Páginas

sábado, 20 de agosto de 2016

SÃO BERNARDO DE CLARAVAL, Abade e Doutor da Igreja.

Varão de fogo, conselheiro de Papas e monarcas, denominado pelo Papa Inocêncio II de "muralha inexpugnável que sustenta a Igreja", São Bernardo foi também admirável arauto da Virgem Maria e um dos primeiros apóstolos da mediação universal da Mãe de Deus.


O ambiente era de expectativa e seriedade. A multidão comprimia-se, silenciosa, em torno de um homem ainda jovem, de fisionomia austera, que pregava à beira de um rio. Sua voz, grave e compassada, transmitia uma profunda paz de alma.


"Arrependei-vos, porque está próximo o reino de Deus. (...) Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas" (Mt3, 2-3), afirmava com severidade. Depois continuava suavemente, quase enternecido: "Vem depois de mim quem é mais forte do que eu, ao qual não sou digno de desatar, prostrado em terra, a correia das sandálias" (Mc1, 7).


João Batista, o último e maior dos profetas do Antigo Testamento, anunciava à nação eleita o próximo aparecimento do Salvador do gênero humano. E mais tarde, quando revelou a divindade do Messias ao proclamar: "Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira o pecado do mundo" (Jo1, 29), a longa e grandiosa fileira dos profetas, que haviam predito o advento do Redentor e guiado o povo através dos séculos de espera, estava finalmente encerrada. Todas as profecias tinham-se cumprido.


A Revelação está completa, mas Deus deseja servir-se das causas segundas para comunicar seus divinos desígnios à humanidade. Assim, sempre suscitará Ele, alguns varões e mulheres que indiquem o Caminho, ensinem a Verdade e transmitam a Vida à maioria dos homens. Esta realidade no-la explica São Tomás, na Suma Teológica: "Em todas as épocas houve alguns que possuíam o espírito profético, não para dar a conhecer doutrinas novas, mas para dirigir a vida humana".

O profeta do século XII

No século XII a Civilização Cristã havia atingido um auge que nenhum santo poderia ter imaginado nos albores duros e sangrentos da primeira época da Igreja: "A filosofia do Evangelho governava os Estados; a influência da sabedoria cristã e sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil" — afirmou Leão XIII na Immortale Dei.


O sustentáculo dessa sociedade sacral havia sido, durante mais de um século, a santidade emanada da abadia beneditina de Cluny. Tendo-se espalhado rapidamente por todo o Ocidente cristão, esses filhos de São Bento influenciavam e orientavam a espiritualidade e a cultura dos povos da Europa a partir do interior de seus imensos mosteiros, do alto dos púlpitos, desenvolvendo uma belíssima e aristocrática liturgia e encantando as multidões com o angélico canto gregoriano.

Entretanto, após alcançar o píncaro, a grandeza de Cluny desvanecia-se lentamente, quiçá por não ter havido almas generosas que, no ápice do esplendor, quisessem partir para novos extremos de santidade.


Surgiu então, não uma instituição, mas um homem que foi o reformador da disciplina eclesiástica, o modelo de todas as virtudes, a voz de Deus a indicar novos rumos àquela sociedade que começava a vacilar: Bernardo de Claraval.

Um misterioso desígnio


No ano de 1091 nascia num castelo da Borgonha o terceiro filho do senhor de Fontaines e da virtuosa dama Alet. Pouco antes de dar à luz o menino, teve ela um sonho tão nítido e expressivo que sua maternal intuição não deixou de ver nele um providencial aviso sobre o futuro do filho: tinha-lhe aparecido um cachorrinho de alvíssima pele que latia fortemente e sem cessar. Aflita, porém, por não alcançar uma clara interpretação que traduzisse seus pressentimentos, consultou um servo de Deus, o qual lhe respondeu: "O menino será um grande pregador e latirá continuamente para guardar a Casa de Deus, e curará as chagas de muitas almas".


Descendente de duas nobres famílias e pairando sobre ele esse misterioso vaticínio, criou-o sua mãe com especial esmero, e logo que foi possível o enviou a uma famosa escola na cidade de Châtillon-sur-Seine. Seu grande talento intelectual causava admiração aos mestres e prometia-lhe uma brilhante carreira. A índole afável e um tanto tímida de Bernardo possuía uma nota de nobreza e amenidade que atraía muitos a ele.


Em pouco tempo, sentiu arder na alma o desejo da glória da ciência e de uma existência mundana vivida na opulência. O demônio, o mundo e a carne tentaram incontáveis vezes arrastá-lo para a perdição, mas, apesar desses assaltos, conservou sempre íntegra sua inocência batismal.


Certa vez, sentindo especial atração por uma formosa e pouco virtuosa jovem, e querendo a qualquer preço evitar a menor falta, lançou-se num pequeno lago de água gelada (era inverno) e lá permaneceu, submergido até o pescoço, e dali o retiraram quase sem sentidos.
São Roberto de Molesmes acolhendo 
São Bernardo na Ordem de Cister. 



O chamado do Senhor


Contava Bernardo 21 anos de idade, e a graça divina havia muito batia às portas de seu coração ardente: "Para que vieste ao mundo?" Esta pergunta vinha lhe à mente com frequência cada vez maior.


A radicalidade da vida monástica atraía aquela alma feita para grandes atos de heroísmo: abandonar honras, riqueza e família, consagrar-se para sempre ao serviço do Rei Eterno, viver daquele amor sobrenatural cujas labaredas cresciam sem cessar em seu interior... Entretanto, não faltavam parentes e amigos que o exortavam a seguir uma estrada mais larga: grandes glórias mundanas prometiam as incomuns qualidades do jovem Bernardo; sua precária saúde e débil compleição não suportariam as austeridades da vida religiosa; pode-se também servir a Deus sem enterrar num claustro os talentos de tão gentil caráter...


Afligido por esses pensamentos e combates, entrou certo dia numa igreja e implorou uma luz celeste que lhe desse a conhecer, sem sombra de dúvida, o desígnio de Deus a seu respeito. E o Senhor não tardou em socorrer seu escolhido que a Ele clamava.


Levantou-se Bernardo fortalecido e cheio de sobrenatural certeza, e dirigiu-se para um mosteiro quase desconhecido, fundado não havia muito tempo pelo santo abade Roberto de Molesmes e situado num bosque não distante do castelo de sua família: Cister.


Entretanto, não quis partir só para aquele austero claustro onde nascia, em meio a dificuldades sem conta, uma nova Ordem religiosa: com inspirada eloquência, arrastou consigo seu tio materno, quatro irmãos e mais trinta cavaleiros companheiros seus! O último irmão de Bernardo, por ser ainda muito novo, escutou as seguintes palavras: “Fica com Deus. Nós partimos para o mosteiro e te deixamos todos os nossos haveres”. Desolado, o menino respondeu: "Vós conquistais o Céu e me deixais a terra? Má partilha esta!" E poucos dias depois, bateu àquelas benditas portas que já tinham acolhido seus cinco irmãos mais velhos...

