Vimos anteriormente as distrações que atrapalham a nossa prática da oração e o desenvolvimento espiritual. Conhecendo agora as origens destas, poderemos passar a apontar conselhos adequados e eficazes.
É importante, antes de mais nada, apresentarmos os conselhos com a consciência de que não é possível, somente por nossas forças, suprimir todas as distrações. A eliminação total das distrações só ocorre por intervenção divina numa vida espiritual avançada, porém podemos fazer muito amparado pela graça do Espírito Santo.
Iniciemos pelas causas que dependem de nossa vontade. Devemos destruí-las com todas as nossas energias e forças, conforme ensina o Pe. Royo Marin:
"Quanto as causas dependem de nossa vontade, as combaterá com energia até destruí-las por completo. Não omitiremos jamais a preparação próxima, recordando sempre que o contrário seria tentar a Deus, como diz a Sagrada Escritura. E cuidemos, ademais, de uma séria preparação remota, que abarca principalmente os pontos seguintes: silêncio, fuga da curiosidade vã, guarda dos sentidos, da imaginação e do coração, e nos acostumarmos a ter o foco no que se está fazendo, sem deixar divagar voluntariamente a imaginação até outra parte."
Pe. Antonio Royo Marin, Teologia de La Perfección Cristiana
Portanto aqui vemos que a preparação próxima e remota são completamente fundamentais.
Para fazer uma boa preparação próxima devemos iniciar por determinar o momento do dia e a quantidade de tempo que dedicaremos a oração, sendo muito recomendado não deixar perto do horário de dormir ou que você sinta sono, pois neste caso o cansaço será uma porta aberta para se omitir a oração naquele dia.
Um dos horários mais recomendados é logo quando se acorda, pois estamos descansados e com a mente limpa de qualquer pensamento.
O lugar da oração deve ser silencioso, sendo ideal uma Igreja, oratório, ou um outro espaço que não contenha coisas que chamem a atenção.
A postura deve ser orante, silenciosa e humilde. Bater palmas, fazer gestos eufóricos, rezar deitado ou andando irão contribuir para dificultar a introspecção necessária.
No caso de estar em uma atividade que exija demais do corpo ou da mente, é importante procurar reduzi-la aos poucos, conforme o horário dedicado a oração se aproxima, ou ainda, buscar um horário que não seja afetado pelos efeitos destas ocupações. É sempre importante reservar um tempo, quando necessário, para se recolher e silenciar antes de iniciar a oração.
Para a preparação remota, devemos, durante o dia, evitar falar muito, ouvir muita música (especialmente as músicas de ritmo forte) ou ainda evitar deixar a alma livre para pensar mal dos outros, suspeitar demais das coisas, ficar reclamando, buscar conhecimentos desnecessários, leituras fúteis, excesso de leitura de notícias, etc. Tudo isso é como lixo que vai se acumulando na alma durante o dia e depois torna difícil a concentração, pois atrai a atenção da alma.
Quanto as causas involuntárias, este sábio sacerdote continua:
"Pode diminuir-se o influxo pernicioso das causas independentes da vontade com várias indústrias: lendo, fixando a vista no sacrário ou em uma imagem expressiva, eligindo matérias mais concretas, entregando-se a uma oração mais afetiva, com frequentes colóquios (inclusive vocais, se preciso), etc"
Pe. Antonio Royo Marin, Teologia de La Perfección Cristiana
Não temos condições de colocar aqui remédios práticos para todas as mínimas situações, pois elas tendem a uma quantidade inimaginável e de espécies totalmente diversas, embora o Pe. Royo Marin tenha colocado de forma magnífica alguns conselhos mais gerais.
Chamo a atenção para as causas involuntárias que provêm dos demônios: neste caso podemos e devemos utilizar a água benta.
No caso de doenças, não devemos nos angustiar, mas unir o sofrimento da doença à Cristo e já estaremos fazendo uma prática muito frutuosa.
O temperamento deve ser dominado com a prática das virtudes cristãs, enquanto que um diretor espiritual que está atrapalhando pode ser trocado por um outro mais experiente, que compreenda melhor a vida de oração.
