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terça-feira, 15 de março de 2016

Santa Luisa de Marillac



Fundou a Congregação das Irmãs Filhas da Caridade (1591-1660) 
Luísa nasceu em 12 de agosto de 1591, filha natural de Luís de Marillac, senhor de Ferrières, aparentado com a nobreza francesa, cujas posses permitiram dar à filha uma infância tranquila. A menina aos três anos foi para o Convento Real de Poissy, em Paris onde recebeu uma educação refinada, quer no plano espiritual, quer no humanístico. 

Porém, seu pai morreu quando ela tinha treze anos, sem deixar herança e, felizmente, nem dívidas. Nessas circunstâncias Luísa foi tirada do Convento, pela tia Valença, pois os Marillac não se dispuseram custear mais sua formação. Ela desejava dedicar sua vida à Deus, para cuidar dos pobres e doentes, mas agora com a escassez financeira teria de esperar para atingir esse objetivo. 

Durante dois anos viveu numa casa simples de moças custeando-se com trabalhos feitos em domicílio, especialmente bordados. Ela tentou ingressar no mosteiro das capuchinhas das Filhas da Paixão que acabavam de chegar em Paris, mas foi rejeitada pela aparência de saúde débil, imprópria para a vida de mosteiro. Depois disso, viu-se constrangida a aceitar um casamento que os tios lhe arranjara. Foi com Antonio de Gràs, que trabalhava como secretário da rainha. Com ele teve um filho, Miguel Antonio. Viveu feliz, pois o marido a respeitava e amava a família. E se orgulhava da esposa que nas horas vagas cuidava dos deveres de piedade, mortificando-se com jejuns frequentes, visitando os pobres, os hospitais e os asilos confortando a todos com seu socorro. Até que ele próprio foi acometido por grave e longa enfermidade e ela passou a se dedicar primeiro à ele sem abandonar os demais. Mas com isso novamente os problemas financeiros voltaram. 

Nesse período teve dois grandes conselheiros espirituais: Francisco de Sales e Vicente de Paulo, ambos depois declarados Santos pela Igreja. Foi graças à direção deles, que pôde superar e enfrentar os problemas que agitavam o seu cotidiano e a sua alma. Somente sua fé a manteve firme e graças à sua força, suplantou as adversidades, até o marido falecer, em 1625 e Miguel Antonio foi para o seminário. 

Só então Luísa pôde dedicar-se totalmente aos pobres, doentes e velhos. Isso ocorreu porque Vicente de Paulo teve a iluminação de coloca-la à frente das Confrarias da Caridade, as quais fundara para socorrer as paróquias da França, e que vinham definhando. Vicente encarregou-a de visita-las, reorganiza-las, enfim dinamiza-las, e ela o fez durante anos. 

Em 1634 Luísa, com ajuda e orientação de Vicente de Paulo, fundou a Congregação das Damas da Caridade, inicialmente com três senhoras da sociedade, mas esse núcleo se tornaria depois uma Congregação de Irmãs. Isso porque o serviço que estas Damas prestavam aos pobres era limitado pelos seus deveres familiares e sociais e pela falta de hábito aos trabalhos humildes e fatigantes. Era necessário colocar junto delas, pessoas generosas, livres e totalmente consagradas a Deus e aos pobres. Mas na Igreja não existiam porque a vida de consagração para as mulheres estava concebida apenas como vida de clausura. Então, Vicente e Luísa, em 1642 ousaram e, criam as Irmãs dos Pobres, as Filhas da Caridade, a quem foram confiados os doentes, os enjeitados, os velhos, os mendigos, os soldados feridos e os condenados às prisões. 

Nascia um novo tipo de Irmã, com uma missão inédita para aqueles tempos: uma vida consagrada em dispersão pelos caminhos do sofrimento humano, assim estava criada a Congregação das Irmãs Filhas da Caridade, em 1642. Na qual Luísa fez os votos perpétuos, sendo consagrada pelo próprio Vicente de Paulo. A obra, sob a direção dela foi notável. Quando Paris foi assolada pela guerra e peste, em 1652, as Irmãs chegaram a atender quatorze mil pessoas, de todas as categorias sociais, sendo inclusive as primeiras Irmãs a serem requisitadas para o atendimento dos soldados feridos, nos campos de batalhas. 

Luísa morreu em 15 de março de 1660. Foi beatificada em 1920, e canonizada pelo Papa Pio XI, em 1934. Suas relíquias repousam na Capela da Visitação da Casa Matriz das Irmãs da Caridade, em Paris, França. Santa Luísa de Marillac foi proclamada Padroeira das Obras Sociais e de todos os assistentes sociais, pelo Papa João XXIII, em 1960.




domingo, 6 de março de 2016

O fundamento da solidão

"Está verdadeiramente só quem está escancarado para o céu e para a terra e não está fechado para ninguém.

O Amor não é um problema, nem uma resposta a uma pergunta. O Amor não conhece nenhuma pergunta. Ele é a base de tudo, e as questões só surgem na medida em que estamos divididos, ausentes, separados, alienados desse fundamento.

Mas a natureza exata de nossa sociedade é provocar essa divisão, essa alienação, essa separação, essa ausência. Daí vivermos num mundo no qual, embora o entulhemos com nossas posses, nossos projetos, nossas explorações e nossas maquinarias, nós mesmos estamos ausentes. Daí vivermos num mundo no qual dizemos: ‘Deus está morto’, e dizemos isso, em certo sentido, com razão, por não sermos mais capazes de ter a experiência da verdade de estarmos completamente enraizados e fundamentados em Seu Amor.

Como podemos redescobrir essa verdade?"

