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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Abraça Jesus crucificado, amante e amado



Querida irmã em Jesus. Eu, Catarina, serva dos servos de Jesus, escrevo-te no seu precioso sangue, desejosa que te alimentes do amor de Deus e que dele te nutras, como do seio de uma doce mãe. Ninguém, de fato, pode viver sem este leite!

Quem possui o amor de Deus, nele encontra tanta alegria que cada amargura se transforma em doçura e cada grande peso se torna leve. E isto não nos deve surpreender porque, vivendo na caridade, vive-se em Deus: Ele é amor; quem permanece no amor habita em Deus e Deus habita nele.
Vivendo em Deus, por conseguinte, não se pode ter amargura alguma porque Deus é delícia, doçura e alegria infinita!
É esta a razão pela qual os amigos de Deus são sempre felizes! Mesmo se doentes, necessitados, aflitos, atribulados, perseguidos, nós estamos alegres.
Mesmo quando todas as línguas caluniosas nos metessem em má luz, não nos preocuparemos, mas nos alegraremos com tudo porque vivemos em Deus, nosso repouso, e saboreamos o leite do seu amor. Como a criança suga o leite do seio da mãe assim nós, enamorados de Deus, atingimos o amor de Jesus Crucificado, seguindo sempre as suas pegadas e caminhando com ele pelo caminho das humilhações, das penas e das injúrias.
Não procuramos a alegria se não em Jesus e fugimos de toda a glória que não seja aquela da cruz. Abraça, portanto, Jesus Crucificado elevando a ele o olhar do teu desejo! Toma em consideração o seu amor ardente por ti, que levou Jesus a derramar sangue de todas as partes do seu corpo!
Abraça Jesus Crucificado, amante e amado e nele encontrarás a verdadeira vida, porque ele é Deus que se fez homem. Que o teu coração e a tua alma ardam pelo fogo do amor do qual foi coberto Jesus cravado na cruz!
Tu deves, portanto, tornar-te amor, olhando para o amor de Deus, que tanto te amou, não porque te devesse obrigação alguma, mas por um puro dom, impelido somente pelo seu inefável amor.
Não terás outro desejo para além daquele de seguir Jesus! E, como que inebriada do Amor, não farás caso se te encontras só ou acompanhada: não te preocuparás com tantas coisas mas somente de encontrar Jesus e segui-lo!
Corre, Bartolomea, e não estejas a dormir, porque o tempo corre e não espera nem um momento. Permanece no doce amor de Deus. Doce Jesus, amor Jesus.

-- Das “Cartas” de Santa Catarina de Sena (1347-1380) (carta n.165 a Bartolomea, esposa de Salviato da Lucca)

domingo, 6 de agosto de 2017

Crucifixo é a escola da oração.



Santa Teresa, Santa Madalena de Pazzi, São Bruno, São Bernardo, São Francisco de Assis, São Boaventura, todos os grandes contemplativos da idade Média onde terão encontrado as labaredas do amor de Deus?

O Crucificado é para os fiéis manual de meditação quotidiana. Ele abençoa os trabalhos, santifica as conversações, tempera os prazeres e balsamiza os sofrimentos.
Ao pé da Santa Imagem, repete o cristão as palavras de São Paulo:

"Sicut abundant passiones Christi in nobis, ita et per Christum abundat consolatio nostra. - Assim como são abundantes os sofrimentos de Cristo em nós, assim também pelo Cristo é superabundante nossa consolação."

Sofremos todos nós através da vida. O Crucificado, relembra-nos que, unida à Paixão de Cristo, a dor é expiatória e meritória; ensinar-nos-á que a dor é amável em seu exemplar divino.

Perreyve escreve, numa página de emoção:

"O pranto corre bem sobre Vossa imagem, ó Divino Crucificado. As lágrimas do homem conhecem-nO. Há entre a Cruz e as dores humanas eterna conformidade."

"Não posso mais orar, murmurava Lacordaire, nos momentos derradeiros, mas eu O contemplo!" E não tirava os olhos do Crucificado.

No alto da fogueira, prestres a ser devorada pelas chamas, Santa Joana d'Arc cobria de beijos e lágrimas uma cruz de madeira feita, no momento, por um soldado.

Suplicou que lhe trouxessem o Crucificado da Igreja próxima. Foi atendida. Ao religioso, que a acompanhava, pediu que levantasse a Cruz e a conservasse bem alto, enquanto ela estivesse viva; queria contemplá-la até o suspiro extremo. As labaredas envolveram-na. E a heroína francesa morreru com os olhos fixos na imagem de Jesus Cristo pregado à Cruz.

São Francisco Xavier, o general Lamoricière e Pasteur, nos minutos finais, seguravam e beijavam o Crucifixo.

Um poeta do século passado pergunta ao Crucificado, em estrófes sublimes, o que é que Ele murmura aos ouvidos do moribundo:

"Aos lábios dos moribundos colados na agonia - como derradeiro amigo, para iluminar o horror desta passagem estreita, - para soerguer até Deus seus olhares amortecidos, ó Divino Consolador, - cuja imagem osculamos, - responde: que lhe dizes Vós?"

A história da Igreja responde:

"Ao ouvido dos pecadores o Crucificado murmura uma palavra de perdão; aos que tremem, uma palavra de confiança; às almas puras, uma palavra de amor".
(O livro de J. Hoppenot de que colhem esta formosa página intitula-se Le Crucifix dans l'Histoire, dans l'art, dans l'ame des Saints et dans notre Vie.)

Uma alma de virtudes eminentes compôs estas estrófes admiráveis que tecem a mais sentida e a mais fervorosa das preces:

Meu Crucificado!
Eu O levo a toda a parte;
Eu O prefiro a tudo;

Quando caio, Ele me levanta;
Quando choro, Ele me consola;
Quando sofro, Ele me cura;
Quando tremo, Ele me tranquiliza;
Quando chamo, Ele me responde.

Meu Crucificado!
Ele é a luz, que me ilumina;
O sol, que me aquece;
O alimento, que me nutre;
A fonte que me desaltera;
A doçura, que me cura;
O bálsamo, que me cura;
A beleza, que me encanta!

