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sábado, 4 de maio de 2019

VIDA E OBRA DE TERTULIANO DE CARTAGO

Figura contraditória e polêmica - mas de capital importância no contexto da Igreja primitiva - pouco se sabe dos dados biográficos de Tertuliano, em especial as datas de nascimento e morte. Sabe-se apenas que, como boa parte dos Pais da Igreja, Tertuliano era africano, nascido em Cartago (estima-se que por volta do ano 155 d.C.), e segundo Jerônimo relata, era filho de um centurião, o mais alto grau que um não romano podia atingir na hierarquia político-militar romana. Os cartagineses, desde os tempos de Aníbal e das Guerras Púnicas, 3 séculos antes de Cristo, nutriam uma especial aversão a Roma, e o cristianismo, nos seus primórdios, foi um fator aglutinador também do sentimento anti-romano. É nesse contexto que nasceu e viveu Tertuliano. Outra certeza que se tem a respeito dele é que suas obras foram escritas entre os últimos anos do século II e as duas primeiras décadas do século III.
O evangelho chegou à África provavelmente logo após o Pentecostes, já que, entre os ouvintes de Pedro naquele dia havia alguns judeus que habitavam “no Egito e em partes da Líbia” (Atos 2:10), e escavações na cidade de Hadrumeto (hoje na Tunísia) descobriram um cemitério judaico em que havia túmulos cristãos datados dos anos 50 e 60 d.C. O historiador Paul Johnson descreve a Igreja de Cartago como “entusiasmada, imensamente corajosa, completamente desafiadora perante as autoridades seculares, muito perseguida, intransigente, intolerante, virulenta e, de fato, violenta em suas controvérsias. Há evidências de que Cartago e outras áreas do litoral africano tenham sido evangelizadas por essênios e zelotes cristãos, demonstrando, desde o princípio, uma tradição de militância e resistência à autoridade e à perseguição. Tertuliano corporificava essa tradição.” (“História do Cristianismo”, Ed. Imago, 2001, pág. 63). A igreja africana, apesar das grandes contribuições que trouxe à Igreja primitiva, era conhecida pela sua combatividade prática e por seu silêncio literário, já que pouco se escrevia a seu respeito, talvez em função da forte perseguição das autoridades romanas. O primeiro documento que se conhece da Igreja africana são as Atas dos mártires de Scilli – sete homens e cinco mulheres – que foram condenados pelo procônsul de Cartago a “morrer pela espada” em 17 de julho de 180. Os mártires de Scilli (um povoado pequeno e nunca mais identificado) conheciam e usavam uma tradução latina das cartas de Paulo, que levavam consigo numa “capsa” (caixa), e as Atas de seu martírio são referidas por Tertuliano em sua obra “Ad Scapulam 3” (vide trecho em destaque abaixo), o que comprova a forte influência que recebeu da primitiva Igreja africana. O fato dos mártires se valerem da versão latina das cartas paulinas revela outra faceta da Igreja africana: embora, muito provavelmente, tenha sido formada a partir das Igrejas orientais, foi nos laços com Roma que ela se solidificou, abandonando, pouco a pouco, suas referências helênicas.

UM TRECHO DE “OS MÁRTIRES DE SCILLI”