sábado, 5 de março de 2016

Virtudes Cristãs

Virtude, do latim virtus, virtute, virtutis, de vir, viril, força, vigor; do grego, ρετή, arèté, arete, força; designa toda excelência própria de uma coisa, em todas as ordens de realidade e em todos os domínios. Segundo os dicionários, uma disposição constante, habitual ou firme da alma que levam o homem a praticar o bem ou a evitar o mal, equivalendo a uma força moral; Virtude é o conjunto de todas ou qualquer das boas qualidades morais; uma ação virtuosa; austeridade no viver; qualidade própria para produzir certos e determinados resultados; propriedade, eficácia; validade, força, vigor. A virtude caracteriza-se pela héxis ou habitus, que significa uma disposição para viver a virtude: é definida como uma maneira de ser adquirida. O latim traduziu héxis por habitus. A virtude só será héxis ou habitus se for retirado desse termo o caráter de disposição permanente e costumeira, mecânica, automática. Outra característica da virtude e a mediedade (mésotès), estar no meio, no equilíbrio; termo que remete ao termo médio de um silogismo e também à média ou medida, ou ao meio termo, que caracteriza a virtude. A virtude é uma disposição habitual e firme de fazer o bem. “O fim de uma vida virtuosa consiste em se tornar semelhante a Deus”, como escreveu Gregório de Nissa. Há virtudes sobrenaturais e virtudes humanas. Na Igreja Católica, a partir das Escrituras, e por antiga tradição patrística, a teologia distingue as virtudes sobrenaturais, que incluem as virtudes teologais e cardeais; e as virtudes humanas.
Virtude é uma disposição estável e firme em ordem a praticar o bem. A virtude revela mais do que uma simples potencialidade ou uma aptidão para uma determinada ação boa: trata-se de uma inclinação. Virtudes são todos os hábitos constantes que levam para o bem, quer pessoalmente, quer coletivamente. É uma disposição constante e habitual que leva a praticar o bem e evitar o mal. Denomina-se virtude o hábito operativo bom e vício o hábito operativo mau. Hábito é ação voluntária e livre que se repete conscientemente.
Na Igreja Primitiva, desde a Antiguidade cristã e até os nossos dias atuais, com base nas Escrituras e no conhecimento filosófico, as virtudes foram aprofundadas pelos Padres da Igreja e pelos místicos de forma impressionante e profunda. Essa busca pelo conhecimento das virtudes continua sendo uma fonte inesgotável de força para quem vive a espiritualidade e o desejo de crescimento no seguimento de Jesus. Antes mesmo do cristianismo, filósofos gregos e romanos estudaram e elucidaram quanto possível as virtudes, especialmente as que chamamos de virtudes cardeais. E ainda antes dos filósofos gregos e romanos da antiguidade conduzirem um estudo mais intelectual e prático, a mitologia grega e romana, assim como a egípcia, babilônica, persa, ou de outros povos relacionados com a tradição bíblica, já nomeavam e caracterizaram seus “deuses” com idéias estruturais arquetípicas primordiais da psicologia humana, que hoje quando comparados com o conhecimento da psique (alma), podem ser diretamente relacionados com muitas das virtudes humanas morais ou intelectuais.
Cristãos partiram de premissas desses estudos filosóficos e mitológicos, tendo acima de tudo fundamentado nas Escrituras Sagradas o seu empenho de conhecimento das virtudes, de maneira mística e ascética, espiritual e prática; classificaram todas as demais virtudes humanas, intelectuais e morais cristãs de diferentes formas, segundo as diferentes escolas de espiritualidade dentro da Igreja nos seqüentes períodos da história. As escolas de espiritualidade mais consistentes na Igreja, como por exemplo, a bíblica, a patrística, a medieval e a moderna, com tantas manifestações ou vertentes específicas particulares, elaboraram verdadeiros tratados sobre as virtudes e lançaram uma viva iluminação sobre os conceitos e a etimologia, a origem, as fontes, métodos, excelência, necessidade e divisão das virtudes, tanto no aspecto místico como prático.
As virtudes humanas adquiridas pela educação, por atos deliberados e por uma perseverança sempre retomada com esforço, além de ajudar profundamente na integração psicológica profunda, são purificadas e elevadas pela graça divina. Com o auxílio de Deus, forjam o caráter e facilitam a prática do bem. A pessoa virtuosa sente-se feliz em praticar as virtudes; sente-se também desejosa de conhecer sempre mais os meios e as capacitações necessárias para a prática delas. Não é fácil para a pessoa humana ferida pelo pecado manter o equilíbrio moral e psíquico. O dom da salvação trazida por Jesus concede a graça necessária para perseverar na conquista das virtudes. Cada um deve sempre pedir esta graça, recorrer aos sacramentos, cooperar com o Espírito Santo, seguir apelos de Deus de amar o bem e evitar o mal.
As virtudes, como disposições habituais, revestem a natureza de quem opera ou age, de tal modo que imprime na pessoa umaforça. Disso vem o termo virtude, que realiza melhor a perfeição que existe na natureza e torna melhor a operação de quem a possui. Por isso, a virtude torna melhor quem a possui e dispõe quem a possui para a boa operação. Mas o mesmo se diz do vício que, sendo um hábito mau, imprime na natureza de quem o possui uma má disposição, enquanto lhe priva de algum bem ou perfeição natural. Este hábito é de difícil remoção e cada vez mais pela força que adquire dificulta e até impossibilita a realização ou a aquisição de algum bem ou perfeição natural próprio ou que lhe convenha. Este hábito porque opera contra a natureza é antinatural. E porque este hábito se realiza mediante algum ato ou operação, diz-se que sua repetição torna pior o ato e, por sua vez, a natureza de quem possui este hábito mau.
A virtude aperfeiçoa quem a possui. De qualquer maneira, é mais fácil adquirir um hábito bom do que remover um hábito mau, justamente por causa da influência das paixões sobre o que é voluntário; e isso se confirma ao constatarmos que as paixões são iminentes e muito dependentes frente àquilo que as experiências sensíveis, rotineiramente, nelas causam inclinação ou aversão. São propriedades das virtudes: ser o justo meio termo entre o excesso e a deficiência; tornar a ação fácil e deleitável; relacionar-se com outras virtudes e com o fim último e não se verter em mal. As virtudes morais são adquiridas pela repetição dos atos. Regra que, também, vale e se aplica aos vícios. Neste sentido temos: o ato repetido gera o hábito e o hábito, segundo o bem ou o mal, gera ou a virtude ou o vício. E porque a ação humana pode ser a nível especulativo ou prático, há, por isso, os hábitos especulativos e os práticos e, do mesmo modo, as virtudes e os vícios especulativos e práticos.
Como regra geral, a importância das virtudes está em que elas tornam bom aquele que as possui e boa a obra que essa pessoa faz. O aspecto prático das virtudes nos aponta que além do aspecto teórico da sua conceituação, estritamente conexo com o sistema filosófico no qual se enquadra, a ética apresenta um aspecto prático de vivo e permanente interesse e necessidade: como formar e desenvolver as virtudes, para que nossa vida cristã seja verdadeiramente um testemunho vivo dos ensinamentos de Jesus Cristo.


