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sábado, 7 de março de 2020

"A permuta dos corações."


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"Santa Catarina de Sena estava um dia a meditar as palavras do profeta “Cria em mim Senhor um coração puro”, e rogava a Deus que lhe retirasse o seu coração, no qual se enraizava toda a obstinação, teve uma visão na qual lhe apareceu o Noivo celestial, lhe abriu o peito, lhe retirou o coração e o levou consigo.

A impressão e reação física foram muito intensas, como se já não possuísse coração para viver.

Dois dias mais tarde, depois da Eucaristia em que tinha participado e da qual tinha comungado, estando a rezar na capela della Volte, apareceu-lhe novamente Jesus. Na sua mão trazia um coração humano, vermelho e brilhante de luz.

Quando Santa Catarina viu como ele brilhava baixou o rosto e então novamente o Senhor lhe abriu o peito e lhe introduziu o coração, ocupando o lugar deixado pelo outro que lhe tinha retirado dias antes. Disse-lhe então: “Minha querida filha, o outro dia retirei o teu coração; hoje dou-te o meu, para que possas gozar de vida eterna”.

Quando Santa Catarina contou o sucedido a frei Tommaso della Fonte, seu confessor, ele riu-se dela, pois no conjunto dos seus conhecimentos não era possível alguém viver sem coração.

Contudo Santa Catarina não deixou de afirmar e reafirmar o sucedido, os seus próprios sentidos e a palavra de Deus não a deixavam duvidar. Os amigos mais íntimos asseguraram também a frei Tommaso que tinham visto com os seus próprios olhos, no lado esquerdo do peito, a cicatriz que testemunhava a permuta de corações, e ele acreditou no sucedido.

A partir desse dia Santa Catarina nunca mais disse “Senhor ofereço-te o meu coração”, mas sempre “Senhor, ofereço-te o teu coração”. E quando comungava o coração batia-lhe com tal violência e alegria que os que estavam ao seu lado o ouviam e ficavam espantados."

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Três lições de Santa Catarina de Sena