Por fim, resta-nos saber como reagir durante a oração quando a distração se apresenta. Deixemos o grande dominicano explicar com suas palavras precisas, as quais, nada tenho a acrescentar:
"Quando, apesar de tudo, nos sintamos distraídos com frequência, não nos impacientemos. Voltemos a trazer suavemente nosso espírito ao recolhimento, mesmo que seja milhares de vezes, se for preciso; humilhemo-nos na presença de Deus, peçamos sua ajuda e não examinemos de imediato as causas que motivaram a distração. Deixemos este exame para o fim da oração, com a finalidade de prevenirmos melhor no futuro. E tenha-se bem presente que toda distração combatida (mesmo que não seja completamente vencida) em nada compromete o fruto da oração nem diminui o mérito da alma."
Pe. Antonio Royo Marin, Teologia de La Perfección Cristiana
Que possamos pedir que o Espírito de Fortaleza venha em nosso socorro para nos impulsionar a combater contra estes obstáculos e consumir nosso coração com seu Fogo Divino.
Uma das coisas mais comuns que acontece durante nossos momentos de oração são as distrações, que podem apenas atrapalhar a concentração ou podem chegar a tornar impossível unir-se a Cristo pela oração. É preciso, para combatê-las, entender sua origem e que também combatê-las contribui grandiosamente para nossa santificação.
As distrações podem ter duas origens: voluntárias ou involuntárias. As voluntárias acontecem totalmente por culpa e desleixo nosso, enquanto que as involuntárias nos advém mesmo contra nossa vontade.
As voluntárias são basicamente duas:
1) Falta da devida preparação próxima; quanto ao tempo, lugar, postura, passagem excessivamente brusca a oração depois de uma ocupação absorvente...
2) Falta de preparação remota; pouco recolhimento, dissipação habitual, vida tíbia, curiosidade vã, ânsia de ler tudo...
Pe. Antonio Royo Marin, Teologia de La Perfección Cristiana
Basicamente a preparação próxima se relaciona diretamente com a prática da oração, onde escolhemos um lugar, ficamos numa postura, escolhemos o momento preciso que dedicaremos à mesma, etc. Evidentemente que se tentarmos fazer a oração deitado na cama, escolhermos um local barulhento ou o momento do dia em que estivermos mais cansados não iremos conseguir realizar a oração de forma plena ou adequada e jamais iremos progredir nos graus de oração.
Também é necessário notar que ao sair de ocupações absorventes (a prática de um esporte que demande muito esforço, um trabalho intelectual excessivo, etc) demandam que tenhamos calma e façamos uma preparação e um momento de recolhimento antes de iniciar a oração.
A preparação remota diz respeito ao que fazemos durante o dia normalmente. Se lermos coisas demais, ficarmos atrás de informações sobre a vida dos outros, conversarmos demais (isso inclui mensagens de textos), etc, nunca nos concentrarmos por muito tempo em nada. Deste modo iremos inevitavelmente ter uma grande dificuldade de controlar nossa imaginação na hora da oração. Inúmeros são os jovens que não conseguem se concentrar no momento da oração porque passam tempo demais conversando via mensagens, Facebook, telefone ou outros meios.
Já as causas involuntárias podem são classificadas em quatro origens distintas.
1) A índole e o temperamento: Imaginação viva e instável; tendência a focar nas coisas exteriores; incapacidade de fixar a atenção ou de prorromper em afetos. Paixões vivas, mal dominadas, que atraem continuamente a atenção até os objetos amados, temidos e odiados...
2) A pouca saúde e a fatiga mental, que impede fixar a atenção ou abstrair das coisas e circunstância exteriores.
3) A direção pouco acertada do diretor espiritual, que quer impôr artificialmente suas próprias ideias a alma, sem tem em conta o influxo da graça, a índole, o estado e as necessidades da mesma, empenhando-se em fazer continuar a meditação discursiva quando Deus a move a uma oração mais simples e mais profunda ou apartando-a rapidamente do discurso quando ela necessita...
4) O demônio, as vezes diretamente, outras muitas, indiretamente, utilizando outras causas e aumentando sua eficácia perturbadora.
Pe. Antonio Royo Marin, Teologia de La Perfección Cristiana
Como poder ser visto, as causas involuntárias ocorrem por muitos fatores externos que estão, muitas vezes, além de nossas forças, não sendo possível combatê-los todos, embora se possa aliviá-los. Para tanto precisamos conhecer e estarmos atentos a existência destes, buscando evitar as situações que venham provocá-los.
