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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

50 conselhos de um monge do deserto para a sua vida


Muito temos a aprender com esses homens que viveram no deserto e lá se tornaram grandes mestres

Esses apotegmas – ditos – são do Padre do Deserto Pai Antônio, O Grande.
Muito temos a aprender com esses homens que enebriados pelos amor a Deus e pelo desejo de tornar real o motivo da nossa existência, ou seja, conhecer, amar e servir a Deus; foram para o deserto e lá se encontraram consigo mesmos e sua limitações, travaram inúmeras batalhas, principalmente com os maus pensamentos e comportamentos e por fim se tornaram grandes mestres. É realmente uma pena que muitos tenham se esquecido da grande fonte de ensinamentos que os padres nos oferecem, ensinamentos fundamentados na experiência, em vivências reais de homens santos.
É importante lembrar que os Padres viveram por volta de 300 depois de Cristo, o mais conhecido é Santo Antão, mas haviam muitos outros, padres e madres do deserto. Esse ponto faz com que a doutrina dos padres, quanto a espiritualidade, seja mais apurada e mística. Também devemos nos atentar para o fato de que esses homens e mulheres tinham uma dimensão muito elevada da sua decisão em viver no deserto, pois acreditavam que estavam se apresentando em nome dos homens para combater os inimigos dos homens e de Deus, eles fugiam do mundo e iam batalhar internamente e muitos externamentos com a concupiscência da carne e o demônio. É importante esse apontamento pois, muitos acham que eles eram fugitivos do mundo, num sentido pejorativo, mas não é o caso, eles eram homens muito corajosos, assim como o são os enclausurados de hoje – que também estão em um deserto – pois se entregam em nome dos homens para fazer oposição ao demônio e sua ação maligna no mundo.
Assim os ditos dos Padres podem nos ajudar muito em nossa vida espiritual, pois os Padres sempre partiam da prática, do cotiano para guiar seus discípulo até Deus:
Se o ferro é negligenciado e não recebe a manutenção devida, à força de permanecer sempre abandonado sem servir a nada, acaba comido pela ferrugem e já não tem mais nem utilidade nem beleza. O mesmo acontece com a alma. Se ela permanece inerte, se não se dedica a viver na virtude e a se voltar para Deus, se ela se priva da proteção divina por causa de suas más ações, em sua negligência ela se destrói sob o efeito do mal que ataca a matéria do corpo como o ferro se destrói sob o efeito da ferrugem, e não possui mais nem beleza, nem utilidade em vista da salvação.
Deus é bom, impassível, imutável. Mas se nós consideramos razoável e verdadeiro que Deus não muda, podemos nos perguntar como Ele se alegra com os bons e se zanga com os maus, como se irrita com os pecadores e é benevolente quando homenageado. A resposta é que Deus não se alegra nem se irrita, pois alegrar-se e entristecer-se são paixões. Da mesma forma, não há como homenageá-lO com presentes, pois então Ele seria dominado pelo prazer. Ora, é impossível, a partir das coisas humanas, ver no Divino o bem e o mal. Deus é Bom, e Ele não nos faz senão o bem, jamais o mal, pois em tudo isto Ele permanece sempre igual. Também nós, se, por nossa semelhança, perseveramos no bem, também nós nos unimos a Deus. Mas se, por dissenso, nos entregamos ao mal, nós nos separamos de Deus. Vivendo na virtude, ligamo-nos a Deus; mas levados ao mal, fazemos dEle nosso inimigo, cuja irritação não é gratuita, uma vez que os pecados impedem a Deus de brilhar em nós e nos atiram aos demônios que nos castigam. Se, pelas orações e pelo bem que fazemos, obtemos a absolvição de nossas faltas, não é por termos honrado a Deus ou tê-lO feito mudar, mas porque, curando nosso próprio mal com nossas ações e nosso retorno ao divino, desfrutamos novamente de sua bondade. Isto equivale a dizer então que Deus se afasta dos desonestos, e que o sol se esconde diante dos que são privados de visão.

A alma verdadeiramente dotada de razão, quando vê a felicidade dos bandidos e a prosperidade dos indignos, não se perturba imaginando aquilo que eles desfrutam nesta vida, como aqueles que, dentre os homens, são desprovidos de razão. Pois ela conhece claramente a instabilidade da fortuna, a incerteza da vida presente, a brevidade da existência e a integridade do Juízo. Esta alma crê que Deus não a esquecerá e lhe dará o alimento de que ela necessita.
A alma dotada de razão, que mantém firmemente sua boa resolução, conduz como um cavalo o ardor e o desejo, suas paixões privadas de razão. Se ela as domina, pressiona, se assenhora delas, ela é coroada e julgada digna da vida no céu. Ela recebe de Deus que a criou a recompensa por sua vitória e suas provações.
O bem não é visível, assim como as coisas do Céu. Mas o mal é visível, como as coisas da terra. O bem é aquilo que não se pode comparar. Assim, o homem que possui inteligência escolhe o melhor.
O corpo unido à alma passa das trevas do seio materno à luz do dia. Mas a alma unida ao corpo permanece ligada às trevas do corpo. Assim, convém ter aversão e endireitar o corpo, na medida em que ele se mostra adversário e inimigo da alma. A abundância e o prazer das comidas despertam no homem as paixões do mal. Mas a temperança reabsorve as paixões e salva a alma.

Pelo corpo, o homem é mortal. Mas pelo intelecto e pela palavra, ele é imortal. Mesmo se você se cala, você pensa. E se você pensa você fala. Pois é no silêncio que a inteligência engendra a palavra. E a palavra de reconhecimento dirigida a Deus é a salvação do homem.

A alma está no corpo. A inteligência está na alma. E a razão está na inteligência. Quando é concebido e glorificado por ela, Deus imortaliza a alma atribuindo-lhe a incorruptibilidade e as delícias eternas, Ele que por sua simples bondade fez existir todas as criaturas.

Nosso Deus deu a imortalidade às coisas do Céu e fez mutáveis as coisas da terra. Ele colocou a vida e o movimento no universo. A tudo Ele criou para o homem. Assim, não se deixe cativar pelas imagens deste mundo que lhe chegam pelo demônio, quando ele introduz em sua alma maus pensamentos. Mas procure imediatamente os bens celestiais, e diga a si mesmo: “Se eu quiser, eu tenho em mim o poder de rechaçar também este ataque da paixão. Mas se eu não o fizer, é porque quero satisfazer meu desejo.” Continue assim com este combate, que pode salvar sua alma.

O mal anda de mãos dadas com a natureza, como a ferrugem com o ferro, ou as excreções com o corpo. Mas não foi o ferreiro quem fez a ferrugem, nem os pais que fizeram a excreção. Da mesma forma, Deus não criou o mal. Ao contrário, Ele deu ao homem o conhecimento e o discernimento, para que ele pudesse fugir do mal, sabendo que este é nocivo e condenável. Assim, quando você ver alguém feliz por ser rico e poderoso, cuidado para não invejá-lo. É o demônio que cria esta ilusão. Mas tenha imediatamente a morte diante dos olhos, e você não cobiçará jamais nem o mal, nem as coisas deste mundo.

Aquele que faz da piedade a companhia de sua vida não permite ao mal entrar em sua alma. E se o mal não penetra nela, a alma permanece ao abrigo do perigo e da infelicidade. Nem as enganações do demônio, nem os golpes da sorte prevalecerão nestes homens. Pois Deus os livra do mal. Eles vivem sob sua guarda, longe de toda infelicidade, semelhantes a Ele. Se os elogiarem, eles rirão de quem os elogia; se os ofenderem, não responderão aos insultos. Pois eles não se comovem com o que é dito ou não dito a respeito deles.

