Páginas

sexta-feira, 26 de junho de 2026

 

Orações para antes e depois da meditação, com exame dela
Santo Antonio Maria Claret

 
 
Se começa desta maneira.
 
De joelhos se diz:
Per signun X crucis , deX inimicis nostris libera-nos Deus X noster. In nonime Patris X et Fílio X et Spitiui Sancto X. Amen[1][1].
 
Pelo sinal da santa cruz, livrai-nos, Deus nosso Senhor, dos nossos X inimigos. Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.
 
Veni, Creator Spíritus,
mentes tuórum visita,
imple supérna grátia,
quae tu creásti péctora.
 
Qui díceris Paráclitus,
altíssimi donum Dei,
fons vivus, ignis, cáritas,
et spiritális únctio.
 
Tu septifórmis múnere,
dígitus paternae déxterae,
tu rite promíssum Patris,
sermóne ditans gúttura.
 
Accénde lumen sénsibus;
infunde amórem córdibus,
infírma nostri córporis
virtúte firmans pérpeti.
 
Hostem repéllas lóngius,
pacémque dones prótinus;
ductóre sic te praevio
vitemus omne noxium.
 
Per te sciámus da Patrem,
noscamus atque Filium;
teque utriúsque Spíritum
credamus omni témpore.
 
Deo Patri sit glória,
et Fillio, qui a mórtuis
surréxit, ac Paráclito,
in saeculórum saecula. Amem.
 
V/ Emítte Spíritum tuum, et creabúntur.
R/ Et renovábis fáciem terrae.
 
Deus qui corda fidélium Sancti Spíritus illustratióne docuísti: da nobis in eódem Spíritu recta sápere; et de ejus semper consolatióne gaudére. Per Christum dominum nostrum. Amém.
 
Vinde, Espírito Criador,
visitai as almas dos Vossos,
enchei de graça celestial,
os corações que criastes.
 
Sois o Divino Consolador,
o dom do Deus Altíssimo,
fonte viva, o fogo, a caridade,
a unção dos espirituais.
 
Com os Vossos sete dons,
sois o dedo da direita de Deus,
Solene promessa do Pai,
Inspirando nossas palavras.
 
Acendei a luz nos sentidos;
insuflai o amor nos corações,
amparai na constante virtude
a nossa carne enfraquecida.
 
Afastai para longe o inimigo,
Trazei-nos prontamente a paz;
Assim guiados por Vós
Evitaremos todo o mal.
 
Por Vós explicar-se-á o Pai,
E conheceremos o Filho;
Dai-nos crer sempre em Vós
Espírito do Pai e do Filho.
 
Glória ao Pai, Senhor,
Ao Filho que ressuscitou
Assim como ao Consolador.
Por todos os séculos. Amém.
 
V/ Enviai, Senhor, o vosso espírito e tudo será criado.
R/ E renovareis a face da terra.
 
Ó Deus, que ilustrastes os corações dos fiéis com as luzes do Espírito Santo, concedei-nos, pelo mesmo Espírito, saber o que é reto, e nos alegrarmos sempre com a sua consolação. Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém.[2][2]
 
Depois se rezam três Ave-Marias à Virgem Santíssima.
 
Sub tuum praesidium confugimus, sancta Dei Genetrix; nostras deprecationes ne despicias in necessitatibus nostris, sed a periculis cunctis libera nos semper, Virgo gloriosa et benedicta.
 
R. Amen.
 
À vossa proteção recorremos Santa Mãe de Deus; não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades; mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita.
R. Amen.[3][3]                           
 
Em seguida um Pai-Nosso e uma Ave-Maria aos santos Anjos, outro a S. Inácio, e a algum outro Santo de tua devoção, como patronos dos santos exercícios.
 
Nota. Assim se fará cada dia no primeiro ato. Nos demais atos se dirá:
 
Veni, Sancte Spiritus, reple turoum corda fidelium, et tui amoris in eis ignem accende.
 
V/ Emítte Spíritum tuum, et creabúntur.
R/ Et renovábis fáciem terrae.
 
Oremus
 
Deus qui corda fidélium Sancti Spíritus illustratióne docuísti: da nobis in eódem Spíritu recta sápere; et de ejus semper consolatióne gaudére. Per Christum dominum nostrum. Amém.
 
Três Ave-Marias à pureza de Maria santíssima.
 
 
Deus e Senhor meu, eu creio firmíssimamente que estais aqui presente.
 
Adoro-vos, Deus meu, com toda a atenção e afeto de meu coração e vos peço humildemente o perdão de todos os meus pecados.
 
Ofereço-vos, meu Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedereis as graças de que necessito para fazê-la bem.
 
Com esse fim, recorro a Vós, Virgem Santíssima, minha Mãe, anjos e santos, para que intercedais por mim e me alcanceis aquilo que necessito para fazer com fruto esta meditação.
 
Amém.
 
Nota. Aqui se faz o primeiro preâmbulo, que é a composição de lugar conforme a meditação.
 
Em seguida o segundo preâmbulo, que consiste em pedir a graça, não em geral, mas especial, conforme a matéria da meditação.
 