Classificação das virtudes


As virtudes teologais são sobrenaturais e infusas: fé, esperança e caridade/amor.
As virtudes cardeais são gonzos nas quais se estabelecem todas as outras virtudes morais (naturais ou infusas) ou intelectuais(naturais ou infusas). As virtudes cardeais dão origem a muitas ramificações e visam diretamente à participação na vida de Deus, ou a um bem sobrenatural criado, como por exemplo, o domínio das paixões, e preparam a visão beatífica. Correspondem a todas as necessidades da alma e aperfeiçoam todas as suas qualidades morais e intelectuais. São estas as virtudes cardeais: a prudência, que é virtude racional por essência e se dispõe a aperfeiçoar a razão; ajustiça, que é racional por participação e dispõe ordenar a vontade; a fortaleza, que modera o impulso sensitivo irascível; e atemperança, que modera o impulso sensitivo concupiscível.
Todas as virtudes humanas, efetivamente, dependem diretamente das virtudes teologais, além de estar ligadas diretamente também a uma das virtudes cardeais. Todas as virtudes morais se dividem ou inserem aproximativamente por afinidade, dentro do âmbito de uma das quatro virtudes cardeais, por favorecer essa virtude ou dela depender, sendo que sobre estas quatro cardeais se fundam todas as demais virtudes cristãs; e todas as virtudes humanas interdependem umas das outras. Não se pode praticar ou viver uma virtude, sem que despertem todas as outras; e não se fere uma virtude, sem que as outras sejam atingidas também.
Todas as virtudes humanas se dividem também em virtudes morais (naturais ou infusas) e em virtudes intelectuais (naturais ou infusas). As virtudes morais, pelo hábito dos princípios da razão prática, adquirem ou realizam algum bem ou perfeição da vontade e dos apetites sensíveis que são: concupiscível e irascível; as virtudes intelectuais, pelo hábito dos princípios da razão teórica, adquirem ou realizam algum bem ou perfeição do intelecto. As virtudes intelectuais se dividem em especulativas e práticas. A virtude intelectual especulativa inclina o intelecto perfeitamente para averdade universal. O intelecto, hábito dos primeiros princípios especulativos, orienta a pessoa para a verdade, evitando o erro e o engano. A sindéresis, verdade absoluta, como capacidade da pessoa de entender retamente as coisas, hábito dos primeiros princípios práticos, inclina para a busca do bem, justamente na medida em que evita o mal. A sabedoria, como hábito de considerar a realidade por sua causalidade última, na medida que não procura o conhecimento das coisas por si mesmas, mas por aquilo que elas indicam para além de si mesmas, transcende o intelecto e a sidéresis. A virtude intelectual prática inclina o intelecto para o reto juízo, aqui e agora, acerca da ação particular. São virtudes intelectuais práticas a arte, a reta razão do fazer; e a prudência, a reta razão do agir.
Os sete pecados capitais, como tendências e impulsos que podem levar a pessoa ao pecado grave, chamados assim porque são fonte e cabeça (cápite, em latim) de muitos pecados, precisam ser enfrentados, contrariados, opostos e vencidos. Para isso existe também outro tipo de organização das virtudes, que é baseada nas chamadas sete virtudes capitais. Para cada pecado capital existe uma virtude de poderosa capacitação no processo de vencer o pecado dominante: soberba/orgulho: humildade; avareza:generosidade; luxúria: castidade; ira: paciência; gula: temperança; inveja: caridade/amor; preguiça: operosidade. Para vencer todas as tentações humanas temos sempre o auxílio das virtudes, segundo cada circunstância.
Além destas, muitas outras virtudes são englobadas por determinados enfoques. Um exemplo seriam os dons e frutos do Espírito Santo, que são também e ao mesmo tempo virtudes; quanto mais aprofundados à luz das Escrituras Sagradas, mais podem iluminar e orientar a vida dos cristãos. Outros exemplos seriam as bem-aventuranças (pobreza, sofrimento, mansidão, fome de justiça, misericórdia, pacificidade, sofrimento por causa da perseguição), e os conselhos evangélicos (castidade, pobreza e obediência), que podem ser aprofundados também como virtudes profundamente essenciais para a vida mais conforme aos próprios ensinamentos de Jesus. Existem também outras bem-aventuranças bíblicas que são puras virtudes. As obras de misericórdia, tanto corporais como espirituais, estão revestidas profundamente da caridade/amor, e pedem consigo todas as demais virtudes. Junto a cada um dos Mandamentos de Deus ou aos Preceitos da Igreja está também uma ou mais virtudes anexas, para corroborar e sustentar o mandamento e o seu cumprimento no amor. Os próprios Sacramentos nos lembram e tornam atuante a graça santificante em nossa existência nas diversas fases da vida, fazendo desabrochar as potencialidades e as disposições das virtudes que farão florescer plenamente a graça dos próprios Sacramentos. A própria natureza da vida cristã, a inabitação da Santíssima Trindade, o relacionamento com Jesus, com o Pai e com o Espírito, com Maria, com os Anjos, com as Santas e com Santos da Igreja, nos oferece uma perspectiva luminosa da graça e do progresso na vida espiritual e na santificação, através das virtudes, como luta contra os inimigos espirituais: contra a tríplice concupiscência, contra o mundo e contra o demônio. Quando pensamos nos novíssimos, somente a perspectiva de uma vida na virtude confere a esperança escatológica, e a luz necessária para compreender bem os ensinamentos da Igreja quanto a essas verdades de fé. Os princípios da vida ascética: vida natural e sobrenatural; queda, castigo, redenção e efeitos; apontam diretamente para a necessidade e para a importância da consciência e da prática das virtudes. O próprio estudo das virtudes é reconhecido na teologia dentro do âmbito da ascese e da mística cristã. Os pecados contra o Espírito Santo encontram a força e a coragem de seu afastamento completo na virtude da Fé principalmente, mas também em todas as demais virtudes teologais e cardeais. Se nos colocamos diante da proposição de uma vida de aprofundamento na espiritualidade e na oração, necessitamos do conhecimento e da prática de todas as virtudes: por isso fala-se do aspecto místico e prático das virtudes. O próprio estudo dos temperamentos humanos, e mais amplamente o aprofundamento no âmbito da psicologia, com o uso de terapias psicológicas, está crivado pela presença e exigência do direcionamento na compreensão e na prática de virtudes humanas, sejam morais ou intelectuais, orientando para os meios, o desejo e a realização de uma vida mais conforme a retidão da busca do bem. Esta mesma realidade integralmente se aplica ainda mais à orientação espiritual e à formação cristã; e também à prática da meditação e da contemplação, e à organização da vida cristã em si; que são meios externos eficazes para crescer nas virtudes cristãs, quando voltados retamente ao fim que se destinam, ou seja, à santificação dos cristãos. Quanto aos meios internos que ajudam alguém a crescer no caminho da santificação: o desejo de perfeição, o conhecimento de Deus e de si, a conformidade com a vontade divina e a oração, sempre e de muitos modos, encontram-se permeados pela presença das virtudes. De todas as maneiras nossa vida cristã está revestida e envolvida pelas virtudes.

