terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Como adorar a Deus no silêncio da sua casa

PRAYER

A adoração não tem que ser feita apenas na igreja

Quando os católicos pensam na adoração, imaginam-se ajoelhados diante do altar na igreja e adorando ao Deus presente na Santa Eucaristia. Embora essa seja uma das maneiras mais eficazes de adoração, a maioria dos católicos nunca tem a chance de entrar em uma igreja durante a semana nem consegue passar muito tempo na igreja no domingo.
Na realidade, uma oração de adoração pode ser realizada em qualquer lugar, na igreja ou na sala de estar da sua casa. O segredo é saber o que é a adoração e como se envolver nesse tipo de oração.
O Catecismo da Igreja Católica explica:
“A adoração é a primeira atitude do homem que se reconhece criatura diante do seu Criador. Exalta a grandeza do Senhor que nos criou e a omnipotência do Salvador que nos liberta do mal. É a prostração do espírito perante o «Rei da glória» e o silêncio respeitoso face ao Deus «sempre maior». A adoração do Deus três vezes santo e soberanamente amável enche-nos de humildade e dá segurança às nossas súplicas” (CIC 2628).
A adoração, em sua essência, é o reconhecimento de que Deus é Deus – e nós não. Esse tipo de oração reconhece a maravilha e a beleza de Deus e como sua mão protetora incide sobre toda a criação.
Santo Inácio de Loyola fornece uma maneira simples de realizar um ato de adoração em seus Exercícios Espirituais:
“Um ou dois passos antes do lugar onde devo contemplar ou meditar, defenderei o espaço com um Pai-Nosso e, com minha consciência elevada, considerarei como o Senhor meu Deus me observa. Então farei um ato de reverência ou humildade.”
Muitas vezes nos esquecemos de que Deus está em toda parte, não apenas igreja. Ele está constantemente ao nosso lado e nos olha com bondade e misericórdia. Quando entendemos isso podemos adorar a Deus em qualquer lugar que estivermos e reconhecer sua presença amorosa.

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sexta-feira, 11 de outubro de 2019

A Liberdade em São João da Cruz

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Para montarmos o quebra-cabeça afim de apresentar o pensamento de São João da Cruz a respeito da liberdade precisamos encaixar corretamente três peças essências: apetites (apegos), noite escura, união com Deus. Para João da Cruz o horizonte último do ser humano é essa união com Deus, que no Livro Chama Viva de Amor ganha expressões tão forte como “transformação da alma em Deus”. Importante salientar, desde o começo, que o artífice que permite e dinamiza essa união é o amor. A pessoa inicia esse processo, quando “inflamada de amor” se destina a buscar essa união, é próprio do amor buscar a união.
            Aqui emerge uma pergunta bem concreta: como posso fazer para chegar a essa divina união? Emerge aqui a extensa doutrina do Doutor Místico sobre a noite escura. A noite escura é um processo de libertação da pessoa para chegar a essa divina união. É, portanto, um processo purificador, onde se cura duas dimensões do ser humano, sua dimensão sensitiva (sentidos) e a espiritual. Assim, podemos compreender a noite como um presente de Deus, uma ação da graça de Deus, que visa libertar a pessoa da desordem de seus apetites.
            No pensamento sanjuanista os apetites são os apegos ou desejos ou adiciones. Eles são constitutivos do ser humano (desejar), porém em um estado desordenado nos impedem de ser verdadeiramente livres. O que propõem João da Cruz é a educação ao desejo, daí suas máximas: “não ao mais fácil, senão ao mais difícil. Não ao mais saboroso, senão ao mais insípido. Não ao mais agradável, senão ao mais desagradável…”. Nesse sentido se torna mais compreensível a negação em São João da Cruz. O caminho do nada é um caminho pedagógico e historicamente limitado e relativo. É um caminho de educação da vontade, buscando o desapego.
          O desapego não está em ter ou não ter as coisas. O problema está no “apego”, que poderíamos traduzir como “amor de propriedade”. O apego é manifestação do nosso egoísmo que retém para si. Nesse sentido João da Cruz associa os nossos apegos aos falsos deuses, eles eclipsam o lugar do Deus verdadeiro, por isso precisam ser “hechados fuera”. A liberdade que provém desse processo é a condição necessária para alcançarmos a divina união com Deus.
https://secularescontemplativos.wordpress.com/2019/09/29/a-liberdade-em-sao-joao-da-cruz/

Lições do silêncio




Uma pergunta simples, mas inquietante: o que aprendi com o silêncio? Não é plenamente comunicável vivências tão profundas e secretas como a que realizei permanecendo um ano em silêncio… Nem sempre encontramos palavras adequadas para se referir a vida interior. No entanto, permitam-me balbuciar algumas palavras, mesmo que às vezes pareçam enigmáticas, são a tentativa de expressar um pouco aquilo que aprendi nessa experiência eremítica

Aprendi a…

A contemplar ir além da aparência, chegando na essência de cada coisa criada e desde ali estabelecer uma relação de comunhão.

Que minhas mãos vazias não são apenas sinais de minha pobreza, mas é a condição necessária para acolher a plenitude que vem de Deus.

Quando a mente não está cerceada por uma série de informações e barulhos emerge com mais nitidez sua capacidade criativa.

O sentinela é o primeiro que contempla o novo amanhecer, nem todos vêem o que ele vê, mas nem por isso dúvida do que seus olhos contemplam. Ele é o primeiro a contemplar a luz do novo dia.

Somos mais nós mesmos à medida que não reagimos impulsivamente aos estímulos alheios. Silenciar, meditar, acolher, agir… Esse parece ser o itinerário para uma vida autêntica.

Os pensamentos nos lançam em um passado já consumado ou em um futuro ainda por vir. Nosso empenho é de estar todo inteiro no momento presente.

Nada que seja profundo e durador acontece de forma imediata. Estabelecer processos e valorizar cada fase da vida parece ser essencial.

Individualizar as pessoas e todos os seres criados. Cada ser é único, singular, irrepetível, por a nossa relação com todos os seres deve levar em consideração essa verdade.

Não escravizar o outro aos meus sentimentos. O princípio básico do amor é a liberdade, tanto quem ama como quem é amado, precisa manter a sua liberdade.

Tomar conhecimento de uma Presença que plenifica para descobrir a realidade última e transcendente da existência.