Saturnino leu a sentença na tabula: “Speratus, Nartzalus, Cittinus, Donata, Vestia, Secunda e todos os outros confessaram que vivem segundo o rito cristão. Visto que lhes foi oferecido o retorno à religião romana, e eles o recusaram com obstinação, nós os condenamos a morrer pela espada”.
Speratus: “Nós damos graças a Deus”.
"Os mártires de scilli, Tertuliano"
Sabe-se que Tertuliano recebeu sólida formação intelectual, sobretudo em direito e retórica, e, muito provavelmente, foi em Roma que viveu boa parte de seus estudos e primeiros passos na vida profissional, ainda jovem. Tertuliano teve uma juventude tempestuosa, pelo que se depreende de seus escritos. Chegou a se casar e supõe-se, com boa dose de certeza, que foi o exemplo dos mártires, não só os de Scilli, mas os de outras tantas perseguições perpetradas pelos romanos, que foi decisivo na conversão de Tertuliano, aos 40 anos de idade, que imediatamente integrou-se à já sólida Igreja africana, levando a ela o seu fervor de neófito, a sua genialidade e a instabilidade do seu temperamento, que não raro o fazia cometer excessos.
O historiador Paul Johnson chama Tertuliano de “um mestre da prosa, a prosa do retórico e do polemista. Estava em casa tanto no latim quanto no grego, mas costumava fazer uso do primeiro – o primeiro teólogo cristão a fazê-lo. Sua influência, de fato, foi imensa, precisamente por ter criado uma latinidade eclesiástica, dotou-os de sentenças inesquecíveis e influentes: ‘o sangue dos mártires é a semente da igreja’; ‘a unidade dos hereges é o cisma’, ‘creio porque é absurdo’ (“História do Cristianismo”, Ed. Imago, 2001, pág. 63). Fortemente anti-gnóstico, foi Marcião o seu primeiro adversário nesta seara, a quem deplorava suas tentativas de conciliar a doutrina cristã com a filosofia grega: “o que tem Atenas a ver com Jerusalém? Que relação há entre a Academia e a Igreja? O que os hereges têm com os cristãos? Nossas instruções vêm do pórtico de Salomão, que ensinou, ele mesmo, que o Senhor deve ser procurado na simplicidade de coração. Fora com todas as tentativas de criar um cristianismo estóico, platônico e dialético!” (citado por Paul Johnson, ob. cit.). Contra Marcião, Tertuliano revela também o seu estilo irônico, ou, porque não dizer, sarcástico: “Quem sois vós? Desde quando existis? Quem vos deu o direito, ó Marcião, de serdes lenhador no meu bosque? Essa terra é minha, tenho os títulos autênticos, recebidos dos proprietários, a quem essa terra pertenceu: sou herdeiro dos apóstolos” (citado por Adalbert – G. Hamman em “Os Padres da Igreja”, Ed. Paulus, 1995, pág. 72).
O Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs (Ed. Paulus e Ed. Vozes, 2002, págs. 1348/9) traz uma lista de suas principais obras, dividindo-as em três categorias - os escritos apologéticos, os doutrinais e os polêmicos - mas estabelecendo uma ordem cronológica:
“A 197 remontam as duas obras apologéticas mais conhecidas, o “Ad nationes” em 2 livros e o “Apologeticum”, dirigidas contra as acusações dos pagãos à nova religião; nelas a defesa e a ilustração dos costumes e das doutrinas cristãs se alternam com o ataque à conduta e às crenças dos gentios. Incerta é a colocação do “Ad martyras”, breve, mas intensa exortação aos co-irmãos para que afrontem corajosamente a perseguição. Esta está posta no início de 197 ou no curso deste mesmo ano ou em 200-203: nesse caso, os destinatários seriam os mártires conhecidos através de um outro documento antigo, a “Passio Perpetuae et Felicitatis”, um texto atribuído às vezes, pelo redator, ao próprio Tertuliano... não menos problemática a data atribuída ao “Adversus Iudaeos”, que se apresenta como o complemento de uma disputa não terminada entre um cristão e um prosélito judaico e que expõe os pontos principais da controvérsia judaico-cristã. A obra, cuja autenticidade foi longamente discutida, remontaria a 200 dC ou, segundo outros, a antes de 197. Pouco antes de 200 parece ter sido composto o “De testimonio animae, escrito apologético em que se recorre ao testemunho da alma para demonstrar a existência de Deus e outras verdades afirmadas pela doutrina cristã. Entre 200 apr. E 206, coloca-se uma importante série de tratados morais, exatamente: o “De spetaculis” (condenação dos jogos do circo, do estádio e do anfiteatro e proibição para os cristãos de neles participar), o “De oratione (sobre a oração e, especialmente, sobre o Pai-nosso), o “De patientia” (sobre a importância da “patientia” cristã, da qual Jesus deu o exemplo), o “De paenitentia” (sobre a primeira “penitência” necessária para se receber o batismo, e sobre a segunda, depois do sacramento da iniciação, que precede a reconciliação eclesiástica), o “De cultu feminarum” (sobre as vestes e os ornamentos das mulheres e a necessidade da modéstia), em 2 livros, o “Ad uxorem” (espécie de testamento espiritual em que se recomenda à esposa não passar para segundas núpcias), em 2 livros. Ao mesmo período pertencem três outras obras importantes: o “De baptismo”, contra a seita dos cainitas (sobre o batismo, sua necessidade, seus efeitos, invalidade do batismo administrado pelos hereges), o “De praescriptione haereticorum” (sobre o direito de possuir e, por conseguinte, de interpretar as Sagradas Escrituras, reservado não aos hereges, mas somente à Igreja, que é sua herdeira por via de transmissão legítima, tendo ela recebido as Escrituras de Cristo através dos apóstolos; sobre os motivos pelos quais as heresias estão no erro. O termo “praescriptio” de nosso autor foi entendido em pelo menos dois sentidos: com valor propriamente jurídico e com valor retórico e dialético), e, enfim, o “Adversus Hermogenem” (uma defesa da doutrina cristã da criação contra aqueles, entre os gnósticos, que consideravam a matéria como eterna).
Nos tratados compostos a começar de 207, nota-se uma influência sempre mais nítida do montanismo, o movimento religioso frígio, nascido na segunda metade do séc. II, ao qual Tertuliano está para aderir. De 207 a 212 sucedem-se vários escritos de cunho doutrinal e antignóstico: os quatro primeiros livros do “Adversus Marcionem”; trata-se da terceira edição de uma obra já elaborada anteriormente (contra Marcião e contra sua tentativa de separar o Deus do AT daquele do NT), o “Adversus Valentinianos” (exposição e refutação da doutrina dos gnósticos valentinianos), o “De anima” (em torno da natureza, da origem, do desenvolvimento e do destino da alma, que é ao mesmo tempo refutação de doutrinas heréticas), o “De carne Christi” (sobre a Encarnação do Senhor), o “De resurrectione mortuorum” (sobre a segunda vinda de Cristo, a salvação do elemento corporal, destinado a reconjugar-se com a alma, a exigência do Juízo e a necessidade da ressurreição), o V livro do “Adversus Marcionem”. Nesta grande empresa doutrinal, Tertuliano parece querer expor os pontos essenciais da ‘regula fidei’ numa moldura que, de propósito, tem presente as dificuldades e as objeções dos heréticos, e, mais em geral, a mentalidade e a cultura de seu tempo. Outras obras, compostas neste período de sua atividade literária, a mais intensa e fecunda, têm caráter moral e prático, e de modo claro revelam a tendência montanista do escritor: como acontece com o “De exhortatione castitatis” (ainda sobre as segundas núpcias, e com atitude mais rígida), com o “De virginibus velandis” (sobre a necessidade de que as virgens tragam o véu não apenas na igreja, mas em todo lugar público), com o “De corona” (diz respeito à incompatibilidade entre cristianismo e serviço militar), com o “Scorpiace” ou remédio contra a mordida do escorpião, quer dizer, contra a heresia gnóstica, em que se exalta o valor do martírio, negado pelos hereges. O “Ad Scapulam” é como uma carta aberta, de natureza apologética, endereçada ao procônsul da África Scapula que, por volta de 211, havia começado a perseguir os cristãos. Sobre o “De idolatria” (contra toda prática idolátrica e contra toda atividade e profissão que esteja em contato com ela), os pareceres sobre sua data estão divididos: se muitos historiadores consideram ter sido composto pouco antes de 212, outros propõe 197 ou os anos imediatamente posteriores (é o caso também de “De pallio”, uma resposta polêmica e amarga do escritor, dirigida a todos aqueles seus concidadãos que dele zombavam por haver deixado a toga romana para vestir a capa dos filósofos: em sua brevidade e obscuridade, foi classificado ora como o primeiro, ora como o último dos tratados de Tertuliano, ou foi colocado em período intermédio).
No terceiro e último período vemos o escritor africano já militando, contra a Grande Igreja, no partido dos montanistas. Interrogou-se acerca do caráter do montanismo africano comparado com aquele da Frigia; e se alguns críticos supuseram diferenças, outros as negaram, identificando o primeiro com o chamado movimento tertulianista (cf. D. Powell, ‘Tertullianists and Cataphrygians’, p. 33s). A partir de 212-213, enumeram-se o “De fuga in persecutione” (sobre a inadmissibilidade de fuga durante a perseguição), o “Adversus Praxeam” (contra o patripassiano Práxeas expõe-se a doutrina sobre a Trindade), o “De monogamia” (ainda contra as segundas núpcias, com textos mais radicais e tons mais duros), o “De ieiunio adversus Psychicos” (defesa da prática montanista sobre o jejum e ataque aos ‘psychici’, isto é, aos católicos, acusados de serem laxistas) e o “De pudicitia”, onde se nega à Igreja o direito de perdoar os pecados, reservando-o aos “homens espirituais”, quer dizer, aos apóstolos e aos profetas; afirma-se que alguns pecados gravíssimos (idolatria, fornicação, homicídio) não têm perdão de ninguém e se tem em mira um bispo que, a respeito do último ponto, expressou opinião oposta. A parábola religiosa de Tertuliano chegou assim a seu termo: a polêmica posta em ato por ele está em seu cume, tanto que várias idéias que se lêem nas últimas obras estão em contradição com outras, de obras precedentes.
Jerônimo (cf. De vir. Ill. 53) assinala um motivo de difícil verificação que teria levado o escritor africano para a órbita do montanismo: a invidia e as contumeliae que o clero de Roma teria manifestado contra ele num conflito de que ignoramos todas as minúcias e que, se realmente existiu, se pode supor ter-se relacionado justamente com questões disciplinares; nem se pode, a este respeito, esquecer do rancor que Jerônimo tinha para com o clero de Roma. Com probabilidade, circunstâncias exteriores e afinidades interiores o induzem a aderir ao movimento montanista, permitindo-lhe levar às extremas consequências um ideal de vida rígido e sem meias medidas, para o qual sempre havia sentido uma propensão; solução esta favorecida certamente pela concepção que Tertuliano tem da moral: seu espírito ascético e rigorista era fustigado pelas noções de justiça, retribuição, temor, também esperança, mas não parece inspirado suficientemente pelo amor. Neste sentido, o montanismo havia apenas acelerado um processo iniciado bem antes, brotado da profunda esperança pessoal do homem.”
Apesar de suas contradições, as obras de Tertuliano são decisivas para a formação e consolidação da Igreja primitiva. Primeiramente, ele valeu-se de seus estudos jurídicos para enriquecer o vocabulário teológico com termos, por assim dizer, importados do Direito, como “sacramentum”, que originalmente significava a entrega de uma soma para um processo e, depois, o juramento militar do recruta. Tertuliano cria um neologismo para essa palavra, aplicando-a ao engajamento batismal a serviço de Cristo. Por “persona” ele traduz o grego “hypostasis” (substância) ou “prosopon” (máscara, pessoa), em que a pessoa representa um papel sem perder sua individualidade, para usar a palavra para as pessoas da Trindade.