Exporemos alguns exemplos mais claros e alguns meios com que poderíamos aliviá-los, não se tratando propriamente de remédios, pois são conselhos que dependem totalmente das circunstâncias, deixando os remédios mais gerais à um outro artigo.
Um temperamento explosivo faz a pessoa se irar facilmente e a irritação é completamente incompatível com a oração e a concentração.
Podemos acabar tendo dificuldades por excesso de atividades pessoais, como muitas obras de apostolado, um trabalho "manhã, tarde e noite", visitas excessivas e desnecessárias às pessoas (principalmente parentes), etc.
Quanto a doença não há muito o que se pode fazer a não ser buscar o tratamento de forma disciplinada e evitar as suas causas. O cansaço nem sempre pode ser evitado, mas uma disciplina no horário de dormir e levantar pode ajudar muito.
A direção espiritual mal feita pode ser um grande problema. Podemos encontrar dificuldades por sermos ensinados a nos prendermos excessivamente ao discurso racional, a afetividade ou a buscarmos o cumprimento do dever de ler determinada oração até o final.
A ação dos demônios é algo que pode ocorrer de diversos meios, seja com a apresentação de ocupações aparentemente mais importantes, a incitação violenta ou mais branda de nossas paixões, as dúvidas sobre a fé no momento da oração, etc.
Com isso vemos que existem muitas coisas que precisam e devem ser remediadas na nossa vida e prática de oração para que possamos adentrar cada vez mais no grandiosos "castelo" que é a nossa alma para encontrar a Santíssima Trindade que ali habita.
Vinde, Ò Paráclito, para impulsionar nossa oração com o sopro dos teus dons e nos fazer aprofundar-nos na verdadeira união com Cristo, nosso Salvador e Senhor.
Nos teus invernos há sementes que germinam, sabias?: Meditação sobre o Evangelho de Domingo
Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia e começou a proclamar o Evangelho de Deus, dizendo: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».
Caminhando junto ao mar da Galileia, viu Simão e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores. Disse-lhes Jesus: «Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens». Eles deixaram logo as redes e seguiram Jesus. Um pouco mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam no barco a consertar as redes; e chamou-os. Eles deixaram logo seu pai Zebedeu no barco com os assalariados e seguiram Jesus. (Marcos 1, 14-20, Evangelho do 3.º Domingo do Tempo Comum)
Marcos conduz-nos ao momento primordial em que uma notícia extraordinária começa a correr pela Galileia, anunciando com a primeira palavra: o tempo cumpriu-se, o Reino de Deus está aqui.
Jesus não demonstra o Reino, mostra-o e fá-lo florir das suas mãos: liberta, cura, perdoa, derruba barreiras, volta a dar a plenitude a todos, a começar pelos últimos. O Reino é Deus que vem para curar do mal de viver, como a vida que desponta em todas as suas formas.
A segunda palavra de Jesus pede para tomar posição: convertei-vos, voltai-vos para o Reino. Há uma ideia de movimento na conversão, como no girassol que a cada manhã volta a erguer a sua corola e a orienta na direção do sol. Convertei-vos: isto é, voltai-vos para a luz porque a luz já está aqui.
A cada manhã, a cada despertar, também eu posso converter-me, dirigir pensamentos, sentimentos e escolhas para uma estrela polar do viver, para a boa notícia de que Deus está hoje mais próximo, penetrou mais profundamente no coração do mundo e no meu, com mansidão e poderosa energia para o amanhecer de novos céus e nova terra.
Também eu posso construir o meu dia sobre esta feliz certeza; deixar de ter os olhos baixos sobre os meus mil problemas, mas levantar a cabeça para a luz, para o Senhor que me assegura: Eu estou contigo, nunca te deixo, nunca serás abandonado.
Crer no Evangelho. Não basta aderir a uma doutrina; é preciso atirar-se para dentro dele, para que a nossa vida seja submersa nele e dele derivem as nossas escolhas.