Retornar sempre ao meu centro mais profundo, mesmo em meio as diversas atividades, não dispersar a mente e o coração, mantendo-o unificado.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Por que São Bento é invocado contra o mal?

ST BENEDICT

Ele mesmo se livrou de uma tentativa de assassinato quando foi abade em um convento

Nascido na Itália no ano de 480, São Bento estudou Direito em Roma, mas decidiu consagrar sua vida a Deus. Aos 40 anos, fundou o primeiro mosteiro no Monte Cassino.
Propôs as regras para a vida monástica, sendo a mais conhecida delas “Ora et Labora” (Reza e Trabalha). Durante sua vida, realizou diversos milagres e muitos exorcismos, levando os fiéis à conversão.

São Bento é comumente invocado na luta contra o mal. Ele mesmo se livrou de uma tentativa de assassinato enquanto foi abade em um convento. Os religiosos que lá viviam ficaram insatisfeitos com o rigor de suas regras e planejavam matá-lo colocando veneno em sua bebida. Assim que a taça com vinho foi servida, São Bento fez o sinal da cruz para abençoar a bebida. No mesmo momento, a taça se quebrou.
Ele morreu em 547, aos 67 anos. Foi canonizado no ano de 1220.

A medalha

Não se sabe ao certo quando surgiu a medalha de São Bento, mas ela passou a ser difundida no século 17. De um lado, traz a imagem de São Bento com a cruz e o livro das regras. Do outro uma cruz com a inscrição C S P B (Cruz do Santo Pai Bento). Na haste vertical, estão as iniciais C S S M L: “A cruz sagrada seja a minha luz”. Na haste horizontal, N D S M D: “Não seja o dragão o meu guia”. No alto da cruz, a palavra PAX (Paz), que é lema da ordem de São Bento. E as iniciais V R S N S M V: “Retira-te, satanás, nunca me aconselhes coisas vãs!” e S M Q L I V B: “É mau o que me ofereces, bebe tu mesmo os teus venenos!”.

Proteção contra o mal

Na devoção popular, São Bento é invocado para o combate contra as forças do mal. A medalha não deve ser usada como um amuleto da sorte, mas deve ser um sinal de fé.
Muitas famílias costumam rezar a oração de São Bento, especialmente no dia dedicado a ele, 11 de julho. Com a medalha nas mãos, fazem a oração em frente a porta da casa, pedindo a proteção para o lar, e também nas portas dos quartos, para que todos os que ali moram sejam livrados das forças do maligno.
Além da oração, outra jaculatória bastante usada é a seguinte:
“São Bento, água benta
Jesus Cristo no altar
que todo mal saia desta casa
para eu poder morar”.
Para empresas, pode-se rezar da seguinte forma:
“São Bento, água benta
Jesus Cristo no altar
Que todo mal saia desta empresa
Para que todos possam trabalhar”.
São Bento, rogai por nós!

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E se aplicássemos a Regra de São Bento em nossa vida familiar?

FAMILLE HEUREUSE

Teríamos que mudar estas 6 coisas

A Regra de São Bento é a normativa que o santo padroeiro da Europa estabeleceu para suas comunidades monásticas. Elas deveriam preservar a civilização, a cultura, a paz e o amor num contexto de violência, corrupção e saqueamento que marcava o Império Romano.
Seus 73 capítulos, guiaram, durante 15 séculos, a vida de dezenas de milhares de homens e mulheres em centenas de comunidades de todo o mundo. Podemos considerá-la uma “fórmula comprovada” de como viver como cristãos em comunidade.
E se tentássemos aplicar a Regra na vida familiar do século XXI? As famílias cristãs desse século também tentam ser como os mosteiros do século V, ou seja, ilhas de paz, amor e respeito a Deus, cercadas por um ambiente exterior hostil, bárbaro e impiedoso, que vive de criar ruínas e saqueá-las.
Esta é a tese de um livro de 2014 do sacerdote beneditino Massimo Lapponi, publicado na Itália com o título de “São Bento e a vida familiar” (Libreria Editrice Fioentina, versão em espanhol em ebook e WordPress aqui).
Ele destaca que a Regra Beneditina, quando aplicada à vida familiar, produziria mudanças nestas seis áreas:
1) Mudanças no trabalho
Como num mosteiro (com seu ora et labora), todos deveriam ajudar nos afazeres domésticos, aceitariam os trabalhos e os encarariam como um serviço como outro qualquer. Além disso, ficaria claro que a vida profissional não deveria ser mais importante do que a vida familiar.
Os filmes e as brincadeiras deveriam ser compartilhados com todos. Existiriam desafios de recreação e brincadeiras comuns depois do jantar em família, dando uma pausa no ritmo para nos encontrarmos e descansarmos. “O repouso é um momento de comunhão com Deus e com as almas e de alegria por essa comunhão”, escreve o autor.
2) Mudanças nos momentos de descanso
Os filmes e os jogos seriam compartilhados com todos. Existiriam momentos de recreação e brincadeiras comunitárias depois do jantar em família, dando uma pausa no ritmo para descansar. “O Repouso é um tempo de comunhão com Deus e com as almas, e de alegria por essa comunhão”, escreve o autor.
3) Mudanças nas refeições
Rezaríamos antes das refeições. E todos os membros da família comeriam juntos, não em horas diferentes ou em salas e quartos separados. Seria um momento de conversa, de troca de ideias e experiências. O ato de fazer uma refeição com todos reunidos ajuda a família, não somente porque dizem os beneditinos, mas também porque isso foi comprovado em vários estudos sociológicos. Mas, para isso, a TV deve estar desligada.
4) Mudanças nos hábitos de consumo
Uma família “ao estilo beneditino” evitará o luxo e a superficialidade. Não encherá os quartos dos filhos de coisas e brinquedos. Será estabelecida uma grande sobriedade no uso dos aparelhos eletrônicos, tanto entre os pais, quanto entre os filhos (horários de telas apagadas, limitar o uso de telas etc). A família tentará fazer com que o uso de aparelhos eletrônicos seja comunitário: melhor ver juntos uma película do que cada um ir jogar um game diferente em seu dispositivo particular. De qualquer forma, reduzindo o tempo de exposição a esses dispositivos, a leitura e o diálogo serão fomentados.
5) Mudanças na vida de oração
Haveria um lugar e um horário para rezar. Pode ser um pequeno altar para a oração comunitária. Mas a “invasão mundana” deverá ser bloqueada, criando um clima em que pais e filhos possam se encontrar com Deus todos os dias.
6) Mudanças na caridade e solidariedade
A família tentará evitar centrar-se ou fechar-se em si mesma: será acolhedora, buscará aliviar os sofrimentos alheios, colocará os filhos em contato com os menos favorecidos.
Dessa forma, Massimo Lapponi incentiva os leitores a colocar essas medidas em prática. “As famílias de hoje são chamadas a ser ilhas luminosas de fé, de educação no seu bairro, no colégio, no supermercado, no parque, com os amigos… Trata-se de construir o futuro, como fizeram os filhos de São Bento, buscando a Deus”, disse o autor.
Lapponi apresenta o livro com uma citação de São Cipriano: “Não falamos de grandes coisas; apenas as vivemos”.
Artigo originalmente publicado por Religión en Libertad, traduzido e adaptado ao português.