O mal é uma afecção da matéria. Deus não está em causa. Ele deu aos homens o conhecimento, o saber, o discernimento do bem e do mal, e a liberdade. É a negligência e a irresponsabilidade dos homens que engendram as paixões do mal. Portanto, Deus não é sua causa. Os demônios caíram na maldade depois de uma escolha deliberada. O mesmo acontece com a maior parte dos homens.
Conceba as coisas de Deus. Seja piedoso, sem inveja, bom, casto, doce, contente tanto quanto possível, afável, alheio às disputas. Possua estas virtudes e as que lhes assemelham. Pois esta é a fortuna inviolável da alma: agradar a Deus pelo exercício dessas virtudes, não julgar ninguém, não dizer de ninguém: “Fulano é mau, ele pecou”. É melhor nos ocuparmos de nossos próprios males e examinarmos se nossa própria conduta agrada a Deus. Porque afinal, que sentido faz nos preocuparmos se o outro é mau?

A alma se compadece do corpo, mas o corpo não se compadece da alma. Assim, quando o corpo está moribundo, a alma sofre com ele. E quando o corpo está vigoroso e se sente bem, a alma experimenta a mesma alegria. Mas quando a alma se põe a refletir, o corpo não acompanha esta reflexão. Ele permanece abandonado a si mesmo. Pois a reflexão é um estado da alma, assim como a ignorância, o orgulho, a perfídia, a cupidez, o ódio, a inveja, a cólera, o desdém, a vanglória, a estima, a discórdia, o sentido do bem. Tudo isto é suscitado pela alma.

Dentre aqueles que se encontram num albergue, alguns recebem um leito, outros não o obtêm e deitam-se no chão, onde roncam tanto quanto os que dormem em sua cama. Após passarem a noite e deixarem pela manhã os leitos, eles partem juntos, cada qual levando apenas o que possui. O mesmo acontece com todos os que chegam a este mundo. Tanto os que viveram pobremente quanto aqueles que passaram a vida entre a glória e a riqueza, todos saem da vida como do albergue. Eles não levam consigo nada daquilo que fazia as delícias e a riqueza do mundo. Eles não levam senão suas próprias obras, boas ou más: aquilo que fizeram durante a vida.
O homem dotado de razão é combatido pelos sentidos de sua natureza racional, por meio das paixões da alma. Ora, existem cinco sentidos no corpo: a vista, o olfato, a audição, o paladar e o tato. A infeliz alma é capturada pelos cinco sentidos quando ela se submete às quatro paixões que lhes correspondem. Estas quatro paixões são a vanglória, a loucura insensata, a cólera e a lassidão. Portanto, a partir do momento em que, com prudência e reflexão, o homem levou a bom termo o combate e dominou as paixões, ele não é mais combatido. Sua alma está em paz, e ele recebe a coroa de Deus por sua vitória.

Não convém que a alma que é dotada de razão e que combate, se deixe ficar facilmente apreensiva e medrosa diante das provas que lhe acontecem, se ela não quiser ser ridicularizada por sua preguiça. Pois a alma perturbada pela imaginação das coisas do mundo esquece o que ela deve a si mesma. São as virtudes da alma que nos abrem o caminho aos bens eternos. A causa dos castigos está no mal que os homens fazem a si mesmos.
Os sábios devem lembrar-se continuamente: se suportamos nesta vida as pequenas penas passageiras, nós os homens usufruiremos após a morte de um imenso prazer e de delícias eternas. Desde logo, aquele que combate as paixões e que quer ser coroado por Deus, se ele cair, não deve se desencorajar, nem permanecer em sua queda desesperando de si. Mas é preciso que ele se levante, retome o combate, e busque novamente a coroa. Até o último suspiro é preciso lembrar-se desta queda que lhe sucedeu. Pois os golpes que o corpo recebe são a armadura das virtudes e asseguram a salvação da alma.
Aqueles que participam dos Jogos Olímpicos não recebem a coroa por vencerem um, dois ou três adversários, mas após terem vencido a todos os que enfrentaram. O mesmo acontece com o homem que quer ser coroado por Deus. Sua alma deve dedicar-se à sabedoria, não somente nas coisas do corpo, mas em tudo o que se refere a perdas e ganhos, invejas, alimentos, a vanglória, as injúrias, a morte e as afecções análogas.

Saiba que as dores físicas são naturais do corpo, uma vez que este é corruptível e material. Diante de tais sofrimentos, a alma instruída deve armar-se de perseverança e paciência, e não reprovar a Deus por haver criado o corpo.
Os homens não devem adquirir nada de mais. Se por acaso eles têm muito, será bom para eles saber que tudo nesta vida é, por natureza, corruptível, tudo desaparece facilmente, se degrada e se destrói. Assim, eles não devem se inquietar com o que quer que aconteça.
Se você quiser, você será escravo das paixões. Se você quiser, e você é livre, você não será sujeito às paixões. Pois Deus o criou livre. E aquele que sobrepuja as paixões da carne recebe a coroa da incorruptibilidade. Pois se não houvesse paixões não haveria virtudes, nem as coroas dadas por Deus aos homens que delas são dignos.
Se nos esforçamos para cuidar das paixões do corpo para evitar a zombaria daqueles com quem encontramos, com mais razão devemos nos esforçar para curar as paixões da alma, uma vez que seremos julgados na presença de Deus, para que não sejamos submetidos à desonra e ao ridículo. Pois nós somos livres. Assim, mesmo quando sentimos em nós o desejo de más ações, não querer fazê-las é possível, está ao nosso alcance levar uma vida que agrade a Deus. Jamais alguém poderá nos forçar a fazer algo de mal, se não quisermos. Combatendo assim, seremos de fato homens dignos de Deus, e viveremos como anjos no céu.
 A gratidão e a conduta virtuosa são os frutos do homem que mais agradam a Deus. Ora, os frutos da terra não amadurecem em uma hora: é preciso tempo, a chuva, cuidados. Da mesma forma, os frutos do homem não brilham senão pela ascese, o estudo, o tempo, a perseverança, a obstinação e a paciência. Mas mesmo que, ao ver em você estes frutos, alguns o considerem um homem piedoso, desconfie sempre de si mesmo enquanto você viver em um corpo, e considere que nada daquilo que vem de você agrada a Deus. Saiba que, de fato, não é fácil um homem permanecer até o fim puro de toda falta.
Quando você fecha a porta de sua casa e fica só, saiba que um anjo designado por Deus a cada homem estará com você. É este anjo que os gregos chamam de daimon interior. Ele não dorme jamais. É impossível enganá-lo. Ele está sempre com você, ele vê tudo e a escuridão não o atrapalha. Com ele, Deus está em toda parte. Pois não existe lugar nem matéria aonde Deus não esteja, uma vez que ele é maior do que tudo e tem todos os seres em sua mão.
O que é conforme a natureza não é pecado. O pecado é a escolha do mal. Comer não é pecado. Pecado é comer sem dar graças, sem decência nem temperança. Pois convém guardar em vida o corpo fora de toda imaginação perversa. O olhar, se é puro, tampouco é pecado. O pecado está em olhar com inveja, com orgulho ou com indiscrição. É não escutar pacificamente, mas com hostilidade. É não guardar a língua para a ação de graças e a prece, mas deixá-la dizer não importa o quê. É não usar as mãos para socorrer os outros, mas servir-se delas para matar e roubar. Desta forma, cada um dos nossos membros peca por si só, fazendo mal em lugar do bem, contra a vontade de Deus.