Caminhando ao longo do lago, Jesus vê... Vê Simão e nele intui Pedro, a Rocha. Vê João e nele perscruta o discípulo das mais belas palavras de amor. Um dia olhará a adúltera trazida à força para diante dele e nela verá a mulher capaz de amar de novo.
O Mestre olha também para mim; nos meus invernos vê sementes que germinam, generosidade que desconhecia ter, capacidades de que não suspeitava. O olhar de Jesus alarga o coração, torna-o mais amplo. Deus tem para mim a confiança de quem contempla as estrelas ainda antes que se iluminem.
Segue-me, vem após mim. Jesus não se alonga em motivações, porque o motivo é Ele, que te coloca o Reino recém-nascido entre as mãos. E di-lo com uma palavra inédita: farei de vós pescadores de homens. Como se dissesse: farei de vós buscadores de tesouros.
Como se dissesse: o meu e o vosso tesouro são os homens. Havereis de os tirar para fora da escuridão, como peixes sob a superfície das águas, como recém-nascidos das águas maternas, como tesouro desenterrado do campo. Passá-los-eis da vida submersa à vida ao sol. Mostrareis que o Evangelho é a chave para viver melhor.
"Não há esperança para alguém que luta por obter uma virtude abstrata – uma qualidade de que não possui nenhuma experiência. Nunca poderá, eficazmente, preferir a virtude ao vício oposto, seja qual for o grau com que, aparentemente, despreza esse vício.
Todos possuem um desejo espontâneo de fazer coisas boas e de evitar as más. No entanto, esse desejo é estéril enquanto não temos a experiências do que significa ser bom.
O prazer de um ato bom é algo a ser relembrado, não para alimentar nossa vaidade, mas para nos recordar que as ações virtuosas são não somente possíveis e valiosas, mas pode tornar-se mais fáceis, mais cheias de encanto e mais frutuosas do que os atos viciosos que a elas se opõem, frustrando-as.
Uma falsa humildade não nos deve roubar o prazer da conquista, que nos é devido, e mesmo necessário à nossa vida espiritual, sobretudo no início.
É verdade que, mais tarde, podemos conservar ainda defeitos que não conseguimos dominar – de maneira a termos a humildade de lutar contra um adversário aparentemente invencível, sem sentirmos prazer algum pela vitória.
Pois pode nos ser pedido renunciar até mesmo ao prazer que sentimos ao fazer coisas boas, de maneira a termos a certeza de que as realizamos por algo mais do que esse mesmo prazer. Mas antes de podermos renunciar a esse prazer, temos de aceitá-lo. No início, o prazer vindo da conquista de si mesmo é necessário. Não tenhamos medo de desejá-lo."
Ao que parece, durante anos, o compositor John Cage sondou a possibilidade de elaborar uma obra completamente silenciosa, mas impedia-o duas coisas: a dúvida se uma tarefa assim não estaria, desde logo, votada ao fracasso, porque tudo é som; e a convicção de que uma composição tal seria incompreensível no espaço mental da cultura do Ocidente. Contudo, encorajado pelas experiências que se realizavam já nas artes visuais, construiu a sua peça intitulada 4’33’’.
A proposta de Cage era completamente insólita: os músicos deviam subir ao palco, saudar o público, sentar-se ao instrumento e permanecer, em silêncio, por quatro minutos e trinta e três segundos, até que, de novo, se levantassem, agradecessem à plateia e saíssem. Na assistência instalou-se a polémica e choveram as vaias. Mas ao longo de toda a sua vida, John Cage referiu-se a essa peça com sentida reverência: «A minha peça mais importante é essa silenciosa; não passa um só dia que não me sirva dela para a minha vida e para tudo o que faço. Recordo-a sempre que tenho de escrever uma nova peça».
Quando penso no contributo que a experiência poética ou religiosa possa dar num futuro próximo à humanidade, penso francamente que mais até do que a palavra será a partilha desse património imenso que é o silêncio. Na palavra fazemos a experiência da diferenciação, experiência certamente fundante, mas também ela parcial e insuficiente. Precisamos do auxílio de outra ciência, a que recorremos pouco: o silêncio. Isaac de Nínive, lá pelos finais do século VII, ensinava: “A palavra é o órgão do mundo presente. O silêncio é o mistério do mundo que está a chegar”. Creio que é absolutamente urgente revisitarmos com outro apreço os territórios dos nossos silêncios e fazermos deles lugares de troca, de diálogos, de encontros. O silêncio é um instrumento de construção, é uma lente, uma alavanca.