Quer influenciar positivamente os outros? Siga os ensinamentos de São Bento

NAJPOPULARNIEJSZE MŁODZIEŻOWE SŁOWO

Este conselho nunca perde o poder e é algo que devemos sempre nos esforçar para seguir

São Bento foi um monge do século VI. Ele escreveu uma das primeiras “regras” que governavam as ordens religiosas. Enquanto seus escritos abordam principalmente o funcionamento interno de um mosteiro, sua sabedoria também pode ser aplicada às nossas vidas pessoais.
Por exemplo, quando escreve sobre as qualidades de um abade, São Bento se refere à  necessidade de não apenas pregar o Evangelho, mas principalmente de vivê-lo:
“[O Abade] deve mostrar tudo o que é bom e santo pelos seus atos, em vez de mostrar as ordens do Senhor aos seus dóceis súditos por meio de palavras; mas, para os duros de coração, porém, e para os menos inteligentes, demonstre os preceitos divinos por meio de seus feitos. E mostre por suas próprias ações que certas coisas não devem ser feitas…”
Esta é uma regra simples, com a qual muitos estão familiarizados. É o popular “pratique o que você prega”. Pode não parecer um conselho que abale a terra, mas é algo que precisamos continuamente ouvir.
Pergunte a si mesmo: eu sigo as palavras do Evangelho primeiro em ações, depois em palavras?
O Papa Paulo VI ecoa as palavras de São Bento na exortação apostólica Evangelii Nuntiandi e reforça ainda mais este ensinamento de que, se realmente queremos influenciar os outros, precisamos fazê-lo primeiro por nossas ações:
“O homem moderno ouve melhor as testemunhas do que os professores e, se ele ouve os professores, é porque eles são testemunhas.” São Pedro expressou bem isso quando sustentou o exemplo de uma vida reverente e casta que vence mesmo sem uma palavra aqueles que se recusam a obedecer a palavra. É, portanto, principalmente por sua conduta e por sua vida que a Igreja vai evangelizar o mundo, em outras palavras, por seu testemunho vivo de fidelidade ao Senhor Jesus – o testemunho de pobreza e desapego, de liberdade em face dos poderes de Deus, o testemunho da santidade”.

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domingo, 30 de junho de 2019

Oração diante da imagem de Jesus crucificado

Eis-me aqui, ó bom e dulcíssimo Jesus! De joelhos me prostro em Vossa presença e Vos peço e suplico, com todo o fervor da minha alma, que vos digneis gravar no meu coração os mais vivos sentimentos de Fé, Esperança e Caridade, verdadeiros arrependimento de meus pecados e firme propósito de emenda, enquanto que, por mim próprio considero e em espírito contemplo com grande afeto e dor, as vossas cinco chagas, tendo presentes as palavras que já o profeta David punha em vossa boca, o Bom Jesus: “Transpassaram minhas mãos e meus pés e contaram todos os meus ossos”. 

(Ave Maria, Pai Nosso, Glória ao Pai)

domingo, 23 de junho de 2019

São Francisco de Assis: 12 fatos fascinantes que talvez não conhecia sobre ele



A seguir, 12 fatos fascinantes que talvez não conhecia sobre a vida deste santo:

1. Os retratos mais antigos de São Francisco estão na Itália



O primeiro (esquerda) se encontra no mosteiro beneditino de Subiaco. Foi feito durante uma visita ao mosteiro; neste , São Francisco não tem auréola nem estigmas.
O segundo (direita) está na Basílica inferior de Assis e foi pintado por Cimabue. O afresco completo representa a Virgem com o Menino Jesus entronizados, quatro anjos e São Francisco.
2. Foi chamado Francisco pelo povo da França
Seu pai, Pedro Bernardone, foi um comerciante que trabalhava na França. Como estava neste país quando seu filho nasceu, as pessoas o apelidaram de “Francesco” (o francês), por mais que no batismo tenha recebido o nome de João.
3. Foi prisioneiro de guerra durante um ano
Quando tinha cerca de 19 anos, antes de sua conversão, uniu-se ao exército e lutou em uma guerra travada entre as cidades de Perugia e Assis. Foi feito prisioneiro durante um ano, mas finalmente foi libertado ileso.
4. Sua vida se inspirou em Mateus 10,9
Em Mateus 10,9, Jesus diz a seus discípulos: “Não leveis nem ouro, nem prata, nem dinheiro em vossos cintos”, quando saírem para pregar o Evangelho. Sentiu-se inspirado a fazer o mesmo e começou a viajar na pobreza para pregar o arrependimento.
5. Em um ano, ganhou 11 seguidores
No ano de 12010, havia 12 deles no total, ou seja, como o número dos apóstolos. Então, Francisco redigiu uma regra breve e informal que consistia principalmente nos conselhos evangélicos para alcançar a perfeição. Com ela, foram para Roma a fim de apresenta-la para a aprovação do Papa. Viajaram a pé, cantando e rezando, cheios de felicidade e vivendo das esmolas que as pessoas lhes davam.
6. O Papa Inocêncio III decidiu apoiar os franciscanos depois de um sonho sobrenatural
O Papa Inocêncio III se mostrou adverso ao dar apoio a Francisco e seu novo grupo de seguidores. Então, teve um sonho no qual viu Francisco sustentando com seu corpo a Basílica de São João de Latrão, a catedral da Diocese de Roma, que estava a ponto de desmoronar.
O Santo Padre interpretou o sonho como uma indicação de que Francisco e seu grupo poderiam servir de apoio à Igreja e, assim, deu-lhes o reconhecimento oficial como uma ordem.
7. Assistiu ao IV Concílio de Latrão, onde conheceu São Domingos de Gusmão
O IV Concílio de Latrão foi o concílio ecumênico 12 da Igreja Católica no qual se ratificou a transubstanciação e a primazia papal, entre outras coisas. São Domingos, fundador da Ordem dos Pregadores ou Dominicanos, também esteve presente.
8. Visitou um sultão muçulmano, pregou o Evangelho e o desafiou a uma prova “de fogo” a fim de provar a verdade do cristianismo
Durante a quinta cruzada, Francisco e um acompanhante viajaram a território muçulmano para visitar o sultão do Egito e Síria, Al-Kamil.
O santo pregou diante do sultão e, para demonstrar sua grande fé na religião cristã, desafiou os presentes a um “prova de fogo”, que consistia em que ele e um muçulmano caminhassem por uma trilha em chamas, com a ideia de que o seguidor da religião verdadeira deveria ser protegido por Deus.
Francisco se ofereceu a ir primeiro, mas Al-Kamil recusou o desafio. Entretanto, o sultão ficou tão impressionado por sua fé que deu permissão para Francisco pregar em sua terra.
9. Deteve os milagres de um franciscano falecido
Em 1220, Francisco se retirou do governo da Ordem e nomeou como seu Vigário Pedro Cattani. Entretanto, Pedro morreu apenas cinco meses depois.
As pessoas que visitaram seu túmulo reportaram muitos milagres, o que levou grandes multidões ao local, o que causava problemas na região. Por isso, Francisco rezou a Cattani para que os milagres se detivessem, e estes cessaram.
10. Recebeu os estigmas enquanto realizava um jejum de 40 dias
Os estigmas são uma condição na qual as feridas de Cristo aparecem sobrenaturalmente no corpo de uma pessoa. Um franciscano que o acompanhou disso: “De repente, teve a visão de um serafim, um anjo de seis asas em uma cruz. Este anjo lhe deu o dom das cinco chagas de Cristo”.
Isto aconteceu em 1224, durante um jejum de 40 dias no Monte Alvernia, quando se preparava para a Festa de São Miguel Arcanjo, em 29 de setembro.
11. A primeira pedra da Basílica de São Francisco de Assis foi colocada no dia seguinte de sua canonização
Francisco morreu em 3 de outubro de 1226. Foi declarado santo pelo Papa Gregório IX, em 16 de julho de 1228, e no dia seguinte o Santo Padre colocou pessoalmente a primeira pedra da nova basílica de São Francisco de Assis.
12. Seu túmulo se perdeu durante séculos até que foi redescoberto em 1818
Seu corpo foi transladado para sua basílica em 1230, mas logo foi ocultado pelos franciscanos para protegê-lo dos invasores sarracenos. A localização de seu corpo ficou esquecida e não foi redescoberta até quase seis séculos depois, em 1818.

Novena a São Francisco de Assis

Nenhuma outra coisa temos que fazer senão sermos solícitos em seguir a vontade de Deus e em agradá-lo em todas as coisas”, dizia São Francisco de Assis, que recebeu o dom dos estigmas e foi declarado “Padroeiro dos cultivadores da ecologia” por São João Paulo II em 1979.
O Papa Francisco, que adotou seu nome por causa deste santo e que publicou sua encíclica Laudato Si’ sobre a ecologia, destacou em sua visita a Assis em 2013 que São Francisco “á testemunho de respeito por tudo o que Deus criou e como Ele o criou, sem fazer experiências sobre a criação destruindo-a”.
Próximos da festa de São Francisco de Assis, que é celebrada em 4 de outubro, apresentamos uma novena em sua honra, disponibilizada pelo portal Canção Nova, para pedir sua intercessão:
– Fazer o sinal da cruz;
– Rezar a oração para todos os dias;
– Rezar a oração de cada dia;
– Rezar 3 Pai-Nossos, 3 Ave-Marias, 3 Glórias ao Pai;
– Meditar e comentar um texto do Novo Testamento (ver sugestões);
– Rezar a oração e bênção de São Francisco.

Oração para todos os dias
Absolvei, Senhor, eu Vos suplico, o meu espírito, e pela suave e ardente força de Vosso amor, desfeiçoai-me de todas as coisas que existem debaixo do céu, a fim de que eu possa morrer por Vosso amor, ó Deus, que por meu amor Vos dignastes morrer.
Oração de São Francisco
Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor.
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a união.
Onde houver dúvida, que eu leve a fé.
Onde houver erro, que eu leve a verdade.
Onde houver desespero, que eu leve a esperança.
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado,
compreender que ser compreendido, amar que ser amado.
Pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado
e é morrendo que se vive para a vida eterna.

Bênção de São Francisco
O Senhor vos abençoe e vos guarde.
O Senhor vos mostre a Sua face e se compadeça de vós.
Amém.

O Senhor volva Seu rosto para vós e dê a paz.
O Senhor vos abençoe.
Amém.

Que o Senhor Deus, pelos méritos de São Francisco,
vos conceda toda a paz e todo o bem.
Amém.