As condições nas quais nos encontramos malgrado nós mesmos e sem que o desejemos são uma prisão e um castigo. Assim, ame aquilo que você possui atualmente. Pois se você o assumir de má vontade, você estará punindo a si mesmo por sua própria conta. Na verdade, não existe senão um caminho: o desprezo pelas coisas do mundo.
Quem não se satisfaz com o que possui presentemente para viver, mas quer sempre mais, sujeita-se às paixões que perturbam a alma e lhe impõem pensamentos e imaginações. Pois possuir mais é um mal em si. Assim como uma túnica grande demais atrapalha quem disputa uma corrida, também o desejo de aumentar as riquezas impede a alma de combater e ser salva.
Aqueles que conhecem a Deus enchem-se de todas as bem-aventuranças da bondade. Aspirando às coisas do céu, eles desdenham as coisas desta vida. Tais homens não agradam à maioria, nem tentam agradá-la. Assim, muitos dentre os que não compreendem nada, não apenas os detestam, como zombam deles. Em sua pobreza, eles aceitam suportar tudo isso, sabendo que o que parece um mal à maioria, aos seus olhos é o bem. Pois aquele cujo intelecto se abre às coisas celestes, crê em Deus e compreende que todas as coisas são criações de sua vontade, enquanto que aquele cujo intelecto não se abre, jamais acreditará que este mundo é obra de Deus e que ele foi feito para a salvação do homem.
Deus, com sua palavra, destinou as espécies animais a diferentes usos sucessivos. Algumas devem ser comidas, outras devem servir. E ele criou o homem para contemplar suas vidas e suas obras e para reconhecê-las e interpretá-las. Que os homens se apliquem, assim, a não morrer sem antes contemplar e entender Deus e suas obras, como os animais desprovidos de razão. O homem deve saber que Deus tudo pode, e que nada se opõe Àquele que pode tudo. A partir do nada ele fez, e fez tudo o que quis com sua simples palavra, para a salvação dos homens.
Quando você tiver que se haver com alguém que disputa e combate a verdade e a evidência, corte imediatamente a disputa e afaste-se deste homem cuja inteligência está petrificada. Da mesma forma, com efeito, com que uma água ruim estraga os melhores vinhos, também as conversas sem sentido corrompem aqueles que consagram a vida e o pensamento à virtude.
Não convém aos menos dotados dos homens, os que se desesperam de si mesmos, tratar com negligência e desdém a conduta virtuosa amada por Deus,  sob pretexto de ser-lhes inacessível e fora de alcance. Ao contrário, eles devem colocar nisso todas as suas forças e cuidar de si, pois mesmo que não possam atingir os cumes da virtude e da salvação, entretanto, por seu esforço e seu desejo, ou eles se tornam melhores, ou ao menos não se tornam piores, o que para a alma não é pouco benefício.
Os que consideram como uma infelicidade a perda de dinheiro, de filhos, de servidores ou de qualquer outro bem, saibam que devemos antes de tudo contentarmo-nos com o que Deus dá, e devolver-lhe com entusiasmo e gratidão, quando preciso, sem sermos afetados por esta privação, ou antes por esta restituição, pois aqueles que se servem daquilo que não lhes pertence não cessam de devolver.
Os homens bons e amados por Deus não denunciam o mal de outrem senão na sua presença, e cara a cara. Eles jamais reprovam os ausentes. E eles não aceitam escutar os que assim acusam os outros.
Os que se perderam por causa das esperanças desta vida e não sabem senão em palavras levar a vida mais bela, são um pouco como pacientes que buscam os remédios e os instrumentos da medicina, mas que não sabem servir-se deles nem se inquietam com isto. É por isso que, quando estamos em falta, não devemos jamais acusar nossos pais ou qualquer outra pessoa, mas apenas a nós mesmos. Pois se a alma se abandona à negligência, torna-se para ela impossível vencer.
A marca da alma dotada de razão e virtuosa está no olhar, no caminhar, na voz, no riso, nas ocupações e nas conversas. Pois tudo se transforma e se readapta para se tornar mais nobre. O intelecto amado por Deus guarda suas portas, vigilante e sóbrio, interditando a entrada à infâmia dos maus pensamentos.

É preciso que os homens se conduzam em verdade como convém a seu comportamento e sua conduta. Uma vez operado este redirecionamento, torna-se fácil conhecer as coisas de Deus. Com efeito, aquele que venera a Deus com todo seu coração e com toda sua fé, recebe da providência divina a possibilidade de dominar a cólera e a cobiça. Ora, a cobiça e a cólera são a fonte de todos os males.
Devemos chamar “criador de homens” àquele que é capaz de domar as naturezas incultas a ponto de fazê-las amar a instrução e a cultura. Da mesma maneira, aqueles que transformam os desviados inspirando-lhes uma conduta virtuosa que agrada a Deus, também devem ser chamados “criadores de homens”, pois eles remodelam os homens. Pois a doçura e a temperança são para as almas humanas uma felicidade e uma boa esperança.
Aqueles que desejam levar uma vida virtuosa, piedosa e louvável, não devem ser julgados por seu comportamento, que pode ser simulado, nem por sua conduta, que pode ser enganadora. Mas como os artistas, os pintores e os escultores, é por suas obras que eles revelam sua conduta virtuosa e amada por Deus, e que eles rejeitam como armadilhas todos os prazeres maus.
Não se deve dizer que é impossível ao homem alcançar uma vida virtuosa, mas sim que isto não é fácil. Esta vida não está ao alcance de qualquer um. Mas partilham a vida virtuosa aqueles, dentre os homens, que se consagram à piedade e cujo intelecto é amado por Deus. Pois o intelecto comum está voltado para o mundo, ele é mutante, ele nutre tanto bons como maus pensamentos, ele se altera por natureza e se dirige para a matéria. Mas o intelecto amado por Deus sabe preservar-se do mal que a negligência suscita no homem.

É examinando a si mesmo que o homem dotado de razão experimenta o que lhe convém e lhe é útil, o que é apropriado à alma e lhe é vantajoso, e o que lhe é estranho. E é assim que ele evita o mal que é nocivo à alma, por ser-lhe estranho e separá-la da imortalidade.
Se você pensa que ter dinheiro e mostrar opulência não passam de aparência ilusória e passageira, se você sabe que a vida virtuosa que agrada a Deus o resgata das riquezas, e se você refletir seriamente nisto e guardar na lembrança, você não mais gemerá, nem se lamentará, você não acusará ninguém, mas em tudo dará graças a Deus, vendo aqueles que são piores do que você apoiarem-se sobre a eloqüência e o dinheiro. Pois este é para a alma um mal tão grave como a cobiça, a ambição e a ignorância.
A temperança, a resignação, a castidade, a perseverança, a paciência e similares, são as correspondentes potências virtuosas consideráveis que recebemos de Deus para resistir às dificuldades do momento, fazer-lhes frente e nos socorrer. Se exercermos e mantivermos estas potências, perceberemos que daí em diante nada mais de difícil, doloroso e intolerável nos acontece, com o pensamento de que tudo é humano e pode ser dominado pelas virtudes que estão em nós. Os que não têm a inteligência da alma não pensam assim, pois eles não compreendem que tudo acontece para o bem e como se deve, para nosso benefício, a fim de que brilhem as virtudes, e que sejamos coroados por Deus.

O homem dotado de razão na verdade não tem senão uma coisa no coração: obedecer e agradar ao Deus do universo, e conformar sua alma com a única preocupação de Lhe ser agradável, dando-Lhe graças pela realidade e a força de sua providência por meio da qual Ele dirige todas as coisas, seja o que for que lhe aconteça durante a vida. De fato, seria fora de propósito agradecer pela saúde do corpo aos médicos que nos prescrevem remédios amargos e desagradáveis, enquanto recusamos a Deus a gratidão por coisas que nos parecem penosas, como se não soubéssemos que tudo o que acontece é como deve ser, e para nosso bem, pelos cuidados da providência. Pois o conhecimento de Deus e a fé nele são a salvação e a perfeição da alma.
Quando a idéia de um prazer se apoderar da sua imaginação, vigie para não se deixar invadir por ela. Apresse-se a se lembrar da morte e observe o quanto será melhor para você saber que superou mais esta perdição do prazer.
O homem conhece a Deus e é conhecido por Deus na medida em que se esforça para jamais separar-se dele. E o homem não se separa de Deus quando é bom e domina todo prazer, não por falta de recursos, mas por vontade e temperança.
O homem é o único ser capaz de receber a Deus. Ele é o único, dentre os seres vivos, com quem Deus conversa, à noite por meio dos sonhos, de dia através da inteligência. Assim, continuamente, Ele anuncia e apresenta previamente aos homens que são dignos disto os bens que os esperam.
É a providência divina que dirige o mundo. Nenhum lugar está privado dela. A providência é a razão absoluta que modelou a matéria para dela fazer o mundo. Ela é o criador e o artesão de tudo o que existe. Pois é impossível que a matéria tenha sido organizada sem o poder decisivo da razão, que é a imagem, a inteligência, a sabedoria e a providência de Deus.

