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sábado, 10 de fevereiro de 2018

"Um companheiro inseparável."





O sofrimento acompanha-nos, passo a passo, no caminho da vida. É um companheiro assíduo e inseparável: sofrimento físico, sofrimento moral, doença, decepção, frustração, perda... O sofrimento pode ser um grande amigo ou um terrível inimigo, pois tem o poder de edificar ou destruir, de enriquecer ou despojar. Tudo depende de como o encaramos, do “sentido” que somos capazes de lhe dar.

A sombra da cruz – do sofrimento e do sacrifício – faz-nos estremecer. Custa-nos entendê-la e, ainda mais, custa-nos aceitá-la. Por que o sofrimento? Por que o sacrifício? Todos nós já fizemos provavelmente essas perguntas, uma ou muitas vezes na vida. E todos sabemos que, quer perguntemos quer não, quer aceitemos a cruz ou nos revoltemos contra ela, continuará a fazer parte deste mundo e da vida de cada um de nós. 

Em nada pode ajudar-nos fazer meras especulações sobre o sofrimento baseadas em hipóteses irreais: “Se não existisse o sofrimento...”, “Deus não deveria permitir o sofrimento...”, “Se Deus é Pai, por que nos deixa sofrer?”... A realidade é que o sofrimento existe e que Deus o permite. Por isso, só poderemos encontrar um “sentido”, uma ajuda, se fizermos as perguntas sobre a dor dentro do quadro da vida real: “O sofrimento existe, sempre existiu e continuará a existir. Eu tenho-o na minha vida. Que sentido tem? Que faço com ele? Que devo fazer com ele?”

Podemos fazer muitas coisas. Há pessoas que, perante as cruzes da vida, se asfixiam na revolta e no desespero. Queixam-se, amarguram-se, arrasam-se. Às vezes, autodestroem-se.

Há outras pessoas que, com os mesmos ou maiores sofrimentos, amadurecem, ganham sabedoria e virtude, aprendem a ver e a amar as coisas e as pessoas de uma maneira nova. E, no meio da dor, têm uma vida cheia de paz, de grandeza e de fecundidade.
Há, pois, um mau modo e um bom modo de encarar o sofrimento. Este último é o que, em linguagem cristã, chamamos a sabedoria da cruz [cfr. 1 Cor 1, 25]. 

Pe. Francisco Faus

quarta-feira, 12 de abril de 2017

BONDADE: A BONDADE CULTIVA O BEM

O homem bom faz bem aos outros somente com a sua presença, pela força atraente das virtudes. Mas o seu influxo benéfico não se limita a isso. Já víamos que tem a disposição de trabalhar, de fazer alguma coisa para que o bem desabroche nos outros. Vive, para dizê-lo em poucas palavras, a serviço do bem dos outros.
Não há dúvida de que este é um belo ideal de vida. Quem não almeja passar pelo mundo, como Cristo, fazendo o bem (At 10, 38), deixando uma esteira de bondade? “Que a tua vida – lê-se em Caminho – não seja uma vida estéril. – Sê útil. – Deixa rasto. – Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor” (n. 1). Estas palavras são todo um empolgante programa de bondade.
A este propósito, lembro-me de um livro que me causou impressão. Intitulava-se “Viveu para ninguém”, e era o romance de um homem medíocre, vulgar, que passou pelo mundo sem deixar rasto algum. Dele se poderia dizer, como um triste epitáfio, que teria dado na mesma se nunca tivesse existido. Seria penoso que um tal epitáfio se pudesse aplicar a nós.
Pois bem, é hora de nos perguntarmos sinceramente o que nós deixamos de bom nos corações e nas vidas dos que vivem e trabalham conosco. Como estamos contribuindo para o seu bem?
Comecemos por convencer-nos de que a primeira ajuda que devemos prestar-lhes consiste em não lhes criar dificuldades. Porque, infelizmente, com frequência somos mais obstáculo do que auxílio. E o pior é que não nos apercebemos disso. Se nos dissessem: “A sua esposa, o seu filho, o seu colega, o seu pai, têm tais e tais problemas, tais e tais defeitos, e você é a causa deles”, levaríamos uma surpresa. “Como assim?”, retrucaríamos. “Eu, que tenho que sofrer esses defeitos, ainda por cima sou culpado deles?” Pois sim, muitas vezes somos.
Tomemos por exemplo um honesto pai de família, trabalhador abnegado, daqueles que “só vivem para a família”. Trabalha em dois empregos e volta cansado ao lar. Ao mesmo tempo, tem um temperamento fechado, não é homem de muitas palavras. Os familiares veem-no soturno e calado, e não se atrevem a interferir no seu aparente mau humor. Caso lhe perguntem: “Está aborrecido? Acontece-lhe alguma coisa?”, responderá, com olhar de surpresa, que não lhe acontece nada. Talvez acrescente: “Sou assim mesmo, é o meu jeito”.
Ora, acontece que esse “jeito” é uma barreira. Bloqueia o diálogo com a esposa e os filhos. A mulher, sentindo-se cada vez mais isolada, sem poder compartilhar as suas fadigas com o marido, irá ficando cada vez mais nervosa e multiplicará as faltas de paciência com as crianças. O marido lamentará que os nervos da mulher estejam criando um ambiente pesado no lar. Mas nem lhe passará pela cabeça que foi ele quem o provocou, com a sua cômoda abstenção. Se tivesse aprendido a chegar ao lar sorrindo, acolhendo, interessando-se pelos problemas da mulher e dos filhos, teria criado condições para um diálogo amável. Teria facilitado um clima cordial, em que os nervos dos outros se dissolveriam. E haveria paz.
De modo análogo, podemos pensar no chefe de um escritório que reclama da falta de iniciativa de um dos seus subordinados: acha que é um homem sem garra no trabalho, que lhe falta entusiasmo e realiza as suas tarefas de modo rotineiro e como que a contragosto. Certamente, este não é o estado de ânimo ideal para um trabalho dinâmico e criativo. Mas de quem é a culpa? Pode muito bem suceder que semelhante inibição e falta de eficiência do empregado tenha sido provocada por esse mesmo superior, que nunca soube incentivá-lo, nem teve paciência para ensiná-lo, nem lhe ofereceu o estímulo de uma palavra positiva, que fizesse o outro sentir-se valorizado. Só soube cobrar e criticar. Grande parte da culpa, sem dúvida nenhuma, é do chefe.
São atitudes desse tipo as que dificultam o bem dos outros, por causa das nossas brusquidões e omissões. Não há bondade ali: fazemos mais mal que bem.