Primeiro dia
Meu amigo e protetor São Francisco, em vossa juventude, cantáveis alegremente pelas ruas de Assis, participando das boas alegrias dos jovens de vossa idade e fazendo grande projetos de conquistas e aventuras, ensinai-me a encontrar a alegria que vem de Deus e fazer-me nela viver continuamente.
Afastai de mim toda a tristeza que me torna fechado ao próximo.
Que a minha alegria e o meu espírito comunicativo deem testemunho da alegre presença de Deus em minha vida.
Sugestão: Jo 6,41-51.
Segundo dia
Meu amigo e protetor São Francisco, o encontro com um leproso, a quem fostes beijar e a quem destes generosa esmola, num gesto de autossuperação, marcou o começo de vossa conversão e da vida maravilhosa, que, a partir de então, iniciastes, causando admiração ao mundo inteiro. Pelo vosso espírito de renúncia e penitência, ensinai-me a vencer as paixões e más inclinações, canalizando essas energias para o caminho do bem, a fim de que alcance minha plena realização humana, na perfeição a que Deus me chamou.
Sugestão: Rm 8,18-22.
Terceiro dia
Grande patriarca Francisco, conta-se que, na igrejinha de São Damião, enquanto estáveis em oração, o crucifixo vos falou: “Francisco, vai e restaura a minha Igreja”. Foi uma ordem profética. Com vosso exemplo e com os numerosos seguidores que tivestes ainda em vida, nova aurora despertou para a Igreja. Pelo amor que tivestes à Igreja de Cristo, ensinai-me a ser-lhe fiel, vivendo em união com ele, apoiando-a por palavras e pelo testemunho da Igreja, levando uma vida de verdadeiro cristão.
Sugestão: 1Cor 12,31;13,4-13.
Quarto dia
Ó São Francisco, vós vos tornastes um apaixonado do amor de Cristo e saístes pelo mundo a lamentas que “o Amor não é amado”, e vos apresentastes aos homens como o “Amante do Grande Rei”. Livrai-me da indiferença e comunicai-me vosso entusiasmo para que aprenda a amar a Nosso Senhor e saiba encontrá-Lo na natureza e nos acontecimentos de cada dia.
Sugestão: Mc 16,1-8 ou Mt 28,1-10.
Quinto dia
São Francisco, enviastes vossos primeiros discípulos pelo mundo inteiro, a fim de que apregoassem a Boa Nova do Reino de Deus. Alcançai-me do Senhor o espírito apostólico e o zelo missionário, para que me interesse por Sua obra e procure colaborar com a Igreja, a fim de que o Reino de Cristo se estabeleça na Terra.
Sugestão: Mc 9,33-41.
Sexto dia
São Francisco, na contemplação e meditação da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, encontrastes vigorosa motivação para vos entregardes a Deus numa vida desprovida de conforto e segurança. Submetestes vosso corpo a rudes penitências para experimentar uma parte dos padecimentos que Cristo enfrentou por amor de nós. A lembrança da Paixão do Senhor vos arrancava sentidas lágrimas de arrependimento e de gratidão. De vós quero aprender a grande lição do Crucificado: que, no sofrimento aceito livremente e por amor, atingimos nossa purificação.
Ensinai-me a aceitar os males e contrariedades que não posso evitar, para, por meio deles, expiar, com Jesus, os males que o pecado inflige ao mundo.
Sugestão: Mc 9,25-30 ou Rm 8,9-13.
Sétimo dia
São Francisco, fostes chamado “o Pobrezinho de Assis”. Abandonastes os bens e o conforto do mundo e vivestes na maior pobreza para mais perfeitamente imitar a Jesus, que nasceu pobre em Belém e na cruz foi despojado de tudo. Ajudai-me a superar o fascínio e os atrativos que os bens da terra exercem sobre mim. Que saiba repartir do que é meu com os mais necessitados, e assim mereça gozar da liberdade dos filhos de Deus.
Sugestão: Jo 19,31-37 ou Ef 3,8-12.14-19.
Oitavo dia
São Francisco, fostes o grande amigo da natureza. No Cântico do Sol, convidastes a todas as criaturas para cantarem louvores a Deus. Para vós, a natureza era o livro aberto onde se leem a bondade e a beleza de Deus, que tudo criou com amor de Pai. Fazei que, para mim, as criaturas não sejam pedras de tropeço, mas degraus que me levem para junto do Criador. Dai-me a graça de não me prender exageradamente às criaturas nem a mim mesmo. E que, de coração livre, possa levantar voo para as alturas do amor de Deus.
Sugestão: Jo 14,1-12 ou 1Pd 2,4-10.
Nono dia

Meu grande São Francisco, apesar da ingratidão dos homens que se fecham ao amor de Deus, soubestes viver em contínua alegria. Estáveis consciente de que o amor do Pai nos predestinou à felicidade do céu. Tão grande foi vosso amor a Cristo, vossa identificação com o Amado atingiu incomparável perfeição. Ensinai-me a encarar a vida com seriedade e alegria. Quero assumir com amor e alegria as responsabilidades que ele me impõe. Que seja compreensivo e alegre no relacionamento com o próximo. Que não esqueça minha vocação de filho de Deus chamado para servir. Fazei que, a vosso exemplo, eu me deixe arrastar pelo amor de Cristo, caminhando decidido e alegre ao seu encontro, todos os dias da vida.
Sugestão: Mt 15,21-28 ou Rm 16,25-27.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Da Submissão à Vontade de Deus