A coroa da incorruptibilidade, a virtude, a salvação do homem, consiste em suportar as adversidades com coragem e gratidão. Dominar a cólera, a língua, o ventre e os prazeres, é também um grande auxílio para a alma.
Filocalia Tomo I Volume 1
ANTÔNIO
O GRANDE
330 dc

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A sede de almas nos pastores



Carta de Santa Catarina de Sena para um importante prelado
1. Saudação e objetivo: Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, reverendo e caríssimo pai [1] no Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo crucificado, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver sedento da salvação das almas para a glória de Deus.
2. A sede das almas em Jesus: O primeiro mestre neste assunto é Jesus Cristo, que por sua sede da nossa salvação morreu na cruz. Nisto, o Cordeiro imaculado parece insaciável. Saturado de dores, clamou na cruz: Tenho sede (Jo. 19,28). Sem dúvida ele estava com sede corporalmente, mas bem maior era sua sede da salvação das almas. Ó inestimável caridade! Embora sofrendo muito, até parece que não sofres o suficiente; parece que não esgotas o desejo que tens de padecer. E de tudo, o impulso vem do amor! Já não me maravilho disso, pois teu amor era infinito, ao passo que a dor era finita. Eis por que o desejo de sofrer superava o martírio do corpo.
3. Instruções de Jesus a Catarina: Recordo-me que certa vez o bom Jesus instruiu uma sua serva sobre esse assunto. [2] Vendo ela os sofrimentos físicos de Jesus e seu desejo de padecer, perguntou: “Bom Jesus, qual foi o teu sofrimento maior: a dor corporal ou a dor do desejo?” Jesus lhe respondeu: “Milha filha, digo-te e não duvides: é impossível comparar o finito com o infinito. Meu sofrimento físico foi finito, mas o desejo de sofrer não tinha limites. Carreguei também a cruz do desejo santo. Lembras-te de que um dia te fiz ver meu nascimento? Enxergavas uma criancinha, nascida com uma cruz no peito! Afirmo-te: logo que fui semeado no ventre de Maria como semente encarnada, iniciou-se meu desejo de cumprir a vontade do Pai para o bem da humanidade. Isto é: eu desejava que a humanidade recuperasse a graça divina e atingisse a finalidade para a qual fora criada. O sofrimento desse desejo era maior que todo outro que padeci durante a vida. Meu espírito alegrou-se, pois, quando me vi conduzido à paixão, especialmente na hora da Ceia na quinta-feira santa. Na ocasião eu disse: com desejo desejei fazer esta Páscoa (Lc. 22, 15), quer dizer: desejei muito oferecer ao Pai meu corpo em sacrifício. Senti uma grande alegria e grande consolação quando vi chegar o momento de tomar a cruz esperada. Quanto mais eu sentia aproximarem-se o flagelo e os tormentos físicos, mais diminuía minha pena. A dor corporal expulsava a dor do desejo, pois eu via realizado o que esperava”.
A serva lhe perguntou: “Senhor, tu dizes que na cruz cessou o sofrimento do teu desejo. De que modo? Então, agora já não me queres?”. O Senhor lhe respondeu: “Não, minha doce filha! Quando morri na cruz, terminou com a vida a dor do desejo; mas não cessaram o meu desejo e a minha sede da vossa salvação. Se houvesse acabado o amor que tive e tenho pela humanidade, vós nem existiríeis mais. Foi meu amor que vos tirou do seio do Pai, quando vos criou na sua sabedoria; esse mesmo amor vos conserva em vida; vós nada mais sois que fruto do amor. Se o Pai retirasse seu amor, dado no poder e na sabedoria, voltaríeis ao nada. Eu, Filho unigênito do Pai, sou um aqueduto que vos traz a água da graça. Eu manifesto o amor do Pai. De fato, o que o Pai possui, eu também possuo, pois sou um com o Pai e o Pai um comigo. Por meio de mim o Pai se revela. Por isso afirmei: o que recebi do Pai, eu vos comuniquei. A razão de tudo é o amor”.
Bem vedes, reverendo pai! Jesus, que é amor, morre de sede e fome da nossa salvação. Por amor a Cristo crucificado, peço que mediteis sobre tal sede do Cordeiro. Minha alma gostaria de vos ver morrendo de desejo santo, ou seja, tudo fazendo com amor pela glória de Deus e a salvação das almas, pela exaltação da santa Igreja.
Gostaria de vos ver crescendo em tal sede e por causa dela morrendo, como fez Jesus. Que morressem a vontade pessoal e o amor sensível. Que morrêsseis às honras, satisfações sociais e todo tipo de grandeza humana. Tenho certeza de que, se olhardes para o vosso íntimo, compreendereis que nada sois; entendereis que tudo vos foi dado por Deus numa grande chama de amor; vosso coração não oporia resistência ao ímpeto da caridade, mas eliminaria, todo amor próprio, não procuraria o que é útil à própria pessoa. Vós amaríeis a Deus por ele mesmo e também amaríeis o próximo, não por interesses pessoais, mas a fim de promover sua salvação eterna e a glória divina. Deus ama demais a humanidade. Também os servos de Deus devem amá-la, imitando o Criador. É condição da amizade que eu ame tudo aquilo que meu amigo ama. E os servos querem bem a Deus, não por interesse pessoal, mas porque Deus, bondade infinita, merece ser amado.
4. O exemplo de Paulo apóstolo: De fato, pai, os servos de Deus como que se esquecem da própria vida. Não pensam em si mesmos. Desejam sofrimentos, dificuldades, torturas, injúrias. Desprezam as dificuldades do mundo. A maior cruz e a maior dor, para eles, é ver Deus ofendido e as almas que se condenam. Por isso, deixam no esquecimento as preocupações pessoais. Não evitam as dificuldades, até as procuram e alegram-se com elas. Pensam no apóstolo Paulo, que se gloriava nos sofrimentos por amor a Cristo crucificado (Rm. 5, 3). Pois bem, quero que vós os imiteis.
5. Triste situação na hierarquia: Ai de mim, ai de mim! Como é infeliz a minha alma! Olhai e vede a realidade que caiu sobre o mundo, especialmente sobre a hierarquia da Igreja. Ai de mim! Explodem nossos corações e nossas almas ao perceber tanta ofensa feita a Deus. Vede, pai, o lobo infernal leva consigo pessoas que vivem na hierarquia da santa Igreja, e ninguém procura libertá-las. Dormem os pastores, cuidando de si mesmos na ganância e na impureza. Dormem ébrios de orgulho, sem notar que o lobo infernal, o diabo, lhes retira a graça, bem como aos seus súditos. Dessas coisas, pouco se preocupam. Tudo lhes serve de ocasião para a maldade e o egoísmo. Como é prejudicial o egoísmo nos prelados e nos súditos! Nos prelados, porque não corrigem os defeitos dos súditos. De fato, quem vive no egoísmo ama a si mesmo e nada corrige nos outros. Mas quem ama a si mesmo em Deus, foge do amor interesseiro, denuncia corajosamente os defeitos nos súditos, nunca se cala ou finge não ver.
6. Maldito o pastor que se cala. Conclusão: De semelhante amor desejo vos ver livre, querido pai. Rogo-vos não vos comporteis assim, a fim de que, não se aplique a vós aquela dura palavra divina: “Maldito sejas, porque te calaste”. Ai de mim! Calar, jamais! Gritai em cem mil línguas! Vejo que, por ter alguém calado, o mundo se arruinou e a santa Igreja encontra-se sem cor, sem sangue nas veias. Quero dizer: sem o sangue de Cristo, derramado por nós gratuitamente, sem mérito algum nosso. Devido ao orgulho, os pastores roubam a Deus a honra, atribuindo-a a si mesmos. Rouba-se por simonia com a venda de dons espirituais, a nós concedidos gratuitamente pelos méritos do sangue de Cristo. Ai de mim, morro e não consigo morrer! Não durmais por negligência. Aproveitai o tempo presente quanto possível. Outros tempos virão, acredito, em que podereis fazer outras coisas. Convido-vos ao tempo atual. Afastai da alma todo egoísmo, revesti-a com a sede de almas e com verdadeiras virtudes, para a glória divina e a salvação das almas. Fortalecei-vos no amor de Cristo. Logo veremos aparecer as flores. Esforçai-vos para que logo se erga o estandarte da Cruzada. [3] Que o vosso coração não se esfrie diante de nenhuma dificuldade emergente. Fortalecei-vos pensando que Jesus crucificado realizará os inflamados desejos dos seus servidores.
Nada mais digo. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Afogai-vos no sangue de Cristo, pregai-vos na cruz com ele, banhai-vos no seu sangue. Pai, perdoai minha presunção. Jesus doce, Jesus amor.
[1]: Pedro Cardeal d’Estaing, criado cardeal e nomeado legado pontifício pelo Papa Gregório XI (1370-1378), que residia em Avinhão, para governar o patrimônio de São Pedro na Itália.
[2]: A serva de que fala o texto é a própria Catarina, que conta ao prelado um diálogo com Jesus no tempo da sua juventude.
[3]: Em 1375 o papa Gregório XI (1370-1378) promulgou uma bula em favor de uma Cruzada para libertar os Lugares santos da Palestina. Catarina tornou-se grande estimuladora da idéia.