As nossas sociedades investem tanto na construção de competências na ordem da palavra (e pensemos como a escolarização está ao serviço da capacitação dos indivíduos em ordem a um funcionamento eficaz com a palavra) e tão pouco nas competências que operam com o silêncio. Somos analfabetos do silêncio e esse é um dos motivos porque não sabemos viver na paz.
O silêncio é um traço de união mais frequente do que se imagina, e mais fecundo do que se julga. O silêncio tem tudo para se tornar um saber partilhado sobre o essencial, sobre o que nos une, sobre o que pode alicerçar, para cada um enquanto indivíduo e para todos enquanto comunidade, os modos possíveis de nos reinventarmos. Mas para isso precisamos de uma iniciação ao silêncio, que é o mesmo que dizer uma iniciação à arte de escutar.
Na sociedade da comunicação há um défice de escuta. Numa cultura de avalanche como a nossa, a verdadeira escuta só pode configurar-se como uma re-significação do silêncio, um recuo crítico perante o frenesim das palavras e das mensagens que a todo o minuto pretendem aprisionar-nos. A arte da escuta é, por isso, um exercício de resistência. Ela estabelece uma descontinuidade em relação ao real aparente, à sucessão ociosa do discurso, à enxurrada que a telenovelização do quotidiano (seja ele político, económico ou cultural) comporta. A escuta constitui uma cesura, um corte simbólico, uma deslocação.
Pense-se em como o silêncio mostra o patrimônio de uma amizade. E a pergunta é: como percebemos que dois desconhecidos são amigos? Pela forma como conversam? Certamente. Pelo modo como se riem? Claro que sim. Mas ainda mais porque nitidamente acolhem o silêncio um do outro. Entre conhecidos o silêncio é um embaraço, sentimos imediatamente a necessidade de fazer conversa, de ocupar o espaço em branco da comunicação. Com os amigos o silêncio nada tem de embaraçoso. O silêncio é um vínculo que une.
Antes de tudo, Jesus, o Doutor e Senhor da unidade, , Jesus, o Doutor e Senhor da unidade, não quis que a oração fosse individual e privada, de modo que ao rezar cada um pedisse por si. Com efeito não dizemos:" Pai meu que estás no céus", nem "o pão meu". Cada um não pede que as sua dívidas lhe sejam descontadas, e não é só por si próprio que pede para não cair em tentação e ser livrado do maligno. Para nós, a oração é pública e comunitária; e quando rezamos, não intercedemos por um só, mas por todo o povo; porque nós, todo o povo, somos um.
O Deus da paz e o Senhor da concórdia, que ensinou a unidade, quis que um só rezasse por todos, tal como Ele próprio rezou com todos os homens. Os três jovens hebreus presos na fornalha ardente observaram esta lei da oração [cf. Dan 3,15]; e, depois da Ascensão do Senhor, os apóstolos e os discípulos rezavam deste modo: "perseveravam unidos na oração, com as mulheres, com Maria, Mãe de Jesus, e com seus irmãos" [cf. At 1,14]. Num só coração, perseveravam na oração; pelo seu fervor e amor mútuo, testemunhavam que Deus, faz com que os homens unânimes habitem numa mesma casa [cf. Sl 67,7], só admite na sua morada eterna aqueles cuja oração traduz a união das almas.
O silêncio é a base, a porta, a preciosa morada da alma que quer uma vida de amor. O silêncio é o eixo precioso no qual se apóia a união com Deus. A mortificação constante, a renúncia, leva a alma ao silêncio; o silêncio leva a alma à oração, onde finalmente Deus e a alma se unem em perfeito relacionamento de perfeita caridade.
O silêncio é amor vigilante. Não é um exercício para determinadas horas apenas, ou para alguns momentos e circunstâncias do dia ou da vida. É exercício de toda a vida, silêncio perpétuo exterior e interior, de tudo o que não é caridade para si e para os outros.