Trecho do livro de F.F O homem bom-Reflexões sobre a bondade

BONDADE: A PEDRA PRECIOSA

São Josemaria Escrivá, um sacerdote que irradiou bondade, despertando milhares de corações para o bem, costumava dizer que cada pessoa, cada alma, deve ser tratada como uma pedra preciosa.
Não existem duas pedras preciosas idênticas, que possam ser lapidadas da mesma maneira. O bom lapidador estuda-as uma a uma, e daí tira conclusões sobre o modo de extrair o máximo de perfeição e beleza de cada uma delas.
Assim deve ser com as almas. O estudo atento do lapidador é, neste caso, a afetuosa atenção que prestamos a cada pessoa, esforçando-nos por compreender o seu modo de ser, o porquê das suas arestas e pontos frágeis, as linhas em que melhor pode ser “trabalhada”. E o modo de tratá-la, de ajudá-la, decorrerá dessa prévia compreensão.
Para tanto, não é necessário possuir conhecimentos muito especializados de psicologia. Basta a psicologia do afeto, que proporciona uma profunda acuidade aos olhos. O amor de uma mãe não precisa de manuais de psicologia para intuir, de modo certeiro, o que está acontecendo com o filho. Basta o carinho, o interesse e a vontade de se dar.
Não esqueçamos, por outro lado, que todo bom lapidador é paciente, o que significa que tem a consciência de que, para transformar um diamante bruto num esplêndido brilhante, vai precisar de longo tempo, de trabalho minucioso, e que só pouco a pouco irá progredindo no seu lavor.
Eis aqui outra das manifestações da autêntica bondade. Assim como a bondade mole se compõe de superficiais pinceladas de amabilidade, a verdadeira bondade traduz-se numa dedicação infatigável. Dá-se sem pausa, espera sem cansaço e não desiste jamais. Persiste incansavelmente, sem abrandar a generosidade da entrega, até ver despontar finalmente os frutos; e aguarda confiante – permita-me – que as “sementes de bondade” dos outros acabem por germinar. A doação de um homem bom nunca é estéril.

Trecho do livro de F.F O homem bom-Reflexões sobre a bondade

BONDADE: O VERDADEIRO BEM

Ser bom é “fazer o bem”. Mas qual é o bem maior, o bem mais verdadeiro?
De nada adiantaria empenharmo-nos generosamente em fazer o bem aos outros, se, no final das contas, terminássemos por descobrir que, pretendendo ajudá-los, involuntariamente lhes fizemos mal ou, o que vem a dar na mesma, lhes proporcionamos bens superficiais e omitimos o bem profundo. Daí a grande importância de não perdermos nunca de vista qual é o verdadeiro bem do homem, o único bem, sem o qual nenhum dos outros merece esse nome.
A resposta a essa pergunta sobre o bem já foi dada por Cristo: Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder a sua alma? Ou que poderá dar o homem em troca da sua alma? (Mt 16, 26).
Estas palavras brilham como um farol no meio da escuridão. Nenhum “bem” vale a pena se a alma estiver privada da graça de Deus. Com efeito, sem a graça divina – a graça do Espírito Santo –, uma alma está morta e, então, as melhores qualidades e “bens” de que possa dispor não passam de flores vistosas enfeitando um cadáver. Estando ausente a vida, “de que aproveitam” as flores?
Deveriam pensar mais nisto todos os que amam, todos aqueles que, por terem a fé cristã, são capazes de compreender a perspectiva de Cristo. Sim, deveríamos entender que “querer bem” outra coisa não é que “querer o bem” do próximo, e que não há bem algum que mereça este nome quando falta Deus. “A quem tem Deus – dizia Santa Teresa de Ávila – nada lhe falta”. A quem não o tem, podemos acrescentar, nada lhe aproveita.
É excelente, sem dúvida, o empenho dos pais em que os filhos tenham saúde, cultura, bem-estar, capacitação profissional que lhes permita enfrentar com segurança o futuro. Mas é um empenho muito mais excelente e vital – por ser decisivo, questão de vida ou morte – esforçarem-se com a sua oração, o seu exemplo e uma orientação prudente e contínua, para que os filhos conheçam as verdades da fé cristã – a doutrina salvadora de Cristo – e aprendam a praticá-las.
Podem ter a certeza de que as virtudes cristãs de um filho vão fazer-lhe, ao longo da vida, um bem infinitamente maior do que todos os diplomas ou contas bancárias que lhes possam proporcionar. Mil vezes mais vale a fé do que a saúde, a união com Deus do que o sucesso. Só as virtudes cristãs são os tesouros verdadeiros de que Cristo falava (Mt 6, 19-20). E só esses tesouros proporcionam àqueles que amamos a “realização” – o bem e a plenitude –, quer nesta terra, quer na eternidade.
Sem esta convicção, todos os ideais de bondade se dissolvem como um sonho ilusório. Sempre deveria ecoar em nossos ouvidos, como um roteiro de bondade, o segredo que Cristo confidenciou a Marta: Tu te inquietas e te perturbas por muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada (Lc 10, 41-42). A “melhor parte” é estarmos junto de Cristo, atentos às suas palavras, fazendo da Vontade de Deus a luz e o norte da vida. Aí está o verdadeiro bem do homem.