Catarina de Sena soube equilibrar o seu autoconhecimento a ponto de vivenciar tão grande humildade que, por muitas, vezes saiu o demônio vergonhosamente humilhado diante de sua vida virtuosa
Nascida no ano de 1347, na Itália, Catarina foi criada em uma família numerosa, com seus 25 irmãos, em meio a uma educação católica. A graça e eleição de Deus sob esta Santa já começariam cedo. Aos 7 anos de idade, ela consagrou sua virgindade a Cristo. Aos 16 anos, entrou na Ordem Terceira Dominicana. Apesar da sua grande simplicidade e recolhimento na sua vida de oração, ela foi sempre aberta ao serviço caritativo por conta da realidade da sua época. Em uma Europa marcada por guerras e disputas entre reinos, no século XIV, surge Santa Catarina. O Papa Bento XVI, em catequese sobre esta Santa, nos diz:
“Quando a fama de sua santidade espalhou-se, foi protagonista de uma intensa atividade de aconselhamento espiritual na relação com todas as categorias de pessoas: nobres e políticos, artistas e gente do povo, pessoas consagradas, eclesiásticos, incluindo o Papa Gregório XI que, naquele período, residia em Avignon e ao qual Catarina exortou enérgica e eficazmente que retornasse para Roma. Viajou muito para solicitar a reforma interior da Igreja e promover a paz entre os Estados: também por esse motivo, o Venerável João Paulo II desejou declará-la copadroeira da Europa: o Velho Continente nunca poderá esquecer as raízes cristãs que formam a base de seu caminho e continua a desenhar, a partir do Evangelho, os valores fundamentais que asseguram a justiça e a harmonia.”[1]
Dentro da espiritualidade de Santa Catarina podemos destacar três pontos: intimidade com Deus, piedade e arrependimento e a Divina Providência. Em cada um deles, Catarina deixa-nos uma lição.
A intimidade com Deus
Na sua obra “O Diálogo”, Santa Catarina preocupa-se com a busca do conhecimento da Verdade e do sumo Bem, que é Deus. É importante lembrar que esta obra de Santa Catarina, na verdade, foi organizada pelo Beato Raimundo de Cápua, e ditada por ela, a alguns ajudantes, que registravam as experiências místicas que a Santa tinha com Deus, ora reveladas por Deus Pai, ora por Deus Filho. Em uma das locuções, Jesus nos ensina que o passo inicial e fundamental para a busca da Verdade é o autoconhecimento: “O Caminho para atingir o conhecimento verdadeiro e a experiência do meu ser – Vida eterna que eu sou – é este: nunca abandones o autoconhecimento! Ao desceres para o vale da humildade, reconhecer-me-ás em ti, e de tal conhecimento receberás tudo aquilo de que necessitas.”[2] Diante de tal conhecimento, o homem depara-se com o nada que é, e reconhece que o seu egoísmo é a fonte de todo o seu pecado. Por isso, há uma importância em reparar os nossos pecados.
Para chegarmos à perfeição, existe o que a Santa chama de “degraus do amor”, que são três: amor servil, amor interesseiro e, por último, amor amizade. O amor amizade reflete o mais sublime estado que o nosso relacionamento com Deus pode chegar. O Senhor revela a Santa Catarina o que significa este amor amizade: “A amizade íntima consiste nisto: que são dois corpos, mas uma só alma no amor, pois o amor transforma (o amante) na coisa amada. E quando (os amigos) se tornam uma só alma, entre eles já não haverá segredo. Por isso dizia meu Filho: ‘Viverei e moraremos juntos. [3]’”
Portanto, no amor amizade, aquele que alcança esse estado de graça, tem uma grande semelhança com os sentimentos de Cristo. Deseja estar constantemente em comunhão e escuta com o Pai: “Filha querida, convence-te de que na oração contínua, fiel e perseverante que todas as virtudes são adquiridas.”[4] Ou ainda, fazendo um paralelo entre a vida de oração e o autoconhecimento: “Como é agradável ao orante e a mim a prece feita na cela do autoconhecimento.”[5]
Ademais, o Papa Bento XVI faz-nos lembrar do místico e profundo relacionamento que Santa Catarina tinha com Jesus: “Em uma visão que jamais se apagou do coração e da mente de Catarina, Nosso Senhor apresentou-a a Jesus, que lhe deu um esplêndido anel de ouro, dizendo: ‘Eu, teu Criador e Salvador, esposo-te na fé, que conservarás sempre pura, até quando vieres celebrar comigo no céu as tuas núpcias eternas’ (Raimundo de Cápua, S. Caterina da Siena, Legenda maior, n. 115, Siena, 1998). Aquele anel foi visível somente para ela.”[6]
Vale fazer a ressalva que, para Santa Catarina, a graça de deparar-se de forma humilde com os nossos pecados só é eficaz se estivermos com o olhar na paixão de Cristo, pois o erro ocorreria se formos falseados por nossos sentimentos de autocondenação: “Se não forem acompanhados pelo pensamento da paixão, o autoconhecimento e a reflexão sobre os próprios pecados, confundem a alma.” [7] Esta Santa também soube equilibrar o seu autoconhecimento a ponto de vivenciar tão grande humildade que, por muitas, vezes saiu o demônio vergonhosamente humilhado diante da vida virtuosa de Santa Catarina. “Maldita sejas tu, pois de nenhum modo consigo vencer-te! Se te rebaixo ao desespero, tu te elevas à misericórdia; se te engrandeço de vaidade, tu te rebaixas até o inferno pela humildade e aí me persegues. Não voltarei mais; tu combates com a lança da caridade” [8], disse a ela o demônio.
Dom das Lágrimas
Percebemos o quanto estava aflorado no íntimo de Santa Catarina a busca constante e intensa do autoconhecimento, e isto era fruto da sua contínua e profunda vida de oração, já que quando nos aproximamos de Deus, conhecemos a Ele e a nós mesmos. Ora, o amor sincero leva-nos a uma reta postura diante de Deus e também dos homens. Ao deparar-nos com a nossa fraqueza e miséria, numa graça particular de arrependimento de coração, chegamos ao choro. As lágrimas, então, são os frutos externos de algo que acontece de forma intensa e verdadeira no nosso interior, que é o desejo de mudança de vida.
Existem cinco tipos de lágrimas que se diferenciam pelo estado em que a pessoa se encontra. No primeiro, ocorrem as lágrimas por estarmos em estado mortal. No segundo, compreendemos os males dos nossos pecados e há uma busca de conversão. No terceiro tipo,  há uma superação do temor servil e, em seguida, atingimos o amor e a esperança. O quarto tipo de lágrimas refere-se à prática das virtudes. Já no quinto, o Senhor fala a Santa Catarina das lágrimas de fogo do Espírito Santo: “Existe alguma lágrima que não saia dos olhos? Sim, existe um pranto de fogo, procedente do desejo santo e que faz consumar-se no amor por mim. (…) Ao que parece, foi quanto pretendia afirmar o glorioso apóstolo Paulo, ao dizer que o Espírito Santo chora em mim ‘com gemidos inenarráveis’ (Rm 8, 26), a vosso favor.”[9]
Por isso, não se pode queixar-se quem, por conta de seu tempo de caminhada com Deus, não tem o dom das lágrimas simplesmente porque não derrama as lágrimas que deseja. A Deus não interessa se nós derramamos lágrimas externas ou lágrimas do espírito: “Em todo estado de vida e ocasião, tais pessoas podem agradar-me. A menos que seu espírito se afaste de mim por falta de fé e de amor.”[10]
Providência Divina
Para Santa Catarina, o amor a Deus e o desejo de conversão e santidade não ficavam parados apenas em um olhar em si mesma, mas ela tinha um olhar voltado para a humanidade, para o padecimento do homem diante da vida de pecado e engano. Santa Catarina olha para Deus, criador e redentor, e o vê à frente da história do homem. Não que Ele seja causador ou indiferente aos males do homem, mas ela vê Deus que intervém na história. A isto chamamos de Providência Divina.
Pela Providência Divina, foi criado o homem. Este, no mau uso de sua liberdade, desobedece a Deus e peca, e todos os homens herdam, a partir do pecado original, a concupiscência e a culpa. O que restaria à humanidade? A separação eterna do homem de Deus. Mas Deus intervém, providenciando a Encarnação, vida, paixão e morte de Cruz do seu Filho, para que, em sua obediência, Ele salve e repare o pecado de toda a humanidade.
Santa Catarina relaciona a Providência Divina como a verdadeira esperança do homem, como ensina Deus Pai: “Também dei à humanidade o conforto de uma esperança. Ao dar valor ao preço do sangue com que foi remido, o homem sente uma firme esperança e grande certeza de salvação. Se é verdade que sempre me ofende com todos os sentidos, também foi com o corpo inteiro que meu Filho tolerou grandíssimos tormentos. Por sua obediência, ele cancelou vossa desobediência. Ainda mais: de sua obediência recebestes a graça, da mesma forma como da desobediência de Adão havíeis herdado a culpa.”[11]
Por último, é importante ressaltar a relação entre a experiência pessoal e o amor e a providência de Deus. “A esperança humana é mais ou menos perfeita conforme o amor da pessoa; será igualmente nessa medida que cada um terá a experiência da minha providência. Aqueles que me servem e só em mim confiam, experimentá-la-ão mais profundamente do que as almas cuja esperança se fundamenta em interesses e compensações.”[12]
Peçamos a Deus, por intercessão de Santa Catarina de Sena, a graça de termos Cristo como o Esposo de nossa fé, e, apaixonados e servos da Igreja, sejamos atentos ao que o Espírito Santo deseja de nós como discípulos e missionários de Cristo, servindo à Igreja e à humanidade.
[1] BENTO XVI. Catequese de Bento XVI sobre Santa Catarina de Sena: 24 de Novembro de 2010. Disponível em: http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=279012.
[2] SANTA CATARINA DE SENA. O Diálogo. Paulus. 1984. p. 33.
[3] Idem.  p. 132.
[4] Idem. p. 139.
[5] Ibidem.
[6] BENTO XVI. Catequese de Bento XVI sobre Santa Catarina de Sena: 24 de Novembro de 2010. Disponível em: http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=279012.
[7] SANTA CATARINA DE SENA. O Diálogo. Paulus. 1984. p. 141.
[8] Idem. p. 142.
[9] Idem. p. 187.
[10] Ibidem.
[11] Idem. p. 305.
[12] Ibidem.
Márcio André Barradas
missionário da Comunidade Católica Shalom
(Artigo originalmente publicado na Revista Shalom Maná)

Você sabia que Catarina de Sena não era freira?