Depois de santos momentos de união com Nosso Senhor, no exercício das virtudes ou, especialmente, na oração, perdemos tudo pela dissipação e, sobretudo, pela loquacidade, e até damos um passo para trás. E assim não se progride nunca, não se chega àquela bendita união divina que nosso Jesus quer de nós.
Deixemos, pois, de falar por curiosidade, leviandade, ou outros egoísmos do amor próprio. O silêncio é fecundo para a vida da alma. A conversa, ao contrário, se não for motivada pela perfeita caridade, é árida, de uma aridez muito prejudicial à alma. Nisso, nosso especial modelo é nossa divina Mãe. Pensemos como deviam ser suas palavras, com que graça divina as terá pronunciado, e como terá vivido, sempre unida ao seu Eterno Sol.
(Tradução e complementos, Irmã Gema - Autor : Vittorio Messori)
" Os eremitas de hoje vivem na cidade
Seu número cresce a cada dia. Passam sua vida em oração, não temem a pobreza e rejeitam qualquer hierarquia. Sua força está em contrariar o espírito atual. A Igreja decidiu reintegrar os eremitas no Direito Canônico (sejam urbanos ou rurais). Esses eremitas não querem ser notícia, buscam o silêncio e a discrição. Sua porta ficará sempre fechada para quem se aproxime dele como jornalista ou simplesmente um curioso. Tenho o privilégio de conhecer alguns pessoalmente, porém não teria acesso algum a seus esconderijos se violasse a promessa de não dar nomes nem endereços. De toda forma se alguém quer buscar seu rastro que não busque em lugares íngremes: é muito mais provável que os encontre nos quartinhos, ou quitinetes dos centros metropolitanos. Esses eremitas estão retornando pela porta grande e seu número cresce a cada ano, ainda que poucos o sabem, como é óbvio, dado seu empenho em passar despercebidos.
A Igreja porém sim, sabe de sua existência. E decidiu voltar a dar um lugar dentro de sua estrutura. Pois o Código de Direito Canônico de 1917 os havia ignorado, não por hostilidade, senão porque parecia que formavam parte de página do Cristianismo, longa e gloriosa, porém definitivamente encerrada.
Uma página que se iniciou quando no Oriente milhões de crentes fugiram no deserto ou nas montanhas: grutas e ou cabanas se encheram de solitários que lutavam tanto contra leões e serpentes como contra os demônios tentadores. A fama de seus jejuns, das penitências, do silêncio ininterrupto provocava a afluência de discípulos, e com freqüência o solitário se via obrigado a acolhe-los, criando – as vezes contra a sua vontade- uma comunidade a dar uma regra. Também foi este o destino de quem no Ocidente ia a ser a origem da forma de monacato que marcaria os séculos seguintes beneficamente. São Bento de Núrsia começou como eremita, porém sua mesma fama de santidade lhe tirou da gruta e lhe forçou a transformar-se em mestre e legislador de cenóbios.
A Idade Média se encheu de eremitas, muitos dos quais encontravam seu sustento guardando cemitérios, pontes ou santuários. O declínio começou com o Concílio de Trento, que desconfiou dos anacoretas porque eram incontroláveis, e concluiu no Século das Luzes e da Revolução Francesa que perseguiu estes “parasitas anti- sociais” aos que também consideravam “fanáticos obscurantistas”. No século XIX o eremita ficará condenado a ser quase um personagem de novela romântica, ao estilo do Conde de Monte Cristo. Dentro da Igreja, a vocação a solidão havia ficado canalizada desde há muito tempo através de Ordens religiosas como as dos Cartuxos ou dos Camaldulenses, e nas que o isolamento é unido com a comunhão com os irmãos, na oração e nos atos comunitários.
Se dizia que o silêncio do Código eclesiástico de 1917 era significativo : já não ficam anacoretas, fora de suas regras. E em troca, esta vocação, -rara, porém insuprimível- desde logo não havia desaparecido, senão que se incubava debaixo das cinzas, de modo que o novo Código publicado em 1983 há tido que levantar uma ata, O segundo parágrafo do cânon 603, a Igreja reconhece oficialmente aos eremitas como “consagrados” se “mediante voto ou outro vínculo sagrado, professam publicamente os três conselhos evangélicos (pobreza, castidade, obediência) nas mãos do Bispo diocesano”, e se o mesmo Ordinário do lugar os aprova uma regra que eles mesmos escreveram. Uma regra equilibrada, com requisitos mínimos, porém tal como é obrigado para uma eleição de vida inspirada pela obediência a Igreja e a leitura mais rigorosa do Evangelho a vez que pela liberdade e a autonomia dos filhos de Deus que seguem uma vocação particular e de todo pessoal.
