segunda-feira, 25 de maio de 2015

A via unitiva (Mística)

Vida mística é a experiência que a criatura humana faz de Deus presente no íntimo de sua alma. Este conhecimento se dá por dois modos:

Modo de conhecer: 
- Natural Na base da razão apenas

Modo de conhecer: 
- Sobrenatural Na base da razão e da revelação mediante as virtudes infusas. Na base da revelação sobrenatural e mediante os dons do Espírito Santo. 

O terceiro modo é a nota mais marcante da vida mística. O estado místico é o estado em que a criatura humana, sujeita à ação do Espírito Santo, faz a experiência de Deus que lhe está intimamente presente na alma.

É principalmente por efeito do dom da sabedoria que se consegue tal experiência.

Note-se que a experiência mística constitui o plano normal do desenvolvimento da vida interior do cristão. Não é reservada a almas privilegiadas, mas vem a ser simplesmente a vocação de todo cristãos, desde o dia do seu batismo. 

Os fenômenos extraordinários são um sinal da íntima união com o divino Esposo. Mas sua ausência em nada diminui tal união.

Diferenças entre mística cristã e não-cristã
  1. O místico não-cristão (hinduísta e budista) se orienta às vezes por concepções panteístas; tende a se identificar totalmente com a Divindade, substância neutra e impessoal, que vai tomando facetas na natureza e no homem. O termo final da mística não-cristã é muitas vezes a despersonalização do homem e sua fusão total com o Divino. É fruto do esforço humano. Não contam com a “graça” ou auxílio que venha de Deus.
  2.  A Mística cristã concebe um Deus pessoal (dotado de inteligência e vontade), transcendente, um Outro, diverso da sua criatura. A experiência mística é gratuito favor de Deus, que atrai o homem a Si.
Contemplação
Contemplação é um olhar sobre valores superiores ou intuição, geralmente deleitosa, do Transcendente (como quer que os homens o chamem). 

No cristianismo, a meta final da contemplação é a visão de Deus face a face (1 Cor 13,12; 1 Jo 3,1-3).
A Teologia católica distingue:

  1. Contemplação adquirida: Aquele que resulta da leitura e do estudo da Palavra de Deus e dos artigos da fé. Supõe o aparato conferido pelo Batismo: a graça santificante, as virtudes teologais, as cardeais e os dons do Espírito Santo. O estudo da Palavra nunca é meramente acadêmico, mas o encontro com Deus.
  2. Contemplação infusa: Aquela que não depende tanto de leitura e estudo, mas é um precioso dom do Espírito Santo. Pode ser por intuição repentina e profunda de uma verdade muitas vezes professada, mas nunca muito significativa; o rico conteúdo dessa proposição poderá patentear-se quando menos se espera. Essa contemplação está associada à pureza de coração, da qual fala Jesus em Mt 5,8.
Elementos que favorecem a vida mística
  1. O silêncio exterior e interior, das fantasias e da memória, que devaneiam inutilmente, dispersando o orante.
  2. Frequência nos sacramentos, principalmente a Eucaristia. Ele propicia a mutua imanência do Cristo no cristão, e vice versa.
  3. Lectio divina reúne em si a contemplação adquirida e infusa; esta última sempre dependendo da abertura de coração que alguém se entrega ao Espírito Santo.

Frases seletas

"Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro e eu fora. Estavas comigo e não eu contigo. Exalaste perfume e respirei. Agora anelo por ti. Provei-te, e tenho fome e sede. Tocaste-me e ardi por tua paz." (S. Agostinho)

"Quer louvar-te o homem, esta parcela de tua criação! Tu próprio o incitas para que sinta prazer em louvar-te. Fizeste-nos para ti e inquieto está nosso coração, enquanto no repousa em Ti." (S. Agostinho)
“Vocês pensam que Deus não fala porque não se ouve a Sua voz? Quando é o coração que reza Ele responde”. (S. Tereza D’Ávila)

“Uma prova de que Deus esteja conosco não é o fato de que não venhamos a cair, mas que nos levantemos depois de cada queda”. (S. Tereza D’Ávila)

"A mosca que pousa no mel não pode voar; a alma que fica presa ao sabor do prazer, sente-se impedida em sua liberdade e contemplação." (S. João da Cruz)

"Para possuir Deus plenamente é preciso nada ter; porque se o coração pertence a Ele, não pode voltar-se para outro." (S. João da Cruz)


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A via purificativa (Ascese)

 “Purifiquemo-nos de toda mancha da carne e do espírito. 

E levemos a termo a nossa santificação no temor de Deus”. (2Cor 7,1)

 Após estudarmos a estrutural espiritual do ser humano, passamos a considerar as etapas da caminhada que levam à meta suprema ou à união com Deus tão íntima quanto possível. Os mestres costumam assinalar três fases da vida espiritual:
  1. A via purificativa: etapa na qual o cristão procura combater tudo o que seja incoerência e imperfeição; realiza a purificação do coração;
  2. A via iluminativa: Deus se revela mais intimamente, pois a pureza de coração proporciona amizade com Deus;
  3. A via unitiva: a intimidade com Deus que se revela, vai chegando ao seu ponto mais alto possível em cada criatura; antecipam-se assim as alegrias do céu.
Compreende-se que essas três etapas não são estanques, de modo que o discípulo ficaria só numa etapa de cada vez. Analisemos a via purificativa.

A Via purificativa

Também é chamada Ascese (grego: áskesis=exercício), que na linguagem cristã designa as práticas de autodomínio a que se deve subordinar o cristão para estar em condições de dizer ‘não’ quando acometido por uma tentação.

Em resumo: O pecado original obscureceu o intelecto humano, dificultando-lhe conhecer a Deus e ao próprio homem. Muitos são cegos aos valores espirituais. A vontade humana tende a fechar-se no egoísmo ou na cobiça dos próprios interesses. O ser humano é assim levado à tendência por sua vez desregradas no campo da sensualidade, do amor próprio, do orgulho, etc.