Eles podem ter parecido religiosos, mas alguns de nossos santos dominicanos mais amados eram leigos

Ela parecia uma freira. Imagens de Catarina de Sena mostram-na usando o hábito de uma irmã religiosa, da Ordem dos Pregadores. Na verdade, ela era leiga – a única pessoa leiga atualmente reconhecida como Doutora da Igreja.
Então, por que ela aparece assim?
Catarina Benincasa cresceu em Siena, na Itália, a 23ª filha de Lapa Piagenti e Giacomo di Benincasa (metade de seus filhos morreram cedo). Aos 13 anos de idade, Catarina era uma adolescente mal-humorada, sem intenção de se casar.
Quando jovem, ela teve uma visão de Cristo sentado em glória com São Pedro, Paulo e João ao seu lado, e isso a inspirou a fazer um voto particular, dedicando sua vida a Deus. Ninguém sabia deste voto, então quando ela chegou à idade de casar, seus pais procuraram um marido digno.
Catarina recusou a ideia, cortou o cabelo e vestiu roupas esfarrapadas para se tornar pouco atraente até que seus pais enfurecidos perceberam que novas tentativas de persuadi-la seriam inúteis. Eles reconheceram a piedade de sua jovem filha e fizeram uma cela particular para ela em sua casa.
Catarina estava interessada na ordem dominicana, mas não sentiu nenhum apelo ao claustro. Ela descobriu em Siena as Irmãs da Penitência da Terceira Ordem de São Domingos, que serviam aos paroquianos locais. Buscando admissão, Catarina foi inicialmente recusada porque o grupo era geralmente composto de viúvas e solteironas.
Depois, ela finalmente conseguiu o que queria. Tornou-se terciária dominicana, ou membro da “Terceira Ordem” e – como era comum na época – teve permissão para usar o hábito. Depois de um retiro de três anos em sua “cela”, Catarina emergiu e se juntou ao trabalho de catequizar os jovens, dando orientação espiritual, cuidando dos doentes e servindo os pobres, o que ela fez incansavelmente pelo resto de sua vida.
Enquanto a maior parte de sua energia foi gasta em Siena, Catarina também foi convocada a viajar em várias ocasiões para dar seus conselhos altamente procurados. Ela era correspondente reis, rainhas e eventualmente do próprio Papa. Vale a pena ler a biografia desta santa.
Mas Catarina não é a única santa dominicana leiga professa da Ordem como terciária. A maioria das pessoas fica surpresa ao saber que alguns dos mais proeminentes e amados santos da igreja eram dominicanos que também eram leigos, incluindo Santa Rosa de Lima, São Martinho de Porres, Beato Pier Giorgio Frassati, a Beata Margarida de Castello e o Beato Bartolo Longo.
Qualquer católico de boa reputação pode ser admitido em uma Ordem Terceira, incluindo pessoas casadas e padres diocesanos. Ordens Terceiras (ou Oblações ou Associações) são outro meio pelo qual os fiéis leigos podem buscar a santidade e se aproximar de Deus em oração e caridade.
Enquanto as Ordens Terceiras ainda existem, o hábito religioso não é mais usado pelos membros, exceto na morte. Os dominicanos da Terceira Ordem recebem um escapulário branco, os carmelitas da Terceira Ordem têm um escapulário semelhante, enquanto os Franciscanos Seculares usam uma cruz Tau, e os Oblatos Beneditinos usam uma medalha jubilar de São Bento.
Ordens terceiras (ou “seculares”) dão aos leigos uma chance de infundir suas vidas com orações e boas obras de acordo com uma espiritualidade específica, para que possam se esforçar para ser “fermento no mundo”. Como vemos no exemplo de S. Catarina e muitas de suas irmãs e irmãos da Terceira Ordem, é algo especial e grandioso.

https://pt.aleteia.org/2019/04/29/voce-sabia-que-catarina-de-siena-nao-era-freira/?utm_campaign=NL_pt&utm_source=daily_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

COMO PERSEVERAR NA VIRTUDE, POR SANTA CATARINA DE SIENA




1.Saudação e objetivo 
Em nome de Jesus Cristo Crucificado e da amável Maria, caríssimo filho no do Jesus Cristo, eu Catarina, serva e escrava do servos de Jesus Cristo, escrevo no seu precioso sangue, desejosa de ver-te perseverante em toda virtude.


