sábado, 27 de fevereiro de 2016

A arte de sofrer bem

A paciência – para dizê-lo em poucas palavras- é a capacidade de sofrer dignamente, a arte de “sofrer bem”. Seu ponto alto consiste em saber sofrer serenamente, generosamente e sem queixas, por amor a alguém. Esta é a virtude humana da paciência.
Quando essa virtude é praticada por um bom cristão, movido pelo Espírito Santo, pode-se definir como a arte de sofrer com fé e esperança em Deus e, sobretudo, com muito amor a Deus e ao próximo. Esta é a virtude cristã ou sobrenatural da paciência.
Vamos ver a seguir dois belos exemplos de cada uma dessas duas “paciências”. Ambos são narrados pelo professor de psiquiatria da Universidade de Madrid e escritor J. A. Vallejo-Nágera, no seu livro Concierto para instrumentos desafinados. Trata-se de algumas das muitas recordações que o médico registra como “momentos do coração” no seu trabalho diário.
O tradutor
O primeiro caso é a história de um tradutor diplomado. Foi-lhe diagnosticado um câncer de pulmão, e simultaneamente deram-lhe a notícia de que lhe restavam poucos meses de vida. Homem sem fé, procurou no psiquiatra as soluções que não sabia buscar em Deus. Pensava na esposa, que amava muito, e tremia ante a possibilidade de fazê-la sofrer:
- «Temo que me falte coragem e serenidade, e que assim amargure os nossos últimos meses de convívio. Fisicamente, creio que posso agüentar; só temo falhar psicologicamente. Foi por isso que vim, doutor, para ter uma orientação técnica, um ponto de apoio, e poder dissimular até o final ou fingir que não sofro. Quando a minha mulher ficar sabendo do câncer, se ela julgar que eu não estou sofrendo, conseguirei pelo menos aliviar-lhe este calvário que não lhe posso evitar».
Causa uma certa pena esse sofrimento pendurado no vazio de um bom coração que não conhece a Deus. Mas, sem dúvida alguma, havia uma enorme grandeza nesse seu desejo de ser autenticamente paciente, de saber “sofrer bem”. Esse homem bom, justamente porque tinha muito amor à esposa, estava procurando forças humanas para conseguir que esse seu amor por ela, a quem queria poupar, lhe ensinasse a sofrer “bem”.
O padre humilde
O segundo caso é diferente. Trata-se de um padre cheio de fé, que procurava também no psiquiatra um conselho para sofrer melhor. O médico narrador conta-nos que era um padre humilde, «tão insignificante que nem sequer era ridículo». Tinha dedicado a vida, até aos sessenta e tantos anos, à sua tarefa de bom pastor das almas, especialmente cuidando das doenças espirituais no confessionário.
Desde fazia algum tempo, tinha-se-lhe manifestado uma depressão endógena grave – assim a qualifica e descreve o especialista -, com as suas seqüelas mórbidas e características de tristeza, desconsolo, remorso, pessimismo esmagador e perda do desejo de viver.
O sofrimento era grande. Mas, nesse caso, o médico comoveu-se profundamente porque o paciente não parecia querer consolo, nem compaixão, nem alívio do sofrimento em si. «Não parecia muito interessado – esclarece o psiquiatra – no alívio do tormento… Que queria, então? Queria continuar a amar».
- «Até agora – dizia o padre ao doutor -, tenho levado uma vida sem pena nem glória. A Glória, eu a espero para depois, no Céu, e sei que é preciso adquiri-la por meio da pena.
«Recebi com gratidão o fato de Deus me ter enviado no final da vida a minha cruz; estava até desejando ter uma para poder carregá-la junto com Jesus. Bendigo, por isso, a Deus todos os dias, por se ter lembrado de mim no final, quando já me resta muito pouco tempo de vida e parecia ter perdido qualquer oportunidade de ganhar alguns méritos.
«Mas estou notando que agora, no confessionário, na direção espiritual, não sinto as coisas como antes, como ao longo de toda a minha vida, com entusiasmo por ajudar, com esse carinho espontâneo cheio de afetuosa ansiedade, cheio da necessidade de aliviar os que recorrem a mim. Consigo dar conselhos porque o cérebro funciona, mas não os sinto com o coração, e isso soa-me a nota falsa, artificial, e assim não posso consolar os meus fiéis como antes.
«Nunca me tinha acontecido isso, tem que ser uma doença. É o que lhe peço que me cure, doutor: a doença. O resto irá passando com o tempo, e, se não, louvado seja Deus!».
Esta história é verdadeiramente comovente! Toda ela é um clarão de luz sobre a virtude da paciência. Aquele padre zeloso, desprendido e humilde, sentia-se muito doído e confuso, não por estar sofrendo – coisa que aceitava por amor a Deus -, mas porque o sofrimento causado pela doença lhe tornava difícil manter a vibração da alma e transmitir conforto, ânimo e alegria aos seus penitentes.
Vale a pena meditar um pouco sobre isso, e perguntarmo-nos:
- E eu? Como é que encaro os meus sofrimentos, as minhas contrariedades? Será que o meu amor a Deus e ao próximo é mais forte do que a minha dor, ou, pelo contrário, a contrariedade me derruba e me torna um peso para os outros?
- Será que a minha fé e o meu amor me levam abraçar com espírito cristão as cruzes da vida, desejando sinceramente esquecer-me de mim mesmo, de todo e qualquer egoísmo, de modo que só reze e lute para que os meus problemas não caiam sobre os outros como um fardo, não os atormentem nem os entristeçam?
[Adaptação de um trecho do livro de F.Faus: A paciência]

http://www.padrefaus.org/archives/585

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