-- Das Cartas de Santa Catarina de Sena, virgem e doutora da Igreja (século XIV)

Abraça Jesus crucificado, amante e amado



Querida irmã em Jesus. Eu, Catarina, serva dos servos de Jesus, escrevo-te no seu precioso sangue, desejosa que te alimentes do amor de Deus e que dele te nutras, como do seio de uma doce mãe. Ninguém, de fato, pode viver sem este leite!

Quem possui o amor de Deus, nele encontra tanta alegria que cada amargura se transforma em doçura e cada grande peso se torna leve. E isto não nos deve surpreender porque, vivendo na caridade, vive-se em Deus: Ele é amor; quem permanece no amor habita em Deus e Deus habita nele.
Vivendo em Deus, por conseguinte, não se pode ter amargura alguma porque Deus é delícia, doçura e alegria infinita!
É esta a razão pela qual os amigos de Deus são sempre felizes! Mesmo se doentes, necessitados, aflitos, atribulados, perseguidos, nós estamos alegres.
Mesmo quando todas as línguas caluniosas nos metessem em má luz, não nos preocuparemos, mas nos alegraremos com tudo porque vivemos em Deus, nosso repouso, e saboreamos o leite do seu amor. Como a criança suga o leite do seio da mãe assim nós, enamorados de Deus, atingimos o amor de Jesus Crucificado, seguindo sempre as suas pegadas e caminhando com ele pelo caminho das humilhações, das penas e das injúrias.
Não procuramos a alegria se não em Jesus e fugimos de toda a glória que não seja aquela da cruz. Abraça, portanto, Jesus Crucificado elevando a ele o olhar do teu desejo! Toma em consideração o seu amor ardente por ti, que levou Jesus a derramar sangue de todas as partes do seu corpo!
Abraça Jesus Crucificado, amante e amado e nele encontrarás a verdadeira vida, porque ele é Deus que se fez homem. Que o teu coração e a tua alma ardam pelo fogo do amor do qual foi coberto Jesus cravado na cruz!
Tu deves, portanto, tornar-te amor, olhando para o amor de Deus, que tanto te amou, não porque te devesse obrigação alguma, mas por um puro dom, impelido somente pelo seu inefável amor.
Não terás outro desejo para além daquele de seguir Jesus! E, como que inebriada do Amor, não farás caso se te encontras só ou acompanhada: não te preocuparás com tantas coisas mas somente de encontrar Jesus e segui-lo!
Corre, Bartolomea, e não estejas a dormir, porque o tempo corre e não espera nem um momento. Permanece no doce amor de Deus. Doce Jesus, amor Jesus.

-- Das “Cartas” de Santa Catarina de Sena (1347-1380) (carta n.165 a Bartolomea, esposa de Salviato da Lucca)

domingo, 6 de agosto de 2017

Crucifixo é a escola da oração.



Santa Teresa, Santa Madalena de Pazzi, São Bruno, São Bernardo, São Francisco de Assis, São Boaventura, todos os grandes contemplativos da idade Média onde terão encontrado as labaredas do amor de Deus?

O Crucificado é para os fiéis manual de meditação quotidiana. Ele abençoa os trabalhos, santifica as conversações, tempera os prazeres e balsamiza os sofrimentos.
Ao pé da Santa Imagem, repete o cristão as palavras de São Paulo:

"Sicut abundant passiones Christi in nobis, ita et per Christum abundat consolatio nostra. - Assim como são abundantes os sofrimentos de Cristo em nós, assim também pelo Cristo é superabundante nossa consolação."

Sofremos todos nós através da vida. O Crucificado, relembra-nos que, unida à Paixão de Cristo, a dor é expiatória e meritória; ensinar-nos-á que a dor é amável em seu exemplar divino.

Perreyve escreve, numa página de emoção:

"O pranto corre bem sobre Vossa imagem, ó Divino Crucificado. As lágrimas do homem conhecem-nO. Há entre a Cruz e as dores humanas eterna conformidade."

"Não posso mais orar, murmurava Lacordaire, nos momentos derradeiros, mas eu O contemplo!" E não tirava os olhos do Crucificado.

No alto da fogueira, prestres a ser devorada pelas chamas, Santa Joana d'Arc cobria de beijos e lágrimas uma cruz de madeira feita, no momento, por um soldado.

Suplicou que lhe trouxessem o Crucificado da Igreja próxima. Foi atendida. Ao religioso, que a acompanhava, pediu que levantasse a Cruz e a conservasse bem alto, enquanto ela estivesse viva; queria contemplá-la até o suspiro extremo. As labaredas envolveram-na. E a heroína francesa morreru com os olhos fixos na imagem de Jesus Cristo pregado à Cruz.

São Francisco Xavier, o general Lamoricière e Pasteur, nos minutos finais, seguravam e beijavam o Crucifixo.

Um poeta do século passado pergunta ao Crucificado, em estrófes sublimes, o que é que Ele murmura aos ouvidos do moribundo:

"Aos lábios dos moribundos colados na agonia - como derradeiro amigo, para iluminar o horror desta passagem estreita, - para soerguer até Deus seus olhares amortecidos, ó Divino Consolador, - cuja imagem osculamos, - responde: que lhe dizes Vós?"

A história da Igreja responde:

"Ao ouvido dos pecadores o Crucificado murmura uma palavra de perdão; aos que tremem, uma palavra de confiança; às almas puras, uma palavra de amor".
(O livro de J. Hoppenot de que colhem esta formosa página intitula-se Le Crucifix dans l'Histoire, dans l'art, dans l'ame des Saints et dans notre Vie.)

Uma alma de virtudes eminentes compôs estas estrófes admiráveis que tecem a mais sentida e a mais fervorosa das preces:

Meu Crucificado!
Eu O levo a toda a parte;
Eu O prefiro a tudo;

Quando caio, Ele me levanta;
Quando choro, Ele me consola;
Quando sofro, Ele me cura;
Quando tremo, Ele me tranquiliza;
Quando chamo, Ele me responde.

Meu Crucificado!
Ele é a luz, que me ilumina;
O sol, que me aquece;
O alimento, que me nutre;
A fonte que me desaltera;
A doçura, que me cura;
O bálsamo, que me cura;
A beleza, que me encanta!

Meu Crucificado!
Ele é a solidão, em que repouso;
O reduto, a que me acolho;
A frágua, que me consome;
O oceano, em que mergulho;
O abismo, em que me perco!

Feliz a inspiração do Revmo. Cônego J.Cabral, no tema escolhido para estas páginas de espiritualidade. É grande, é muito grande, no Brasil, o número de corações, que consagram fervorosa à Sagrada Paixão de nosso Redentor. Com quanto enlevo, com que intenso júbilo, acolherão estas almas o livro precioso do ilustre publicista!

Através destes capítulos enriquecidos, pela mais pura doutrina dos Santos Padres, aprenderemos as lições de Jesus Cristo agonizante.

Quantos e quão preciosos ensinamentos, quantas consolações profundas, iremos encontrar nas palavras que o Mestre Divino pronunciou na agonia do Calvário! Que soma incalculável de benefícios espirituais vão estas páginas espalhar na seara imensa das almas!