Seu livro “A Oração” (“De oratione”) foi o encanto de gerações, onde ele comentava o Pai-Nosso, desenvolvendo as condições e as características da oração cristã. Eis o preâmbulo (Adalbert – G. Hamman em “Os Padres da Igreja”, Ed. Paulus, 1995, pág. 73):
De Deus o espírito,
E de Deus a palavra,
E de Deus a sabedoria,
E o Espírito dos dois. Jesus Cristo, nosso Senhor,
Aos discípulos novos do Novo Testamento
Ordenou uma forma nova de oração.
"A Oração - Tertuliano"
Em sua obra “Apologeticum”, Tertuliano faz as vezes de um advogado ao defender o Cristianismo. Assim, por exemplo, referindo-se à carta na qual Trajano ordenou a Plínio que condenasse aqueles cristãos acusados diante dele, mas que não perseguisse aqueles que não eram acusados, Tertuliano escreve:
“Ó miserável pronunciamento – de acordo com as necessidades do caso, uma incoerência! Proíbe de irem à procura deles como se fossem inocentes, e ordena que sejam punidos como se fossem culpados. É ao mesmo tempo misericordioso e cruel; ao mesmo tempo, ignora e pune. Por que fazes um jogo de palavras contigo mesmo, Ó Julgamento? Se condenas, porque também não inquires. Se não inquires, por que também não absolves?”
"Justo L. González, “Uma História do Pensamento Cristão”, Ed. Cultura Cristã, 2004, vol. I, pág. 168"
Prova de sua inteligência argumentativa é também a sua “Praescriptione haereticorum” (“Prescrição contra os hereges”), em que usa a palavra “prescrição” principalmente no seu sentido jurídico, valendo-se de um argumento definitivo: “se os hereges não têm direito de usar as Escrituras, torna-se impossível para eles discutir com aqueles que possuem e defendem a ortodoxia, a fim de desviá-los da verdadeira fé. A “praescriptio” é total: os hereges estão excluídos de qualquer discussão; somente as igrejas ortodoxas e apostólicas têm o direito de determinar o que é e o que não é doutrina cristã” (Justo L. González, “Uma História do Pensamento Cristão”, Ed. Cultura Cristã, 2004, vol. I, pág. 173).
Entretanto, é na sua obra “Adversus Praxean” (“Contra Práxeas”), que Tertuliano atingiu o cume de suas formulações teológicas, ao defender a doutrina da Trindade. Pouco se sabe sobre Práxeas, a não ser que ele parece ter vindo da Ásia Menor, onde conhecera tanto o monarquianismo como o montanismo, acabando por aceitar o primeiro e rejeitar o último. Chegando em Roma, Práxeas foi bem recebido, combatendo o montanismo e expandindo o monarquianismo, com ênfase no patripassianismo (o sofrimento e morte do Deus Pai), a ponto de Tertuliano atribuir-lhe essa infame dupla função: “fez um duplo serviço para o diabo em Roma: ele afugentou a profecia, e introduziu a heresia; ela afastou o Espírito e crucificou o Pai”.
Ainda valendo-se da terminologia jurídica que lhe era própria e familiar, Tertuliano desenvolveu a doutrina da Trindade, como Justo L. González expõe:
“De acordo com ele, Práxeas afirma que a distinção entre o Pai e o filho destrói a “monarquia” de Deus, mas não compreende que a unidade da monarquia não requer que ela seja sustentada por uma só pessoa. “Monarquia”, este termo tão acalentado por Práxeas e seus seguidores, significa simplesmente que um governo é único, e nada impede o monarca de ter um filho ou de administrar sua monarquia como lhe aprouver – o que Tertuliano chama de “economia” divina. Além do mais, se o pai assim quiser, o filho pode participar na monarquia sem com isso destruí-la. Portanto, a monarquia divina não é razão para se negar a distinção entre o Pai e o Filho, como alegado pelos “simples, na verdade, eu não quero chamá-los de insensatos e ignorantes”, que negam tal distinção.
Mas isto não é suficiente para refutar Práxeas, pois é necessário explicar como é possível que o Pai, o Filho e o Espírito Santo sejam um só Deus e que eles, contudo, sejam diferentes. Aqui Tertuliano apela novamente para sua formação legal e introduz dois termos que a igreja continuaria usando por muitos séculos: “substância” e “pessoa”. O termo “substância” deve ser entendido aqui, não num sentido metafísico, e sim num sentido legal. Dentro deste contexto, “substância” é a propriedade e o direito que uma pessoa tem de fazer uso dessa propriedade. No caso da monarquia, a substância do Imperador é o Império, e é isto que torna possível para o Imperador partilhar sua substância com seu filho – como de fato era comum no Império Romano. “Pessoa”, por outro lado, deve ser entendida como “pessoa jurídica” e não no sentido comum. “Pessoa” é alguém que tem uma certa “substância”. É possível que várias pessoas participem de uma substância, ou que uma pessoa tenha mais de uma substância – e essa é a essência da doutrina de Tertuliano a respeito não apenas da Trindade, mas também a respeito da pessoa de Cristo.
Com base nesses conceitos de substância e pessoa, Tertuliano afirma a unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo sem negar sua distinção: os três compartilham uma única e indivisível substância, mas isto não os impedem de serem três pessoas diferentes:
Três, no entanto, não em condição, mas em grau; não em substância, mas em forma; não em poder, mas em aspecto; todavia de uma substância, e de uma condição, e de um poder, porque ele é um Deus, de quem três graus e formas e aspectos são contados, sob o nome de Pai, de Filho e de Espírito Santo.”
"Justo L. González, “Uma História do Pensamento Cristão”, Ed. Cultura Cristã, 2004, vol. I, pág. 174/5"
Como lembra Paul Tillich (“História do Pensamento Cristão”, Ed. Aste, 2000, pág. 61), “a palavra ‘trinitas’ aparece pela primeira vez nos escritos de Tertuliano. Embora Deus seja um só, ele nunca está só. Diz Irineu: “Estão sempre com ele a palavra e a sabedoria, o Filho e o Espírito, por meio dos quais tudo fez livre e espontaneamente”. Deus é sempre Deus vivo. Não está só. Não é uma identidade morta. Mantém em si para sempre a palavra e a sabedoria. Palavra e sabedoria são símbolos de sua vida espiritual, da sua auto-manifestação e da sua auto-realiação. O motivo da doutrina da trindade é esse falar de Deus em termos de Deus vivo, para tornar compreensível a presença do divino como fundamento vivo e criativo do mundo. Segundo Irineu, esses três são um só Deus porque possuem uma só ‘dynamis’, um só poder de ser, uma só essência, a mesma potencialidade. “Potencialidade” e “dinâmica” são termos latinos e gregos para significar o que expressamos em nossa língua pelo termo “poder de ser”. Tertuliano falava da substância divina uma desenvolvida na economia triádica. “Economia” significa “construção”. A divindade se constrói eternamente em unidade. Rejeita-se definitivamente qualquer interpretação politeísta da trindade. Por outro lado, Deus se estabelece como ser vivo, em contraposição à identidade morta. Assim Tertuliano empregou a fórmula “una substantia, três personae”, para falar de Deus”.
Entretanto, não foi só quanto à doutrina da Trindade que “Adversus Praxean” foi de suma importância para a formulação teológica da Igreja primitiva. Também no campo da Cristologia, uma frase “solta” do capítulo 27:11, “videmus duplicem statum, non confusum sed coinunctum in uma persona, deum et hominem Iesum” (“vemos o duplo estado, não confuso mas unido em uma só pessoa, o Deus e homem Jesus”) foi de vital importância para a definição da natureza de Jesus no Concílio de Calcedônia, em 451 d.C. Ainda que essa fórmula tenha passada quase desapercebida por mais de 200 anos, e tenha encontrado em Agostinho o seu, por assim dizer, recuperador, defensor e aperfeiçoador, chama a atenção o fato de Tertuliano tê-la colocado mais de dois séculos à frente do símbolo calcedônio, o que revela o quanto era avançado para o seu tempo.
Ainda são nebulosas as razões que teriam levado Tertuliano a aderir ao partido dos montanistas. Supõe-se que tenham sido decisivos para esta adesão o crescente poder da hierarquia eclesiástica e a sua tolerância em lidar com os pecadores arrependidos (principalmente aqueles que negavam a Cristo para fugir à perseguição e depois queriam retornar à Igreja). Jerônimo cita um motivo difícil de se comprovar, que teria levado Tertuliano às trincheiras montanistas: um suposto conflito dele com o clero de Roma. Considerando-se que o próprio Jerônimo vivia às voltas com crises com o clero romano, suas palavras devem ser recebidas com o cuidado da dúvida.
Entretanto, Paul Johnson afirma em seu livro “História do Cristianismo” (ob. cit., págs. 99/100), que:
“A gota d’água para Tertuliano ocorreu, segundo ele, quando um “grande bispo” (provavelmente Calixto de Roma) decidiu que a Igreja tinha o poder de conceder a remissão de pecados após o batismo, mesmo de pecados sérios como o adultério ou mesmo a apostasia. Foi essa reivindicação em benefício do clero – para ele, inconcebível – que fez do antigo flagelo dos hereges, por assim dizer, o primeiro protestante. E, uma vez tendo renegado os direitos clericais a esse respeito, Tertuliano foi levado, paulatinamente, a questionar os clamores clericais em favor da discriminação de status na Igreja. Em seus tempos de ortodoxia, atacara os hereges montanistas por ‘conferirem até à laicidade as funções do sacerdócio’. Agora, tendo repudiado o poder penitencial, tornou-se ele próprio montanista, pedindo, em “De Exhortatione Castitatis”:
‘não somos também sacerdotes leigos? (...) a diferença entre a ordem e as pessoas deve-se à autoridade da Igreja e à consagração de sua categoria pela reserva de um ramo especial para a ordem. Porém, onde não há assento de clero, você oferece e batiza e é seu único sacerdote. Pois, onde houver três, existirá uma igreja, ainda que sejam leigos (...) você tem os direitos de um sacerdote em sua própria pessoa, quando surgir necessidade.’
Desse modo, Tertuliano atacava bispos que apresentavam o que ele denominava ‘brandura’ no perdão dos pecadores e decaídos. Apelava para o ‘sacerdócio de todos os crentes’ contra os direitos ‘usurpados’ de determinados oficiantes, o ‘senhorio’ não-espiritual, a ‘tirania’ dos clérigos. Mesmo uma mulher, se falasse com o espírito, tinha mais autoridade, nesse sentido, que o maior dos bispos. Este representava um ofício vazio; ela, o espírito vivo. A divisão era bem delineada – entre uma Igreja de devotos, que administravam a si próprios, e uma imensa ralé de devotos e pecadores, que tinha de ser administrada por um clero profissional. Como poderia tal Igreja ser equacionada com a doutrina clara de S. Paulo? Tertuliano leu Romanos, como faria Lutero. O Espírito, a seu ver, não relaxa seu rigor; julga sem parcialidade nem leniência e jamais perdoará alguém em pecado mortal.”
“De pudicitia”, uma das últimas obras de Tertuliano (aprox. 217-222) marca o fim do, por assim dizer, ‘rastreamento’ da sua passagem pelo planeta. Depois disso, nada mais se sabe do seu paradeiro ou de seu fim. Provavelmente morreu em Cartago, já que os registros dão conta de que fez uma única viagem a Roma na juventude, não saindo mais da cidade natal. O bispo de Cartago, Cipriano, morto em 258, conhece as obras de Tertuliano, mas não o menciona. Jerônimo esconde-se atrás de um prudente “diz-se que...” para dizer que Tertuliano viveu até idade avançada. No seu “Manual de Patrologia” (Ed. Vozes, 2003, pág. 161), Hubertus R. Drobner afirma que “apesar de tudo Tertuliano foi lido até a Idade Média, sendo considerado tão importante que, segundo o relato de Jerônimo (“De viris illustribus 53”), Cipriano lia diariamente suas obras, e, quando queria tê-las à mão, bastava que dissesse a seu notarius: ‘Traze-me o mestre’”. Agostinho, por fim, afirma que Tertuliano se colocou bem depressa em desacordo com os montanistas e formou pequenos grupos próprios, existentes em Cartago no tempo em que Agostinho vivia (“De haeres. 86”). Desta forma, contribuiu para que Tertuliano fosse reabilitado e reconciliado postumamente com a ortodoxia da Igreja.
Para ler a “Apologia” (“Apologeticum”) de Tertuliano, acesse:
Para ler outras obras de Tertuliano (em várias línguas), acesse:

A oração trouxe...

El monje y la flor
A oração trouxe as almas dos mortos do próprio seio da morte...
Fortaleceu os fracos;
curou os doentes;
libertou os possuídos;
abriu as masmorras;
libertou os laços dos inocentes.

A Oração perdoa os crimes, além das tentações;
extingue a perseguição;
consola os covardes;
atenua as tempestades;
atordoa os ladrões;
alimenta os pobres;
governa os ricos;
levanta os caídos;
sustenta aqueles que vão cair e apoia aqueles que estão de pé.

- Tertuliano - Do Tratado sobre "Oração",

quarta-feira, 1 de maio de 2019

8 aspectos edificantes sobre a figura de São José Operário


O Dia Mundial de Trabalho é comemorado em 1º de maio, mesmo dia da festa de São José Operário, padroeiro dos trabalhadores e pai adotivo de nosso Senhor Jesus Cristo.

A Igreja, providencialmente, nesta data civil marcada, muitas vezes, por conflitos e revoltas sociais, cristianizou esta festa, isso na presença de mais de 200 mil pessoas na Praça de São Pedro, as quais gritavam alegremente: “Viva Cristo Trabalhador, vivam os trabalhadores, viva o Papa!” O Papa, em 1955, deu aos trabalhadores um protetor e modelo: São José, o operário de Nazaré.
O santíssimo São José, protetor da Igreja Universal, assumiu este compromisso de não deixar que nenhum trabalhador de fé – do campo, indústria, autônomo ou não, mulher ou homem – esqueça-se de que ao seu lado estão Jesus e Maria. A Igreja, nesta festa do trabalho, autorizada pelo Papa Pio XII deu um lindo parecer sobre todo esforço humano que gera, dá luz e faz crescer obras produzidas pelo homem:
“Queremos reafirmar, em forma solene, a dignidade do trabalho a fim de que inspire na vida social as leis da equitativa repartição de direitos e deveres”
São José, que na Bíblia é reconhecido como um homem justo, é quem revela com sua vida que o Deus que trabalha sem cessar na santificação de suas obras, é o mais desejoso de trabalhos santificados:
“Seja qual for o vosso trabalho, fazei-o de boa vontade, como para o Senhor, e não para os homens, cientes de que recebereis do Senhor a herança como recompensa… O Senhor é Cristo” (Col 3,23-24)
A seguir, é apresentada uma lista com 8 dados que pouca gente sabe a respeito de São José:
1. Não há palavras suas nas Sagradas Escrituras
Ele protegeu a Imaculada Mãe de Deus e ajudou a cuidar do Senhor do Universo! Entretanto, não há nenhuma palavra dele nos Evangelhos. Muito pelo contrário, foi um silencioso e humilde servo de Deus que desempenhou seu papel cabalmente.
2. Foi muito pouco mencionado no Novo Testamento
São José é mencionado no Evangelho de São Mateus, de São Lucas, uma vez em São João (alguém diz que Jesus é “o filho de José”) e apenas isso. Ele não é mencionado em Marcos ou no restante do Novo Testamento.
3. Sua saída da história dos Evangelhos não é explicada na Bíblia
É uma figura importante nos relatos do Nascimento do Senhor em São Mateus e São Lucas e mencionado nas passagens que relatam o momento em que Jesus se perdeu aos 12 anos e foi encontrado no templo. Mas este é o último momento que falam dele.
Maria aparece várias vezes durante o ministério de Jesus, mas José desapareceu, sem deixar rastro. Então, o que aconteceu? Várias tradições explicam esta diferença dizendo que José morreu aproximadamente quando Jesus tinha 20 anos.
4. Viúvo e idoso?
A Escritura não diz a idade de São José quando se casou com Maria ou sobre seu passado. Entretanto, por muito tempo foi representado como um homem de idade avançada, aparentemente baseado em um texto do chamado protoevangelho de São Tiago, um evangelho apócrifo que menciona que São José havia casado anteriormente, teve filhos desse casamento e ficou viúvo.
Segundo essa tradição, São José sabia que Maria tinha feito voto de virgindade e foi eleito para se casar com ela para protegê-la, de certo modo porque ele era idoso e não estaria interessado em formar uma nova família. Esta ideia foi contraposta ao longo da história por grandes santos, como Santo Agostinho.
5. É venerado aproximadamente desde o século IX
Um dos primeiros títulos que utilizaram para honrá-lo foi “nutritor Domini”, que significa “guardião do Senhor”.
6. Tem duas celebrações
A solenidade de São José é no dia 19 de março e a festa de São José Operário (Dia Internacional do Trabalho) no dia 1º de maio. Também é celebrado na Festa da Sagrada Família (30 de dezembro) e sem dúvida faz parte da história do Natal.
7. É padroeiro de várias coisas
É o padroeiro da Igreja Universal, da boa morte, das famílias, dos pais, das mulheres grávidas, dos viajantes, dos imigrantes, dos artesãos, dos engenheiros e trabalhadores. E também é padroeiro das Américas, Canadá, China, Croácia, México, Coreia, Áustria, Bélgica, Peru, Filipinas e Vietnã.
8. A ‘Josefologia’
Entre as subdisciplinas da teologia, são conhecidas a cristologia e mariologia. Mas, sabia que também existe a Josefologia?
São José foi uma figura de interesse teológico durante séculos. Entretanto, a partir do século XX algumas pessoas começaram a recolher opiniões da Igreja a respeito dele e o converteram em uma subdisciplina.
Na década de 1950, abriram três centros dedicados ao estudo de São José: na Espanha, na Itália e no Canadá.
São José Operário, rogai por nós!

Como organizar o tempo para rezar?