O Santo gozava de íntima amizade com Jesus
que se dignou aparecer-lhe algumas vezes
em seus êxtases. 

O vale da luz


Se exíguo tinha sido durante muitos anos o número de monges de Cister, logo ficaram estreitas, graças a Bernardo, suas rudes paredes de pedra.


Por ordem de seu superior, agora Santo Estevão Harding, partiu ele, acompanhado de doze companheiros, a fundar uma nova abadia. Tinha apenas 25 anos.


A paragem escolhida foi um isolado e sombrio vale, temido por causa dos ladrões que ali se refugiavam. Mas em pouco tempo a floresta cedeu lugar aos campos cultivados, os muros começaram a elevar-se, vozes puras e varonis fizeram ecoar a laus perenni naquelas vastidões, e a luz divina refletida por São Bernardo dissipou as obscuridades do lugar, que passou a chamar-se Clara Vallis —Claraval.


Atraídos pela fama de santidade que logo aureolou esse mosteiro, acorreram numerosos jovens, nobres e plebeus, cultos e ignorantes, desejosos de seguir a Cristo na pobreza, obediência e castidade, sob a direção do jovem abade. Passou assim de 700 o número de monges que enchiam a abadia do vale da luz.

Voz e braço de Deus


Mas a luz não foi feita para ser escondida e sim para iluminar e brilhar aos olhos de todos (cfr. Mt 5, 15-16). Em vão procurava Bernardo a solidão e o silêncio de seu amado vale. Contra sua vontade, tornou-se o conselheiro de Papas, bispos e monarcas, o diretor espiritual da Europa medieval, o Moisés da Cristandade.


Não havia pregador mais ardente nem personagem com maior prestígio do que ele. Venerado como santo pelas multidões e reconhecido como profeta e taumaturgo, sua mera presença, suas palavras e escritos despertavam um entusiasmo novo e combatiam vitoriosamente as heresias e os adversários da Igreja. Tendo-se levantado naquele tempo um perigoso cisma na Igreja de Deus, quase todos os fiéis vacilavam, desorientados, entre o legítimo Pontífice e um antipapa chamado Anacleto.


Teólogos e doutores discutiam com denodo argumentos em favor de um ou de outro, sem chegar a resultados convincentes ou definitivos. Os olhos de muitos voltaram-se então para o santo abade de Claraval, à procura de uma palavra que resolvesse a espinhosa questão. Acudiu Bernardo ao Concílio de todos os bispos do reino da França, e com sua inspirada e ardente eloquência decidiu o voto da assembleia em favor do legítimo Papa, Inocêncio II.


Entretanto, o incêndio da divisão não se extinguiu imediatamente. Na província da Gasconha, o orgulho de um bispo sustentado pela ambição de um conde da região, ainda se levantava contra o verdadeiro pastor da Santa Igreja. O Papa enviou São Bernardo para pôr fim a esta triste situação, na expectativa de que a sabedoria do santo triunfaria onde os raciocínios dos teólogos haviam fracassado. Mas em vão tentou ele reduzir à justa obediência o agitado espírito do bispo revoltado. Procurou, então, convencer o despótico conde, demonstrando-lhe a loucura de sua posição. Ambos, porém, ébrios de orgulho, obstinavam-se no erro.


Contristado ante tanta maldade, mas decidido a fazer prevalecer a autoridade do Sumo Pontífice, convocou Bernardo todo o povo à catedral da cidade e celebrou solenemente o Santo Sacrifício do altar. Após a Consagração, levando em suas mãos o Santíssimo Sacramento sobre uma patena, dirigiu-se à praça onde se encontrava o conde que, por estar excomungado, não podia entrar no templo. Olhando-o severamente, disse-lhe com voz ameaçadora: "Nós te rogamos e tu nos desprezaste; muitos servos de Deus suplicaram e tu de ninguém fizeste caso. Eis que o Filho da Virgem, Cabeça e Senhor da Igreja que tu persegues vem à tua presença! É o Juiz em cujas mãos um dia tua alma cairá. Vejamos se também a Ele viras as costas como a nós as tornaste!" Como outrora os vendilhões do Templo de Jerusalém haviam fugido diante do Mestre irado, o infeliz conde, ao escutar essas palavras, rolou por terra, aterrorizado. Levantou-se depois, tocado finalmente pela graça de Deus, prostrou-se cheio de arrependimento aos pés do santo abade e fez tudo quanto este lhe ordenou.

O milagre do conde que cai ao solo rolando aterrorizado, 
ante as palavras de São Bernardo. 



Travou mais tarde tão estreita amizade com Bernardo que, seguindo seus santos conselhos, abandonou o mundo e acabou seus dias num convento. O Bispo recalcitrante, porém, obstinado em sua malícia, foi um dia achado morto em sua cama, sem confissão nem viático.

Foi agraciado com aparições da Virgem
Maria a quem tanto amava. Em um dessas
aparições, Nossa Senhora se dignou derramar
nos lábios do Santo Abade algumas gotas
de seu santo leite, o que fez São Bernardo
experimentar um profundo êxtase
que elevou sua alma a uma altíssima
contemplação dos mistérios divinos. 

Arauto de Nossa Senhora


Mas este varão de fogo, denominado pelo Papa Inocêncio II de "muralha inexpugnável que sustenta a Igreja", passou para a História com o título de"Doutor Melífluo", porque a unção de suas exortações levava todos a afirmar que seus lábios destilavam puríssimo mel.


Quem, no mundo cristão, não conhece a incomparável e doce prece "Lembrai- vos", a ele atribuída? Foi um dos primeiros a chamar de "Nossa Senhora" a Mãe de Deus. Conta a tradição que, escutando certa feita seus irmãos cantarem a Salve Regina, irrompeu de seu coração pervadido de enlevo a tríplice exclamação que hoje coroa esta oração: "Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria!"Foi também um dos primeiros apóstolos da mediação universal de Maria Santíssima, deixando esta doutrina claramente consignada em numerosos sermões:"Porque éramos indignos de receber qualquer coisa, foi-nos dada Maria para, por meio d'Ela, obtermos tudo quanto necessitamos. Quis Deus que nós nada recebamos sem haver passado antes pelas mãos de Maria. (...) Como mais íntimo de nossa alma, com todos os afetos de nosso coração e todos os sentimentos e desejos de nossa vontade, veneremos a Maria, porque esta é a vontade d'Aquele Senhor que quis que tudo recebamos por Maria."
"Vinde, bendito de meu Pai"


Retornando de uma missão apostólica, quando já estava com 63 anos de idade, curou uma mulher cega, na presença de uma enorme multidão que acorria para venerá-lo. Foi o último milagre realizado na sua existência terrena.