Sede bendito, ó Testamento emocionate do Redentor dos homens!
Sede bem-vindas, ó páginas consoladoras!

(Padre Heliodoro Pires, São Paulo, dia do Preciosíssimo Sangue de N.S.Jesus Cristo, 1-VII-1936)

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sábado, 5 de agosto de 2017

MIGUEL DE MOLINOS (1628-1697)



O sacerdote católico espanhol, Miguel de Molinos aparece como sendo um dos mais controvertidos personagens da história da Igreja Católica. Miguel de Molinos nasceu em 1628, em Saragoça, Espanha, em berço abastado. Embora o material de pesquisa sobre sua família seja escasso, supõe-se que Molinos tenha sido um dos últimos filhos, senão o mais novo, de uma nobre família dessa região, pois era costume da época que os filhos mais jovens da nobreza fossem confiados à Igreja para serem preparados à vida religiosa. Em Valência, Molinos foi educado no Colégio Jesuíta de São Paulo.

Possuidor de grandes habilidades naturais à religiosidade, Molinos se dedicou ao serviço de seus companheiros sem qualquer tipo de ganho para si próprio. Sua vida foi inteiramente consagrada a seus semelhantes e marcada por grande piedade e generosidade. Com o aumento de sua popularidade, a procura pelos conselhos do Padre Molinos se tornou tão grande que ele começou a receber uma certa pressão no sentido de registrar seu pensamento e seus ensinamentos. Deste modo, muitos outros teriam acesso a sua doutrina. Assim, Molinos, por volta de 1673,começou a escrever seu método de consecução espiritual. Em 1675, Molinos publicou seu "O Guia Espiritual", no qual ele expunha, demodo claro e direto, a sua doutrina mística para aquele buscador que desejava enxergar.

O Guia Espiritual de Miguel de Molinos, escrito sem a pompa e a especulativa erudição dos teólogos e autores da época, rapidamente ganhou ocoração dos seus leitores, atingindo, com igual força, tanto o profanoquanto o doutor, alcançando fama na Itália e na Espanha. Em seguida, esselivro ganharia novas traduções, aumentando ainda mais a fama de seu autorpor toda a Europa. Molinos adquiriu tal reputação, que seu nome e suas idéias começaram achamar a atenção de certos segmentos do clero, principalmente de alguns Jesuítas e Dominicanos que, temendo um crescimento ainda maior de sua popularidade, resolveram pôr um fim em sua crescente fama, evitando assim apossibilidade de um novo cisma dentro da Igreja. A morte de Miguel de Molinos na prisão, em dezembro de 1697, e a constante perseguição imposta àqueles que ainda seguiam os seus ensinamentos acabariam por decretar o fim da curta história dos Quietistas.

A filosofia de Molinos, conforme seu Guia Espiritual, diz que, no sublime propósito de se realizar a perfeição cristã, bem como a suprema comunhão com Deus, o homem deverá se submeter inteiramente aos Seus desígnios, com humildade, anulando por completo a sua vontade individual. A vida em si deveria ser um contínuo ato de amor e fé. A via espiritual, portanto, era resumida por uma perfeita quietude de desejos, passividade total da alma suplicante diante de Deus e, de tal modo deveria ser ocomportamento do buscador, que mesmo o desejo de sucesso nessa demanda teriaque ser excluído. Da mesma forma, o desejo de felicidades mundanas, virtudes e qualquer outro tipo de atividade humana, tudo era tido como obstáculo entre a alma e Deus, devendo ser, igualmente, excluídos de seu ser. Conforme Molinos, aquela alma, que porventura galgasse tal estado de aniquilação, se encontraria em uma condição na qual lhe seria impossível cometer erros ou pecados. E mesmo se por acaso essa abençoada alma parecesse pecadora ante os olhos mundanos, ou até se ela parecesse, de modo exterior, violar qualquer um dos mandamentos de Deus ou algum dos preceitos da Igreja, interiormente, ela estaria em perfeita quietude, onde a verdade de sua santidade apenas revelaria em seus atos a própria vontade de Deus. Nesse estado de plena iluminação, as orações, penitências e qualquer luta contra as tentações já não mais seriam os instrumentos utilizados por ela,pois ela estava unida ao Criador.

QUIETISMO

O quietismo é uma concepção místico-religiosa que busca a união do homem com Deus por meio de um estado de passividade ("quiete") e de total abandono davontade que atenua ou suprime toda responsabilidade moral. No âmbito do cristianismo oriental, elementos quietistas podem ser encontrados entre os messalianos ou êuquitas, condenados pelo Concílio de Éfeso (431), e entre os monges hesicastas do monte Atos.

No Ocidente, o quietismo está expresso emalgumas tendências dos cátaros, dos Irmãos do Livre Espírito, dos beguinos ou begardos e dos alumbrados espanhóis. A doutrina do quietismo, porém, só se explicitou no século XVII no âmbito de algumas correntes no seio da Igreja católica, influenciadas pelo protestantismo. Seu principal expoente foi o espanhol Miguel de Molinos, confessor e diretor espiritual muito apreciado em Roma desde 1663, que, em seu "Guia espiritual", sustentava aperfeita quietude e passividade da alma diante de Deus, de forma a excluir toda atividade e aspiração própria do homem. Em 1675, publicou o "Breve tratado sobre a comunhão cotidiana" e o "Guia espiritual que liberta a alma e a conduz pelo caminho interior para alcançar a perfeita contemplação e o rico tesouro da paz interior", em que estão contidos os princípios fundamentais do quietismo, encabeçados pelo princípio da superioridade da contemplação sobre a meditação. Dez anos mais tarde, ao que parece atendendo a solicitação explícita dos jesuítas, Molinos foi preso sob a acusação de heresia (1685). Obrigado a abjurar, por fim foi condenado à prisão perpétua, com a bula "Caelestis Pastor" do papa Inocêncio XI (1687).

Na França, Madame Guyon e seu confessor, F. Lacombe, promoveram o desenvolvimento de tendências quietistas, cujos vestígios também estão presentes na polêmica sobre o "amor puro" entre J. B. Bossuet e F. Fénelon, que terminou com a condenação das teses de Fénelon por Inocêncio XII (1699).

PENSAMENTOS DE MIGUEL DE MOLINOS

"A oração (...) é uma elevação da mente a Deus. E para colocar a mente emDeus, que é a contemplação, é necessário deixar as considerações ediscursos, mesmo elevados, que constituem a meditação. Esta, dizem ossantos, busca, expõe, rumina ou mastiga o alimento divino. E, se estamossempre mastigando ou ruminando a comida na boca e nunca engolimos parasossegá-la e dirigi-la com quietude no estômago, não poderemos viver, nemsustentar-nos, ou tirar proveito algum. A meditação também é um meio parachegar ao término e ao fim, que é a contemplação. A contemplação é encontrara coisa, é saborear e sossegar o alimento divino no estômago, é o fim e aconclusão do caminho, e é chegar a entender e conhecer Deus."

“Veste-te desse nada, dessa miséria, e procura que essa miséria e esse nada seja teu contínuo sustento e morada, até aprofundar-te nela; eu te aseguro que, sendo tu desta maneira o nada, seja o Senhor o todo em tua alma”.

“Ultimamente não mires nada, não desejes nada, não queiras nada, não solicites saber nada, e em tudo viverá tua alma em quietude e gozo descansada. (…) Caminha, caminha por esta segura senda e procura nesse nada submergir-te, perder-te, abismar-te, se queres aniquilar-te, unir-te e transformar-te”.

"O que tu hás de fazer será não fazer nada, procura nesse nada submergir-te... O que importa é preparar teu coração a maneira de um papel em branco, aonde a divina sabedoria possa formar os caracteres a seu gosto".

"A atividade natural é inimiga da Graça, impedindo a ação de Deus e a verdadeira perfeição, porque Deus deseja operar em nós, sem nós".


(A perfeita aniquilação): "ter-se em baixa estima a si mesmo e a todas as coisas do mundo".

"Veste-te desse nada e dessa miséria, e procura que essa miséria e esse nada sejam teu continuo sustento e morada".