Depois se começará com muita pausa a leitura da meditação, tendo-a como vinda de Deus, e aplicando seu conteúdo ao estado presente da alma, mediante o qual cada um verá em que se deve emendar, reformar ou melhorar. Fará propósitos práticos, e depois súplicas e colóquios, quer à Virgem, quer ao Filho de Deus, quer ao Pai eterno, a fim de obter a graça conveniente para executar o que propõe e para o que deseja.
 
Chegada a hora de concluir se dirá o Pai-Nosso.
 
 
Ação de graças
 
Eu vos agradeço, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.
 
 
Eu vos ofereço os propósitos que nela formei, e vos peço graça muito eficaz para pô-los em prática, e para esse fim suplico a vós, Maria, minha Mãe, anjos e santos, que intercedais por mim e me alcanceis esta graça.
 
Amém.
 
 
1) Antes de começar a meditação pensei sobre o ato que ia fazer, e com que finalidade?
 
2) Comecei a meditação com desejo eficaz de fazê-la bem e dela tirar proveito?
 
3) Preveni os propósitos que devia fazer, e as graças que devia pedir?
 
4) Avivei a fé na presença de Deus, crendo que falaria com o próprio Deus/
 
5) Ofereci-lhe a meditação, e pedi-lhe a graça para fazê-la com fruto?
 
6) Descuidei da composição de lugar?
 
7) Li com detenção os pontos, pensando que Deus meditação falava, e apliquei o que lia ao estado presente de minha alma?
 
8) Formei propósitos práticos?
 
9) Guardei a conveniente compostura do corpo?
 
10) Deixei-me vencer pelo sono ou preguiça?
 
11) Dei lugar a pensamentos inúteis?
 
12) Envaideci-me pelo fervor sensível?
 
13) Inquietei-me pelas securas ou por desolações?
 
14) Omiti os colóquios e súplicas?
 
15) Detive-me demasiadamente em discorrer, ou em outra operação do entendimento?
 
16) Detive-me pouco na moção dos afetos?
 
17) Abreviei a meditação devido a aridez, tentação ou outro pretexto?
 
18) Que propósitos formulei? Penso pô-los em prática hoje mesmo?
 
19) Pedi para esse fim a graça e tudo mais que necessito?
 
20) Deixei de rogar por aqueles a quem estou obrigado, o por toda Igreja?
 
Se houve falta, se pedirá perdão e se proporá emenda. Se não houve falta alguma, se darão graças a Deus por isso.
Por fim, aquilo que mais houver movido se recolherá como uma flor para tê-lo no coração durante todo o dia. Se houver facilidade se escreverá a fim de não esquecer, tal como adverte Santo Inácio.
 
Examinar-se depois da meditação é utilíssimo, tanto para o fruto da mesma, como para aprender o modo prático de fazê-la. Por isso, sempre que seja possível se deve fazê-lo, não só em tempo de exercícios, mas também todos os dias do ano.


[1][1] Fórmula latina conforme apresentada no missal de Dom Gaspar Lefbre. Nota do tradutor.
[2][2] No original consta apenas a versão em latim, a tradução para o vernáculo é nossa.
[3][3] A tradução para o vernáculo é nossa.

    Para citar este texto:
"Orações para antes e depois da meditação, com exame dela"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/oracoes/meditacoes/meditacao/
Online, 26/06/2026 às 09:58:59h

Caminhos para entrar na vida eterna

 

Caminhos para entrar na vida eterna
São João Crisóstomo


Comentário ao Evangelho feito por S. João Crisóstomo (cerca 345-407), bispo de Antioquia e de Constantinopla, doutor da Igreja 

Sermão sobre o diabo tentador

Quereis que vos indique os caminhos da conversão? São numerosos, variad os e diferentes, mas todos conduzem ao céu. O primeiro caminho da conversão é a condenação das nossas faltas. "Aviva a tua memória, entremos em juízo; fala para te justificares!" (Is 43,26). E é por isso que o profeta dizia: "Eu disse: «confessarei os meus erros ao Senhor» e Vós perdoastes a culpa do meu pecado" (Sl 31,5). Condena pois, tu próprio, as faltas que cometeste, e isso será suficiente para que o Senhor te atenda. Com efeito, aquele que condena as suas faltas, tem a vantagem de recear tornar a cair nelas...

Há um segundo caminho, não inferior ao referido, que é o de não guardar rancor aos nossos inimigos, de dominar a nossa cólera para perdoar as ofensas dos nossos companheiros, porque é assim que obteremos o perdão das que nós cometemos contra o Mestre; é a segunda maneira de obter a purificação das nossas faltas. "Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará a vós" (Mt 6,14).

Queres conhecer o terceiro ca minho da conversão? É a oração fervorosa e perseverante que tu farás do fundo do coração... O quarto caminho, é a esmola; ela tem uma força considerável e indizível... Em seguida, a modéstia e a humildade não são meios inferiores para destruir os pecados pela raiz. Temos como prova disso o publicano que não podia proclamar as suas boas acções, mas que as substituiu todas pela oferta da sua humildade e entregou assim o pesado fardo das suas faltas (Lc 18,9s).
Acabamos de indicar cinco caminhos de conversão... Não fiques pois inactivo, mas em cada dia utiliza todos estes caminhos. São caminhos fáceis e tu não podes usar a tua miséria como desculpa.