Trecho do livro de F.F O homem bom-Reflexões sobre a bondade

sábado, 27 de fevereiro de 2016

A arte de sofrer bem

A paciência – para dizê-lo em poucas palavras- é a capacidade de sofrer dignamente, a arte de “sofrer bem”. Seu ponto alto consiste em saber sofrer serenamente, generosamente e sem queixas, por amor a alguém. Esta é a virtude humana da paciência.
Quando essa virtude é praticada por um bom cristão, movido pelo Espírito Santo, pode-se definir como a arte de sofrer com fé e esperança em Deus e, sobretudo, com muito amor a Deus e ao próximo. Esta é a virtude cristã ou sobrenatural da paciência.
Vamos ver a seguir dois belos exemplos de cada uma dessas duas “paciências”. Ambos são narrados pelo professor de psiquiatria da Universidade de Madrid e escritor J. A. Vallejo-Nágera, no seu livro Concierto para instrumentos desafinados. Trata-se de algumas das muitas recordações que o médico registra como “momentos do coração” no seu trabalho diário.
O tradutor
O primeiro caso é a história de um tradutor diplomado. Foi-lhe diagnosticado um câncer de pulmão, e simultaneamente deram-lhe a notícia de que lhe restavam poucos meses de vida. Homem sem fé, procurou no psiquiatra as soluções que não sabia buscar em Deus. Pensava na esposa, que amava muito, e tremia ante a possibilidade de fazê-la sofrer:
- «Temo que me falte coragem e serenidade, e que assim amargure os nossos últimos meses de convívio. Fisicamente, creio que posso agüentar; só temo falhar psicologicamente. Foi por isso que vim, doutor, para ter uma orientação técnica, um ponto de apoio, e poder dissimular até o final ou fingir que não sofro. Quando a minha mulher ficar sabendo do câncer, se ela julgar que eu não estou sofrendo, conseguirei pelo menos aliviar-lhe este calvário que não lhe posso evitar».
Causa uma certa pena esse sofrimento pendurado no vazio de um bom coração que não conhece a Deus. Mas, sem dúvida alguma, havia uma enorme grandeza nesse seu desejo de ser autenticamente paciente, de saber “sofrer bem”. Esse homem bom, justamente porque tinha muito amor à esposa, estava procurando forças humanas para conseguir que esse seu amor por ela, a quem queria poupar, lhe ensinasse a sofrer “bem”.
O padre humilde
O segundo caso é diferente. Trata-se de um padre cheio de fé, que procurava também no psiquiatra um conselho para sofrer melhor. O médico narrador conta-nos que era um padre humilde, «tão insignificante que nem sequer era ridículo». Tinha dedicado a vida, até aos sessenta e tantos anos, à sua tarefa de bom pastor das almas, especialmente cuidando das doenças espirituais no confessionário.
Desde fazia algum tempo, tinha-se-lhe manifestado uma depressão endógena grave – assim a qualifica e descreve o especialista -, com as suas seqüelas mórbidas e características de tristeza, desconsolo, remorso, pessimismo esmagador e perda do desejo de viver.
O sofrimento era grande. Mas, nesse caso, o médico comoveu-se profundamente porque o paciente não parecia querer consolo, nem compaixão, nem alívio do sofrimento em si. «Não parecia muito interessado – esclarece o psiquiatra – no alívio do tormento… Que queria, então? Queria continuar a amar».
- «Até agora – dizia o padre ao doutor -, tenho levado uma vida sem pena nem glória. A Glória, eu a espero para depois, no Céu, e sei que é preciso adquiri-la por meio da pena.
«Recebi com gratidão o fato de Deus me ter enviado no final da vida a minha cruz; estava até desejando ter uma para poder carregá-la junto com Jesus. Bendigo, por isso, a Deus todos os dias, por se ter lembrado de mim no final, quando já me resta muito pouco tempo de vida e parecia ter perdido qualquer oportunidade de ganhar alguns méritos.
«Mas estou notando que agora, no confessionário, na direção espiritual, não sinto as coisas como antes, como ao longo de toda a minha vida, com entusiasmo por ajudar, com esse carinho espontâneo cheio de afetuosa ansiedade, cheio da necessidade de aliviar os que recorrem a mim. Consigo dar conselhos porque o cérebro funciona, mas não os sinto com o coração, e isso soa-me a nota falsa, artificial, e assim não posso consolar os meus fiéis como antes.
«Nunca me tinha acontecido isso, tem que ser uma doença. É o que lhe peço que me cure, doutor: a doença. O resto irá passando com o tempo, e, se não, louvado seja Deus!».
Esta história é verdadeiramente comovente! Toda ela é um clarão de luz sobre a virtude da paciência. Aquele padre zeloso, desprendido e humilde, sentia-se muito doído e confuso, não por estar sofrendo – coisa que aceitava por amor a Deus -, mas porque o sofrimento causado pela doença lhe tornava difícil manter a vibração da alma e transmitir conforto, ânimo e alegria aos seus penitentes.
Vale a pena meditar um pouco sobre isso, e perguntarmo-nos:
- E eu? Como é que encaro os meus sofrimentos, as minhas contrariedades? Será que o meu amor a Deus e ao próximo é mais forte do que a minha dor, ou, pelo contrário, a contrariedade me derruba e me torna um peso para os outros?
- Será que a minha fé e o meu amor me levam abraçar com espírito cristão as cruzes da vida, desejando sinceramente esquecer-me de mim mesmo, de todo e qualquer egoísmo, de modo que só reze e lute para que os meus problemas não caiam sobre os outros como um fardo, não os atormentem nem os entristeçam?
[Adaptação de um trecho do livro de F.Faus: A paciência]