Ao chegar a seu amado mosteiro de Claraval, sentia-se desfalecer.


Mas transbordava de sua alma a serena confiança do navegante que finalmente avista o porto anelado. Ele mesmo, numa carta, dá conta de sua derradeira moléstia, pouco antes de partir para a eternidade: "O sono foge de mim, para que a dor não se mitigue estando os sentidos adormecidos. Quase tudo o que padeço são dores no estômago. Para nada ocultar a um amigo que deseja conhecer o estado de seu amigo, e falando não como sábio, segundo o homem interior, digo-vos que o espírito está pronto, na carne fraca. Rogai ao Salvador, o qual não quer a morte do pecador, que não atrase mais o meu fim, mas o guarde e ampare".

Bispos, abades e monges circundavam o leito onde agonizava aquele profeta do Senhor. Choravam eles o superior que aconselhava, o doutor que ensinava, o pai que os amava, o varão de Deus que os santificava. Mas este até o último alento os animou e consolou, e com grande despretensão dizia que já era tempo de um servo inútil passar a outro aquele cargo, e uma árvore estéril ser arrancada... No dia 20 de agosto de 1153, às nove horas da manhã, entregou sua puríssima alma a seu Criador e Redentor. 

(Revista Arautos do Evangelho, Agosto/2006, n. 56, p. 22 à 25)

SÃO BERNARDO DE CLARAVAL



Bernardo nasceu no ano 1090 na França. A sua família era cristã, rica, poderosa e nobre. Desde a tenra idade demonstrou uma inteligência aguçada. Tímido, tornou-se um jovem de boa aparência, educado, culto, piedoso e de caráter reto e piedoso. 

✨Quando sua mãe morreu, ele manifestou o desejo de ser religioso, mas encontrou resistência do pai. Porém, com determinação, conseguiu convencer o pai, irmãos e amigos, que ingressaram com ele no mosteiro da Ordem de Cister, recém fundada. 

✨A contribuição de Bernardo dentro da ordem foi de tão grande magnitude que ele passou a ser considerado o seu segundo fundador. Foi um período de abundante florescimento da ordem, que passou a contar com cento e sessenta e cinco mosteiros. Bernardo sozinho fundou sessenta e oito e, em suas mãos, mais de setecentos religiosos professaram os votos. 

✨Bernardo viveu uma época muito conturbada na Igreja. Foi pregador, místico, escritor, fundador de mosteiros, abade, conselheiro de Papas, reis, bispos e também polemista político e tenaz pacificador. Nada conseguia abater ou afetar sua fé, imprimindo sua marca na história da espiritualidade católica romana. 

✨Tornou-se o maior escritor do seu tempo, apesar de sua saúde sempre estar comprometida. Isto porque Bernardo era um religioso de vida muito austera, dormia pouco, jejuava com freqüência e se impunha severa penitência. 

✨Morreu no dia 20 de agosto de 1153 e foi sepultado no mosteiro de Claraval. É chamado de doutor da Igreja.      

 REFLEXÃO
São Bernardo cantou o amor, o amor de Deus pelo homem e o amor do homem por Deus. Um amor que é fonte de verdadeiro conhecimento, um amor nupcial entre Deus e aqueles que sabem estar na escuta dele. E é esta mensagem que falou ao coração de tantos homens e mulheres do seu século e povoou numerosos mosteiros.

 ORAÇÃO
Ó Deus, que marcastes pela vossa doutrina a vida de São Bernardo, concedei-nos, por sua intercessão, que sejamos fiéis à mesma doutrina, e a proclamemos em nossas ações. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

São Bernardo de Claraval, Rogai por nós!

domingo, 14 de agosto de 2016

10 Máximas de Santo Afonso de Ligório


1. É nas doenças que se vê quem tem virtude.

2. Antes perder tudo, que perder a Deus.

3. Perturbar-se com as faltas cometidas não é humildade, mas orgulho.

4. Só somos o que somos diante de Deus.

5. Sempre o demônio anda à caça dos ociosos.

6. Desgraçado de quem ama mais a saúde que a santidade!

7. Os curiosos são sempre dissipados

8. Os santos falam sempre de Deus; sempre dizem mal de si próprios, e sempre bem dos outros.

9. A quem procura ser estimado, estima Deus pouco.

10. Quando se pensa no inferno que se mereceu, sofrem-se com resignação todas as penas.

http://floresdamodestia.blogspot.com.br/

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Rezai pela descoberta de vós próprios


Thomas Merton

Existe um ponto em que posso encontrar Deus, num contato real e experimental com a Sua infinita realidade: é aquele em que o meu ser contingente depende do Seu amor. Há em mim próprio, por assim dizer, um ponto culminante de existência em que sou mantido em vida pelo meu Criador.

Deus pronuncia-me como uma palavra que contém uma parcela do Seu pensamento. Uma palavra nunca é capaz de conceber a voz que a pronuncia. Mas se estou em conformidade com o conceito que Deus pronuncia em mim, se estou em conformidade com o pensamento d'Ele que era meu destino encarnar, estarei cheio da Sua realidade, encontrá-Lo-ei por toda a parte em mim próprio e não me encontrarei em qualquer outra parte. Estarei perdido n'Ele.

Quem, dentre vós, é capaz de reentrar em si próprio e aí encontrar o Deus que o pronuncia?

Se, como os místicos orientais, conseguirdes esvaziar o vosso espírito de qualquer pensamento e de qualquer desejo, podereis, na verdade, isolar-vos no centro de vós próprios e concentrar tudo o que existe em vós no ponto imaginário em que a vossa vida jorra de Deus, mas, no entanto, não encontrareis Deus. Nenhuma prática ou exercício natural pode levar-vos a um contato vital com Ele. A menos que Ele não se exprima em vós, que Ele não pronuncie o Seu próprio nome no centro da vossa alma, não O conhecereis melhor do que um seixo conhece o solo em que, na sua inércia, repousa.

A nossa descoberta de Deus é, dalgum modo, a descoberta que Deus faz de nós. Não podemos ir procurá-Lo ao céu, porque não temos qualquer meio de saber onde está o céu e o que é. Ele é que desce do céu e é Quem nos encontra. Olha-nos das profundezas da Sua infinita realidade, que está em toda a parte, e o fato de Ele nos ver confere-nos uma realidade superior, na qual também nós, por nossa vez, O descobrimos. Só O conhecemos na medida em que Ele nos conhece, e contemplá-Lo é participar na Sua contemplação d'Ele Próprio.