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Santa Inês de Boêmia

Inês viveu e morreu em Praga, mas já em vida sua fama se difundiu por toda a Europa. Há 700 anos vem sendo invocada pelos habitantes de Praga e pelo povo tcheco como sua padroeira. E ela é realmente uma das figuras mais nobres daquele povo. A vida de Inês foi tão extraordinária quanto sua personalidade.
Filha do rei da Boemia, Premysl Otokar I, e de Constança da Hungria, nasceu em 1211. Por parte do pai descendia da famosa estirpe dos santos boêmios, Ludmila e Venceslau; Santa Edviges da Silésia era sua tia-avó, Santa Isabel da Hungria sua prima e Santa Margarida da Hungria sua sobrinha.
Com sua irmã mais velha, Ana, aos três anos foi enviada para o Mosteiro Cisterciense de Trzebnica, onde Santa Edviges lhe ensinou as verdades fundamentais da fé, as primeiras orações e a formou na vida cristã. Três anos depois retornou a Praga e foi recebida pelas monjas premonstratenses de Doksany, onde aprendeu a ler e escrever.
Em 1220, tendo sido prometida como esposa a Henrique VII, rei da Sicília e da Alemanha, filho do Imperador Frederico II o Barbaruiva, Inês foi conduzida para a corte de Viena onde deveria completar sua educação de futura imperatriz. Ali viveu até 1225, sempre fiel aos princípios e aos deveres da moral católica: dava muitas esmolas, se mortificava com jejuns e se consagrou a Mãe de Deus, desejando manter sua virgindade. O pacto de casamento tendo sido então rescindido, Inês voltou para Praga onde pôde se dedicar a uma vida de oração e de obras de caridade mais intensa.
Chegaram à corte de Praga novas propostas de casamento para a jovem princesa boêmia: a do rei inglês Henrique III e a do Imperador Frederico II que enviuvara. Mas ambas foram recusadas. O Papa Gregório IX, a quem Inês tinha pedido proteção, interveio reconhecendo o voto de castidade da princesa, que assim conquistou a liberdade de se consagrar a Deus. A notícia da recusa se propagou por toda Europa causando grande admiração.
Entrementes chegaram a Praga alguns nobres que retornavam da Itália trazendo notícias de São Francisco e da nova Ordem de Santa Clara. Ao tomar conhecimento da vida angélica de Santa Clara, Inês desejou imitar a todo custo o seu exemplo. Desfez-se de todas as joias, adornos e vestidos preciosos e distribuiu aos pobres o valor que arrecadou.
Com seus próprios recursos fundou em Praga, entre 1232 e 1233, o hospital de São Francisco para os pobres, e confiou-o à direção de um sodalício fundado por ela, a Ordem dos Crucíferos da Estrela Vermelha, que se tornou mais tarde de Cônegos Regulares (cf. Annuario Pontificio 1981, pág. 1.207), obra que ainda hoje existe.
Ao mesmo tempo fundou o mosteiro de São Francisco para as Irmãs Pobres (Damianas ou Clarissas) em Praga, nas margens do Moldava, no bairro que ainda leva o nome de São Francisco. Santa Clara enviou cinco Irmãs do mosteiro de Trento para auxiliar na nova fundação. Cinco jovens, filhas das principais famílias de Praga, se juntaram a elas.
Inês professou solenemente no mosteiro por ela fundado no dia de Pentecostes de 1234. Foi eleita Abadessa pouco tempo depois, cargo que exerceu com humildade e caridade, com sabedoria e zelo, considerando-se sempre como “a irmã mais velha” das monjas sob sua autoridade.
Santa Clara enviou a ela uma carta em que se alegrava com sua fama “conhecida não apenas por ela, mas por quase todo o mundo“, e a elogiava com entusiasmo por ter preferido o desponsório com Cristo a todas as honras do mundo, escolhendo de todo coração “a santíssima pobreza e as dores corporais”, para se converter em esposa “do mais nobre Esposo” (Carta I).
Entre Santa Clara e Santa Inês nasceu uma amizade profunda, embora nunca tivessem podido se encontrar. Santa Clara enviou-lhe quatro belíssimas cartas onde expressava o afeto que dedicava a Inês, a quem chamou “metade da sua alma”. Ela também presenteou Inês com uma cruz de madeira, um véu de linho e uma vasilha de barro.
Seguindo o estilo de vida austera de São Francisco e de Santa Clara, Inês viveria no mosteiro mais de 40 anos. Como Santa Clara no Mosteiro de São Damião, Santa Inês renunciou às rendas, preferindo que o mosteiro vivesse só de esmolas, mas esta restrição só foi aprovada por Inocêncio IV (1243-1254). Inês inclusive renunciou aos seus direitos sobre o hospital que havia fundado, e que poderia abastecer seu mosteiro com o alimento necessário. Ela afirmou “preferir sofrer indigência e miséria a renunciar a pobreza de Cristo”.
A entrada de Inês no mosteiro causou admiração em toda Europa, e todos aqueles que entravam em contato com ela davam testemunho de suas virtudes, como também são concordes as memórias biográficas. Sua devoção se exprimia de modo particular no fervor com que ela adorava o mistério da Eucaristia e da Cruz do Senhor, além da devoção a Nossa Senhora contemplada no mistério da Anunciação.
Sua devoção a Nosso Senhor na Eucaristia propagou-se pelos outros mosteiros da Ordem e incentivou o desejo da comunhão diária. Graças ao exemplo de Inês, sucederam-se fundações de outros mosteiros da mesma Ordem na Boêmia, Polônia e em outros países. O amor ao próximo não esmoreceu em seu coração generoso após a fundação do hospital. Assistia as Irmãs enfermas, cuidava dos leprosos, socorria também pessoas com doenças contagiosas.
Amou a Igreja Católica intensamente e implorava a Deus os dons da perseverança na fé e na caridade cristã para seus filhos. Colaborou com os papas de seu tempo, atendendo às solicitações de orações que faziam, e intermediando junto aos soberanos boêmios, seus familiares, em negociações para o bem da Igreja. Ela nutriu sempre um amor profundo por sua pátria, que beneficiou com obras de caridade individuais e sociais. Com a sabedoria de seus conselhos evitou conflitos de toda sorte e promoveu a fidelidade de seu país à religião católica.
O Senhor a cumulou de muitas graças: êxtases, profecia, intuição e vários milagres. Predisse que seu irmão Venceslau venceria o Duque d’Áustria. No dia 26 de agosto de 1278, durante o Ofício de Vésperas, em uma visão tomou conhecimento da morte trágica do sobrinho nesse mesmo dia na batalha de Morasvke Pole. Após a morte de Premysl Otakar II a Boêmia foi ocupada por exércitos estrangeiros, reinou a desordem e a violência; o povo morria de fome e de peste, e na porta das Clarissas, cuja despensa estava vazia, se amontoavam moribundos famintos em busca de ajuda. Santa Inês suportou com paciência inalterada a dor que a afligia, bem como a toda família real e a Boêmia diante de todos esses fatos trágicos.
Foi em meio a todos esses horrores que Santa Inês morreu. Em 2 de março de 1282 sua longa existência de quase 80 anos terminou santamente no seu mosteiro, confortada pelo afeto das monjas e dos Frades Menores que a assistiam. Seus funerais foram acompanhados pelo Ministro Geral dos Frades Menores, Padre Bonagrazia.
Numerosos milagres foram atribuídos à intercessão da princesa morta, mas o culto tributado a ela desde sua morte só teve reconhecimento papal em 28 de novembro de 1874, com o decreto de beatificação promulgado pelo Beato Pio IX. João Paulo II a canonizou em 12 de novembro de 1989 na Basílica Vaticana. Seus restos mortais, sepultados na igreja do mosteiro, até hoje são venerados pelos fiéis.

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sábado, 27 de fevereiro de 2016