2. A perseverança é fruto do amor
Sem a perseverança não alcançarás a coroa da glória, que é dada aos verdadeiros lutadores. Tu me dirás: “Onde posso achar a perseverança”? Responde-te. Uma pessoa só presta serviço a outra na medida do amor que lhe dedica. Não mais. Em tanto falhará em servir, quando falhar no amor. Mas também tanto amará, quando se sentir amada. Veja bem: ao sentir-se amada, a pessoa ama. É desse amor que nasce a perseverança. Portanto, à medida que abrires o olhar da tua inteligência para ver o fogo e o abismo do infinito amor de Deus por ti — amor revelado do Verbo, Filho de Deus — tu te verás obrigado a amar a Deus de todo o coração, com todo afeto, com todas as tuas forças, sem interesses, de modo puro, sem nenhuma procura de interesses pessoais. Compreenderás que Deus te ama para o teu bem, não para utilidade dele. Pois o Senhor é o nosso Deus, é a bondade suprema e eterna, que não pensa em proveito próprio. E amarás também o próximo para a sua utilidade. Construindo assim o alicerce e o amor em sua base, imediatamente começarás a praticar as virtudes. E através da iluminação divina e do amor, adquirirás a perseverança.
3.Não te esqueças da humildade
Ao compreenderes que és amado por Deus, é conveniente que medites sobre os teus pecados e tua ingratidão. Na cela do coração perceberás a gravidade de tua cupa. Valoriza, então, a pequena virtude da humildade, para não confiares nas tuas forças e não caíres na complacência de ti mesmo. Sabes que é importante conhecer os próprios pecados, sua gravidade, para poder conservar e aumentar a graça na alma? Isso se dá na mesma proporção que existe entre o alimento corporal para conservação da vida no corpo. Afasta de ti, pois, a nuvem do egoísmo para que ela não prejudique a iluminação da alma, favorecida pelo perfeito conhecimento e concretizada pelo ódio (ao pecado) e pelo amor (à virtude). Assim,no amor acharás a perseverança, cumprirás a vontade divina e o meu desejo a respeito de ti. Vontade divina e desejo meu, que consiste no ver-te crescer e perseverar até o dia da morte na práticas das verdadeiras virtudes.
4.Refugia-te na caverna do coração de Cristo
MAS CUIDADO DE NÃO CONFIARES EM TI MESMO. ESSA CONFIANÇA É SEMELHANTE A UM VENTO SUTIL DE ORGULHO, NASCIDO DO EGOÍSMO. IMEDIATAMENTE RETROCEDERA, OLHANDO PARA TRÁS (CF. LC 9,62). Da mesma forma como o amor de Deus te faz perseverante na virtude, o egoísmo e a procura de boa reputação te fazem cair no vicio e nele perseverar. Meu filho, foge desse sutil vento da boa reputação. Em tudo, procura esconder-te na chaga do peito do Crucificado. E uma vez aí dentro, fixa o pensamento no segredo coração de Cristo. Então acenderás a chama do teu amor. Entenderás que Jesus fez em seu corpo uma caverna, onde te esconderás dos inimigos, onde repousarás, onde acalmarás tua mente no fogo do amor. Ai acharás alimento, pois Jesus deu sua carne como comida e seu sangue como bebida. Aquela carne assada na chama do amor e aquele sangue servido no altar da Eucaristia. Dissolva-se hoje mesmo a dureza dos nossos corações. Que nossa mente se torne mais receptivas aos ensinamentos de Cristo.
5.Pensemos no Menino Jesus
Quero que tu e os demais filhos comeceis a ser mais semelhantes a este pequeno menino, o Verbo encarnado, que a santa Igreja agora nos apresenta (na liturgia). Para confusão do nosso orgulho, que poderíamos imaginar de mais sublime, que um Deus que se humilha à altura do homem? Ou demais grandioso, que a suprema divindade posta ao nível da humanidade? E por qual motivo? Por amor! O amor fez Jesus residir num estábulo de animais; o amar o cobriu de ultraje, o revestiu de sofrimento; e o fez padecer fome e sede. O amor o fez correr com pronta obediência para terrível morte na cruz. O amor o fez descer à mansão dos mortos para esvaziar o limbo dos patriarcas e dar prêmio àqueles que o haviam esperado e servido por longo tempo. Depois da ascensão, O amor fez Cristo enviar o fogo do Espírito Santo, que nos iluminou com sagrada doutrina, caminho que nos dá a vida, nos liberta das trevas e nos concede a eterna visão de Deus. O amor fez tudo! Envergonha-se quem não tem amor a Deus, quem não dá resposta a tão imenso amor. Que triste sorte é a de quem, podendo ter o fogo, deixa-se morrer de frio; quem, tendo o alimento diante de si, deixa-se morrer de fome! Tomai, tomai vosso alimento, o doce Jesus Crucificado! Por outros caminhos, não sereis constante e perseverante. Como ficou dito, é a perseverança que recebe o prêmio. Sem ela, a alma só terá o mal não a glória.
6.Conclusão
Foi refletindo sobre tudo isso, que afirmei estar desejosa de ver-te contante e perseverante na virtude. Nada mais acrescento. Permanecer no santo amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.




(Santa Catarina de Sena, Cartas Completas)

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Resumo do livro Diálogo sobre a Divina Providência de Santa Catarina de Siena



“O Diálogo sobre a Divina Providência” é um livro muito querido ao coração da Catarina. Recomenda-o, vivamente, aos seus discípulos.

Podemos considerá-lo o seu testamento e a sua mais bela síntese teológica do amor de Deus com a humanidade.

Segundo a “Legenda Maior”, “O Diálogo sobre a Divina Providência” foi composto entre o mês de julho de 1377 e maio de 1378, portanto em menos de um ano. Alguns autores dizem que Catarina teria escrito este livro em cinco dias, mas isso não é comprovado. Boa parte de “Diálogo” foi ditado durante os êxtases de Catarina. Ela mesma havia dito a seus secretários que, logo que entrasse em êxtase, se preparassem para escrever o que ela o que ela iria dizendo.

Chama-se o “Diálogo sobre a Divina Providência” porque não é senão um longo e apaixonado diálogo entre Catarina e Deus. Ela própria relata o que ia acontecendo no seu íntimo durante os êxtases. “O Diálogo” foi traduzido para o latim, que era naquele tempo, a língua dos doutos. Foi o livro de maior sucesso. Já em 1472, encontramo-lo impresso e traduzido em varias línguas.

“O Dialogo sobre a Divina Providência”, é o caminho que a alma deve percorrer para chegar à intimidade com Deus-Trindade. Catarina fala com o profundo amor da encarnação, do sangue redentor do Cristo, da conversão da humanidade e do clero. E o livro mais importante para o conhecimento da mística e da espiritualidade de Santa Catarina. É o fruto da sua intimidade com Deus, na oração. Ela nos oferece, de maneira pedagógica, a sua experiência espiritual e sobrenatural da intimidade com Deus.

“O Diálogo sobre a Divina Providência” é considerado um clássico da espiritualidade.


Catarina era apenas uma irmã leiga da Ordem Terceira Dominicana. Mesmo analfabeta, talvez tenha sido a figura feminina mais impressionante do cristianismo do segundo milênio. Nasceu em 25 de março de 1347, em Sena, na Itália. Seus pais eram muito pobres e ela era uma dos vinte e cinco filhos do casal. Fica fácil imaginar a infância conturbada que Catarina teve. Além de não poder estudar, cresceu franzina, fraca e viveu sempre doente. Mas, mesmo que não fosse assim tão debilitada, certamente a sua missão apostólica a teria fragilizado. Carregava no corpo os estigmas da Paixão de Cristo. 

Desejando seguir o caminho da perfeição, aos sete anos de idade consagrou sua virgindade a Deus. Tinha visões durante as orações contemplativas e fazia rigorosas penitências, mesmo contra a oposição familiar. Aos quinze anos, Catarina ingressou na Ordem Terceira de São Domingos. Durante as orações contemplativas, envolvia-se em êxtase, de tal forma que só esse fato possibilitou que convertesse centenas de almas durante a juventude. Já adulta e atuante, começou por ditar cartas ao povo, orientando suas atitudes, convocando para a caridade, o entendimento e a paz. Foi então que enfrentou a primeira dificuldade que muitos achariam impossível de ser vencida: o cisma católico. 