"Pelo caminho do nada hás de chegar a perder-te em Deus, que é o último grau da perfeição".

(Sobre a auto-estima) “Esta hidra de sete cabeças do amor próprio se ha de degolar para chegar ao cume do alto monte da paz”.

“Não está a graça em gozar, senão em padecer com quietude e resignação".

. “As tentações, são uma grande felicidade. O modo de rechaça-las é não fazer caso delas, porque a maior das tentações é não te-las”.

“O verdadeiro amor se conhece em seus frutos, que são uma humilhação profunda e um desejo sincero de ser mortificado e desprezado. No fundo de nossa alma está o assento da felicidade, alí nos descobre o Senhor suas maravilhas. Perdoamo-nos, submersor-nos no mar imenso de sua bondade infinita, e fiquemos ali fixos e imóveis. Morramos sem cessar para nós mesmos; conheçamos nossa miséria”.


De como a tentação de pecar sempre ajuda no nosso progresso espiritual:

"Você deveria saber que o impulso para o pecado sempre traz grande benefício para uma pessoa íntegra. Imagine você dois indivíduos, sendo um deles o tipo de pessoa que experimenta pouca ou nenhuma tentação, enquanto o outro é muito perturbado por isso. Neste último, a simples presença de certas realidades atinge o seu eu exterior, de modo que ele é levado à cólera, à vaidade ou à sensualidade, de acordo com o estímulo que recebe. Mas com seu discernimento mais alto, ele permanece firme e imóvel, decidido a não ceder à sua fraqueza, seja ela qual for. Talvez se trate de uma fraqueza enraizada no seu próprio temperamento, assim como algumas pessoas são irascíveis, ou vaidosas, ou qualquer outra coisa, mas não desejam cometer esses pecados. Estas são pessoas muito mais dignas de louvor, e merecendo maior recompensa, do que o primeiro tipo, pois a perfeição da virtude nasce na luta, e são Paulo diz que "a virtude se aperfeiçoa na fraqueza"(IICoríntios 12,19). Ser tentado não é defeito, mas sim consentir no pecado. De fato, se alguém que está na plena posse de suas faculdades tivesse o poder de fazer com que a tentação não existisse, essa pessoa deixaria de exercitar aquele poder, pois sem a tentação nós não seríamos testados em todas as coisas e em tudo o que nós fazemos, inconscientes do perigo de certas coisas, e sem a honra da batalha e da vitória. A tentação nos faz trabalhar mais duramente na prática da virtude, e é como um açoite que nos ensina a vigilância e a prudência; pois quanto mais fraca é uma pessoa, tanto mais ela deveria armar-se com a força que conduz à vitória; pois a virtude, como o vício, é uma questão de vontade".

http://coracaomistico.blogspot.com.br/2007/12/mestre-eckhart-1260-1328.html

MESTRE ECKHART (1260-1328)


 Um dos mais famosos místicos da Idade Média, neste momento em plena fase de "redescoberta", Eckhart nasceu em Hochheim, Alemanha, em 1260. Aos 15 anos entrou para a ordem dos dominicanos. Foi vigário da Turíngia e depois provincial dos dominicanos na Saxônia. Nesse período, envolveu-se em intensos debates teológicos, divergindo muito dos franciscanos. A partir de 1314, morando em Estrasburgo, pregou para um grupo de freiras contemplativas. A audácia e amplitude do seu pensamento (com vigorosas incursões pela metafísica), aliadas às disputas teológicas que caracterizaram o período, provocaram uma bula de 1329 (quando ele já tinha falecido - Eckhart faleceu em 1328) em que o papa João XXII (segundo se diz, muito a contragosto) condenava 28 conceitos extraídos de suas obras (17 como heréticos e 11 como mal sonantes ou temerários). Antes que isso acontecesse, Eckhart já tinha apresentado, publicamente, a sua retratação por quaisquer impropriedades que o Vaticano viesse a encontrar em seus textos.
Muitos místicos seguiram e admiraram Mestre Eckhart, entre eles: Johannes Tauler, o beato Henrique Suso, santa Juliana de Norwich, o beato Ruysbroeck, Walter Hilton e o cardeal Nicolau de Cusa; mais tarde, foram influenciados por ele, santa Teresa de Ávila e são João da Cruz.

PENSAMENTOS DE MESTRE ECKHART

Sobre a maneira mais poderosa de rezar:

"A maneira mais poderosa de rezar, aquela que é capaz de obter qualquer coisa e é mais meritória, é a que deriva de uma mente desimpedida. Quanto mais desimpedida a mente, mais poderosa, útil e perfeita será a oração. O que é uma mente desimpedida? É aquela que não é perturbada nem alterada por nada, que não se apegou a qualquer modo especial de vida ou de devoção, e que não procura o seu próprio bem em nada, mas que está completamente imersa na preciosa vontadede Deus, tendo saído daquilo que lhe é próprio. Não há obra nenhuma que homens e mulheres possam executar, por mais pequena que seja, que não extraia daí o seu poder e a sua força".

De como a tentação de pecar sempre ajuda no nosso progresso espiritual:

"Você deveria saber que o impulso para o pecado sempre traz grande benefício para uma pessoa íntegra. Imagine você dois indivíduos, sendo um deles o tipo de pessoa que experimenta pouca ou nenhuma tentação, enquanto o outro é muito perturbado por isso. Neste último, a simples presença de certas realidades atinge o seu eu exterior, de modo que ele é levado à cólera, à vaidade ou à sensualidade, de acordo com o estímulo que recebe. Mas com seu discernimento mais alto, ele permanece firme e imóvel, decidido a não ceder à sua fraqueza, seja ela qual for. Talvez se trate de uma fraqueza enraizada no seu próprio temperamento, assim como algumas pessoas são irascíveis, ou vaidosas, ou qualquer outra coisa, mas não desejam cometer esses pecados. Estas são pessoas muito mais dignas de louvor, e merecendo maior recompensa, do que o primeiro tipo, pois a perfeição da virtude nasce na luta, e são Paulo diz que "a virtude se aperfeiçoa na fraqueza"(IICoríntios 12,19). Ser tentado não é defeito, mas sim consentir no pecado. De fato, se alguém que está na plena posse de suas faculdades tivesse o poder de fazer com que a tentação não existisse, essa pessoa deixaria de exercitar aquele poder, pois sem a tentação nós não seríamos testados em todas as coisas e em tudo o que nós fazemos, inconscientes do perigo de certas coisas, e sem a honra da batalha e da vitória. A tentação nos faz trabalhar mais duramente na prática da virtude, e é como um açoite que nos ensina a vigilância e a prudência; pois quanto maisfraca é uma pessoa, tanto mais ela deveria armar-se com a força que conduz à vitória; pois a virtude, como o vício, é uma questão de vontade".

"Estar vazio de toda criatura é estar cheio de Deus. E estar cheio de toda criatura é estar vazio de Deus"

"A alma deve ansiar por Deus a fim de se inflamar com o amor Dele; mas,se ela ainda nao puder ansiar pelo anseio, então deve ansiar pelo anseio. O anseio pelo anseio também vem de Deus"

"Se te amas, ama a todos os demais como a ti mesmo. Enquanto amares outra pessoa menos do que amas a ti mesmo, não conseguirás realmente amar a ti mesmo, mas se a todos amares igualmente, sem exclusão de ti, ama-los-ás como uma só pessoa, e essa pessoa é tanto Deus quanto homem"

"Embora o homem não possa saber o que Deus é, mesmo assim ele pode estar sempre bem consciente do que Deus não é... Assim, satisfeita com nada, a mente clama pelo mais elevado de todos os bens"

"Devemos ser um só Filho que o Pai gerou eternamente. Quando o Pai gerou todas as criaturas, gerou-me a mim e eu emanei com todas as criaturas e permaneci apesar disto dentro do Pai".