Em consequência impõe-se a necessidade de libertar o coração dos afetos desregrados. Este movimento de purificação abre espaço para a graça divina, que nos vai alimentando a confiança em Cristo.

 O pecado mortal


O primeiro obstáculo que a via purificativa combate, é o pecado. Pode-se dizer que o pecado é um ‘não’ a Deus. Pode ser dito em matéria grave ou matéria leve.

Para que um pecado seja grave ou mortal, requer-se o preenchimento destas condições: a) matéria grave; b) conhecimento de causa; c) vontade deliberada.

O AT mostra-nos alguns casos de pecados graves com relação à adoração dos ídolos em lugar do Senhor (rouba-se a glória de Deus): Jr 2,11s; bem como por ingratidão a Deus: Is 5,4 .

É necessário que o pecador se converta quanto antes e busque a confissão sacramental, pois o pecado tende a insensibilizar amis e mais o pecador frente aos valores espirituais; amortece a consciência e endurece o coração. Reconhecer o próprio pecado não é desonra para o pecador, mas engrandecimento. Diz Santo Ambrósio: “Pecar é comum a todos os homens, mas arrepender-se é próprio dos santos”.

O pecado venial


O pecado leve é dito “pecado venial” porque mais facilmente se pode obter a respectiva vênia ou o perdão mediante um ato de contrição ou de caridade. Não é um pecado propriamente dito por faltar-lhe os elementos acima citados, mas não deixam de ser desastrosos; devem ser eliminados os “pecadinhos” da maledicência, da impaciência, da preguiça...

Há uma distinção entre o “sentir” e o “consentir”. Aquele é indeliberado: é o mau pensamento ou o mau desejo que aflora à mente sem ser provocado e por isso não é pecaminoso. Ao contrário, consentir supõe adesão da mente à proposta à proposta inconveniente e, por isto, é pecaminoso. A persistência do pecado ainda que leve, as recaídas sucessivas, ainda que involuntárias, são humilhantes; a incoerência envergonha a quem tem amor a si e a Deus.
As imperfeições


É um ato bom cometido com certa negligência; o ato não é pecaminoso, mas é considerado falho ou imperfeito.

Assim, age com imperfeição aquele que cumpre o dever, ficando quite com a lei, mas não se interessa pelo bom resultado da sua atividade. A pessoa faz o bem, mas não o faz tão perfeitamente quanto é capaz; tal pessoa não realiza todo o bem que ela poderia realizar. Tais cristãos têm atos tíbios, mornos.

Ora tal atitude, se é consciente e voluntária, é grave: significa aceitar a mediocridade como padrão; significa aceitar a desordem ou a desarmonia em relação ao plano de Deus, que nos quer santos.

Tais imperfeições podem ser remediadas evitando a superficialidade de conduta; é necessário fazer com pleno empenho o que nos compete fazer. Outra forma de contornar essa situação de apatia é unindo as realidades espirituais (amar a Deus e percebê-Lo) às coisas simples e pequenas de cada dia.

As provações 


“Feliz o homem que suporta com paciência a provação. Porque, uma vez provado, receberá a coroa da vida que o Senhor prometeu àqueles que o amam” (Tg 1,12)

Um auxílio para a purificação do coração, segundo a Providência divina, são as provações e tentações.


As provações são distintas das tentações, visto que não são indução ao pecado, mas são testes aos quais o cristão é submetido para ser corroborada a sua fé e exercitar o seu amor. Exemplo forte é o de Abraão, a quem o Senhor pediu a imolação do seu único filho (Gn 22,1-9), o mesmo ocorreu com Jó.

Caso o cristão, acometido por luto, decepção, fracasso, injustiça, etc. consiga encarar tais realidades não como castigo (de Deus), encontra aí ocasião de crescimento espiritual; caso contrário, deve buscar arrepender-se humildemente e despojar-se de qualquer presunção, entregando-se mais conscientemente à graça de Deus.

A tentação


“Deus faz concorrer todas as coisas para o bem daqueles que O amam” (Rm 8,28)

Chama-se “tentação” o aliciamento ao pecado ou a indução para violar a lei de Deus. Ela pode provir da própria natureza humana ferida pelo pecado original como também do ambiente em que vive o cristão ou de Satanás. Deve-se lembrar, no entanto que, “o demônio é um cão acorrentado, que pode latir muito, fazendo grande barulho, mas só morde a quem chega perto dele”. (S. Agostinho)


Deus permite que sejamos tentados porque isto contribui para o nosso amadurecimento. Não permite que sejamos tentados acima de nossas forças, mas antes faz que a tentação redunde em nosso proveito, como escreve Paulo em 1 Cor 10,13.

O cristão diante da tentação deve lembrar-se que não está só na hora do perigo ou na luta contra o pecado. Cristo quis ser tentado, como verdadeiro homem que era (Mt 4,1-11) e conquistou-nos a graça de vencer as tentações.

Recomendam-se medidas de cautela como: guardar os olhares, ouvidos, memória, fantasia; não ser curioso; evitar não só conversas de má índole, mas também as fúteis e superficiais; fugir de ocasiões próximas de pecado tais como ambientes, localidades, horários; evitar a ociosidade vazia; ter um diretor espiritual para ajuda na superação das dificuldades; simplesmente desprezar as más sugestões e voltar a atenção para Cristo (oração, livro espiritual, cantos espirituais).


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São Vicente - A caridade acima de tudo.

“A caridade é um amor elevado acima dos sentidos e da razão, pelo qual nos amamos uns aos outros pelo mesmo fim pelo qual Jesus Cristo amou os homens para fazê-los santos neste mundo e bem-aventurados no outro”.

São Vicente em toda sua vida terrestre, se dispôs a ajudar o próximo, desde a sua infância ele esteve lá, disposto a ser um instrumento da graça de Deus que é a Caridade. E quem poderia imaginar que logo ele, aquele gascão, um dia se tornaria o Patrono Universal da Caridade. Que belas obras ele realizou, nunca obteve um sentido de arrependimento ao servir a quem mais necessitava a sua frente. Seu coração sempre esteve puro e disposto a ajudar, e eis a sua fórmula para os dias de hoje, em que nem sempre temos tamanha abertura ao irmão em Cristo.