http://www.padrefaus.org/archives/585

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Verdadeiras e falsas cruzes

Dor que faz bem e dor que faz mal
Há um fato indiscutível, e é que o sofrimento é nosso companheiro ao longo de todo o caminho da vida. E há um segundo fato, igualmente incontestável: conforme as pessoas – conforme a qualidade da alma das pessoas -, o sofrimento esmaga ou faz crescer, destrói ou amadurece.
Essa ambivalência da dor – que pode edificar ou arrasar – indica às claras que o problema, para qualquer ser humano, não reside no sofrimento que Deus envia ou permite que apareça na nossa vida, mas na atitude com que aceitamos ou rejeitamos essa cruz, que Deus nos propõe abraçar. Como sucedeu junto de Cristo no Calvário, a cruz rejeitada afundou o mau ladrão, e a cruz aceitada com humildade, com fé e com amor, salvou o bom.
Mas, ao lado dessas cruzes enviadas ou permitidas por Deus há outras que nem Deus quer nem nós queremos, mas aparecem. São as “falsas cruzes”, que nada trazem de bom. Em que consistem?
Trata-se das “cruzes” que nós mesmos “fabricamos”, “inventamos”, e que nunca deveriam ter existido. São as que aparecem só como conseqüência da nossa mesquinhez e dos nossos defeitos. A pessoa egoísta, ciumenta, invejosa, teimosa…, sofre muito e faz sofrer os outros. Mas esses sofrimentos não são “cruzes”, no sentido cristão da palavra. São apenas a destilação amarga do nosso egoísmo. Com certeza não são a vontade de Deus; pelo contrário, trata-se de pecados mais ou menos graves, que evidentemente Deus não quer, mas nós colocamos como pedras no caminho da vida.
Se fôssemos fazer as contas, veríamos que a maioria desses sofrimentos “fabricados” indevidamente por nós brotam de uma dupla fonte: a fonte do amor-próprio e a fonte doamor pequeno.
A fonte do amor-próprio
O amor-próprio é uma fonte de péssimas cruzes. Como o orgulho nos faz sofrer! Que feridas infeccionadas não provoca! Basta uma lufada de ar – uma pequena desconsideração ou indelicadeza -, e o amor-próprio sente-se atingido como por um punhal.
Uma pessoa orgulhosa é incapaz de tolerar sem ficar magoada – sem se meter num calvário de sofrimentos íntimos – a menor humilhação, mesmo a causada involuntariamente. Fica alterada, abatida; grava a mágoa na memória e a vai remoendo lá dentro; cultiva-a na imaginação, aquece-a ao fogo da autocompaixão, vai engrossando-a à força de lhe dar importância, e termina fazendo dela uma tortura insuportável.
Bastava que fosse um pouco mais humilde, que soubesse relevar minúcias, que se esforçasse um pouco por compreender, por desculpar, por oferecer a Deus as pequenas contrariedades, e não teria nem um miligrama dessa cruz ruim, que não é a cruz de Cristo.
Se a pessoa orgulhosa sofre com tormentos fabricados pelo orgulho, que dizer da invejosa? Sempre comparando-se com os outros, sente subirem-lhe ao coração ondas de melancolia, depressões enciumadas, revoltas contra a sorte e até protestos íntimos contra a Providência de Deus. Essa pessoa invejosa, que chora frustrações, foi ela própria a criadora da sua falsa “cruz”. Se tivesse um coração mais generoso, vislumbraria, feliz e agradecida – na mesma situação em que só vê infortúnios e injustiças da vida -, dez mil bondades de Deus e motivos de ação de graças, um panorama de miúdas e saborosas alegrias, que em vez de lágrimas ou revolta lhe poriam canções dentro da alma.
A fonte do amor pequeno
Vejamos agora a segunda fonte de cruzes doentias: a do amor pequeno.
Já de início, poderíamos dizer que existe um sinal infalível de que o nosso amor é pequeno: o mau humor. Para quem ama pouco, toda a doação, toda a paciência, toda a compreensão solicitada pelo próximo é excessiva e aborrecida, qualquer sacrifício causa revolta ou malestar. O amor grande pratica generosidades grandes e nem se apercebe do sacrifício que faz. Como dizia Santo Agostinho: “Quando se ama, ou não se experimenta trabalho, ou o próprio trabalho é amado”.
Pelo contrário, o amor pequeno transforma uma palha numa “cruz” insuportável. Então, um sacrifício que caberia “dentro de um sorriso, esboçado por amor” 2, não cabe na vida e explode em forma de sofrimento irritado, com contínuos resmungos, queixas constantes e incessantes protestos. O mau humor é a sombra do amor pequeno, o sinal que o dá a conhecer.
Se olharmos de perto o que há por trás desse mau humor, veremos que, em noventa por cento dos casos, é simplesmente a pura e simples realidade da vida, com as suas incidências, lutas, dificuldades e esforços normais. Por outras palavras, o que há na raiz do mau humor é apenas a falta de aceitação da realidade, e da vontade de Deus no dia-a-dia.
É triste lamentar, como se fossem coisa do outro mundo, dificuldades que são normais. Não é nenhuma contrariedade inesperada o fato de que os outros tenham asperezas de caráter, de que o cumprimento do dever canse, de que alcançar metas profissionais custe muito, de que conseguir melhorar os nossos próprios defeitos ou os defeitos dos que nos cercam – especialmente os da mulher, do marido, dos filhos – seja algo lento e demorado. No entanto, é muito comum que, ao constatá-lo, nos sintamos indispostos, nos deixemos levar pelo aborrecimento, pela impaciência, pelo protesto, e percamos o bom humor. Reações de todo desproporcionadas e ridículas, pois lá onde nós imaginamos grandes “cruzes” está apenas a “vida”, a vida que, com um pouco mais de amor e bom humor, ficaria pontilhada de alegrias e coroada de ações de graças.
Cristo pede-nos que tomemos com amor a cruz de cada dia (Lc 9, 23), é certo, mas – lembrando o que dizia João Paulo I – essa cruz deveria ser carregada com o “sorriso cotidiano” e não fazendo dela a “tragédia cotidiana”. No entanto, muitos conseguem mudar o sorriso em tragédia.
Bastam-lhes para tanto duas coisas: em primeiro lugar, amar pouco, como já víamos. Em segundo lugar, viver mergulhados num mundo de imaginações escapistas e sonhos irreais.
Muitos são os que reclamam do real – que é a vida, sempre rica em possibilidades de amar, de crescer por dentro, de fazer o bem – e passam a instalar-se, esterilmente, no mundo irreal das hipóteses: se eu tivesse essas outras condições pessoais, essa sorte, essa oportunidade profissional…; se a minha mulher fosse mais bonita, pacífica e econômica…; se o meu país tivesse uma economia mais confiável… E, assim, enquanto vivem no mundo do “tomara que”, atolam-se no que São Josemaria Escrivá chamava a “mística do oxalá”. Desse modo, estragam a realidade, que é a única que existe e que a cada instante nos oferece ocasiões de amar e de servir e, como conseqüência, de sermos felizes.
Quem reclama sem razão da cruz cotidiana perde a cruz de Deus e encontra a “cruz” do diabo. São cheias de sabedoria aquelas palavras da Imitação de Cristo que dizem: “Se levas com gosto a cruz, ela te levará. Se a levas a contragosto, acabas por torná-la mais pesada para ti e a ti mesmo te sobrecarregas. Se rejeitas uma cruz, sem dúvida encontrarás outra, e possivelmente mais pesada” 3.
Penso que essas reflexões podem ajudar-nos a distinguir, na nossa vida, entre as “verdadeiras” e as “falsas” cruzes. Peçamos a Deus que não nos permita atolar nas cruzes falsas, para que possamos amar as verdadeiras, que nos elevam até Deus.

(Adaptação de um capítulo do livro de F. Faus Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens)

