domingo, 12 de novembro de 2017

Você deve pensar em Cristo como alguém que vive



Para refletir com o texto de François Mauriac (tradução de D. Marcos Barbosa, OSB)


Você deve pensar no Cristo como alguém que vive – que vive atualmente, que está no mundo – e que, entre milhões de outros, escolheu você. Sim, pois o simples fato de você conhecê-lo já é sinal de uma escolha.


Você deve pensar em Cristo como o único amigo cujo olhar penetra o mais íntimo de sua vida, e até mesmo aquela região inacessível a qualquer criatura – região que talvez você mesmo ignore.


Ele tem planos a seu respeito, tal como você é: ele conhece o santo, diferente de qualquer outro, do qual você traz a semente – e que ele criará, com o melhor e pior que há em você, se você não opuser resistência ao seu amor.

O drama da sua vida decorrerá de sua resistência ao paciente trabalho do Cristo sobre sua alma e seu destino, pois destruímos constantemente em nós essa obra que ele, eternamente, recomeça.

Você vive num tempo em que não é difícil encontrar o Cristo: ele é alguém que está só. A sua solidão o torna reconhecível, ele se revela ao seu amor.

A exigência do Cristo está longe de ser pequena. Ele aceita tudo o que você lhe der; mas ele pede tudo.

O seu amor é tal que basta um pensamento, um olhar, um suspiro, para já o estarmos traindo. Pois não quer de nós apenas uma atitude externa e fórmulas e ritos, mas um coração inteiro e puro.

Nós sabemos o que ele espera de nós: o nosso ponto fraco, a falha imperceptível que é preciso encher e tapar. Há uma certa exigência que é só nossa. Leve ou pesada, a cruz que você carrega tem o seu tamanho e não se parece com nenhuma outra.

Nas menores circunstâncias da vida, é a sua amizade que deve determinar sua atitude. Não pense que você pode resolver coisa alguma sem ele, mesmo que se trate de coisa sem importância. Aliás, nada é sem importância para o cristão: tudo repercute na eternidade.

Deus dar-lhe-á a clara consciência daquilo que você é: uma alma imortal, não isolada, mas cercada de muitas outras, sobre as quais você tem um certo poder, para o bem ou para o mal. Quando a graça diminui em sua alma, diminui também em muitos outros, que se apoiam em você.

Se você for amigo de Cristo, muitos se aquecerão nesse fogo, tomarão parte em sua luz. As trevas do seu pecado cegariam aqueles que você agora ilumina. E o dia em que não mais arder em você a chama do amor, muitos outros morrerão de frio.

Não pense que o Cristo o condena a dormir. Ele fará de você (e de todos que o amam) gente desperta e vigilante. Obrigá-los-á a terem nas mãos as rédeas do coração, de modo que suas paixões não os arrastem, mas sejam conduzidas por vocês, como belos cavalos garbosos e contidos.

O pecado é que é rotina. O pecado é que “mecaniza” a vida. A amizade do Cristo, ao contrário, rompe o insípido encadeamento do mal. O que surpreende num vício é a sua monotonia, pois a estrada parece longa ao caminharmos no escuro!

Mas você caminha em plena luz, talvez com dificuldade ainda, e talvez, mais tarde, com certo dilaceramento. Pois amar o Cristo é preferi-lo. E quem diz “preferência” dá a entender hesitações, árduo combate, talvez uma ruptura... O próprio Cristo nos advertiu que veio trazer o fogo à terra – que ele veio separar.

Não, não peça o repouso. Porque a religião do Cristo não se reduz a um sistema de limitações, de preservações, de defesas. Se ele fosse só isto, um vivo coração de moço não encontraria nele o seu alimento, e logo se afastaria. Sim, é preciso dizê-lo: esta religião convida ao amor essencial e comporta, pois, aos olhos do mundo, o maior dos riscos: o da total entrega.

O que Cristo pede e obtém da criatura humana, quem jamais o conseguiu, senão ele? Quem jamais o obteve, senão ele? Penso em alguns padres da roça, em certas monjas, naquela irmã de caridade...

E é dos jovens que ele consegue mais. Vi, na Trapa, monges silenciosos com apenas dezoito anos! Mas os velhos pareciam tão jovens quanto eles... Ante a falsa sabedoria do mundo, de que “é preciso gozar a mocidade”, o Cristo parece responder: “é preciso que a juventude seja eterna...” Nós temos a idade dos nossos pecados, e todo o nosso desgaste é de ordem espiritual.

Jovens, amigos de Cristo, depende de vocês que sua juventude seja eterna. Depende de você não ser, um dia, aquele homem maduro, aquele velho, que vem trazer ao Cristo um coração que o mundo já não quer mais, os destroços deixados pelas feras.

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