Querido"

Já dizia Sta Teresinha de Lisieux:

"Morrerei no campo de batalhas, de armas na mão".

Já dizia S. Paulo Apóstolo:

"Deus me livre de gloriar-me em outra coisa a não ser na Cruz de Nosso Senhor"

Força, aí! Embora tudo isso pareça meio pesado, a porta estreita tem a propriedade de nos livrar de todo peso inútil. O que nos cansa não é a doutrina de Nosso Senhor, mas a soberba que trazemos conosco. Se dela nos livrarmos, descansamos e tudo fica fácil. Aquele que se dispõe a viver a autêntica vida cristã, esvaziado de toda inutilidade, haverá de fazer a experiência de como o jugo do Senhor é leve e de como é suave o Seu peso.

Abraço.

Fábio.

http://amorepobreza.blogspot.com/2012/04/dificuldades-da-vida-crista-o-que-fazer.html

A virtude da temperança