Seja paciente, persistente e coloque-se como um aprendiz de si mesmo. Acima de tudo, saiba que é um “costume” conduzido pela Graça e não somente pelo seu esforço humano.
Todos nós precisamos do nosso tempo com Deus. É uma necessidade vital, indispensável e inadiável. Quando rezamos o Pai-Nosso, não dizemos “o pão nosso da semana me dai hoje”, porque a oração deve ser o alimento de cada dia, ela é o “pão nosso de cada dia”. Portanto, deve ser vivida diariamente.  
Então, precisamos de um tempo diário, certo? (imagino você respondendo: certo, beleza!) Mas como definir esse tempo? Em qual momento do dia devo parar e viver a oração pessoal e meu estudo da Palavra?
Primeira coisa é parar de dizer mentalmente ou verbalmente: “estou sem tempo”. Se Deus inventou um dia com 24 horas, é porque dá sim para fazermos tudo, inclusive estar com Ele nas 24 horas, dedicando momentos desse dia para encontros profundos e pessoais. VOCÊ TEM TEMPO! E Ele está ali escondido onde você mais realiza coisas supérfluas ou desnecessárias para seu hoje.
Organizando o tempo
Coloque num papel tudo o que você faz durante 24 horas (incluindo o tempão no celular). Saia riscando o que não é preciso tomar seu tempo hoje, e você verá que há muito mais espaço para Deus do que você imagina.
Definir o horário da sua oração diária é uma decisão importante e que vai dar formato a sua rotina – tendo visto os espaços disponíveis do seu dia, defina seu horário de oração. Alguns dedicam os momentos – oração e estudo – de formas separadas, se essa for sua realidade fique atento.
Quando você definir seu horário, seu cérebro levará um tempo para aceitar o tempo escolhido, como parte definitiva do seu dia a dia. No começo, será difícil rezar todos os dias no mesmo horário. Haverá semanas em que você irá parar, mas a falta de “costume” pode gerar “bloqueios” e nesses instantes devemos suplicar doses dobradas da Graça de Deus e da presença do Espírito, para que não sejamos vencidos pelo desconforto rítmico do nosso cérebro.
Seu cérebro vai precisar da sua constância, OK?
Ah, não mude o horário nas primeiras semanas em que não der certo. Espere. Tente. Passe um tempo naquele instante e analise seu comportamento. O horário ideal é aquele em que dou tudo para Deus, observe sua entrega. Escolha pelo momento do dia em que você esteja cheio de gás. As primícias da manhã é nosso ideal, acordamos dispostos, recarregados. Existem casos e casos em que rezar pela manhã não é possível, mas, se você tem condições, troque o colchão pela cadeira; o celular na cama pela Bíblia na mesa e (ação) oração!
Também é importante analisar o que antecede seu momento de oração – se você tiver alguma atividade antes do seu horário, analise se é algo que lhe roube a paciência e a concentração. Não adianta chegar à oração “uma pilha de nervos”, porque acabamos descontando tudo em Deus, entende? 
Hal Erold, no seu livro Milagre da Manhã, diz que seu primeiro pensamento antes de dormir, motivará sua primeira ação ao acordar. Então, se você for tentar rezar de manhã, tente dormir já #MOTIVADERRÍMO para na manhã seguinte viver seu momento de oração.
Seja paciente, persistente e coloque-se como um aprendiz de si mesmo. Acima de tudo, saiba que é um “costume” conduzido pela Graça e não somente pelo seu esforço humano. A vida de oração se constrói na vida, não em um dia ou uma semana. Teremos a vida para exercer esse caminho de aproximação que nos formará e nos preparará para contemplar a Face de Cristo.


https://www.comshalom.org/como-organizar-o-tempo-para-rezar-para-oracao-pessoal-para-estudo-biblico-para-lectio-divina/