A arte de sofrer bem

A paciência – para dizê-lo em poucas palavras- é a capacidade de sofrer dignamente, a arte de “sofrer bem”. Seu ponto alto consiste em saber sofrer serenamente, generosamente e sem queixas, por amor a alguém. Esta é a virtude humana da paciência.
Quando essa virtude é praticada por um bom cristão, movido pelo Espírito Santo, pode-se definir como a arte de sofrer com fé e esperança em Deus e, sobretudo, com muito amor a Deus e ao próximo. Esta é a virtude cristã ou sobrenatural da paciência.
Vamos ver a seguir dois belos exemplos de cada uma dessas duas “paciências”. Ambos são narrados pelo professor de psiquiatria da Universidade de Madrid e escritor J. A. Vallejo-Nágera, no seu livro Concierto para instrumentos desafinados. Trata-se de algumas das muitas recordações que o médico registra como “momentos do coração” no seu trabalho diário.
O tradutor
O primeiro caso é a história de um tradutor diplomado. Foi-lhe diagnosticado um câncer de pulmão, e simultaneamente deram-lhe a notícia de que lhe restavam poucos meses de vida. Homem sem fé, procurou no psiquiatra as soluções que não sabia buscar em Deus. Pensava na esposa, que amava muito, e tremia ante a possibilidade de fazê-la sofrer:
- «Temo que me falte coragem e serenidade, e que assim amargure os nossos últimos meses de convívio. Fisicamente, creio que posso agüentar; só temo falhar psicologicamente. Foi por isso que vim, doutor, para ter uma orientação técnica, um ponto de apoio, e poder dissimular até o final ou fingir que não sofro. Quando a minha mulher ficar sabendo do câncer, se ela julgar que eu não estou sofrendo, conseguirei pelo menos aliviar-lhe este calvário que não lhe posso evitar».
Causa uma certa pena esse sofrimento pendurado no vazio de um bom coração que não conhece a Deus. Mas, sem dúvida alguma, havia uma enorme grandeza nesse seu desejo de ser autenticamente paciente, de saber “sofrer bem”. Esse homem bom, justamente porque tinha muito amor à esposa, estava procurando forças humanas para conseguir que esse seu amor por ela, a quem queria poupar, lhe ensinasse a sofrer “bem”.
O padre humilde
O segundo caso é diferente. Trata-se de um padre cheio de fé, que procurava também no psiquiatra um conselho para sofrer melhor. O médico narrador conta-nos que era um padre humilde, «tão insignificante que nem sequer era ridículo». Tinha dedicado a vida, até aos sessenta e tantos anos, à sua tarefa de bom pastor das almas, especialmente cuidando das doenças espirituais no confessionário.
Desde fazia algum tempo, tinha-se-lhe manifestado uma depressão endógena grave – assim a qualifica e descreve o especialista -, com as suas seqüelas mórbidas e características de tristeza, desconsolo, remorso, pessimismo esmagador e perda do desejo de viver.
O sofrimento era grande. Mas, nesse caso, o médico comoveu-se profundamente porque o paciente não parecia querer consolo, nem compaixão, nem alívio do sofrimento em si. «Não parecia muito interessado – esclarece o psiquiatra – no alívio do tormento… Que queria, então? Queria continuar a amar».
- «Até agora – dizia o padre ao doutor -, tenho levado uma vida sem pena nem glória. A Glória, eu a espero para depois, no Céu, e sei que é preciso adquiri-la por meio da pena.
«Recebi com gratidão o fato de Deus me ter enviado no final da vida a minha cruz; estava até desejando ter uma para poder carregá-la junto com Jesus. Bendigo, por isso, a Deus todos os dias, por se ter lembrado de mim no final, quando já me resta muito pouco tempo de vida e parecia ter perdido qualquer oportunidade de ganhar alguns méritos.
«Mas estou notando que agora, no confessionário, na direção espiritual, não sinto as coisas como antes, como ao longo de toda a minha vida, com entusiasmo por ajudar, com esse carinho espontâneo cheio de afetuosa ansiedade, cheio da necessidade de aliviar os que recorrem a mim. Consigo dar conselhos porque o cérebro funciona, mas não os sinto com o coração, e isso soa-me a nota falsa, artificial, e assim não posso consolar os meus fiéis como antes.
«Nunca me tinha acontecido isso, tem que ser uma doença. É o que lhe peço que me cure, doutor: a doença. O resto irá passando com o tempo, e, se não, louvado seja Deus!».
Esta história é verdadeiramente comovente! Toda ela é um clarão de luz sobre a virtude da paciência. Aquele padre zeloso, desprendido e humilde, sentia-se muito doído e confuso, não por estar sofrendo – coisa que aceitava por amor a Deus -, mas porque o sofrimento causado pela doença lhe tornava difícil manter a vibração da alma e transmitir conforto, ânimo e alegria aos seus penitentes.
Vale a pena meditar um pouco sobre isso, e perguntarmo-nos:
- E eu? Como é que encaro os meus sofrimentos, as minhas contrariedades? Será que o meu amor a Deus e ao próximo é mais forte do que a minha dor, ou, pelo contrário, a contrariedade me derruba e me torna um peso para os outros?
- Será que a minha fé e o meu amor me levam abraçar com espírito cristão as cruzes da vida, desejando sinceramente esquecer-me de mim mesmo, de todo e qualquer egoísmo, de modo que só reze e lute para que os meus problemas não caiam sobre os outros como um fardo, não os atormentem nem os entristeçam?
[Adaptação de um trecho do livro de F.Faus: A paciência]

http://www.padrefaus.org/archives/585

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Estado miserável dos que recaem no pecado


Et fiunt novissima hominis illius peiora prioribus — “E o último estado daquele homem virá a ser pior do que o primeiro” (Luc. 11, 26).


Sumário. Meu irmão, já que resolveste dar-te todo a Deus, e já o executaste, não creias que as tentações tenham terminado. Antes, mais do que nunca, prepara-te para travar combate com o demônio, que, como diz Jesus Cristo, buscando repouso e não o achando, redobra os esforços para tornar a entrar na alma donde foi expulso. Desgraçado de quem torna a cair depois de ser levantado! Irá enfraquecendo cada vez mais; Deus retirará a sua mão com as graças; e assim o fim de tal homem será pior do que o princípio.

I. Meu irmão, já que resolveste dar-te todo a Deus, e assim o executaste, não acrediteis que se tenham acabado as tentações. Escuta o que te diz Jesus Cristo no Evangelho de hoje: “Quando o espírito imundo saiu do homem, anda por lugares desertos, buscando repouso; e não a achando, diz: Voltarei para a casa donde saí. E quando chega, acha-a varrida e adornada. Vai então, e toma consigo outro sete espírito piores do que ele, e, entrando na casa, fazem nela habitação. E o último estado daquele homem virá a ser pior do que o primeiro”.

Com isto o Senhor nos quer dizer que, quanto mais uma alma procura unir-se a Deus e servi-Lo, tanto mais contra ele se enfurece o inimigo, e procura entrar na alma donde foi desterrado. Se o consegue, não entra mais sozinho, mas traz companheiros consigo, para melhor se aquartelar, e assim a segunda ruína da mísera alma será pior do que a primeira.

Diz Santo Tomás que todo o pecado, ainda que tenha sido perdoado, deixa sempre a ferida causada pela culpa. Se portanto se junta outra ferida à antiga, fica a alma tão enfraquecida, que para se levantar precisará de uma graça especial. Por outra parte, Deus não concederá facilmente semelhante graça a um ingrato, que, depois de ser chamado com tão grande amor, e admitido à sua amizade, depois de assentar-se à Mesa eucarística para se alimentar com o Corpo sagrado de Jesus, esquecendo-se de todas estas misericórdias divinas, se revolta contra Ele e Lhe prefere o demônio. Ah! O Senhor fica em extremo sensibilizado com tamanha ingratidão, e por isso: Fiunt novissima hominis illius peiora prioribus — “O último estado daquele homem virá a ser pior do que o primeiro”.

II. Ai daquele que, sendo amigo de Deus e tendo recebido muitas graças, torna a cair e se declarar seu inimigo e escravo do demônio! — Irmão meu, a fim de que te não suceda tamanha desgraça, esforça-te de toda a maneira por ficares constante na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a tentação (1). Examina novamente a tua consciência; estuda todas as tuas paixões, especialmente a que no passado tenha sido a tua paixão dominante. Quando sentires que as inclinações más tornam a brotar em tua alma, procura abatê-las depressa pelos meios que o teu confessor te indicar, antes que ganhem força; no caso contrário serão os teus mais formidáveis inimigos.

A arma principal, porém, de que te deves servir, é a oração, porque o espírito imundo é um campeão armado, mais robusto do que tu, e que além de uma longa experiência tem a inteligência e a força de anjo. Numa palavra, lembra-te que quem na tentação ora e se recomenda a Deus, certamente será vencedor; e quem não ora, será vencido e se condenará.

Ó Jesus, meu Redentor, pelos merecimentos de vosso sangue espero que já me haveis perdoado as ofensas que Vos fiz, e que irei agradecer-Vos eternamente no paraíso. Vejo que no passado caí e recaí miseravelmente, porque me descuidei de recorrer a Vós. Agora peço-Vos a santa perseverança e proponho pedi-la sempre, especialmente quando me vir tentado. Mas de que me valerá esta minha resolução, se Vós não me derdes a força para cumpri-la? Rogo-Vos pelos merecimentos de vossa paixão, me concedais a graça de recorrer a Vós em todas as minhas necessidades. — “Dignai-Vos, ó Deus todo-poderoso, atender às minhas humildes súplicas, e estender em minha defesa o braço da vossa majestade” (2). Fazei-o pelo amor de vossa e minha queria Mãe Maria. (*III 431)
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1. Ecclus. 2, 1.
2. Or. Dom. curr.