É no instante em que Deus se descobre em nós que nós nos tornamos contemplativos. Nesse momento, revela-se-nos o nosso ponto de contato com Ele, atravessamos o centro da nossa alma e entramos na eternidade.

É exato Deus conhecer-Se em todas as coisas que existem. Vê-las e é porque Ele as vê que elas existem. É porque ele as ama, que elas são boas. O amor que nelas põe é que faz a sua bondade intrínseca. O valor que Ele vê nelas é que faz o seu valor. É na medida em que Ele as vê e as ama que todas as coisas O refletem.

Mas, embora Deus esteja presente em todas as coisas pelo Seu conhecimento, o Seu amor, o Seu poder e o Seu interesse por elas, elas não têm d'Ele, necessariamente, consciência e conhecimento. Não é conhecido e amado senão por aquelas que generosamente admitiu a partilhar o Seu próprio conhecimento e o Seu próprio amor.

Para O conhecer e O amar tal como é, torna-se necessário que Deus habite em nós de uma nova e especial maneira. Assim Deus ajuda-nos, por missões sobrenaturais da Sua própria vida, a vencer as distâncias infinitas que O separam dos espíritos criados para O amar. O Pai, que habita no mais íntimo de todas as coisas e no mais íntimo de mim próprio, comunica-me o Seu Verbo e o Seu Espírito e, nessas missões, eu sou arrebatado para a Sua própria vida e conheço Deus no Seu próprio Amor.

A descoberta que faço da minha identidade começa nessas missões e nelas se completa, visto ser por elas que Ele Próprio, Deus, trazendo em Si Mesmo o segredo de quem eu sou, começa a viver em mim, não somente como meu Criador mas como um outro verdadeiro eu. Vivo, iam non ego, vivit vero in me Christus.

Essas missões começam no Batismo. Mas não assumem qualquer significação prática na vida das nossas faculdades até nos tornarmos capazes de atos de amor consciente. Daí por diante é que a presença particular de Deus em nós depende inteiramente das nossas próprias preferências. Daí por diante, a nossa vida torna-se uma série de opções entre a ficção do nosso falso eu, que alimentamos com as ilusões da paixão e dos apetites egoístas, e a nossa verdadeira identidade na paz de Deus.

Enquanto existo na terra, o meu espírito e a minha vontade permanecem mais ou menos impenetráveis às missões do Verbo de Deus e do Seu Espírito. Não recebo facilmente a Sua luz.

Cada manifestação dos meus apetites naturais, mesmo se a minha natureza é boa em si, tende, duma maneira ou doutra, a manter viva em mim a ilusão que contraria a realidade de Deus vivendo em mim. Os meus atos naturais, mesmo quando são bons, têm uma tendência quando apenas naturais, a concentrar as minhas faculdades sobre o homem que eu não sou, que não posso ser, o falso eu que há em mim, a personagem que Deus não conhece. É porque nasci no egoísmo. Nasci egocentrado, E é isto o pecado original.

Mesmo quando me esforço por agradar a Deus, tendo a agradar à minha própria ambição, Sua inimiga. Pode haver imperfeição mesmo no ardente amor duma grande perfeição, mesmo no desejo da virtude e da santidade. O próprio desejo da contemplação  pode ser impuro, quando esquecemos que a verdadeira contemplação significa a destruição completa de todo o egoísmo e a mais pura pobreza e limpidez de coração.

Embora Deus viva nas almas de homens que não têm consciência d'Ele, como posso dizer que O encontrei e me encontrei n'Ele, se não O conhecer nunca, se jamais pensar n'Ele, se não me interessar por Ele, não O procurar ou não desejar a Sua presença na minha alma? Para que serve dirigir-lhe algumas orações simplesmente formais, voltar-me depois para o outro lado, e dar todo o meu espírito e toda a minha vontade às criaturas, só me preocupando com objetivos muito afastados d'Ele?Mesmo quando a minha alma pudesse estar isenta de culpa, se o meu espírito não pertence a Deus, então também eu não Lhe pertenço. Se os meus desejos, em lugar de caminharem até Ele, se dispersam na Sua Criação, é porque reduzi a Sua vida em mim ao nível de uma formalidade, não permitindo que sobre mim exerça uma ação verdadeiramente vital.

Desculpai a minha alma, ó meu Deus, mas enchei também a minha vontade com o fogo das vossas fontes. Resplandecei no meu espírito, se bem que, talvez, isto signifique "sede trevas para a minha experiência", mas enchei o meu coração da Vossa Vida prodigiosa. Que os meus olhos só vejam no mundo a Vossa glória e que as minhas mãos não toquem nada que não seja para Vosso serviço. Que a minha língua só conheça o sabor do pão que me fortifique para Vos glorificar. Cantando os Vossos hinos, ouvirei a Vossa voz e todas as harmonias que Vós criastes. A lã da ovelha e o algodão dos campos dar-me-ão calor suficiente para que possa viver ao Vosso serviço; darei o resto aos Vossos pobres. Que me utilize de todas as coisas pelo único motivo de encontrar a minha alegria em glorificar-Vos magnificamente.

Antes de tudo, portanto, preservai-me do pecado. Livrai-me da morte do pecado mortal que põe o inferno na minha alma. Preservai-me do crime da concupiscência, que cega e envenena o meu coração. Preservai-me dos pecados que vão consumindo a carne do homem com um fogo irresistível, até o devorarem. Preservai-me do amor do dinheiro, que contém o ódio, da avareza e da ambição, que asfixiam a minha vida. Livrai-me das inúteis tarefas da vaidade, e do labor estéril em que os artistas se gastam a si próprios por orgulho, dinheiro e fama, e em que os homens piedosos são esmagados sob a avalanche de seu próprio e importuno zelo. Tratai, em mim, a fétida chaga da cobiça e os apetites que sangram a minha natureza até ao esgotamento. Esmagai a serpente da inveja que inflige ao amor a sua venenosa mordedura e que mata toda a alegria.

Soltai as minhas mãos e libertai o meu coração da sua indolência. Libertai-me da preguiça que se agita mascarada de atividade, quando não é atividade que se me pede, e da covardia que realiza o que não se exige com o fim de evitar um sacrifício.

Dai-me, porém, a força que se aplica a servir-Vos em paz e em silêncio. Dai-me a humildade em que reside a única possibilidade de repouso, e livrai-me do orgulho, que é o mais pesado dos fardos. Penetrai todo o meu coração, toda a minha alma, da simplicidade do amor. Enchei toda a minha vida só com o pensamento e com o desejo do amor; que me seja permitido amar não por amor do mérito, não por amor da perfeição, não por amor da virtude, não por amor da santidade, mas só por Deus.