Da Submissão à Vontade de Deus

Uma das verdades mais bem estabelecidas e das mais consoladoras que jamais nos tenham sido reveladas é que, com ressalva do pecado, nada nos sucede na terra senão porque Deus o quer; é Ele quem dá as riquezas e é Ele quem envia a pobreza; se estais doente, Deus é a causa do vosso mal; se haveis recuperado a saúde, foi Deus quem vo-la restituiu; se viveis, é unicamente a Ele que deveis tão grande bem; e quando a morte vier terminar a vossa vida, será da mão Dele que recebereis o golpe mortal.
Mas, quando os maus nos perseguem, é então a Deus que o devemos imputar? Sim, cristãos ouvintes, é ainda a Ele que deveis então acusar unicamente do mal que sofreis. Ele não é causa do pecado que comete o vosso inimigo maltratando-vos, mas é causa do mal que esse inimigo vos faz pecando. Esse homem injusto é como uma torrente que, do alto dum rochedo, vem despenhar-se num vasto campo. Não é o lavrador que dá a essa torrente rápida o movimento que a arrasta, mas é o lavrador quem, ora rompendo um dique, ora tapando um valado ou levantando uma represa, lhe faz entrar as águas num campo antes que em outro, quer pretenda adubar, quer pretenda desolar por esse meio aquele campo. Ou se preferis, aquele mau homem é nas mãos de Deus como um veneno nas mãos dum artista hábil: não foi o artista que deu àquela erva ou àquele mineral a virtude maligna que lhes é própria, mas foi ele quem as misturou na beberagem que vos apresenta, quer tenha o intento de vos dar a morte, quer talvez o de vos restituir a saúde. Assim, não foi Deus quem inspirou ao vosso inimigo a má vontade que tem de vos prejudicar, mas foi Ele quem lhe deu o poder, foi Ele quem fez voltar sobre vós a malícia daquela pessoa, quem dispôs as coisas de tal sorte que ele se tenha achado em estado de perturbar o vosso repouso, que o tenha efetivamente perturbado. O Senhor quis que caísseis na cilada, já que não a evitou, já que prestou mesmo mão aos que vo-la armavam; é Ele que vos entrega sem defesa aos vossos inimigos, e foi Ele que dirigiu, por assim dizer, todos os golpes que eles vos desfecharam. Não duvideis: se recebeis alguma chaga, foi o próprio Deus quem vos feriu. Quando todas as criaturas se ligassem contra vós, se o Criador não quisesse, se se lhes não juntasse; se lhes não desse tanto as forcas como os meios de executar os seus maus desígnios, nunca o conseguiriam: Não teríeis nenhum poder sobre mim se ele vos não fosse dado do alto, dizia o Salvador do mundo a Pilatos. Nós podemos dizer outro tanto aos homens como aos demônios, mesmo às criaturas que são privadas de razão e de sentimento. Não, vós não me afligiríeis, não me prejudicaríeis como fazeis, se Deus não vo-lo tivesse ordenado; é Ele quem vos envia, é Ele quem vos dá o poder de me tentardes e de me fazerdes sofrer: Não teríeis nenhum poder sobre mim, se ele não vos tivesse sido dado do alto.
Se de quando em quando meditássemos seriamente este artigo da nossa crença, não seria preciso mais para abafar as nossas murmurações em todas as perdas, em todas as infelicidades que nos acontecem. Era o Senhor que me tinha dado todos aqueles bens, foi Ele mesmo quem mos tirou; não foi nem aquela parte, nem aquele juiz, nem aquele ladrão quem me arruinou, não foi aquela mulher que me denegriu a reputação com as suas maledicências; se esse menino morreu, não foi nem por ter sido maltratado, nem por ter sido mal servido; foi Deus, a quem tudo aquilo pertencia, quem não me quis deixar fruir dele por mais tempo.
É, pois, uma verdade de fé que Deus conduz todos os acontecimentos de que a gente se queixa no mundo; e, demais, não podemos duvidar de que todos os males que Deus nos manda nos sejam utilíssimos: não podemos duvidá-lo sem suspeitar a Deus de carecer de luz para discernir o que é vantajoso.
É prova dum orgulho insuportável, diz são Basílio, que nos próprios negócios a gente não necessita de tomar conselho de ninguém, e que tem por si mesmo bastante prudência para escolher o melhor partido. Mas, se nas coisas que nos dizem respeito qualquer outro vê melhor do que nós aquilo que nos é útil, que loucura pensar que o vemos melhor do que Deus mesmo, Deus que é isento das paixões que nos cegam, que penetra o futuro, que prevê os acontecimentos e o efeito que cada causa deve produzir! Sabeis que os acidentes mais molestos têm às vezes felizes consequências, e que, ao contrário, os sucessos mais favoráveis podem finalmente terminar em funestos desfechos. É mesmo uma regra que Deus observa assaz comumente, ir aos seus fins por vias inteiramente opostas às que a prudência humana costuma escolher.
Na ignorância em que estamos do que deve acontecer no futuro, como então ousamos murmurar daquilo que sofremos pela permissão de Deus! E mesmo por simples vantagens deste mundo, quantos exemplos não temos desse proceder! Vendem José, trazem-no em servidão, lançam-no numa prisão: ele se aflige das suas desditas aparentes, aflige-se com efeito da sua felicidade, pois são outros tantos degraus que o elevam insensivelmente ao trono do Egito. Saul perdeu as mulas de seu pai, tem que as ir buscar muito longe e muito inutilmente: é muito tempo e muito trabalho perdido, é certo; mas se essa mágoa o aflige, jamais houve pesar tão desarrazoado, visto que tudo aquilo só foi permitido para o conduzir ao profeta que o deve ungir da parte do Senhor, para ser o rei de seu povo. Qual não há de ser a nossa confusão, quando comparecermos perante Deus, quando virmos as razões que Ele terá tido de nos mandar essas cruzes que nós tão mal lhe agradecemos! Eu lamentei a perda daquele filho único morto na flor da idade: ai! Se Ele tivesse vivido ainda alguns meses, alguns anos, teria perecido da mão dum inimigo, teria morrido em pecado mortal. Eu não me pude consolar do rompimento daquele casamento: se Deus tivesse permitido que ele se concluísse, eu iria passar os meus dias no luto e na miséria. Devo trinta ou quarenta anos de minha vida àquela doença que sofri com tanta impaciência. Devo a minha salvação eterna àquela confusão que me custou tantas lágrimas. Minha alma estaria perdida, se eu não tivesse perdido aquele dinheiro. Com que nos embaraçamos, cristãos ouvintes? Deus se encarrega da nossa direção, e nós estamos na inquietude! Abandonamo-nos à boa fé dum médico porque supomos que ele entende da sua profissão; ele ordena que vos façam as operações mais violentas, às vezes até que vos abram o crânio com o ferro: ali, que vos furem o corpo; aqui que vos cortem um membro para deter a gangrena que poderia enfim chegar até ao coração; a gente sofre tudo isso, fica-lhe agradecido, recompensa-o liberalmente, porque julga que ele não o faria se o remédio não fosse necessário, porque julga que cumpre fiar-se na sua arte; e não queremos fazer a mesma honra ao nosso Deus! Dir-se-ia que desconfiamos da sua sabedoria e que tememos que ele nos transvie! Que? Entregais vosso corpo a um homem que se pode enganar e cujos menores erros vos podem tirar a vida, e não vos podeis submeter à conduta do Senhor!