Meu Crucificado!
Ele é a solidão, em que repouso;
O reduto, a que me acolho;
A frágua, que me consome;
O oceano, em que mergulho;
O abismo, em que me perco!

Feliz a inspiração do Revmo. Cônego J.Cabral, no tema escolhido para estas páginas de espiritualidade. É grande, é muito grande, no Brasil, o número de corações, que consagram fervorosa à Sagrada Paixão de nosso Redentor. Com quanto enlevo, com que intenso júbilo, acolherão estas almas o livro precioso do ilustre publicista!

Através destes capítulos enriquecidos, pela mais pura doutrina dos Santos Padres, aprenderemos as lições de Jesus Cristo agonizante.

Quantos e quão preciosos ensinamentos, quantas consolações profundas, iremos encontrar nas palavras que o Mestre Divino pronunciou na agonia do Calvário! Que soma incalculável de benefícios espirituais vão estas páginas espalhar na seara imensa das almas!

Sede bendito, ó Testamento emocionate do Redentor dos homens!
Sede bem-vindas, ó páginas consoladoras!

(Padre Heliodoro Pires, São Paulo, dia do Preciosíssimo Sangue de N.S.Jesus Cristo, 1-VII-1936)

http://paramaiorgloriadedeus.blogspot.com.br/2017/07/crucifixo-e-escola-da-oracao.html#more

sábado, 5 de agosto de 2017

MIGUEL DE MOLINOS (1628-1697)



O sacerdote católico espanhol, Miguel de Molinos aparece como sendo um dos mais controvertidos personagens da história da Igreja Católica. Miguel de Molinos nasceu em 1628, em Saragoça, Espanha, em berço abastado. Embora o material de pesquisa sobre sua família seja escasso, supõe-se que Molinos tenha sido um dos últimos filhos, senão o mais novo, de uma nobre família dessa região, pois era costume da época que os filhos mais jovens da nobreza fossem confiados à Igreja para serem preparados à vida religiosa. Em Valência, Molinos foi educado no Colégio Jesuíta de São Paulo.

Possuidor de grandes habilidades naturais à religiosidade, Molinos se dedicou ao serviço de seus companheiros sem qualquer tipo de ganho para si próprio. Sua vida foi inteiramente consagrada a seus semelhantes e marcada por grande piedade e generosidade. Com o aumento de sua popularidade, a procura pelos conselhos do Padre Molinos se tornou tão grande que ele começou a receber uma certa pressão no sentido de registrar seu pensamento e seus ensinamentos. Deste modo, muitos outros teriam acesso a sua doutrina. Assim, Molinos, por volta de 1673,começou a escrever seu método de consecução espiritual. Em 1675, Molinos publicou seu "O Guia Espiritual", no qual ele expunha, demodo claro e direto, a sua doutrina mística para aquele buscador que desejava enxergar.

O Guia Espiritual de Miguel de Molinos, escrito sem a pompa e a especulativa erudição dos teólogos e autores da época, rapidamente ganhou ocoração dos seus leitores, atingindo, com igual força, tanto o profanoquanto o doutor, alcançando fama na Itália e na Espanha. Em seguida, esselivro ganharia novas traduções, aumentando ainda mais a fama de seu autorpor toda a Europa. Molinos adquiriu tal reputação, que seu nome e suas idéias começaram achamar a atenção de certos segmentos do clero, principalmente de alguns Jesuítas e Dominicanos que, temendo um crescimento ainda maior de sua popularidade, resolveram pôr um fim em sua crescente fama, evitando assim apossibilidade de um novo cisma dentro da Igreja. A morte de Miguel de Molinos na prisão, em dezembro de 1697, e a constante perseguição imposta àqueles que ainda seguiam os seus ensinamentos acabariam por decretar o fim da curta história dos Quietistas.

A filosofia de Molinos, conforme seu Guia Espiritual, diz que, no sublime propósito de se realizar a perfeição cristã, bem como a suprema comunhão com Deus, o homem deverá se submeter inteiramente aos Seus desígnios, com humildade, anulando por completo a sua vontade individual. A vida em si deveria ser um contínuo ato de amor e fé. A via espiritual, portanto, era resumida por uma perfeita quietude de desejos, passividade total da alma suplicante diante de Deus e, de tal modo deveria ser ocomportamento do buscador, que mesmo o desejo de sucesso nessa demanda teriaque ser excluído. Da mesma forma, o desejo de felicidades mundanas, virtudes e qualquer outro tipo de atividade humana, tudo era tido como obstáculo entre a alma e Deus, devendo ser, igualmente, excluídos de seu ser. Conforme Molinos, aquela alma, que porventura galgasse tal estado de aniquilação, se encontraria em uma condição na qual lhe seria impossível cometer erros ou pecados. E mesmo se por acaso essa abençoada alma parecesse pecadora ante os olhos mundanos, ou até se ela parecesse, de modo exterior, violar qualquer um dos mandamentos de Deus ou algum dos preceitos da Igreja, interiormente, ela estaria em perfeita quietude, onde a verdade de sua santidade apenas revelaria em seus atos a própria vontade de Deus. Nesse estado de plena iluminação, as orações, penitências e qualquer luta contra as tentações já não mais seriam os instrumentos utilizados por ela,pois ela estava unida ao Criador.

QUIETISMO

O quietismo é uma concepção místico-religiosa que busca a união do homem com Deus por meio de um estado de passividade ("quiete") e de total abandono davontade que atenua ou suprime toda responsabilidade moral. No âmbito do cristianismo oriental, elementos quietistas podem ser encontrados entre os messalianos ou êuquitas, condenados pelo Concílio de Éfeso (431), e entre os monges hesicastas do monte Atos.