A felicidade da oração

A oração, fonte de alegria
A oração é uma grande fonte de alegria. Disso vamos tratar no presente capítulo. O título está tomado de uma catequese do Santo Cura d’Ars, São João Maria Vianney:
«Deus não tem necessidade de nós: se ele nos pede que rezemos é porque deseja a nossa felicidade, e essa felicidade só pode ser encontrada na oração…».
Vou transcrever a seguir trechos da pregação de três santos sobre a oração. Não escolhi nenhum dos grandes místicos – monges, religiosas contemplativas, etc. –, que têm muitas páginas admiráveis sobre as alegrias da oração, porque fiz questão de escolher três sacerdotes que, no meio do mundo, pregavam para cristãos comuns, gente da rua, homens e mulheres iguais aos que hoje frequentam as Missas de domingo nas cidades e na roça.
Pode ser que você se impressione ao ler estes três textos de pregação ao povo, achando que são elevados demais. Talvez lhe aconteça isso porque ainda não se convenceu de que – como a Igreja ensina – todos os batizados somos chamados à santidade, ou seja, a uma vida de muito amor e intimidade com Deus, que transborde em amor ao próximo.
Será bom, por isso, lembrar o que escrevia São João Paulo II quando entramos no terceiro milênio. Indicava que era preciso voltar a propor a todos a «medida alta» da vida cristã, com uma «pedagogia de santidade», e esclarecia: «Para essa pedagogia de santidade, há a necessidade de um cristianismo que se destaque principalmente pela arte da oração [...]. Seria errado pensar que o comum dos cristãos possa contentar-se com uma oração superficial, incapaz de encher a  sua vida» (Carta apostólica No início do novo milênio, nn. 33 e 34).
Sob esse foco, meditemos, pois, agora nos três testemunhos de que falava antes.
São João Crisóstomo
Nascido na primeira metade do século IV, foi ordenado Bispo, e veio a ser Patriarca de Constantinopla. Seu “sobrenome”, Crisóstomo (“boca de ouro”) lhe foi dado pelo povo pelas suas extraordinárias qualidades como pregador. As suas homilias ocupam muitos volumes. De uma delas, que trata da oração, selecionei os seguintes trechos:
«O bem supremo é a oração, o colóquio com Deus, porque é relação com Ele e união com Ele. Assim como os olhos do corpo são iluminados quando veem a luz, a alma voltada para Deus é iluminada por sua luz inefável. Falo da oração que não é só uma atitude exterior, mas provém do coração; que não se limita a ocasiões ou horas determinadas, mas está dia e noite em contínua atividade…
»A oração é a luz da alma, o verdadeiro conhecimento de Deus… Pela oração, a alma se eleva aos céus e abraça o Senhor em inefáveis amplexos… Exprime seus desejos e recebe dons superiores  a toda a natureza visível.
»A oração, pela qual nos apresentamos em adoração diante de Deus, traz alegria e paz ao coração… Semelhante oração é uma riqueza que não pode ser tirada e um alimento celeste que sacia a alma. Quem a experimentou inflama-se no desejo eterno de Deus, como de um fogo devorador que abrasa o coração. Entrega-te, pois, à oração…, e adorna-a com boas obras…» (Homilia n. 6 sobre a Oração).
São João Maria Vianney
Este humilde pároco da pequena cidadezinha de Ars, na França, atraiu muitos milhares de almas, que acorriam de toda a parte às suas Missas, catequeses e confissões,  porque era muito santo. Como dizia um descrente, que se converteu só de vê-lo uma vez: “Eu vi Deus num homem”.
Pregava muito aos seus paroquianos, na maioria lavradores daquele povoado perdido no mapa. Trabalhou até ao esgotamento – sobretudo atendendo horas e horas de confissões –, mas rezou ainda mais : muitas horas de oração diante do sacrário; e fez muita penitência pela conversão dos pecadores. Isso explica que um padre como ele, simples e sem muita cultura, tenha obtido frutos pastorais incríveis e seja hoje o padroeiro de todos os párocos do mundo.
Vamos meditar sobre algumas palavras das suas deliciosas catequeses:
«Prestai atenção, filhinhos meus; o tesouro do cristão não está na terra, está nos céus. Por isso, volte-se o nosso pensamento para onde está o nosso tesouro. É esta a linda profissão do homem: rezar e amar. Se orais e amais, aí está a felicidade do homem sobre a terra.
»A oração é toda a felicidade do homem. Quanto mais se reza, mais se quer rezar: é como um peixe que nada na superfície da água e logo se submerge até o mais profundo do mar. A alma se abisma, mergulha no amor do seu Deus.
»A oração é simplesmente união com Deus. Se alguém tem o coração puro e unido a Deus, sente uma suavidade e doçura que inebria, envolve-o numa luz maravilhosa. Nesta íntima união, Deus e a alma são como duas ceras fundidas juntas, que ninguém pode separar. Coisa linda, a união de Deus com a sua pequenina criatura; felicidade impossível de se imaginar…
» A oração nos antecipa o gozo do céu, faz descer algo do paraíso até nós. Jamais nos deixa sem doçura; e um mel que flui na alma e tudo adoça. Na oração bem feita, os sofrimentos se dissolvem como a neve ao sol…» (Catechisme sur la prière, em A. Monnin,L’Esprit du Curé d’Ars, pp. 87-89).
São Josemaria Escrivá
            A grande luz de Deus que São Josemaria recebeu em 1928 – uma luz que ficou plasmada na fundação do Opus Dei – era um apelo divino para proclamar por todos os cantos do mundo que Deus chama todos os batizados, seus filhos, à santidade; e para anunciar que a santidade é acessível a todos, pois os cristãos comuns podem alcançar essa meta – santificar-se e fazer apostolado em meio ao mundo – através da santificação do trabalho profissional, da vida familiar e dos demais deveres cotidianos do cristão.
Bem no começo de uma homilia que intitulou Rumo à santidade, da qual citaremos a seguir alguns trechos, São Josemaria dizia: «Sentimo-nos atingidos, com um forte estremecimento no coração, ao escutarmos atentamente o grito de São Paulo: Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação (1 Ts 4, 3). É o que hoje, uma vez mais, proponho a mim mesmo, recordando-o também a quantos me ouvem e à humanidade inteira: esta é a Vontade de Deus, que sejamos santos».
Repisando esse chamado universal à santidade, explicitava a seguir que Deus «chama cada um à santidade e a cada um pede amor; a jovens e velhos, a solteiros e casados, a sãos e enfermos, a cultos e ignorantes; trabalhem onde trabalharem, estejam onde estiverem. Só há um modo de crescer na familiaridade e na confiança com Deus: ganhar intimidade com Ele na oração, falar com Ele, manifestar-lhe – de coração a coração – o nosso afeto» (Amigos de Deus, nn. 294 ss.). Apresentava assim a oração e a santidade como realidades inseparáveis. E, depois, marcava rumos:
«Começamos com orações vocais, que muitos de nós repetimos quando crianças … Primeiro, uma jaculatória, e depois outra, e mais outra…, até que parece insuficiente esse fervor, porque as palavras se tornam pobres…, e se dá passagem à intimidade divina, num olhar para Deus sem descanso e sem cansaço. Vivemos então como cativos, como prisioneiros. Enquanto realizamos com a maior perfeição possível, dentro dos nossos erros e limitações, as tarefas próprias da nossa condição e do nosso ofício, a alma anseia escapar-se. Vai-se rumo a Deus, como o ferro atraído pela força do ímã. Começa-se a amar Jesus de forma mais eficaz, com um doce sobressalto…
»Uma oração e uma conduta que não nos afastam das nossas atividades habituais e que, no meio dessas aspirações nobremente terrenas, nos conduzem ao Senhor. Elevando todos os afazeres a Deus, a criatura diviniza o mundo. Quantas vezes não tenho falado do mito do rei Midas, que convertia em ouro tudo o que tocava! Podemos converter tudo o que tocamos em ouro de méritos sobrenaturais, apesar dos nossos erros pessoais» (Ibidem, nn. 296, 308).
Após comentar diversas condições da vida de oração, sublinhava que a oração deve penetrar suave e fortemente no cotidiano, de maneira que o cristão comum não separe a vida ordinária da oração (da Missa, Comunhão, leituras cristãs, meditação, lectio divina, Santo Rosário, etc.[1]). Não são dois compartimentos separados nem separáveis:

«Quando a fé vibra na alma, descobre-se que os passos do cristão não se separam da própria vida humana corrente e habitual. E que essa santidade grande, que Deus nos reclama, se encerra aqui e agora, nas coisas pequenas de cada jornada…
» Rogo ao Senhor que nos decidamos a alimentar na alma a única ambição nobre, a única que vale a pena: caminhar ao lado de Jesus Cristo, como fizeram sua Mãe bendita e o santo Patriarca [São José], com ânsia, com abnegação, sem descuidar nada. Participaremos na felicidade da divina amizade – num recolhimento interior compatível com os nossos deveres profissionais e com os de cidadãos – e lhe agradeceremos a delicadeza e a clareza com que nos ensina a cumprir a Vontade do nosso Pai que habita nos céus» (Ibidem, nn. 300, 312).
Na Missa solene em que João Paulo II canonizou São Josemaria, lembrava à multidão de fiéis presentes na praça de São Pedro: «São Josemaria foi um mestre na prática da oração… Recomendava sempre: “Em primeiro lugar, oração; em segundo lugar, expiação; em terceiro lugar, muito em terceiro lugar, ação”(cf. Caminho, n. 82)… Este é, no fundo, o segredo da santidade e do verdadeiro sucesso dos santos» (Homilia, 6/10/2002).
Depois disso, talvez não esteja fora de lugar encerrar este capítulo com as célebre frase de Leon Bloy: «A única tristeza que existe é a de não ser santo».


[1] Sobre a oração e as suas diversas formas, vale a pena ler os números 2558 a 2865 do Catecismo da Igreja Católica, edição típica vaticana (Ed. Vozes e Loyola). Pode ajudá-lo a exercitar-se praticamente nas diversas formas de oração cristã o livro de F. Faus Para estar com Deus, Ed. Cultor de Livros/ Cléofas.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

A ALEGRIA E AS LÁGRIMAS

5-A ALEGRIA E AS LÁGRIMAS
A alegria do perdão
Feliz aquele cuja culpa foi cancelada e cujo pecado foi perdoado… (Sl 32, 1).
O filho pródigo, quando voltou à casa do pai, após anos de devassidão e desvarios, experimentou a verdade destas palavras do Salmo 32. Você seguramente se lembra de sua história, uma das mais belas parábolas de Cristo (Lc  15, 11-32).
O filho mais novo pede ao pai a herança adiantada, foge para longe, abusa de todos os prazeres, esbanja os bens recebidos e fica na mais abjeta miséria. Então, caindo em si, lembra-se da casa do pai, onde até os empregados têm pão com fartura. Diz então para si: Vou voltar para meu pai e dizer-lhe: “Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados”.
Envergonhado, apenas com um fio de esperança volta à casa do Pai. E quando chega perto, um choque indescritível lhe abala o coração: Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e, tomado de compaixão, correu-lhe ao encontro, abraçou-o e o cobriu de beijos. Não lhe deixa sequer pronunciar as palavras de arrependimento que havia preparado. Nem uma palavra de recriminação. Só alegria e festa: Trazei depressa – diz o pai, com o alento cortado pela emoção – a melhor túnica para vestir meu filho; colocai-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; trazei um novilho gordo e matai-o, para comermos e festejarmos; pois este meu filho estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado.
Muitos comentaristas do Evangelho, entre eles Bento XVI, dizem que esta parábola, em vez de se chamar “a parábola do filho pródigo”, deveria chamar-se “a parábola do pai misericordioso”. Toda ela, deliciosa em seus detalhes, é a voz de Cristo falando-nos da alegria do perdão.
Alegria de quem?
Não custa muito pensar que, uma vez refeito da surpresa, o filho pródigo tenha começado a chorar lágrimas vivas de sincero arrependimento e de gratidão. Soluços misturados com risos. Acabava de descobrir o que antes nunca vira: a imensidão do amor do Pai.
O pródigo ficou alegre, mas a sua alegria não foi a principal. Deixa-nos pasmados perceber que Jesus ensina que, quando um pecador se arrepende, quem fica mais alegre é o próprio Deus. Mencionamos há pouco a alegria festiva do pai, que simboliza Deus. Antes desta parábola do pródigo, Cristo narrou outras duas parábolas, a da ovelha e a da moeda perdidas, também sobre o perdão de Deus, e as conclui assim: Eu vos digo: haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte, que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento. Haverá alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte  (Lc 15, 7 e 10).
Uma das melhores meditações sobre o filho pródigo é a de Henri J. M. Nouwen, no precioso livro A volta do filho pródigo (Paulinas, 1997). «Pode parecer estranho – comenta o autor –, mas Deus deseja tanto me encontrar, ou mais, do que eu a Ele. Sim, Deus precisa de mim tanto quanto eu preciso dele… Não seria bom acrescer a alegria de Deus, deixando que Ele me encontre, me carregue para casa e celebre com os anjos a minha volta? Não seria maravilhoso fazer Deus sorrir por lhe dar a chance de me encontrar e me amar perdidamente?» (p. 116).
Leia, por favor, o capítulo 15 do Evangelho de São Lucas. Devagarzinho, meditando  frase por frase. Vai descobrir, com a ajuda do Espírito Santo, que existe uma alegria enorme à sua espera, se você se decide a ser humilde, sincero, para reconhecer como o pródigo: Pai pequei!  E a pedir-lhe perdão sem amargura nem humilhação, dispondo a sua alma para receber uma alegria que possivelmente nunca experimentou:  a alegria de Deus, seu Pai, que quer partilhar com você sua felicidade; a que Jesus chamava minha alegria, que ninguém vos poderá tirar (Jo 15,11 e 16,22).
Se quer o testemunho de um sacerdote que já atingiu seis décadas após a sua ordenação e atendeu em confissão milhares de pessoas, creia que esse padre viu poucas alegrias tão grandes como as das pessoas que, depois de muitos anos afastadas – numa terra longínqua, como diz a parábola do filho pródigo –, se levantaram após uma confissão bem preparada, contrita e bem feita, palpitando de gozo, com lágrimas de alegria incontíveis. E pensar que alguns acham a confissão desnecessária ou absurda!
Um novilho gordo e um cabrito
Na parábola do filho pródigo, há uma sombra. A reação do irmão mais velho, que ferve de inveja do irmão e de indignação com o pai. Emburrado, nega-se a participar da festa que o pai preparou. E quando este o anima carinhosamente a entrar, explode: Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Mas quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com as prostitutas, matas para ele o novilho gordo!
Esse irmão está triste. Pior do que isso, amargurado. Creio que tem razão aquele que dizia que a nossa tristeza se pode medir pelo número das nossas reclamações.
Veja como reclama. Apresenta a sua folha de serviços – há tantos anos que trabalho para ti  –, e cospe o fel do ressentimento por um fato sem transcendência: queria fazer uma festa com amigos, e o pai não gostou de que matasse um cabrito para isso. Que importância tem um churrasco frustrado ao lado de um irmão perdido?
É bem antipática a figura do irmão incapaz de se alegrar com o resgate do caçula. O que ele demonstra? Que trabalhava, sim, que cumpria os deveres, que seguia o figurino, que obedecia. Mas tudo isso, para ele, era uma carga mal suportada, que o oprimia . Via seus dias com o ar resignado de quem suporta um peso, uma obrigação a que não pode fugir. Não fazia as coisas com amor. Por isso, não podia estar alegre.
Não é verdade que há muitos que se parecem com ele? São boa gente, cumpridores, corretos, tanto no lar como no trabalho. Mas são tristonhos e desagradáveis. Não é grato trabalhar nem conviver com eles. Fazem-me pensar naquele bispo que quando lhe falavam de um padre e lhe diziam que era muito bom, perguntava: “Bom, para quê?” Esses são “corretos”, mas não são bons para o mais importante: o primeiro mandamento, o mandamento do Amor.
Um homem ou uma mulher que “cumprem”, que se julgam irrepreensíveis, mas que fazem tudo sem carinho, reclamando, remoendo invejas, são como uma granada de gás lacrimogêneo para os que vivem perto deles, e fazem pensar no retrato do tíbio, que Jesus faz no Apocalipse: Conheço a tua conduta. Não és frio, nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, porque és morno, nem frio nem quente, estou para vomitar-te da minha boca (Ap 3, 15-16).
É duro pensar que a atitude do medíocre egoísta enoja Deus. Mas é tocante, ao mesmo tempo, comprovar a bondade de Cristo, que logo após sacudi-lo e abrir-lhe os olhos para seu erro, anima-o a comprar um colírio para curar teus olhos, a fim de que vejas, e, como o pai do pródigo, se adianta a perdoar:  Eis que estou à porta de teu coração e bato… (cf. Ap 3, 17-20).
Assim como Cristo é o pai da parábola. Após a diatribe do filho, diz-lhe carinhosamente:Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado.
Se você for capaz de compreender a beleza do arrependimento e o amor do nosso Pai Deus, também encontrará a alegria.
http://www.padrefaus.org/archives/2191