As estatísticas são difíceis, por não dizer impossíveis: ainda que se lhes conheçam, muito raramente os eremitas respondem a pesquisas ou questionários. Agora surgiu uma investigação dos jesuítas americanos que há tido um certo tipo de êxito, de uma resultado de cerca de 600 eremitas em todo mundo que conseguiu cerca de 140 respostas. Uma miséria para qualquer outra categoria de eremitas, que se nos atentarmos para os valores fiáveis, contaria em todo o mundo com vinte mil pessoas. Na Itália de mil a mil e duzentos, divididos quase igual entre homens e mulheres. A imensa maioria é católica, ainda que não faltem outras confissões cristãs e outras confissões. Como alguém assinalou, o anacoreta é o mais “ecumênico” dos crentes -vivendo todos os dias- os valores que unem todas as confissões: oração, penitência, sacrifício, isolamento, contemplação.
Parece que entre os novos eremitas italianos também se cumpre o que revela a investigação americana, segundo a qual, apenas 2 % escolheu viver em grutas ou lugares desse estilo como galerias subterrâneas. Nem a maioria se encontra no campo ou nas montanhas. Na realidade, o maior número dos eremitas atuais são urbanos !
A cidade grande é o verdadeiro lugar da solidão e do anonimato, do combate silencioso contra os novos demônios. A maioria tem entre cinqüenta e sessenta anos, e são raríssimos os que estão com menos de trinta.
Não há mais que recordar o velho provérbio: “Para um jovem eremita, um diabo velho”. Todos os mestres da vida espiritual hão ensinado sempre que uma vocação assim distingue a uma elite de homem e de mulheres particularmente experimentados. De fato, no eremitério não se tem o apoio de uma comunidade fraterna; a solidão e o silêncio constantes são uma alegria apenas para quem realmente há sido chamado;< alguns> nem sequer contam com algum hábito ou distintivo.
Não somente: a obrigada pobreza se converte muitas vezes em miséria, sobretudo para quem encontrou na cidade o seu “deserto”, dado que o anacoreta buscará fugir de toda “dissipação”, e por tanto, dos trabalhos em fábricas ou oficinas, viverá das pequenas coisas que possa fazer dentro de suas modestíssimas quatro paredes. Isto quase nunca assegura os ingressos suficientes para uma que uma vida não se deslize da pobreza para a indigência. Esta é uma das razões pela que muitos esperam ter uma idade suficiente para uma pequena aposentadoria ainda que mínima, que lhes permita cultivar em paz sua própria vocação.
Em geral tem mas sorte para o sustento diário aqueles que tem sua casa no campo. Todas as experiências dão fé de que no princípio, é difícil pela desconfiança dos moradores que se perguntam quem será esse (a) “forasteiro (a)” estranho que, no geral, tem um ar distinto ( a maioria tem faculdade), que <quase> não recebe visitas, que não tem telefone, nem televisão, que dorme com as galinhas e acorda com a aurora, e que só fala com os demais – pároco inclusive- as mínimas palavras indispensáveis. De tal modo é isso que a primeira visita, em geral é da polícia local, alertado das observações dos vizinhos ! Depois, pouco a pouco, se aceita o (a) “forasteiro (a)” como um membro da comunidade, alguém singular.
Ainda que a maioria dos eremitas sejam leigos, também são numerosos aqueles sacerdotes, freis ou monjas que chegam a vida eremítica depois de muitos anos em comunidades tradicionais. São os mais afortunados, pois uma vez que lhes é concedido dar o passo a esta nova forma de vida, podem ter a ajuda da família religiosa da qual provêm.
Porém, Porque uma escolha assim? Primeiro temos que dizer que se trata de uma vocação, um chamado, que floresceu novamente por reação a uma embriagues “comunitária”, “social”-e porque não dizer mundana- que arruinou muitos ambientes religiosos.O excesso da insistência com o compromisso com o mundo, o transbordamento das palavras, faladas e escritas, levaram a muitos a redescobrir a força da oração e o gozo do silêncio.