    Para citar este texto:
"Caminhos para entrar na vida eterna"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/oracoes/meditacoes/caminhos_vida/
Online, 26/06/2026 às 09:55:52h

domingo, 14 de junho de 2026

Que é o mundo? E que deve ele ser para o cristão?

 

Que é o mundo? E que deve ele ser para o cristão?

Excerto retirado do
Compêndio de Opúsculos Inéditos
Pe. Grou
Livro de 1932 - 428 págs


Do Mundo
Que é o mundo? E que deve ele ser para o cristão? Duas questões bem interessantes para todos quantos desejam pertencer inteiramente a Deus e assegurar a salvação.
 Que é o mundo? É o inimigo de Jesus Cristo, o inimigo do Evangelho. É esse conjunto de pessoas que, presas às coisas sensíveis, fazendo consistir nelas a felicidade, têm horror aos sofrimentos, à pobreza, as humilhações e consideram estas e aqueles, como verdadeiros males de que cumpre fugir e contra os quais de deve estar garantido, custe o que custar; que, em contraposição ligam o maior apreço aos prazeres, as riquezas e as honrarias; reputam umas e outras, verdadeiros bens; os desejam e buscam portanto, com ardor extremo e sem escolherem os meios; os disputam, invejam e arrebatam uns e outros; só se estima ou desprezam-se mutuamente, na medida em que os possuem; em suma, fundam na aquisição e no gozo desses bens todos os seus princípios toda a sua moral, todo o plano de sua conduta.
 O espírito do mundo é, pois, evidentemente oposto ao espírito de Jesus Cristo e do Evangelho. Jesus Cristo, na oração por Seuseleitos, declara não orar pelo mundo; anuncia, aos Apóstolos e, nas pessoas destes, a todos os cristãos, que o mundo os há de odiar e perseguir, como a Ele próprio odiou e perseguiu. Quer que a seu turno façam eles contínua guerra ao mundo.
 Nos primeiros séculos da Igreja, quando quase todos os cristãos eram santos e a parte restante da humanidade achava-se abismada na idolatria, fácil tornava-se discernir o mundo, conhecer a gente que se podia frequentar e a que se devia evitar.
 O mundo, então desencadeado contra Jesus Cristo, distinguia-se por sinais inequívocos. Depois que nações inteiras abraçaram o Evangelho e o relaxamento se introduziu entre os cristãos, formou-se pouco a pouco no meio deles um mundo no qual reinam todos os vícios da idolatria, um mundo ávido de honras, prazeres e riquezas, um mundo cujas máximas combatem diretamente as máximas de Jesus Cristo.
 Mas, como esse mundo professa exteriormente o cristianismo, hoje é mais difícil discerni-lo. A sua frequentação também se tornou mais perigosa porque ele disfarça sua má doutrina com mais habilidade, propaga-a com mais tento, emprega toda a sua sutileza para conciliá-la com a doutrina cristã e, nesse intuito, enfraquece, suaviza tanto quanto pode o santo rigor do Evangelho escondendo cuidadosamente, por outro lado, todo o veneno da sua moral.
 Daí um perigo de sedução tanto maior porquanto não se percebe e contra ele não se está em guarda; daí certo espírito de transigência e adaptação, pelo qual procura-se conciliar a severidade cristã com as máximas do século sobre a ambição, a cobiça, o gozo dos prazeres; acordo impossível, condescendências ou atenuações que tendem a lisonjear a natureza, alterar a santidade cristã e formar consciências falsas. É incrível a que ponto chega o desconcerto, mesmo entre pessoas que se prezam de ser piedosas e devotas: desvario num sentido mais difícil de reprimir do que o resultante de uma conduta abertamente mundana e criminosa, porque não querem reconhecê-lo e a seu respeito se iludem.
 Se quisermos viver nesta terra sem participar da corrupção do século, só temos um partido a tomar, o de rompermos absolutamente com o mundo pelo coração e entrarmos a sentir com São Paulo, quando exclamava: O mundo está crucificado para mim, e eu estou crucificado para o mundo.
 Oh! que belas palavras, e quão profundo o sentido que encerram!
 A cruz era outrora o suplício mais infame, o suplício dos escravos.
 Dizendo o Apóstolo que o mundo está crucificado para ele, é como dissesse: Tenho pelo mundo o mesmo desprezo, a mesma aversão, o mesmo horror que por um vil escravo crucificado pelos seus crimes: não posso suportar-lhe a vista, ele é para mim objeto de maldição, com o qual toda ligação em todo trato e toda relação me são interditos.