(Santo Afonso Maria de Ligório. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Primeiro: Desde o primeiro Domingo do Advento até Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 337-339.)

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sábado, 20 de fevereiro de 2016

A Importância das leituras espirituais, por São João Bosco.


Além das costumadas orações de manhã e da noite, peço-vos que destineis também um pouco de tempo á leitura de algum livro, que trate de coisas espirituais, como o livro da Imitação de Cristo, A Filotéia de São Francisco de Sales, A preparação para a Morte de Santo Afonso Maria de Ligório, Jesus ao coração do Jovem, as vidas dos santos e outros semelhantes.Da leitura de tais livros tirareis grandes vantagens para a vossa alma.E se repetirdes aos outros o que lerdes ou então se lerdes em presença deles, especialmente dos que não souberem ler, fareis uma obra de caridade muito meritória perante Deus.

Mas ao mesmo tempo que vos inculco as boas leituras, tenho que recomendar-vos, com todas as veras de minha alma, que fujais como da peste dos maus livros e da má imprensa.Por isso, todo livro, todo jornal ou folheto em que se fale mal da religião e de seus ministros ou em que haja coisas imorais e desonestas, lançai-os logo para longe de vós, como farias com um copo de veneno.Em tais casos deveis imitar os cristãos de Éfeso, quando ouviram São Paulo pregar sobre o dano que causaram os maus livros.Aqueles fervorosos fiéis carregaram-nos as braçadas para a praça pública e com eles fizeram uma fogueira, achando melhor queimar todos os livros do mundo do que expor a alma ao perigo de cair no fogo inextinguível do inferno.


Assim como o nosso corpo sem alimento adoece e morre, da mesma forma a nossa alma definha, se não lhe dermos o seu alimento: o alimento da alma é a palavra de Deus, isto é, as práticas, a explicação do Evangelho e o Catecismo.Fazei pois toda diligência em estardes em tempo na igreja, e portai-vos nela com a maior atenção aplicando a vós mesmos as coisas que se relacionam com vosso estado.Recomendo-vos também muito que freqüenteis o catecismo.Não digais: Já o estudei, já fiz a primeira comunhão; pois que também nesse caso a vossa alma precisa de alimento, como vosso corpo.E se a privais deste sustento, vos poreis em gravíssimo perigo espiritual.Tomai também cuidado para não cairdes naquele ardil do demônio, quando o sugere esse pensamento: Isto convém muito ao meu companheiro Pedro; isto serve para Paulo.Não meus caros; o pregador fala a todos e a sua intenção é aplicar a todos as verdades que está explicando.Por outro lado, lembrai-vos que o que não serve para corrigir-vos de coisas passadas, pode servir para preservar-vos de algum pecado no futuro.

Ao ouvirdes algum, procurai recordá-lo e durante o dia e especialmente à noite antes de deitar-vos recolhei-vos um pouco para refletir sobre o que ouviste.Se assim fizerdes tirareis grande vantagem para a vossa alma.
Recomendo-vos também que façais todo o possível esses vossos deveres religiosos nas vossas paróquias, sendo o vosso pároco especialmente destinado por Deus para cuidar de vossas almas.

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A oração

A oração é necessária para a vida espiritual: é a respiração que permite que a vida do espírito se desenvolva, e atualiza a fé na presença de Deus e de seu amor.