Porque há uma só coisa que pode satisfazer o amor e recompensá-lo: Deus somente.

Eis, portanto, o que significa procurar Deus perfeitamente: desviar-me da ilusão e do prazer, das inquietações e dos desejos deste mundo, das obras de que Deus não necessita, de uma glória que mais não é do que humana vanglória; conservar o meu espírito liberto de qualquer perturbação, a fim de que a minha liberdade esteja sempre à disposição da Sua vontade; manter silêncio no meu coração e escutar a voz de Deus; cultivar a liberdade intelectual de afastar da minha inteligência, conceitos e imagens das criaturas, a fim de, na fé, sentir o contato secreto de Deus; amar todos os homens como a mim mesmo; repousar na humildade e encontrar a paz afastando-me das lutas e das rivalidades; manter-me à distância das discussões e livrar-me do pesado fardo dos juízos, da censura e da crítica, e de toda a carga de opiniões que não tenho qualquer obrigação de transportar; ter uma vontade que esteja sempre pronta a dobrar-se sobre si própria e a concentrar no mais profundo de si todas as forças da alma, para aguardar em silenciosa expectativa a vinda de Deus, permanecendo em suspenso, numa concentração tranquila e sem esforço, sob o pensamento de quedependo d'Ele em tudo; reunir tudo o que tenho e tudo o que sou capaz de suportar, de fazer ou de ser, e dar tudo isso a Deus, na submissão de um amor perfeito, de uma fé cega, de uma confiança sincera, para cumprir a Sua vontade.

E, depois, esperar, na paz, o abandono e o olvido de todas as coisas.

Thomas Merton, Sementes de Contemplação

http://amorepobreza.blogspot.com.br/2011/12/rezai-pela-descoberta-de-vos-proprios.html

Uma experiência da transfiguração no hesicasmo



- Meu amigo, estamos ambos neste momento no Espírito de Deus [...] Por que não queres olhar para mim?

- Não posso olhar para vós, meu Pai, porque vossos olhos projetam clarões; vosso rosto se tornou mais brilhante que o sol e sinto dor nos olhos em vos olhar.

- Não tenhas medo de nada. Neste momento te tornaste tão claro como eu. Também estás agora na plenitude do Espírito de Deus; de outra maneira, não poderias ver-me como me vês.

E, inclinado para mim, ele me disse baixinho ao ouvido:

- Dá graças ao Senhor Deus por sua bondade infinita para conosco. Como observaste, nem mesmo fiz o sinal da cruz; bastou apenas que eu orasse a Deus em pensamento, no meu coração, dizendo interiormente: Senhor, torna-o digno de ver claramente com seus olhos corporais esta descida de teu Espírito, que proporcionas a teus servos, quando te dignas aparecer-lhes na luz magnífica de tua glória. E como podes ver, meu amigo, o Senhor atendeu imediatamente esta oração do humilde Serafim [...] Como devemos ser reconhecidos a Deus por este dom inefável concedido a nós dois! Mesmo os pais do deserto nem sempre tiveram tais manifestações de sua bondade. É que a graça de Deus - como uma mãe cheia de ternura para com seus filhos - dignou-se consolar vosso coração aflito, pela intercessão da própria Mãe de Deus [...] Por que, então, meu amigo, não queres olhar-me direto na face? Olha francamente, sem medo: o Senhor está conosco [...].

Encorajado com estas palavras, olhei e fui tomado de um terror piedoso. Imaginem vocês a face do homem que lhes fala, no meio do sol, no brilho de seus raios escaldantes do meio-dia. Vocês podem ver o movimento de seus lábios, a expressão mutante de seus olhos, podem ouvir sua voz e sentir suas mãos pousarem sobre os ombros de vocês, mas não vêem nem suas mãos, nem o corpo de seu interlocutor - nada além da luz resplandescente que se propaga longe, a algumas toesas ao redor, iluminando com seu brilho o prado coberto de neve e os flocos brancos que não param de cair [...].

E o Padre Serafim me perguntou:

- O que é que sentes?

- Um bem-estar infinito, respondi.

- Mas que tipo de bem-estar? Em que precisamente?

- Sinto uma tal tranquilidade, uma tal paz na minha alma, que não encontro palavras para me exprimir.

- É, meu amigo, a paz da qual falava o Senhor quando disse a seus discípulos: "Eu vos dou a minha paz"; a paz que o mundo não pode dar [...]; "a paz que ultrapassa toda compreensão". O que sentes ainda? 

- Uma alegria infinita no meu coração.

E o Padre Serafim continuou:

- Quando o Espírito de Deus desce sobre o ser humano e o envolve na plenitude de sua presença, então a alma transborda de uma alegria indizível, pois o Espírito Santo cumula de alegria todas as coisas que Ele toca [...] Se as primícias da alegria futura já enchem a nossa alma de uma tal doçura, de uma tal felicidade, que diremos da alegria que espera no Reino celeste todos aqueles que choram aqui na terra? Também tu, meu amigo, também tu choraste no curso de nossa vida terrestre, mas verás a alegria que o Senhor te envia para te consolar desde aqui na terra.

Então esta alegria que sentimos neste momento, parcial e breve, aparecerá em toda a sua plenitude, cumulando nosso ser de delícias inefáveis que ninguém poderá arrebatar-nos.

Colóquios de São Serafim In: Escritos sobre o hesicasmo, uma tradição contemplativa esquecida. 3ª ed. Petrópolis: Vozes, 2011. p.116-118.

http://amorepobreza.blogspot.com.br/2014/06/uma-experiencia-da-transfiguracao-no.html

O Hesicasmo


O Hesicasmo é uma tradição mística antiga, que oferece métodos comprovados pelo tempo para desprendermo-nos do ego e experimentar estados transcendentes de consciência. Esta tradição não se limita a monges reclusos. Qualquer um pode ser um hesicasta. João Crisóstomo escreveu: "Mesmo um homem que vive dentro de uma cidade pode imitar a vida de monges. Na verdade, até mesmo um homem que tem uma esposa, e que é ocupado com as demandas de sua casa, pode orar, jejuar, e aprender contrição....Vamos cultivar o auto-domínio e todas as outras virtudes, e vamos trazer em nossas cidades o modo de vida que é procurado nos desertos."



https://www.facebook.com/A.Oracao.do.Coracao/photos/a.349542428509392.1073741828.348307508632884/820591911404439/?type=3&theater&notif_t=page_post_photo&notif_id=1471000132612246

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Vigilância e Oração


A cura de nossa mente doente começa com o sacrifício do nosso "homem velho", o corte das paixões, o arrependimento. Ao falar da cura da mente (nous), os Santos Padres colocam muita ênfase na prática da vigilância. Devemos em todos os momentos vigiar nossos pensamentos, de modo a rejeitar - para cortar - pensamentos pecaminosos e apaixonados. Quando um pensamento pecaminoso vem à nós e nós o extirpamos de uma só vez, não é um pecado. Mas quando nos entretemos em um pensamento pecaminoso, quando o estimamos e o desenvolvemos, porque nós somos atraídos à ele, então ele se torna pecado, então ele nos separa de Deus. Quando entretemos pensamentos cheios de paixão, a nossa mente torna-se escura, privada da luz da graça divina. Estes pensamentos levam a sentimentos apaixonados, e os sentimentos incendeiam mais pensamentos. Logo estamos presos em uma paixão, e a paixão se torna habitual. É por isso que devemos extirpar a doença onde começa, em nossos pensamentos.