 Nada de exagerado tem, ao invés, apenas justo e legítimo é esse sentimento de São Paulo, que deve ser o de todo cristão e a razão é evidente: o mundo crucificou Jesus Cristo, depois de havê-lO caluniado, insultado, ultrajado; crucifica-O ainda todos os dias: é, pois, justo que o mundo, por sua vez, esteja crucificado para o discípulo de Jesus Cristo; é justo ter o discípulo horror ao inimigo capital do Mestre, do seu Salvador, do seu Deus. Assim a renúncia ao mundo é uma das promessas mais solenes do batismo, uma condição essencial, sem a qual a Igreja não nos teria admitido entre seus filhos.
 Pensamos nessa promessa?
 Pensamos nas obrigações que ela acarreta?
 Examinamos até onde deve chegar a nossa renúncia?
 A renúncia do cristão a respeito do mundo deve ir tão longe quanto a renúncia do mundo a respeito de Jesus Cristo.
 Esta regra é clara e em face da sua precisão fora impossível nos enganarmos. Só nos resta aplicá-la em toda a extensão. O mundo tem o seu evangelho: só temos que tomá-lo numa das mãos e o Evangelho de Jesus Cristo na outra; só temos que comparar, sobre os mesmos objetos, a doutrina e os exemplos de um e de outro,  só temos que opor Jesus Cristo na Cruz, no sofrimento, no opróbrio e na nudez, ao mundo cercado e embriagado de honras, riquezas e prazeres, e dizer a nós mesmos: A quem desejo pertencer?
 Eis aí dois inimigos irreconciliáveis, fazendo-se reciprocamente a guerra mais cruel. A favor de qual deles desejo declarar-me? É-me impossível ficar neutro, ou tomar o partido de ambos. Se escolho Jesus Cristo e a Sua Cruz, o mundo me reprova; se me prendo ao mundo e às suas pompas, Jesus Cristo me rejeita e condena: poderei hesitar? É cristão aquele que hesita sequer um instante?
 Mas, se uma vez nos alistamos sob o estandarte da Cruz, não é evidente que desde esse momento o mundo se torna inimigo com o qual não há mais a fazer pazes nem lhe dar tréguas?
 Como isso vai longe, ainda uma vez! e como os cristãos seriam santos se da grandeza de seus compromissos bem se compenetrassem.
 Não basta estar o mundo crucificado para nós, é preciso que consintamos estar também crucificados para o mundo, isto é, que o mundo nos crucifique como crucificou a Jesus Cristo; nos guerreie do mesmo modo que guerreou a Jesus Cristo; nos persiga, calunie e ultraje com igual furor; nos arrebate, finalmente, os bens, a honra, a própria vida.
 É mister não só consentirmos em todos esses sacrifícios de preferência a renunciarmos à santidade cristã, mas também fazer disso motivo de alegria e triunfo. O discípulo deve gloriar-se de ser tratado como o Mestre: Se eles me perseguiram, dizia Jesus Cristo a Seus Apóstolos, também vos perseguirão: é coisa infalível. O mundo não seria o que é, ou os cristãos não seriam o que devem ser, se escapassem à perseguição do mundo.
 Procuramos muitas vezes certificar-nos do nosso estado; quiséramos saber se somos agradáveis a Deus, se Jesus Cristo nos reconhece como pertencentes a Ele. Eis um meio bem próprio para esclarecer-nos e dissipar todas as nossas inquietações: indaguemos se o mundo nos estima e considera, se fala bem de nós e nos procura. Neste caso não pertencermos a Jesus Cristo. Pelo contrário, se ele nos censura e ridiculariza, se nos calunia foge de nós, nos despreza e odeia, oh! que grande motivo de consolação, oh! que poderosa razão para crermos que pertencemos a Jesus Cristo!
 Vejamos, pois, seriamente diante de Deus, o que o mundo é para nós e o que somos para o mundo. Sondemos as nossas disposições interiores, estudemos os sentimentos mais profundos do nosso coração: acharemos por certo, motivo para nossa confusão e humilhação; verificaremos haverem as máximas do mundo deixado profundos vestígios em nosso espírito e que em muitas circunstâncias delicadas os nossos juízos se aproximam ainda dos seus; verificaremos que somos ciosos de sua estima e temeremos seus desprezos; que gostamos de cultivar e entreter certas relações e veríamos com desprazer os outros afastarem-se de nós; que temos, em várias ocasiões, condescendências, atenções, respeitos humanos que nos incomodam peiam e conservam numa espécie de constrangimento e dissimulação. Veremos, numa palavra, que não somos bem claramente a favor de Jesus Cristo e contra o mundo.
 Mas não desanimemos: triunfar plenamente do mundo, afrontá-lo, desprezá-lo, achar bom que por sua vez ele nos afronte e despreze, não é obra de um momento. Exerçamo-nos nas pequenas ocasiões que se apresentam: se Deus nos ama, jamais deixará de no-las proporcionar e pelas pequenas vitórias reparemo-nos aos grandes combates. Lembremo-nos, sendo preciso, das palavras de Jesus Cristo: Tende confiança, eu venci o mundo. Supliquemo-Lhe que nos ajude a vencer, ou antes, que Ele mesmo vença em nós o mundo e destrua em nossos corações o reino deste para aí estabelecer o Seu.