"Mudei-me portanto em Deus e Ele me fez um consigo, e assim, pelo Deus vivo, não há distinção entre nós... Algumas pessoas imaginam que vão ver Deus, que verão Deus como se Ele estivesse além e elas ali, mas não é assim. Deus e eu: somos um. Conhecendo Deus, tomo-o para mim. Amando a Deus, penetro-o"

"O princípio não tem outra razão que o fim, pois no fim último repousa tudo que jamais foi dotado de razão. O fim último do ser são as trevas ou o não conhecimento da divindade escondida, onde a luz ilumina .... Aquele que é sem nome, que é a negação de todos osnomes, e jamais teve um nome. .... No fundo da alma, o Fundo de Deus e o fundo da alma sendo senão um só e mesmo fundo. Quão mais Te procuramos, menos Te encontramos. Tu deverás procurá-lo de forma que jamais o encontre; se tu não o procurares, encontrá-lo-á"

"Bondade e justiça são um vestido que envolve Deus. Tirem de Deus tudo o que o reveste, e tomem-no puro em suas roupas íntimas, quando Ele, descoberto e desnudo, está em si mesmo"

"Que Deus seja um, isto é a divindade completa de Deus... Se assim não fora, Deus não seria Deus... Todo número depende do um, mas o um não depende de ninguém"

"Deus não está em nenhum lugar. O menor de Deus repleta todas as criaturas e sua grandeza não se encontra em nenhum lugar".

"No mesmo movimento em que o Pai gera o Filho Unigênito em mim, gero-o eu de volta para dentro do Pai".

"Quando o homem libera e põe a descoberto a Luz divina que Deus por sua natureza criou nele, então se revela a Imagem de Deus nele. Ao nascer se conhece a revelação de Deus. Dizer que o Filho nasceu do Pai significa que o Pai, em forma paterna, revela seu Mistério a ele. Por isso: quanto mais e com maior claridade o homem põe a descoberto a imagem de Deus, com tanto mais claridade Deus nasce nele. O nascer de Deus se entende assim: o Pai põe a descoberto a Imagem e brilha no homem".

"Na máxima disponibilidade (desprendimento) o conhecimento é sem conhecimento, o amor sem amor e a luz escuridão... Pobres de espírito são aqueles que entregaram todas as coisas a Deus, assim como Ele as possuía quando ainda não éramos".

"Se um homem deixou um reino ou mesmo todas as coisas e se não tiver deixado a si mesmo, não terá, na verdade, deixado nada. Se deixar a si mesmo, embora fique na honra e na riqueza ou continue a possuir o que quer que seja, o homem deixou efetivamente tudo".

"Nada faz mais verdadeiro o homem do que a renúncia da própria vontade. Sem esta renúncia em todas as coisas, não fazemos nada diante de Deus".

"A gente não precisa pensar tanto no que deve fazer; deve-se antes pensar no que se deve ser. Se alguém é bom, também boas serão suas obras... As obras não nos santificam. Nós é que santificamos as obras".

"O homem não deve se contentar com um Deus pensado, pois quando o pensamento passa, passa também Deus. Deve-se antes possuir um Deus essencial que de muito ultrapassa os pensamentos dos homens e a todas as criaturas. Este Deus não passa".

"Se alguém está como esteve Paulo em arrebatamento místico e sabe que algum doente deseja um prato de sopa, é melhor deixar o arrebatamento e ir atender ao enfermo necessitado".

"Na contemplação você se serve a você mesmo, nas boas obras serve a muita gente".

"Uma pessoa que dominou sua vida vale mais do que mil pessoas que dominaram somente o conteúdo de livros. Ninguém pode conseguir nada na vida sem Deus. Se eu estivese à procura de um mestre para aprender, eu deveria ir a Paris ou frequentar as faculdades onde se fazem os mais altos estudos. Mas se eu estiver interessado na perfeição da vida, eles lá nada me poderão informar.Aonde, pois, deveria eu ir? A alguém que tem uma natureza pura e livre e a nenhum outro lugar: nele eu encontraria a resposta para aquilo que tão ansiosamente estou buscando. Homens, por que buscais ossos entre os mortos? Por que não buscais a vida eterna nos lugares santos da vida? Os mortos nada podem dar ou tomar. Se um anjo tivesse que buscar Deus fora de Deus, ele o buscaria numa criatura pura, livre, plenamente disponível e não em outro lugar. A perfeição depende somente do acolher a pobreza, a miséria, as durezas, os desapontamentos e tudo o que vier no decurso da vida, livremente, avidamente até a morte, como se a pessoa estivesse preparada para tal. Portanto, sem emocionar-se nem sequer perguntar porquê".

"Ele é a riqueza em profusão porque é um. Ele é o primeiro e o supremo porque é um. Por isso o Um penetra todas e cada uma das coisas e permanece um, unificando o separado. Por isso é que seis não são duas vezes três, mas seis vezes um".

"Um significa aquilo ao qual não se pode acrescentar nada... Um é a negação da negação. Todas as criaturas carregam uma negação em si; uma nega a outra. Um anjo tem em si uma negação pelo fato de não poder ser outro anjo. Deus, porém, é a negação da negação. Ele é um e nega todos os outros, pois nada existe fora de Deus. Todas as criaturas são em Deus e são sua própria divindade e isto significa a plenitude".

Comentando o prólogo do evangelho de S. João ("no princípio"):

"Com esta palavra nos é dado compreender que nós somos um único Filho que o Pai gerou eternamente da escondida escuridão da eterna escondida, mas permanecendo no primeiro princípio da primeira pureza que lá é a plenitude única de toda a pureza. Aqui eu descansei e dormi eternamente no secreto conhecimento do Pai eterno, ficando dentro e não sendo ainda proferido. Desta pureza Ele me gerou eternamente como o seu Filho unigênito, na imagem de sua eterna paternidade, para que eu seja Pai e gere aquele do qual eu fui gerado"

"Falei muitas vezes de uma luz que está na alma, de uma luz incriada e incriável... Assim posso em verdade dizer 'outra vez' que essa luz tem mais unidade com Deus do que com qualquer outra força ' da alma', com a qual está em unidade de ser. Pois deveis saber que essa luz, no ser de minha alma, não é mais nobre do que a ínfima e a mais grosseira das forças, como o ouvir ou o ver ou qualquer outra força, simples. Enquanto se tomam as forças 'da alma' no ser, elas são todas um e igualmente nobres. Tomando-se, porém,essas forças no seu operar, uma é muito mais nobre e elevada do que a outra".

"Uma imagem propriamente dita é uma emanação formal simples que transmite toda a essência nua e pura,… uma emanação a partir das profundidades do silêncio, excluindo tudo o que chega de fora. É uma forma de vida, como se estivéssemos a imaginar algo que inflasse por si próprio e em si próprio e depois fervesse sem ferver por fora nesta ocasião compreendida ".

"Quando o homem se une totalmente a Deus com amor, desliga-se das imagens, formado e transformado na conformidade divina na qual é um com Deus"

"O homem não tem necessidade de pedir a Deus, pelo contrário: pode exigir-lho, porque a altura da deidade só pode olhar o fundo da humildade, o homem humilde e Deus são um e não dois".

"Deus é como o sol. Aquilo que é o mais alto na sua profundidade sem fundo responde àquilo que é o mais baixo no fundo da humildade. O homem verdadeiramente humilde não tem necessidade de pedir a Deus; pode obrigar Deus, porque a altura da deidade só tem olhos para a profundidade da humildade"

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O que é estar em Estado de Graça

Imagem relacionada“Não oferecer resistência à vida é estar em estado de graça, de descanso e de luz. Nesse estado, nada depende de as coisas serem boas ou ruins. É quase paradoxal, mas como já não existe mais uma dependência interior quanto à forma, as circunstâncias gerais da sua vida, as formas externas, tendem a melhorar consideravelmente. As coisas, as pessoas ou as circunstâncias que você desejava para a sua felicidade vêm agora até você sem qualquer esforço, e você está livre para apreciá-las enquanto durarem. Todas essas coisas naturalmente vão acabar, os ciclos virão e irão, mas com o desaparecimento da dependência não há mais medo de perdas . A vida flui com facilidade.”
Eckhart Tolle

Modo de Fazer Oração Mental, por Santo Afonso

  A meditação ou oração mental contém três partes: A Preparação A Meditação A Conclusão I. PREPARAÇÃO Na preparação fazem-se três atos: 1º A...