A ALEGRIA E O SOFRIMENTO

Paradoxos da alegria
São Josemaria Escrivá costumava dizer que «a alegria tem as raízes em forma de cruz» (Forja, n. 28); e na primeira página do seu calendário litúrgico, anotava muitas vezes, como lema do ano, estas palavras: In laetitia, nulla dies sine cruce («com alegria, nenhum dia sem cruz»).
Parece um paradoxo difícil de entender, pois a cruz está associada aos dois “esses” que quase todos veem como os grandes inimigos da alegria: o sofrimento e o sacrifício.
Também são paradoxais as declarações de amor à Cruz, que a Igreja faz na liturgia da Semana Santa: «Salve, ó Cruz, única esperança! — Ave, crux, spes unica» (hino das Vésperas da Semana Santa). E na Sexta-feira da Paixão canta: «Adoramos, Senhor, vosso madeiro… Por essa cruz, que hoje veneramos, veio a alegria para o mundo inteiro».
A Igreja contempla como olhos extasiados o amor inefável de Jesus, que dá a vida por nós – por você e por mim –, no máximo ato de amor que a história conhece; por isso, a Cruz foi, e será sempre, a suprema fonte de irradiação da alegria.
Veja o que nos dizem os Apóstolos:
• São João: Nisto sabemos o que é o amor: Jesus deu a vida por nós… (1 Jo 3, 16)
• São Paulo: Estou crucificado com Cristo…, e a vida que agora vivo na carne, eu a vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim (Gl 2, 19-20).
Jesus na Cruz, com as mãos estendidas, é o “abraço amoroso de Deus”, que envolve, protege, salva e move o coração a amar com todas as forças: «Saber que me amas tanto, meu Deus, e não enlouqueci?!» (Caminho, n. 425).
O sofrimento cristão
Há dois olhos capazes de ver isso, e de abrir as portas do coração: o olho da fé (que enxerga Cristo), e o olho do amor (que a fé faz acordar).
Penso que nos faria muito bem conhecer e meditar mais na alegria que vivem os cristãos que têm esse duplo olhar. Diante do sofrimento, não os vemos revoltados, raivosos, desanimados; nem apenas estoicos e resignados. Nós os vemos serenos e alegres: sofrem com paz, sem dramatismo; não se fecham, mas aumentam a sua compreensão e ternura para com os outros; e crescem muito por dentro.
Em 26 de março de 1996, um comando terrorista islâmico invadiu o mosteiro trapista de Nossa Senhora do Atlas, na Argélia, e levou presos o abade e mais seis monges. Em 21 de maio foram decapitados.
Poucos anos antes, o abade, padre Christian de Chergé, havia escrito um testamento espiritual, de que reproduzo agora uns trechos: «Se algum dia me acontecer ser vítima do terrorismo, eu quereria que a minha comunidade, a minha Igreja, a minha família, se lembrassem de que a minha vida estava entregue a Deus e a este país. Peço-lhes que rezem por mim.
»Como posso ser digno dessa oferenda? Eu desejaria, ao chegar esse momento da morte, ter um instante de lucidez tal, que me permitisse pedir o perdão de Deus e o dos meus irmãos os homens, e perdoar eu, ao mesmo tempo, de todo o coração, aos que me tiverem ferido.
»Se Deus o permitir, espero poder mergulhar o meu olhar no olhar do Pai, e contemplar assim, juntamente com Ele, os seus filhos do Islã tal como Ele os vê; que os possa ver iluminados pela glória de Cristo, fruto da sua Paixão, inundados pelo dom do Espírito… Por essa minha vida perdida, totalmente minha e totalmente deles, dou graças a Deus”[1].
Sofrer e amar
Quando têm fé, os cristãos sabem que são amados , filhos de Deus muito amados (Ef 5,1). Com os olhos postos em Cristo na Cruz, que se dá inteiramente a nós, entendem que Deus não é um Deus longínquo, que contempla fria ou indiferentemente as dores dos homens. Não, o nosso Deus é Cristo, é Jesus que compartilhou conosco todas as nossas dores, que quis conhecê-las todas, quis prová-las todas. Basta-me, para ter alegria, a certeza de que Ele sabe, Ele me entende, Ele me ama, Ele me acompanha com carinho. No sofrimento, Ele está mais do que nunca perto de mim. No sofrimento, eu posso estar mais do que nunca unido a Ele.
Em setembro de 2002, faleceu em Roma o cardeal vietnamita François Xavier Nguyên Van Thuân. Preso durante treze anos pelos comunistas, despojado de tudo, reduzido humanamente à miséria, dizia a si mesmo: «François, tu és ainda muito rico. Tens o amor de Cristo no teu coração»[2].
Em 2007, na encíclica sobre a esperança, Bento XVI falava dele: «Sobre os seus treze anos de prisão, nove dos quais em isolamento, o inesquecível cardeal Nguyên Van Thuân deixou-nos um livro precioso: O caminho da esperança. Durante treze anos de prisão, numa situação de desespero aparentemente total, a escuta de Deus, o poder falar-lhe, tornou-se para ele uma força crescente de esperança que, depois da sua libertação, lhe permitiu ser para os homens de todo o mundo uma testemunha da esperança, daquela grande esperança que não declina, mesmo nas noites de solidão» (Enc. Spe salvi, n. 32).