Meditações de Santo Afonso Maria de Ligório

Fazei-me morrer completamente a mim mesmo, e não viver mais senão para Vós, arder sempre no vosso santo amor, e reproduzir em mim as vossas belas virtudes, especialmente a humildade e a mansidão no meio dos desprezos. † Ó Jesus, manso e humilde de Coração, fazei meu coração semelhante ao vosso (2). — Ó Maria, vosso coração foi o feliz altar em que ardeu sem cessar o fogo do divino amor. — Minha terna Mãe, fazei meu coração semelhante ao vosso. Rogai por mim a vosso Filho, que se compraz em vos honrar, não recusando coisa alguma que lhe pedis. (II 420.)


Referências:
(1) Jo. 6, 37.
(2) Indulg. de 100 dias.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 170-172)

Meditações de Santo Afonso Maria de Ligório


Ó Coração terno e fiel de Jesus, inflamai meu pobre coração, para que se abrase de amor para convosco, como Vós para comigo. Parece que de presente Vos amo, ó meu Jesus, mas amo-Vos muito pouco; dai-me que Vos ame muito, e Vos seja fiel até à morte. É esta a graça que Vos peço, bem como a graça de a pedir sempre. Deixai-me morrer antes que venha novamente a trair-Vos.


“Fazei, Senhor Jesus Cristo, que nos vistamos das virtudes, e nos inflamemos com os afetos de vosso Santíssimo Coração, para que mereçamos ser conformes à imagem da vossa bondade e participar do fruto da redenção.” (6) Fazei-o pelo amor de vossa e minha amada Mãe, Maria. (II 421.)

Referências:
(1) Ap. 3, 20.
(2) Jo. 14, 13.
(3) 1 Cor. 10, 13.
(4) Nm. 23, 19.
(5) Mt. 25, 23.
(6) Or. Festi.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 173-175)

domingo, 7 de junho de 2026

Louvores a Deus

 Louvores a Deus

Vós sois o santo,  Senhor Deus único, que fazeis maravilhas.
Vós sois o Forte, Vós sois Grande, Vós sois o Altíssimo, Vós sois o Rei onipotente, vós, ó Pai santo, o Rei do céu e da terra.
Vós sois o Trino e Uno, Senhor  Deus dos deuses, vós sois o Bem, todo o bem, o sumo bem, Senhor Deus vivo e verdadeiro.
Vós sois amor, caridade; vois sois a Sabedoria, vós sois a Humildade; vós sois a Paciência, vós sois beleza, vós sois mansidão, vós sois segurança, vós sois quietude, vós sois regozijo, vós sois esperança e alegria, vós sois justiça, vós sois temperança, vós sois toda nossa riqueza até à saciedade.
Vós sois beleza, vós sois mansidão, vós sois protetor, vós sois guarda e defensor nosso; vós sois fortaleza, vós sois refrigério.
Vós sois nossa esperança, vós sois nossa fé, vós sois nossa caridade, vós sois toda a nossa doçura, vós sois nossa vida eterna: grande e admirável Senhor, Deus onipotente, misericordioso Salvador.

São Francisco de Assis

Saudação às Virtudes

 Saudação às Virtudes

Ave,  rainha sabedoria,
o Senhor te salve com tua Irmã, a santa e pura simplicidade!
Senhora santa pobreza,
o Senhor te salve com tua Irmã, a santa humildade!
Senhora santa caridade,
o Senhor te salve com a tua Irmã, a santa obediência!
Santíssimas virtudes todas,
salve-vos o Senhor de quem vindes e procedeis!

Não há absolutamente em todo o mundo nenhum homem que possa ter uma de vós se antes não morrer.
Aquele que tem uma e não ofende as outras tem todas. E aquele que ofende uma não tem nenhuma e a todas ofende. E cada uma delas confunde os vícios e pecados.

A santa sabedoria confunde a satanás e todas as suas malícias. A pura e santa simplicidade confunde toda a sabedoria deste mundo e a sabedoria da carne. A santa  pobreza confunde a ganância e a avareza e os cuidados deste mundo. A santa humildade confunde a soberba e todos os homens que há no mundo e igualmente todas as coisas que há no mundo.

A santa caridade confunde todas as tentações diabólicas e carnais e todos os temores da carne. A santa obediência confunde todas as vontades próprias, corporais e carnais, e mantém o corpo mortificado para a obediência ao espírito e ao seu irmão e torna o homem súdito e submisso a todos os homens que há no mundo, e não somente aos homens, mas também  a todos os animais e feras, para que possam fazer dele o que quiserem, tanto quanto lhes for permitido do alto pelo Senhor.

São Francisco de Assis

sábado, 3 de fevereiro de 2024

Por quem pedir


Por quem pedir

Não sei em que momento fechei os olhos, mas quando tornei a abri-los eu estava prostrada no chão, em adoração, diante da magnificência daquela visão que até me havia feito pensar que talvez estivesse morta. Embora logo tenha compreendido que infelizmente isso não tinha acontecido.

Em um instante desapareceu quase tudo: só ficou Jesus, com Sua vestimenta régia de cor dourada. Estava com uma preciosa coroa, segurava um cetro de ouro na mão esquerda e pisava algo assim como uma nuvem de cor verde. _ “Senta-te, filhinha.” Me disse muito docemente. Obedeci e me dei conta de que o homem que estava de joelhos ali, nada havia visto nem ouvido do que estava acontecendo.

O Senhor me disse: _“Quero que peças, em primeiro lugar, pelo sacerdote que tornou possível este encontro entre tu e Eu, por quem consagrou esta Hóstia”. Assim o fiz.

Depois me disse: _“Pede, pelas pessoas que colaboraram para construir este lugar dedicado a estes encontros. Sim, pede por eles, porque há muitas pessoas que ajudam com a maior devoção e elas recebem Minhas primeiras bênçãos neste lugar. Há quem trabalhe e colabore na construção de Minha Casa, mas que não o faz por Mim e sim por si mesmos, não para que Eu brilhe, mas para que brilhem eles.