A caridade é algo além fronteiras que mexe com o coração de cada um, seja ele, rico ou pobre, negro ou branco, ocidental ou oriental, não tem escolhas, Deus não olha isto, e sim o amor que nos faz ir mais perto deles, os preferidos do Pai, os que mais necessitam, que estão a mercê da sociedade: Os Pobres.

Muitos escritores, em seus livros, dão maior ênfase a vida desde Santo, outros nos faz situar, sobre a realidade da França em seu tempo. Mas o que me fez escrever foi algo que venho a procurar, e apenas encontro, em pesquisas e leituras, digo das obras de caridade de Vicente de Paulo. 
Tentarei mostrar que ele não foi apenas um homem inteligente, sábio e inovador, e sim também um Santo Caridoso, que obteve com gestos simples a sua conversão e a sua santificação.

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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Virtudes da Espiritualidade Vicentina

Pe. Luiz Roberto Lemos do Prado, CM
Pe. Alexandre Nahass Franco, CM

A Espiritualidade vicentina está pautada, desde sua gestação, mediante o testemunho de Vicente de Paulo e seus primeiros companheiros de missão, no contexto da Igreja do século XVII, na França, em cinco virtudes, colhidas do Evangelho de Jesus Cristo e da sua práxis libertadora junto ao povo empobrecido e marginalizado, os protagonistas do Reino de Deus, por Ele mesmo inaugurado na humanidade. Estas virtudes são assim nomeadas pelo próprio Vicente de Paulo: SIMPLICIDADE, HUMILDADE, MORTIFICAÇÃO, MANSIDÃO, ZELO PELAS ALMAS (ZELO APOSTÓLICO), também denominadas pelo próprio Vicente de Paulo de Conselhos Evangélicos.
Ao tratarmos das virtudes vicentinas, não estamos falando de conteúdos teológicos rebuscados de múltiplas interpretações hermenêuticas, mas de posturas humanizantes e humanitárias da pessoa que assume uma missão dentro do universo da espiritualidade vicentina junto aos mais carentes, lugar social, geográfico, cultural e teológico do agente de pastoral com identidade eminentemente vicentina.
Assim sendo, nós vicentinos, somos reconhecidos pelos mais empobrecidos não tanto pelo nosso discurso hermenêutico e teológico, mas primordialmente por nossa postura aproximativa do mundo dos pobres, ou seja, pelo nosso esforço imensurável em nos inculturar no seu universo, que é por demais exigente para nosso padrão de vida enquanto pertencente a uma instituição carregada de tradições milenares, semelhantes a todas as instituições que compõem o catolicismo na humanidade.
Inspirados na própria concepção que São Vicente de Paulo teve dos Conselhos Evangélicos, podemos dizer que as Cinco Virtudes vicentinas dão uma configuração própria à nossa maneira de viver os quatro Votos na Pequena Companhia (Congregação da Missão): Castidade, Pobreza, Obediência, Serviço aos Pobres (Estabilidade).
No presente texto procuraremos expor de forma bastante sintética em que corresponde cada Conselho Evangélico dentro da Espiritualidade Vicentina, desmembrando cada um deles em seis Características ou Dimensões, em se tratando da busca de transformá-los em testemunho vivo no mundo de hoje: Eixo Vicentino, Dimensão Humana, Dimensão Espiritual, Dimensão Intelectual, Dimensão Comunitária, Dimensão Apostólica.
Por final, descreveremos pelas próprias palavras de São Vicente de Paulo, através de seus escritos, pequenos trechos sobre cada uma das Cinco Virtudes Vicentinas.