Três lições de Santa Catarina de Sena


Catarina de Sena soube equilibrar o seu autoconhecimento a ponto de vivenciar tão grande humildade que, por muitas, vezes saiu o demônio vergonhosamente humilhado diante de sua vida virtuosa
Nascida no ano de 1347, na Itália, Catarina foi criada em uma família numerosa, com seus 25 irmãos, em meio a uma educação católica. A graça e eleição de Deus sob esta Santa já começariam cedo. Aos 7 anos de idade, ela consagrou sua virgindade a Cristo. Aos 16 anos, entrou na Ordem Terceira Dominicana. Apesar da sua grande simplicidade e recolhimento na sua vida de oração, ela foi sempre aberta ao serviço caritativo por conta da realidade da sua época. Em uma Europa marcada por guerras e disputas entre reinos, no século XIV, surge Santa Catarina. O Papa Bento XVI, em catequese sobre esta Santa, nos diz:
“Quando a fama de sua santidade espalhou-se, foi protagonista de uma intensa atividade de aconselhamento espiritual na relação com todas as categorias de pessoas: nobres e políticos, artistas e gente do povo, pessoas consagradas, eclesiásticos, incluindo o Papa Gregório XI que, naquele período, residia em Avignon e ao qual Catarina exortou enérgica e eficazmente que retornasse para Roma. Viajou muito para solicitar a reforma interior da Igreja e promover a paz entre os Estados: também por esse motivo, o Venerável João Paulo II desejou declará-la copadroeira da Europa: o Velho Continente nunca poderá esquecer as raízes cristãs que formam a base de seu caminho e continua a desenhar, a partir do Evangelho, os valores fundamentais que asseguram a justiça e a harmonia.”[1]
Dentro da espiritualidade de Santa Catarina podemos destacar três pontos: intimidade com Deus, piedade e arrependimento e a Divina Providência. Em cada um deles, Catarina deixa-nos uma lição.
A intimidade com Deus
Na sua obra “O Diálogo”, Santa Catarina preocupa-se com a busca do conhecimento da Verdade e do sumo Bem, que é Deus. É importante lembrar que esta obra de Santa Catarina, na verdade, foi organizada pelo Beato Raimundo de Cápua, e ditada por ela, a alguns ajudantes, que registravam as experiências místicas que a Santa tinha com Deus, ora reveladas por Deus Pai, ora por Deus Filho. Em uma das locuções, Jesus nos ensina que o passo inicial e fundamental para a busca da Verdade é o autoconhecimento: “O Caminho para atingir o conhecimento verdadeiro e a experiência do meu ser – Vida eterna que eu sou – é este: nunca abandones o autoconhecimento! Ao desceres para o vale da humildade, reconhecer-me-ás em ti, e de tal conhecimento receberás tudo aquilo de que necessitas.”[2] Diante de tal conhecimento, o homem depara-se com o nada que é, e reconhece que o seu egoísmo é a fonte de todo o seu pecado. Por isso, há uma importância em reparar os nossos pecados.
Para chegarmos à perfeição, existe o que a Santa chama de “degraus do amor”, que são três: amor servil, amor interesseiro e, por último, amor amizade. O amor amizade reflete o mais sublime estado que o nosso relacionamento com Deus pode chegar. O Senhor revela a Santa Catarina o que significa este amor amizade: “A amizade íntima consiste nisto: que são dois corpos, mas uma só alma no amor, pois o amor transforma (o amante) na coisa amada. E quando (os amigos) se tornam uma só alma, entre eles já não haverá segredo. Por isso dizia meu Filho: ‘Viverei e moraremos juntos. [3]’”
Portanto, no amor amizade, aquele que alcança esse estado de graça, tem uma grande semelhança com os sentimentos de Cristo. Deseja estar constantemente em comunhão e escuta com o Pai: “Filha querida, convence-te de que na oração contínua, fiel e perseverante que todas as virtudes são adquiridas.”[4] Ou ainda, fazendo um paralelo entre a vida de oração e o autoconhecimento: “Como é agradável ao orante e a mim a prece feita na cela do autoconhecimento.”[5]
Ademais, o Papa Bento XVI faz-nos lembrar do místico e profundo relacionamento que Santa Catarina tinha com Jesus: “Em uma visão que jamais se apagou do coração e da mente de Catarina, Nosso Senhor apresentou-a a Jesus, que lhe deu um esplêndido anel de ouro, dizendo: ‘Eu, teu Criador e Salvador, esposo-te na fé, que conservarás sempre pura, até quando vieres celebrar comigo no céu as tuas núpcias eternas’ (Raimundo de Cápua, S. Caterina da Siena, Legenda maior, n. 115, Siena, 1998). Aquele anel foi visível somente para ela.”[6]
Vale fazer a ressalva que, para Santa Catarina, a graça de deparar-se de forma humilde com os nossos pecados só é eficaz se estivermos com o olhar na paixão de Cristo, pois o erro ocorreria se formos falseados por nossos sentimentos de autocondenação: “Se não forem acompanhados pelo pensamento da paixão, o autoconhecimento e a reflexão sobre os próprios pecados, confundem a alma.” [7] Esta Santa também soube equilibrar o seu autoconhecimento a ponto de vivenciar tão grande humildade que, por muitas, vezes saiu o demônio vergonhosamente humilhado diante da vida virtuosa de Santa Catarina. “Maldita sejas tu, pois de nenhum modo consigo vencer-te! Se te rebaixo ao desespero, tu te elevas à misericórdia; se te engrandeço de vaidade, tu te rebaixas até o inferno pela humildade e aí me persegues. Não voltarei mais; tu combates com a lança da caridade” [8], disse a ela o demônio.
Dom das Lágrimas
Percebemos o quanto estava aflorado no íntimo de Santa Catarina a busca constante e intensa do autoconhecimento, e isto era fruto da sua contínua e profunda vida de oração, já que quando nos aproximamos de Deus, conhecemos a Ele e a nós mesmos. Ora, o amor sincero leva-nos a uma reta postura diante de Deus e também dos homens. Ao deparar-nos com a nossa fraqueza e miséria, numa graça particular de arrependimento de coração, chegamos ao choro. As lágrimas, então, são os frutos externos de algo que acontece de forma intensa e verdadeira no nosso interior, que é o desejo de mudança de vida.
Existem cinco tipos de lágrimas que se diferenciam pelo estado em que a pessoa se encontra. No primeiro, ocorrem as lágrimas por estarmos em estado mortal. No segundo, compreendemos os males dos nossos pecados e há uma busca de conversão. No terceiro tipo,  há uma superação do temor servil e, em seguida, atingimos o amor e a esperança. O quarto tipo de lágrimas refere-se à prática das virtudes. Já no quinto, o Senhor fala a Santa Catarina das lágrimas de fogo do Espírito Santo: “Existe alguma lágrima que não saia dos olhos? Sim, existe um pranto de fogo, procedente do desejo santo e que faz consumar-se no amor por mim. (…) Ao que parece, foi quanto pretendia afirmar o glorioso apóstolo Paulo, ao dizer que o Espírito Santo chora em mim ‘com gemidos inenarráveis’ (Rm 8, 26), a vosso favor.”[9]
Por isso, não se pode queixar-se quem, por conta de seu tempo de caminhada com Deus, não tem o dom das lágrimas simplesmente porque não derrama as lágrimas que deseja. A Deus não interessa se nós derramamos lágrimas externas ou lágrimas do espírito: “Em todo estado de vida e ocasião, tais pessoas podem agradar-me. A menos que seu espírito se afaste de mim por falta de fé e de amor.”[10]
Providência Divina
Para Santa Catarina, o amor a Deus e o desejo de conversão e santidade não ficavam parados apenas em um olhar em si mesma, mas ela tinha um olhar voltado para a humanidade, para o padecimento do homem diante da vida de pecado e engano. Santa Catarina olha para Deus, criador e redentor, e o vê à frente da história do homem. Não que Ele seja causador ou indiferente aos males do homem, mas ela vê Deus que intervém na história. A isto chamamos de Providência Divina.
Pela Providência Divina, foi criado o homem. Este, no mau uso de sua liberdade, desobedece a Deus e peca, e todos os homens herdam, a partir do pecado original, a concupiscência e a culpa. O que restaria à humanidade? A separação eterna do homem de Deus. Mas Deus intervém, providenciando a Encarnação, vida, paixão e morte de Cruz do seu Filho, para que, em sua obediência, Ele salve e repare o pecado de toda a humanidade.
Santa Catarina relaciona a Providência Divina como a verdadeira esperança do homem, como ensina Deus Pai: “Também dei à humanidade o conforto de uma esperança. Ao dar valor ao preço do sangue com que foi remido, o homem sente uma firme esperança e grande certeza de salvação. Se é verdade que sempre me ofende com todos os sentidos, também foi com o corpo inteiro que meu Filho tolerou grandíssimos tormentos. Por sua obediência, ele cancelou vossa desobediência. Ainda mais: de sua obediência recebestes a graça, da mesma forma como da desobediência de Adão havíeis herdado a culpa.”[11]
Por último, é importante ressaltar a relação entre a experiência pessoal e o amor e a providência de Deus. “A esperança humana é mais ou menos perfeita conforme o amor da pessoa; será igualmente nessa medida que cada um terá a experiência da minha providência. Aqueles que me servem e só em mim confiam, experimentá-la-ão mais profundamente do que as almas cuja esperança se fundamenta em interesses e compensações.”[12]
Peçamos a Deus, por intercessão de Santa Catarina de Sena, a graça de termos Cristo como o Esposo de nossa fé, e, apaixonados e servos da Igreja, sejamos atentos ao que o Espírito Santo deseja de nós como discípulos e missionários de Cristo, servindo à Igreja e à humanidade.
[1] BENTO XVI. Catequese de Bento XVI sobre Santa Catarina de Sena: 24 de Novembro de 2010. Disponível em: http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=279012.
[2] SANTA CATARINA DE SENA. O Diálogo. Paulus. 1984. p. 33.
[3] Idem.  p. 132.
[4] Idem. p. 139.
[5] Ibidem.
[6] BENTO XVI. Catequese de Bento XVI sobre Santa Catarina de Sena: 24 de Novembro de 2010. Disponível em: http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=279012.
[7] SANTA CATARINA DE SENA. O Diálogo. Paulus. 1984. p. 141.
[8] Idem. p. 142.
[9] Idem. p. 187.
[10] Ibidem.
[11] Idem. p. 305.
[12] Ibidem.
Márcio André Barradas
missionário da Comunidade Católica Shalom
(Artigo originalmente publicado na Revista Shalom Maná)

Você sabia que Catarina de Sena não era freira?


Eles podem ter parecido religiosos, mas alguns de nossos santos dominicanos mais amados eram leigos

Ela parecia uma freira. Imagens de Catarina de Sena mostram-na usando o hábito de uma irmã religiosa, da Ordem dos Pregadores. Na verdade, ela era leiga – a única pessoa leiga atualmente reconhecida como Doutora da Igreja.
Então, por que ela aparece assim?
Catarina Benincasa cresceu em Siena, na Itália, a 23ª filha de Lapa Piagenti e Giacomo di Benincasa (metade de seus filhos morreram cedo). Aos 13 anos de idade, Catarina era uma adolescente mal-humorada, sem intenção de se casar.
Quando jovem, ela teve uma visão de Cristo sentado em glória com São Pedro, Paulo e João ao seu lado, e isso a inspirou a fazer um voto particular, dedicando sua vida a Deus. Ninguém sabia deste voto, então quando ela chegou à idade de casar, seus pais procuraram um marido digno.
Catarina recusou a ideia, cortou o cabelo e vestiu roupas esfarrapadas para se tornar pouco atraente até que seus pais enfurecidos perceberam que novas tentativas de persuadi-la seriam inúteis. Eles reconheceram a piedade de sua jovem filha e fizeram uma cela particular para ela em sua casa.
Catarina estava interessada na ordem dominicana, mas não sentiu nenhum apelo ao claustro. Ela descobriu em Siena as Irmãs da Penitência da Terceira Ordem de São Domingos, que serviam aos paroquianos locais. Buscando admissão, Catarina foi inicialmente recusada porque o grupo era geralmente composto de viúvas e solteironas.
Depois, ela finalmente conseguiu o que queria. Tornou-se terciária dominicana, ou membro da “Terceira Ordem” e – como era comum na época – teve permissão para usar o hábito. Depois de um retiro de três anos em sua “cela”, Catarina emergiu e se juntou ao trabalho de catequizar os jovens, dando orientação espiritual, cuidando dos doentes e servindo os pobres, o que ela fez incansavelmente pelo resto de sua vida.
Enquanto a maior parte de sua energia foi gasta em Siena, Catarina também foi convocada a viajar em várias ocasiões para dar seus conselhos altamente procurados. Ela era correspondente reis, rainhas e eventualmente do próprio Papa. Vale a pena ler a biografia desta santa.
Mas Catarina não é a única santa dominicana leiga professa da Ordem como terciária. A maioria das pessoas fica surpresa ao saber que alguns dos mais proeminentes e amados santos da igreja eram dominicanos que também eram leigos, incluindo Santa Rosa de Lima, São Martinho de Porres, Beato Pier Giorgio Frassati, a Beata Margarida de Castello e o Beato Bartolo Longo.
Qualquer católico de boa reputação pode ser admitido em uma Ordem Terceira, incluindo pessoas casadas e padres diocesanos. Ordens Terceiras (ou Oblações ou Associações) são outro meio pelo qual os fiéis leigos podem buscar a santidade e se aproximar de Deus em oração e caridade.
Enquanto as Ordens Terceiras ainda existem, o hábito religioso não é mais usado pelos membros, exceto na morte. Os dominicanos da Terceira Ordem recebem um escapulário branco, os carmelitas da Terceira Ordem têm um escapulário semelhante, enquanto os Franciscanos Seculares usam uma cruz Tau, e os Oblatos Beneditinos usam uma medalha jubilar de São Bento.
Ordens terceiras (ou “seculares”) dão aos leigos uma chance de infundir suas vidas com orações e boas obras de acordo com uma espiritualidade específica, para que possam se esforçar para ser “fermento no mundo”. Como vemos no exemplo de S. Catarina e muitas de suas irmãs e irmãos da Terceira Ordem, é algo especial e grandioso.