Há outros tantos que o fazem por amor a Mim, mas não são capazes de vir visitar-Me. São os que Me honram com os lábios, mas não com o coração.

Pede pelas Paróquias e Capelas, nas quais o responsável e a comunidade aceitaram realizar as horas de Adoração Eucarística.

Pede por aqueles que fecham seu coração diante de Meus chamados… Pelos que combatem os que vêm até Mim… Pelos que mancham e ofendem Minha Presença com sua falta de respeito, sua irreverência ou seu pouco recato ao se vestir. Observa…”

 Nesse momento, voltei meu olhar para onde Jesus olhava e pude ver o Altar Mor da Igreja (não o da Capelinha onde agora estava). Estava o Santíssimo Sacramento exposto e havia bastante gente no lugar, muitas pessoas ajoelhadas, em oração, mas havia outras que, por detrás dos bancos, passavam na frente de Seu Trono, conversando entre elas, comendo algo, ou mastigando doces e gomas de mascar, como se não houvesse ninguém.

Alguns faziam um rabisco no lugar do sinal da Cruz, sobre eles mesmos, e outros nem sequer isso. Foi se sucedendo uma série de imagens (compreendo que de ocasiões distintas) de pessoas que eu via sentadas do lado onde eu estava. Umas cochichavam entre si, outras estavam com as pernas cruzadas; homens e mulheres que falavam entre si ou balançavam o pé sem descanso, como se estivessem em uma reunião informal.

Desapareceram de minha vista e em seguida entraram alguns casais que se sentaram muito juntos entre si, mas afastados de outros casais. Fiquei envergonhada de ver como tinham manifestações de afeto entre eles, diante do Santíssimo Sacramento exposto, Aquilo era uma verdadeira vergonha, como se estivessem em algum lugar reservado somente para eles.

Novamente estes sumiram de minha vista e foi pior, porque entraram umas mulheres jovens, e outras não tão jovens, com roupas tão pouco apropriadas, que mais pareciam estar indo à praia, a uma discoteca, ou quem sabe onde, com partes de seu corpo descobertas, como todas essas mocinhas que parecem não ter pais e que andam com roupas que parecem ser dois números menores do que deveriam usar, e que dizem estar na moda. Quanta vergonha e dor senti, diante do Senhor, que olhava para todas estas pessoas com uma tão grande tristeza!

Sim, senti dor, mas ao mesmo tempo tive vontade de tirá-los dali aos empurrões, como me aconteceu outras vezes, quando casualmente assisto a alguma celebração de Matrimônio, Missas de formatura ou de mocinhas que completam quinze anos.

Em muitas dessas ocasiões senti vergonha alheia ao ver o jeito com que entram no Templo algumas convidadas a estes eventos. Como se custasse muito colocar um xale sobre os ombros para cobrir os decotes e nudez dos ombros e braços durante os poucos minutos em que permanecerão na Igreja!

Finalmente, enquanto esperam que comece a celebração, todos se põem a conversar como se estivessem realmente em plena recepção, e o silêncio que deveria haver na Casa do Senhor se perde, e com ele, todo traço de preparação espiritual que requer cada uma destas cerimônias.

Quero aproveitar esta ocasião para pedir aos meus irmãos leigos que não tenho medo de tomar o microfone para pedir aos presentes que façam silêncio, por respeito ao lugar onde estão; para pedir às mulheres que se cubram ao entrar no Templo, por respeito ao Senhor, ao sacerdote, aos assistentes e à sua própria pessoa, pois quem vê uma mulher vestida de maneira insinuante na Casa de Deus, imediatamente pensa que é alguém que não tem respeito por si mesma.

Que bom seria que, quem tiver a coragem de se dirigir ao microfone, convidasse os fiéis a fazer uma oração pelos noivos ou formandos, conforme o caso, ou de intercessão pela adolescente por quem se realizará a celebração. Assim ajudaríamos nossos irmãos, ensinando-lhes o respeito devido à Igreja e, ao mesmo tempo, faríamos o que a Igreja nos pede: rezar uns pelos outros. Ainda mais em ocasiões como estas!

Somos chamados a edificar, e no entanto, nos ocupamos em desperdiçar os bens de Deus, o dinamismo da Graça, a fecundidade do Espírito, porque temos medo de anunciar a um Deus vivo e mais ainda, de pedir o devido respeito à Sua casa.

Voltei os olhos para Jesus e com lágrimas Lhe pedi perdão por essas pessoas que Lhe causavam dor e por nós, os que supostamente somos consciente do lugar onde estamos, mas nos mostramos covardes para educar nossos semelhantes. Senti vergonha por aqueles sentimentos de fúria que também cruzaram minha mente.

Jesus me disse então: _“Filhinha, é tão difícil para o homem de hoje mudar seus cômodos costumes; no entanto, asseguro-te que, por meio destes testemunhos, muita gente simples está aprendendo a Me conhecer, a saber de Mim em palavras também simples. Não  desanimes quando estamos começando.