No Ocidente, o quietismo está expresso emalgumas tendências dos cátaros, dos Irmãos do Livre Espírito, dos beguinos ou begardos e dos alumbrados espanhóis. A doutrina do quietismo, porém, só se explicitou no século XVII no âmbito de algumas correntes no seio da Igreja católica, influenciadas pelo protestantismo. Seu principal expoente foi o espanhol Miguel de Molinos, confessor e diretor espiritual muito apreciado em Roma desde 1663, que, em seu "Guia espiritual", sustentava aperfeita quietude e passividade da alma diante de Deus, de forma a excluir toda atividade e aspiração própria do homem. Em 1675, publicou o "Breve tratado sobre a comunhão cotidiana" e o "Guia espiritual que liberta a alma e a conduz pelo caminho interior para alcançar a perfeita contemplação e o rico tesouro da paz interior", em que estão contidos os princípios fundamentais do quietismo, encabeçados pelo princípio da superioridade da contemplação sobre a meditação. Dez anos mais tarde, ao que parece atendendo a solicitação explícita dos jesuítas, Molinos foi preso sob a acusação de heresia (1685). Obrigado a abjurar, por fim foi condenado à prisão perpétua, com a bula "Caelestis Pastor" do papa Inocêncio XI (1687).

Na França, Madame Guyon e seu confessor, F. Lacombe, promoveram o desenvolvimento de tendências quietistas, cujos vestígios também estão presentes na polêmica sobre o "amor puro" entre J. B. Bossuet e F. Fénelon, que terminou com a condenação das teses de Fénelon por Inocêncio XII (1699).

PENSAMENTOS DE MIGUEL DE MOLINOS

"A oração (...) é uma elevação da mente a Deus. E para colocar a mente emDeus, que é a contemplação, é necessário deixar as considerações ediscursos, mesmo elevados, que constituem a meditação. Esta, dizem ossantos, busca, expõe, rumina ou mastiga o alimento divino. E, se estamossempre mastigando ou ruminando a comida na boca e nunca engolimos parasossegá-la e dirigi-la com quietude no estômago, não poderemos viver, nemsustentar-nos, ou tirar proveito algum. A meditação também é um meio parachegar ao término e ao fim, que é a contemplação. A contemplação é encontrara coisa, é saborear e sossegar o alimento divino no estômago, é o fim e aconclusão do caminho, e é chegar a entender e conhecer Deus."

“Veste-te desse nada, dessa miséria, e procura que essa miséria e esse nada seja teu contínuo sustento e morada, até aprofundar-te nela; eu te aseguro que, sendo tu desta maneira o nada, seja o Senhor o todo em tua alma”.

“Ultimamente não mires nada, não desejes nada, não queiras nada, não solicites saber nada, e em tudo viverá tua alma em quietude e gozo descansada. (…) Caminha, caminha por esta segura senda e procura nesse nada submergir-te, perder-te, abismar-te, se queres aniquilar-te, unir-te e transformar-te”.

"O que tu hás de fazer será não fazer nada, procura nesse nada submergir-te... O que importa é preparar teu coração a maneira de um papel em branco, aonde a divina sabedoria possa formar os caracteres a seu gosto".

"A atividade natural é inimiga da Graça, impedindo a ação de Deus e a verdadeira perfeição, porque Deus deseja operar em nós, sem nós".


(A perfeita aniquilação): "ter-se em baixa estima a si mesmo e a todas as coisas do mundo".

"Veste-te desse nada e dessa miséria, e procura que essa miséria e esse nada sejam teu continuo sustento e morada".

"Pelo caminho do nada hás de chegar a perder-te em Deus, que é o último grau da perfeição".

(Sobre a auto-estima) “Esta hidra de sete cabeças do amor próprio se ha de degolar para chegar ao cume do alto monte da paz”.

“Não está a graça em gozar, senão em padecer com quietude e resignação".

. “As tentações, são uma grande felicidade. O modo de rechaça-las é não fazer caso delas, porque a maior das tentações é não te-las”.

“O verdadeiro amor se conhece em seus frutos, que são uma humilhação profunda e um desejo sincero de ser mortificado e desprezado. No fundo de nossa alma está o assento da felicidade, alí nos descobre o Senhor suas maravilhas. Perdoamo-nos, submersor-nos no mar imenso de sua bondade infinita, e fiquemos ali fixos e imóveis. Morramos sem cessar para nós mesmos; conheçamos nossa miséria”.


De como a tentação de pecar sempre ajuda no nosso progresso espiritual:

"Você deveria saber que o impulso para o pecado sempre traz grande benefício para uma pessoa íntegra. Imagine você dois indivíduos, sendo um deles o tipo de pessoa que experimenta pouca ou nenhuma tentação, enquanto o outro é muito perturbado por isso. Neste último, a simples presença de certas realidades atinge o seu eu exterior, de modo que ele é levado à cólera, à vaidade ou à sensualidade, de acordo com o estímulo que recebe. Mas com seu discernimento mais alto, ele permanece firme e imóvel, decidido a não ceder à sua fraqueza, seja ela qual for. Talvez se trate de uma fraqueza enraizada no seu próprio temperamento, assim como algumas pessoas são irascíveis, ou vaidosas, ou qualquer outra coisa, mas não desejam cometer esses pecados. Estas são pessoas muito mais dignas de louvor, e merecendo maior recompensa, do que o primeiro tipo, pois a perfeição da virtude nasce na luta, e são Paulo diz que "a virtude se aperfeiçoa na fraqueza"(IICoríntios 12,19). Ser tentado não é defeito, mas sim consentir no pecado. De fato, se alguém que está na plena posse de suas faculdades tivesse o poder de fazer com que a tentação não existisse, essa pessoa deixaria de exercitar aquele poder, pois sem a tentação nós não seríamos testados em todas as coisas e em tudo o que nós fazemos, inconscientes do perigo de certas coisas, e sem a honra da batalha e da vitória. A tentação nos faz trabalhar mais duramente na prática da virtude, e é como um açoite que nos ensina a vigilância e a prudência; pois quanto mais fraca é uma pessoa, tanto mais ela deveria armar-se com a força que conduz à vitória; pois a virtude, como o vício, é uma questão de vontade".

http://coracaomistico.blogspot.com.br/2007/12/mestre-eckhart-1260-1328.html

MESTRE ECKHART (1260-1328)