1. SIMPLICIDADE

A virtude da Simplicidade educa-nos na capacidade de desenvolver os valores da verdade, da sinceridade, da transparência. Viver plenamente a simplicidade nos ajudará a evitar ser falsos uns com os outros e muito menos com o povo; por esta virtude somos chamados a ser simples, a dizer as coisas como são, sempre com sinceridade em relação à outra pessoa.
Diante dos desafios que o pluralismo de idéias e de valores e contra-valores que a sociedade capitalista nos impõe, precisamos ficar mais atentos em relação à nossa postura junto ao povo e o cultivo de valores que não são transitórios, mas base para a vida com dignidade. Um desses valores é o cultivo da simplicidade. O povo ao qual procuramos evangelizar se aproximará de nós mediante nossa postura diante dele. A simplicidade impregnada em nossos atos possibilitará essa pedagógica aproximação do povo mais simples a nós e vice-versa.
O próprio São Vicente definiu na sua vivência a importância desta virtude na vida de um vicentino: “A simplicidade é a virtude que mais amo, eu a chamo de meu evangelho” (SV I,284).
a. Eixo Vicentino: A vivência da Virtude da Simplicidade educa-nos para a proximidade do mundo dos pobres na realidade de hoje em seu universo sócio-econômico, cultural, religioso, geográfico; tal aproximação coloca-nos em clima de disponibilidade para acolhermos e nos aproximarmos do diferente, da compreensão do pluralismo no meio da humanidade, favorecendo-nos em nossa missão de instrumentos da universalidade da salvação inaugurada por Jesus de Nazaré em sua práxis libertadora.
 b. Dimensão Humana: A vivência da Virtude da Simplicidade no concernente à dimensão humana leva-nos ao tratamento da pessoa com o devido cuidado e atenção que ela merece, o que favorece à mesma sentir-se saudável psíquica e fisicamente, pois sentir-se uma pessoa amada no seio de uma comunidade e em meio à sociedade produz um aspecto profundamente agradável no sentimento da auto-estima. A simplicidade no nosso viver vicentino leva-nos a quebrar barreiras na convivência com os mais pobres, proporcionando-nos maior aproximação ao seu universo de vida, levando-nos a contribuir no processo de sua própria educação, visando a integralidade da sua própria pessoa.
 c. Dimensão Espiritual: A experiência da Simplicidade na vida exige de cada um de nós uma busca saudável do equilíbrio entre trabalho e descanso recreativo. A Espiritualidade vicentina necessita de uma forte experiência de Deus para que possamos irradiá-la no serviço aos pobres. Conseqüentemente, nossa inserção no mundo dos pobres a partir do cerne da nossa Espiritualidade, exige-nos a clara consciência de que fazemos este esforço não por meras motivações, mas pela convicção de estarmos contribuindo qualitativamente na construção do Reino de Deus aqui e agora.
 d. Dimensão Intelectual: A procura da vivência da Simplicidade no meio dos pobres traz-nos também uma exigência no aspecto intelectual; para que a nossa ação de aproximação ao mundo dos pobres seja sinal de transformação profética, precisamos investir em nossa própria formação inicial e permanente, motivados pelo ideal da compreensão das causas da pobreza para atacá-las com precisão. Para essa formação permanente acontecer precisamos de motivações internas e externas, lembrando que a sociedade atual, por si mesma, já nos faz essa exigência, pois torna-se, progressivamente, mais pluralista e complexa. Neste sentido, trabalhar com os pobres no nosso contexto atual exige de nós busca constante de preparação intelectual justamente pelo respeito que devemos ter à dignidade de todo ser humano. E o empobrecido não é um ser menos humano.
 e. Dimensão Comunitária: Vivenciar a virtude da Simplicidade no concernente à dimensão comunitária exige colocarmo-nos na escola do Evangelho e também de São Vicente, para aprendermos sempre a alegria de partilhar com os irmãos na fé, sobretudo os mais empobrecidos da nossa história o saber, os bens, os dons e a vida. Nossa presença no meio do povo é sempre uma experiência de troca de saberes em todas as dimensões da vida.
 f.  Dimensão Apostólica: Cultivar a Simplicidade em nossas comunidades apostólicas compromete-nos a interiorizar progressivamente o valor de distribuir responsabilidades com os irmãos de fé, lembrando-nos que um dos aspectos da nossa vivência comunitária vicentina é alimentar nossa espiritualidade para um autêntico testemunho missionário no meio dos pobres do nosso tempo. Uma de nossas máximas é esta: Vida em comunidade para a Missão.
Finalizando nossa reflexão sobre a virtude da Simplicidade, vejamos uma belíssima descrição do próprio Vicente de Paulo sobre esta máxima evangélica: “Deus é simples. Onde encontrares a simplicidade cristã caminharás seguro; pelo contrário, os que recorrem a precauções e artimanhas estão num medo contínuo de que descubram seu artifício e que, ao se ver surpreendido em sua falsidade, ninguém quer ter confiança neles.

Da minha parte, posso afirmar, uma grande experiência me demonstrou, para minha satisfação que uma fé vigorosa e um verdadeiro espírito de religião encontram-se freqüentemente entre as pessoas simples e pobres. Deus se compraz em enriquecê-las com uma fé viva: eles crêem, apalpam, saboreiam as palavras de vida eterna que Cristo nos deixou em seu evangelho. Em geral, suportam pacientemente suas enfermidades, aflições e necessidades, sem nunca se queixarem ou murmurar.
Todo mundo sente atração por pessoas que são simples e cândidas, pessoas que se recusam a empregar a astúcia, os enganos. São populares, porque agem ingenuamente e falam com sinceridade; seus lábios estão de acordo com seus corações. São amadas e estimadas em toda parte…”(SV XI, 740s, 462).