Para cortar pensamentos pecaminosos, precisamos primeiro reconhecer tais pensamentos como nosso inimigo. Temos de perceber que eles podem nos separar de Deus. Por exemplo, quando temos um pensamento de ódio e julgamento contra nosso próximo, devemos reconhecer que entreter esse pensamento nos colocará em inimizade com Deus. Por isso, nos recusamos a entretê-lo. Nós apenas o deixamos ir. E se ele voltar uma hora mais tarde, ou mesmo (como muitas vezes acontece) alguns minutos depois, novamente devemos extirpá-lo.
Na Igreja Ortodoxa, temos um meio especial de cortar pensamentos: a Oração de Jesus. Os efeitos dessa oração são dois. Em primeiro lugar, a oração nos ajuda a cortar e afastar pensamentos cheios de paixão. E em segundo lugar, a oração nos ajuda a voltar continuamente à Cristo, nosso Salvador em todos os momentos. Quando praticamos a vigilância com a ajuda da Oração de Jesus, nós tornamos a nossa alma aberta para receber a Graça do Espírito Santo, que nos transforma e nos diviniza. Nós já não estamos repelindo Graça, mas atraíndo-a. Estamos convidando Cristo para ter misericórdia de nossas almas escuras, para habitar em nós mais plenamente, para encher-nos com a sua vida sem fim, com a luz do Espírito Santo, enviado do Pai. Assim, a nossa mente obscurecida é iluminada pela luz da Graça de Deus. "Somente o Espírito Santo pode purificar a mente", escreve Diádoco de Foticéia na Philokalia. "Em todos os sentidos, em especial através de paz da alma, devemos nos tornar uma habitação para o Espírito Santo. Então teremos a lâmpada do conhecimento espiritual queimando sempre dentro de nós."
Juntamente com a repetição da Oração de Jesus todos os dias durante nossas tarefas diárias, é importante dedicar alguns momentos do dia para a oração, isto é, à uma regra de oração. O conteúdo desta regra de oração varia com cada pessoa, e às vezes ele muda. É bom ter a bênção de um padre ou pai espiritual em sua regra de oração. A regra pode consistir em orações do Livro de Orações ortodoxo, ou a Oração de Jesus, ou ainda melhor, uma combinação destes. São Teófano, o Recluso observa que, enquanto estamos lendo orações a partir de um livro de orações ou repetindo a Oração de Jesus, pode acontecer de sermos movidos pelo desejo sincero de apenas ficarmos em silêncio diante de Deus. Ele recomenda que então paremos de ler ou recitar as orações em tais ocasiões, e em seguida, as retomemos um pouco mais tarde.
Ter um tempo reservado para a oração diária é uma parte indispensável da vida espiritual. Nas famílias deve haver oração em comum diariamente diante de seu altar, canto de oração ou ícone. Mesmo que apenas um pouco de tempo seja reservado para isso, ele pode fazer uma enorme diferença na vida de uma família. Mas para que isso faça a diferença, deve ser regular e não esporádico.
A chave para regras de oração é a constância. Se pularmos nossa regra de oração, nossas leituras bíblicas e as nossas leituras espirituais por um dia, veremos que o mundo já começa a nos invadir: o mundo das paixões, o mundo das distrações. Se ignorarmos nossas orações por dois dias, seremos invadidos ainda mais, e assim por diante. Conforme o tempo passa, teremos menos da mente de Cristo e mais da mente do mundo. Vamos nos encontrar mais e mais "conformados com este mundo".
Para crescer na vida espiritual e colher frutos, precisamos criar raízes, como na parábola do semeador de Cristo. E, a fim de criar raízes, precisamos ter constância, consistência, em nossa oração diária e leitura espiritual. Nesta prática, também, nós podemos "nos renovar dia a dia", como São João Crisóstomo diz.
A prática diária, contínua de vigilância e oração, é claro, não pode tomar o lugar dos sacramentos da Igreja. Mas esta prática pode nos preparar para receber os Sacramentos, e pode aprofundar a nossa experiência deles. São Simeão, o Novo Teólogo diz que receber a Sagrada Comunhão é em si uma espécie de deificação - porque estamos recebendo o Corpo deificado e Sangue de nosso Salvador. A prática de vigilância e oração, juntamente com o nosso arrependimento, pode ajudar-nos a participar desta deificação mais plenamente.

http://oracaodejesus.com/textos-vigilancia-e-oracao.html#a73b0c12c27cb215616226b5ee062701

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Lutar sempre - Desânimo na vida espiritual

Lutar sempre

Labora sicut bonus miles Christi (II Tim 2,3)
Trabalha como um bom soldado de Cristo

Os combates pelo amor são longos e por vezes difíceis, e toda alma, por pouco generosa que seja, verifica em si mesma, em dados momentos, um movimento de depressão que se chamadesânimo.

Essa depressão nasce insensivelmente da acumulação de contratempos e reveses sucessivos. A alma sente-se abatida, depois, de repente, um acidente qualquer, uma pequena indisposição, uma fadiga corporal, uma palavra de repreensão, uma falta de atenção sobrevêm a nosso respeito e a alma desanima.

Então tudo se torna pesado. A conversação espiritual é insípida, os livros que de ordinário a estimulavam perdem o sabor, os exercícios espirituais tornam-se um ônus intolerável. Nada a encoraja, tudo a aborrece e a desgosta.

 
A vida espiritual parece uma ilusão; atingir-lhe o cimo, uma impossibilidadeE ela senta-se tristemente a meia encosta sem forças para as alturas. Eis, por certo, um sério obstáculo, que impede por vezes o caminho às almas mais resolutas. Importa procurar as causas do desânimo e os meios de frustrar-lhes a influência paralisante.