Se nós víssemos tudo o que Ele vê, quereríamos infalivelmente tudo o que Ele quer; haviam-nos de ver pedir-lhe com lágrimas as mesmas aflições que tratamos de desviar pelos nossos votos e pelas nossas preces. Por isto, é a nós todos que Ele diz nas pessoa dos filhos de Zebedeu: Nescitis quid petitis; homens cegos, a vossa ignorância me faz pena, não sabeis o que me pedis; deixai-me cuidar dos vossos interesses, conduzir-vos à fortuna; Eu conheço o que vos é necessário, melhor do que vós mesmos; se até aqui eu tivesse levado em conta os vossos sentimentos e os vossos gostos, já estaríeis perdidos sem recurso.
Mas quereis, cristãos ouvintes, quereis ficar persuadidos de que em tudo o que Deus permite, em tudo quanto vos sucede, não tem Ele em mira senão as vossas verdadeiras vantagens, a vossa felicidade eterna? Fazei um momento de reflexão sobre tudo o que Ele há feito por vós. Estais agora na aflição: pensai que quem é o autor dela é Aquele mesmo que quis passar toda a sua vida nas dores para vo-las poupar eternas; que é Aquele cujo anjo está sempre ao vosso lado, velando por sua ordem sobre todos os vossos caminhos, e se aplicando a desviar tudo o que vos possa ferir o corpo ou manchar a alma; pensai que quem vos expõe a essa pena é Aquele que nos nossos altares ora incessantemente e se sacrifica mil vezes ao dia para expiar os vossos crimes e aplacar a cólera de seu Pai, à medida que O irritais; que é Aquele que vem a vós com tanta bondade no sacramento da eucaristia; Aquele que não tem prazer maior do que conversar convosco, do que se unir a vós. Que ingratidão, após tamanhas provas de amor, desconfiar ainda Dele, duvidar de se é para nos prejudicar ou para nos fazer bem que Ele nos visita! Mas Ele me fere cruelmente, faz pesar a Sua mão sobre mim. E que temeis duma mão que foi transfixada, que se deixou pregar na cruz por vós? Ele me faz andar por um caminho espinhoso. Se não há outro para ir ao céu, ai de vós se preferis perecer para sempre a sofrer por um tempo! Não foi esse mesmo caminho que Ele seguiu, antes de vós e por amor de vós? Achais acaso Nele um espinho que Ele não tenha marcado, que não tenha enrubescido com o seu sangue?
Ele me apresenta um cálice cheio de amargura. Sim, mas pensai que é o vosso Redentor que vo-lo apresenta; amando-vos tanto quanto vos ama, poderia resolver-se a tratar-vos com rigor se não houvesse uma utilidade extraordinária ou uma urgente necessidade? Ouvistes falar daquele príncipe que preferiu expor-se a ser envenenado, a recusar a bebida que seu médico lhe receitara, porque reconhecera sempre naquele médico muita fidelidade e muito apego à sua pessoa; e nós, cristãos ouvintes, nós recusamos o cálice que Nosso Divino Mestre nos preparou Ele próprio, atrevemo-nos a ultrajá-lo até esse ponto! Rogo-vos não esquecerdes esta reflexão; ela basta, se me não engano, para nos fazer aceitar, para nos fazer amar as disposições da vontade divina que nos parecem mais incômodas, e nos conformarmos desse modo com essa vontade suprema; é, aliás, assegurar infalivelmente a nossa felicidade, mesmo desde esta vida.
Eu suponho, por exemplo, que um cristão está liberto de todas as ilusões do mundo, pelas suas reflexões e pelas luzes que recebeu de Deus; que reconhece que tudo não passa de vaidade; que nada lhe pode encher o coração; que aquilo que há desejado com mais afã é muitas vezes fonte dos mais mortais pesares; que a gente custa a distinguir o que nos é útil e o que nos é contrário, por isto que o bem e o mal estão quase por toda a parte misturados, e porque aquilo que ontem era o mais vantajoso é hoje o pior; que os seus desejos só fazem atormentá-lo; que os cuidados que emprega para lograr êxito o consomem e até lhe prejudicam às vezes os desígnios, ao invés de os adiantar; que, ao cabo de tudo, é uma necessidade que a vontade de Deus se cumpra; que nada se faz senão por suas ordens, e que Ele nada pode ordenar a nosso respeito que não nos reverta em vantagem.
Após todas essas vistas, suponho ainda que ele se lance nos braços de Deus como às cegas; que se lhe entregue, por assim dizer, sem condição e sem reserva, inteiramente resolvido a confiar Nele para tudo, e nada mais desejar, nada mais temer, numa palavra, nada mais querer senão aquilo que Ele quiser; digo que, desde esse momento, essa feliz criatura adquire uma liberdade perfeita, que não pode mais nem ser molestada nem constrangida; que não há autoridade, não há poder na terra que seja capaz de lhe fazer violência ou de lhe dar um momento de inquietação.
«Como me quereis obrigar a fazer o que eu não quero? dizia um santo homem cujos sentimentos são referidos. Seria preciso poder constranger o próprio Deus, para me pôr no caso de fazer algo contra minha vontade; porque, enquanto Deus fizer tudo o que quiser, eu não posso deixar de ser perfeitamente livre, visto que só quero o que Ele faz. Deus quer que eu adoeça? Pois a moléstia me é mais agradável do que a saúde; que eu seja pobre? Pois eu não queria ser rico; que eu seja o repúdio de todos? Consinto que toda a gente me despreze, fundo toda a minha glória nos seus desprezos. Importa que eu viva aqui ou alhures, que eu passe os meus dias no repouso ou na trica dos negócios, que morra na flor ou no declínio da idade? De tudo isso eu não poderia dizer o que gosto mais; mas, desde que Deus tiver feito a sua escolha, e me tiver feito conhecer para que lado pende o seu coração, o meu seguirá esse pendor, e achará nele a sua felicidade.»
Mas não é uma quimera um homem em quem os bens e os males fazem uma igual impressão? Não, não é uma quimera; conheço pessoas que estão igualmente contentes na moléstia e na saúde, nas riquezas e na indigência; algumas conheço mesmo que preferem a indigência e a moléstia às riquezas e à saúde.
De resto, não há nada tão verdadeiro como o que vos vou dizer: tanta submissão temos à vontade de Deus, tanta condescendência tem Ele para com as nossas vontades. Parece que, desde que a gente se apega unicamente a lhe obedecer, Ele próprio só cuida de nos satisfazer: não só ouve as nossas preces, mas até as previne; vai buscar até no fundo do coração aqueles mesmos desejos que a gente trata de sufocar para lhe aprazer, e os realiza, cumula-os, excede-os todos.