Olha, Eu trouxe ao mundo uma revolução de ideias que deveria assombrar à frouxa humanidade, tão fácil de se acomodar, de parar nos velhos costumes, para não sair de uma vida que lhe é cômoda, porque não contradiz seu amor próprio, que é seu principal mau conselheiro.

Não te sintas mal, Eu fui categórico e tampouco usei meios termos, justamente para cortar claramente as suscetibilidades e as tergiversações.

O homem é ingrato, Eu provejo a todos e todos vivem em Mim. Concedo-lhes, a uns mais e a outros em menor grau, da capacidade de Me imitar, segundo as disposições que têm. Porém, parece que não lhes dou garantias de estar interessado em seus sofrimentos, decisões, provações, muito mais que um Pai amoroso.”

 

Trecho extraído do Livro: “Em adoração” de Catalina Rivas.



Hino ao sofrimento

 


 

Fere, fere, ó tão caro sofrimento,

Fere, fere, ó querida dor.

Tu que não poupaste o Salvador,

Sê aqui na terra minha doce esperança.

 

Fere, não posso viver sem ti,

Fere, a fim de que Jesus encontre em mim

Uma crucificada à Sua imagem,

Que beba com Ele a amarga bebida.

 

Fere, a fim de que tenha a grande felicidade,

De me assemelhar a Nosso Senhor,

Ao doce Jesus, meu divino modelo,

Jesus! Felicidade da alma fiel.

 

Fere, saboreio tuas delícias,

Na prova e no sacrifício,

Visto que quero consolar o Coração

De Jesus, meu Bem-Amado Salvador.

 

Não foste divinizada

Ó dor, pelo Deus crucificado,

Jesus chorando durante a agonia,

Jesus, que por mim dá a vida?

 

Quero tanto dar a minha,

A este Deus pobre, a este Deus sofredor,

A Jesus humilhado, Jesus moribundo

Mas, oh que Sua graça me sustente! ...

 

Porque nada posso sem Seu socorro,

Mas com Ele que me fortifica

Serei forte, forte sempre,

Para amar, sofrer toda a minha vida.

 

 Elisabete da Trindade

O jardim fechado da alma

 Nem mesmo Santa Teresa D’Ávila tem certeza de onde lhe veio a inspiração de, para explicar como progredir sempre na oração, comparar a alma de cada cristão a um jardim. Alguns exegetas tentam decifrá-la e dizem que tomou o exemplo no “Terceiro Abecedário Espiritual” de Francisco Osuna, livro-chave na vida da santa. Mas se nos atentarmos um pouco, encontraremos essa comparação inúmeras vezes na Palavra de Deus e com veemência no Cântico dos Cânticos, livro tão amado por essa Doutora da Igreja: “És um jardim fechado, minha irmã e esposa, jardim fechado e fonte lacrada” (Ct 4,12).

Fechado, pois Deus nunca o violenta, nunca invade a alma que não o aceita. Muito pelo contrário, carinhosamente permanece à porta e bate, esperando que a abramos (Ap 3, 20). Mas também fonte lacrada, pois somente Ele pode liberar em seu interior a água que vivifica a alma, primeiro purificando-a: “Derramarei sobre vós águas puras, que vos purificarão de todas as vossas imundícies e de todas as vossas abominações” (Ez 36,25); posteriormente, fazendo com que ela mesma seja fonte inesgotável de água viva (Jo 7, 38).

Até que isso ocorra, “Minha alma está sedenta de vós, e minha carne por vós anseia como a terra árida e sequiosa, sem água” (Sl 62,2), pois sem Deus “ficarei parecendo um carvalho de copa murcha, um jardim completamente sem água” (Is 1,30).

Nem mesmo Santa Teresa D’Ávila tem certeza de onde lhe veio a inspiração de, para explicar como progredir sempre na oração, comparar a alma de cada cristão a um jardim. Alguns exegetas tentam decifrá-la e dizem que tomou o exemplo no “Terceiro Abecedário Espiritual” de Francisco Osuna, livro-chave na vida da santa. Mas se nos atentarmos um pouco, encontraremos essa comparação inúmeras vezes na Palavra de Deus e com veemência no Cântico dos Cânticos, livro tão amado por essa Doutora da Igreja: “És um jardim fechado, minha irmã e esposa, jardim fechado e fonte lacrada” (Ct 4,12).

Fechado, pois Deus nunca o violenta, nunca invade a alma que não o aceita. Muito pelo contrário, carinhosamente permanece à porta e bate, esperando que a abramos (Ap 3, 20). Mas também fonte lacrada, pois somente Ele pode liberar em seu interior a água que vivifica a alma, primeiro purificando-a: “Derramarei sobre vós águas puras, que vos purificarão de todas as vossas imundícies e de todas as vossas abominações” (Ez 36,25); posteriormente, fazendo com que ela mesma seja fonte inesgotável de água viva (Jo 7, 38).

Até que isso ocorra, “Minha alma está sedenta de vós, e minha carne por vós anseia como a terra árida e sequiosa, sem água” (Sl 62,2), pois sem Deus “ficarei parecendo um carvalho de copa murcha, um jardim completamente sem água” (Is 1,30).