Em meio a tudo isso, deixou obras literárias ditadas e editadas de alto valor histórico, místico e religioso, como o livro "Diálogo sobre a Divina Providência", lido, estudado e respeitado até hoje. Catarina de Sena morreu no dia 29 de abril de 1380, após sofrer um derrame aos trinta e três anos de idade. Sua cabeça está em Sena, onde se mantém sua casa, e seu corpo está em Roma, na Igreja de Santa Maria Sopra Minerva. Foi declarada "doutora da Igreja" pelo papa Paulo VI em 1970.

http://www.espacojames.com.br/?cat=180&id=11349

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A sede de almas nos pastores



Carta de Santa Catarina de Sena para um importante prelado
1. Saudação e objetivo: Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, reverendo e caríssimo pai [1] no Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo crucificado, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver sedento da salvação das almas para a glória de Deus.
2. A sede das almas em Jesus: O primeiro mestre neste assunto é Jesus Cristo, que por sua sede da nossa salvação morreu na cruz. Nisto, o Cordeiro imaculado parece insaciável. Saturado de dores, clamou na cruz: Tenho sede (Jo. 19,28). Sem dúvida ele estava com sede corporalmente, mas bem maior era sua sede da salvação das almas. Ó inestimável caridade! Embora sofrendo muito, até parece que não sofres o suficiente; parece que não esgotas o desejo que tens de padecer. E de tudo, o impulso vem do amor! Já não me maravilho disso, pois teu amor era infinito, ao passo que a dor era finita. Eis por que o desejo de sofrer superava o martírio do corpo.
3. Instruções de Jesus a Catarina: Recordo-me que certa vez o bom Jesus instruiu uma sua serva sobre esse assunto. [2] Vendo ela os sofrimentos físicos de Jesus e seu desejo de padecer, perguntou: “Bom Jesus, qual foi o teu sofrimento maior: a dor corporal ou a dor do desejo?” Jesus lhe respondeu: “Milha filha, digo-te e não duvides: é impossível comparar o finito com o infinito. Meu sofrimento físico foi finito, mas o desejo de sofrer não tinha limites. Carreguei também a cruz do desejo santo. Lembras-te de que um dia te fiz ver meu nascimento? Enxergavas uma criancinha, nascida com uma cruz no peito! Afirmo-te: logo que fui semeado no ventre de Maria como semente encarnada, iniciou-se meu desejo de cumprir a vontade do Pai para o bem da humanidade. Isto é: eu desejava que a humanidade recuperasse a graça divina e atingisse a finalidade para a qual fora criada. O sofrimento desse desejo era maior que todo outro que padeci durante a vida. Meu espírito alegrou-se, pois, quando me vi conduzido à paixão, especialmente na hora da Ceia na quinta-feira santa. Na ocasião eu disse: com desejo desejei fazer esta Páscoa (Lc. 22, 15), quer dizer: desejei muito oferecer ao Pai meu corpo em sacrifício. Senti uma grande alegria e grande consolação quando vi chegar o momento de tomar a cruz esperada. Quanto mais eu sentia aproximarem-se o flagelo e os tormentos físicos, mais diminuía minha pena. A dor corporal expulsava a dor do desejo, pois eu via realizado o que esperava”.
A serva lhe perguntou: “Senhor, tu dizes que na cruz cessou o sofrimento do teu desejo. De que modo? Então, agora já não me queres?”. O Senhor lhe respondeu: “Não, minha doce filha! Quando morri na cruz, terminou com a vida a dor do desejo; mas não cessaram o meu desejo e a minha sede da vossa salvação. Se houvesse acabado o amor que tive e tenho pela humanidade, vós nem existiríeis mais. Foi meu amor que vos tirou do seio do Pai, quando vos criou na sua sabedoria; esse mesmo amor vos conserva em vida; vós nada mais sois que fruto do amor. Se o Pai retirasse seu amor, dado no poder e na sabedoria, voltaríeis ao nada. Eu, Filho unigênito do Pai, sou um aqueduto que vos traz a água da graça. Eu manifesto o amor do Pai. De fato, o que o Pai possui, eu também possuo, pois sou um com o Pai e o Pai um comigo. Por meio de mim o Pai se revela. Por isso afirmei: o que recebi do Pai, eu vos comuniquei. A razão de tudo é o amor”.
Bem vedes, reverendo pai! Jesus, que é amor, morre de sede e fome da nossa salvação. Por amor a Cristo crucificado, peço que mediteis sobre tal sede do Cordeiro. Minha alma gostaria de vos ver morrendo de desejo santo, ou seja, tudo fazendo com amor pela glória de Deus e a salvação das almas, pela exaltação da santa Igreja.
Gostaria de vos ver crescendo em tal sede e por causa dela morrendo, como fez Jesus. Que morressem a vontade pessoal e o amor sensível. Que morrêsseis às honras, satisfações sociais e todo tipo de grandeza humana. Tenho certeza de que, se olhardes para o vosso íntimo, compreendereis que nada sois; entendereis que tudo vos foi dado por Deus numa grande chama de amor; vosso coração não oporia resistência ao ímpeto da caridade, mas eliminaria, todo amor próprio, não procuraria o que é útil à própria pessoa. Vós amaríeis a Deus por ele mesmo e também amaríeis o próximo, não por interesses pessoais, mas a fim de promover sua salvação eterna e a glória divina. Deus ama demais a humanidade. Também os servos de Deus devem amá-la, imitando o Criador. É condição da amizade que eu ame tudo aquilo que meu amigo ama. E os servos querem bem a Deus, não por interesse pessoal, mas porque Deus, bondade infinita, merece ser amado.
4. O exemplo de Paulo apóstolo: De fato, pai, os servos de Deus como que se esquecem da própria vida. Não pensam em si mesmos. Desejam sofrimentos, dificuldades, torturas, injúrias. Desprezam as dificuldades do mundo. A maior cruz e a maior dor, para eles, é ver Deus ofendido e as almas que se condenam. Por isso, deixam no esquecimento as preocupações pessoais. Não evitam as dificuldades, até as procuram e alegram-se com elas. Pensam no apóstolo Paulo, que se gloriava nos sofrimentos por amor a Cristo crucificado (Rm. 5, 3). Pois bem, quero que vós os imiteis.
5. Triste situação na hierarquia: Ai de mim, ai de mim! Como é infeliz a minha alma! Olhai e vede a realidade que caiu sobre o mundo, especialmente sobre a hierarquia da Igreja. Ai de mim! Explodem nossos corações e nossas almas ao perceber tanta ofensa feita a Deus. Vede, pai, o lobo infernal leva consigo pessoas que vivem na hierarquia da santa Igreja, e ninguém procura libertá-las. Dormem os pastores, cuidando de si mesmos na ganância e na impureza. Dormem ébrios de orgulho, sem notar que o lobo infernal, o diabo, lhes retira a graça, bem como aos seus súditos. Dessas coisas, pouco se preocupam. Tudo lhes serve de ocasião para a maldade e o egoísmo. Como é prejudicial o egoísmo nos prelados e nos súditos! Nos prelados, porque não corrigem os defeitos dos súditos. De fato, quem vive no egoísmo ama a si mesmo e nada corrige nos outros. Mas quem ama a si mesmo em Deus, foge do amor interesseiro, denuncia corajosamente os defeitos nos súditos, nunca se cala ou finge não ver.
6. Maldito o pastor que se cala. Conclusão: De semelhante amor desejo vos ver livre, querido pai. Rogo-vos não vos comporteis assim, a fim de que, não se aplique a vós aquela dura palavra divina: “Maldito sejas, porque te calaste”. Ai de mim! Calar, jamais! Gritai em cem mil línguas! Vejo que, por ter alguém calado, o mundo se arruinou e a santa Igreja encontra-se sem cor, sem sangue nas veias. Quero dizer: sem o sangue de Cristo, derramado por nós gratuitamente, sem mérito algum nosso. Devido ao orgulho, os pastores roubam a Deus a honra, atribuindo-a a si mesmos. Rouba-se por simonia com a venda de dons espirituais, a nós concedidos gratuitamente pelos méritos do sangue de Cristo. Ai de mim, morro e não consigo morrer! Não durmais por negligência. Aproveitai o tempo presente quanto possível. Outros tempos virão, acredito, em que podereis fazer outras coisas. Convido-vos ao tempo atual. Afastai da alma todo egoísmo, revesti-a com a sede de almas e com verdadeiras virtudes, para a glória divina e a salvação das almas. Fortalecei-vos no amor de Cristo. Logo veremos aparecer as flores. Esforçai-vos para que logo se erga o estandarte da Cruzada. [3] Que o vosso coração não se esfrie diante de nenhuma dificuldade emergente. Fortalecei-vos pensando que Jesus crucificado realizará os inflamados desejos dos seus servidores.
Nada mais digo. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Afogai-vos no sangue de Cristo, pregai-vos na cruz com ele, banhai-vos no seu sangue. Pai, perdoai minha presunção. Jesus doce, Jesus amor.
[1]: Pedro Cardeal d’Estaing, criado cardeal e nomeado legado pontifício pelo Papa Gregório XI (1370-1378), que residia em Avinhão, para governar o patrimônio de São Pedro na Itália.
[2]: A serva de que fala o texto é a própria Catarina, que conta ao prelado um diálogo com Jesus no tempo da sua juventude.
[3]: Em 1375 o papa Gregório XI (1370-1378) promulgou uma bula em favor de uma Cruzada para libertar os Lugares santos da Palestina. Catarina tornou-se grande estimuladora da idéia.