https://pt.aleteia.org/2019/04/29/voce-sabia-que-catarina-de-siena-nao-era-freira/?utm_campaign=NL_pt&utm_source=daily_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

A FÉ NÃO É SUBSTITUÍDA PELO SENTIMENTO

Arthur_Timotheo_da_Costa,_Rezando,_1905,_54,5_x_46,5_Photo_Gedley_Belchior_Braga
Atacada por todos os lados, hoje a Fé tornou-se rara nas almas. À medida que os tempos avançam, caminhamos para a realização das palavras de Nosso Senhor: «Quando o Filho do homem voltar, crês que Ele encontrará Fé sobre a Terra?». (Lc. 18,8).
Repare que as almas que vemos já não ter Fé, tiveram-na ao menos no batismo. Estas almas estão em um estado bem diferente dos infiéis que nunca tiveram Fé. A Fé é um bem tão grande que uma vez entrando numa alma fica sempre alguma coisa.
São Francisco de Sales disse, a respeito da caridade: «A caridade tendo sida separada da alma pelo pecado deixa, muitas vezes, alguma coisa que parece com a caridade, que pode iludir e nos entreter em vão».
Esta aparência de Fé, porque ela é apenas aparência, não passa de um fingimento de Fé; uma Fé fingida ou, se quiser, imaginada, é o que se chama sentimento religioso.
Os sentimentos religiosos! Uma espécie de presente que os homens querem dar a Deus, pelo qual Deus deve se sentir muito agradecido; um fundo de benevolência que o homem sente por Deus; uma sorte de polidez, de bom tom, de bom gosto do homem em relação a Deus; sim, tudo que quiser neste gênero, que a pouco obrigue, que não atrapalhe, que se acomode, que se preste a tudo, e não se comprometa com coisa alguma: aí está o que geralmente se entende por sentimentos religiosos, mas isto não é a Fé. Assim como a aparência de Caridade pode nos iludir e nos entreter em vão, a aparência de Fé pode nos iludir e nos ilude muitas vezes e pode nos entreter e nos entretém amiúdo, em vão.
E como isto acontece? perguntará a senhora. A resposta é fácil. Um cristão, para agradar a Deus, deve fazer atos de Fé a toda hora. Na oração, na prática da vida cristã, na recepção dos sacramentos, o cristão deve ter como obrigação severa praticar a Fé, fazendo atos interiores para acompanhar muitos atos exteriores da vida cristã. Este é o dever.
Ora, o perigo, a decepção consiste em fazer atos da vida cristã não com Fé mas com aparência de Fé ou sentimentos religiosos.
A Fé é então substituída pelo sentimento, a realidade pela imaginação. Neste estado podem-se fazer muitas orações sem rezar, confessar-se sem querer se emendar, receber a Eucaristia sem se unir a Jesus Cristo.
Segundo o que ouvi dizer, tanto por um Bispo como por um missionário que percorreu toda a França e estudou atentamente o estado das almas, parece que hoje, sob muitos pontos de vista, fazemos apenas com a máscara da Fé o que deve ser feito com a Fé.
Isto ajudará a senhora a compreender e a poupará do sofrimento quando chegar o dia em que reconhecer que um bom número de cristãos, que se dizem devotos e praticantes, têm exatamente os mesmos vícios dos mundanos não praticantes. Eles praticam, ai de nós! mas a Fé não é o princípio de seus atos religiosos, eles são cristãos em imaginação, e na realidade viciosos como tantos outros.
O sentimento religioso é certamente um dom de Deus. É um bem, um bem de ordem natural. O sentimento religioso é a conseqüência natural de nossa qualidade de criaturas, como o respeito aos pais é natural nos filhos.
Digamos juntos: Credo.
Cartas sobre a Fé – Pe. Emmanuel-André

RELIGIÃO E CARÁTER

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Caráter varonil! A joia mais bela e mais preciosa do mundo! Um homem que descortina claramente seu fim, que sabe vencer as tentações, que não se desvia do caminho nem para a direita nem para a esquerda, que conserva puro seu coração, que é amável e delicado para com seu próximo, mas que permanece firme e fiel às suas convicções — eis um caráter varonil! Coisa rara, hoje em dia…
Mas não o queres ser?
Sabes que é a verdadeira e profunda religiosidade que, sobretudo, te ajudará a consegui-lo?
O jovem religioso preza o seu valor. Saber que somos filhos de Deus é fonte de justificada ufania no conceito próprio. Prezo minha alma conservo-a isenta de culpa, adorno-a com boas obras, porque sei que ela é um bem mais precioso do que a natureza inteira. Cuido porém, igualmente do meu corpo, não permito que se rebaixe ao serviço die hábitos pecaminosos, porque sei que é templo do Espírito Santo, ao qual devo preservar da profanação.
Elevado conceito de si mesmo, só o pode ter o homem religioso. Somente aquele que sabe inclinar-se diante de Deus, pode andar de cabeça erguida. A religiosidade e a boa consciência não nos tornam orgulhosos e impertinentes, mas dão-nos firmeza inquebrantável, em face da moral inconsistente de hoje. Olha em derredor: os que se manifestam estouvadamente contra Deus e a religião, dobram-se, geralmente, submissos ante interesses materiais e fins egoísticos. A religiosidade nos dá confiança em nós mesmos, não permite que consideremos timidamente a opinião dos outros, para regular segundo ela as nossas ações. O moço religioso sabe dominar com mão firme o fluxo da vida exterior, tão bem como sabe ser o senhor absoluto de sua vida interior, de seus desejos, inclinações e aspirações.
O jovem religioso não é oportunista. Nunca há de renegar covardemente seus princípios e convicções, embora esteja entre pessoas de parecer diferente. Não compartilha os conceitos dos libertinos, não adota o modo de ver dos motejadores, não duvida com os incrédulos, só “para que não sorriam compadecidos de mim”. Ademais, não é escravo de caprichos: ora todo bondade, ora como se tivesse “pulado da: cama com o pé esquerdo”: não, ele obra e fala sempre dignamente, como homem, refletida e sensatamente.
O moco religioso não é materialista. Não corre sempre atrás de lucro material somente. Além do bem estar terreno, material, ele conhece e ama também valores espirituais, sobrenaturais. Se puder enriquecer unicamente por meios ilícitos, prefere ficar pobre: tudo pode sacrificar, menos a honra. Cada dia, reza (naturalmente também trabalha) por uma existência feliz; seu coração no entanto, que Deus criou para Si, não se apega a bens terrenos.
O jovem religioso não é egoísta. Ele sabe cuidar de suas inclinações e desejos e dominá-los. Sabe que além dele há outros homens no mundo, que não é em redor dele que tudo gira, mas, que em suas ações e omissões deve tomar em consideração os demais. Sempre que encontra ocasião, faz bem ao próximo. Seu maior prazer é causar alegria aos outros. Em seu julgar não é severo nem teimoso. Trabalha, estuda com todas as forças, busca progredir, mas somente com meios honestos. Nada de adulações e lisonjas para alcançar fins egoísticos. Não procura obter a simpatia das pessoas contra sua convicção; ao contrário, quando for preciso, ele sabe “obedecer antes a Deus do que aos homens”.
O jovem religioso não é casmurro, mal humorado, susceptível. Quem traz sua alma em paz com Deus, tem o pleno direito de ser alegre e bem disposto. Se precisa, por qualquer motivo, censurar um amigo, fá-lo francamente e a questão está liquidada. Não conserva em seu coração ressentimento ou ira dissimulada. Em casa, para com os pais, irmãos, amigos, é atencioso e serviçal.
Um negociante necessitava dum auxiliar. Uns cinquenta se apresentaram e ele escolheu rapidamente. Um amigo lhe perguntou: “Por que escolheu justamente este, que nem trazia recomendação?” “Você está enganado, foi a resposta; ele tinha muitas recomendações. Limpou os sapatos antes de entrar e fechou a porta; concluí daí que amava a ordem. Sem refletir ofereceu sua cadeira a um ancião; notei que tinha educação e bom coração. Levantou um livro que eu, propositalmente tinha posto no chão, enquanto todos os demais tropeçaram nele e o empurraram para o lado; é atencioso e cuidadoso. Esperou pacientemente sua vez, não empurrou para a frente: é discreto. Enquanto falava com ele, notei que a roupa estava bem escovada, o cabelo em ordem; os dentes limpos. Quando assinou seu nome, vi que a mão estava asseiada, não suja como a daquele outro moço elegante”. Um jovem que se comporta assim é a melhor recomendação da verdadeira religiosidade.
O moço religioso não é pessimista. Nos anos de adolescência é frequente que abatimentos e sofrimentos morais ataquem a alma dos jovens; a verdadeira religiosidade leva-te a vencê-los todos. É verdade que também o jovem religioso nota como vai crescendo o terrível poder do mal, a falta de caráter, a imoralidade entre os homens; entretanto, essa entristecedora experiência não o faz desgostoso da vida, não o torna inimigo dos homens. É justamente sua religiosidade que não permite se quebre sua resistência e ele mesmo se enfileire entre os maus, dizendo: “Não adianta remar contra a correnteza”. Não se torna pessimista, pois ao lado dos defeitos dos homens, ele vê também indiscutíveis boas qualidades; olha o que é nobre e grande e se alegra, apesar da imoralidade e falta de caráter. Um escritor diz: “O homem religioso é como o pássaro, que canta mesmo quando o galo em que pousa se quebra, pois sabe que tem asas”. A religião é o par de asas que nos eleva acima de nós mesmos, acima da mísera existência, muito além dos limites terrenos.
O jovem religioso também não é idealista unilateral. Ele vai em busca de ideais nobres, mas não se desalenta por ver que muitas vezes nós devemos contentar com um bem atingível em vez do melhor cobiçado. A falta de êxito e a preterição sofrida não lhe tiram o amor ao trabalho, não o desanimam e exasperam.
Numa palavra: o jovem religioso é um moço de caráter que abraça a vida com ambas as mãos, firme sobre seus pés.
Religião e Juventude – Mons. TihamerToth
http://catolicosribeiraopreto.com/religiao-e-carater/