 2.  HUMILDADE

São Vicente de Paulo define a Humildade como a virtude que dá a característica essencial à missão na Pequena Companhia. A humildade é a virtude que nos torna capazes de reconhecer e admitir nossas fraquezas e limitações, criando assim a possibilidade de confiar mais em Deus e menos em nós mesmos. A humildade ajuda-nos a nos livrarmos da nossa auto-suficiência, a reconhecermos nossa dependência do amor do Criador e nossa interdependência comunitária. Ao mesmo tempo, a humildade nos capacita para reconhecer nossos talentos, talentos que devem ser postos a serviço das outras pessoas. É a virtude que permite aos pobres aproximar-se de nós. É a virtude que nos ajuda a ver que todos somos iguais aos olhos de Deus. A vivência desta virtude educa-nos e capacita-nos, em contrapartida, para aproximar-nos progressivamente dos Pobres. Esta virtude nos impulsiona a um processo contínuo de inculturação no mundo dos pobres, encorajando-nos a um esforço de identificação com os mesmos.
Diante de uma sociedade tremendamente hedonista, individualista, separatista, perfeccionista do ponto de vista da aparência física em detrimento do cuidado integral do ser, a vivência da humildade se torna mais desafiadora, pois exige-nos maior sociabilidade a partir de dentro do nosso próprio lar, nosso grupo de convívio.
 a. Eixo Vicentino: A humildade, segundo São Vicente, é a virtude eminentemente evangélica. Jesus é o único mestre. Na conferência de 18 de abril de 1659, São Vicente se perguntou: “Em que consiste a humildade?” E respondeu: “Em querer o desprezo, em desejar a humilhação, em alegrar-se quando nos vemos humilhados, por amor a Jesus Cristo”. (SV XI, 488) A humildade faz-nos criar um sentido de pertença a um objetivo comum. Quando estamos dispostos a formar comunidade, construir unidade, nos entusiasmamos em trabalhar com objetivos comuns, somos capazes de nos doar, propor, aceitar e reconhecer como comunidade em vista da missão de evangelizar comunitariamente os pobres.
 b. Dimensão Humana: A virtude da humildade nos educa para a tolerância dialogada. Torna-se condição necessária para desenvolvermos, crescermos e fortalecermos como pessoas em comunidade, em sociedade de vida apostólica, como atitude que nos leva a reconhecer que todos necessitamos do outro para enriquecermos e superar nossas próprias dificuldades e individualidades. A abertura ao diálogo, o respeito, a atitude de compartilhar, a capacidade de escutar, de falar e de agradecer podem ser formas muito atuais da virtude da humildade.
 c. Dimensão Espiritual: Reconhecer que somos redimidos pelo Ressuscitado. A humildade nos faz ver que o ser humano é pecador e o sensibiliza perante o pecado. A atitude de nos reconhecer pecadores perdoados pelo sangue de Cristo nos responsabiliza a reconhecer que nossa vida se enriquece e fortalece com o perdão; o perdão implica aceitação, e para aceitar é necessário sair de nós mesmos, esvaziarmos de nós mesmos, dar um passo na direção do outro, quebrar nossas arestas, derrubar muros, construir pontes.
 d. Dimensão Intelectual: Reconhecer que somos pessoas limitadas, interdependentes, complementares. Temos opiniões diferentes diante da realidade que nos cerca e por isso mesmo a vivência da virtude da humildade nos faz constatar que é necessário estar dispostos à escuta dos outros e à reflexão, para juntos construir o caminho do discernimento coerente ao clamor da realidade.
e. Dimensão Comunitária: A virtude da humildade nos faz conscientes de nossas limitações e nos capacita para a aceitação da colaboração do outro em vista da missão. A atividade missionária corre sempre o risco de ser dominadora e auto-suficiente, de encerrar-se nas próprias idéias e métodos, de negar a colaboração do outro e da outra. A humildade faz com que o missionário, ao mesmo tempo que evangeliza, se deixe evangelizar e que pregue não sua palavra, mas a Palavra de Deus, assegurada pelo magistério da Igreja.
 f. Dimensão Apostólica: A virtude da humildade nos impulsiona a posicionarmos diante da missão apostólica não como donos de determinada situação mas como seres que estão dispostos a somar nossas qualidades e dons, simplesmente como colaboradores. Isso requer um processo de conversão onde cada um coloca o seu ser e faz o maior esforço para suscitar a mudança pessoal e estrutural, na sã consciência de que o único indispensável é a presença de Deus. Tudo o mais é transitório, instrumental para a eficácia da construção do Reino de Deus.
Concluindo a reflexão sobre a virtude da humildade, lançamos mão de palavras do próprio São Vicente em seus magníficos escritos, destacando sua dimensão missionário-pastoral. Vejamos: “Entendei bem isto, meus senhores e meus irmãos: nunca poderemos fazer a obra de Deus se não tivermos uma profunda humildade e uma humildade de opinião sobre nós mesmos. Não, se a Companhia da Missão não é humilde, se não tem a fé e a convicção de que não pode fazer o bem, que é mais apta para atrapalhá-lo, nunca realizará nada de grande; mas quando tem e vive o espírito do que acabo de dizer, então, ficai seguros, senhores, estará capacitada para fazer a obra de Deus, porque Deus usa de seus membros para suas grandes obras” (SV IX, 71, 284,809).

 3. MANSIDÃO

Etimologicamente, mansidão vem de “mansuetude” e manso de “mansus”, forma do latim vulgar de “mansuetus”. Tem um significado de comportamento aconchegante, familiar, doméstico. Conceitualmente, a mansidão se entende como a força, a virtude, que permite a pessoa moderar razoavelmente sua ira e indignação. A razoável indignação pode ser com freqüência sã e saudável, transposição lícita da sobrecarga psicológica a um ato de zelo pela glória de Deus, pela justiça ou pelo bem do próximo. A mansidão não é agressiva, raivosa, barulhenta. Certamente é uma virtude chave na comunidade. É a virtude que ajuda a construir a confiança de uns nos outros, porque, quando somos amáveis, os que são tímidos se abrirão em relação a nós. Por estas razões podemos dizer que a mansidão é a virtude por demais vocacional, como constatou o próprio São Vicente: “Se não se pode ganhar uma pessoa pela amabilidade e pela paciência, será difícil consegui-lo de outra maneira”(SV VII, 226).
A mansidão inspira um trato suave, agradável, educado, e fundamenta a tolerância, valor este muito importante para a convivência em uma sociedade plural em que o respeito à pessoa e à sua liberdade deve ser uma lei indiscutível.
 a. Eixo Vicentino: Com certeza, todas as virtudes contribuem para o dinamismo da vida comunitária em vista da missão. Todas as virtudes trazem em seu bojo um aspecto construtivo da vivência comunitária, porém é evidente que a mansidão entra em jogo por seus próprios valores e porque a comunidade se faz mediante relações plenas de conteúdo humano, cristão e vicentino. Devem ser expressões de pessoas que se estimam, se querem e se entreajudam. Toda atitude dura, de rechaço, de desprezo, pode ser superada precisamente pela prática da mansidão.
b. Dimensão Humana: A vivência da mansidão no aspecto humanitário ajuda-nos no processo da aceitação e compreensão da cultura do outro, nos colocando num processo de crescimento junto ao diferente, abrindo-nos à dinâmica da inculturação, educando-nos no processo da complementariedade. No trabalho junto aos mais pobres essa abertura é essencial para uma autêntica inserção popular.
 c. Dimensão Espiritual: Viver a virtude da mansidão no aspecto espiritual compromete-nos a inspirarmos na mansidão divina para com o seu povo na caminhada da história da salvação. Remete-nos à práxis da paciência histórica mediante a atitude do Criador para com as suas criaturas. Sem dúvida, um tema relacionado com a mansidão é o da hospitalidade, que é uma característica que deve distinguir um Vicentino: uma pessoa acolhedora; uma pessoa que está atenta às necessidades dos outros, especialmente dos marginalizados e transeuntes.
 d. Dimensão Intelectual: A mansidão causa a paz e cria melhores condições para o discernimento. A importância que tem, moral e espiritualmente falando, o cultivo da mansidão, é que livremente, permite-nos ver a importância da paz interior e exterior como condições para um bom discernimento. Se não há paz interior, tranqüilidade e serenidade, a opção sempre é suspeitosa e moralmente imperfeita. Portanto, a mansidão é uma ferramenta que nos ajuda a buscar e defender a verdade, favorece a busca incansável do discernimento no serviço aos pobres.
 e. Dimensão Comunitária: A vida em comum, se não está animada pela mansidão, se torna insuportável. É evidente que é difícil conviver com pessoas irritáveis e duras. A condescendência pode ser uma expressão indubitável de mansidão. São Vicente disse o seguinte sobre a condescendência: “Em uma comunidade, é necessário que todos os que a compõem e que são como seus membros sejam condescendentes uns com os outros. Com esta disposição, os sábios têm que condescender com a debilidade dos ignorantes, nas coisas em que não há erro e nem pecado. Os prudentes e sábios devem condescender com os humildes e simples. E com esta mesma condescendência, não só temos de aprovar os pareceres dos demais nas coisas boas e indiferentes, senão incluso preferirmos aos nossos, crendo que os demais têm luzes e qualidades naturais e sobrenaturais maiores e mais excelentes do que nós. Porém temos de evitar muita condescendência com os outros em coisas más, pois isto não seria virtude, senão um defeito, que proviria da libertinagem de espírito, ou de nossa covardia e pusilanimidade” (SV XI,758).
 f. Dimensão Apostólica: A apostolicidade da virtude da mansidão consiste basicamente em centrar nossas pregações no discernimento da procura da justiça e da paz que brotam da Palavra de Deus. Neste sentido, convém estar convictos de que nossas atitudes de bondade e coerência convencem muito mais as pessoas do que sermões, muitas vezes carregados de sentimentos contraditórios e moralismos exagerados. Nossas atitudes evangelizam mais que nossas palavras. Por isso mesmo, elas necessitam estar imbuídas da sensibilidade social na defesa incondicional dos direitos da pessoa humana, sobretudo dos mais pobres e excluídos.
No final desta reflexão sobre a virtude da Mansidão, vejamos mais algumas palavras do mestre Vicente de Paulo: “Não há pessoas mais constantes e firmes no bem que aqueles que são mansos e pacíficos; pelo contrário, os que se deixam levar pela cólera e pelas paixões são geralmente muito inconstantes, porque agem por impulsos e ímpetos. São como as correntezas que só têm força e impetuosidade nas chuvas, mas secam logo depois de ter passado o temporal, enquanto os rios que representam as pessoas pacíficas caminham sem ruído, com tranqüilidade, sem jamais secar” (SV XI, 752).