Antes de tudo, o que deve consolar-te, alma piedosa, é não seres tu a única, sujeita a essas depressões passageiras. As melhores almas sofrem por vezes desse mal... Jesus, em sua infinita sabedoria, permite de bom grado que as almas mais dispostas sintam algumas vezes sua impotência pessoal.
Aliás “não é extraordinário, como diz São Francisco de Sales, que a miséria se sinta por vezes miserável”. 

Não é de estranhar que a natureza se canse e não queira mais avançar. Não é de admirar que o nosso corpo, como o asno de Balaão, recuse às vezes, seus serviços e, insensível aos golpes, se deixe abater antes que nos conduzir.
A razão dessa canseira é quase sempre uma série de exercícios espirituais e trabalhos exteriores por demais longa. É preciso que tudo se faça com medida e não exigir do corpo e do espírito senão o que eles podem razoavelmente dar. É preciso, pois, repousar, confortar-se a tempo, e depois dizer com nova energia: 

Vamos! Ainda um pouco de tempo, o cimo já não está tão longe, Deus ajudará. Para frente!

Os sentidos do homem são inclinados, desde tenra idade, para o sensível e fascinados pelos objetos exteriores. A razão não conhece a existência de Deus, senão por um trabalho de educação. Tudo que ele sabe do mundo sobrenatural sabe-o por ouvir dizer!
E esse ser tão ínfimo, tão ignorante e tão inclinado para o mal, que somos nós, quer aspirar, por um esforço contínuo, a tornar-se amante apaixonado de uma beleza superior. Quer esgotar, para atingir esse ideal, todas as forças de sua alma e de seu corpo, e a cada inspiração, e a cada inspiração, a cada apelo apenas perceptível, de uma graça invisível, quer elevar-se ainda mais alto.
Esse homem fraco, feito de sangue e de pó, propõe-se renunciar a todas as aspirações animais, modificar-se, contradizer-se, corrigir seu raciocínio e seu coração, não uma vez por acaso, mas sempre, e isso sob a influência de um agente misterioso que ele não vê e no qual crê e cujo socorro implora.


Oh! Não, uma vida tão heróica só pode ser levada graças a uma luta incessante.
Como é belo ver esse homem, exposto a todas as seduções, a todos os ataques do mundo e do inferno, a todas as conivências íntimas, voltar-se para Deus, impertubavelmente, apesar de suas fraquezas!

Também a santidade não exclui a luta, ela a supõe e a exige. A perfeição na terra não é o repouso nem o prazer. Não é um estado fixo. É uma ascensão para Deus, uma continuidade de esforços, uma tendência incessante para aproximar-se do ideal sobrenatural: Ad ea quae priora sunt extendens meipsum (Filip 3,13). Toda santidade no mundo é relativa; pode e deve aumentar continuamente. 

Quanto mais a alma se une a Deus, e afunda-se na sua infinidade, tanto mais os espaços se estendem e os horizontes se ampliam. É o infinito a atravessar.

Afasta, pois, de teu espírito essa falsa idéia de que aqui na terra encontrarás repouso. Não estás no mundo para gozar de Deus, mas para amá-Lo no trabalho, no sofrimento e na luta.

E se há luta, haverá quedas algumas vezes... o soldado que combate valorosamente expõe-se a golpes e ferimentos, porém suas cicatrizes são para ele títulos de glóriaMuitos há que não distinguem, na vida espiritual, a parte que lhes pertence e a que pertence a Deus. 

... A deles consiste, antes de tudo, em amar a Deus, esforçar-se por pertencer-lhe, pedir-lhe mais amor, e, em seguida, em levantar-se sempre com simplicidade após suas faltas, e purificar-se no sangue de Jesus.
 
Quanto ao mais, tudo é obra do Mestre. Enquanto a alma luta e geme pelas suas faltas e lamenta-se por não saber amar a Deus, esse Deus invisivelmente, enriquece-a com graças, orna-a de virtudes, cava nela a humildade e a paciência e une-se-lhe por tantas cadeias quantas ela faz de atos de amor e contrição.

E esse trabalho a dois prossegue até ao último instante da vida. A alma não viu senão faltas, e, com efeito, ela recaiu muitas vezes, e Deus não quis contar senão os atos de amor.
...Alma de boa vontade, não te aflijas, pois, por tuas faltas. Pede sempre perdão a Jesus e recomeça, sem te cansar, tua vida de amor.

Bem vês, o indispensável é amar, amar sempre. O amor dar-te-á constância na luta, como te dará a compunção e o espírito de oração. 

- O amor te ensinará a purificar tua vontade pelo desapego, disciplinar tua liberdade pela obediência, desembaraçar tua inteligência dos pensamentos inúteis.
- O amor te excitará à reflexão, retificará teu raciocínio pela humildade, dirigirá tua imaginação e acalmará tuas paixões.
- O amor reprimirá teus sentidos na pureza, desprenderá tua alma de todos os bens terrestres.
- O amor te conduzirá à intimidade de Jesus, revelando-te o mistério de sua paixão, de sua vida eucarística, de sua vida mística, que continua em ti.
- O amor te ensinará, enfim, a desapegar-te de ti mesmo para seres um com Jesus, viver Dele, agir com Ele, sofrer com Ele, e continuar, por Ele, a obra da redenção.

Assim, tudo começa, aperfeiçoa-se e acaba no amor.
Ó minha alma!...renova a Jesus a resolução de ser constante no amor.
Se o cansaço, o desânimo ou a desconfiança buscam invadir-te, olharás para o céu.

Jesus lá está e cuida de ti. Ninguém te arrancará de suas divinas mãosEle é o Amigo fiel, que começou e terminará a obra de tua santificação. Terminá-la-á não obstante as dificuldades exteriores e interiores, contanto que tenhas confiança Nele e que o deixes agir em tua alma.

Ama-O muito. Repete constantemente que o amas. Pede-Lhe sempre mais graças, mais luzes, mais força. Volve a Ele sem jamais te cansar. Tua santidade estará garantida.
(Excertos do livro: O Divino Amigo – Pe. Schrijvers)

Fonte
Retirado do blog: http://osegredodorosario.blogspot.com.br/

São Domingo de Gusmão

O 1º Apóstolo do Rosário da Virgem Maria

“...antes que no seio fosses formado, eu já te conheci; antes de teu nascimento eu já te havia consagrado, e te havia designado Profeta das Nações (Jer. 1, 5)”.

Sua vida!