1. O que é a oração [1]
Em português conta-se com dois vocábulos para designar a relação consciente e coloquial do homem com Deus: prece e oração. A palavra “prece" provem do verbo latino precor, que significa rogar, ir a alguém solicitando um benefício. O termo “oração" provem do substantivo latino oratio, que significa fala, discurso, linguagem.
As definições que se dão da oração costumam refletir estas diferenças de matiz que acabamos de encontrar ao aludir à terminologia. Por exemplo, São João Damasceno, considera-a como «a elevação da alma a Deus e a petição de bens convenientes»[2]; enquanto para São João Clímaco trata-se mais de uma «conversa familiar e união do homem com Deus»[3].
A oração é absolutamente necessária para a vida espiritual. É como a respiração que permite que a vida do espírito se desenvolva. Na oração atualiza-se a fé na presença de Deus e de seu amor. Fomenta-se a esperança que leva a orientar a vida para Ele e a confiar em sua providência. E se engrandece o coração ao responder com o próprio amor ao Amor divino.
Na oração, a alma, conduzida pelo Espírito Santo a partir do mais fundo de si mesma (cfr. Catecismo, 2562), une-se a Cristo, mestre, modelo e caminho de toda oração cristã (cfr. Catecismo, 2599 ss.), e com Cristo, por Cristo e em Cristo, dirige-se a Deus Pai, participando da riqueza do viver trinitário (cfr.Catecismo, 2559-2564). Daí a importância que na vida de oração tem a Liturgia e, em seu centro, a Eucaristia.
2. Conteúdos da oração
Os conteúdos da oração, como os de todo diálogo de amor, podem ser múltiplos e variados. Cabe, no entanto, destacar alguns especialmente significativos:
Petição.
É frequente a referência à oração impetratória ao longo de toda a Sagrada Escritura; também nos lábios de Jesus, que não só vai a ela, mas que convida a pedir, encarecendo o valor e a importância de uma prece singela e confiada. A tradição cristã reiterou esse convite, pondo-a em prática de muitas maneiras: petição de perdão, petição pela própria salvação e pela dos demais, petição pela Igreja e pelo apostolado, petição pelas mais variadas necessidades, etc.
De fato, a oração de petição faz parte da experiência religiosa universal. O reconhecimento, ainda que em ocasiões difusas, da realidade de Deus (ou mais genericamente de um ser superior), provoca a tendência a dirigir-se a Ele, solicitando sua proteção e sua ajuda. Certamente a oração não se esgota na prece, mas a petição é manifestação decisiva da oração assim como reconhecimento e expressão da condição criada do ser humano e de sua dependência absoluta de um Deus cujo amor a fé nos dá conhecer de maneira plena (cfr. Catecismo, 2629.2635).
Ação de graças.
O reconhecimento dos bens recebidos e, através deles, da magnificência e misericórdia divinas, impulsiona a dirigir o espírito a Deus para proclamar e lhe agradecer seus benefícios. A atitude de ação de graças cheia desde o princípio até o fim a Sagrada Escritura e a história da espiritualidade. Uma e outra põem de manifesto que, quando essa atitude arraiga na alma, dá lugar a um processo que leva a reconhecer como dom divino todos os acontecimentos, não somente aquelas realidades que a experiência imediata acredita como gratificantes, mas também as aparentemente negativas ou adversas.
Consciente de que o acontecer está situado sob o desígnio amoroso de Deus, o fiel sabe que tudo redunda no bem de quem –a cada homem– é objeto do amor divino (cfr. Rm 8, 28). « Habitua-te a elevar o coração a Deus em ação de graças, muitas vezes ao dia. - Porque te dá isto e aquilo. - Porque te desprezaram. - Porque não tens o que precisas, ou porque o tens. Porque fez tão formosa a sua Mãe, que é também tua Mãe. - Porque criou o Sol e a Lua e este animal e aquela planta. - Porque fez aquele homem eloquente e a ti te fez difícil de palavra... Dá-Lhe graças por tudo, porque tudo é bom. »[4].
Adoração e louvor.
É parte essencial da oração, reconhecer e proclamar a grandeza de Deus, a plenitude de seu ser, a infinitude de sua bondade e de seu amor. Ao louvor pode-se desembocar a partir da consideração da beleza e magnitude do universo, como acontece em múltiplos textos bíblicos (cfr., por exemplo, Sal19; Se 42, 15-25; Dn 3, 32-90) e em numerosas orações da tradição cristã[5]; ou a partir das obras grandes e maravilhosas que Deus opera na história da salvação, como ocorre no Magnificat (Lc 1, 46-55) ou nos grandes hinos paulinos (ver, por exemplo, Ef 1, 3-14); ou de fatos pequenos e inclusive miúdos nos que se manifesta o amor de Deus.
Em todo caso, o que caracteriza o louvor é que nele o olhar vai diretamente a Deus mesmo, tal e como é em si, em sua perfeição ilimitada e infinita. «O louvor é a forma de oração que reconhece o mais imediata­mente possível que Deus é Deus! Canta-o pelo que Ele mes­mo é, dá-lhe glória, mais do que pelo que Ele faz, por aquilo que Ele É » (Catecismo, 2639). Está, por isso, intimamente unida à adoração, ao reconhecimento, não só intelectual, mas existencial, da pequenez de tudo criado em comparação com o Criador e, em consequência, à humildade, à aceitação da indignidade pessoal ante quem nos transcende até o infinito; à maravilha que causa o fato de que esse Deus, ao que os anjos e o universo inteiro rendem homenagem, se dignou não só a fixar seu olhar no homem, mas habitar no homem; mais ainda, a se encarnar.
Adoração, louvor, petição, ação de graças resumem as disposições de fundo que informam a totalidade do diálogo entre o homem e Deus. Seja qual for o conteúdo concreto da oração, quem reza o faz sempre, de uma forma ou de outra, explícita ou implicitamente, adorando, louvando, suplicando, implorando ou dando graças a esse Deus ao qual reverencia, ao qual ama e no qual confia. Importa reiterar, ao mesmo tempo, que os conteúdos concretos da oração poderão ser muito variados. Em ocasiões se irá à oração para considerar passagens da Escritura, para aprofundar em alguma verdade cristã, para reviver a vida de Cristo, para sentir a proximidade de Santa Maria... Em outras, iniciará a partir da própria vida para participar a Deus das alegrias e os afãs, dos sonhos e os problemas que o existir comporta; ou para encontrar apoio ou consolo; ou para examinar ante Deus o próprio comportamento e chegar a propósitos e decisões; ou mais singelamente para comentar com quem sabemos que nos ama as incidências da jornada.
Encontro entre o que crê e Deus em quem se apóia e pelo que se sabe amado, a oração pode versar sobre a totalidade das incidências que conformam o existir, e sobre a totalidade dos sentimentos que pode experimentar o coração. « Escreveste-me: “Orar é falar com Deus. Mas de quê?" - De quê? DEle e de ti: alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias..., fraquezas!; e ações de graças e pedidos; e Amor e desagravo. Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te - ganhar intimidade!"»[6]. Seguindo uma e outra via, a oração será sempre um encontro íntimo e filial entre o homem e Deus, que fomentará o sentido da proximidade divina e conduzirá a viver a cada dia da existência de cara a Deus.
3. Expressões ou formas da oração
Atendendo aos modos ou formas de manifestar-se a oração, os autores costumam oferecer diversas distinções: oração vocal e oração mental; oração pública e oração privada; oração predominantemente intelectual ou reflexiva e oração afetiva; oração regrada e oração espontânea, etc. Em outras ocasiões os autores tentam esboçar uma gradação na intensidade da oração, distinguindo entre oração mental, oração afetiva, oração de quietude, contemplação, oração unitiva...
O Catecismo estrutura sua exposição distinguindo entre: oração vocal, meditação e oração de contemplação. As três «tem um traço fundamental comumo recolhimento do coração. Esta atenção em guardar a Palavra e permanecer na presença de Deus faz destas três expressões tempos fortes da vida de oração» (Catecismo, 2699). Uma análise do texto evidencia, pelo contexto, que o Catecismo ao empregar essa terminologia não faz referência a três graus da vida de oração, mas duas vias: a oração vocal e a meditação, apresentando ambas como aptas para conduzir a esse cume na vida de oração que é a contemplação. Em nossa exposição nos ateremos a este esquema.
Oração vocal
A expressão “oração vocal" aponta a uma oração que se expressa vocalmente, isto é, mediante palavras articuladas ou pronunciadas. Esta primeira aproximação, ainda sendo exata, não vai ao fundo do assunto. Pois, por um lado, todo dialogar interior, ainda que possa ser qualificado como exclusiva ou predominantemente mental, faz referência, no ser humano, à linguagem; e, em ocasiões, à linguagem articulada em voz alta, também na intimidade da própria estância. Por outro lado, deve-se afirmar que a oração vocal não é assunto só de palavras, mas sobretudo de pensamento e de coração. Daí que seja mais exato sustentar que a oração vocal é a que se faz utilizando fórmulas pré-estabelecidas tanto longas como breves (jaculatórias), tomadas da Sagrada Escritura (o Pai Nosso, ou a Ave Maria...), ou tomadas da tradição espiritual (o Veni Sancte Spiritus, a Salve, o Lembrai-vos...).