 4. MORTIFICAÇÃO

Por esta virtude somos interpelados a morrer para nós mesmos. É a virtude que pede que nos entreguemos totalmente, pensemos primeiro nos outros, pensemos especialmente nos Pobres antes de pensar em nós mesmos. Esta virtude educa-nos para o altruísmo em detrimento do nosso egocentrismo.
Assim nos diz São Vicente: “Os santos são santos porque seguem as pegadas de Jesus Cristo, renunciam a si mesmos e se mortificam em todas as coisas” (SV XII, 227).
 a. Eixo Vicentino: Em tempos de busca de refundação e refontização da Vida Consagrada, urge-nos enquanto vicentinos aprofundar o carisma que nos identifica no mundo e retomar nossas tradições fundantes, bem como nossas constituições, nossos bons costumes como alimentos sólidos em vista de um testemunho mais autêntico na humanidade hodierna.
 b. Dimensão Humana: Embora nosso tipo de trabalho seja diverso do que a maioria da população, cabe-nos saber utilizar bem o nosso tempo e os meios que temos em nossas mãos em vista da nossa missão junto às pessoas. Em respeito e solidariedade ao trabalho duro das pessoas para sobreviver temos o dever moral de fazer bom uso de tudo o que dispomos. É preciso que utilizemos o tempo responsavelmente.
 c. Dimensão Espiritual: A oração pessoal e comunitária é uma fonte irrenunciável para um autêntico vicentino, por isso mesmo foi insistentemente recomendada por São Vicente. É muito importante rezar de modo disciplinado, dar à oração seu tempo, compartilhar com os irmãos sua espiritualidade, fazer dos sacramentos um alimento para a vida missionária.
 d. Dimensão Intelectual: Em contrapartida ao consumismo desenfreado da sociedade, é saudável viver a sobriedade diante do uso das coisas, levar um estilo de vida simples, educarmos numa vida ascética, por mais difícil que seja. Para conseguirmos dar passos neste sentido, é profundamente necessário que utilizemos em tudo o senso crítico dentro de uma corresponsabilidade evangélica.
 e. Dimensão Comunitária: A vivência comunitária exige-nos, progressivamente, profunda sensibilidade evangélica. Por sermos irmãos no Senhor, é de se supor que sempre nos sentiremos mais próximos uns dos outros. Portanto, que nossas amizades não sejam exclusivas nem excludentes. Hoje todos somos chamados a participar no processo de tomada de decisões e a viver uma obediência responsável. Interpela-nos expressar nossas opiniões. Isto gasta muito tempo e, às vezes, é penoso. Por isso mesmo é para alguns uma grande mortificação.
 f.  Dimensão apostólica: Entendendo por mortificação renunciar a comodidades para nos doarmos para que o outro tenha mais vida, cabe-nos estar dispostos para responder às necessidades da própria comunidade e às do povo de Deus, sobretudo aceitando as mudanças de local geográfico e social, vendo nesta dinâmica de vida apostólica os apelos do Deus da Vida. Todos nós somos dotados de muitas qualidades e talentos. Colocá-los a serviço é sempre uma virtude. A apostolicidade da virtude da mortificação nos impulsiona a estarmos sempre abertos ao inesperado, pois com freqüência somos interpelados a responder a novas situações, e isso extrai de nosso interior recursos pessoais que nem sabíamos que possuímos. Portanto, a abertura ao novo é profundamente necessário na espiritualidade vicentina. Bebamos mais um pouco na fonte de Vicente de Paulo sobre a virtude da Mortificação: “Somos firmes em resistir à natureza, pois se permitimos que alguma vez se cole em nós um pé, se meterá até quatro. E estamos seguros de que a medida de nosso progresso na vida espiritual está em nosso progresso na virtude da mortificação, que é especialmente necessária para os que hão de trabalhar na salvação das almas, pois é inútil que preguemos a penitência aos demais, se nós estamos vazios dela e se não a demonstramos em nossas ações e modo de nos comportar” (SV XI, 758-759).