Na noite de 24 de junho do ano de 1170, na pequena cidade de Caleruega, em Castela, Província de Burgos na Espanha, nascia Domingos, o filho caçula do Conde, Dom Félix de Gusmão e Dona Joana D’Aza. Antes de nascer, sua mãe, profundamente religiosa, teve um sonho misterioso: viu um cão que trazia na boca uma tocha acesa que irradiava uma grande luz sobre o mundo (assim como o cão é fiel ao dono, São Domingos seria fiel a Deus, e com a tocha acesa, incendiou o mundo no amor de Deus).
Na Pia Batismal recebe o nome de Domingos, em homenagem ao Santo Abade Domingos de Silos. Ainda pequeno, porém, já em idade escolar, foi confiado aos cuidados de um tio padre que lhe ensinou as matérias elementares, além das funções litúrgicas e pastorais.
Quando completa 15 anos, aluga um quarto de pensão na cidade de Valência, e lá, dedica-se integralmente aos estudos na célebre Universidade de Valência. Destaca-se nas ciências liberais, cujo programa era a gramática, dialética, lógica, retórica, aritmética, música, geometria e astronomia. Cursou também filosofia, teologia e assim, obedecendo às aspirações de seu coração e ao chamado de Deus, tornou-se sacerdote.
Como sacerdote acompanhou o Bispo de Osma e, na viagem, pôde sentir de perto o problema religioso do sul da França e de outras regiões européias, infestadas por grupos religiosos, fanáticos e subversivos. Domingos decidiu permanecer no sul da França, dedicando-se junto com alguns sacerdotes, na simplicidade e na pobreza, ao ensinamento da Doutrina Cristã.
Deste grupo de pregadores surgiu a Ordem dos Pregadores ou Dominicanos, cujas características fundamentais eram: a espiritualidade sacerdotal com profunda formação teológica; o devotamento a Igreja, as almas, ao culto da verdade; a vida comunitária como meio ascético de santificação para maior desempenho da vida e ação sacerdotal; a espiritualidade apostólica, sobretudo na pregação.
Domingos era apaixonado pela música, e disto fez uso muitas vezes durante sua vida. No entanto, a grande alegria do jovem Pe. Domingos era caminhar por estradas, bosques e montes, cantando a “Salva Rainha”, meio pelo qual não cessava de louvar e enaltecer a Mãe do Filho de Deus, cantando-lhe as maravilhas dentro de uma poesia rica de lirismo e sentimento, muito próprio de sua época.
Nossa Santo reconhecia o valor dos que se enclausuravam, mas sabia que era também preciso agir, falar, fazer algo para que o Evangelho fosse anunciado. Assim, ele compreendeu a contemplação como meio principal pelo qual se formaria o missionário, o apostolo, através da oração, do estudo e da reflexão. É como se o dominicano fosse um vasilhame que colheu água da fonte para que os outros pudessem depois bebê-la. Por isso é que a Ordem tem por lema: “Dar aos outros o fruto da nossa contemplação”.

São Domingos e o Santo Rosário

Domingos de Gusmão, por meio de suas ardorosas pregações, tentou durante longos anos trazer de volta a Igreja todos aqueles que tinham se desviado da verdade do Evangelho. Porém, os eloqüentes sermões de São Domingos não conseguiam penetrar naqueles corações endurecidos e entregues a muitos vícios.
Domingos intensificou suas orações, aumentou suas penitências, porém pouco ou nada adiantaram seus esforços. As conversões eram raras e de efêmera duração. Vários, por pressão do ambiente, voltavam às práticas de seus erros.
Certo dia, São Domingos saiu de seu convento em Toulouse, no sul da França, decidido a obter de Deus as respostas para tantos fracassos. Entrou na floresta e entregou-se a oração e a penitência, disposto a não sair dali sem as devidas respostas.
Era ele muito devoto de Maria Santíssima e suas preces subiram até o trono do Altíssimo pelas mãos virginais da Mãe de Deus. Após três dias e três noites de incessante oração, quando as forças físicas já quase o abandonavam, apareceu-lhe a Virgem Maria, manifestando seu afeto maternal e sua grande predileção.
- Meu querido Domingos – disse-lhe Nossa Senhora com inefável suavidade – sabes de que meio se serviu a Santíssima Trindade para transformar o mundo?
- Senhora – respondeu São Domingos – vós sabeis melhor do que eu, porque depois de Vosso Filho Jesus Cristo, fostes vós o principal instrumento de nossa salvação.
- Eu te digo, então – continuou Maria Santíssima – que o instrumento mais importante foi à saudação angélica, ou a Ave Maria, que é o fundamento do Novo Testamento e portanto, se queres ganhar para Deus esses corações endurecidos, reza e propaga o meu Saltério (Minha Coroa de Rosas) .
São Domingos saiu dali com novo ânimo e imediatamente se dirigiu a Catedral de Toulouse para fazer uma pregação. Assim que Domingos começou a falar, nuvens espessas cobriram o céu e uma terrível tempestade abateu-se sobre a cidade.
São Domingos implorou a misericórdia de Deus e a proteção de Maria Santíssima, e por fim a tempestade acalmou, permitindo-lhe que falasse com toda a alma e todo o coração sobre as maravilhas do Rosário.
Os habitantes de Toulouse arrependeram-se de seus pecados, abandonaram seus erros e começaram a rezar o Rosário. Grande foi a mudança dos costumes na cidade.
Domingos tornou-se o Grande Apóstolo do rosário, e por meio do Rosário, Maria foi a verdadeira vencedora, pois ela reconduziu à fé católica todo aquele povo, salvando a França.
Foi São Domingos que compôs o cordão com as continhas, nas quais se rezavam Pais-Nossos e Ave-Marias, que são as orações evangélicas.
Encontrou-se com Francisco de Assis em Roma, quando ambos foram ao Papa pedir aprovação de suas ordens recém fundadas.
Domingos caminhou incansavelmente por toda a Europa, a pé, pregando a Evangelho, anunciando o Reino e propagando o Rosário.
São Domingos entregou sua Santa Vida ao Senhor no dia 06 de agosto de 1221, com a idade de 51 anos. No ano de 1234 foi canonizado pelo Papa Gragório IX. 

Oremos

Ó São Domingos, zeloso pregador do Evangelho, que sempre foste sensível diante das misérias alheias, estende até nós as promessas que fizeste aos que choravam a tua derradeira partida, de ajudar-nos lá dos céus com tuas preces.
Ó Deus, que fizestes resplandecer a Vossa Igreja com a obra da pregação de vosso servo São Domingos, concedeis a todos os homens os bens necessários para viveram dignamente, mas sobretudo, abundância de bens espirituais.

Amém
Paz e Bem!

http://marcioreiser.blogspot.com.br/2008/08/so-domingos-de-gusmo-08-de-agosto-o-1.html

Modo de Fazer Oração Mental, por Santo Afonso

  A meditação ou oração mental contém três partes: A Preparação A Meditação A Conclusão I. PREPARAÇÃO Na preparação fazem-se três atos: 1º A...