 Um dos mais famosos místicos da Idade Média, neste momento em plena fase de "redescoberta", Eckhart nasceu em Hochheim, Alemanha, em 1260. Aos 15 anos entrou para a ordem dos dominicanos. Foi vigário da Turíngia e depois provincial dos dominicanos na Saxônia. Nesse período, envolveu-se em intensos debates teológicos, divergindo muito dos franciscanos. A partir de 1314, morando em Estrasburgo, pregou para um grupo de freiras contemplativas. A audácia e amplitude do seu pensamento (com vigorosas incursões pela metafísica), aliadas às disputas teológicas que caracterizaram o período, provocaram uma bula de 1329 (quando ele já tinha falecido - Eckhart faleceu em 1328) em que o papa João XXII (segundo se diz, muito a contragosto) condenava 28 conceitos extraídos de suas obras (17 como heréticos e 11 como mal sonantes ou temerários). Antes que isso acontecesse, Eckhart já tinha apresentado, publicamente, a sua retratação por quaisquer impropriedades que o Vaticano viesse a encontrar em seus textos.
Muitos místicos seguiram e admiraram Mestre Eckhart, entre eles: Johannes Tauler, o beato Henrique Suso, santa Juliana de Norwich, o beato Ruysbroeck, Walter Hilton e o cardeal Nicolau de Cusa; mais tarde, foram influenciados por ele, santa Teresa de Ávila e são João da Cruz.

PENSAMENTOS DE MESTRE ECKHART

Sobre a maneira mais poderosa de rezar:

"A maneira mais poderosa de rezar, aquela que é capaz de obter qualquer coisa e é mais meritória, é a que deriva de uma mente desimpedida. Quanto mais desimpedida a mente, mais poderosa, útil e perfeita será a oração. O que é uma mente desimpedida? É aquela que não é perturbada nem alterada por nada, que não se apegou a qualquer modo especial de vida ou de devoção, e que não procura o seu próprio bem em nada, mas que está completamente imersa na preciosa vontadede Deus, tendo saído daquilo que lhe é próprio. Não há obra nenhuma que homens e mulheres possam executar, por mais pequena que seja, que não extraia daí o seu poder e a sua força".

De como a tentação de pecar sempre ajuda no nosso progresso espiritual:

"Você deveria saber que o impulso para o pecado sempre traz grande benefício para uma pessoa íntegra. Imagine você dois indivíduos, sendo um deles o tipo de pessoa que experimenta pouca ou nenhuma tentação, enquanto o outro é muito perturbado por isso. Neste último, a simples presença de certas realidades atinge o seu eu exterior, de modo que ele é levado à cólera, à vaidade ou à sensualidade, de acordo com o estímulo que recebe. Mas com seu discernimento mais alto, ele permanece firme e imóvel, decidido a não ceder à sua fraqueza, seja ela qual for. Talvez se trate de uma fraqueza enraizada no seu próprio temperamento, assim como algumas pessoas são irascíveis, ou vaidosas, ou qualquer outra coisa, mas não desejam cometer esses pecados. Estas são pessoas muito mais dignas de louvor, e merecendo maior recompensa, do que o primeiro tipo, pois a perfeição da virtude nasce na luta, e são Paulo diz que "a virtude se aperfeiçoa na fraqueza"(IICoríntios 12,19). Ser tentado não é defeito, mas sim consentir no pecado. De fato, se alguém que está na plena posse de suas faculdades tivesse o poder de fazer com que a tentação não existisse, essa pessoa deixaria de exercitar aquele poder, pois sem a tentação nós não seríamos testados em todas as coisas e em tudo o que nós fazemos, inconscientes do perigo de certas coisas, e sem a honra da batalha e da vitória. A tentação nos faz trabalhar mais duramente na prática da virtude, e é como um açoite que nos ensina a vigilância e a prudência; pois quanto maisfraca é uma pessoa, tanto mais ela deveria armar-se com a força que conduz à vitória; pois a virtude, como o vício, é uma questão de vontade".

"Estar vazio de toda criatura é estar cheio de Deus. E estar cheio de toda criatura é estar vazio de Deus"

"A alma deve ansiar por Deus a fim de se inflamar com o amor Dele; mas,se ela ainda nao puder ansiar pelo anseio, então deve ansiar pelo anseio. O anseio pelo anseio também vem de Deus"

"Se te amas, ama a todos os demais como a ti mesmo. Enquanto amares outra pessoa menos do que amas a ti mesmo, não conseguirás realmente amar a ti mesmo, mas se a todos amares igualmente, sem exclusão de ti, ama-los-ás como uma só pessoa, e essa pessoa é tanto Deus quanto homem"

"Embora o homem não possa saber o que Deus é, mesmo assim ele pode estar sempre bem consciente do que Deus não é... Assim, satisfeita com nada, a mente clama pelo mais elevado de todos os bens"

"Devemos ser um só Filho que o Pai gerou eternamente. Quando o Pai gerou todas as criaturas, gerou-me a mim e eu emanei com todas as criaturas e permaneci apesar disto dentro do Pai".

"Mudei-me portanto em Deus e Ele me fez um consigo, e assim, pelo Deus vivo, não há distinção entre nós... Algumas pessoas imaginam que vão ver Deus, que verão Deus como se Ele estivesse além e elas ali, mas não é assim. Deus e eu: somos um. Conhecendo Deus, tomo-o para mim. Amando a Deus, penetro-o"

"O princípio não tem outra razão que o fim, pois no fim último repousa tudo que jamais foi dotado de razão. O fim último do ser são as trevas ou o não conhecimento da divindade escondida, onde a luz ilumina .... Aquele que é sem nome, que é a negação de todos osnomes, e jamais teve um nome. .... No fundo da alma, o Fundo de Deus e o fundo da alma sendo senão um só e mesmo fundo. Quão mais Te procuramos, menos Te encontramos. Tu deverás procurá-lo de forma que jamais o encontre; se tu não o procurares, encontrá-lo-á"

"Bondade e justiça são um vestido que envolve Deus. Tirem de Deus tudo o que o reveste, e tomem-no puro em suas roupas íntimas, quando Ele, descoberto e desnudo, está em si mesmo"

"Que Deus seja um, isto é a divindade completa de Deus... Se assim não fora, Deus não seria Deus... Todo número depende do um, mas o um não depende de ninguém"

"Deus não está em nenhum lugar. O menor de Deus repleta todas as criaturas e sua grandeza não se encontra em nenhum lugar".