-- Das Cartas de Santa Catarina de Sena, virgem e doutora da Igreja (século XIV)

Abraça Jesus crucificado, amante e amado



Querida irmã em Jesus. Eu, Catarina, serva dos servos de Jesus, escrevo-te no seu precioso sangue, desejosa que te alimentes do amor de Deus e que dele te nutras, como do seio de uma doce mãe. Ninguém, de fato, pode viver sem este leite!

Quem possui o amor de Deus, nele encontra tanta alegria que cada amargura se transforma em doçura e cada grande peso se torna leve. E isto não nos deve surpreender porque, vivendo na caridade, vive-se em Deus: Ele é amor; quem permanece no amor habita em Deus e Deus habita nele.
Vivendo em Deus, por conseguinte, não se pode ter amargura alguma porque Deus é delícia, doçura e alegria infinita!
É esta a razão pela qual os amigos de Deus são sempre felizes! Mesmo se doentes, necessitados, aflitos, atribulados, perseguidos, nós estamos alegres.
Mesmo quando todas as línguas caluniosas nos metessem em má luz, não nos preocuparemos, mas nos alegraremos com tudo porque vivemos em Deus, nosso repouso, e saboreamos o leite do seu amor. Como a criança suga o leite do seio da mãe assim nós, enamorados de Deus, atingimos o amor de Jesus Crucificado, seguindo sempre as suas pegadas e caminhando com ele pelo caminho das humilhações, das penas e das injúrias.
Não procuramos a alegria se não em Jesus e fugimos de toda a glória que não seja aquela da cruz. Abraça, portanto, Jesus Crucificado elevando a ele o olhar do teu desejo! Toma em consideração o seu amor ardente por ti, que levou Jesus a derramar sangue de todas as partes do seu corpo!
Abraça Jesus Crucificado, amante e amado e nele encontrarás a verdadeira vida, porque ele é Deus que se fez homem. Que o teu coração e a tua alma ardam pelo fogo do amor do qual foi coberto Jesus cravado na cruz!
Tu deves, portanto, tornar-te amor, olhando para o amor de Deus, que tanto te amou, não porque te devesse obrigação alguma, mas por um puro dom, impelido somente pelo seu inefável amor.
Não terás outro desejo para além daquele de seguir Jesus! E, como que inebriada do Amor, não farás caso se te encontras só ou acompanhada: não te preocuparás com tantas coisas mas somente de encontrar Jesus e segui-lo!
Corre, Bartolomea, e não estejas a dormir, porque o tempo corre e não espera nem um momento. Permanece no doce amor de Deus. Doce Jesus, amor Jesus.

-- Das “Cartas” de Santa Catarina de Sena (1347-1380) (carta n.165 a Bartolomea, esposa de Salviato da Lucca)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

O mundo e suas grandezas

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"Chutemos o mundo com suas grandezas, prazeres e riquezas. Qual mendigo, segui o Cordeiro morto e abandonado sobre o madeiro da cruz. Não esperemos mais, por amor de Deus! 

O tempo nos é arrebatado sem que o percebamos. Nem é humano esperar o que não se possui e não aproveitar o que se tem." 

- Santa Catarina de Sena 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Revelações de Deus Pai a Santa Catarina de Sena


Acompanhe as experiências místicas de Santa Catarina de Sena, reveladas pelo Pai. São relatos sobre o Juízo Final, o sofrimento e o arrependimento do pecado, mas sobretudo sobre a Misericórdia Infinita de Nosso Deus.
No Juízo Particular, no instante final, quando a pessoa compreende que não pode fugir das Minhas Mãos recupera a visão que a atormenta interiormente fazendo-a ver que por própria culpa chegou a tão triste situação. 

Mas, se ultrapassar o momento da morte nas trevas, no remorso, sem esperança no Sangue, ou então, lamentando-se apenas pela infelicidade em que se acha - e não por ter Me ofendido - irá para a perdição. 

Sobrevirá pois, a repreensão pela injustiça e falso julgamento. 

Em primeiro lugar a repreensão da injustiça e do julgamento falso em geral, praticados no conjunto de suas ações, durante a vida; depois, em particular, do último instante quando o pecador considera seu pecado maior que a Minha misericórdia. 