O sofrimento que purifica
O Amor de Deus, o Espírito Santo, foi simbolizado em Pentecostes pelo fogo que ilumina, acende e purifica. Por isso, os discípulos de Jesus, enlevados pelo mistério da Cruz, podiam dizer, como São Pedro, que os sofrimentos são a prova a que é submetida a vossa fé, muito mais preciosa que o ouro perecível, o qual se prova pelo fogo (1 Pd 1, 7). A fé é purificada pela dor, como o ouro que sai purificado do cadinho.
Veja também a alegria de São Tiago: Meus irmãos, considerai como suprema alegria as provações de toda ordem que vos assediam; e explica a seguir que dessas provações o cristão sai amadurecido, aperfeiçoado (cf. Tg 1, 2-4).
Três meses antes de falecer, São Josemaria fazia oração diante do sacrário, lançando um olhar retrospectivo à sua vida, e dizia: «Um olhar para trás… Um panorama imenso: tantas dores, tantas alegrias. E agora, tudo alegrias, tudo alegrias. Porque temos a experiência de que a dor é o martelar do Artista, que quer fazer de cada um, dessa massa informe que nós somos, um crucifixo, o outro Cristo que temos de ser»[3].
O sofrimento que alarga o coração
Voltemos ao cardeal Van Thuân, uma alma a quem o sofrimento injusto não encolheu, mas dilatou: «Para fazer resplandecer o amor que vem de Deus – afirmava –devemos amar a todos, sem excluir ninguém». Fiel a essa convicção, deu-se de tal modo a ajudar, ensinar e animar seus carcereiros, que um dos guardas lhe perguntou:
– O senhor nos ama verdadeiramente?
– Sim, eu os amo sinceramente.
– Mas nós o tivemos preso durante tantos anos, sem julgá-lo, sem condená-lo, e o senhor nos ama? É impossível, isso não é verdade!
– Estive muitos anos com vocês. Você viu que isso é verdade.
– Quando for libertado, não vai mandar os seus fiéis incendiar as nossas casas e matar as nossas famílias?
– Não. Mesmo que você queira matar-me, eu o amo.
– Mas, por quê?
– Porque Jesus me ensinou a amar a todos, mesmo aos inimigos. Se eu não o fizer, não sou digno de ser chamado cristão.
– É muito bonito, mas difícil de compreender… [4].
Passemos agora a uma menina. Montserrat Grases, ainda estudante, descobriu a sua vocação ao Opus Dei, e se entregou a Deus com alegria. Pouco depois, foi-lhe diagnosticado um sarcoma incurável numa perna, e veio a falecer após um longo itinerário de meses de sofrimento aceito com um sorriso.
Um seu irmão, que veio depois a se ordenar sacerdote, deu o seguinte testemunho:
«A sua Cruz foi muito dolorosa. Às vezes comentam-me, quando a recordam tão alegre e tão feliz, que ela sentia até gosto no meio da dor… Não, isso não é verdade. Falar assim poderia soar a masoquismo, porque aquilo não era uma dor convertida em gosto; era uma dor convertida em amor, e em luta para poder continuar a ser fiel a si mesma, a nós e a Deus, mas continuava a ser uma dor que a dilacerava, que a desfazia.
»Sofreu – eu o vi – tremendamente: mas era uma luta enamorada, no meio da dor, para encontrar Cristo Crucificado. Em meio a essa dor, junto de Cristo, nunca esteve só. Se Deus está ao meu lado – pensou – e me pede isto, será porque é possível; e se Ele o quer, Ele me ajudará… Montse, graças à dor, deu-nos o melhor de si mesma»[5].
Quero terminar este capítulo pedindo a Deus que nos ajude a realizar na nossa vida essa maravilha: manter a alegria no meio da dor, para podermos dar aos outros o melhor de nós mesmos.
E que, para conseguir isso, nos faça compreender, num mundo que foge com horror da Cruz, o que diz a Imitação de Cristo: «Somente os servidores da Cruz encontram o caminho da felicidade e da verdadeira luz» (Liv. 3, cap. 56).


[1] Cf. Otimsimo cristão, hoje, Quadrante 2008, pp. 41-43
[2] F.X. Van Thuân, Cinco pães e dois peixes, ed. Santuário, p. 54
[3] Salvador Bernal, Perfil do Fundador do Opus Dei, Quadrante 1978, p. 416
[4] Cinco pães e dois peixes cit., pp. 54-55
[5] J. M. Cejas, Montse Grases. La alegria de la entrega, Rialp 1993
http://www.padrefaus.org/archives/2193?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+padrefaus+%28F%C3%A9%2C+Verdade+e+Caridade%29

Modo de Fazer Oração Mental, por Santo Afonso

  A meditação ou oração mental contém três partes: A Preparação A Meditação A Conclusão I. PREPARAÇÃO Na preparação fazem-se três atos: 1º A...