RELIGIOSIDADE EXTERIOR E INTERIOR

Sou religioso, sinceramente religioso; todavia, o que se passa entre Deus e mim, não o revelo aos outros. Isso não é da conta de ninguém! A vida religiosa é manifestação tão delicada da alma humana, que não se deve pô-la à mostra; cada um resolva o assunto consigo mesmo, em segredo, no seu íntimo. O principal é ser interiormente religioso; tudo o mais, exterioridades, formas, cerimônias, é de somenos importância…”
Assim falam muitos jovens, mesmo aqueles cuja religiosidade sincera e firme está acima de qualquer dúvida, mas que, todavia, não compreendem quão errôneo seja esse modo de pensar. E sabes porque tão dificilmente percebem o engano? Porque há muitas coisas verdadeiras em suas palavras.
“A religião é manifestação em extremo delicada de nossa alma”, dizem eles, e nisso têm toda a razão. “O essencial é a religiosidade interior!” Também está certo. Eu mesmo teria dificuldade em achar uma reprovação assaz forte para um homem que, por qualquer motivo, finge piedade exterior, imita práticas piedosas, enquanto sua alma está cheia de impureza, sem um pensamento religioso sério.
Tudo isso é indiscutivelmente exato. Sim, a religiosidade pode tornar-se mera exterioridade, cerimônia inanimada, se lhe faltar a vitalidade interior sincera. Religioso não é quem exalta com os lábios as glórias de Deus enquanto sua alma está bem longe. Religioso outrossim não é quem reza muito, vai à igreja, mas vive em pecado e tem o coração indiferente, duro para com o próximo. Tal religiosidade exterior é apenas uma caricatura, um escárnio da verdadeira idéia de religião, coisa muito própria a propagar um conceito errado de religião.
Portanto, fique bem claro: o que é decisivo é a convicção e a vida religiosa interior. Mas é errado que devamos esconder timidamente nossa convicção religiosa. Não digo que nos devamos referir a ela a todo instante, com ou sem motivo, Deus sabe nossa virtude; minha vida religiosa se realize de fato, em silêncio, entre Deus e minha alma. Contudo, se eu estiver numa roda em que se fale de religião, de convicções, de princípios imorais, seria covardia, falta de princípios, deserção, se eu me envergonhasse de minha religião, se corasse e não dissesse nada.
Se andares pela rua com um camarada de outra crença não debatas com ele questões religiosas. Mas, se passares diante de uma igreja, e por causa do companheiro não tirares o chapéu (“a religião é assunto interior”), estarás dissimulando covardemente tua fé. Quando rezas confiantemente em casa, em teu gabinete ·de trabalho, longe de vistas estranhas, fazes bem, mas se te envergonhasses, entre centenas de pessoas, de dobrar o joelho diante de Jesus sacramentado — “já que o exterior não é importante” —, então serias novamente covarde. Bem sei que possuis alma pura, não inicias jamais conversa inconveniente. Muito bem; mas, quando outros as iniciam e te ris de suas obscenidades — “não devo ofendê-los, não rindo também” — então dás exemplo de covarde traição a teus princípios.
Vê! O essencial é a religiosidade interior, mas devemos provar, também externamente, as nossas convicções. Essa aparente “exterioridade” não é, muitas vezes, senão um aprofundamento elo “interior”. Pois, não é de todo natural que o corpo caia de joelhos, quando a alma fala com Deus?
Com que franqueza confessa o grande húngaro, conde Estêvão Széchényi, em seu diário: “Passei minha juventude em ócio e ignorância. Eu não era ruim e pervertido, mas não reconhecia os múltiplos defeitos que tinha. Na grande luta da existência e observando a vida humana, recobrei a calma e aprendi a reconhecer que não basta à alma seguir a voz interior, mas que é preciso observar também as formas exteriores da religião”.
Segue, pois, as formalidades exteriores de tua religião, embora se afirme: O essencial é a religiosidade interior, sem a qual toda a exterioridade é fingimento. Suponhamos, entretanto, que urge confessar a Fé, e nosso modo de pensar? Não hesitemos então um só instante! É fato curioso que nesse particular, mesmo católicos bem formados, se vejam tão fracos. Adeptos de outros credos mostram-se muito mais orgulhosos de sua crença. Entre nós, a vergonha e o respeito humano tornaram-se verdadeira “doença católica”.
Se refletires um pouco sobre a incomensurável bênção, que durante 2.000 anos, o cristianismo derramou sobre a humanidade, reconhecerás que tens toda a razão para te orgulhares da Fé.
Deixemos, por agora, de lado os valores puramente espirituais do cristianismo; consideremos apenas a questão: que valor teve ela para a civilização humana? Imagina que não houvesse cristianismo: quanto mais pobre em valores estaria o mundo! Visita os museus e suprime os quadros e estátuas que sejam obras primas cristãs: quão pouco ficaria das coleções! As suntuosas catedrais deveriam ser derrubadas, pois nasceram do espírito cristão. O gênio musical de um Handel, Palestrina, Beethoven, Mozart, Rossini, acendeu-se na religião. Os primeiros hospitais, orfanatos, asilos e educandários brotavam da caridade cristã. Os princípios das escolas e universidades remontam até o cristianismo. Vês? Que vácuo haveria na vida da humanidade, se devêssemos eliminar seu centro, a cruz de Jesus Cristo.
Não! minha fé não tem realmente nada, de que deva envergonhar-me. Tanto mais razão tenho para orgulhar-me dela!
Religião e Juventude – Mons. Tihamer Toth
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Modo de Fazer Oração Mental, por Santo Afonso

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