"No mesmo movimento em que o Pai gera o Filho Unigênito em mim, gero-o eu de volta para dentro do Pai".

"Quando o homem libera e põe a descoberto a Luz divina que Deus por sua natureza criou nele, então se revela a Imagem de Deus nele. Ao nascer se conhece a revelação de Deus. Dizer que o Filho nasceu do Pai significa que o Pai, em forma paterna, revela seu Mistério a ele. Por isso: quanto mais e com maior claridade o homem põe a descoberto a imagem de Deus, com tanto mais claridade Deus nasce nele. O nascer de Deus se entende assim: o Pai põe a descoberto a Imagem e brilha no homem".

"Na máxima disponibilidade (desprendimento) o conhecimento é sem conhecimento, o amor sem amor e a luz escuridão... Pobres de espírito são aqueles que entregaram todas as coisas a Deus, assim como Ele as possuía quando ainda não éramos".

"Se um homem deixou um reino ou mesmo todas as coisas e se não tiver deixado a si mesmo, não terá, na verdade, deixado nada. Se deixar a si mesmo, embora fique na honra e na riqueza ou continue a possuir o que quer que seja, o homem deixou efetivamente tudo".

"Nada faz mais verdadeiro o homem do que a renúncia da própria vontade. Sem esta renúncia em todas as coisas, não fazemos nada diante de Deus".

"A gente não precisa pensar tanto no que deve fazer; deve-se antes pensar no que se deve ser. Se alguém é bom, também boas serão suas obras... As obras não nos santificam. Nós é que santificamos as obras".

"O homem não deve se contentar com um Deus pensado, pois quando o pensamento passa, passa também Deus. Deve-se antes possuir um Deus essencial que de muito ultrapassa os pensamentos dos homens e a todas as criaturas. Este Deus não passa".

"Se alguém está como esteve Paulo em arrebatamento místico e sabe que algum doente deseja um prato de sopa, é melhor deixar o arrebatamento e ir atender ao enfermo necessitado".

"Na contemplação você se serve a você mesmo, nas boas obras serve a muita gente".

"Uma pessoa que dominou sua vida vale mais do que mil pessoas que dominaram somente o conteúdo de livros. Ninguém pode conseguir nada na vida sem Deus. Se eu estivese à procura de um mestre para aprender, eu deveria ir a Paris ou frequentar as faculdades onde se fazem os mais altos estudos. Mas se eu estiver interessado na perfeição da vida, eles lá nada me poderão informar.Aonde, pois, deveria eu ir? A alguém que tem uma natureza pura e livre e a nenhum outro lugar: nele eu encontraria a resposta para aquilo que tão ansiosamente estou buscando. Homens, por que buscais ossos entre os mortos? Por que não buscais a vida eterna nos lugares santos da vida? Os mortos nada podem dar ou tomar. Se um anjo tivesse que buscar Deus fora de Deus, ele o buscaria numa criatura pura, livre, plenamente disponível e não em outro lugar. A perfeição depende somente do acolher a pobreza, a miséria, as durezas, os desapontamentos e tudo o que vier no decurso da vida, livremente, avidamente até a morte, como se a pessoa estivesse preparada para tal. Portanto, sem emocionar-se nem sequer perguntar porquê".

"Ele é a riqueza em profusão porque é um. Ele é o primeiro e o supremo porque é um. Por isso o Um penetra todas e cada uma das coisas e permanece um, unificando o separado. Por isso é que seis não são duas vezes três, mas seis vezes um".

"Um significa aquilo ao qual não se pode acrescentar nada... Um é a negação da negação. Todas as criaturas carregam uma negação em si; uma nega a outra. Um anjo tem em si uma negação pelo fato de não poder ser outro anjo. Deus, porém, é a negação da negação. Ele é um e nega todos os outros, pois nada existe fora de Deus. Todas as criaturas são em Deus e são sua própria divindade e isto significa a plenitude".

Comentando o prólogo do evangelho de S. João ("no princípio"):

"Com esta palavra nos é dado compreender que nós somos um único Filho que o Pai gerou eternamente da escondida escuridão da eterna escondida, mas permanecendo no primeiro princípio da primeira pureza que lá é a plenitude única de toda a pureza. Aqui eu descansei e dormi eternamente no secreto conhecimento do Pai eterno, ficando dentro e não sendo ainda proferido. Desta pureza Ele me gerou eternamente como o seu Filho unigênito, na imagem de sua eterna paternidade, para que eu seja Pai e gere aquele do qual eu fui gerado"

"Falei muitas vezes de uma luz que está na alma, de uma luz incriada e incriável... Assim posso em verdade dizer 'outra vez' que essa luz tem mais unidade com Deus do que com qualquer outra força ' da alma', com a qual está em unidade de ser. Pois deveis saber que essa luz, no ser de minha alma, não é mais nobre do que a ínfima e a mais grosseira das forças, como o ouvir ou o ver ou qualquer outra força, simples. Enquanto se tomam as forças 'da alma' no ser, elas são todas um e igualmente nobres. Tomando-se, porém,essas forças no seu operar, uma é muito mais nobre e elevada do que a outra".

"Uma imagem propriamente dita é uma emanação formal simples que transmite toda a essência nua e pura,… uma emanação a partir das profundidades do silêncio, excluindo tudo o que chega de fora. É uma forma de vida, como se estivéssemos a imaginar algo que inflasse por si próprio e em si próprio e depois fervesse sem ferver por fora nesta ocasião compreendida ".

"Quando o homem se une totalmente a Deus com amor, desliga-se das imagens, formado e transformado na conformidade divina na qual é um com Deus"

"O homem não tem necessidade de pedir a Deus, pelo contrário: pode exigir-lho, porque a altura da deidade só pode olhar o fundo da humildade, o homem humilde e Deus são um e não dois".