O jardim fechado da alma

Foto ilustrativa: ronstik by Getty Images

Jardim de delícias para Deus

Vemos, por meio desses e inúmeros outros exemplos, que Santa Teresa usou a comparação apropriada: a alma habitada pela Graça é um jardim de delícias para Deus onde Ele mesmo habita. Ele a transforma (Is 51,3), “caminha” neste jardim (Gn 3,8), quer que seus aromas se espalhem pelo mundo todo (Ct 4,16), saboreia seus frutos (Ct 5,1), abriga-se às suas sombras (Jo 18,1) e colhe seus lírios (Ct 6,2).

Em suas próprias palavras a Santa de Ávila, Mestra da Oração, relembra que “era para mim grande alegria considerar minha alma como um horto ou jardim e que o Senhor passeava nele. Suplicava-lhe que aumentasse o odor das florzinhas das virtudes que começavam, ao que parecia, querer sair, e que fosse para sua glória e as sustentasse (…) e que cortasse as que quisesse, pois eu já sabia que depois nasceriam maiores.”

Santa Teresinha, usando da mesma metáfora do jardim, compara cada alma que se santifica a uma flor: “O mesmo ocorre no mundo das almas, o jardim de Jesus. Ele quis criar grandes santos, que podem ser comparados aos lírios e às rosas, mas criou também outros menores, e estes devem se conformar em ser margaridas ou violetas destinadas a alegrar os olhos de Deus quando contempla seus pés. A perfeição consiste em fazer sua vontade, em ser aquilo que Ele quer que sejamos”.

Virtudes e boas obras

Deste modo, cada alma é um jardim (Santa Teresa), mas também o conjunto delas se torna um grande jardim (Santa Teresinha) onde o Pai, que é o agricultor (Jo 15,1), conduz todas à perfeição, sob o auxílio atento do irmão e esposo (Ct 4,12) que é Jesus Cristo. Devido à necessidade do nosso trabalho ativo em nossa santificação pessoal, somos também os “vinhateiros” ou os “trabalhadores da vinha” (Mt 21,33) que precisam prestar contas do desenvolvimento da própria vida espiritual a Deus.

Assim, Santa Teresa no seu Livro da Vida, lembra-nos para que “Com a ajuda de Deus procuremos, como bons jardineiros, fazer com que estas plantas cresçam [as virtudes] e ter muito cuidado em regá-las para que não morram, muito pelo contrário, que produzam flores de grande odor [boas obras] para alegria de Nosso Senhor, para que venha muitas vezes deleitar-se neste jardim e descansar entre estas virtudes”.

Podemos refletir como a imagem do jardim ou horto é apropriada para retratar a alma: ele precisa de trabalho constante, de cuidado, de proteção quando o tempo não é propício, de podas regulares, de transplantes e de um olhar cuidadoso para ajustar cada planta ou flor no lugar exato. Afinal, o mesmo sol que é benéfico para umas é terrível para outras, a mesma posição no terreno pode ser adequada ou péssima para o desenvolvimento de cada vegetação específica. A vida espiritual não é uma obra de um único dia ou de uma empreitada definitiva. Um muro de tijolos bem construído dura inúmeros anos, mas a alma é realmente como um jardim onde, se há um muro, ele é muito mais uma cerca viva; precisa ser trabalhado, modelado e remodelado, e nunca, absolutamente nunca, pode ser deixado por si só.

Um jardim deixado ao sabor do tempo morre ou desaparece tomado pelo mato. Inúmeras flores ou plantas ornamentais se não recebem atenção adequada deixam de produzir. Assim é nossa alma. Pode ser um “lugar das delícias” ou um terreno baldio. E, é claro, de todos os cuidados que o jardim necessita, o principal é receber água suficiente. Como vimos nas citações acima, um jardim é um lugar onde a água é abundante: “O Senhor te guiará todos os dias e vai satisfazer teu apetite, até no meio do deserto. Ele dará a teu corpo nova vida, e serás um jardim bem irrigado, mina d’água que nunca para de correr” (Is 58,11).

A oração é a água que irriga nosso jardim

Para Santa Teresa D’Ávila, a água que irriga o jardim de nossa alma tem um nome e se chama oração. Assim, se é fundamental acabar com o pecado mortal para que o verdadeiro agricultor tome posse da alma, para que o próprio Cristo possa entrar em seu jardim fechado, é através da oração que a alma é irrigada para produzir seus doces frutos.

Aquele que não reza permanece seco e árido, e se arrisca a ter as próprias minguadas virtudes arrancadas (Mt 25,29) e ainda enfrentar um juízo terrível, pois o jardim da nossa alma é chamado a produzir os frutos do amor (Lc 13,7). Mas como rezar bem e frutuosamente? Nesta série de artigos ‘Aprenda a rezar com Santa Teresa D’Ávila’, vamos examinar ponto por ponto dos ensinamentos desta Doutora da Igreja sobre a oração. Faremos com ela o caminho do cuidado do jardim fechado de nossa alma, preparando-a para ser um lugar de delícias para Deus, onde Ele mesmo se alegra em permanecer (Pr 8,31).

Modo de Fazer Oração Mental, por Santo Afonso

  A meditação ou oração mental contém três partes: A Preparação A Meditação A Conclusão I. PREPARAÇÃO Na preparação fazem-se três atos: 1º A...