Este é o pecado que não será perdoado, nem aqui nem no além. 

O desprezo voluntário da Minha misericórdia constitui pecado mais grave que todos os anteriores 

Filha, tua linguagem é incapaz de descrever os sofrimentos desses infelizes condenados. 

Sendo três os seus vícios principais - egoísmo, medo de perder a boa fama e orgulho - aos quais se acrescentam a injustiça, a maldade e impureza, no inferno os pecadores padecem de quatro tormentos principais. 

O primeiro é a ausência da Minha visão. 

Um sofrimento tão grande que os condenados, se fosse possível, prefeririam sofrer o fogo vendo-Me, que ficar de fora dele sem Me ver. 

O segundo, como conseqüência, é o remorso que corrói o pecador privado de Mim, longe da conversação dos anjos, a conviver com os demônios. 

Aliás, a visão do diabo constitui o terceiro tormento. 

Ao vê-lo duplica-se o sofrer. 

Nestes (demônios), eles se conhecem melhor, entendendo que por própria culpa mereceram o castigo. 

Assim o remorso os martiriza e jamais cessará o ardor da consciência. 

Muito grande é este tormento, porque o diabo é visto do próprio ser; tão horrível é a sua fealdade, que a mente humana não consegue imaginar. 

Se ainda o recordas, já te mostrei o demônio assim como ele é; foi por um átimo de tempo. 

Quando retornastes ao sentido, preferias caminhar por uma estrada de fogo até o juízo final que tornar a vê-lo. 

No entanto, apesar do que viste ignoras a sua fealdade, especialmente porque, segundo a justiça divina, ele é visto mais ou menos horrível pelos condenados, segundo a gravidade das culpas. 

O quarto é o fogo. 

Um fogo que arde sem consumir, sem destruir o ser humano. 

É algo de imaterial, que não destrói a alma incorpórea. 

Na Minha justiça permito que tal fogo queime, faça padecer, aflija; mas não destrua. 

É ardente e fere de modo crudelíssimo em muitas maneiras, conforme a diversidade das culpas. 

A uns mais, a outros menos, segundo a gravidade dos pecados. 

Destes quatro tormentos derivam os demais: o frio, o calor, o ranger de dentes (Mt, 22,13) 

Grande é o ódio dos condenados, pois já não amam o bem. 

Blasfemam continuamente contra Mim! 

Queres saber por que já não podem desejar o bem? É porque, no fim desta vida, vincula-se o livre arbítrio. 

Com o cessar do tempo, já não se merece mais. 

Quem termina esta existência em pecado mortal, por direito divino fica para sempre apegado ao ódio, obstinado no mal, a roer-se interiormente. 

Seus sofrimentos irão aumentando sempre, especialmente por causa das demais pessoas que por sua causa irão para a condenação. 

O homem justo (no mesmo Juízo) ao encerrar sua vida terrena no amor, já não poderá progredir na virtude. 

Para sempre continuará a amar no grau de caridade que atingiu até Mim. 

Também será julgado na proporção do amor. 

Continuamente Me deseja, continuamente Me possuí; suas aspirações não caem no vazio. 

Ao desejar, será saciado; ao saciar-se, sentirá ainda fome; distanciando-se assim, do fastio da saciedade e do sofrimento da fome. 

Os bem-aventurados gozam da Minha eterna visão. 

Cada um no seu grau, de acordo com a caridade em que vieram participar de tudo o que possuo. 

Desfrutam na alegria e gozo - dos bens pessoais e comuns que mereceram. 

Colocados entre os anjos e santos com eles se rejubilam na proporção do bem praticado na terra. 

Entre si congraçados na caridade os bem-aventurados de modo especial comunicam-se com aqueles que amaram no mundo. 

Não penses que a felicidade celeste seja apenas individual. 

Não! Ela é participada por todos os cidadãos da pátria, homens e anjos. 

Quando chega alguém à vida eterna, todos sentem sua felicidade da mesma forma como ele participa do prazer de todos. 

Em seus anseios os eleitos clamam continuamente diante de Mim em favor do mundo inteiro. 

Suas vidas haviam terminado no amor fraterno; continuam no mesmo amor. 

Aliás, foi exatamente por tal caridade que passaram pela porta que é Meu Filho 

Por ocasião do Juízo Final, o Verbo encarnado virá com divina majestade para repreender o mundo. 

Não mais se apresentará pobrezinho na forma como nasceu da Virgem, na estrebaria, entre animais, para morrer depois no meio de ladrões. 

Naquela ocasião, ocultei n'Ele o Meu poder e permiti que suportasse penas e dores como homem. 

A natureza divina se unira a humana e foi enquanto homem que sofreu para reparar as vossas culpas. 

No juízo final, não será assim, pois virá com poder a fim de julgar. 

As criaturas humanas estremecerão e Ele a cada um dará sentença conforme merecimento. 

Tua língua não conseguirá exprimir o que se sucederá aos condenados. 

Para os bons, Jesus será motivo de temor santo e alegria imensa. 

Os bem-aventurados continuam no céu, eternamente, aquele mesmo amor com que encerraram a vida terrena. 

Eles em nada se distanciam de Mim. 

Seus desejos estão saciados. 

Anseiam em ver-Me glorificado por vós viandantes e peregrinos que sois em direção à morte. 

Aspirando por Minha honra, querem vossa salvação e sempre rogam por vós; de Minha parte, escuto os seus pedidos naquilo em que vós, por maldade, não opondes resistência à Minha bondade. 

Os bem-aventurados desejam recuperar os seus corpos; todavia não sofrem por sua ausência. 

Até se alegram, na certeza de que tal aspiração será realizada. 

A ausência do corpo não lhes diminui o prazer, não é angustiante, não faz sofrer. 

Nem julgues que a satisfação de ter o corpo após a ressurreição lhes traga maior bem-aventurança. 

Se isso fosse verdade, seria sinal que a felicidade anterior era imperfeita, enquanto não o reouvessem, e isso não pode ser. 

De fato, nenhuma perfeição lhes falta. 

Não é o corpo que faz feliz a alma, mas o contrário. 

Quando esta recupera o corpo no dia do juízo, participará ele da plenitude e da perfeição da alma. 

Naquele dia, esta se fixará para sempre em Mim, e o corpo em tal união, ficará imortal, sutil, leve. 

Deves saber que o corpo ressuscitado pode atravessar uma parede, que o fogo e a água não o ofendem. 