Enfim a ventura daquele cuja vontade é submissa à vontade de Deus é uma ventura constante, inalterável, eterna. Temor algum lhe perturba a felicidade, porque acidente algum a pode destruir. Eu mo represento como um homem sentado num rochedo no meio do oceano: vê virem a ele as mais furiosas vagas sem ficar atemorizado, acha prazer em considerá-las e contá-las, à medida que elas se lhe veem quebrar aos pés; quer o mar esteja calmo ou agitado, quer o vento empurre as ondas para um lado ou para outro, ele fica igualmente imóvel, porque o lugar em que se encontra é firme e inabalável.
Vem daí essa paz, essa calma, esse semblante sempre sereno, esse ânimo sempre igual que notamos nos verdadeiros servos de Deus. Que razão não tendes, almas santas, de ser sem inquietações? Achastes na vontade do vosso Deus um retiro inacessível a todas as desditas da vida; elevaste-vos muito acima da região das tempestades: não há dardo que possa chegar até lá. Não podeis temer nem os homens nem os demônios. Façam o que fizerem, suceda o que suceder, sereis sempre felizes, ou então o próprio Deus deixará de sê-lo.
Resta ver como é que poderemos atingir essa venturosa submissão. Isto só se pode fazer, senhores, pela experiência frequente dessa virtude; e por isto que as grandes ocasiões de praticá-la são raras, todo o segredo consiste em aproveitar as pequenas, que são diárias, e cujo bom uso em breve nos porá em estado de sustentar os maiores revezes sem sermos abalados. Não há ninguém a quem cada dia não aconteçam cem pequenas coisas contrárias aos seus desejos e inclinações, seja que no-las atraia a nossa imprudência ou nosso pouco espírito, seja que elas nos venham da inconsideração ou da malignidade alheia, seja enfim que constituam um puro efeito do acaso ou do concurso imprevisto de certas causas necessárias. Toda a nossa vida é semeada dessas sortes de espinhos, que nos nascem incessantemente debaixo dos pés, que produzem no nosso coração mil frutos amargos, mil movimentos involuntários de ódio, de inveja, de temor, de impaciência, mil pequenas mágoas passageiras, mil ligeiras inquietações, mil perturbações, que, ao menos por um momento, alteram a paz da alma. Escapa-nos, por exemplo, uma palavra que não quiséramos ter dito, dizem-nos outra que nos ofende, um criado vos serve mal ou com vagarosidade, uma criança vos incomoda, um estorvante vos faz parar, um estouvado vos encontrou, um cavalo vos cobre de lama, faz um tempo que vos desagrada, a vossa obra não vai como desejaríeis, um pequeno móvel se quebra, uma roupa se mancha ou se rasga; eu sei que não há aí em que exercer uma virtude bem heroica, mas digo que seria o bastante para adquiri-la infalivelmente se o quiséssemos; digo que todo o que estivesse alerta para oferecer a Deus todas essas contrariedades, e para aceitá-las como ordenadas pela sua providência, esse homem, além de adquirir por essa prática grande número de méritos, além de se dispor insensivelmente a uma união muito íntima com Deus, seria ainda, em pouco tempo, capaz de aguentar os mais tristes e os mais funestos acidentes da vida.
A este exercício, que é tão fácil, e não obstante mais útil para nós e mais agradável a Deus do que vos posso dizer, pode-se ajuntar ainda outro. Embora as grandes desgraças não aconteçam todos os dias, pode-se a gente oferecer a Deus todos os dias para aturá-las quando lhe aprouver. Se Deus vos quisesse tirar ou aquele filho ou aquele marido, se permitisse que perdêsseis aquele processo ou aquele dinheiro que colocastes, precisaríeis duma grande forca de espírito para suportar esses golpes tão rudes. Não sabeis ainda qual será a vontade Dele sobre esses pontos; preveni-lhe as ordens, e desde agora submetei-vos a tudo quanto Ele resolveu fazer; renunciai com frequência em sua presença a todos os desejos que podeis ter de aumentar ou de conservar os vossos bens, a vossa saúde, a vossa reputação, e protestai-lhe que estais pronto a lhe sacrificar tudo. Pensai todos os dias, desde a manhã, em tudo quanto vos pode suceder de mais molesto durante o curso do dia. Pode suceder que no correr do dia tragam a notícia dum naufrágio, duma bancarrota, dum incêndio; talvez que antes da noite recebais alguma afronta pesada, alguma sangrenta confusão; talvez que a morte vos roube a pessoa do mundo que mais amais; não sabeis se vós mesmo não morrereis subitamente e duma maneira trágica. Aceitai todas essas desgraças no caso que praza a Deus permiti-las, coagi a vossa vontade a consentir nesse sacrifício, e não vos deis trégua enquanto não a sentirdes disposta a querer ou a não querer tudo o que Deus pode querer ou não querer.
Enfim, quando uma dessas desditas se fizer efetivamente sentir, em lugar de perderdes tempo em vos queixardes ou dos homens ou da fortuna, ide lançar-vos prontamente aos pés do Divino Mestre, para lhe pedir a graça de suportar com constância aquele infortúnio. Um homem que recebeu uma chaga mortal, se é prudente, não corre atrás de quem o feriu. Vai primeiro ao médico que o pode curar. Mas quando, em tais conjunturas, buscásseis o autor dos vossos males, seria ainda a Deus que cumpriria ir, pois só Ele lhes pode ser a causa.
Ide, pois, a Deus, mas ide prontamente, ide na mesma hora, seja o primeiro de todos os vossos cuidados: ide levar-Ihe, por assim dizer, a flecha que Ele vos atirou, o flagelo de que se serviu para vos provar. Beijai mil vezes as mãos do Vosso Senhor crucificado, essas mãos que vos feriram, que fizeram todo o mal que vos aflige. Repeti-lhe muitas vezes estas palavras que Ele próprio dizia a seu Pai no forte da sua dor:Senhor, faça-se a vossa vontade, e não a minha. Eu vos bendigo mil vezes, eu vos dou graças de que as vossas ordens se cumpram sobre mim; e quando estivesse em meu poder resistir-lhes, eu continuaria a me submeter a elas. Aceito esta calamidade em si mesma como em todas as suas circunstâncias; não me queixo nem do mal que sofro, nem das pessoas que me causam, nem do modo por que ele veio até mim, nem da conjuntura do tempo ou do lugar em que ele me surpreendeu ; estou certo de que o quisestes sob todos esses pontos de vista, e gostaria mais de morrer do que de me opor no que fosse à Vossa Vontade: Fiat voluntas tua... Sim, meu Deus, em tudo o que quiserdes de mim, hoje e por todos os tempos, no céu e na terra, faça-se essa vontade, mas faça-se na terra como se cumpre no céu.

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A virtude da temperança