"Deus é como o sol. Aquilo que é o mais alto na sua profundidade sem fundo responde àquilo que é o mais baixo no fundo da humildade. O homem verdadeiramente humilde não tem necessidade de pedir a Deus; pode obrigar Deus, porque a altura da deidade só tem olhos para a profundidade da humildade"

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O que é estar em Estado de Graça

Imagem relacionada“Não oferecer resistência à vida é estar em estado de graça, de descanso e de luz. Nesse estado, nada depende de as coisas serem boas ou ruins. É quase paradoxal, mas como já não existe mais uma dependência interior quanto à forma, as circunstâncias gerais da sua vida, as formas externas, tendem a melhorar consideravelmente. As coisas, as pessoas ou as circunstâncias que você desejava para a sua felicidade vêm agora até você sem qualquer esforço, e você está livre para apreciá-las enquanto durarem. Todas essas coisas naturalmente vão acabar, os ciclos virão e irão, mas com o desaparecimento da dependência não há mais medo de perdas . A vida flui com facilidade.”
Eckhart Tolle

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Virtudes e realização

PARA TER VIRTUDES
1. VIRTUDES E REALIZAÇÃO
Responsáveis pela nossa vida
Quando lemos atentamente o Evangelho, percebemos que uma das coisas que Cristo nos lembra, de diversas maneiras, é que nós somos responsáveis pela realização da nossa vida.
Certamente, a “vida cristã” depende essencialmente de Deus. A própria vida humana, o fato de existirmos, já é um grande dom de Deus. E, muito mais ainda, o é a graça do Espírito Santo, que inicia, inspira, fortalece e orienta toda a realização do cristão (guiando-o até a meta, que é a santidade). Mas lembre-se de que esse dom da graça não é dado a uma pedra nem a um gato, mas a seres humanos, inteligentes e livres, que pensam e decidem, que podem dizer “sim” e dizer “não”. Precisamos, por isso, de corresponder livremente, voluntariamente, aos dons recebidos. Depende de nós fazê-los frutificar ou desperdiçá-los.
Para ilustrar a importância dessa correspondência, Cristo – em sua pedagogia divina – recorre a diversas imagens, para que todos o possamos entender.
Várias vezes, por exemplo, compara o nosso desenvolvimento cristão ao das sementes de trigo, que são um “dom” que o semeador lança à terra. Podem crescer, secar, deixar-se levar pelos pássaros ou sufocar pelo mato…; ou podem germinar e ir se desenvolvendo até dar o fruto pleno. Ser terra limpa, acolhedora e fecunda, depende de nós (cf. Mt 13, 4 ss).
“Nós somos o edifício de Deus”
Outra comparação, que tanto Jesus como São Paulo utilizam – e sobre a qual vamos nos deter agora –, é a da construção de um edifício. A vida cristã deve ser edificada como uma casa. Nessa empreitada, poderíamos fracassar por três motivos:
– Por ter um alicerce inconsistente, que não suporta o peso do edifício.
– Por ter um mau projeto de execução, que deixa a obra parada pela metade.
– Por ter um alicerce bom e um projeto excelente, mas pretender executá-lo com material ruim.
A falha do alicerce é mencionada por Cristo no final do Discurso da Montanha: Aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre rocha (Mt 7,24). Houve enchentes, chuvas torrenciais e vendavais, mas a casa não desabou, porque o alicerce era firme. Pelo contrário, aquele que escuta as palavras de Cristo e não as pratica constrói sobe areia: as tempestades derrubaram a casa, e grande foi a sua ruína (Mt 7,27)
Da segunda falha, a do mau projeto de execução, falou Jesus a uma multidão que o seguia. Se não me engano, foi a única vez em que Cristo se referiu a um homem ridículo, que move os outros a riso. Vamos ouvi-lo: Quem, dentre vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro a calcular a despesa, para ver se tem com que acabá-la? Não aconteça que, depois de assentar os alicerces, não a podendo acabar, todos os que viram comecem a zombar dele dizendo: “Este homem principiou a edificar mas não pôde terminar” (Lc  14,28-30). Quantas vidas ficam a meia construção!
A terceira falha, a dos maus materiais,  é descrita por São Paulo. Vamos vê-la com mais calma, pois pode esclarecer-nos o papel das virtudes na realização cristã.
São Paulo recolhe em parte as comparações anteriores do Senhor, quando diz: Nós somos edifício de Deus… Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que já foi posto: Jesus Cristo. Fica claro com isso que a nossa vida tem que ser edificada com o auxílio de Deus; e fica claro também que só a edificaremos bem se o alicerce for a fé em Cristo, a rocha da palavra de Cristo.