Tudo isso, como é óbvio, com a condição de que as expressões ou fórmulas recitadas vocalmente sejam verdadeira oração, isto é, que cumpram com o requisito de que quem as recita o faça não só com a boca mas com a mente e o coração. Se essa devoção faltasse, se não tivesse consciência de quem é Aquele a que a oração se dirige, de que é o que na oração se diz e de quem é aquele que a diz, então, como afirma com expressão gráfica Santa Teresa de Jesus, não se pode falar propriamente de oração «ainda que muito se mexam os lábios»[7].
A oração vocal possui um papel decisivo na pedagogia da prece, sobretudo no início do relacionamento com Deus. De fato, mediante a aprendizagem do sinal da Cruz e de orações vocais o menino, e com frequência também o adulto, se introduz na vivência concreta da fé e, portanto, da vida de oração. Não obstante, o papel e a importância da oração vocal não está limitada aos começos do diálogo com Deus, mas está chamada a acompanhar a vida espiritual durante todo seu desenvolvimento.
A meditação
Meditar significa aplicar o pensamento à consideração de uma realidade ou de uma ideia com o desejo de conhecê-la e compreendê-la com maior profundidade e perfeição. Para um cristão, a meditação – à que com frequência se designa também oração mental – implica orientar o pensamento para Deus tal e como se revelou ao longo da história de Israel e definitiva e plenamente em Cristo. E, desde Deus, dirigir o olhar à própria existência para valorizá-la e acomodar ao mistério de vida, comunhão e amor que Deus deu a conhecer.
A meditação pode desenvolver-se de forma espontânea, por motivo dos momentos de silêncio que acompanham ou seguem às celebrações litúrgicas ou a raiz da leitura de algum texto bíblico ou de uma passagem de algum autor espiritual. Em outros momentos pode concretizar-se mediante a dedicação de tempos especificamente destinados a isso. Em todo caso, é óbvio que – especialmente nos princípios, mas não só então – implica esforço, desejo de aprofundar no conhecimento de Deus e de sua vontade, e no empenho pessoal efetivo com vistas à melhora da vida cristã. Nesse sentido, pode afirmar-se que «a meditação é, sobretudo, uma busca» (Catecismo, 2705); contudo convém acrescentar que se trata não da busca de algo, mas deAlguém. Ao que tende a meditação cristã não é só, nem primariamente, a compreender algo (em última instância, a entender o modo de proceder e de se manifestar de Deus), mas se encontrar com Ele e, o encontrando, identificar com sua vontade e se unir a Ele.
A oração contemplativa
O desenvolvimento da experiência cristã, e, nela e com ela, o da oração, conduzem a uma comunicação entre o crente e Deus, a cada vez mais continuada, mais pessoal e mais íntima. Nesse horizonte situa-se a oração à que o Catecismo qualifica de contemplativa, que é fruto de um crescimento na vivência teologal do que flui um vivo sentido da cercania amorosa de Deus; em consequência, o relacionamento com Ele se faz a cada vez mais direto, familiar e confiado, e inclusive, para além das palavras e do pensamento reflexo, se chega a viver de fato em íntima comunhão com Ele.
«Que é esta oração?», interroga-se o Catecismo ao começo da parte dedicada à oração contemplativa, para responder em seguida afirmando, com palavras tomadas de Santa Teresa de Jesus, que não é outra coisa «senão tratar de amizade, estando muitas vezes tratando a sós, com Quem sabemos que nos ama»[8]. A expressão oração contemplativa, tal e como a empregam o Catecismo e outros muitos escritos anteriores e posteriores, remete, pois ao que cabe qualificar como o ápice da contemplação; isto é, o momento no qual, por ação da graça, o espírito é conduzido até a ombreira do divino transcendendo toda outra realidade. Mas também, e mais amplamente, a um crescimento vivo e sentido da presença de Deus e do desejo de uma profunda comunhão com Ele. E isso seja nos tempos dedicados especialmente à oração, seja no conjunto do existir. A oração está, em suma, chamada a envolver à inteira pessoa humana – inteligência, vontade e sentimentos –, chegando ao centro do coração para mudar suas disposições, a informar toda a vida do cristão, fazendo dele outro Cristo (cfr. Ga 2,20).
4. Condições e características da oração
A oração, como todo ato plenamente pessoal, requer atenção e intenção, consciência da presença de Deus e diálogo efetivo e sincero com Ele. Condição para que tudo isso seja possível é o recolhimento. O vocábulo recolhimento significa a ação pela qual a vontade, em virtude da capacidade de domínio sobre o conjunto das forças que integram a natureza humana, tenta moderar a tendência à dispersão, promovendo dessa forma o sossego e a serenidade interiores. Esta atitude é essencial nos momentos dedicados especialmente à oração, cortando com outras tarefas e tentando evitar as distrações. Mas não tem de ficar limitada a esses tempos: mas que deve se estender, até chegar ao recolhimento habitual, que se identifica com uma fé e um amor que, enchendo o coração, levam a tentar viver a totalidade das ações em referência a Deus, já seja expressa ou implicitamente.
Outra das condições da oração é a confiança. Sem uma confiança plena em Deus e em seu amor, não terá oração, ao menos oração sincera e capaz de superar as provas e dificuldades. Não se trata só da confiança em que uma determinada petição seja atendida, senão da segurança que se tem em quem sabemos que nos ama e nos compreende, e ante quem se pode, portanto, abrir sem reservas o próprio coração (cfr. Catecismo, 2734-2741).
Em ocasiões, a oração é diálogo que brota facilmente, inclusive acompanhado de gozo e consolo, desde o fundo da alma; mas em outros momentos – talvez com mais frequência – pode reclamar decisão e empenho. Pode então insinuar-se o desalento que leva a pensar que o tempo dedicado ao trato com Deus carece sentido (cfr. Catecismo, n. 2728). Nestes momentos, põe-se de manifesto a importância de outra das qualidades da oração: a perseverança. A razão de ser da oração não é a obtenção de benefícios, nem a busca de satisfações, complacências ou consolos, mas a comunhão com Deus; daí a necessidade e o valor da perseverança na oração, que é sempre, com fôlego e gozo ou sem eles, um encontro vivo com Deus (cfr. Catecismo, 2742-2745, 2746-2751).
Um traço específico, e fundamental, da oração cristã é seu caráter trinitário. Fruto da ação do Espírito Santo que, infundindo e estimulando a fé, a esperança e o amor, leva a crescer na presença de Deus, até se saber ao mesmo tempo na terra, na que se vive e trabalha, e no céu, presente pela graça no próprio coração[9]. O cristão que vive de fé, se vê convidado a tratar aos anjos e aos Santos, a Santa Maria e, de modo especial, a Cristo, Filho de Deus encarnado, em cuja humanidade percebe a divindade de sua pessoa. E, seguindo esse caminho, a reconhecer a realidade de Deus Pai e de seu infinito amor, e a entrar a cada vez com mais profundidade em um trato confiado com Ele.
A oração cristã é por isso e de modo eminente uma oração filial. A oração de um filho que, em todo momento – na alegria e na dor, no trabalho e no descanso – se dirige com singeleza e sinceridade a seu Pai para colocar em suas mãos os afazeres e sentimentos que experimenta no próprio coração, com a segurança de encontrar nele entendimento e acolhida. Mais ainda, um amor no que tudo encontra sentido.
José Luis Illanes
Bibliografía básica
Catecismo da Igreja Católica, 2558-2758.
Leituras recomendadas
São Josemaria, Homilias O triunfo de Cristo na humildade; A Eucaristia, mistério de fé e amor; A Ascensão do Senhor aos céus; O Grande Desconhecido e Por Maria, para Jesus, em É Cristo que passa, 12-21, 83-94, 117-126, 127-138 e 139-149; Homilias O trato com DeusVida de oração e Rumo à santidade, emAmigos de Deus, 142-153, 238-257, 294-316.
J. Echevarría, Itinerarios de vida espiritual, Planeta, Barcelona 2001, pp. 99-114.
J.L. Illanes, Tratado de teología espiritual, Eunsa, Pamplona 2007, pp. 427-483.
M. Belda, Guiados pelo Espírito de DeusCurso de Teología Espiritual, Palavra, Madri 2006, pp. 301-338.
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[1] A Igreja professa sua Fé no Símbolo dos Apóstolos (Primeira parte destes guias). Celebra o Mistério, isto é, a realidade de Deus e de seu amor à que nos abre a fé, na Liturgia sacramental (Segunda parte). Como fruto dessa celebração do Mistério os fiéis recebem uma vida nova que lhes leva a viver de acordo com a condição de filhos de Deus (Terceira parte). Essa comunicação ao homem da vida divina reclama ser recebida e vivida em atitude de relação pessoal com Deus: esta relação expressa-se, desenvolve e potência na oração (Quarta parte).
[2] São João Damasceno, De fide orthodoxa, III, 24; PG 94,1090.
[3] São João Clímaco, Scala paradisi, grau28; PG 88, 1129.
[4] São Josemaria, Caminho, 268.
[5] Remetemos a dois das mais claras e conhecidas: os “Louvores ao Deus Altíssimo" e o “Cântico do irmão sol" de São Francisco de Assis.
[6] São Josemaria, Caminho, 91.
[7] Santa Teresa de Jesus, Primeiras Moradas, c. 1, 7, em Obras completas, ed. de Efrén da Mãe de Deus e Ou. Steggink, Madri 1967, p. 366.
[8] Santa Teresa de Jesus, Livro da vida, c. 8, n. 5, em Obras completas, p. 50; cfr. Catecismo, 2709.
[9] Cfr. São Josemaria, Questões Atuais do Cristianismo, 116.

http://opusdei.org.br/pt-br/article/tema-39-a-oracao/

Modo de Fazer Oração Mental, por Santo Afonso

  A meditação ou oração mental contém três partes: A Preparação A Meditação A Conclusão I. PREPARAÇÃO Na preparação fazem-se três atos: 1º A...