 5. ZELO APOSTÓLICO

Podemos identificar o zelo apostólico com paixão pela humanidade. O zelo é a conseqüência de um coração verdadeiramente compassivo. Trata-se da paixão por Cristo, paixão pela humanidade e paixão especialmente pelo Pobre. O zelo é uma virtude verdadeiramente missionária. Expressa-se em forma de disponibilidade, de disposição para o serviço e a evangelização, mesmo quando as forças físicas já estão decadentes.
Assim sendo, relacionado com o zelo está o entusiasmo, que leva à ação. Podemos entender o zelo como uma expressão concreta do amor efetivo, que é motivado pela compaixão, ou amor afetivo.
 a. Eixo Vicentino: O zelo é a quinta virtude característica e mais própria do missionário vicentino. O próprio São Vicente assim qualifica o “zelo pelas almas”: “Se o amor de Deus é um fogo, o zelo é sua chama. Se o amor é um sol, o zelo é o seu raio” (SV XII, 307-308). O Zelo Apostólico é o amor pela missão que dura a vida inteira. Vicente de Paulo trabalhou com constância até o final de sua vida. O Zelo é, pois e antes de tudo, entusiasmo, e entusiasmo significa cheio de Deus, plenitude de Deus.
b. Dimensão Humana: Zelo é amor ardente, uma disponibilidade para ir em qualquer lugar para falar de Jesus Cristo, ainda que em circunstâncias difíceis; disponibilidade para morrer por Ele. O testemunho do zelo apostólico inclui não só um profundo amor afetivo pelo Senhor e por seu povo mas também deve se expressar no amor efetivo e no sacrifício. Para bem e melhor servir ao povo a nós confiado torna-se necessário o devido cuidado com nossa saúde e o equilíbrio do nosso ser.
c. Dimensão Espiritual: O Zelo cria a disponibilidade de ir a todo o mundo levar, como Jesus Cristo e os apóstolos esse fogo de amor e de temor de Deus. O Zelo fortalece, aumenta a capacidade de trabalhar, capacita para sofrer tudo pela glória de Deus e salvação do próximo. O Zelo atualiza o comportamento do missionário, aceitando as exigências da Nova Evangelização: novos conteúdos, novas expressões, um novo ardor que não é outra coisa que a atualização do zelo apostólico ou da caridade apostólica. Para esta finalidade precisamos de uma sólida espiritualidade vicentina.
d. Dimensão Intelectual: Zelo é amor fiel e perseverante. É fácil amar durante algum tempo. Mas amar durante toda a vida é mais difícil. Assumir compromissos permanentes é hoje mais difícil do que foi no século XVII, sobretudo porque muitos dos apoios sociais que ajudavam a sustentá-los naquele tempo, hoje desapareceram.
O Zelo hoje se manifesta como fidelidade. Ouro provado no fogo. Exige-nos encontrar criativamente novas maneiras de amar, apesar das mudanças bruscas. Como afirmava São Vicente: “O amor é inventivo até o infinito” (SV XI, 65).
O Zelo leva o missionário a adaptar-se e encontrar novas formas de servir aos pobres, apelando à capacitação profissional e especialmente através da formação permanente. Assim nos tornamos mais efetivos perante um mundo mais exigente.
 e. Dimensão Comunitária: Demonstra-se Zelo com o desejo de conseguir operários para a messe. Com o entusiasmo em comunicar a Palavra pela convivência agradável dentro e fora da comunidade interna. O amor é contagioso. O fogo se propaga. Um amor ardente busca se comunicar aos outros, atrai todos à mesma maravilhosa missão com que se está comprometido. O Zelo nos leva a compartilhar com alegria com outras pessoas, aproveitando os espaços formais e informais. O Zelo é amor fiel e perseverante.
 f. Dimensão Apostólica: O Zelo indiscreto se mostra hoje com o trabalho excessivo, muitas vezes sem critérios equilibrados. Hoje é tão importante como no tempo de São Vicente, o conhecer nossas limitações, aceitar nossa condição de seres criados,o desenvolver um estilo de vida equilibrado que inclui o descanso suficiente e o tempo de lazer. Também é importante manter-se em boa condição física para ter a energia que caracteriza o zelo. A ética do cuidado aplica-se interinamente ao nosso ser por causa da missão.
Outro aspecto da dimensão apostólica do Zelo é a busca de assumirmos responsabilidades compartilhadas, trabalho em equipe, decisões colegiadas. Esse caráter educa-nos para a valorização dos ministérios em suas múltiplas modalidades apostólicas e teologais.
Enriqueçamos nossa visão sobre o Zelo Apostólico com palavras inquietantes de Vicente de Paulo: “Buscamos a sombra, não nos gosta sair ao sol. Não goste tanto da comodidade! Na missão, pelo menos, estamos na igreja, a coberto das injúrias do tempo, do ardor do sol, da chuva, ao que estão expostas essas pobres gentes. E gritamos pedindo ajuda quando nos dão um pouquinho mais de ocupação que do ordinário! Meu quarto, meus livros, minha missa! Está bem! É ser missionário, ter todas as comodidades? Deus é nosso provedor e atende todas nossas necessidades e algo mais, nos dá o suficiente e algo mais. Não sei se nos preocupamos muito de agradecê-lo. Vivemos do patrimônio de Jesus Cristo, do suor dos pobres” (SV XI, 120-121).