O eremita dá sua vida por coisas “inúteis” segundo o mundo e, desgraçadamente também segundo certa “cultura da eficiência” cristã atual. A simples regra que ele mesmo escreve a si, e que quer submeter a aprovação do bispo, prevê, sobretudo, horas de oração, de leitura espiritual e de meditação. Prevê vigílias, jejuns, penitências, renúncias. No eremita há uma rejeição radical da lógica mundana, para a qual somente a ação, a política, o compromisso social, as inversões econômicas podem mudar o mundo para melhor. Ele por sua parte, respondeu a um chamado, que o fez compreender até o fim que somente quem entrega sua vida a salva, e que o modo mais eficaz de amar e de ajudar é de sepultar-se debaixo do anonimato, no silêncio, na impotência, crendo até o mais profundo no mistério da “comunhão dos
santos”.
Creio que isto é o que queria dizer a inscrição que vi na parede da cela de um anacoreta em um eremitério deteriorado no coração de Turín: “O que vai ao deserto, não é um desertor”. Nada de um desertor, senão um crente que, em vez do ativismo construído apenas na aparência, decidiu praticar a forma mais alta de caridade na perspectiva evangélica: a oração ininterrupta por todos, e na solidão e no silêncio mais radicais.”
Termina o texto do autor, os que quiserem ver o texto original, basta acessar pelo computador e ver na coluna de links.
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
* O Eremita Urbano segundo o autor, nada mais é do que um eremita diocesano que mora na cidade, a diferença é apenas ambiental.Nada impede todavia, que esse eremita seja autônomo.
* A cidade não é de forma alguma impedimento para a vida eremítica, embora, haja a condição adversa da falta de silêncio e... de inúmeros e imprevisíveis vizinhos cada qual de um jeito, de um tipo, de uma maneira de viver...
*O eremitismo não é uma vocação para crianças e amadores, requer sólida maturidade,uma boa caminhada, enfim uma vida experimentada e provada no serviço de Deus.
* Vantagens: Perto de tudo- hospital, médico, fisioterapia, banco, supermercado, farmácia, Igrejas ( que podem oferecer a missa diária, adoração perpétua, retiros, peregrinações) , opções seguras de lazer ( um parque para caminhar, etc). Uma outra boa vantagem ao diocesano é estar mais perto da Cúria e ser mais facilitada as audiências com o Bispo, caso for necessário. Apartamentos são muito seguros, é uma vantagem importante. Mais proveitoso para conseguir artigos para o trabalho, dependendo do que for o ofício e conhecer clientes. Fica mais independente de benfeitores.
* Desvantagens: pouco silêncio (ora o trânsito, ora são reformas, ora os vizinhos,ora os trabalhadores...). Em apartamentos pode se revelar mais entediante, não há jardim... e ainda há desafios com vizinhos de cima que podem gostar de televisão alta, som alto, gritar palavrões e outros maus costumes..., a solidão física (sem ver e sem ser visto) você terá mais dentro de casa. O uso do hábito, é mais desafiante, principalmente aos que moram em apartamentos e podem se deparar no elevador, com qualquer pessoa tomando qualquer atitude (já tive a experiência quando estava na cidade, que uma vizinha correu e bateu a porta do elevador para não subir comigo!!!), há muitos que não gostariam de vê-lo... Casas geminadas podem mostrar a mesma desvantagem...Considere que as pessoas querem conviver com quem tem afinidades, pelo menos externas...
Sugestões:
* Para quem escolhe apartamentos, tenha poucos móveis e faça um jardim de inverno dentro de casa. Fica um ambiente bonito para descansar a vista e ter um lugar a mais para uma breve meditação além do oratório.
*Use e abuse dos abafadores de som, de todos os tipos e tamanhos, ajuda muito naqueles momentos de caos e total poluição auditiva (eu não vivo sem eles, faz parte do meu hábito )...Pode ser adquirido facilmente no Mercado livre.
*Levante cedo, aquele silêncio das primeiras horas da manhã são os mais proveitosos, depois das 8:30 da manhã, já começa a agitação, e o silêncio da noite não é igual...