Mas a comparação de São Paulo vai além: Veja cada um, porém, como edifica…Se alguém edifica sobre este fundamento com ouro, ou com prata, ou com pedras preciosas, com madeira, ou com feno, ou com palha, a obra de cada um ficará patente, pois o dia do Senhor [o dia do Juízo] a fará conhecer. Pelo fogo será revelada, e o fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a construção resistir, o construtor receberá a recompensase pegar fogo, arcará com os danos (1 Cor, 3,9-15). Aqui menciona, simbolicamente, os materiais de construção: uns podem ser de grande qualidade; outros,  frágeis e perecíveis.
Você que acha dessas palavras de São Paulo? Talvez seja preciso esclarecer previamente duas coisas:
Primeira, que, se bem as virtudes são um importante “material de construção”, não o são só elas; também são “material” as orações, os sacramentos, os sacrifícios e as obras de caridade, etc. Mas não há a mínima dúvida de que as virtudes são um “material” imprescindível. A prova disso é que, quando a Igreja inicia um processo de canonização, a primeira coisa que estuda é a qualidade das virtudes do possível santo a ser canonizado.
Segunda, que o “dia” de que fala São Paulo é –como já apontávamos – o Dia do Juízo em que, sob o olhar de Deus, tudo ficará claro: o que é ouro, prata e pedras preciosas; e o que é apenas madeira, feno ou palha… Ao mesmo tempo, o Apóstolo faz uma alusão ao “fogo” purificador do Purgatório. Mas agora não iremos tratar disso.  Estamos centrando a atenção nesse valioso “material” que são as virtudes.
Ao longo destas páginas, não faltará uma breve consideração  sobre as virtudes teologais (fé, esperança e caridade). No entanto, o foco ficará concentrado nas virtudes cardeais (prudência, justiça, fortaleza e temperança), e vamos deter-nos especialmente no que é preciso para adquirir e cultivar essas virtudes.
Um breve exame sobe o ouro e a palha
Muito embora estejamos ainda nas “preliminares” das nossas reflexões, penso que pode ajudar-nos  começar – para “aquecer o motor” – com um pequeno exame prático sobre o que é ouro e o que é palha nas nossas virtudes. Vejamos. Como é que responderíamos às seguintes perguntas?
Como anda a nossa fortaleza? Você acha que enfrenta os deveres e as dificuldades com o ouro da coragem? Ou fica com a palha da queixa e da reclamação? Sofre-as com a elegância do topázio e com a firmeza do diamante, ou, quando aparece a dor ou os problemas, a sua alma se racha como uma madeira carcomida? Você tem a prata de lei da paciência, ou o feno combustível da irritação e o desânimo perante as contrariedades?
A quantas anda a sua temperança? É o ouro da moderação no comer e no beber, da capacidade de dizer não à gula, à tirania da imaginação, da sensualidade, dos estados de  humor, da verborreia… Ou então é a palha do excesso na comida e da bebida, da obsessão mórbida pelo sexo, da preguiça e o desleixo no trabalho, das distrações constantes unidas a perdas de tempo, da moleza para acordar na hora certa, da autocompaixão…
E que dizer da nossa prudência? Quem é rico desse ouro? Sem dúvida, a pessoa responsável e previdente, que prepara com tempo os trabalhos, os deveres e a distribuição do tempo; que pensa, pondera, reza e pede conselho antes de tomar uma decisão importante; que age na hora certa; que emprega os meios para formar retamente a sua consciência sobre o certo e o errado… Pelo contrário, só tem feno e palha a pessoa que funciona sem reflexão, por impulso ou palpite; que vai, sem pensar, atrás do que “os outros” fazem; que se acha espontânea só quando satisfaz seus caprichos; que é escrava do que “todo o mundo” diz e faz, assumindo certas ideias e atitudes só porque acha que são “atuais”, sem avaliar se são “verdadeiras” e justas…
Por último, será que, no dia do Juízo, Cristo vai dizer que você viveu a justiça? Não acha que talvez lhe diga que acumulou muita palha combustível: maus juízos sobre os outros; difamações e calúnias; competitividade desleal no trabalho; prejuízos causados por irresponsabilidade no cumprimento do dever, por faltar à palavra dada, por enganar nas transações, por não colaborar em nada para que cessem as injustiças sociais … Pensando no ouro, convido-o desde já a ser mais justo para com Deus (honrá-lo, agradecer-lhe, obedecer-lhe, seguir os seus Mandamentos…); a ser exemplar e generoso no cumprimento dos deveres familiares, profissionais e sociais; a tratar com igualdade todas as pessoas, sem admitir discriminações; a não se deixar arrastar por preconceitos de qualquer tipo ou por preferências injustas… Só isso, por ora.
Como vê, há muito “material de construção” a “adquirir” e muito a “descartar”. Não permita que o dia do Juízo o encontre como aquele pobre homem que provocava o riso dos outros: Este homem principiou a edificar mas não pôde terminar (Lc  14,30).