Palavras Conclusivas:

As virtudes características nos ajudam a permanecer fortes diante de qualquer obstáculo que nos dificulte viver plenamente a vocação a que fomos chamados. Como sabemos, as virtudes características são aqueles valores evangélicos que São Vicente contemplava, de modo especial em Jesus Cristo. São virtudes de que sentiu necessidade e, ainda mais, que se esforçou por viver, compreender e por em prática durante toda a sua vida.
Façamos da oração de São Vicente para pedir o Zelo, nossa súplica missionária: “Ó Salvador, ó meu bom Salvador, apraza à vossa divina bondade livrar a Missão deste espírito de ociosidade, de busca das próprias comodidades e dar-lhe um zelo ardente por vossa glória, que faça abraçar tudo com alegria e que nunca a deixe recusar uma ocasião de vos servir”(Repetição de Oração de 24 de julho de 1655).  
BIBLIOGRAFIA DE APOIO:
Congregação da Missão – Constituições e Estatutos. Cúria Geral da Congregação da Missão. Roma – 1984.
Carta do Superior Geral da Congregação da Missão, Quaresma de 2007.
Manual de Espiritualidade Vicentina. Coleção Vicentina 12.
MALONEY, Pe. Roberto P., O Caminho de Vicente de Paulo, Coleção Vicentina 10.
CLAPVI, Ano XXXII, N. 124 (periódico).

FLORES, Miguel Pérez, CM. Revestirse Del Espíritu de Cristo. Expresión de la identidad vicenciana. Editorial CEME. Salamanca.

http://www.pbcm.com.br/virtudes-vicentinas/as-cinco-virtudes-da-espiritualidade-vicentina/

Ladainha de São Vicente de Paulo

Deus Pai Criador, tende piedade de nós!
Deus Filho Redentor, tende piedade de nós!
Deus Espírito Santo Santificador, tende piedade de nós!
Santíssima Trindade, Comunhão de amor, tende piedade de nós!
São Vicente de Paulo, rogai por nós!
Modelo vivo e atual de seguimento a Cristo evangelizador dos pobres, rogai por nós!
Chama ardente de vida cristã, rogai por nós!
Arauto da ternura e da misericórdia divina, rogai por nós!
Pai das crianças e conselheiro dos jovens, rogai por nós!
Consolador dos enfermos e alívio dos sofredores, rogai por nós!
Amparo dos idosos e de todos os desamparados, rogai por nós!
Animador e formador do clero e dos leigos, rogai por nós!
Inspiração para todos os cristãos, rogai por nós!
Todos os pobres e excluídos de nossa sociedade, lembrai ao Senhor!
As crianças abandonadas e oprimidas, lembrai ao Senhor!
Os jovens, os adultos e os idosos marginalizados, lembrai ao Senhor!
Os encarcerados e todas as pessoas discriminadas, lembrai ao Senhor!
Os desamparados e os sofredores, lembrai ao Senhor!
As famílias em suas lutas e em seus sofrimentos, lembrai ao Senhor!
As vítimas da guerra e do ódio, lembrai ao Senhor!
Os desempregados, os sem-terra e os famintos, lembrai ao Senhor!
Os injustiçados, os marginalizados e as vítimas da violência, lembrai ao Senhor!
Os enfermos, todos os dependentes de substâncias químicas, lembrai ao Senhor!
As vítimas do materialismo e da falta de fé, lembrai ao Senhor!
Todos os servidores do Evangelho, lembrai ao Senhor!
As nossas comunidades e grupos pastorais, lembrai ao Senhor!
Toda a família Vicentina, lembrai ao Senhor!
Os que lutam por um mundo justo e solidário, lembrai ao Senhor!
Nossos benfeitores, familiares e amigos, lembrai ao Senhor!
Todas as pessoas de boa vontade, lembrai ao Senhor!
Toda a Igreja presente e atuante no mundo inteiro, lembrai ao Senhor!
Toda humanidade em suas esperanças e angústias, lembrai ao Senhor!
São Vicente de Paulo, exemplo de fé, rogai a Deus por nós!
São Vicente de Paulo, modelo de esperança, rogai a Deus por nós!
São Vicente de Paulo, espelho de caridade e de justiça, rogai a Deus por nós!

Ó Deus, cheio de amor e de misericórdia, por intermédio de São Vicente de Paulo, nós Vos apresentamos as nossas alegrias e tristezas, as nossas esperanças e angústias. Vós que sois nosso Pai, sentido e força de nossa vida, fazei que todos nós, imitando São Vicente de Paulo, amando o que ele amou, praticando o que ele praticou, possamos nos revestir dos sentimentos e atitudes de Jesus Cristo evangelizador dos pobres e colaborar na construção do Vosso reino de amor, de justiça e de paz. Amém.
http://www.padrereginaldomanzotti.org.br/capela_virtual/novenas_virtuais/sao-vicente-de-paulo/oracao-1.html

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Oração de um místico: Teilhard de Chardin...

Se o Fogo desceu ao coração do Mundo,
foi para me tomar e me absorver. 
É preciso que eu o contemple,
colabore para a consagração que o faz brotar e consinta com a Comunhão.

Eu me prostro, meu Deus, diante da vossa Presença no Universo
tornado ardente
e, sob os traços de tudo aquilo que eu encontrar,
de tudo aquilo que me acontecer,
e de tudo aquilo que eu realizar neste dia, eu vos desejo e por vós espero.

Para chegar ao centro flamejante do Universo,
não basta que o homem viva cada vez mais para si mesmo,
nem que faça a sua vida se gastar numa causa terrestre,
por maior que ela seja. 

O Mundo só pode vos alcançar, Senhor, por uma espécie de inversão,
de retorno, de ex-centração em que desaparecem por certo tempo,
não só a obra dos indivíduos,
mas também a própria aparência de toda superioridade humana.

Aquele que tiver amado apaixonadamente Jesus
escondido nas forças que fazem a Terra morrer,
a Terra, desfalecendo,
o encerrará em seus braços gigantes,
e com a Terra ele despertará no seio de Deus...

                                     (Pe. Teilhard de Chardin sj (1881-1955)

http://www.terraboa.blog.br/2014/10/oracao-de-um-mistico-teilhard-de-chardin.html
  

A virtude da temperança