Tal propriedade lhe advém, não de uma virtude própria, mas por uma força que gratuitamente concedo à alma, que foi criada à Minha imagem e semelhança num inefável ato de amor. 

Tua inteligência não dispõe da capacidade necessária para entender, nem teus ouvidos para escutar, a língua para narrar e o coração para sentir qual é a felicidade dos santos. 

Ocupei-Me da felicidade dos santos para que entendesses melhor a infelicidade dos condenados ao inferno. 

Aliás, outro tormento destes últimos, é ver quanto os bem-aventurados são felizes. 

Tal conhecimento acresce-lhes a pena, da mesma forma como a condenação dos maus leva os justos a glorificar Minha bondade. 

A luz é mais evidente na escuridão, e a escuridão na luz. 

Conhecer a alegria dos santos é dor para os réus do inferno. 

Os condenados aguardam com temor o dia do juízo final. 

Sabem que então seus sofrimentos aumentarão. 

As escutar o terrível convite: " mortui, venite ad judicium", a alma retornará ao corpo. 

Para os bem-aventurados será um corpo de glória; para os réus um corpo para sempre obscurecido. 

Diante do Meu Filho, sentirão grande vergonha. 

Também diante dos santos. 

O remorso martirizará a profundidade do seu ser, quero dizer, a alma; mas também o corpo. 

Acusá-los-ão: o Sangue de Cristo, por eles derramado; as obras de misericórdia, espirituais e corporais, do Meu Filho, o bem que eles mesmos deveriam ter praticado em benefício dos outros, segundo o evangelho. 

Terá seu castigo a maldade com que trataram os irmãos, pois Eu mesmo, compassivo, perdoara-lhes (Mt 18,33). 

Serão repreendidos pelo orgulho, egoísmo, impureza, ganância; e tudo isso reavivará seus padecimentos. 

No instante da morte, somente a alma é repreendida; no juízo final também o corpo, por ter sido instrumento da alma na prática do bem e do mal conforme a orientação da vontade. 

Todo bem e todo mal é feito através do corpo por este motivo, Minha filha, os justos terão no corpo glorificado uma luz e um amor infinitos; já os réus do inferno sofrerão pena eterna em, seus corpos, usados para o pecado. 

Ao recuperar o corpo diante de Jesus ressuscitado, os réus sentirão tormento renovado e acrescido: a sensualidade sofrerá na sua impureza, vendo a natureza humana unida à divindade, contemplando este barro adâmico - vossa natureza - colocada acima de todos os coros angélicos, enquanto eles, os maus, estarão no mais profundo abismo. 

Os condenados verão brilhar sobre os eleitos a liberalidade e a misericórdia, quais frutos do Sangue de Cristo; saberão das dificuldades suportadas pelos bons e que agora se mostram em seus corpos como frisos de adornos para as vestes. 

O valor de tais sofrimentos físicos não provém do corpo mas da riqueza da alma; é ela que dá o corpo o merecimento da luta como companheira da prática das virtudes. 

Tal exteriorização se verifica porque o corpo manifesta o resultado das batalhas das alma, como o espelho reflete a face do homem. 

Ao se verem privados de tamanha beleza, os habitantes das trevas verão surgir nos próprios corpos os sinais dos pecados e terão maiores tormentos e confusão. 



E ao soar aquela terrível sentença: "Ide, malditos, para o fogo eterno". 

Suas almas e corpos encaminhar-se-ão para a companhia de demônios, sem mais remédios nem esperança. 

Cada um a seu modo, se envolverá na podridão que viveu na terra, de acordo com as ações que praticou: o avarento arderá na sua ganância dos bens que desordenadamente amou; o maldoso, na sua ruindade; o impuro na imunda e infeliz concupiscência; o injusto nas suas iniqüidades; o rancoroso no seu ódio pelos outros. 

Quanto ao egoísmo fonte de todos os males arderá como princípio causador de tudo em sofrimentos insuportáveis. 

O orgulho terá igual sorte. 

Assim, corpo e alma serão punidos em todos os vícios. 

Sirvo-Me do demônio qual instrumento da Minha justiça para atormentar os que Me ofendem. 

Nesta vida o coloquei qual tentador, molestando os homens. 

Não para que estes sejam vencidos, mas para que conquistem a vitória e o prêmio pela comprovação das virtudes. 

Ninguém deve temer as possíveis lutas e tentações do demônio. 

Fortaleci os homens, dei-lhes energia para vontade, no Sangue de Cristo. 

Demônio ou criatura alguma conseguem dobrar a vontade. 

Ela vos pertence, é livre. 

Vós é que escolheis o querer ou não querer alguma coisa. 

Eu disse que o demônio convida os homens para a água-morta, a única que lhe pertence, cegando-os com prazeres e satisfações do mundo. 

Usa o anzol do prazer e fisga-os mediante a aparência de bem. 

Sabe ele que por outros caminhos nada conseguiria; sem o vislumbre* de um bem ou satisfação, os homens não se deixam aprisionar; por sua própria natureza, a alma humana tende ao bem. 

Infelizmente, devido à cegueira do egoísmo, o homem não consegue discernir qual é o bem verdadeiro, realmente útil ao corpo e à alma. 

Percebendo isto, o demônio, maldoso, apresenta-lhe numerosos atrativos maus, disfarçados porém sob alguma utilidade ou prazer. 

A certeza da Minha presença em suas vidas, é o conhecimento da Minha verdade. 

Tal conhecimento se realiza na inteligência que é, o olho da alma; pupila de tal olho é a fé. 

Pela iluminação da fé, eles distinguem, conhecem e seguem a estrada mensagem do Verbo Encarnado. 

Sem a fé ninguém reconhece tal estrada, à semelhança daquele que possuísse o olho, mas coberto por um pano. 

Sim, a pupila desse olhar é a fé; nada verá quem cobrir sua inteligência com o pano da infelicidade, por causa do egoísmo. 

Tal pessoa terá a inteligência, mas não a luz para conhecer. 

Como afirmei antes, ninguém consegue seguir o caminho da verdade sem a luz da razão - recebida de Mim com a inteligência - e sem a luz da fé, infundida na hora do santo batismo, supondo que não destruais esta última com vossos pecados.

http://vocacionadosdedeusemaria.blogspot.com.br/2008/11/revelaes-de-deus-pai-santa-catarina-de.html

Modo de Fazer Oração Mental, por Santo Afonso

  A meditação ou oração mental contém três partes: A Preparação A Meditação A Conclusão I. PREPARAÇÃO Na preparação fazem-se três atos: 1º A...