http://padrefaus.org/2013/07/02/virtudes-e-realizacao/

Vontade: “atos deliberados”

[PARA TER VIRTUDES]
13.  VONTADE: “ATOS DELIBERADOS”
Atos deliberados
A formação – dizíamos  – é um caminho necessário para adquirir as virtudes e, por isso, meditamos nos três passos que devem ser seguidos: contemplar exemplos de virtudes, deixar-nos cativar pela sua beleza, e aprofundar intelectualmente nelas (cap. 12).
Falta, porém, um quarto passo, sem o qual os outros três ficariam sendo mera teoria: a decisão de viver, na prática, dia a dia, as virtudes. O Catecismo quando diz que «as virtudes humanas são adquiridas pela educação», acrescenta: e «por atos deliberados» (n. 1810).
«Atos deliberados» não são teorias. Devem ser mesmo «ações» realizadas com «deliberação», ou seja, conscientemente. Por outras palavras, devem ser atos pensados, queridos e praticados.
Há atos em si mesmos bons, mas que não são deliberados.
Atos não deliberados
Não são deliberados, concretamente:
– Os atos puramente mecânicos, sempre repetidos, tão habituais que perderam o sentido. Todos temos desses atos “bons” automáticos, sem alma, desde saudações rotineiras até orações costumeiras. Não são hábitos virtuosos, isto é, uma sequência de atos pensados e queridos que geram virtudes; são meras “habituações”, repetições mecânicas.
A este propósito, vem-me à memória um filme antigo, da época do neorrealismo italiano, protagonizado por Aldo Fabrizi, ator muito popular. Encarnava no filme a figura de um operário que sobe num bonde de manhã cedo, sonolento e mal-humorado. Ao pagar o bilhete cumprimenta o cobrador, como todos os dias, resmungando um “Buon giorno” – “Bom dia”.
O cobrador responde, aborrecido: “Não custa nada cumprimentar!”. O outro se irrita: “Mas se acabo de dizer : Buon giorno”. E o cobrador retruca: Ma c’è Buon giorno e Buon giorno!”- “Mas há ‘Bom’ dia e ‘Bom dia’!”… Tinha toda a razão.
– Também são «indeliberadas» certas rotinas no trabalho, no relacionamento familiar, na prática religiosa. Acontece isso quando cada dia é uma vulgar fotocópia do dia ou da semana anterior, uma fotocópia cada vez mais esbatida, mais amarela e esvaziada de sentido. Não acha que essa má rotina já foi causa de  muitas decadências familiares, de declínios profissionais e de esmorecimentos religiosos…?
– Tampouco são «deliberados» comportamentos habituais, bons em si, mas que são apenas “reativos”. Não procedem de um querer lúcido, mas do “instinto” de “ficar bem” perante determinadas pessoas ou ambientes.
– De modo geral, como já sabe, também não são virtuosos os comportamentos viciados por uma intenção torta, como o interesse, a vaidade, a humilhação dos outros e o exibicionismo.
“Deliberações” decisivas
            Todos precisamos dar, na vida, viradas decisivas, sem as quais só teremos “continuísmo”: rotina e decadência. Essas viradas dependem, normalmente, de decisões refletidas – “agora vejo!”, “não posso continuar assim!” –, assumidas com uma vontade (um querer) eficaz. Por exemplo, decidirmo-nos a largar um vício; a parar de hesitar quando fica claro que devemos dizer “sim” sem mais delongas a uma vocação, a uma conversão, ao casamento, a ter mais um filho, a pedir perdão.
A partir de uma decisão dessas, sincera, a vida pode entrar numa nova “rota de virtudes”, que nos eleve muito, humana e espiritualmente. Naturalmente, a “conversão” é apenas o detonador de muitos atos virtuosos que deveremos praticar (falaremos disso no próximo capítulo).
Isso foi o que aconteceu com Santo Agostinho quando, após anos de reflexão, oração, hesitação, medo e angústia, resolveu pôr ponto final aos desvarios, abraçar fé católica, praticar a castidade e receber o batismo. Com a ajuda de Deus, foi o início de um dos roteiros mais maravilhosos de santidade, virtudes heroicas e sabedoria cristã da história.
Para isso, porém, é preciso que a vontade não fique num “desejaria”, mas que seja um “quero” formulado com toda a alma. Quantas vezes não se poderiam aplicar a nós estas palavras: «Um querer sem querer é o teu» (Caminho, n. 714); e ainda estas outras: «Dizes que sim, que queres. – Está bem. – Mas…queres como um avaro quer o seu ouro, como uma mãe quer ao seu filho, como um ambicioso quer as honras, ou como um pobre sensual o seu prazer? – Não? Então não queres» (Ibidem, n. 316).
Temos “boa vontade” ou “vontade boa”?
Há um ditado que diz que “o inferno está cheio de boas vontades”, daquelas vontades que, na realidade, não querem.
Para ter virtudes autênticas, insisto, são necessárias decisões iniciais firmes – “ vontades boas” –, que nos lancem a assumir, com coragem e fé em Deus, uma luta prolongada, com empenho incessante concretizado por meio de muitos atos deliberados pequenos e constantes. Só assim se forja o caráter e a personalidade do cristão.
Lembra o que dizia São Paulo? «Nas corridas de um estádio, todos correm, mas bem sabeis que um só recebe o prêmio. Correi, pois, de tal maneira que o consigais» (1 Cor9,24).
Não sei se corremos dessa maneira atrás das virtudes. Mas seria muito bom que o fizéssemos, começando por algumas., bem claras e definidas
Pense: Que metas de virtude tenho agora? Que corrida quero vencer? Talvez lhe custe dar uma resposta. Sabe por quê? Porque não pensa na vida como deveria fazê-lo.
Aquele que não se esforça por ter frequentemente momentos tranquilos e sinceros – paradas no meio da agitação diária – para meditar sobre a vida, fazer balanço e tirar conclusões, está se condenando a “ir tocando o barco” e a chegar ao porto errado,com o barco vazio de virtudes e atulhado de rotina.
Alguns meios de conseguir “deliberações decisivas”
É impossível decidir-se a ganhar virtudes sem meditar sobre elas, sem oração mental séria, sem exame de consciência frequente. “É que não sei fazê-lo” – talvez me diga. Não seja por isso. Não custa nada aprender, treinar e conseguir[1]. Para começar, sugiro-lhe o seguinte:
–logo que for possível e tiver um mínimo de preparo, faça um retiro espiritual
– veja o modo de participar (semanalmente, mensalmente…) de palestras ou meditações de espiritualidade cristã, para “abrir” os olhos e enriquecer a mente e o coração
– decida-se a dedicar todos os dias um tempo fixo a uma leitura meditada da Bíblia (todo cristão deveria fazê-lo!) e de algumas obras de espiritualidade cristã; mas que seja uma leitura refletida e “aplicada” às realidades da sua vida atual
– com toda a liberdade, sugiro-lhe que procure alguém que lhe possa dar, com regularidade – por exemplo, mensalmente –, uma orientação espiritual cristã: um diretor espiritual que conheça sua vida, seus problemas, suas aspirações e suas lutas, seus avanços e seus tropeços, e possa aconselhá-lo
– defina já, antes da passar para o próximo capítulo, a virtude mais “urgente”, a que mais falta lhe faz, e aponte para ela todas as baterias espirituais, de grosso e médio calibre (orações, sacrifícios, sacramentos, etc.), sob a moderação do orientador da sua alma…
São Josemaria dizia que, «de certo modo, a vida humana é um constante retorno à casa do nosso Pai. Retorno mediante a conversão do coração, que se traduz no desejo de mudar, na decisão firme de melhorar de vida, e que, portanto, se manifesta em atos de sacrifício e de doação» (É Cristo que passa, n. 64).
Peça a Deus essa resolução firme, que tantas vezes nos falta. Peça-lhe um “querer que queira”. Diga a seu coração que deseja ser sincero. E sinta o estímulo dos santos, que agiram assim, foram felizes e souberam fazer felizes os demais.
Oxalá todos nós pudéssemos fazer com plena sinceridade a oração que fazia São Josemaria Escrivá: «Meu Deus, quando é que me vou converter? (Forja, n. 112).


[1] Se desejar conhecer mais a fundo o modo de praticar esses meios de formação espiritual, pode ser útil ler o livro Para estar com Deus, São Paulo 2012, da Ed. Cultor de Livros (cultordelivros@cultordelivros.com.br)

http://padrefaus.org/2013/11/04/vontade-atos-deliberados/

Modo de Fazer Oração Mental, por Santo Afonso

  A meditação ou oração mental contém três partes: A Preparação A Meditação A Conclusão I. PREPARAÇÃO Na preparação fazem-se três atos: 1º A...